O PAPEL DO PSICÓLOGO SOCIAL

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1 Página 1 de 5 O PAPEL DO PSICÓLOGO SOCIAL Leandro Nunes 1 Primeiramente, gostaria de me posicionar e anunciar de que campo da ciência psicológica vou estruturar meu argumento. No entanto afirmo que me posiciono a partir dos referenciais da psicologia social crítica, latino-americana. E esse já é um bom passo, na minha concepção, para me autodenominar psicólogo social, que se pauta pelos constructos da psicologia social crítica, ou seja, me posicionando. Quero começar, se me permitam, anunciando que o meu posicionamento corrobora com a perspectiva de Martín-Baró (1996 apud FERREIRA, 2010). Martín-Baró considera que o psicólogo social deva ter como principal tarefa, a conscientização de pessoas e grupos, por conta disso, estes entes serão levados a estabelecer um pensamento e/ou posicionamento crítico tanto sobre si mesmo, como sobre a sua realidade. Tal postura permitirá que indivíduos e grupos controlem a própria existência (MARTÍN-BARÓ, 1996 APUD FERREIRA, 2010). Também quero apontar para a noção de práxis psicossocial que necessariamente irá demandar do psicólogo social uma relação de reciprocidade com os sujeitos que se relaciona no campo profissional. Essa relação produz e faz produzir novos sentidos que vão se desvelando no espaço e no tempo. Dessa forma, não há práxis em psicologia social sem afetação, e o papel do psicólogo social pressupõe afetar e ser afetado, ao que se refere ao campo psíquico, social e cultural. Nesse sentido, trata-se de uma possibilidade de trocas, posto que estamos implicados em um espaço de convivência, onde qualquer sujeito que nele interage se auto-produz (SCISLESKI; MARASCHIN; TITTONI, 2006, p.52). É na relação com o outro, relação social por assim dizer, que o psicólogo social investiga e constrói práticas para desconstruir realidades engessadas e dominadas por um modus operandi naturalizante no centro de fenômenos sociais importantes para a população. Ansara & Dantas, (2010) se referindo a profissionais que realizam trabalhos em comunidades, coloca que o psicólogo social tem a possibilidade de criar condições para que a ideologia fatalista seja descaracterizada, e assim revelar certo tipo de mentira que as pessoas possam ter como oficial, a qual diz que não é possível modificar a sociedade por razão da existência de um destino fatal e inevitável. 1 Psicólogo e Mestre em Ciências Ambientais (Linha de pesquisa: Sociedade, Ambiente e Desenvolvimento) pela Universidade do Extremo Sul Catarinense UNESC.

2 Página 2 de 5 O papel do psicólogo social é prospectivos, criativo e questionador ao levar pessoas e grupos à reflexão constante sobre o estar no mundo e sobre as relações que essa condição possa direcionar. De acordo com Martín-Baró (1996 apud FERREIRA, 2010) os psicólogos sociais dão suas contribuições para a construção de identidades pessoais, bem como identidades coletivas e históricas. Tais identidades podem ser capazes de fazer o rompimento com situações de alienação das maiorias populares oprimidas. A resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP Nº 005/2003), a qual reconhece a psicologia social como especialidade da psicologia para fins de concessão de registro de especialista para psicólogos com registro nos Conselhos Regionais de Psicologia, descreve algumas características do psicólogo social, podendo-se dessa formar tomar esclarecimento sobre o seu papel na sociedade. A resolução (CFP N o 005/2003) em seu Art. 3 o. parágrafo I define que a especialidade de psicologia social se institui tendo a seguinte definição: Atua fundamentada na compreensão da dimensão subjetiva dos fenômenos sociais e coletivos, sob diferentes enfoques teóricos e metodológicos, com o objetivo de problematizar e propor ações no âmbito social. O psicólogo, nesse campo, desenvolve atividades em diferentes espaços institucionais e comunitários, no âmbito da Saúde, Educação, trabalho, lazer, meio ambiente, comunicação social, justiça, segurança e assistência social. Seu trabalho envolve proposições de políticas e ações relacionadas à comunidade em geral e aos movimentos sociais de grupos e étnico-raciais, religiosos, de gênero, geracionais, de orientação sexual, de classes sociais e de outros segmentos socioculturais, com vistas à realização de projetos da área social e/ou definição de políticas públicas. Realiza estudo, pesquisa e supervisão sobre temas pertinentes à relação do indivíduo com a sociedade, com o intuito de promover a problematização e a construção de proposições que qualifiquem o trabalho e a formação no campo da Psicologia Social (CFP N o 005/2003). É importante ressaltar que é utilizado o termo problematizar, o que leva a crer que para atuar, ou seja, desenvolver seu papel, o psicólogo tem que problematizar os fenômenos. Problematizar, se refere à condição de analisar as condições históricas, socioculturais, identificando as condições pelas quais os fenômenos sociais são estruturados, bem como a interpretação que as pessoas e grupos dão a eles. Outra condição intrínseca ao papel do psicólogo social é o referencial teórico/prático, ou os diferentes referenciais teórico/práticos que podem estar ao seu alcance. Pois o referencial escolhido pelo psicólogo social irá lhe dar um embasamento epistemológico, o qual definirá a concepção de homem e de mundo e o norteará teoricamente, e estabelecerá diretrizes para a prática do seu trabalho. No entendimento de Lane (1994) todas as áreas da psicologia devem assumir dentro de seu escopo teórico/prático, a natureza sociohistórica do ser humano, considerando as especificidades, como por exemplo, as patologias, a histórica do ser humano desde o

3 Página 3 de 5 desenvolvimento infantil, e as técnicas de intervenção à luz da concepção de ser humano. Ou seja, qualquer comportamento humano não poderá ser conhecido se for isolado e fragmentado, no entanto, nenhum comportamento existe isoladamente. Há diversificados contextos e instituições onde o psicólogo social pode exercer seu papel, e para cada contexto existem diferenças segundo normas institucionais, Leis e diretrizes. As diferentes políticas públicas, por exemplo, exigem do psicólogo, posturas diferenciadas. No âmbito da Politica Nacional de Assistência Social, mais especificamente na proteção social básica, através dos trabalhos realizados em Centros de Referência de Assistência Social, CREPOP (2008a) recomenda uma atuação que seja comprometida com a promoção de direitos, de saúde e cidadania. A atuação do psicólogo deve guiar-se pelo contexto no qual a população referenciada pelo Centro de Referência de Assistência Social vive. O psicólogo social poderá guiar-se pelo suporte teórico e prático de autores como, Silvia Lane, Martín Baró, Sawaia e outros autores da psicologia comunitária, psicologia social, psicologia do desenvolvimento, psicologia institucional e outros aportes teóricos que se fizerem necessários (CREPOP, 2008a). Seguindo a guisa de exemplos do papel do psicólogo social em diversificados contextos, o campo da saúde do trabalhador é um contexto onde esse profissional pode contribuir de forma profícua. Tomando como base os escritos de CREPOP (2008b), o psicólogo social pode atuar no campo da saúde coletiva, pois é onde se situa a área da saúde do trabalhador. Nesse contexto, o psicólogo se defronta com processo saúde/doença relacionado ao trabalho independente do âmbito de atuação. É importante, o psicólogo se ater ao reconhecimento da subjetividade no trabalho e aos significados que os indivíduos tendem a atribuir a determinados fatores, bem como a reação de cada pessoa, levando em contas suas crenças, valores, história de vida, experiência, não podendo esquecer-se das representações dos trabalhadores sobre as atividades que desenvolvem. No sistema prisional, por exemplo, o psicólogo social poderá exercer o seu papel acompanhando as pessoas, desde o início, quando dão entrada no sistema prisional. Essa ação tem o intuito de promover recursos para que o sujeito tenha uma saída do sistema prisional, de forma sustentável visando o fortalecimento do laço social (CFP, 2012). O psicólogo social pode desenvolver o seu papel em outros tantos contextos, como por exemplo, nas redes substitutivas de saúde mental, nos movimentos sociais, nos programas de saúde da família, sempre visando a possibilidade de desconstrução de representações naturalizadoras e fatalistas da experiência humana.

4 Página 4 de 5 Martín-Baró (1996) denomina o papel do psicólogo de quefazer do psicólogo. O autor esclarece que o quefazer do psicólogo deve buscar a desalienação de pessoas e grupos, para que possam chegar a um status de saber crítico sobre si próprio, bem como sobre a realidade. À luz desta visão da psicologia, pode-se afirmar que a conscientização constitui-se no horizonte primordial do quefazer psicológico (MARTÍN- BARÓ, 1996, p. 15). Para dar prosseguimento à reflexão sobre o papel do psicólogo social pode-se exemplificar as dimensões propostas em Ansara & Dantas (2010) sobre a prática profissional em comunidades. A prática em comunidades envolve as seguintes dimensões: ontológica, epistemológica, metodológica, ética e política. (MONTERO, 2004 apud ANSARA; DANTAS, 2010, p.98). : Dimensão ontológica: A dimensão ontológica vai de encontro à natureza do ser e à natureza da relação entre o profissional e as pessoas da comunidade. Essa dimensão envolve fazer reflexões sobre questões, como por exemplo, problemas, desejos e necessidades da comunidade, além das expectativas, recursos e o que as pessoas da comunidade entendem sobre a própria situação, e os profissionais entendem sobre a situação da comunidade onde atuam. Dimensão epistemológica: diz respeito à produção de conhecimento no contexto de intervenção psicossocial. Nessa dimensão é interessante observar que tipo de conhecimento foi produzido na relação entre profissional e comunidade, ou seja, o que um aprendeu com o outro. Dimensão metodológica: essa dimensão se refere aos meios utilizados para que seja produzido conhecimento. Os métodos sugeridos devem ser aqueles que produzem perguntas e respostas continuamente relacionadas às transformações que ocorrem temporalmente. Dimensão ética: Inclui o outro no processo de produção conhecimento, pois o reconhece como sujeito que tem capacidade e é cognoscente. Esse fator pressupõe uma ética, pois reconhece a produção coletiva do conhecimento e a ação comunitária. Dimensão política: Está ligada à aplicabilidade do conhecimento produzido, ou seja, os efeitos sociais do conhecimento que se estabelece a partir da relação com a comunidade. Essa dimensão também está ligada à cidadania e à ação comunitária. O papel do psicólogo é de problematizador político para a ampliação da consciência de pessoas e grupos. No contexto social o psicólogo é o profissional que dá voz à subjetividade das pessoas e grupos, analisa e atua segundo as categorias metodológicas e

5 Página 5 de 5 epistemológicas da psicologia social para a desconstrução de modelos existenciais fatalistas, bem como enfoca em reflexões potencializar e empoderar sujeitos para a ação política. REFERÊNCIAS ANSARA, Soraia; DANTAS; Bruna Suruagy do Amaral. Intervenções psicossociais na comunidade: desafios e práticas. Psicologia & Sociedade, Belo Horizonte, v. 22, n. 1, p , apr., CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução nº 005/2003, 14 de junho de Reconhece a Psicologia Social como especialidade em Psicologia para finalidade de concessão e registro do título de Especialista. CFP. Referências técnicas para atuação das (os) psicólogas (os) no sistema prisional. Brasília: CFP, CREPOP. Referência técnica para atuação do(a) psicólogo(a) no CRAS/SUAS. Brasília, CFP, 2008a. CREPOP. Saúde do Trabalhador no âmbito da Saúde Pública: referências para a atuação do(a) psicólogo(a). Brasília, CFP, 2008b. FERREIRA, Maria Cristina. A psicologia social contemporânea: principais tendências e perspectivas nacionais e internacionais. Psicologia: Teoria e pesquisa, Brasília, v. 16, n. especial, p , LANE, Silvia. Psicologia Social: o homem em movimento. 14 a ed., São Paulo: Brasiliense, MARTÍN-BARÓ, Ignácio. O papel do psicólogo. Estudos de Psicologia, Natal, v. 2, n. 1, p, 7-27, SCISLESKI, Andrea Cristina Coelho; MARASCHIN, Cleci; TITTONI, Jaqueline. A psicologia social e o trabalho em comunidades: limites e possibilidades. Revista Interamericana de Psicología, Porto Alegre, v. 40, n. 1, p , abr., 2006.

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