Pesquisa/Pauta. Tema: Dois olhares, uma época. Pesquisador: Francis Vogner dos Reis

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1 Pesquisa/Pauta Tema: Dois olhares, uma época Pesquisador: Francis Vogner dos Reis Sinopse Nos anos 60 o cinema brasileiro forjou sua identidade e adotou para si uma missão de intervenção política e social. Desse modo, o cinema moderno brasileiro foi atravessado pela questão da ditadura militar e é contra ela, entre 1964 e 1985, que se colocavam os filmes mais célebres do período. A memória do regime militar está presente nos filmes, na realidade e no imaginário não só do cinema daquela época, mas também (e, sobretudo) hoje. Para tratar dessa que é uma das questões centrais na história do cinema moderno brasileiro, o programa pretende abordar dois filmes realizados no período da ditadura e dois realizados nos últimos anos. O ponto de convergência desses filmes seria a luta política nos anos 60 e 70, e por meio disso pretende-se comparar, distinguir e aproximar todos esses filmes para entender como cada um deles, a partir de seu momento histórico, se posicionou e criticou o regime militar. Para tanto serão abordados Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, Hitler 3 o Mundo (1969), de José Agrippino de Paula, Ação Entre Amigos (1998), de Beto Brant e Cidadão Boilesen (2010), de Chaim Litewski. Terra em Transe e Hitler Terceiro Mundo respondem a dois períodos diferentes do regime militar. No filme de Glauber Rocha há o questionamento do papel do intelectual na luta política em uma reflexão que remete ao golpe de 1964 e preconiza o AI-5, em Por sua vez o filme de José Agrippino de Paula é a expressão iconoclasta do desespero pós-ai-5, quando se intensificam as perseguições, se caçam os direitos políticos, se realizam prisões e torturas. Se na época do regime o cinema era instrumento de resistência, o cinema atual seria um meio de expurgar os fantasmas dessa época. Nesse caso os filmes de Beto Brant e Chaim Litewski representam variações do olhar atual para a ditadura militar. Ação entre Amigos trata da vingança de um grupo de ex-guerrilheiros urbanos contra seu torturador trinta anos depois; o documentário Cidadão Boilesen confronta a história do dono da Ultragás, Henning Albert Boilesen, acusado de financiar a tortura.

2 Em época em que se discute uma Comissão da Verdade para investigar crimes (torturas, assassinatos) de agentes do Estado na ditadura, confrontar filmes de dois períodos históricos diferentes a fim de entender olhares diversos sobre as variantes dessa mesma situação política não é só uma contribuição ao debate público, mas, também, um modo de entender diferentes formas e abordagens que os filmes se utilizaram para tratar de umas das problemáticas mais caras ao cinema brasileiro nos últimos 50 anos. Apresentação dos filmes e das problemáticas Terra em Transe (Brasil, 1967), de Glauber Rocha Antecedido por Barravento (1960) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), Terra em Transe é o filme de Glauber Rocha que causou mais polêmica na época de seu lançamento e também posteriormente. O filme se passa no país fictício Eldorado 1, que em alguma medida metaforiza não só o Brasil toda a comunidade latino-americana com uma herança história colonialista e populista. Paulo Martins, poeta e jornalista idealista interpretado por Jardel Filho, é apadrinhado pelo político populista de direita Porfírio Diaz (Paulo Autran) e, quando este se elege senador, se afasta dele e vai trabalhar como jornalista na província de Alecrim, abandonando a antiga amante Silvia e se juntando à Sara, uma jornalista militante. Como oposição a Porfírio Diaz, Paulo passa a apoiar Vieira (José Lewgoy), político de oposição e progressista para que este guie as mudanças necessárias no país. Entretanto, Vieira é um fraco, controlado por forças econômicas. Quando Diaz se candidata à presidência, Paulo se desespera e quer partir para a luta armada. Diferente de Deus e o Diabo na Terra do Sol, saudado como um filme de potencial revolucionário (pela esquerda) e respeitado por sua ousadia estética até por críticos de outras orientações políticas (como Moniz Vianna), em Terra em Transe a esquerda brasileira (mais precisamente o PCB) acusou Glauber de hermetismo e confusão 1 Glauber Rocha dá nome de Eldorado ao país fictício que metaforiza toda a América Latina se remetendo à lenda da cidade de El Dorado, narrada pelos índios aos espanhóis na época da colonização das Américas. Falava- se de uma cidade cujas construções seriam todas feitas de ouro maciço e cujos tesouros existiriam em quantidades inimagináveis (Wikipedia, A busca por El Dorado pelas colônias de exploração foram uma constante durante os primeiros séculos de colonização da América Latina.

3 ideológica e o CPC (Centro Popular de Cultura da UNE) lançava acusações de elitismo e intelectualismo. O crítico, e depois cineasta, Rogério Sganzerla acusou o filme de esteticista. Por outro lado o filme despertou o entusiasmo de figuras bastante singulares da cena cultural brasileira que não se enquadravam (e não se enquadram ainda) a definições ideológicas mais ortodoxas. O psicanalista e escritor mineiro Hélio Pelegrino chamou a atenção, no jornal no Brasil em 1967, para a vitalidade estética do filme em uma época em que os críticos do filme faziam um policiamento político. Ele falou do barroquismo de sua estética e das formas narrativas. Nelson Rodrigues, no jornal O Correio da Manhã, em 16 de maio de 1967, disse: Durante as duas horas de projeção, não gostei de nada. Minto. Fiquei maravilhado com uma das cenas finais de Terra em Transe. Refiro-me ao momento que dão a palavra ao povo. Mandam o povo falar, e este faz uma pausa ensurdecedora. E, de repente, o filme esfrega na cara da platéia esta verdade mansa, translúcida, eterna: o povo é débil mental. Eu e o filme dizemos isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e será assim eternamente. O povo pare os gênios, e só. Depois de os parir volta a babar na gravata (...) Terra em Transe não morrera para mim (...) sentia nas minhas entranhas o seu rumor. De repente, no telefone com o Hélio Pelegrino, houve o berro simultâneo: Genial! Estava certo o Gilberto Santeiro (...) Nós estávamos cegos, surdos e mudos para o óbvio. Terra em Transe era o Brasil. Aqueles sujeitos retorcidos em danações hediondas somos nós. Queríamos ver uma mesa bem posta, com tudo nos seus lugares, pratos, talheres e uma impressão de Manchete. Pois Glauber nos deu um vômito triunfal. Os Sertões de Euclides da Cunha também foi o Brasil vomitado. E qualquer obra de arte para ter sentido no Brasil precisa ser essa golfada hedionda. (cit. Por Tereza Ventura, em A Poética Polytica de Glauber Rocha. Funarte, Rio de Janeiro, 2000) O cineasta norte-americano Martin Scorsese é um dos grandes divulgadores do filme e, fã confesso, adquiriu uma cópia 35 mm para sua filmoteca particular. Ainda hoje o debate em torno de Terra em Transe gera confrontos bastante significativos. O mais recente faz referência direta a esse período dos embates políticos na época da ditadura militar e acirra, ainda hoje, as divergências entre a ortodoxia esquerdista e a contracultura. Neste ano de 2012 o crítico literário e marxista Roberto Schwarz em ensaio chamado Verdade Tropical: um percurso do nosso tempo, sobre o livro-autoretrato Verdade Tropical, de Caetano Veloso, diz que Caetano depois de 1968 flertou

4 com o pensamento conservador e localiza essa virada no relato que Caetano faz no livro a partir do choque que Terra em Transe lhe surtiu. Caetano diz que Terra em Transe mostrou a ele a falência dos populismos de direita e de esquerda. Ali ele deixou de acreditar nas energias transformadoras do povo, e ainda diz que Terra em Transe inspirou o Tropicalismo. Schwarz identifica nesse relato sobre Terra em Transe (toda crítica à Caetano Veloso no ensaio é em torno do relato sobre o filme de Glauber) a conversão de Caetano Veloso a um pensamento e a uma postura conservadoras desalinhadas do compromisso com o povo e sua luta. Como disse o antropólogo Hermano Vianna, esse é mais um desencontro, depois de quatro décadas, entre a contracultura e arte engajada. Principais prêmios e indicações Festival de Cannes 1967 (França) Glauber Rocha recebeu os prêmios Luis Buñuel e Fipresci no XX Festival. Festival de Havana 1967 (Cuba) Recebeu o Prêmio da Crítica e o de Melhor Filme. Festival de Locarno 1967 (Suiça) Glauber Rocha recebeu o prêmio Grand Prix. Festival de Cinema de Juiz de Fora (Brasil) Venceu nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (José Lewgoy), Melhor Atriz (Glauce Rocha) e Menção Honrosa (Luiz Carlos Barreto). Prêmio Governo do Estado de São Paulo (Brasil) Recebeu os prêmios de Melhor Atriz (Glauce Rocha), Melhor Argumento (Glauber Rocha), Melhor Fotografia (Dib Lutfi) e Melhor Montagem (Eduardo Escorel). Observação: em 1967 o filme foi proibido em território nacional por ser considerado subversivo e irreverente com a igreja. Só foi liberado com a condição que se desse um nome ao padre interpretado por Jofre Soares. Hitler Terceiro Mundo (Brasil, 1968), de José Agrippino de Paula Hitler Terceiro Mundo é um exemplar do Cinema Marginal proibido pela censura e jamais exibido comercialmente. O diretor José Agrippino de Paula era escritor, dramaturgo e performer, realizou o filme em um método bastante rudimentar (e

5 clandestino) com sobras de rolo e improvisos. Salta os olhos a natureza antiestética do projeto que ao invés de negar e escamotear defeitos de luz, enquadramento, continuidade e som, integra-os em sua forma agressiva, escrachada e radical como boa parte dos filmes ditos marginais que rompia declaradamente com todos os protocolos de bom acabamento e profissionalismo e, como disse Rogério Sganzerla sobre O Bandido da Luz Vermelha, em uma situação insuportável (a ditadura, o AI-5) só sendo antiestéticos para conseguirmos ser éticos. O filme foi o único longa-metragem do diretor que depois faria curtas calcados em performance e danças. No filme, personagens perambulam pelas ruas, há inserções sonoras aleatórias e um clima de ficção científica. O filme trata da ascensão de um imitador de Hitler ao poder em um país de terceiro mundo. Além de Hitler, outros personagens estranhos como um samurai-gueixa (interpretado por Jô Soares) e o Coisa (personagem da HQ Quarteto Fantástico) realizam performances públicas em favelas, descampados e no meio de ruas movimentadas. Cenas de nu, tortura e prisões invadem o filme com uma violência e um horror únicos no cinema brasileiro. José Agrippino de Paula levou para o cinema seu estilo literário transgressor sem paralelos na literatura brasileira, mais precisamente do romance tropicalista PanAmérica. Observação: o filme nunca estreou nos cinemas. Foi exibido só em mostras e lançado recentemente em DVD pela Lume. José Agrippino de Paula usou policiais reais nas cenas de prisão Ação Entre Amigos (Brasil, 1998), de Beto Brant Ação entre Amigos é o segundo longa-metragem de Beto Brant e como em seu primeiro filme, trata de um acerto de contas. A diferença é que neste filme o acerto de contas não é entre assassinos de aluguel, como em Os Matadores, mas entre ex-guerrilheiros urbanos e seu antigo algoz, 25 anos depois das torturas. Baseado do romance homônimo de Marçal Aquino (aqui também roteirista) o filme (relativamente curta: 76 minutos) em um fôlego só mostra quatro amigos Miguel (Zecarlos Machado), Elói (Cacá Amaral), Paulo (Carlos Meceni) e Osvaldo (Genésio de

6 Barros) m uma viagem de pesca. Mas a intenção de Miguel é outra e é informada só tardiamente aos amigos: se vingar do torturador Correia (Leonardo Villar) que, escondido em uma cidade do interior, organiza rinhas de galo. Miguel quer se vingar de Correia não só pela tortura que este infringiu ao grupo, mas também porque durante a tortura o torturador matou sua esposa grávida. O filme se estrutura por meio de flashbacks que relacionam presente e passado e assim assistimos a prisão dos guerrilheiros, sua tortura e o assassinato da esposa de Miguel. Pode se conceber que este filme de Brant faz parte de uma Trilogia do ressentimento e da vingança (definição criada por mim) antecedido por Os Matadores (1997) e sucedido por O Invasor (2002). O filme não é o primeiro a problematizar o que restou da ditadura, mas é provavelmente o primeiro a tentar olhar essa questão a partir do contemporâneo e apontar a dívida que se tem com aquele período, mais precisamente com a questão da tortura e dos presos políticos desaparecidos e mortos. Questão cada vez mais atual como a proximidade da Comissão da Verdade e o questionamento da Lei da Anistia. Cidadão Boilesen (Brasil, 2009), de Chaim Litewski Em uma época em que abundam uma série de documentários sobre figuras heroicas ou polêmicas da época do regime militar tais como Simonal-Ninguém Sabe o Duro que Dei, Raul - O Início, o Fim e o Meio, Dom Hélder Câmara - O Santo Rebelde, entre outros, Cidadão Boilesen é o primeiro e talvez o único documentário a confrontar um personagem absolutamente negativo de maneira também negativa: Henning Albert Boilesen, presidente da Ultragás, fundador do Centro de Integração Empresa Escola (CIEE) e na época presidente do Rotary Clube. Dinamarquês, Boilesen chegou ao Brasil e se estabeleceu em São Paulo. O filme busca as origens de Boilesen, revisitando arquivos de família e da escola em que estudou, tentando traçar a gênese dese personagem que hoje é menos famoso como empresário de sucesso e mais por ter sido um dos financiadores da Operação Bandeirante que sequestrava, torturava e matava militantes de esquerda. O detalhe perverso é que além de financiar, Boilesen gostava de assistir as torturas. O empresário foi justiçado (assassinado sem direito a julgamento) por militantes do MRT e da Ação libertadora Nacional em O documentário colhe depoimentos do filho e dos amigos de Boilesen, como o exgovernador de São Paulo, Paulo Egídio e de agentes da Operação Bandeirantes. O interessante é que o filme de Litewski não tem neutralidade e tem uma inclinação

7 bastante direta e aberta em favor dos executores do empresário. Ele entrevista também esses ex-militantes de esquerda que fizeram a emboscada e mataram o empresário. Surpreende a crueza e a franqueza desses depoimentos inclusive o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que disse que ninguém de boa educação vai ficar feliz por uma pessoa assassinada, mas naquele momento era um a menos. Um elemento que surpreende no filme é o tom sarcástico de sua linguagem, rápido, quase jovial, com uma sonoridade estridente e desconstrói a figura pública do personagem a partir do ridículo. Cidadão Boilesen não possui o tom solene de outros documentários sobre as mesmas questões. Não tem neutralidade ou isenção. Vai na ferida. PRÊMIOS Melhor Filme do 14º É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentário. Material anexo: Terra em Transe À Beira do Abismo Brasil, O filme anterior de Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do sol, havia sido concebido e filmado ainda em 1963, antes do golpe militar que derrubou João Goulart e que pouco a pouco ia minando boa parte dos sonhos de sua geração. A conversa agora era outra. O mundo a mudar não estava escondido no interior distante, o mundo estava mudando para pior em todos os lugares, em plenas metrópoles, o mundo estava mudando bem debaixo das fuças dos idealistas que achavam que estavam mudando o mundo. Terra em Transe é sobre isso, é sobre essa paulada na cabeça que foi ver suas ilusões indo por água abaixo após a violência institucional. ************

8 Como é dito no filme, pelo seu protagonista, Paulo Martins: "Não anuncio cantos de paz, nem me interessam as flores do estilo." Esclarecendo depois: "Todos somos simpáticos, desde que ninguém nos ameace" ************ Cinema Novo? O intelectual muda o mundo? Todo mundo dizia que "cinema novo é Glauber Rocha no Rio de Janeiro". Nem todo "movimento cultural" merece ser classificado como tal. Não raro, não há pontos em comum entre seus produtos, além de serem produzidos na mesma época e/ou pela mesma geração. Mas há algo que une claramente filmes e idéias daquilo que chamamos Cinema Novo: todos os filmes procuravam definir o país, todos os filmes procuravam mostrar um olhar sobre o Brasil, fosse por singularidades, analogias ou alegorias. Depois de uma primeira fase, uma fase de "mergulho no país", os cineastas estavam voltando o seu olhar para si. Mais do que meramente urbana, aquela que chamamos de segunda fase do Cinema Novo acabava sendo uma análise do papel deles mesmos e da sua geração. Só que isso não se restringiu aos cinemanovistas. Lembrando o intelectual interpretado por Paulo Goulart em Rio Zona Norte, já dá para notar a descrença que o cinema daquela época tinha na ação dos "sábios", mesmo olhar descrente que também aparecia em algumas cenas do filme de Diegues, A Grande Cidade. Foi em O Desafio que Paulo César Saraceni se colocou como um agente do seu tempo, e percebeu como questão central o papel que eles, cineastas dispostos a "mudar o mundo", tinham naquilo tudo. Foi o primeiro de uma onda, numa série de filmes em que quem fazia cinema se viu no espelho, a si e à sua geração. É dessa fase, além dos citados Terra em Transe e O Desafio, também O Bravo Guerreiro, de Gustavo Dahl,

9 São Paulo S.A., de Luís Sérgio Person, As Amorosas, de Walter Hugo Khouri, A Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite, El Justicero, de Nelson Pereira, e mesmo os filmes de Domingos de Oliveira, entre outros. Com todas as imensas diferenças que têm, são filmes que retratam a geração a que pertenciam os cineastas. E vale lembrar que é dessa época o documentário que Joaquim Pedro de Andrade fez para uma rede de Tv alemão, Cinema Novo, mostrando seus amigos produzindo e apresentando seus filmes, mostrando inclusive parte das filmagens de Terra em Transe, no Teatro Municipal. ************ Terra em Transe é um filme especial. Será que isso é uma obviedade? Deve ser, mas é preciso reafirmar. No início da década passada, foi contestado por um célebre dramaturgo televisivo, que repetia os mesmos argumentos de que zombava Glauber no artigo que publicamos nessa edição. Ninguém entende o filme, dizem alguns. A resposta do cineasta ponderava sobre o cinema equivalente à poesia de Rimbaud ou à pintura de Cézanne ou Van Gogh. É preciso entender tudinho? ************ Diz Paulo Martins no filme: "Precisamos resistir, resistir!, e eu preciso cantar, eu preciso cantar! Não é mais possível essa festa de medalhas..." É um filme especial. Operístico e barroco são sempre os adjetivos que acompanham esse tipo de análise. Pois é, é isso aí. É um filme na corda bamba, é um filme desesperado e amargurado. É o triste fim de quem levou a sério a idéia de mudar as condições sociais do país. ************* Em Eldorado, capital de um país de mesmo nome, Paulo Martins é um poeta que trabalha como jornalista e "ghost-writer" de políticos, um sujeito que, com suas

10 ambições poéticas, pretende conciliar a ética e a estética. Quer ser poeta, mas quer falar de temas... políticos! Não tendo espaço para isso em Eldorado, abandona sua namorada arranjada e seu protetor, o senador eleito Porfirio Diaz, e, e vai para a província de Alecrim, onde conhece Sara, descobre a pobreza de seu povo e passa a assessorar Felipe Vieira, candidato a governador. A impostura populista de Vieira logo se revela, e um golpe é tramado para lhe tirar do poder. Diante da covardia de Vieira, Paulo se desespera e prega a luta armada. Foge, e acaba sendo baleado. O filme é contado quase todo num imenso flash-back, onde Paulo, às portas da morte, relembra toda a história. Através desse mote, de uma história relembrada por um homem agonizante, aparece uma trama que enlaça um sujeito que, a despeito de seu temperamento impetuoso e das pequenas maldades que comete, permanece ligado aos seus ideais até o fim, até o ponto em que for necessário. Parece que todo o filme se sintetiza na percepção amarga de Sara: "A política e a poesia são demais para um só homem". Paulo Martins diz ter "A fome do absoluto", busca até o fim conciliar os extremos, e fracassa. Dom Porfirio Diaz é um inimigo odiado e admirado, é quem perdeu todos os pudores em busca do poder pelo poder, capaz de trocar de aliados ao sabor dos ventos. Tem um discurso totalmente fascista, é talvez o mais claro vilão dos filmes de Glauber. É elite desde Pedro Álvares Cabral, e de lá não sai por fazer política com competência. Política dessas que se faz nos escritórios. Diaz tem horror do povo e das ruas. Foi radical de esquerda na juventude, e agora seu discurso é pela família e por Deus. Felipe Vieira é o aliado-símbolo, o líder político que acaba por se mostrar frágil, covarde, populista, ineficiente. É o fascínio pelo papel desempenhado por João Goulart, o líder que não existiu. Paulo, o ideólogo de Vieira, se vê traído pelo seu patrão, o magnata das comunicações Julio Fuentes. Fuentes, que se considera um "homem de esquerda", é convencido do perigo que corre com a ascensão de projetos populistas, e acaba se unindo a Diaz e à multinacional Sprint, fabricante de armas, para impedir a vitória de Vieira na eleição presidencial que se aproxima. Diante de um acontecimento fortuito, em que Vieira vacila diante da necessidade de sacrificar um leão-de-chácara aliado (referência a Vargas e Fortunato? Ou profetização do Riocentro?), os

11 acontecimentos se precipitam, e os militares tratam de tirar Vieira do poder. Diaz nos informa, zombeteiro, que a luta de classes existe, e pergunta a cada um da platéia, você sabe a que classe pertence? ************* O que é mais triste, a sordidez do projeto elitista e autoritário? Ou a fragilidade mentirosa do projeto populista? Vieira vai ao populacho, abraça todo mundo e não resolve nada, ao contrário, só faz cagadas. Já Diaz nem cogita em chegar perto do povo. (teria medo de perder o Rolex, talvez). E o povo? O povo é representado por José Marinho, numa cena famosa e antológica, em que ele, presidente de sindicato, é instado a se manifestar, e inicia um discurso óbvio e despreparado. É interrompido por um irritado Paulo, que nos diz: "Este é o povo: Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado". Não há esperança nas ações do povo. Não há esperança na fibra dos políticos honrados. Muito menos no discurso reacionário. Terra em Transe é amargurado, é um filme que termina destruído como seu protagonista. Vai até as raias da loucura por seu idealismo, e termina desiludido e abandonado, partindo numa tentativa desesperada, que nada mais seria do que o encontro com seu fim. A luta por ideais justifica a vida, e é preferível o fim da vida a continuá-la sem seus ideais. É o destino reservado aos mártires. ************* Talvez seja um filme ultrapassado nos dias de hoje. Alguém acha isso? O que pode querer dizer "datado"? Sim, acho que Terra em Transe é datado, é um filme que surge de seu momento, que não poderia existir nem antes nem depois. E isso só o torna mais significativo, mas não anula qualquer uma das suas questões ou obscurece qualquer que seja das suas imensas qualidades. *************

12 Logo no início, diz um letreiro, com parte do poema de Mário Faustino que inspirou o filme: "Não conseguiu firmar o nobre pacto Entre o cosmo sangrento e a alma pura Gladiador defunto, mas intacto (Tanta violência, mas tanta ternura)" ************* Agora me lembro de quando tinha catorze anos de idade. Alguns filmes nos dão imenso prazer. Alguns outros marcam nossa memória. Uns poucos podem até ajudar a definir nossos padrões, éticos ou estéticos. Mas há os casos em que um filme balança nossa cabeça e muda o norte de nossa vida, há casos em que o impacto de uma obra pode ajudar a resolver questões definitivas para nós, pode, enfim, mexer conosco a ponto de decidirmos "o que vamos fazer na vida". Acho que a melhor maneira de encerrar este texto é reconhecendo que é assim que me lembro de Terra em Transe. Daniel Caetano (publicado em GLAUBER FALA : Terra em Transe "O cinema prolonga a vida. Estas imagens estarão eternas. Além da morte." Roberto Rosselini dizia que é mais fácil fotografar o mundo do que fotografar um rosto. O cinema, me disse Alexandre Kluge, deve ser polifônico. É uma nova arte e presa

13 ainda ao naturalismo/realismo do romance. O romance, os senhores sabem, é uma expressão do século XIX. É, pois, a linguagem da burguesia. O cinema é a linguagem do capitalismo, isto é, do século XX. Cinema, jornalismo, televisão. O cinema, porque foi realizado até bem pouco tempo por homens com formação no século passado e formou e deformou o público e a crítica. E a maioria dos intelectuais. E, o que é mais grave, a maioria dos cineastas. O cinema é um instrumento de coração do capitalismo. Ou do policialismo. Liberdade, no cinema, sempre foi crime. Rimbaud, para lembrar um nome conhecido, que é ponto pacífico na poesia, se aparecesse fazendo filme como escrevia levava ovo na cara. Idem Cézanne. Até mesmo Van Gogh. E estes são artistas do século passado, nem mais vanguarda são considerados. Por que o cinema tem de ficar seguindo a narrativa de Maupassant? Quando um intelectual vem me dizer que não gostou de Terra em Transe porque não entendeu, dá vontade de perguntar a ele se poesia ou música ele entende tudo como entende uma reportagem, isto é, no sentido explicativo, óbvio, ululantérrimo!" Glauber Rocha Glauber Fala: "Convulsão, choque de partidos, de tendências políticas, de interesses econômicos, violentas disputas pelo poder é o que ocorre em Eldorado, país ou ilha tropical. Situei o filme aí porque me interessava o problema geral do transe latino-americano e não somente do brasileiro. Queria abrir o tema "transe", ou seja a instabilidade das consciências. É um momento de crise, é a consciência do barravento." Fonte: Tempo Glauber

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16 Observação: o principal livro brasileiro que tratou de Terra em Transe foi Alegorias do Subdesenvolvimento, de Ismail Xavier. Link para o Filme: 1g Hitler Terceiro Mundo Sobre O livro clássico de José Agrippino PanAméricas de Áfricas utópicas... O escritor José Agrippino de Paula, referência nos anos 60, tem seu livro mais importante relançado

17 Hoje à noite tem festa no Embu, vai ter Ray Conniff, vai ter cachaça Pitú - com limão. Não se trata de aniversário, a comemoração é pelo relançamento de um clássico da literatura pop brasileira dos anos 60. Trata-se de "PanAmérica" (1967), que volta às prateleiras pelas mãos da editora paulistana Papagaio. Ray Conniff e Pitú foram as exigências feitas por José Agrippino de Paula, 63, o dono da festa e autor de "PanAmérica", para que comparecesse ao convescote. Agrippino, importante referência para os artistas da tropicália, atores, diretores teatrais e cineastas da época, atuou na literatura -"PanAmérica" é sua mais célebre criação-, no cinema -"Hitler no Terceiro Mundo" e produções em super-8- e no teatro -"Rito do Amor Selvagem"-, em uma época em que o conceito de artista multimídia ainda não estava tão em voga como hoje. E o ano de 2001 promete resgatar também outros tesouros do baú de Agrippino. Além de "PanAmérica", a Papagaio promete relançar ainda o primeiro livro do autor, "Lugar Público" (1965), lançado inicialmente pela Civilização Brasileira. Na sequência, a editora deve colocar no mercado todos os seus outros livros e textos fora de catálogo. Também sua obra cinematográfica será revisitada. O Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo exibirá, dentro da mostra "Cinema Marginal e Suas Fronteiras", o longa-metragem "Hitler no Terceiro Mundo", que Agrippino filmou em 1968, com Jô Soares e Eugenio Kusnet no elenco. O ciclo acontecerá entre os dias 14 e 28 de junho. No segundo semestre, ainda sem data definida, o Itaú Cultural, em São Paulo, sediará uma mostra de obras de Agrippino, incluindo os filmes que realizou na África com a mulher Maria Esther Stockler. A organização é da videomaker Lucila Meirelles. Embu Apesar de ter direcionado sua obra para o tema das metrópoles na segunda metade do século 20, Agrippino hoje vive isolado da agitação das grandes

18 cidades. Mora sozinho numa casa no Embu, município que se celebrizou por ser sede de um intenso mercado de artesanato, a 25 km de SP. Vestindo camisa branca, jaqueta jeans, alguns panos à guisa de calção e alpargatas, Agrippino recebeu a Folha para uma entrevista, na última segunda-feira. "Estou muito otimista com relação a esse lançamento, acho que, agora que a pop art ficou mais conhecida, as pessoas podem entender melhor o meu livro", disse. Agrippino parece viver em seu passado. A todo momento, refere-se a pessoas e lugares, ou ao cinema novo e à tropicália, como se ainda estivesse vivendo nos anos 60 e 70. O escritor alterna momentos de lucidez e alienação e tem sua vida gerenciada pelo irmão, Guilherme. Agrippino considera que sua obra será sempre atual. "Acho que o livro não vai envelhecer, pois escolhi para serem meus personagens figuras que são legendárias, como a Marylin Monroe ou o Yul Brynner, que as pessoas conheciam e vão continuar conhecendo enquanto a cultura americana for tão dominante." O escritor também ressalta que não gosta que o protagonista de "PanAmérica" seja denominado dessa maneira. "As pessoas dizem que ele é um protagonista, mas é justamente o contrário, pois o protagonista precisa da ação, e o meu personagem não é movido pela ação, ele é um observador, somente um observador", diz, pausadamente, enquanto alisa a espessa barba. Agrippino diz que não tem mais o hábito de ler e aponta uma justificativa. "Leio pouco. A literatura ocidental ficou muito igual. Depois de ler uns cem livros, a pessoa já pode dizer que conhece toda a literatura ocidental", diz. Apesar de viver há muitos anos longe do centro de São Paulo, Agrippino diz que a metrópole ainda o fascina. "Sempre achei que as metrópoles eram foco de criação, um lugar para exercitar a criatividade, quero continuar a escrever romances sobre cidade, mas quero o realismo, não a literatura fantástica que usei em "PanAmérica", nem o estilo da literatura regional, não me interessa."

19 Tropicália e pop art Agrippino é hoje conhecido por ter influenciado a geração da tropicália. Curiosamente, não se diz muito identificado com esse grupo, pois prefere se considerar um "artista da pop art". Caetano Veloso é, talvez, seu admirador mais entusiasmado no cenário artístico. Além de tê-lo elogiado muito em seu "Verdade Tropical" (1997), o cantor baiano agora assina o prefácio da nova edição de "PanAmérica". Ali, diz que o livro soa como se fosse "a "Ilíada" na voz de Max Cavalera". Uma homenagem do cantor a Agrippino pode ser ouvida em "Sampa" (do disco "Muito"): "PanAméricas de Áfricas utópicas/do mundo do samba /Mais possível novo quilombo de Zumbi" ou no disco "Doces Bárbaros", com "Eu e Ela Estávamos Ali Encostados na Parede". Também se dizem influenciados pelo escritor o músico Arnaldo Antunes, o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa e o artista plástico José Roberto Aguilar -que assina a ilustração de capa dessa edição, entre outros. PANAMÉRICA - De José Agrippino de Paula. Editora: Papagaio (tel. 0/xx/11/ ). Quanto: R$ 25 (258 págs.). Sylvia Colombo Fonte: Folha de S.Paulo O 'Cinema IIIº Mundo' de J. Agrippino de Paula Parece haver um ponto na história recente da arte em que as categorias tradicionais da estética sucumbem, em que o formalismo torna-se inadequado como filosofia da arte. Arthur Danto (para os autores aqui citados ver bibliografia) identifica esse ponto: as Brillo Box de Andy Warhol expostas em 1964 em Nova York. O debate é anterior: remete as críticas feitas por Harold Rosenberg às interpretações de Clement Greenberg sobre as pinturas de Pollock. Seria possível inscrever essas pinturas numa tradição que remete ao Impressionismo? Com a pop art, a ruptura parece completa. E não é à toa que ela se dê nos Estados Unidos: é para lá que modernismo parece ter migrado depois da guerra; é lá que vemos surgir o famigerado pós-moderno (que, pelo menos de início, parece mesmo uma coisa bem americana). O cinema é parte desse debate. Jacques

20 Aumont nos dá uma pista. No último capítulo de seu livro O Olhar Interminável ele afirma que Godard, ao se apropriar muito particularmente de procedimentos da pop art, inventou e desmontou o pós-modernismo antes do surgimento do próprio. E o fez para continuar sendo aquilo que ele não pode deixar de ser: um moderno. Creio ser esse debate o que nos interessa quando pensamos na obra de J. Agrippino de Paula, insistentemente associado pela crítica a pop art, mas geralmente de modo superficial. É sabido que o Cinema Novo buscou atualizar cinematograficamente o projeto da semana de 22: oferecer uma contribuição criativa por parte do Brasil à esfera intelectual internacional, combatendo assim a idéia de que só os países desenvolvidos seriam capazes de produzir um tipo significativo de arte. Há, seja na "antropofagia", seja na "estética da fome", uma vontade de se apropriar violenta e redentoramente da técnica produzida nos grandes centros industriais. O 3º Mundo ocuparia então uma posição estratégica, antitética em relação ao 1º Mundo: o lugar de onde brotará a síntese revolucionária. A Vanguarda Histórica (o biscoito fino de Oswald) anseia pelas massas populares. Se no Cinema Marginal, o 3º mundo já aparece como o espaço da impossibilidade (que só pode explodir), nem por isso ele deixa de ser a alegoria desse próprio desencanto (para lembrar Ismail). Mas com Agrippino ele ganha outros tons. Ali, o cinema revela claramente sua falha ontológica. O terceiro mundo não é a antítese do primeiro, mas é seu duplo. Hitler no terceiro mundo não é uma idéia fora do lugar, é um espelhamento que desvela (no sentido carrolliano). O que Agrippino nos apresenta é o desejo de história do Cinema Novo, do cinema brasileiro moderno, sendo esterilizado por um novo fenômeno (global, que chegava então as terras brasileiras): a Comunicação (de massas). No Cinema IIIº Mundo de Agrippino praticamente não há mais cinema, no sentido proposto por Paulo Emílio (na esteira da crítica literária de Antônio Cândido) de que o cinema demanda um povo. Nem chegamos a ser um povo e já nos tornávamos massa: eis o paradoxo do 3º Mundo. Não teria tido o próprio cinema ( espetáculo de massas, dispositivo alienante ) parte nisso? A vanguarda de Agrippino é radical. E radical também contra o modernismo domesticado (o termo é de Andréas Huyssen), já identificado por Sganzerla ainda nos anos 60 em suas diatribes contra a banalização do cinema de autor. Por isso digo que o cinema de vanguarda de Agrippino é um ensaio para o contemporâneo, porque se instaura na fissura do moderno. No entanto, para terminar, não afirmo com isso que o desafio das poéticas tecnológicas (uma expressão de Arlindo Machado), típico do cenário contemporâneo e

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