José Medeiros Ferreira. os açores. na política. internacional. Elementos. l i s b o a : tinta da china M M X I

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2 os açores na política internacional

3 José Medeiros Ferreira os açores na política internacional Elementos l i s b o a : tinta da china M M X I

4 Índice uma explicação 9 capítulo i A emergência da importância internacional dos Açores contemporâneos 13 capítulo ii José Bruno Carreiro: um protagonista açoriano na cena internacional , José Medeiros Ferreira e Edições tinta da china, Lda. Rua João de Freitas Branco, 35A Lisboa Tels.: /9 Fax: E mail: Título: Os Açores na Política Internacional. Elementos Autor: José Medeiros Ferreira Revisão: Tinta da china Composição e capa: Tinta da china 1.ª edição: Fevereiro de 2011 isbn Depósito Legal n.º /11 capítulo iii Arquipélago, ilhas e zonas de influência 47 capítulo iv Onde fica Portugal nas relações luso americanas? 83 capítulo v A Revolução Autonómica ( ) e as relações internacionais 107 capítulo vi Os Açores na encruzilhada entre a América e a Europa 131 capítulo vii Os Açores como plataforma científica e tecnológica mundial 145 Notas 159 Fontes e bibliografia 171

5 Uma explicação S ou frequentemente solicitado para escrever sobre temas açorianos, o que sempre faço com gosto dentro das disponibilidades do tempo e do saber de que disponho. Por outro lado, há mais de uma década que colaboro no Mestrado de Relações Internacionais ministrado na Universidade dos Açores, tendo assim inúmeras ocasiões de conviver com docentes e discentes daquela instituição. Pouco a pouco cresceu em mim a ideia de reunir em livro parte do resultado desse labor, que é afinal, em larga medida, um trabalho conjunto e interactivo. Este livro é, de alguma forma, uma espécie de homenagem à «vontade de cultura» patente em vários sectores da sociedade açoriana, a muitos dos seus vultos intelectuais e, concretamente, à Universidade dos Açores e aos seus professores e estudantes, sobretudo os do Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais, como se exemplifica pelas citações de trabalhos realizados no âmbito dos cursos em Relações Internacionais daquela universidade. Deste ponto de vista, o presente livro sobre Os Açores na Política Internacional é o simétrico de uma das minhas últimas obras, Cinco Regimes na Política Internacional 1. Nele sintetizei muita da investigação que produzi na Universidade Nova de Lisboa; no livro que agora abro, aproveito e elaboro sobre muita da minha participação na Universidade dos Açores. Um testemunho público, [9]

6 josé medeiros ferreira os açores na política internacional se bem que parcelar, da minha actividade como professor universitário que nunca se pretendeu academicista. Por isso sempre preferi o conceito de actividade universitária ao de carreira docente. Embora a importância internacional dos Açores seja um tema plurissecular e recorrente no arquipélago, a sua avaliação quase sempre escapou aos seus habitantes. Obviamente, o facto de a importância estratégica dos Açores ter sido dada por eventos históricos e políticos exteriores e que em muito ultrapassavam o âmbito insular fez com que os Açores não fossem sujeitos deles, mas antes objecto usado por outros. A importância internacional dos Açores foi lhe sempre atribuída pelo jogo das potências, pela configuração das estradas comerciais marítimas e aéreas, pelo desenvolvimento técnico das artes da navegação, pelas invenções tecnológicas, em suma, pelo contexto da política internacional. A República Portuguesa entrou no século xxi com o bem precioso da unidade político administrativa do arquipélago dos Açores. É, aliás, dessa unidade político administrativa derivada da autonomia regional que decorre agora a unidade estratégica do arquipélago, a qual não está isenta de jogos exteriores para a dividir por zonas de influência, como aconteceu no passado. Caso não houvesse hoje essa coesão inter ilhas dentro do conceito de um desenvolvimento económico e social harmonioso, executado por órgãos democráticos de governo próprio, o que teria mais probabilidade de ocorrer nos Açores seria uma repartição de espaços de influência: uns mais pró europeus, outros mais pró americanos. A Horta já foi mais alemã e inglesa, e o porto de Ponta Delgada mais norte americano do que britânico ou francês, durante a Primeira Guerra Mundial; a Terceira, mais britânica e Santa Maria, mais americana, enquanto S. Miguel ficou neutralizada com as forças expedicionárias portuguesas durante a Segunda Guerra Mundial, e até ainda há pouco tempo as Flores albergavam observadores balísticos franceses. Este livro aborda, de forma original, creio, essas diferenças por ilhas. Manter todas as ilhas articuladas e coesas sob a mesma soberania por forma a que nenhuma seja factor de insegurança para as demais é uma tarefa que pode requerer uma grande perícia nacional no futuro. Se observarmos as tendências centrífugas e os movimentos desencontrados que se fazem sentir em realidades arquipelágicas um pouco por todo o mundo, percebemos melhor a importância deste bem maior que é o da unidade insular da Região Autónoma dos Açores (RAA). Esta unidade política do arquipélago, conseguida pela passagem da divisão distrital à reunião de todas as ilhas na categoria de região dotada de órgãos democráticos de governo próprio, foi reforçada por um círculo eleitoral único para a Assembleia da República, que seria temerário desfazer, pela imagem identitária transmitida pelos mais poderosos meios da comunicação social como a RTP/Açores e a RDP/Açores, que seria leviano anular, ou alienar, pois presta enormes serviços ao desenvolvimento integrado e equilibrado, e faz de cada uma das nove ilhas parte de um todo. Também o papel dos órgãos de governo próprio da Região Autónoma, aqui com especial destaque para a representação plural parlamentar de todas as ilhas, é um bem político precioso. O bem precioso da unidade estratégica do arquipélago dos Açores, conseguida pela conjugação do conceito contemporâneo de região, com os órgãos político administrativos da autonomia democrática, não é um dado adquirido tendo em conta a evolução mundial. [10] [11]

7 josé medeiros ferreira Em termos prospectivos, a deslocação de uma espécie de isóbare político estratégica sobre o arquipélago tenderá sempre a ser conformada pelo grau de entendimento entre Lisboa, Londres e Washington. Mas podem aparecer outras potências a disputar a influência do arquipélago consoante os desenvolvimentos da situação internacional. Nos Açores se decidirá ainda a profundidade atlântica e espacial da União Europeia, e a resposta norte americana a essa presença. Daí que eu acentue frequentemente não só os serviços que o Estado presta à Região Autónoma dos Açores, como os serviços que a RAA presta à República Portuguesa e à segurança atlântica. Este livro não é no entanto um manifesto político sobre a importância estratégica dos Açores. Ele é antes o resultado da reunião de elementos de um longo percurso histórico que explica a inserção do arquipélago no espaço euro atlântico, desde a relevância geográfica das ilhas até ao seu aproveitamento científico, tecnológico e militar. Cabe agora a cada leitor emprestar a sua própria perspectiva aos conteúdos desta obra que publico como um dever, adoçado pelos cuidados da editora Tinta da china. Capítulo I A emergência da importância internacional dos Açores contemporâneos [12]

8 O arquipélago dos Açores nunca foi particularmente importante como ponto de reabastecimento de carvão e, assim, a sua importância estratégica não começou nem terminou com o ciclo da navegação a vapor, embora os seus portos, principalmente o da Horta, tenham sido utilizados para essa função, sem chegarem à situação de «porto carvoeiro», como o Mindelo em Cabo Verde, ou Las Palmas nas Canárias 2. Tendo em conta a principal tese do autor citado, A. Correia e Silva, «de que as cidades porto dependem mais de si do que dos outros, caso tenham produtos para a troca comercial internacional», não há dúvida de que a adopção em certas ilhas dos Açores de um modelo agroexportador responsável pela sucessão de culturas agrícolas, destinadas à exportação, e pela promoção da oferta de serviços de navegação «contribuiu para a precoce integração dos Açores na economia do Atlântico» 3. Esse «modelo agro exportador» é o responsável pela construção de um «molhe» no porto de Ponta Delgada, que se irá engrandecendo com a exportação da laranja, do ananás e, mais tarde, do gado. Por muito que a geografia impere, o homem e a economia também moldaram a situação estratégica de algumas ilhas do arquipélago dos Açores. Os Açores, em termos da sua importância internacional, seguiram uma linha de plataforma logística para as mais modernas inovações científicas e tecnológicas. As potências [15]

9 foi composto em caracteres Hoefler Text e impresso pela Guide, Artes Gráficas, em papel Munken Pocket de 80 gramas, no mês de Fevereiro de 2011.

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