O JOGO NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO OJCC O LÚDICO EM SEUS ASPECTOS PSICOLÓGICOS As brincadeiras e os divertimentos ocupavam um lugar de destaque nas sociedades antigas de acordo com ÁRIES (1981). Essa situação, porém, ocorria de forma contraditória, pois, se de um lado, todos os jogos eram admitidos sem reservas nem discriminação pela grande maioria, de outro, e ao mesmo tempo, uma minoria poderosa e culta de moralistas rigorosos os condenava, denunciando sua imoralidade. Segundo ÁRIES (1981), ao longo dos séculos XVII e XVIII adotou-se uma atitude moderna em relação aos jogos, diferentemente do que ocorria ate então, e isso se deu a partir do surgimento do sentimento de infância. Com a preocupação de educar e moralizar a criança, foram proibidos os jogos classificados como maus e recomendados aqueles classificados como bons. Todavia, foi a partir do final do século XIX que o jogo, do ponto de vista científico, passa a ser alvo de estudo de psicólogos, psicanalistas e pedagogos em geral, surgindo a partir daí um rol de teorias para tentar explicar seu significado. Alguns autores sustentavam que o jogo servia para recreação; outros apontavam o jogo como atividade para descansar e para restabelecer as energias consumidas nas atividades sérias ou úteis. Psicólogos contemporâneos como Piaget, Wallon e Vygotsky também deram destaque ao brincar da criança atribuindo-lhe papel decisivo na evolução dos processos de desenvolvimento humano (maturação e aprendizagem). Embora esses teóricos apresentem diferenças significativas nos enfoques relacionados ao jogo, eles contribuíram sobremaneira para a construção de uma teoria lúdica infantil. O jogo simbólico e sua relação com a aprendizagem da criança
Quando vemos uma criança brincando de faz-de-conta, as representações que ela desenvolve não deixam dúvida do significado que os objetos assumem dentro do contexto dessa brincadeira. Sentimo-nos como diante de um miniteatro onde papéis e objetos são improvisados. Segundo BOMTEMPO (apud KISHIMOTO, 1999), esse tipo de jogo recebe várias denominações; jogo imaginativo, jogo de faz-de-conta, jogo de papéis, jogo sociodramático, ou seja, os termos simbólico, representativo, de simulação, de ficção, ou de faz de-conta podem ser vistos como sinônimos, desde que sejam empregados para descrever o mesmo fenômeno (p.58). O jogo simbólico individual da criança pode, também de acordo com a ocasião, transformar-se em coletivo com a presença de vários participantes. A maior parte dos jogos simbólicos implica atos que podem ter sido anteriormente derivados dos jogos de exercício ocorridos no período sensório-motor. Para BOMTEMPO (apud KISHIMOTO, 1999), o jogo imaginativo acontece com pares ou grupos de crianças que introduzem objetos inanimados, pessoas, animais que não estão presentes no momento. A criança não vê o objeto como ele é, mas lhe confere um novo significado. Por exemplo: quando a criança monta em uma vassoura e finge estar cavalgando um cavalo, ela está conferindo um novo significado ao objeto. Para VYGOTSKY (1989), a simbolização através dos objetos funciona como pré -condição para o aparecimento do jogo de papéis propriamente dito. Assim, a interpretação da criança às ações que o adulto realiza em seu cotidiano é uma forma original de simbolização. Para esse autor, a mudança no conteúdo da brincadeira da criança está intimamente relacionada com a mudança na natureza das atividades apresentadas por ela. O brincar tem origem na situação imaginária criada pela criança, em que desejos irrealizáveis podem ser realizados com a função de reduzir a tensão e ao mesmo tempo constituir uma maneira de acomodação a conflitos e frustrações da vida real.
Por sua vez, o componente simbólico do jogo pressupõe a existência de regras que a criança se impõe para representar os personagens que ela incorpora. Conseqüentemente, a regra do jogo se desprende do papel que cada criança pensa representar. Assim, a criança passa da brincadeira, cujo conteúdo básico é a reprodução das atitudes dos adultos com objetos no seu cotidiano, para a brincadeira, cujo conteúdo básico torna-se a reprodução das relações dos adultos entre si ou com crianças. Analisar o jogo simbólico da criança quanto ao conteúdo permite-nos perceber o que ela esta aprendendo na mais tenra idade, os padrões dominantes no meio ao qual esta inserida. Assim, as atividades que as crianças realizam em cada contexto para se divertir retratam de certa forma a cultura lúdica do seu contexto social. Por meio das atividades lúdicas a criança vai construindo seu vocabulário lingüístico e psicomotor. São nestas, e provavelmente somente nestas atividades, que a criança pode ser espontânea e, conseqüentemente, criativa. Pare e pense: A mudança no conteúdo da brincadeira da criança está intimamente relacionada à mudança em suas atividades rotineiras. Kishimoto, 1999. Sugestão de atividades Observe especificamente uma criança brincando e descreva: 1. Ela brinca com colegas da mesma idade? Ela tem oportunidades de interagir com crianças mais novas e/ ou mais velhas? Ela brinca com adultos? Ela brinca sozinha? O jogo na ação lúdica infantil
As interações sociais que a criança estabelece no decorrer da atividade lúdica são fundamentais para seu desenvolvimento. Durante estas trocas, a criança tem oportunidade de assumir diversos papéis e colocar-se no lugar do outro. Os objetos e/ ou brinquedos com os quais a criança brinca podem ser de elementos simples da natureza até sofisticados brinquedos. Esses objetos aparecem em diferentes contextos no cotidiano infantil: na família, nas instituições educacionais, no contexto psicológico. Em cada um deles, um brinquedo pode ser visto como objeto de solidão ou consolação; como objeto que estimula a autonomia ou que potencializa a socialização da criança no coletivo. As brincadeiras têm um impacto próprio e são, ao mesmo tempo, veículos da inteligência e da atividade lúdica. Elas constituem um eco dos padrões culturais dos diferentes contextos socioeconômicos. Assim, o jogo / brincadeira é visto como forma de o sujeito violar a rigidez dos padrões de comportamento sociais da espécie, pois o jogo / brincadeira, ao ocorrer em situações sem pressão, em atmosfera de familiaridade, segurança emocional e ausência de tensão e perigo, favorece a aprendizagem de normas sociais. A conduta lúdica da criança apresentada através do jogo oferece oportunidades para experimentar comportamentos que em situações normais não seriam possíveis. Aponta a potencialidade da brincadeira para a descoberta de regras e aquisição da linguagem. Ao repetir a brincadeira nos contatos interativos com adultos, a criança descobre a regra, ou seja, a seqüência de ações que compõem a modalidade do brincar e não só repete essas ações, mas toma iniciativa, alterando sua seqüência ou introduzindo novos elementos. Ao descobrir regras a criança aprende: a falar, iniciar a brincadeira e alterá-la. Assim, as brincadeiras de esconder são relevantes para o desenvolvimento cognitivo, estimulam a aprendizagem da linguagem e a solução de problemas. Ao brincar, a criança não está preocupada com os resultados. É o prazer e a motivação que impulsionam a ação para explorações livres. Em situações de brincadeiras a criança desenvolve a intencionalidade e a inteligência. O saber fazer é enriquecido com a parceria dos adultos. VYGOTSKY (1989) relaciona a cultura e o uso de ferramentas ao desenvolvimento da inteligência; afirma que não há uma fronteira impenetrável entre a fantasia e a realidade e defende a existência de diferentes formas de vinculação entre a atividade imaginadora e a realidade.
Segundo esse autor, os processos criadores encontrados desde os primeiros anos da infância refletem-se nas brincadeiras e jogos possibilitando ao sujeito reordenar o real em novas combinações. Para a Psicologia sócio-histórica a essência da vida humana é cultural e não natural. Assim, tanto a atividade lúdica como a atividade criativa surgem marcadas pela cultura e mediada pelos sujeitos com quem a criança se relaciona. Pare e pense: No comportamento diário das crianças o brincar é algo que se destaca como essencial para seu desenvolvimento e aprendizagem. Dessa forma, se quisermos conhecer bem as crianças, devemos conhecer seus brinquedos e brincadeiras. BROUGÈRE (2004)