Formação docente para educação infantil: políticas e metodologias para promoção da igualdade racial

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1 Assuntos em pauta na conjuntura educacional Ebulição Virtual Nº21 Formação docente para educação infantil: políticas e metodologias para promoção da igualdade racial Cristina Teodoro Trinidad Mestre em Educação, coordenadora de Projetos do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades Ceert e bolsista do Programa Bolsa da Fundação Ford A década de 1980 foi um marco na história no que se refere à discussão sobre as relações raciais, pois houve um desencadeamento de denúncias sobre as desigualdades entre negros e brancos em diferentes setores da sociedade, e mais especificamente na educação. As denúncias de desigualdades educacionais apoiaram-se em estudos e diagnósticos realizados principalmente por pesquisadores como Hasembalg (1990) e Rosemberg (1987). A estrutura excludente da escola, a discriminação enfrentada pelos alunos negros em sua dimensão simbólica e a desconsideração por sua identidade racial expressa na omissão da população negra e no conteúdo racista dos livros didáticos e de literatura infantil, no despreparo dos professores, que se manifesta no desconhecimento dessa realidade e na ratificação de estereótipos, foram os principais aspectos denunciados pelo Movimento Negro. (Rodrigues, 2005). Esses fatores possibilitaram constatar que o espaço escolar desempenha papel importante para o enfrentamento da discriminação dos diferentes grupos étnicos e, especificamente, a existente entre negros e brancos. A escola constitui um espaço de acomodação e resistência. Ou seja, em alguns momentos o espaço escolar age de forma a reforçar as diferenças estabelecidas socialmente entre negros e brancos e, em outros, pode possibilitar que novas relações sejam construídas. Neste sentido, o preconceito e a discriminação raciais produzidos através das relações entre professores/alunos, alunos/alunos e, principalmente, pelas imagens e conteúdos transmitidos por meio de livros didáticos utilizados, reforçam a imagem inferiorizada do negro e da superioridade do branco, resultando no fracasso escolar, fatos estes que podem ser reconstruídos e ressignificados. Pesquisadores que estudam a manutenção do racismo e da discriminação no espaço escolar referem-se à demanda de uma formação especifica sobre relações raciais para os professores. Para Cavalleiro (1998) a formação é necessária para que o professor possa tratar com respeito e dignidade as diferenças raciais no âmbito escolar, contribuindo, 1

2 assim, para o enfrentamento e a superação das desigualdades através da incorporação de novos valores pelas crianças e consequentemente por seus familiares. Com o objetivo de atender a essa demanda, diferentes instituições do Movimento Negro no Brasil e, especificamente no município de São Paulo, CEERT, Fala Preta!, Geledés - organizações não-governamentais que atuam na formação sobre relações raciais desde a década de , entre outras, desenvolveram quantidades significativas de processos formativos. Porém, conforme é possível verificar em pesquisas atuais, as desigualdades persistem, o que pode significar que o racismo está se revestindo de uma nova roupagem e que será necessário o desenvolvimento de novas armas para enfrentá-lo, primordialmente no ambiente escolar. Uma das estratégias pode ser o tratamento das diferenças raciais desde a tenra idade por meio, em um primeiro momento, da formação especifica de educadores infantis, considerando que a faixa etária do 0 a 6 anos é fundamental e estruturante da personalidade humana. Pesquisadores que estudam essa etapa da vida são unânimes ao afirmar que esta se configura como uma das mais importantes para o processo da construção da identidade. De acordo com Bergman & Luckman (1985), nesse período da vida ocorre o processo de socialização primária, no qual as crianças, (...) assumem o mundo no qual os outros já vivem (...) compreendendo os processos subjetivos momentâneos do outro mas compreendendo o mundo em que vive e esse mundo em que vive torna-se o seu próprio. (Bergman & Luckman, 1985) Também, as ciências que se debruçaram sobre a criança nos últimos cinqüenta anos, investigando como se processa o seu desenvolvimento, coincidem em afirmar a importância dos primeiros anos de vida para o desenvolvimento e aprendizagem posteriores, e têm oferecido grande suporte para a educação formular seus propósitos e atuação a partir do nascimento. A pedagogia vem acumulando considerável experiência e reflexão sobre sua prática nesse campo e definindo os procedimentos mais adequados para oferecer às crianças interessantes, desafiantes e enriquecedoras oportunidades de desenvolvimento e aprendizagem. A educação infantil inaugura a educação da pessoa. Essa educação se dá na família, na comunidade e nas instituições. As instituições de educação infantil vêm se tornando cada vez mais necessárias, como complementares à ação da família, o que já foi afirmado pelo mais importante documento internacional de educação deste século, a Declaração Mundial de Educação para Todos (Jomtien, Tailândia, 1990)." Porém, no que se refere à formação docente, inexiste qualquer ação quanto à preparação dos professores do ensino infantil para lidarem com conteúdos mínimos, tais como a origem da diversidade ou, por exemplo, o fato de que a 2

3 primeira representação que a criança negra tem de si na escola a projeta como escrava, sujeito passivo da história, escravizada e, num ato de indulgência dos brancos, libertada. Não há feitos gloriosos dos seus antepassados, não há heróis negros, a religião dos negros é tratada como fetiche, a semântica da palavra negro ou preto é empregada como sinônimo de algo ruim, depreciativo; não se estuda história da África e, quando aparece alguma representação da África no presente, ela não consegue fugir dos limites de uma grande selva, povoada por homens trajando tanga e segurando lanças, elefantes, leões e zebras. Essa não preparação dos educadores infantis tem contribuído para que a discriminação e o preconceito perpetuem-se em nossa sociedade. Se observarmos um quadro de franca desigualdades entre as crianças em uma etapa fundamental para sua formação como indivíduo, é possível constatar que, até o momento, o movimento social em geral e o movimento negro especificamente não se mobilizaram o suficiente para reivindicar melhor preparação destes profissionais, e o poder público se omite ou atua no sentido de manter o status quo das desigualdades raciais. Este cenário é evidente ao analisarmos alguns estudos realizados particularmente na década passada, em que são apresentadas as diferentes formas que a discriminação e o preconceito são demonstrados por crianças, professores, pais e comunidade que freqüentam instituições de educação infantil. A título de ilustração, exemplificamos com Cavalleiro (1998), que desenvolveu uma pesquisa de extrema importância para o acúmulo de conhecimento sobre a compreensão de como se processa a discriminação racial e a socialização de crianças pequenas no ambiente escolar. Ela estudou, por meio de observação e entrevistas em uma creche, os comportamentos de crianças brancas e negras, professores brancos e negros e pais e familiares brancos e negros, identificando como se processava a socialização, tendo como foco a discriminação racial. Uma das conclusões à que chegou, foi que: De modo silencioso ocorrem situações no espaço escolar que podem influenciar a socialização de crianças, mostrando-lhes, infelizmente, diferentes lugares para pessoas brancas e negras. A escola oferece aos alunos, brancos e negros, oportunidades diferentes para se sentirem aceitos, respeitados e positivamente participantes da sociedade brasileira. A origem étnica condiciona um tratamento diferenciado na escola. (Cavalleiro, 1998) Na perspectiva da relação criança/criança, Godoy (1995) concluiu, ao analisar como as crianças entre 4 e 6 anos entendiam a diversidade racial, que crianças brancas e negras, por meio da verbalização, demonstravam preconceitos e estereótipos em relação às pessoas negras: (...) as crianças só brincam comigo quando eu trago brinquedo, porque eu sou preta. A Juliana que é branca um dia falou: eu não vou ser tia dela, porque ela é 3

4 preta. A Fernanda é branca, mas não tem nojo de mim e as outras crianças têm. (Depoimento de uma criança citada pela autora). (Godoy, 1995) Tendo em vista os exemplos utilizados, enfatizamos a relevância do desenvolvimento de uma formação de educadores infantis em que o eixo central seja a formulação de metodologias para trabalhar a temática racial desde a tenra idade visando construção de uma identidade, de crianças negras e brancas, pautada no respeito à diferença e na superação das desigualdades raciais. Referências Bibliográfica BENTO, Maria Aparecida Silva. Cidadania em Preto e Branco. São Paulo: Ed. Ática, CAMPOS, Maria Malta. A formação de professores para crianças de 0 a 10 anos: Modelos em debate. Educ. Soc. V.20 n.68 Campinas, Dez CAVALLEIRO, Eliane. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. São Pulo: Humanitas FFLCH-USP; Contexto, GOMES, Nilma Lino. Educação e relações raciais: refletindo sobre algumas estratégias de atuação. In: Superando o Racismo na Escola. 2ª edição revisada/kabengele Munanga, organizador. (Brasília): Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira. Raça e Educação nas Pesquisas da Fundação Carlos Chagas. In: Uma história para contar: a pesquisa na Fundação Carlos Chagas. / Organização de Albertina de Oliveira Costa, Ângela Maria Martins e Maria Laura Puglisi Barbosa Franco São Paulo: Annablume, KRAMER, Sônia; CARVALHO, Maria Cristina & KAPPEL, Maria Dolores Bombardelli. Perfil das crianças de 0 a 6 anos que freqüentam creches, pré-escolas: uma análise dos resultados da Pesquisa sobre Padrões de Vida/IBGE. In: Revista Brasileira de Educação, Jan/Fev/Mar/Abr 2001, nº 16. MUNANGA, Kabengele. Uma Abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia. Conferência Proferida em 2003 no PENESB-RJ. OLIVEIRA, Fabiana. Relações raciais na creche. In: Negro e educação: escola, identidades, cultura e políticas públicas / organizado por Iolanda de Oliveira; Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva & Regina Pahim Pinto São Paulo: Ação Educativa, ANPED, p. ISBN X. 4

5 RODRIGUES, Tatiane Cosentino. Embates e contribuições do movimento negro à política educacional nas décadas de 1980 e In: Negro e educação: escola, identidades, cultura e políticas públicas / organizado por Iolanda de Oliveira, Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva e Regina Pahim Pinto São Paulo: Ação Educativa, ANPED, ROSEMBERG, Fúlvia. Literatura infantil e ideologia. São Paulo: Global, ROSEMBERG, Fúlvia; PINTO, Regina P. & NEGRÃO, Esmeralda V. A situação educacional de negros (pretos e pardos). São Paulo, (Relatório de Pesquisa. Departamento de Pesquisas Educacionais/Fundação Carlos Chagas). A educação infantil subdivide-se em duas faixas: de 0 a 3 anos (creche) e de 4 a 6 anos (pré-escola). 5

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