VARIAÇÕES LINGUISTICAS

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FUNÇÕES DA LINGUAGEM Língua oral e língua escrita A língua verbal, abordada na seção 1.2, é constituida de um sistema de sinais convencionados. Ao comunicar-se, uma pessoa vale-se de um sistema de signos, que ela deve conhecer previamente. Assim, podem-se distinguir um sistema comum a todos os falantes e os atos de comunicação de cada um. Portanto, um sistema coletivo, com atos individuais de comunicação. Duas são as modalidades principais da língua portuguesa: o português falado e o português escrito. Ainda que utilizado um mesmo nível de linguagem, ambas as modalidades não apresentam as mesmas formas, a mesma gramaticalidade, os mesmos recursos expressivos, ensina Vanoye, em Usos da linguagem. O autor citado, na página seguinte, admite que os níveis de linguagem são menos numerosos na língua escrita que da falada e tais níveis estão diretamente relacionados ao condicionamento sociocultural. Estabelece-se diferença fundamental entre língua falada e língua escrita. A primeira é livre, desataviada de componentes situacionais; a segunda é presa às regras da gramática e ao padrão considerado culto. Uma é criativa, espontânea; outra cuidada, elaborada. A comunicação pode realizar-se oralmente ou por escrito. Ainda que a língua seja a mesma, a expressão escrita difere muito da oral, podendo-se facilmente comprovar que ninguém fala como escreve, ou vice-versa. Acrescenta-se que a língua oral é anterior à escrita, mas esta, através dos tempos, adquiriu prestígio que supera o da oralidade. A escrita é uma tentativa imperfeita de reprodução gráfica dos sons da língua, como se pode perceber pela grafia dos fonemas. Além disso, entonação, timbre, ênfase, pausas e velocidade da enunciação não representados com rigor graficamente. Os sinais de pontuação, as maiúsculas, o itálico, o negrito, a sublinha, as aspas representam apenas precariamente tais valores. Tanto a língua oral como a escrita apresentam níveis ou registros. Em situações formais, a expressão se dá com a utilização de um a língua mais gramatical, com pronúncia cuidada. Em situações menos tensas, como a do meio familiar, a língua adquire características de informalidade, e as preocupações com a clareza e a correção tornam-se menos rigorosas. A situação, como a condição social, a profissão, o grau de instrução, o ambiente, o momento, a região geográfica e outras circunstâncias que envolvem o processo de comunicação (falado ou escrito), determina a escolha deste ou daquele registro lingüístico. Finalmente, é de salientar que a "língua escrita, ou melhor, a língua literária se nutre da língua falada, sob pena de se tornar língua morta, como sucedeu com o atim", ensina Lima Sobrinho, em A língua portuguesa e a unidade do Brasil. E mais à frente acrescenta: "outro aspecto a considerar, é o de que não há oposição irredutível entre as duas linguagens, a falada e a escrita, mas uma interação, que admite graus diversos de influência da língua falada na língua escrita. VARIAÇÕES LINGUISTICAS A língua portuguesa, como qualquer outra, configura-se como um conjunto de variantes, isto é, não é um todo uniforme. Parafraseado Carvalho, embora se fale português em Manaus, Salvador, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, todos estamos de acordo que, ainda que sejam pequenas as divergências observadas, não se fala em Recife da mesma forma como se fala em Sorocaba ou Piracicaba, cidades do Estado de São Paulo. As Divergências aumentam se compararmos a Língua Portuguesa falada em Portugal com a falada em qualquer cidade Brasileira. É de salientar também que, embora dentro de uma mesma cidade, não se falam de forma idêntica seus moradores. Assim é que existe a diversidade, "realizando-se pois o que, na expressão de Schuchardt, constitui a unidade na variedade na unidade". Há diferenças que são devidas às diferentes camadas sociais; nesse caso, a variante recebe o nome de diastrática. Se a variação ocorre entre diferente gerações, chama-se diafásica. A variação que se

verifica em um mesmo indivíduo que adapta sua linguagem ao contexto ou à situação (mais ou menos formal) chama-se registro ou dialeto. A diversidade lingüística, portanto, provém não apenas da mudança de um agrupamento geográfico para outro ou de um indivíduo para outro (variante sociocultural), mas também do comportamento lingüístico de um mesmo indivíduo. Este não utiliza a mesma variante em todas as suas atividades lingüísticas: meio familiar utilizará uma variante diversa daquela de que se vale meio social; no exercício de sua atividade profissional manifestar-se-á de modo diferente daquela utilizado numa roda de bar. Varia ainda o registro lingüístico se ele estiver numa situação formal, como numa conferência, ou numa conversa afetiva. Níveis de linguagem Dino Preti classifica os níveis de linguagem do ponto de vista sociolinguistico, considerando três níveis culto, comum e popular. O nível culto caracteriza-se como uma linguagem que se utiliza da língua-padrão, desfruta de prestígio, é utilizada em situações formais e os altamente escolarizados. É a linguagem usada pela literatura e modalidades variadas da língua escrita; apresenta sintaxe complexa, vocabulário amplo e técnico, é gramatical. Já o nível popular ocupa o outro extremo do eixo. São suas caraterísticas: dupadrão lingüístico, ausência de prestígio, uso em situações informais, falantes pouco ou não escolarizados, simplificação sintática, vocabulário restrito, uso de gíria e linguagem obscena; nesse caso, a linguagem distancia-se da gramática. Intermediando estas categorias, culto e popular, há o nível comum, uma variante de linguagem nem tão tensa nem tão distensa, empregada por falantes medianamente escolarizados e pelos meios de comunicação de massa. Evidentemente, tal caracterização não pode se rígida, pois não há limites estanques entre um nível e outro. Nível culto. A linguagem formal é elaborada de acordo com as normas gramaticais. É burocrática, artificial e conservadora, precisa, impessoal, destituída de espontaneidade e, não raro de graça e beleza. Linguagem técnica e científica. Está é outra modalidade de linguagem que se aproxima no nível culto. Para Carvalho, as linguagens especiais são principalmente linguagens técnicas. A linguagem técnica é um tipo de registro verbal que pertence ao nível culto. Consiste no uso de uma linguagem que se apoia também na gramaticalidade para transmitir a idéia de precisão, de rigor, de neutralidade. Utiliza vocabulário específico para designar instrumentos utilizados em determinados ofício ou ciência, ou para designar conceitos científicos, transações comerciais, financeiras ou econômicas. A linguagem científica caracteriza-se pelo alto grau de abstração do pensamento. Os raciocínios são logicamente cancatenados: ou são dedutivos ou indutivos. Linguagem pretensiosamente neutra, de vocabulário preciso, construída sob o rigor da subordinação e da ausência de emoção. Variante da linguagem burocrática. Embora esta variante procure seguir de perto a norma padrão, ela é despida de grandes requintes literários, de conotações e figuras de linguagem esmeradas. Linguagem, porém, que segue de perto o padrão gramatical. É notável neste tipo de linguagem a ausência de criatividade (quer vocabular, quer sintática). A linguagem pragmática das relações comerciais e representativa dessa variante. Linguagem profissional (jargão). Dentro do nível culto, podem-se considerar variadas subdivisões. Evidentemente, o jargão técnico não conta o esmero nem com as preocupações estéticas do nível literário, mas recorre quase sempre a um padrão de linguagem que se aproxima do nível culto. Consiste no uso de um vocabulário próprio e de uma linguagem que se aproxima do padrão culto. Entre os textos redigidos segundo a variante profissional encontram-se (a) relatórios administrativos, acadêmicos, comunicados; (b) carta precatória: carta em que se pede algo. A carta precatória é enviada por juiz a outro juiz, de um delegado a outro, de um promotor a outro; (c) processo: auto, curso, atividade por meio da qual se exerce a função jurisdicional(d) petições; (e)

editais. Acquaviva ensina que, para os bacharéis e estudantes de Direto, a terminologia jurídica deve ser vista "como um motivo de orgulho, porque ela é a mais antiga linguagem profissional que se conhece". E acrescenta texto do professor Miguel Reale: Ao lado da linguagem profissional gramatical, existe a de determinados profissionais que se caracteriza pelo uso da variante popular, como é o caso dos profissionais com baixa escolaridade: pescadores, carvoeiros, garimpeiros. Nível familiar. O nível de linguagem familiar foge às formalidades e aos requintes gramaticais. É usado nas conversas despretensiosas, principalmente por pessoas que conhecem a gramática, mas utilizam um registro menos formal. O nível familiar, intermediário do culto e popular, é o de caracterização mais complexa. Ele subdivide-se em duas variantes: familiar tenso e familiar distenso. O familiar tenso utiliza uma linguagem comum, coloquial, com vocabulário usual, mas que obedece às normas gramaticais. O jornalista e o publicitário optam por uma variante que se adapta a seu público-alvo, mas em geral utilizam o nível comum tenso, ou seja, não redigem textos em linguagem só compreensível pelos doutores, nem escrevem textos utilizando uma variante lingüística em que sejam freqüentes agressões ao padrão culto da linguagem, ou erros gramaticais. Linguagem popular. Constitui uma variante informal de pouco prestígio se comparada com a linguagem e a culta; é espontânea e descontraída. Seu objetivo é a comunicação clara e eficaz. Sua expressão é subjetiva, concreta e efetiva. A linguagem popular falada é utilizada sobretudo por pessoas que pertencem ao mesmo grupo social e tem baixo grau de escolaridade ou são analfabetas. Por essa razão, tal variante lingüística distancia-se da normatividade gramatical. Dentro do nível popular, a língua pode ainda o nível chamado vulgar. Este tipo de variante lingüística é de uso maior do que se imagina, aparecendo não apenas entre as classes de baixo nível de escolarização, como também entre as classes média e alta. A linguagem vulgar é variante estigmatizada como de nenhum valor nas situações sociais que exigem certo grau de formalidade. Na categoria de língua especial, encontra-se a gíria, e esta inclui o calão. A gíria é uma linguagem cuja motivação é a necessidade de segredo que determinados grupos sociais tem pela atividade que exercem (malandragem, contrabando, tráfico de droga). A gíria diferencia-se da linguagem técnica pelo fato de nesta léxico não ser restrito, fazendo parte, às vezes, também da língua comum, ou seja, o léxico utilizado invade a linguagem comum. Concluindo este estudo dos níveis de linguagem, é de ressaltar que não se pode perder a consciência da adequação das variedades lingüísticas às diversas situações comunicacionais. FUNÇÕES DA LINGUAGEM APLICADAS AO DISCURSO Para Silva (1988:43), a distinção entre linguagem literária e não literária remota a uma teoria pitagórica tardia. Segundo essa teoria, há uma modalidade de expressão destituída de ornamentação e recursos estilísticos e outra que se caracteriza pelo uso de tropos e recursos estilísticos. Assim, a linguagem literária, através dos tempos, tem-se distanciado de um dizer comum, em brilho e tem sido marcado pelo estranhamento, pelo desvio em relação à linguagem usual. O primeiro estudioso a propor uma teoria que diferenciava um sistema de linguagem prática e um sistema de linguagem poética foi Lev Jakubinskij, em 1916. Logo em seguida, em 1921, Roman Jakobson afirmava ser a poesia uma linguagem que se valia da função estética. A palavra aparecia aí como um valor autônomo. Já em 1933-1934, o mesmo autor identificava na poesia a função poética

da linguagem, que se caracteriza como palavra e sintaxe que tem peso e valor próprio. É, no entanto, de 1960 o estudo de Roman Jakobson (a985:118-162) sobre "lingüística e poética" que retomou suas teorias da década de 20 sobre a função estética da linguagem. O quadro teórico foi desenvolvido com base na Lingüística Geral e na Teoria da comunicação. A comunicação verbal baseia-se na interação dos seguintes fatores: emissor, destinatário, contexto, mensagem, contato, código. Ainda que Isoladamente, esses fatores dão origem a uma função. No entanto, uma delas predomina sobre as outras. Silva (1988:58) afirma que "a estrutura verbal de uma mensagem depende primariamente da função que nela é predominante. Que significa a palavra função? Endente-se função como a "dependência entre duas entidades lingüísticas, tal que, se introduz uma mudança em uma delas, provoca-se uma mudança correspondente na outra unidade". São fatores relevantes no ato da comunicação: Remetente: emissor, destinador. Destinatário: receptor, ouvinte, leitor. Canal: meio (jornal, emissora de rádio ou televisão, carta telegrama, fax telefone, diálogo). Código: língua portuguesa, língua inglesa. Contexto: referente conceitual, ambiente em que se dá a comunicação. Mensagem: texto referencial (mensagem alude a um contexto extralinguístico ou a um referente conceitual). A mensagem literária, no entanto, é autotélica, ou seja, refere-se a si mesma. Luísa, de O primo Basílio, não existe senão no romance de Eça de Queiroz. A mensagem não é neutra; ela tem um objetivo, uma finalidade: transmitir conteúdo intelectuais, exprimir emoções e desejos, hostilizar pessoas ou persuadi-las, incentivar ações, esconder ou publicar fatos, evitar o silêncio. O sentido de uma mensagem advém em parte dos fatores de comunicação a que ela se dirige. Ou seja, o sentido depende em parte do elemento focalizado: o remetente? O destinatário? A mensagem? O código? O canal? O referente? Por isso, uma mensagem pode Ter funções diferentes conforme o fator do processo de comunicação focalizado. A linguagem pode ser utilizado para alcançar os mais diversos fins. Dependendo do objetivo, o emissor lançará mão de determinados elementos da linguagem. Função pode ser entendida como serventia. Assim, a linguagem serve para comunicar, para exprimir emoções, para levar o receptor a uma ação, para agradar, embelezar, para esclarecer algo da própria linguagem ou, simplesmente, para manter viva a comunicação. Função referencial ou de comunicação. Fundamento de toda comunicação; sua principal preocupação é estabelecer relação entre a mensagem e o objeto a que se refere. Por isso, denota, referencia, informa. É uma que procura essencialmente da à linguagem qualidade de objetividade, verificabilidae, evitando ambigüidade e confusões entre mensagem e a realidade codificada. O redator que privilegia esta função vocábulos precisos para que a comunicação se estabeleça e não haja concessão à expressividade. A linguagem é exata, clara, transparente, denotativa, centrada no referente. Neste caso, há informação bruta, enxuta, sem comentários nem juízos valorativos. Linguisticamente, a função referencial é marcada pelo uso da terceira pessoa verbal, pela ausência de valoração (portanto, adjetivação comedida) e pela pontuação racional, evitando, assim, reticências, aspas, interrogações e exclamações). Dessa forma, enquanto função valorizada principalmente pela ciência, pela linguagem burocráticas e técnica, pelo jornalismo, ela ainda encontra acolhida na literatura de caraterísticas realistas. A função referencial é utilizada para produzir textos impessoais, objetivos, "que tem exclusivamente o propósito de levar ao conhecimento dos leitores informações puras". Em princípio, nestes textos não se percebe nem a presença do destinador, nem a do destinatário. Tais

textos são projetados para veicular informações úteis ao leitor.