RESPONSABILIDADE CIVIL NO CONTRATO DE SEGURO

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1 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E JURÍDICAS - CEJURPS CURSO DE DIREITO RESPONSABILIDADE CIVIL NO CONTRATO DE SEGURO ERWIN MUELLER PERES Itajaí, novembro de 2007

2 UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ UNIVALI CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E JURÍDICAS - CEJURPS CURSO DE DIREITO RESPONSABILIDADE CIVIL NO CONTRATO DE SEGURO ERWIN MUELLER PERES Monografia submetida à Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI, como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Direito. Orientador: Professor Mestre Clovis Demarchi Itajaí, novembro de 2007

3 AGRADECIMENTOS A Deus, que me concedeu a vida e por tudo aquilo que ele me concede como recompensa de meus esforços. A minha querida mãe que cuidou de seus três filhos com muito amor e dedicação mesmo nem sempre podendo estar por perto. Ao meu pai, que mesmo distante, sempre se fez presente nos momentos mais difíceis da formação de um homem. As minhas irmãs que nunca me deixaram desistir desta e de muitas outras tormentas pelas quais passamos ao longo dos anos. E a minha amada Bianca que é meu porto seguro, minha paz e meu sossego. Obrigado de coração, eu amo todos vocês!

4 DEDICATÓRIA Dedico esse trabalho a todas as pessoas que confiaram em mim, principalmente aos amigos que conquistei ao longo dessa jornada.

5 TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Vale do Itajaí, a coordenação do Curso de Direito, a Banca Examinadora e o Orientador de toda e qualquer responsabilidade acerca do mesmo. Itajaí, novembro de Erwin Mueller Peres Graduando

6 PÁGINA DE APROVAÇÃO A presente monografia de conclusão do Curso de Direito da Universidade do Vale do Itajaí UNIVALI, elaborada pelo graduando Erwin Mueller Peres, sob o título [Titulo da Monografia], foi submetida em [Data] à banca examinadora composta pelos seguintes professores: [Nome dos Professores ] ([Função]), e aprovada com a nota [Nota] ([nota Extenso]). Itajaí, novembro de Professor MSc. Clovis Demarchi Orientador e Presidente da Banca Professor MSc. Antônio Augusto Lapa Coordenação da Monografia

7 SUMÁRIO RESUMO... VIII INTRODUÇÃO... 1 CAPÍTULO A RESPONSABILIDADE CIVIL A EVOLUÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL CONCEITO DE RESPONSABILIDADE CIVIL PRESSUPOSTOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL A CONDUTA IMPUTABILIDADE O DANO O NEXO DE CAUSALIDADE CLASSIFICAÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL RESPONSABILIDADE CONTRATUAL RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL RESPONSABILIDADE SUBJETIVA RESPONSABILIDADE OBJETIVA RESPONSABILIDADE CIVIL DIRETA RESPONSABILIDADE CIVIL INDIRETA CAPÍTULO OS CONTRATOS EM GERAL EVOLUÇÃO HISTÓRICA ESCORÇO HISTÓRICO E EVOLUÇÃO PRINCÍPIOS DO DIREITO CONTRATUAL PRINCÍPIO DA AUTONOMIA DA VONTADE PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE DA CONVENÇÃO OU FORÇA OBRIGATÓRIA PRINCÍPIO DO CONSENSUALISMO PRINCÍPIO DA PROBIDADE E DA BOA-FÉ PRINCÍPIO DA RELATIVIDADE DOS CONTRATOS ELEMENTOS ESSENCIAIS DO CONTRATO PRESSUPOSTOS REQUISITOS DE VALIDADE DO CONTRATO Declaração de vontade das partes Legitimação Consentimento Vícios do consentimento... 40

8 2.5 CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS OS CONTRATOS UNILATERAIS E BILATERAIS OU SINALAGMÁTICOS OS CONTRATOS CONSENSUAIS OS CONTRATOS DE ADESÃO OU PARITÁRIOS CAPITULO A RESPONSABILIDADE CIVIL NO CONTRATO DE SEGURO ASPECTOS GERAIS A RESPONSABILIDADE CIVIL DO CONTRATO DE SEGURO A RESPONSABILIDADE CIVIL EXTRACONTRATUAL A RESPONSABILIDADE CIVIL CONTRATUAL ENTENDIMENTO LEGAL ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS DAS FONTES CITADAS... 63

9 RESUMO O tema em pesquisa explora o conteúdo abordado na área do direito civil, no sentido de analisar o Contrato de Seguro no Direito Brasileiro e a Responsabilidade Civil proveniente deste negócio jurídico. Nesse contexto verificou-se que os contratos realizam-se através do acordo entre as partes envolvidas e se dividem em diversas espécies, dentre as quais se encontra o contrato de seguro. Este é aquele pelo qual uma pessoa, ora segurado, assume com outra, ora segurador, a obrigação de indenizá-la das perdas e danos resultantes de um fato determinado, futuro e incerto. A apólice de seguro é um contrato de adesão regulado pelo Código Civil Brasileiro que possui cláusulas limitativas impostas pela parte mais forte (segurador), restando ao segurado aceitá-las em um todo sob pena de não ter o seu interesse garantido caso discorde de uma dessas cláusulas. Porém, não devemos confundir as cláusulas limitativas com as cláusulas abusivas, eis que, enquanto estas garantem ao fornecedor vantagens excessivas e que contribuem para o excessivo desequilíbrio do contrato, em desfavor do aderente e afastam a concretização da obrigação assumida, aquelas restringem a responsabilidade do fornecedor face ao objeto do contrato. Estas cláusulas abusivas, por não serem passíveis de negociação entre as partes, tipificam nitidamente que a apólice de seguro é um contrato de adesão. O Código de Defesa do Consumidor prevê em seu artigo 47 que as cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor.

10 INTRODUÇÃO A presente Monografia tem como objeto a verificação da Responsabilidade Civil no Contrato de Seguro. Tem-se como objetivo institucional o de produzir a presente pesquisa utilizando-se de todos os meios possíveis para delinear todos os conceitos referentes ao tema proposto, para obtenção do título de bacharel em direito. Para tanto, principia se, no Capítulo 1, tratando da Responsabilidade Civil discorrendo sobre sua evolução histórica para ai então conceituarmos o instituto, analisando seus pressupostos e sua larga classificação. No Capítulo 2, tratando de Contratos verificando sua evolução histórica, seu conceito legal e doutrinário, os princípios que regem os contratos, assim como seus elementos constitutivos, pressupostos e requisitos, por fim trazendo suas espécies de classificação. No Capítulo 3, apresentar-se-á um estudo acerca da Responsabilidade Civil no Contrato de Seguro, trazendo seu conceito, seu entendimento doutrinário e, para embasar a pesquisa, o posicionamento jurisprudencial adotado pelos nossos Tribunais de Justiça acerca do assunto. O presente Relatório de Pesquisa se encerra com as Considerações Finais, nas quais são apresentados pontos conclusivos destacados, seguidos da estimulação à continuidade dos estudos e das reflexões sobre a Responsabilidade Civil no Contrato de Seguro. hipóteses: Para a presente monografia foram levantadas as seguintes

11 2 Dentre as modalidades de contratos, não se resta clara em qual a apólice de seguro se enquadra. Tem-se entendido que é esse um contrato de adesão, porém, esse entendimento ainda não se formalizou o que acaba por gerar várias dúvidas com relação a matéria quando em uma revisão contratual; O Código Civil de 1916 trazia em seu texto legal que a culpa era chave fundamental para se fazer gerar a responsabilidade de indenizar: a chamada Responsabilidade Civil Subjetiva. Porém, o contrato de seguro tem como objeto o risco assumido mediante prêmio pago pelo segurado. Assim sendo, a responsabilidade não poderá ser subjetiva e sim objetiva, uma vez que materializado o risco, na forma do sinistro, caberá ao segurador o dever de indenizar. Quanto à Metodologia empregada, registra-se que, na Fase de Investigação foi utilizado o Método Indutivo, na Fase de Tratamento de Dados o Método Cartesiano, e, o Relatório dos Resultados expresso na presente Monografia é composto na base lógica Indutiva. Nas diversas fases da Pesquisa, foram acionadas as Técnicas, do Referente, da Categoria, do Conceito Operacional e da Pesquisa Bibliográfica.

12 CAPÍTULO 1 A RESPONSABILIDADE CIVIL 1.1 A EVOLUÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL Para dar início ao conceito de Responsabilidade Civil, devese primeiramente conhecer a sua evolução histórica para daí então aprofundar o estudo. Antes de ser um instituto jurídico, a responsabilidade é um fato, uma realidade social, onde as pessoas de forma natural e espontânea tendem a reagir frente á agressões injustas. Nos primórdios da civilização, sob a régia da Lei de Talião, o homem fazia justiça pelas próprias mãos, ou seja, a vingança privada, ou ainda havia a vingança coletiva onde a sociedade se voltava contra o agressor. Esses eram os meios pelas quais se solucionavam as agressões. Comenta Diniz 1, que: Na Lei das XII Tábuas, aparece significativa expressão desse critério na tábua VII, lei 11ª: "si membrum rupsit, ni cum eo pacit, talio esto" (se alguém fere a outrem, que sofra a pena de Talião, salvo se existiu acordo). A responsabilidade era objetiva, não dependia da culpa, apresentando-se apenas como uma reação do lesado contra a causa aparente do dano. Segundo Nalin 2, "no Direito Romano, desde a época 1 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. 16 ed. São Paulo: Saraiva, p NALIN, Paulo Roberto Ribeiro. Responsabilidade Civil Descumprimento do Contrato e Dano Extrapatrimonial. Curitiba: Juruá, p. 22.

13 4 clássica, a responsabilidade civil se notabilizava por atos ilícitos, contratuais e delituais, que acarretavam o pagamento de certa quantia em dinheiro ao ofendido, chamada de poena". quatro espécies: Para Nalin 3, os delitos, naquela época, eram divididos em a) A injuria: é a que conservou sua essência original ao longo dos tempos, do período clássico ao Império, onde se proporcionava à vítima tanto a oportunidade de vingança quanto a de reparação. b) O furtum: ao contrário da injuria, nunca proporcionou à vítima uma vingança contra o ofensor, mas tão-só a composição pecuniária. c) O damnun injuria datum: de maneira mais genérica, eram todos os danos materiais causados à propriedade alheia. d) A rapina: que designava a subtração de coisa alheia mediante violência, foi criada para suprir a pouca severidade da Lex Aquilia quanto ao damnun. Argumenta Diniz 4, que "a Lex Aquilia de damnun, estabeleceu as bases da responsabilidade extracontratual, criando uma forma pecuniária de indenização do prejuízo, com base no seu valor". Esta Lei baseia-se na noção de culpa como fundamento da responsabilidade, onde se o agente agiu sem culpa, estaria isento de qualquer responsabilidade. Desta maneira, podemos ver a marcha da evolução produzida no conceito de Responsabilidade, segundo LOPES 5, marcada por essas etapas: 3 NALIN, Paulo Roberto Ribeiro. Responsabilidade Civil Descumprimento do Contrato e Dano Extrapatrimonial. p DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p LOPES, Miguel Maria de Serpa. Curso de Direito Civil. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, p.165.

14 5 1 ) responsabilidade puramente objetiva, em razão da solidariedade do grupo e da concepção política que então preponderava; 2 ) o abandono noxal (troca de um sistema político para outro de caráter jurídico) entregou o indivíduo causador do prejuízo à mercê da vítima, sem mais a proteção da solidariedade do seu próprio grupo, situação que propiciou uma defesa individual e a idéia de inimputabilidade, diante de certas circunstâncias; 3 ) com o tempo, processou-se uma conciliação entre a responsabilidade objetiva e a subjetiva, favorecida pelo fato da lex aquilia ter silenciado ou não previsto, expressis verbis, os fatos involuntários dando margem à responsabilidade, tendo sido esta transação, na realidade, o fator preponderante do nascimento da idéia de culpa. Afirma Diniz 6, que "na Idade Média, com a estruturação da idéia de dolo e de culpa stricto sensu, seguida de uma elaboração da dogmática da culpa, distinguiu-se a responsabilidade civil da pena". Ressalta Lopes 7, que "a noção de responsabilidade civil no Direito moderno ainda é preponderantemente calcada na idéia de culpa". Assim procedeu o atual Código Civil italiano, onde o princípio geral dominante (art ) é o de que todo fato doloso ou culposo, que ocasiona a outrem um prejuízo injusto, obriga ao que o perpetrou o dano. O Código Civil da Grécia firmou igualmente o princípio da culpa como fundamento da responsabilidade civil. O Código Civil egípcio, de 1948, que sofreu a influência das diversas legislações vigentes ao tempo de sua elaboração, rejeitou a teoria do risco para se filiar nitidamente à idéia da culpa. Igualmente o critério do Direito francês, que desde 6 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p LOPES, Miguel Maria de Serpa. Curso de Direito Civil, p

15 6 anteriormente ao Código de 1804, tem sido fiel ao princípio da culpa, como dita o art 1.382, que estabelece a responsabilidade por todo fato do homem que representa uma culpa. A responsabilidade civil no Direito brasileiro, apesar de ter tido forte inclinação para a teoria do risco, ou seja, responsabilidade objetiva, com o Decreto Legislativo n promulgado na data de 17 de dezembro de 1912, acolheu a teoria da culpa em seu artigo 159 8, estabelecido no Código Civil de O Código Civil de 2002 em seu artigo 186 9, manteve a doutrina subjetiva como fundamento principal da responsabilidade civil. Inovou ao apresentar um princípio geral para a responsabilidade objetiva, em seu artigo , parágrafo único CONCEITO DE RESPONSABILIDADE CIVIL Estabelecer o conceito de responsabilidade civil é uma tarefa árdua devido às divergências doutrinárias, no entanto, majoritariamente tem-se entendido como a reparação de um dano causado a outrem. Comenta Diniz 12, que: O vocábulo "responsabilidade" é oriundo do verbo latino 8 Código Civil de 1916, artigo 159: "Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito, ou causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano. A verificação da culpa e a avaliação da responsabilidade regulam-se pelo disposto neste Código, arts a 1532 e 1537 a 1553". 9 Código Civil de 2002, artigo 186: "Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito". 10 Código Civil de 2002, artigo 927: Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo". 11 Código Civil de 2002, artigo 927, parágrafo único: Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. 12 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p. 33.

16 7 respondere, designando o fato de ter alguém se constituído garantidor de algo. Tal termo contém, portanto, a raiz latina spondeo, fórmula pela qual se vinculava, no direito romano, o devedor nos contratos verbais. Afirma Pereira 13 : A responsabilidade civil consiste na efetivação da reparabilidade abstrata do dano em relação a um sujeito passivo da relação jurídica que se forma. Reparação e sujeito passivo compõem o binômio da responsabilidade civil, que então se enuncia como o princípio que subordina a reparação à sua incidência na pessoa do causador do dano. Não importa se o fundamento é a culpa, ou se é independente desta. Em qualquer circunstância, onde houver a subordinação de um sujeito passivo à determinação de um dever de ressarcimento, aí estará a responsabilidade civil. Argumenta Rodrigues 14, que "a responsabilidade civil vem definida como a obrigação que pode incumbir uma pessoa a reparar o prejuízo causado a outra, por fato próprio, ou por fato de pessoas". Enfatizando as figuras das chamadas responsabilidades civis objetivas e subjetivas, conceitua Lopes 15 que: Responsabilidade significa a obrigação de reparar um prejuízo, seja por decorrer de uma culpa ou de uma outra circunstância legal que a justifique, como a culpa presumida, ou por uma circunstância meramente objetiva. Ensina Diniz 16 que: A responsabilidade civil é a aplicação de medidas que obriguem 13 PEREIRA, Caio Mário da Silva Pereira. Responsabilidade Civil. Rio de Janeiro: forense, p RODRIGUES, Silvio. Direito Civil. 30 ed. São Paulo: Saraiva, p LOPES, Miguel Maria de Serpa. Curso de Direito Civil, p DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p. 34.

17 8 uma pessoa a reparar dano moral ou patrimonial causado a terceiros, em razão de ato por ela mesma praticado, por pessoa por quem ela responde, por alguma coisa a ela pertencente ou de simples imposição legal. Stoco 17 responsabilidade à idéia de obrigação e leciona:, por sua vez, aproxima a definição de Responsável, responsabilidade, assim como, enfim, todos os vocábulos cognatos, exprimem idéia de equivalência de contraprestação, de correspondência. É possível, diante disso, fixar uma noção, sem dúvida ainda que imperfeita, de responsabilidade, no sentido de repercussão obrigacional (não interessa investigar a repercussão inócua) da atividade do homem. Como esta varia até o infinito, é lógico concluir que são espécies de responsabilidade, conforme o campo que se apresenta o problema: na moral, nas relações jurídicas, de direito público ou privado. A responsabilidade não é fenômeno exclusivo da vida jurídica, antes se liga a todos os fenômenos da vida social. A Responsabilidade Civil é um fenômeno social, ou seja, algo que se origina e se oriunda da vida em sociedade. Conceitua-se como a obrigação imposta ao lesante em reparar os danos causados a outrem, seja através do ressarcimento da coisa in natura ou através do pagamento de quantia monetária correspondente à lesão causada. Tem-se por objetivo a restauração do status quo ante, ou seja, da situação fática anterior, e a restauração do equilíbrio social, econômico e jurídico rompidos pelo prejuízo, tendo-se como garantia do adimplemento o patrimônio do agente lesante. Devemos observar que muito mais importante que o ato ilícito que causou o dano, é o fato de que esse dano deve se ressarcido. 17 STOCO, Rui. Responsabilidade Civil e sua Interpretação Jurisprudencial. 4 ed. São Paulo: RT, p. 45.

18 9 1.3 PRESSUPOSTOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL A Conduta A conduta é um ato humano, comissivo ou omissivo, lícito ou ilícito, onde a responsabilidade do agente pode defluir de ato próprio, de ato de terceiro que esteja sob a responsabilidade do agente, e ainda de danos causados por coisas que estejam sob a guarda deste. Portanto apenas o homem, por si ou por meio das pessoas jurídicas que forma, poderá ser civilmente responsabilizado. Para Rodrigues 18 : A responsabilidade por ato próprio se justifica no próprio princípio informador da teoria da reparação, pois se alguém, por sua ação pessoal, infringindo dever legal ou social, prejudica terceiro, é curial que deva reparar esse prejuízo. A responsabilidade por ato de terceiro ocorre quando uma pessoa fica sujeita a responder por dano causado a outrem não por ato próprio, mas por ato de alguém que está, de um modo ou de outro, sob a sujeição daquele. Sobre o tema, comenta Serrano Júnior 19, que: A conduta omissiva tem natureza normativa. Do nada, nada surge. Assim, a omissão tem relevância para o direito, quando importa na inobservância de um dever de agir. Atribui-se sua responsabilidade pela não prática de um certo ato que deveria realizar. Como exemplo temos a inexecução de uma obrigação contratual. Argumenta Diniz 20, "para que haja dever de ressarcir prejuízo, será preciso que o fato gerador possa ser imputável ao seu autor, isto é, que seja oriundo de sua atividade consciente. 18 RODRIGUES, Silvio. Direito Civil, p SERRANO JÚNIOR, Odoné. Responsabilidade Civil do Estado por Atos Judiciais. 9 ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002., p DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p. 41.

19 10 Um dos principais pressupostos da Responsabilidade Civil é a existência do nexo causal entre o ato e o dano por ele gerado. Para se caracterizar a conduta, ela sempre deve ser voluntária, ou seja, tem que ser controlável pela vontade do homem Imputabilidade A imputabilidade é a possibilidade de responsabilizar determinada pessoa a prática de uma conduta, responsabilidade esta que exige a prova de que o comportamento do agente causador do dano tenha sido doloso ou pelo menos culposo. Nos ensina Venosa 21, Imputar é atribuir a alguém a responsabilidade por algum fato ou ato. Desse modo, a imputabilidade é pressuposto não só da culpa, mas da própria responsabilidade. Ensina Diniz 22, que: A imputabilidade, elemento constitutivo de culpa, é atinente às condições pessoais (consciência e vontade) daquele que praticou o ato lesivo, de modo que consiste na possibilidade de se fazer referir um ato a alguém, por proceder de uma vontade livre. Assim, são imputáveis a uma pessoa todos os atos por ela praticados, livre e conscientemente. Portanto, Ter-se-á imputabilidade, quando o ato advier de uma vontade livre e capaz. Leciona Serrano Júnior 23, que: Não obstante, pelo sistema jurídico pátrio, o fato do ato ser praticado por menor de 16 anos, inimputável do ponto de vista do direito civil, não afasta desde logo, o direito de indenização a que tem direito o lesado. Seja o menor imputável ou não, o ato ilícito por ele praticado acarreta a responsabilidade da pessoa (pai ou tutor) a quem incumbe sua vigilância (Código Civil 1916 art , I e II, Código Civil 2002 art. 932, I e II), com fundamento na culpa 21 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: responsabilidade civil. 4. ed. São Paulo: Atlas, p DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p SERRANO JÚNIOR, Odoné. Responsabilidade Civil do Estado por Atos Judiciais, p. 24.

20 11 in vigilando. Consoante ensina Monteiro 24, "essa culpa é presumida pelo legislador, de modo que só não responderá o pai ou tutor, pelo ato praticado pelo filho ou pupilo, se provar não ter agido com culpa". A imputabilidade do agente, dar-se-á por seus atos advindos de uma vontade livre e capaz de praticá-los, logo, dessa conduta surge a obrigação de indenizar o agente lesado O Dano O dano é peça chave para a existência da Responsabilidade Civil, sem um dano a ser reparado, o instituto da Responsabilidade Civil não se contempla. O dano consiste na diminuição ou destruição de um bem jurídico patrimonial ou moral pertencente a uma pessoa. Sito Venosa 25 : Dano consiste no prejuízo sofrido pelo agente. Pode ser individual ou coletivo, moral ou material, ou melhor, econômico ou não. Na noção de dano está sempre presente a noção de prejuízo. Nem sempre a transgressão de uma norma ocasiona dano. Somente haverá possibilidade de indenização, como regra, se o ato ilícito ocasionar dano. Observando o ensinamento acima define Diniz 26 : Não pode haver responsabilidade civil sem a existência de um dano a um bem jurídico, sendo imprescindível a prova real e concreta dessa lesão. Deveras, para que haja pagamento da indenização pleiteada é necessário comprovar a ocorrência de um dano patrimonial ou moral, fundados não na índole dos direitos subjetivos afetados, mas nos efeitos da lesão jurídica. Ensina Bittar 27 : 24 MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de Direito Civil: direito das obrigações. 31. ed. São Paulo: Saraiva, p VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: responsabilidade civil, p DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p. 55.

21 12 O dano é prejuízo ressarcível experimentado pelo lesado, traduzindo-se, se patrimonial, pela diminuição patrimonial sofrida por alguém em razão de ação deflagrada pelo agente, mas pode atingir elementos de cunho pecuniário e moral. É a responsabilidade civil, portanto, a obrigação de reparar danos, onde a extensão do dano é que determina o quantum indenizatório, ou seja, a indenização não deve proporcionar um enriquecimento indevido da vítima, assim como não deve ser insuficiente para reparar o dano, devendo corresponder, exatamente ao prejuízo, tarefa esta mais complexa, quando se tratar de danos morais. Assim, para que haja dano indenizável, será imprescindível a ocorrência dos seguintes requisitos, conforme denota Diniz 28 : Diminuição ou destruição de um bem jurídico, patrimonial ou moral, pertencente a uma pessoa, pois a noção de dano pressupõe a do lesado. Se alguém atropelar uma pessoa, os danos causados podem consistir na privação da vida da vítima do acidente, nos ferimentos, na amputação de órgãos, nas deformações estéticas, na incapacitação física ou intelectual, inutilização do vestuário etc. Se alguém caluniar outrem, os danos poderão consistir na afetação do bom nome do caluniado, na perda do emprego ou de algum negócio, na doença nervosa que o atingido contrai etc. Todo prejuízo é o dano a alguém. Efetividade ou certeza do dano, pois a lesão não poderá ser hipotética ou conjetural. O dano deve ser real e efetivo, sendo necessária sua demonstração e evidência em face dos acontecimentos e sua repercussão sobre a pessoa, ou patrimônio desta, salvo nos casos de dano presumido. Causalidade, já que deverá haver uma relação entre a falta e o prejuízo causado, ou seja, o dano deverá estar encadeado com a causa produzida pelo lesante. O dano poderá ser direto ou indireto 27 BITTAR, Carlos Alberto. Curso de Direito Civil. São Paulo: Saraiva, p DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p

22 13 em relação ao fato gerador. Subsistência do dano no momento da reclamação do lesado. Se o dano já foi reparado pelo responsável, o prejuízo é insubsistente, mas, se o foi pela vítima, a lesão subsiste pelo quantum da reparação. Legitimidade, pois a vítima, para que possa pleitear a reparação, precisará ser titular do direito atingido. Os titulares poderão ser os lesados, ou seus beneficiários, isto é, pessoas que dele dependam ou possam reclamar alimentos. Ausência de causas excludentes de responsabilidade, porque podem ocorrer danos, que não resultem dever ressarcitório. Assim, para haver reparação civil é indispensável à prova real e concreta da lesão ao bem ou interesse juridicamente protegido por nosso ordenamento O nexo de causalidade Além do dano, outro fator indispensável para a Responsabilidade Civil é a relação de causalidade, portanto, o nexo de causalidade é o vínculo, que liga o dano à conduta ou atividade explorada pelo agente. Conceitua Venosa 29 : O conceito de nexo causal, nexo etiológico ou relação de causalidade deriva das leis naturais. É o liame que une a conduta do agente ao dano. É por meio do exame da relação causal que concluímos quem foi o causador do dano. Trata-se de elemento indispensável. A responsabilidade objetiva dispensa a culpa, mas nunca dispensará o nexo causal. Afirma Rodrigues 30, que: Para que surja a obrigação de reparar, mister se faz a prova de existência de uma relação de causalidade entre a ação ou 29 VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: responsabilidade civil, p RODRIGUES, Silvio. Direito Civil, p. 17.

23 14 omissão culposa do agente e o dano experimentado pela vítima. Se a vítima experimentar um dano, mas não se evidenciar que este resultou do comportamento ou da atitude do réu, o pedido de indenização formulado por aquela deverá ser julgado improcedente. Explica Serrano Júnior 31, que: Trata-se de elemento cuja presença é inexorável, quer no âmbito da responsabilidade subjetiva, quer na seara da responsabilidade objetiva. Em sede da segunda modalidade de responsabilidade, que dispensa a culpa, basta estar presente o vínculo causal entre o fato lesivo (fato decorrente da atividade de risco explorada pelo agente) e o dano injusto para exsurgir o dever de indenizar. Nos casos de responsabilidade pela modalidade subjetiva, à prova do dano indenizável, da conduta imputável ao responsável (ou agente seu), e do nexo causal entre ambos, se acresce o plus da caracterização da culpa. Argumenta Diniz 32, que "a obrigação de indenizar, em regra, não ultrapassa os limites traçados pela conexão causal, mas o ressarcimento do dano não requer que o ato do responsável seja a única causa do prejuízo". Nada obsta, como nos ensina Lopes 33, que: Haja imputabilidade sem nexo causal, p. ex., se A der veneno a B, e B, antes da bebida produzir efeito, vier a falecer em razão de um colapso cardíaco. Houve culpa, mas não houve nexo de causalidade. Portanto, o nexo causal diz respeito a elementos objetivos, consistentes na ação ou omissão do sujeito, atentatória do direito alheio, produzindo dano material ou moral, haja vista que a imputabilidade diz respeito a elementos subjetivos. 31 SERRANO JÚNIOR, Odoné. Responsabilidade Civil do Estado por Atos Judiciais, p DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p LOPES, Miguel Maria de Serpa. Curso de Direito Civil, p.219.

24 CLASSIFICAÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL Responsabilidade Contratual A responsabilidade contratual decorre da violação de uma obrigação acordada pelos contraentes em um contrato ou negócio jurídico, negócio esse que é de conhecimento de ambas as partes. Para Nalin 34 : A responsabilidade contratual, também dita negocial ou obrigacional, consiste justamente na não violação de um dever contratual, previamente estabelecido em contrato que não deve ser quebrado pelo sujeito contratual. Define Diniz 35, que: A responsabilidade contratual, se oriunda de inexecução de negócio jurídico bilateral ou unilateral. Resulta, portanto, de ilícito contratual, ou seja, de falta de adimplemento ou da mora no cumprimento de qualquer obrigação. É uma infração a um dever especial estabelecido pela vontade dos contraentes, por isso decorre de relação obrigacional preexistente e pressupõe capacidade para contratar. No entender de Carvalho Neto 36, "a responsabilidade civil é chamada de contratual quando derivar de um descumprimento contratual". Para melhor compreensão acerca do assunto e já exemplificando o fenômeno Rodrigues 37, cita como exemplo, "quando um artista, contratado para uma série de apresentações, recusa-se a dar um ou mais dos recitais combinados, fica ele sujeito a reparar as perdas e danos experimentados pelo empresário". 34 NALIN, Paulo Roberto Ribeiro. Responsabilidade Civil Descumprimento do Contrato e Dano Extrapatrimonial, p DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro, p CARVALHO NETO, Inácio de. Responsabilidade do Estado por atos de seus agentes. São Paulo: Atlas, p RODRIGUES, Silvio. Direito Civil, p. 09.

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