Comunicação à 1ª secção

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1 Comunicação à 1ª secção Denomina-se Ordem dos Advogados a associação pública representativa dos licenciados em Direito que, em conformidade com os preceitos deste Estatuto e demais disposições legais aplicáveis, exercem a profissionalmente a advocacia. A Ordem dos Advogados é independente dos órgãos do Estado, sendo livre e autónoma nas suas regras. São estes os primeiros dois números do Estatuto da Ordem dos Advogados (EOA). É desta forma que começa todo o acervo legal da Ordem dos Advogados (OA), assente em dois pilares essenciais: autonomia e independência. Porém, essa autonomia e independência não são só institucionais. São, também e por si só, dois caracteres essenciais do ADN do Advogado. É neste espírito livre que a este Congresso trazemos um tema que entendemos merecer a atenção de todos: o estágio. Em 1926, quando a OA foi instituída, por certo tinha interesses e preocupações garantidamente bem diferentes dos de hoje. Da mesma forma, o estágio seria encarado noutra perspectiva. Contudo, hoje, em pleno século XXI, temos a impressão de que o modelo de estágio pouco evoluiu. Os tempos mudaram. Assim, também a OA e o estágio o deveriam ter feito. O Advogado que hoje todos somos em muito se deve, seguramente, ao tipo de estágio que nos foi proporcionado. Contudo, talvez não tanto ao modelo de estágio mas sim ao facto de termos tido um bom patrono e bons colegas. O que, necessariamente, nos deve obrigar a

2 refletir. Por isso, uma primeira conclusão: o estágio, tal qual se encontra concebido, está desajustado da realidade. A sua total reforma será, em nossa perspectiva, um dos esteios da participação da OA na almejada reforma da Justiça. É impossível dissociar o estágio da formação académica. Mas, ao contrário do que seria de esperar, depois das mudanças ocorridas na formação universitária, em consequência do processo de Bolonha, o estágio manteve-se inalterado. Note-se que a tentativa gorada, do anterior Conselho Geral, de introduzir um exame de acesso ao estágio nada tinha que ver com o que se aqui se pretende expôr. Aliás, o exame vindo de referir era, a nosso ver, uma forma encapotada da própria OA sindicar a formação universitária. Ora, com o devido respeito, não obstante o senhor Bastonário persistir nessa vontade, à OA não compete avaliar as Universidades e escolher as melhores. Ora, porque a OA nem é o Ministério do Ensino Superior nem é o mercado, não deve, nesta dinâmica, emiscuir-se em algo que não lhe diz respeito. No velho brocardo português: a César o que é de César! Na mesma lógica, a OA não tem de ter como uma das suas principais funções no estágio, a formação em Direito. Não faz sentido que a OA pretenda dar formação ao licenciado em Direito (ou ao Mestre), depois de a Universidade lhe ter reconhecido todo um percurso académico, de lhe ter avaliado as aptidões e lhe ter atribuído um grau, especialmente quando a formação inicial ministrada ao estagiário mais não é do que uma repetição da que foi prestada na instituição de ensino que acabou de frequentar. Defendemos, por isso, que a OA não deve ministrar formação em Direito, mas garantir formação para o exercício da Advocacia é este um contributo que entendemos que a OA deve prestar na reforma da Justiça. Estamos conscientes que o vindo de referir propugna um corte radical com o presente. Mas é isso que se pretende! Não se concebe que o estágio, pelo menos na fase inicial, e ao longo de um longo período de seis meses, seja uma repetição da formação universitária. Nem

3 se diga que a formação fornecida é útil para muitos que frequentaram universidades de qualidade inferior e que aproveitam a formação inicial para aprender aquilo que não lhes foi ensinado anteriormente. Desde logo, porque a escolha por uma qualquer universidade foi dos próprios. Depois, por causa de alguns, não se pode penalizar todos os outros. E, finalmente, porque então estar-se-ia a usar a OA e o estágio para colmatar deficiências da formação universitária. Ora, não é seguramente para este propósito que a formação inicial serve. Por tudo isto, segunda conclusão: às Universidades a formação académica, à OA a formação para o exercício da profissão. Bem sabemos do custo humano e financeiro que representa a formação inicial ministrada pela OA. Não se trata aqui, com o devido respeito, de aderir ao discurso defendido pelo Senhor Bastonário que, alegadamente, se candidatou uma e outra vez para realizar a reforma da formação. Nada disso. Por isso expressamente nos demarcamos dessa posição, para que dúvidas não restem. A verdade é que, como defendíamos, a formação inicial actual tem elevados custos financeiros com os honorários pagos. E humanos, pois são dezenas os Colegas que se dedicam, com abnegação e sacrifício pessoal e profissional, à formação e que, claro, ficam depois indisponíveis para um contributo noutros domínios da OA. Ora, o eliminar da formação inicial permitiria libertar os Colegas e a OA para o que realmente interessa: zelar pelo cumprimento efectivo e rigoroso do EOA. O que, necessariamente, não implica abandonar os estagiários à sua sorte. Nada disso. Entendemos até que, em consequência do vindo de expor, se deve proceder ao reforço dos deveres dos Colegas que aceitam assumir a tão nobre função de Patrono. Será este quem deverá partilhar experiência(s). Afinal de contas, é esse o propósito do estágio! Terceira conclusão: O Patrono deve ser o centro da formação do estagiário. As alterações que preconizamos atingem também a estrutura do estágio: a inscrição, sendo um processo meramente administrativo, passaria a ter custos forçosamente mais reduzidos; passaria a haver apenas uma fase (que apelidaríamos de estágio!!) e, no final do mesmo, todos seriam submetidos a um exame final.

4 Com efeito, no processo de inscrição deveria analisar-se se o candidato cumpre determinados requisitos, desde logo, ter obtido grau de Mestre em Direito. Além disso, sem os custos da formação, a exigência do pagamento da taxa, hoje em vigor, deixa de ser premente. Eliminava-se, assim, uma das grandes criticas que todos os anos se ouve por altura da inscrição: o respectivo custo. E, concluído o tirocínio, todos seriam submetidos a um exame final, versando diferentes áreas do Direito, de livre escolha do candidato, sendo obrigatória a resposta às questões de Deontologia. Exame que se pretende de grande exigência e com critérios de correcção pré-determinados e pouco flexíveis: uma prova final de resposta o mais objectiva possível. Quarta conclusão: uma nova estrutura do estágio, reduzida a uma única fase, com exame final criterioso e exigente! Nestes quatro actos, deixamos um esboço do que entendemos dever ser a reforma do modelo de estágio. Obviamente que não poderá ser um esforço exclusivo da OA. Deverá ser uma reforma integrada e articulada com o CEJ e com as Universidades tanto mais que, elas próprias, deverão rever os seus planos de curso. É neste contexto que apresentamos a presente reflexão (limitada, pelo menos, na extensão), mas que, ainda assim, se pretende seja início e ponto de partida de uma discussão alargada. Entregamo-nos, por agora, ao contraditório... Em CONCLUSÃO, em face do exposto, pressupondo que, O MODELO DE ESTÁGIO, TAL QUAL SE ENCONTRA CONCEBIDO, ESTÁ DESAJUSTADO DA REALIDADE; A SUA TOTAL REFORMA SERÁ, EM NOSSA PERSPECTIVA, UM DOS ESTEIOS DA PARTICIPAÇÃO DA OA NA REFORMA DA JUSTIÇA; A FORMAÇÃO NO ESTÁGIO NÃO DEVERÁ SER UMA REPETIÇÃO DA FORMAÇÃO EM DIREITO MINISTRADA NA UNIVERSIDADE, MAS SIM UMA

5 FORMAÇÃO PARA A PRÁTICA DA PROFISSÃO; O PATRONO DEVE SER O CENTRO DA FORMAÇÃO DO ESTAGIÁRIO ENTENDEMOS QUE O MODELO DE ESTÁGIO DEVERÁ SER REVISTO, REDUZINDO-SE O MESMO A UMA ÚNICA FASE, SENDO QUE, A FINAL, TODOS SERIAM SUBMETIDOS A UM EXAME CRITERIOSO E EXIGENTE. Ora, porque, tem de ser uma reforma participada, PROPOMOS: SEJA CRIADA UMA COMISSÃO DE REVISÃO DO REGULAMENTO NACIONAL DE ESTÁGIO, DA QUAL DEVE FAZER PARTE O CEJ E AS UNIVERSIDADES. COMUNICAÇÃO DE JOÃO MARTINS COSTA (CÉD. PROF. Nº 11568P) Largo de São Domingos, 14 1º LISBOA-PORTUGAL Tel

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