INTEGRAÇÃO DAS DIFERENTES POLÍTICAS PÚBLICAS RELACIONADAS À PROTEÇÃO DA ÁGUA E SAÚDE: UM OLHAR A PARTIR DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O PAPEL DOS MUNICÍPIOS

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1 INTEGRAÇÃO DAS DIFERENTES POLÍTICAS PÚBLICAS RELACIONADAS À PROTEÇÃO DA ÁGUA E SAÚDE: UM OLHAR A PARTIR DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O PAPEL DOS MUNICÍPIOS Cleci Teresinha Noara Assistente Social Fundação Agência de Água do Vale do Itajaí Mestre em Desenvolvimento Regional Tatiana Montebeller Ecóloga Fundação Agência de Água do Vale do Itajaí INTRODUÇÂO A necessidade de uma gestão bem estruturada com políticas, programas e projetos em funcionamento é fundamental para responder aos problemas existentes, indiferente do setor, seja ele, econômico, social ou ambiental. Porém, isso não é o suficiente, fazendo-se necessário também olhar a forma com que as políticas são implementadas. É comum encontrar políticas e programas que buscam o mesmo objetivo, mas, na maioria das vezes não são pensados de forma integrada. A integração de políticas e programas é uma estratégia que permite responder aos problemas e atingir os objetivos de maneira mais eficiente. Um exemplo, vislumbrado nesta direção, são as discussões em torno da temática saúde e meio ambiente, quando a idéia central para a eficiência dessas políticas é pensá-las de forma integrada. Essas discussões tiveram início nos compromissos internacionais assumidos pelos países, em eventos como Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (ECO-92, Rio de Janeiro, 1992), a Conferência Panamericana sobre Saúde e Ambiente no Desenvolvimento Humano Sustentável (Washington, D.C., 1995) e as Reuniões de Cúpula de Santa Cruz de La Sierra (Bolívia, 1996) e Santiago (Chile, 1998) assim como, nas conferências internacionais sobre saúde nas cidades de Alma-Ata em 1978 na Rússia; Ottawa em 1986 no Canadá; Adelaide em 1988 na Austrália; Sundsvall em 1991 na Suécia; Santa Fé de Bogotá em 1992, na Colômbia e, Jacarta em 1997 na Indonésia, que também desenvolveram um interesse público cada vez maior sobre a questão da ameaça ao meio ambiente global. Em todas as conferências, os pontos comuns a serem considerados ao tratar de políticas públicas dizem respeito ao

2 desenvolvimento de parcerias para a construção da paz, respeitando os direitos humanos, a justiça social, a ecologia, o desenvolvimento sustentável, a participação e a responsabilidade da sociedade na formulação de políticas numa abordagem intersetorial, em todo o planeta (MINISTERIO DA SAUDE, 2002). No Brasil, o marco fundamental da qualidade de vida e saúde a partir da preservação ambiental, é o artigo 225 da Constituição Federal (1988), que estabelece que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Ainda relacionado ao marco constitucional, outro artigo importante é o 196, que se refere à saúde como um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, 1988). Amparadas pela Constituição Federal (1988), inúmeras políticas defendem a proteção do meio ambiente, atribuindo a este a qualidade vida e a saúde, tais como: - O Sistema Único de Saúde (SUS), Lei nº 8.080/90, que dá ao SUS atribuição na participação e formulação da política e na execução de ações de saneamento, colaboração na proteção do meio ambiente, ações de vigilância sanitária, de vigilância epidemiológica e a fiscalização e a inspeção de alimentos, água e bebidas para consumo humano. Dentre os seus princípios, destaca-se o artigo 7º inciso X sobre a integração das ações de saúde, meio ambiente e saneamento. - A Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), Lei federal nº 6938/1981, que tem por objetivo a preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida. - A Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), Lei federal nº 9.433/1997, que tem como objetivo assegurar as atuais e futuras gerações a necessária disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequada aos respectivos usos, com vistas ao desenvolvimento sustentável. - A Política Nacional de Saneamento Básico (PNSB), Lei /07, que tem por objetivo minimizar os impactos ambientais relacionados à implantação e ao desenvolvimento das ações de saneamento básico e assegurar a proteção do meio ambiente, a promoção da saúde e outros de relevante interesse social, voltados para a melhoria da qualidade de vida. A integração das políticas e ações em prol do meio ambiente e do saneamento refletem diretamente na saúde da população.

3 - A Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), Lei nº 9795/1999, que tem como um dos principais objetivos o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos. A educação ambiental é entendida como o conjunto de processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. Portanto, a busca pela proteção da água não pode ser pensada desvinculada de outros setores como saúde, saneamento, meio ambiente entre outros que interferem diretamente na qualidade deste recurso, e consequentemente, o planejamento e as ações devem associar-se às demais políticas e programas, permitindo sua integração. Com essa perspectiva, o Projeto Piava, iniciativa do Comitê do Itajaí, executado pela Fundação Agência de Água do Vale do Itajaí com patrocínio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Ambiental, está fomentando o envolvimento de profissionais da saúde com atividades de educação ambiental, com base nas políticas aqui discutidas. A EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM SAÚDE: UMA ESTRATÉGIA DE INTEGRAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS AMBIENTAIS Nota-se que a importância do aparato legal é imprescindível quando se fala de políticas públicas. Porém, apenas um arcabouço jurídico por si só não é o suficiente. Indiferente de qual seja o nível de competência, cada vez mais se torna essencial, além da estrutura formal, que os atores sociais que fazem parte do cenário da gestão das diferentes políticas dialoguem entre si, de modo que seu trabalho possa ser convergente em temas de interesse comum. A educação ambiental pode ser a peça-chave para estabelecer as interrelações e proporcionar um trabalho mais integrado entre diferentes órgãos, principalmente no âmbito municipal. Carvalho (1992) reconhece a importância da educação na mudança social, porém, destaca que convém tratá-la como uma entre outras praticas sociais, capazes de compor uma estratégia integrada de mudança social e não como uma pratica isolada ou determinante no processo de transformação das relações de poder na sociedade. Segundo

4 Reigota (1994), a educação ambiental deve procurar incentivar o indivíduo a participar ativamente da resolução dos problemas no seu contexto, na sua realidade específica. A Política Nacional de Meio Ambiente tem, como princípio, a educação ambiental em todos os níveis de ensino, inclusive a educação da comunidade, com o objetivo de capacitar para a participação ativa na defesa do meio ambiente. Seu primeiro objetivo é desenvolver uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações e, como segundo objetivo, estimular e fortalecer uma consciência crítica sobre a problemática ambiental. No âmbito do Sistema Único de Saúde SUS considera-se a Educação Permanente como conceito pedagógico, para efetuar relações orgânicas entre ensino, ações e serviços, entre docência e atenção à saúde. Tanto que a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), definida pela Portaria 1996/ 2007, e que estabelece as diretrizes para a implementação da PNEPS, considera as especialidades, as desigualdades, as necessidades de formação e desenvolvimento para o trabalho em saúde nas regionais, por meio do Plano de Ação Regional de Educação Permanente em Saúde. É uma proposta de ação estratégica que visa a contribuir para transformar e qualificar as práticas de saúde, organizar suas ações e serviços, como também os processos formativos e as práticas pedagógicas na formação e desenvolvimento dos trabalhadores desta área. A Organização Pan-Americana da Saúde (1999), diz que o setor da saúde está com um novo desafio de integração de estratégias intersetoriais e de participação social na construção de espaços saudáveis por meio da Atenção Primaria Ambiental APA que pode vir a complementar a Estratégia de Saúde da Família. Para a Organização, a APA é uma estratégia de ação ambiental, basicamente preventiva e participativa em nível local, que reconhece o direito do ser humano de viver em um ambiente saudável e adequado e, a ser informado sobre os riscos do ambiente em relação a saúde, bem-estar e sobrevivência, ao mesmo tempo que define suas responsabilidades e deveres em relação a proteção, conservação e recuperação do ambiente e da saúde. Para colocar em prática a Atenção Primária Ambiental deverão ser criados os Centros de Atenção Primária Ambiental CAPA, localizados nas comunidades locais junto às unidades de atenção primária da saúde, centros de saúde e contar com a participação da população local e a coordenação do município. A atenção primária ambiental propõe fortalecer os organismos estatais responsáveis pela saúde e meio ambiente e espera um maior ajuste e diálogo com o nível local e a sociedade civil. Para isso pretende que a

5 integração entre o governo e o nível local crie um efeito multiplicador em benefício da saúde e do meio ambiente (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 1999). É desafiadora essa proposta da Organização Pan-Americana da Saúde, pois, requer esforços para atender e integrar as ações voltadas para a saúde humana e o meio ambiente, tarefa que demarca reorientação na estrutura pública, profissionais qualificados e decisão política. Para colocá-la em prática seria necessário efetuar ajustes nos processos de tomada de decisão, a fim de integrar os diversos atores sociais e os fatores econômicos aos sociais, para que a saúde e o meio ambiente se situam no centro do processo de tomada de decisão, quem sabe levando assim ao que se denomina de desenvolvimento sustentável. O sucesso da estratégia depende de decisão do setor público e um processo de educação ambiental efetivo para que haja a transformação da sociedade referente à participação nas tomadas de decisão. A COMPETÊNCIA MUNICIPAL NAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE PROTEÇÃO DA ÁGUA E DE SAÚDE Quando se trata de responsabilidades na administração pública, a referência é o Art. 23 da Constituição Federal (1988), que promoveu o processo de descentralização atribuindo aos entes federados (União, Estados e Municípios) competências na execução das políticas públicas de acordo com cada nível de atuação Federal, Estadual e Municipal. No que diz respeito à proteção ambiental, o Art. 23 lembra que é Competência Comum dos entes Federados o combate à poluição em qualquer de suas formas, e à preservação das florestas, fauna e flora. No município essa competência fica ainda mais evidente pois o Art. 30 da Constituição reforça a ação municipal no que se refere à preservação ambiental, inclusive legislar sobre assuntos de interesse local e suplementar às legislações federal e estadual, no que couber. Deste modo, nota-se que na execução de políticas públicas locais como de proteção da água, proteção do meio ambiente, saúde, saneamento, educação ambiental, o município exerce um papel fundamental, tendo em vista que é no espaço do município que as coisas acontecem, e dentro do seu âmbito de atuação devem ser respondidas as demandas existentes. Consideremos, como exemplo, o papel do município com relação à proteção da água. Durante o processo de ocupação e uso do solo, que possue grande interferência nos recursos hidricos, o Município tem competência firmada pelo Art. 182 da Constituição

6 Federal (sobre a política de desenvolvimento urbano), para exerecer o planejamento e controle da ocupação dos espaços no território municipal e atuar com prioridade para a proteção de áreas com função ambiental e hídrica. No saneamento básico, a competência municipal é clara no Art. 23, inciso IX, da Constituição Federal (1988), evidenciando o desenvolvimento de programas de construção de moradias e de melhoria das condições habitacionais e de saneamento básico como uma competência comum entre os entes federados, neste caso também o Município. Na prestação de serviços à saúde, o município é responsável em atender toda a população de forma universal, igualitária e integrada, obedecendo as diretrizes do SUS. Quando se trata das ações em saúde remete-se ao Art. 18 da Lei 8080/90, que aponta a competência do município no acompanhamento, avaliação e divulgação do nível de saúde da população e as condições ambientais; participação da formulação da política e execução das ações de saneamento básico e colaboração na proteção e recuperação do meio ambiente; proposição de convênios, acordos e protocolos internacionais relativos à saúde, saneamento e meio ambiente (BRASIL, 1990). Sendo o município o espaço mais próximo da vivência, interação e afinidade com os cidadãos, é o ente federativo que tem maior possibilidade de buscar a sensibilização da população a criar outros hábitos, a desenvolver posturas que incluam a proteção do meio ambiente. Por isso, no âmbito da educação ambiental, o município tem como possibilidade, inclusive, criar uma política municipal de educação ambiental, e executar ações que fortaleçam o processo educativo. CONSIDERAÇÕES FINAIS De acordo com o que foi visto no decorrer deste trabalho, nota-se que é imprescindível que o planejamento e as ações de proteção da água e de saúde devem ser pensados integradamente. A integração de políticas e programas pode ser uma estratégia que permite responder aos problemas e atingir os objetivos de maneira mais eficiente. Na perspectiva de uma gestão integrada e participativa, voltada para os recursos hídricos da bacia do Itajaí, o Comitê do Itajaí, através do Projeto Piava, vem trabalhando em duas frentes: a) no âmbito da bacia hidrográfica, com a construção do Plano da Bacia do Itajaí, que é o mais importante instrumento de gestão da Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH), pois estabelece a política de água na bacia, orienta os usos da água e

7 estabelece as prioridades de ação do Comitê, de modo que essas ações sejam integradas com as ações municipais; b) no âmbito do município: a fim de fortalecer a esfera municipal, ações tais como oficinas de integração municipal, cursos de capacitação em educação ambiental, pré-conferências de saneamento básico, vêm sendo desenvolvidas. Políticas públicas em âmbito municipal também são fortemente fomentadas. Uma política municipal de educação ambiental está em discussão e um programa de recuperação da mata ciliar. Ambas trazem em seu conteúdo a perspectiva de integração entre as diferentes secretarias municipais e os atores sociais envolvidos. Considerando que, a efetividade de uma política depende do comprometimento dos gestores e da participação dos atores sociais envolvidos, as ações do Projeto Piava vislumbram o fortalecimento das relações entre os diferentes atores no município. Para fomentar esse trabalho de integração novas parcerias são essenciais. Um exemplo neste sentido são as três Comissões de Integração Ensino-Serviço CIES do Vale do Itajaí. As CIES possuem competência para articular as políticas e programas de saneamento, saúde e meio ambiente (BRASIL, 1990) e se dispõe a colaborar na articulação proposta pelo Projeto Piava com os profissionais da saúde. Enfim, ao desenvolver políticas públicas que convergem para a preservação da água e a saúde da população, é fundamental que o município fomente a sua integração, através do diálogo entre as suas secretarias titulares e equipes, de modo que o planejamento e a execução das ações possam considerar todos os aspectos que envolvem o meio ambiente e a saúde local. REFERÊNCIAS BRASIL. CONSTITUIÇÃO (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, p. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Lei 9795 de 27 de abril de Política Nacional de Educação Ambiental. BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1.996, de 20 de agosto de Política Nacional de Educação Permanente em Saúde. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de Política Nacional do Meio Ambiente. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Lei nº de janeiro de Política Nacional de Recursos Hídricos. BRASIL. Ministério das Cidades. Lei nº , de janeiro de Política Nacional de Saneamento Básico.

8 BRASIL. Ministério da Saúde. Lei nº de 19 de setembro de Política Nacional do SUS. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Projeto Promoção da Saúde. As Cartas da Promoção da Saúde. Brasília: CARVALHO I.C. Educação e meio ambiente e ação política. In.: ASCELARD, H. (org) Meio ambiente e democracia. Rio de janeiro. IBASE, ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAUDE. Atenção Primaria Ambiental - APA. Washington, DC, REIGOTA, M. O que é educação ambiental. São Paulo: Brasiliense, 1994.

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