1 1. Artigo Tema: Ensino de argumentação filosófica Construindo uma tese científica: pesquisa e argumentação Gabriel Goldmeier Conhecimento: crença verdadeira corretamente justificada A Teoria do Conhecimento (também chamada de Epistemologia) é o ramo da Filosofia que tem por objetivo estudar as possibilidades do conhecimento, estudar como podemos ter certeza de que algo que afirmamos é verdadeiro se é que podemos obter tal certeza. No desenvolvimento desse estudo, defrontamo-nos com duas posições extremas. Uma, defendida pelos céticos, afirma não ser possível acessarmos a verdade acerca das coisas do mundo. A outra, a posição relativista, toma a opinião de cada um como sendo uma verdade relativa àquele sujeito. Contrapostas a esses dois extremos, muitas teorias têm se desenvolvido ao longo dos séculos a partir da crença na possibilidade do conhecimento em oposição à mera opinião, isto é, da crença na possibilidade de acessarmos a verdade acerca das coisas do mundo (ao menos de algumas). Platão sugere 1 que, para chegarmos ao conhecimento de algo (para se ter ciência de algo no sentido mais livre, para fazermos ciência), devemos ter atendidos três pressupostos: i) ter uma crença (opinião); ii) verdadeira; iii) corretamente justificada. O primeiro dos pressupostos é bastante óbvio. Não podemos ter ciência de uma idéia que não tomamos por verdadeira, ou seja, que não acreditemos que assim seja. Imagine que alguém faça a seguinte afirmação: Eu sei que o Sol não é um planeta, mas eu acredito que é. Provavelmente duvidaríamos da sanidade mental do indivíduo. O segundo pressuposto afasta a teoria platônica do relativismo. Quando Platão diz que o saber é uma crença verdadeira, sua intenção é distingui-lo da crença falsa, dado que ele admite, assim como o senso comum o faz, que as opiniões podem ser verdadeiras ou falsas (podemos 1Essa sugestão aparece na obra Teeteto.
2 ter a crença falsa de que o Sol é um planeta). Assim, para que uma crença seja considerada saber (conhecimento), ela deve, necessariamente, ser verdadeira (jamais poderíamos dizer que tínhamos o saber falso de que o Sol é um planeta; o que tínhamos era a crença falsa de que o Sol é um planeta). Mas Platão, para dar a uma opinião o estatuto de saber, exige da opinião, além da sua verdade, que ela tenha sido obtida pelos meios corretos, que tenha sido corretamente justificada. Nesse sentido, podemos dizer que um saber depende de um bom argumento, de uma relação entre razões e conclusão que garanta a verdade da conclusão. As aspas da frase anterior sem dúvida indicam uma dificuldade na definição do conceito justificação correta. Esse, todavia, não é um texto sobre Teoria do Conhecimento, e não irei muito longe com essa discussão. Sugerirei apenas que uma justificação correta é uma justificação que (i) parta de crenças corretas e (ii) faça uso de um raciocínio correto. Tomarei como primeiro exemplo um argumento que tenha por conclusão a seguinte crença verdadeira: Sócrates é mortal. E que essa conclusão tenha sido obtida das seguintes crenças: i) Sócrates é homem ; ii) Todo homem é mortal. Nesse argumento, a primeira das exigências - partirmos de crenças corretas - parece ser satisfeita. (É claro, estamos supondo que não existam homens imortais e que estejamos falando do filósofo grego e não de um cachorro de estimação, por exemplo.) Quanto à segunda exigência - fazermos uso de um raciocínio correto -, apesar de, nesse caso, isso ser bastante óbvio para alguns, procurarei mostrar, através do raciocínio a seguir, que ela também é alcançada. Pensemos primeiramente no conjunto de todas as coisas do mundo, que chamarei de conjunto Universo e representarei pelo diagrama a seguir: Agora, imaginemos que o conjunto dos homens está contido no conjunto Universo e o divide entre as coisas que são homens (que estão dentro do conjunto H) e as que não o são (que estão fora do conjunto H).
3 Imaginemos a seguir que o conjunto das coisas que são mortais também esteja contido no conjunto universo. Assim, tais conjuntos acabam por dividir o conjunto universo em quatro subconjuntos: (i) o conjunto das coisas que não são homens e não são mortais; (ii) o conjunto das coisas que são homens, mas não são mortais; (iii) o conjunto das coisas que são homens e mortais; (iv) o conjunto das coisas que não são homens, mas são mortais. Agora, recorrendo às razões apresentadas, percebemos que a primeira diz que Sócrates (s) é homem (H). Portanto, obrigatoriamente, s deve pertencer a H (s H). Como não sabemos ainda se s é ou não mortal, s pode ser s 1 ou s 2. Já a segunda razão afirma que não podem existir homens que não sejam mortais, ou seja, que o subconjunto (ii) supracitado é vazio. (Por essa razão, pinto-o de preto.) Na verdade, dizer todo homem é mortal é o mesmo que dizer que o conjunto dos homens está contido no dos mortais. O diagrama acima poderia, pois, ser representado como se segue: Agora, como devemos considerar as duas razões em conjunto, vemos que o diagrama resultante indica que Sócrates só pode ser s 2, pois s 1 pertence a um subconjunto que deve ser vazio.
4 Logo, obrigatoriamente, Sócrates deve ser mortal. A conclusão é, pois, obtida de um raciocínio correto. Para deixar mais claro o que estou querendo dizer quando falo de uma justificação correta, apresentarei dois contraexemplos, duas más justificações para uma crença. Em ambos os casos, há uma crença verdadeira, mas que é obtida por meios incorretos, que é incorretamente justificada. Imaginemos, então, a seguinte crença verdadeira: Marte é um planeta. Contudo, pensemos que chegamos a essa conclusão a partir de duas crenças falsas: i) todas as coisas que giram ao redor da Terra são planetas ; ii) Marte gira ao redor da Terra. Nitidamente, nossa crença só é verdadeira, pois tivemos sorte ao derivarmos a mesma de duas crenças falsas (ainda que tenhamos feito uso de um raciocínio correto). Afirmo isso, pois, quem está comprometido com a ideia de que a verdade da afirmação Marte é um planeta decorre das duas afirmações acima, chegará à seguinte crença falsa: a Lua é um Planeta, derivando a mesma das afirmações (uma verdadeira e outra falsa): i) todas as coisas que giram ao redor da Terra são planetas (a afirmação falsa tomada por verdadeira anteriormente); ii) a Lua gira ao redor da Terra (uma afirmação, de fato, verdadeira). Logo, diremos que os meios para chegarmos à crença de que Marte é um planeta não são corretos, pois, apesar de ela ser uma crença verdadeira, ela foi justificada com base em crenças
5 falsas, crenças que em outras circunstâncias (como na do exemplo imediatamente posterior), podem levar a conclusões falsas. E isso, sem dúvida, não é ciência. 2 É claro que a busca por uma justificação que seja sempre derivada de crenças verdadeiras gera muitas dificuldades. Podemos nos questionar: o que garante que as crenças que justificam a crença em questão sejam verdadeiras? Não é difícil remetermos à situação corriqueira das crianças com seus eternos porquês: o que garante que as crenças que justificam as crenças que justificam a crença em questão sejam verdadeiras? Esse, sem dúvida, é um grande problema, talvez até insolúvel, de regresso ao infinito. Todavia, ele também diz respeito à Teoria do Conhecimento e vai além do que pretendo discutir nesse ensaio. Agora, imaginemos novamente a mesma crença verdadeira: Marte é um planeta. E pensemos que ela seja derivada de outras duas crenças também verdadeiras: i) nenhum planeta gira ao redor da Terra ; ii) Marte não gira ao redor da Terra. Aqui, ao contrário do exemplo anterior, a incorreção da justificação não está no fato de se partir de crenças falsas para se chegar ao conhecimento de algo. Na verdade, parte-se de crenças verdadeiras e se chega a uma crença verdadeira, mas de uma forma incorreta. Isso porque, quem aceita que a afirmação Marte é um planeta derivada das duas afirmações (verdadeiras) acima, também deverá aceitar, fazendo uso do mesmo raciocínio, a seguinte crença: meu cachorro é um planeta. Isso, porque, ela é derivada das duas afirmações verdadeiras apresentadas abaixo e similares às afirmações do argumento anterior: i) nenhum planeta gira ao redor da Terra ; ii) meu cachorro não gira ao redor da Terra. 2 Um argumento que possui o mesmo problema dos acima descritos seria o seguinte: Premissa 1: Se Pelé for alemão, então a Segunda Guerra Mundial ocorreu no século XX. Premissa 2: Pelé é alemão. Conclusão: Logo, a Segunda Guerra Mundial ocorreu no século XX. Isso porque uma das razões para a conclusão é falsa (Pelé não é alemão).
6 Também nesse último exemplo, não diremos que os meios para se chegar à crença de que Marte é um planeta são corretos. Aqui, contudo, o problema com a justificação é de outra natureza. Podemos notar que a primeira afirmação diz que a intersecção entre os conjuntos dos planetas (P) e das coisas que giram ao redor da terra (G) é vazia. (Assim como no primeiro exemplo, pinto tal subconjunto vazio de preto.) Tal relação entre os dois conjuntos também poderia ser expressa pelo diagrama abaixo, que destaca a inexistência de intersecção entre P e G. A segunda afirmação garante apenas que Marte está fora de G, isto é, que Marte pode ser m 1 e m 2. Logo, não podemos ter certeza (apesar de, de fato, ser verdade), que Marte é um planeta, pois, ao juntarmos as duas descrições, m tanto poderia estar dentro ( m 1 ) quanto fora ( m 2 ) de P, já que o único subconjunto que deve estar vazio é o da intersecção de P e G : Nesse último raciocínio, vemos, pois, que é a estrutura do pensamento que falha. A opinião verdadeira não estava corretamente justificada por uma falha estrutural do nosso pensamento, logo, não havia conhecimento. 3 3 Um argumento que possui o mesmo problema dos acima descritos seria o seguinte: Premissa 1: Pelé era um craque. Premissa 2: A Alemanha fica na Europa. Conclusão: Logo, a Segunda Guerra Mundial ocorreu no século XX. Isso porque a verdade das premissas não garante a verdade da conclusão (há uma falha na estrutura do argumento).
7 Logo, se os dois argumentos acima que têm como conclusão a afirmação verdadeira Marte é um planeta tivessem sido apresentados por candidatos a astrônomos, diríamos que os mesmos são impostores, pois um não observa bem o mundo - parte de premissas falsas - enquanto o outro não raciocina bem, ainda que parta de premissas verdadeiras. De outra sorte, pensemos em alguém que apresente o seguinte argumento: Marte é um planeta, pois i) todas as coisas que giram ao redor do Sol tendo massa suficiente para haver rotação em torno de si e não tendo massa suficiente para causar fusão termonuclear são planetas ; e ii) Marte gira ao redor do Sol tendo massa suficiente para haver rotação em torno de si e não tendo massa suficiente para causar fusão termonuclear. Admitindo que girar ao redor do Sol tendo massa suficiente para haver rotação em torno de si e não tendo massa suficiente para causar fusão termonuclear é condição necessária e suficiente para ser planeta, diremos que essa pessoa (i) partiu de premissas verdadeiras e (ii) fez uso de um argumento corretamente estruturado. Assim, podemos afirmar que ela construiu um argumento sólido e que é uma candidata ao título de astrônoma. Desse modo, podemos dizer que, para garantir que a estrutura do nosso pensamento não falhe e, portanto, para que haja a possibilidade de uma justificação correta (que, por sua vez, possibilitará o conhecimento), é importante que se desenvolva uma técnica que possibilite a organização do bem pensar. A essa técnica damos o nome de teoria da argumentação. Uma boa tese: boa pesquisa dos fundamentos e boa argumentação Seguindo Platão, vimos no tópico anterior que uma crença não justificada (ou mal justificada), mesmo que verdadeira, não é conhecimento, pois não passa de uma mera opinião. Já, ao observarmos o comportamento humano, podemos aceitar como verdadeira a célebre frase de Aristóteles todos os homens, por natureza, desejam conhecer 4. Com essa frase, o filósofo pretende marcar que os homens desejam que suas crenças sejam verdadeiras e corretamente justificadas. E, também como já visto, os homens, para conhecer, precisam justificar suas crenças (i) partindo de outras crenças verdadeiras e (ii) tendo uma estrutura argumentativa que associe 4 Afirmação feita no início de uma de suas obras mais famosas, a Metafísica, obra que acabou dando o nome a um dos ramos mais importantes da Filosofia.
8 razões e conclusão corretamente. São, pois, esses os dois objetivos que deve ser almejados por aqueles pretendem apresentar uma tese que produza conhecimento. Para tal, em primeiro lugar, as boas teses devem partir de fundamentos corretos, isto é, as premissas básicas utilizadas para se chegar à conclusão devem ser verdadeiras. Isso obriga o pesquisador a buscar boas fontes de informação. Nesse sentido, a escolha de uma bibliografia confiável e/ou de técnicas corretas para a obtenção de dados empíricos é fundamental. Além disso, os raciocínios utilizados para que se passar dos fundamentos à conclusão não podem ser falaciosos, isto é, não podem apresentar falhas que permitam que se parta de bases verdadeiras e se chegue a uma conclusão falsa. Um bom raciocínio (não falacioso) não pode apresentar saltos indevidos entre razões e conclusões. Dessa forma, é muito importante que o pesquisador identifique perfeitamente como ele está justificando as passagens daquilo que ele toma por verdadeiro para aquilo que ele pretende concluir também como verdadeiro. Assim, se desejamos desenvolver uma boa tese, precisamos desenvolver duas habilidades distintas e complementares. Precisamos aprender a obter dados verdadeiros (isto é, a pesquisar) e também a relacionar razões e conclusão de forma consistente (isto é, a argumentar). Logo, a fim de formar bons pesquisadores, um bom curso sobre argumentação deve procurar desenvolver nos alunos esses dois tipos de habilidades. Para tal, refletiremos sobre as diferentes técnicas de pesquisa experimental, exploratória, social, histórica e teórica, bem como sobre os diferentes tipos de argumentos dedutivos, indutivos, abdutivos e por analogia. Além disso, refletiremos sobre outras habilidades necessárias ao bem pesquisar e ao bem argumentar, como, por exemplo, sobre a capacidade de bem definir os conceitos utilizados nas pesquisas e nos argumentos construídos. Todos os direitos reservados. Ao utilizar este material, não retirar os créditos. www.clef.com.pt materiais@clef.com.br