IV Fórum do Sector Segurador e Fundos de Pensões. Lisboa, 15 de Abril de 2009

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1 IV Fórum do Sector Segurador e Fundos de Pensões Lisboa, 15 de Abril de 2009 Foi com todo o gosto e enorme interesse que aceitei o convite do Diário Económico para estar presente neste IV Fórum do sector segurador e de fundos de pensões. Estou convicto que, à semelhança de anos anteriores, este evento irá contribuir para um debate estimulante sobre os desafios actuais e futuros que se apresentam para o mercado segurador e de fundos de pensões. A oportunidade e relevância deste evento são acentuadas pelo contexto da crise financeira, cuja transmissão à economia real acabou por dar origem àquela que é já designada como a pior crise mundial no pós-2.ª Guerra Mundial. O sector segurador e de fundos de pensões, de um modo geral, apresentava uma reduzida exposição aos factores que originaram a crise, tendo sido pouco afectado por esta, de forma directa, na sua fase inicial. No entanto, com a generalização e aprofundamento da mesma, os efeitos negativos têm vindo a aprofundar-se, nomeadamente ao nível da desvalorização das carteiras de investimentos. Apesar disso, considerando o sector como um todo, verifica-se que o mesmo tem apresentado um elevado nível de resiliência à crise financeira, evidenciando uma forte capacidade para absorver choques de grande magnitude. Nesta minha intervenção gostaria de destacar algumas lições que poderemos retirar desta crise e salientar os aspectos que julgo merecerem uma reflexão aprofundada por parte de todos os intervenientes no mercado segurador e de fundos de pensões.

2 Em primeiro lugar, é importante reconhecer que uma das causas essenciais da crise financeira residiu no aligeiramento dos critérios para concessão de crédito, potenciado pela forma como os riscos eram facilmente transferidos para fora do balanço das entidades que lhes haviam dado origem, através dos mecanismos de securitização. Esta é uma lição extremamente relevante para o sector segurador, na medida em que a transferência de riscos, usualmente através do resseguro, é uma componente essencial da respectiva gestão. Há várias décadas que o funcionamento dos mecanismos de resseguro tem vindo a assegurar a manutenção do interesse das empresas de seguros numa subscrição rigorosa, princípio são e prudente que se julga adequado estender a todos os tipos de transferências de risco no sector financeiro. Conclui-se assim pela necessidade de intervenção em matéria de reforço da regulação e supervisão na área da securitização de riscos e sua transferência para os mercados de capitais. A securitização de riscos da actividade seguradora e de fundos de pensões pode constituir uma alternativa apropriada aos mecanismos de transferência tradicionais, facilitando a gestão eficaz dos riscos de seguros, contribuindo para alinhar o perfil de risco das empresas aos níveis de tolerância pré-definidos em matéria de solvência e aumentar a capacidade das empresas para subscrever novo negócio. No entanto, para que possam ser colhidas todas as vantagens desta técnica, é de extrema importância evitar os erros que foram cometidos na génese da presente crise. É assim fundamental assegurar que, em processos de securitização, se verifica uma efectiva transferência de risco e que todas as 2/9

3 partes envolvidas, incluindo os investidores, compreendem efectivamente os riscos envolvidos nos produtos e são capazes de os identificar, avaliar e monitorizar numa base contínua. Consequentemente, é indispensável a criação de regras que assegurem a documentação e a transmissão de informação relevante sobre as características dos produtos, incrementando, dessa forma, a transparência. Em segundo lugar, esta crise parece traduzir o insucesso dos sistemas de governação implementados por muitas entidades financeiras. As análises já efectuadas salientam que as estruturas e mecanismos de governação existentes não permitiram uma identificação atempada dos riscos e, deste modo, não contribuíram para a sua mitigação e controlo. Esta constatação deve ser utilizada no sentido de avaliar e ponderar a adequação e suficiência dos requisitos existentes e, sobretudo, reforçar a efectiva implementação e supervisão dos mesmos. Com efeito, a aplicação de princípios de boa governação na gestão e controlo do negócio segurador e de fundos de pensões é um factor essencial na promoção da solvabilidade das empresas e fundos e, consequentemente, na protecção dos consumidores. O Instituto de Seguros de Portugal tem vindo a atribuir especial atenção à área da gestão de riscos e controlo interno, tendo desenvolvido um conjunto de iniciativas no sentido de reforçar os requisitos regulamentares e de divulgar orientações que consubstanciem boas práticas. 3/9

4 Estas iniciativas têm como objectivo final elevar o grau de aplicação efectiva dos princípios de boa governação, devendo os operadores ponderar a adopção das orientações com base no princípio da proporcionalidade, ou seja, tomando em consideração a dimensão, natureza e complexidade dos riscos inerentes à sua actividade. As orientações técnicas identificam com um nível de detalhe adequado diversos aspectos que se consideram relevantes para a implementação dos processos de identificação, avaliação, mitigação, monitorização e controlo dos principais riscos a que as empresas se encontram expostas. Importa ainda salientar que o processo de supervisão tem vindo e irá continuar a ser reforçado no que concerne à avaliação da qualidade dos sistemas de gestão de riscos e controlo interno implementados por cada operador, servindo as boas práticas divulgadas como padrão de referência para a análise a efectuar. Em terceiro lugar, esta crise veio provar que é urgente e extremamente necessária a adopção do novo regime de solvência europeu (Solvência II). De facto, em situações de crise como a que vivemos actualmente, torna-se especialmente evidente a necessidade e a importância de se dispor de um regime assente em princípios de avaliação económica e em medidas sensíveis aos riscos efectivamente assumidos pelas empresas de seguros, que assegure a convergência dos regimes e práticas de supervisão a nível europeu. Tais medidas contribuirão sobremaneira para o incremento da transparência, da comparabilidade entre mercados e da capacidade de identificação e antecipação de riscos emergentes, com o objectivo último de defesa dos interesses dos tomadores de seguros e beneficiários. 4/9

5 Efectivamente, os princípios de avaliação económica de activos e passivos que estão na base do Solvência II permitirão decerto resolver muitas das inconsistências que hoje se verificam entre os diferentes mercados ao nível da análise da verdadeira posição de solvência das empresas de seguros. Como parte integrante do Solvência II é ainda de salientar a definição e implementação de exercícios de stress test e de análise de cenários extremos. Tais exercícios visam testar a capacidade de resiliência das entidades, bem como identificar a sensibilidade das carteiras de activos e passivos à variação adversa dos diversos riscos, quer de forma individual, quer agregada. Tal permite hierarquizar os riscos, identificando-se aqueles que devem merecer especial atenção e uma maior alocação de tempo e de recursos. Salienta-se, em particular, a importância do reconhecimento efectivo do risco operacional, uma vez que a experiência prática comprova o seu potencial para exacerbar perdas, especialmente em situações de crise. Uma das principais inovações do Solvência II é a possibilidade dada às empresas de seguros de poderem utilizar os modelos desenvolvidos internamente na aferição do requisito de capital de solvência. Tal potenciará o aumento da sofisticação e da capacidade de mensuração dos riscos pelas próprias entidades. Julgo, no entanto, que é oportuno referir que qualquer modelo representa sempre uma aproximação imperfeita da realidade. Os modelos são tanto mais válidos quanto mais robustos e adequados são os dados e as hipóteses neles utilizados. Este ponto vem salientar a cada vez maior importância a atribuir ao reforço da qualidade e da granularidade da informação disponível para a gestão, sem a qual não será viável a tarifação de acordo com os riscos incorridos, 5/9

6 componente essencial de uma abordagem sustentável do negócio a médio e longo prazo, nem a adopção de modelos internos por parte das empresas. É ainda de notar que em ambiente Solvência II os modelos internos serão sujeitos a critérios de aprovação bastante exigentes que vão muito além da verificação efectiva da sua qualidade matemática e estatística. Uma das exigências mais importantes é o chamado teste de utilização, onde se pretende verificar que o modelo interno desempenha um papel de relevância nos processos internos de gestão do negócio e nas tomadas de decisão. Neste contexto, não será aceite a utilização de modelos internos por empresas cuja respectiva gestão não detenha um conhecimento aprofundado do seu desenho, dos pressupostos assumidos e das suas limitações (as chamadas caixas negras ). De facto, o conceito de modelo interno não se resume a apenas um modelo matemático que nos dá a estimativa do montante de requisito de capital, mas inclui todo um conjunto alargado de processos que asseguram, numa base contínua, a sua qualidade matemática e estatística, a validação dos resultados e reconhecimento das limitações, a produção de relatórios, a utilização efectiva nos processos internos de condução do negócio e de tomada de decisões e a existência de documentação apropriada. É inegável que a crise terá decerto consequências aos mais diversos níveis. Mas, como em todas as crises, também esta traduz oportunidades, as quais podem e devem ser aproveitadas por todos os intervenientes no mercado. Em resultado da forte desvalorização das carteiras de investimentos, a presente crise evidenciou a maior apetência dos consumidores em geral por 6/9

7 produtos de poupança com características de maior segurança e protecção, designadamente com garantia de rendibilidade mínima e de capital investido. Neste enquadramento, a actividade seguradora e de fundos de pensões pode continuar a desempenhar um papel de relevância na captação de poupança de médio e longo prazo, ao oferecer produtos que correspondam a este tipo de necessidades, constituindo uma solução apropriada para onde podem ser canalizadas as poupanças. Para além disso, a crise tem revelado a cada vez maior importância a atribuir à prestação de informação aos consumidores, quer na fase de comercialização, quer durante a vigência dos contratos. Só com consumidores informados e esclarecidos se pode estabelecer uma relação de confiança duradoura e estável, geradora de potenciais benefícios para ambas as partes. As empresas de seguros e as entidades gestoras de fundos de pensões devem utilizar esta oportunidade para reforçar os padrões de transparência através da disponibilização de informação clara e objectiva, que permita aos consumidores tomarem decisões de investimento fundamentadas e esclarecidas. É neste sentido que o Instituto de Seguros de Portugal decidiu criar no seu sítio da internet um sistema de divulgação sobre comissões e rendibilidade dos planos de poupança-reforma, contribuindo assim para o incremento da disciplina de mercado e da sã concorrência entre operadores. Por outro lado, o facto dos consumidores se encontrarem mais atentos às características dos produtos deve ser utilizado pelos operadores e mediadores como uma oportunidade para obter de cada cliente a informação apropriada à identificação do seu perfil de risco, de forma a orientá-lo para que a sua decisão de investimento seja tomada de forma consciente e se adeque a esse perfil. 7/9

8 É de sublinhar que a comercialização massificada de determinados produtos sem ter em conta o perfil do cliente pode redundar num risco reputacional acrescido para o respectivo operador e, em geral, para o sector como um todo. Este aspecto vem demonstrar que as matérias ligadas à supervisão da conduta de mercado são extremamente relevantes sob o ponto de vista da estabilidade financeira e devem ser conduzidas de forma integrada e consistente com a respectiva supervisão prudencial. Minhas senhoras e meus senhores, a crise financeira veio salientar o papel das empresas de seguros e dos fundos de pensões em Portugal como componentes essenciais da estabilidade financeira global, não só pelo volume total de activos sob gestão (no final de 2008, cerca de 68 mil milhões de euros aproximadamente 41% do PIB), como também pelas estratégias de longo prazo adoptadas em muitas das políticas de investimento. O facto das empresas de seguros e dos fundos de pensões disporem, em geral, de modelos de negócio bastante diferenciados do modelo bancário, em consonância com a especificidade dos riscos incorridos e a respectiva estrutura temporal de compromissos, contribuiu, claramente, para atenuar os efeitos sistémicos da crise. Para além disso, a crise financeira veio também demonstrar, se tal ainda fosse necessário, que não existem regimes de regulação e de supervisão perfeitos. A protecção dos consumidores de serviços financeiros deve começar na boa governação de cada um dos operadores, sendo complementada com um quadro regulatório que estabeleça um conjunto de princípios e regras de solidez financeira e de conduta de mercado, os quais devem ser objecto de uma supervisão eficaz e actuante. 8/9

9 Estou plenamente convencido que só com uma conjugação equilibrada destas três componentes se pode contribuir para a manutenção de um mercado financeiro mais justo, seguro e estável e ao mesmo tempo inovador e competitivo, para benefício último dos consumidores. É este, sem dúvida, um dos grandes desafios que todos temos pela frente. 9/9

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