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1 CRISE E TRANSFORMAÇÃO INTRODUÇÃO Como indivíduo, sociedade, civilização e ecossistema, estamos em tempos de crise e, portanto, de mudança. Procurando identificar os principais agentes desta mudança actualizo Fritjof Capra ( Tempos de Mudança,1983) e enumero: - as alterações climáticas; - o declínio do paradigma do Patriarcado; - o declínio do paradigma do Cientismo. Parece-me importante ter em conta a concomitância destes três factores, mas: As alterações climáticas são já assunto do nosso quotidiano. O Patriarcado foi universalmente considerado, durante anos, como o sistema, inquestionável, de organização das sociedades. Parece-me difícil explicar as razões profundas deste paradigma 1 universal, creio mesmo que teríamos de recuar a épocas e conceitos considerados muito polémicos pelos historiadores. Proponho pois não o explicar e simplesmente aceitar como evidentes a sua existência e actual progressivo declínio. O declínio do Cientismo e o novo paradigma que começa a imergir é que é o verdadeiro tema que proponho para esta nossa conversa. Quando o presidente Lyndon B. Johnson quis ter conselhos fidedignos sobre a guerra do Vietname convocou os mais eminentes físicos teóricos, que à época eram considerados como os guardiães do verdadeiro conhecimento. Esta atitude, considerada pela inteligentsia de então como perfeitamente adequada e a que chamo cientismo, baseia-se nas seguintes crenças: 1 O filósofo da ciência Thomas S. Kuhn denominou paradigma o contexto mental através do qual vemos o mundo e decidimos nossos propósitos, os quais tendem a confirmar as crenças desse contexto, até que a realidade as revele como inadequadas. 1

2 - o método científico clássico é o único modo válido de adquirir conhecimento; - o Universo é um sistema mecânico composto de parcelas materiais elementares; - a vida em sociedade é uma competição pela sobrevivência e sucesso; - o crescimento económico e tecnológico nos providenciará um progresso material ilimitado. O MODELO DE SOROKIN DE EVOLUÇÃO DAS CULTURAS Já em 1937 o sociólogo Pitrim Sorokin previu a actual crise civilizacional e recordou-nos que os três sistemas de valores fundamentais, base de todas as manifestações de uma cultura, são: O Materialismo, que considera a matéria como realidade última e que os fenómenos espirituais são somente uma das suas manifestações. Que todos os valores éticos são relativos e que a percepção sensorial é a única fonte de conhecimento e verdade. O Idealismo, que considera que a realidade está para lá do mundo material, no mundo espiritual e que o conhecimento que realmente interessa só pode ser obtido por experiência interior. Acredita em valores éticos absolutos e em modelos supra-humanos de justiça, de verdade e de beleza. O terceiro sistema, que Sorokin chamou Ideal, é uma síntese harmoniosa entre os outros dois sistemas, segundo a qual a realidade tem aspectos sensoriais e supra sensoriais que coexistem numa vasta Unidade. As mais marcantes épocas de florescimento deste sistema são os séculos VI e V antes de J.C. e a Renascença (séc. XV e XVI). Recordando o último milénio na nossa cultura tivemos: uma cultura Idealista na Idade Média, com o desenvolvimento do Cristianismo, seguida duma época Ideal com a Renascença, a que se seguiram os séculos XVII, XVIII e XIX, progressivamente Materialistas, com Descartes, Newton e a tecnologia da Revolução Industrial. No séc. XX o pensamento Materialista começou a declinar, embora as suas consequências sociais tenham estado (e talvez ainda estejam) no seu apogeu. 2

3 Constatando a actual expansão de actividades integradoras de corpo e mente, como a Meditação, Yoga, Chi Kung, Aikido, Xamanismo, terapias energéticas e de imposição das mãos e psicoterapias com uso de estados alterados de consciência, entre outras e tendo também em conta a evolução dos sistemas de pensamento com a divulgação da Física Quântica e da Teoria Geral dos Sistemas, tudo isto me leva a concluir que estamos no início de uma nova Era Ideal, mas desta vez potenciada pelos outros dois agentes de mudança: o declínio do Patriarcado e as mudanças climáticas. CIENTISMO E PATRIARCADO A preponderância que demos ao pensamento racional está bem expressa na famosa máxima de Descartes Cogito, ergo sum Penso logo existo, que nos incita a nos identificarmos com o nosso mental, não com o nosso organismo como um todo. Fechados no mental esquecemos como pensar com o corpo, esquecemos de o usar como órgão de conhecimento. E assim também nos isolámos do nosso ambiente natural e esquecemos como comunicar e cooperar com a rica variedade dos organismos vivos. Este paradigma levou à fragmentação dos estudos académicos e justificou a tendência a considerar o ambiente natural como um conjunto de partes separadas que devem ser geridas por diferentes grupos de interesses. A exploração da Natureza acompanhou a exploração da Mulher, sempre se atribuindo relação directa entre uma e outra. Em épocas muito antigas já se considerava a Natureza e em especial a terra como uma mãe amorosa e nutritiva, mas também como uma fêmea selvagem e imprevisível. Progressivamente, com o advento do Patriarcado, a imagem da mãe amorosa e nutritiva transformou-se em imagem de passividade, enquanto que a imagem da natureza selvagem e perigosa levou ao conceito de que deve ser dominada pelo homem. Paralelamente, as mulheres foram consideradas como devendo ser passivas e submissas. Com a Física de Newton a Natureza começou a ser considerada um sistema mecânico que podia ser manipulado e explorado tal como as mulheres. É interessante notar a actual simultaneidade dos movimentos feministas e ecológicos. 3

4 Outra consequência do declínio do Patriarcado é que os homens começaram a partilhar as actividades domésticas e, mais importante que tudo, passaram a ser muito mais actuantes na educação dos filhos. Simultaneamente, como que para bem usar estas novas condições mais favoráveis, começaram a chegar bebés com altíssimo nível de individualização. Este é outro factor de transformação que julgo muito importante na verdade essas crianças são a minha maior esperança de boa evolução, mas adio este assunto para outra conversa. Actualmente começa a ser evidente que a excessiva importância atribuída ao método científico e ao pensamento analítico racional conduziu a atitudes profundamente anti-ecológicas. Na verdade o entendimento dos ecossistemas é obstruído pelo espírito cartesiano. O pensamento racional é linear, enquanto que o entendimento ecológico resulta da intuição de sistemas não lineares. Um dos aspectos do entendimento da realidade que mais tarda em ser aceite é que o facto de fazer algo bem não implica que fazer mais será fazer melhor. Os ecossistemas são sustentados por um equilíbrio dinâmico baseado em ciclos e flutuações que são processos não lineares. Assim, por exemplo, as monoculturas intensivas e extensivas e a armazenagem de resíduos radioactivos tendem a interferir nos equilíbrios naturais e a provocar, mais tarde ou mais cedo, danos irreparáveis. A consciência ecológica implica a harmonia entre o mental racional e a intuição da natureza não-linear dos seres vivos. Esta sabedoria intuitiva deve ter sido praticamente universal visto que ainda hoje é encontrada em todas as culturas ancestrais. Sabemos que a evolução biológica da espécie humana terminou há cerca de anos. Desde então não mais evoluímos sob o ponto de vista genético, o corpo e o cérebro mantêm-se essencialmente idênticos na sua estrutura e volume. A evolução verificou-se tão-somente no plano social e cultural. No que respeita à nossa cultura verifica-se uma marcada disparidade entre o desenvolvimento da potência intelectual, do conhecimento científico e da tecnologia e o desenvolvimento da sabedoria, da espiritualidade e da ética. Na verdade, os ensinamentos de Lao Tseu e de Buda, que viveram no séc. VI antes de J.C., continuam a ser considerados como muito elevados padrões de 4

5 espiritualidade e ética, que infelizmente não são preenchidos pela generalidade tanto dos indivíduos como das instituições. Continuamos a exercer o Cientismo, com o qual modificámos tão extensiva e profundamente o nosso meio ambiente que perdemos o contacto com a nossa base biológica e ecológica. Assim, já há mais de três décadas que sabemos controlar a aterragem de veículos espaciais em planetas longínquos, mas só recentemente, e com terrível atraso, começámos a controlar as emissões poluidoras dos nossos veículos e indústrias. CAUSALIDADE E TRANSFORMAÇÃO Os nossos conceitos (ou melhor dizendo os nossos preconceitos) sobre causalidade, sobre como as coisas acontecem, influenciam radicalmente nossas vidas, condicionam as nossas acções e as nossas expectativas. No entanto poucos de nós alguma vez pararam para pensar como se inter-relacionam as causas e os efeitos. Parecem-nos considerações excessivamente abstractas e rapidamente passamos às questões práticas de saber porquê e como algo deve ser feito. Os pressupostos sobre causa e efeito são tão invisíveis e omnipresentes como o ar que respiramos. Estão implícitos em qualquer visão e compreensão do que é e como funciona o mundo. Condicionam a gestão de todas as empresas e governos, a selecção dos dados experimentais e dos testes sobre os quais os cientistas obtêm as suas teorias e conclusões, os diagnósticos médicos, os objectivos religiosos e as suas práticas, etc., etc. Também as nossas vidas pessoais são afectadas pelos nossos pressupostos sobre causa e efeito. Condicionam o nosso sentimento de coerência, de como vemos o mundo e como com ele nos relacionamos. Consideramos que as coisas nos acontecem de forma aleatória e geralmente fora do nosso controle? Ou, pelo contrário, acreditamos que podemos criar condições para que a vida nos aconteça de acordo com os nossos desejos? Como dissemos no início deste capítulo, o conjunto dos pressupostos e crenças através dos quais vemos o mundo e decidimos nossos propósitos é o paradigma em que vivemos. E todos temos, mais ou menos conscientemente, uma forte necessidade de coerência, de ter razão nas nossas relações com o Mundo. Assim, geralmente, os nossos propósitos, as nossas escolhas, tendem a reforçar 5

6 os nossos pressupostos e ficamos muito perturbados quando os acontecimentos os contradizem, obrigando-nos a pôr em causa o paradigma adoptado. As profundas, talvez mesmo devastadoras, transformações desta Era estão a tornar indispensável a transformação do paradigma mais geralmente vigente na nossa cultura, para que possamos manter o nosso ecossistema e dar bom uso a nossas vidas. 6

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