DIVERSIDADE E INCLUSÃO: O ÍNDIO NOS CURRÍCULOS ESCOLARES

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1 DIVERSIDADE E INCLUSÃO: O ÍNDIO NOS CURRÍCULOS ESCOLARES MOREIRA, Maria G. de Almeida¹ Universidade Estadual de Goiás Unidade Universitária de Iporá RESUMO O presente texto tem como finalidade realizar alguns apontamentos sobre a inclusão da temática indígena nos currículos escolares, tendo em vista que, desde 2008, essa tornou-se, por força de lei, tema obrigatório nas escolas do Ensino Básico. Palavras Chaves: Diversidade, Inclusão, Índio. INTRODUÇÃO Dentro dos discursos sobre os direitos humanos e o multiculturalismo, inseri-se na pauta de discussão a necessidade de garantir a todos os excluídos, dentre estes, negros e índios, não somente a sua inserção nos espaços educacionais formais, mas, também, que sua perspectiva, suas representações e formas de atribuir significado ao passado e ao presente sejam consideradas dentro do conjunto de conhecimentos sistematizados, aceitos e socializados por escolas e universidades. O processo de inclusão é um terreno arenoso, uma fronteira movediça 1, no sentido de ser um campo ainda por desvendar 2 e, também, porque não há um perímetro rígido, que separa inclusão e exclusão, mas um trânsito que permite o diálogo, as trocas, a inclusão, a exclusão, o novo. Discutir a inclusão, seja de pessoas seja de ideias, requer a revisão de conceitos e o rompimento de hábitos e costumes para que seja possível uma inclusão que vá além dos 1 Expressão usada por Babha. O entre-lugar, onde se formam sujeitos, nos excedentes das somas das partes da diferença (BABHA, 2001, p. 20). 2 Somente na atualidade, estudos sobre a diversidade se fazem presentes de forma sistematizada e mostram que muitas experiências feitas até recentemente foram no sentido de incluir para extinguir. Sobre essa concepção, podemos citar o exemplo da educação formal para os grupos indígenas que, até recentemente, visava à incorporação destes ao mercado e à sociedade nacional. 89

2 discursos, reconstruindo as estruturas que sustentam esse modelo de sociedade excludente, reformulando os arranjos sociais contemporâneos para que a inclusão possa acontecer de fato e de direito. Nesse sentido, as reflexões aqui sistematizadas pretendem proporcionar aos participantes do Grupo de Trabalho Diversidade e Inclusão: aceitação das diferenças no ambiente educativo, embasamento legal sobre a inserção da temática indígena nas escolas, uma vez que, desde 2008, essa tornou-se, por força de lei, tema obrigatório nas escolas do Ensino Básico. O Índio nos Currículos Escolares: a legislação e a prática No dia do índio era para os alunos vestirem de índio, eu falei, índio anda pelado, imagina esse tanto de menino pelado na escola 3. Essa ideia - assim como tantas outras que associam os Povos Indígenas a dois polos opostos ( bom e mau selvagem) - é fruto da mentalidade de uma época, não condiz com a realidade desses povos (SCHADEN, 1977) e demonstra como, em pleno século XXI, a sociedade brasileira desconhece a sua própria realidade, a de país multicultural, e perpetua ideias estereotipadas sobre os Povos Indígenas construídas, ainda, no período colonial. Essas construções tiram do Índio a sua condição de ser humano, portador de uma cultura, que, ao longo de sua história, passa por transformações. Essas mudanças resultam da dinâmica da própria sociedade indígena e das imposições da sociedade envolvente e diante deste contexto... os índios souberam transformar-se e reelaborar seus valores, culturas, interesses, objetivos e até identidades (ALMEIDA, 2003, p. 29). Todavia, essa dinamicidade da cultura e a não existência de uma identidade fixa 4, mas sim de múltiplas identidades, são discussões que estão presentes nos circuitos acadêmicos, mas são desconhecidas da sociedade, o que permite a perpetuação de ideias como a referida anteriormente. As discussões sobre a necessidade de inclusão da temática indígena 5 nos currículos escolares ganha força no âmbito das discussões sobre as ações afirmativas, que têm desenvolvido, nas últimas décadas, políticas públicas voltadas para garantir a igualdade de 3 Frase proferida por um pai sobre a participação do filho nas comemorações do Dia do Índio na escola. 4 Para mais informações sobre as múltiplas identidades do sujeito na pós-modernidade, ver HALL, A Identidade Cultural na Pós-Modernidade (1999). 5 Não podemos desconsiderar a participação dos Movimentos Indígenas Organizados, principalmente a partir da década de 70, na reivindicação destes direitos. Mais informações sobre esses movimentos, ver BITTENCOURT, L. Borges. Mudança dirigida. As organizações indígenas na América Latina México e Brasil Tese de Doutorado. Brasília: UNB,

3 todos, princípio presente na Constituição de 1988 que visa a neutralizar qualquer tipo de discriminação. A Constituição de 1988 reflete em seu texto as reivindicações de diversos atores sociais que lutam contra quaisquer formas de preconceito, discriminação e, ainda, pelo direito à diferença, pautada na valorização das diversidades da (s) cultura(s) brasileira(s). Nesse debate, surge a necessidade de inserção da temática indígena 6 nos currículos do Ensino Básico, inicialmente pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) que em seu artigo 26, parágrafo 4, diz que O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente as matrizes indígenas 7, africana e europeia. Normatizações estas, também, pontuadas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Goiana (Lei Complementar n. 26 de dezembro de 1998). Contudo, tais determinações legais ficaram no âmbito do discurso, não impactando positivamente as ações no campo educacional, nem alterando a produção de materiais didáticos 8 ao longo dos anos seguintes, sendo esta legislação alterada pela Lei /08, que tornou obrigatório o ensino de História e cultura Afro-Brasileira e Indígena nas escolas de Ensino Básico e definiu que esse ensino deverá ser ministrado (...) no âmbito de todo o currículo escolar, especialmente nas áreas de Educação Artística e de Literatura e Histórias Brasileiras 9. Tal lei coloca em pauta, novamente, a discussão da temática indígena na sala de aula e vislumbra a possibilidade de construção de uma educação para e da diversidade cultural nas nossas escolas. Ao mesmo tempo, há a ruptura de um modelo europeu de educação que, ainda, se perpetua desde a formação do Estado Nacional. O trabalho com a cultura e história indígena é uma oportunidade de professores e alunos conhecerem mais sobre os povos nativos do Brasil, buscando erradicar preconceitos (LIMA, 2011, p. 7). 6 Contribuem,, também, com os debates as produções acadêmicas, que, baseadas em novas abordagens e fontes, estão fazendo releituras de fatos históricos e da participação do Índio na História do Brasil. Um trabalho que demonstra a participação e a ressignificação dos índios na política do Estado Nacional é o texto Comunidades Indígenas e Estado Nacional: histórias, memórias e identidades em construção (Rio de Janeiro e México Séculos XVIII e XIX), de Almeida, Grifo nosso. 8 Sobre a presença do índio nos manuais didáticos, ver FARIA, Fabiane Dalben de. Et all. A representação dos povos indígenas no livro didático do Ensino Médio. Língua, literatura e ensino. Maio de v. II. In: Acesso em GRUPIONI, Luis Donisete Benzi Grupioni. Imagens Contraditórias e Fragmentadas: sobre o lugar dos índios nos Livros Didáticos. In: Revista Brasileira de Estágio em Pedagogia. Brasília, v. 77, n. 186, p , maio/ago Disponível em: 9 Redação da Lei /08. 91

4 A nova lei representa um avanço na discussão do multiculturalismo e na construção de uma educação baseada na equidade, valorizando a diversidade de culturas presentes em nosso país. Todavia, neste contexto, apresentam-se alguns problemas para a efetivação dessa política, como: falta de materiais didáticos que abordem a temática indígena valorizando a diversidade; a inexistência de produções didáticas que trazem a perspectiva indígena; a inexistência de conteúdos/disciplinas nos cursos de graduação que possibilitem o contato dos futuros professores com a temática, preparando-os para discutir a questão em sala de aula. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Maria R. Celestino de. Identidades étnicas e culturais: novas perspectivas para a história indígena. In: ABREU, Martha; SOIHET, Raquel (Org.). Ensino de História: Conceitos, Temáticas e Metodologia. Rio de Janeiro: FAPERJ/Casa da Palavra, p Comunidades Indígenas e Estado Nacional: histórias, memórias e identidades em construção (Rio de Janeiro e México Séculos XVIII e XIX). In: ABREU, Matha; GONTIJO, Rebeca; SOIHET, Raquel. Cultura Política e Leituras do Passado: historiografia e ensino de história. Rio de Janeiro: FAPERJ/Civilização Brasileira, p BABHA, H. K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, BITTENCOURT, L. Borges. Mudança dirigida. As organizações indígenas na América Latina México e Brasil Tese de Doutorado. Brasília: UNB, BRASIL. Lei n , de 10 de março de FARIA, Fabiane Dalben de. Et all. A representação dos povos indígenas no livro didático do Ensino Médio. Língua, literatura e ensino. Maio de v. II. In: Acesso em GRUPIONI, Luis Donisete Benzi Grupioni. Imagens Contraditórias e Fragmentadas: sobre o Lugar dos índios nos Livros Didáticos. In: Revista Brasileira Estágio em Pedagogia. Brasília, v. 77, n. 186, p , maio/ago Disponível em: Acesso em:

5 HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, LIMA, Pablo L. de Oliveira. Memórias Indignas e Ensino de História. Trabalho apresentado no Simpósio Temático Os Índios e o Atlântico, XXVI Simpósio Nacional de História da ANPUH, São Paulo, 17 a 22 de julho de MAGALHÃES, E. Dias. Legislação Indigenista Brasileira e Normas Correlatas. 2. ed. Brasília: CGDOC/FUNAI, SHADEN, Egon. O Índio Brasileiro: imagem e realidade. In: Revista de História. v. LV. Nº 110. São Paulo, p

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