Cardiomiopatia Conceitos, evolução e prognóstico

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Transcrição:

Curso de Reciclagem em Cardiologia Cardiomiopatia Conceitos, evolução e prognóstico Dr. Amberson Vieira de Assis Instituto de Cardiologia de Santa Catarina

Conceituação Grupo de desordens que afetam o miocárdio, de etiologia variável, nas quais o coração, por mecanismos diversos, é incapaz de manter um débito cardíaco adequado para acomodar os requerimentos metabólicos e o retorno venoso.

Cardiomiopatia Restritiva

Características Cardiomiopatia menos comum Volumes e espessura de paredes normais ou anormais de acordo com a etiologia Aumento dos átrios Maioria idiopática- algumas familiares Desórdens sistêmicas: - Amiloidose, Sarcoidose, Hemocromatose, Esclerodermia e Carcinóide.

Sintomatologia - Achados Sintomas de ICC - (IVE e IVD) de graus variáveis Presença de fibrilação atrial B3, B4, Estertores, turgência jugular, sinal de Kussmaul hepatomegalia, ascite ou edema

Achados de exame físico RX - HVCP sem cardiomegalia ECG - Alterações inespecíficas Distúrbios de condução, baixa voltagem do QRS são comuns em amiloidose ou sarcoidose Eco: Achados comuns e específicos etiologia dependentes

Constricção x Restrição História Exame físico RX e ECG Ecocardiograma Tomografia ou RM Estudo hemodinâmico

Constricção x Restrição

Pericardite constrictiva

Cardiomiopatia Restritiva Amiloidose

Cardiomiopatia Hipertrófica

Desarranjo miocárdico Estrutura muscular normal (Arranjo paralelo) Desarranjo miofibrilar (Alinhamento inadequado)

Características Quando assimétrica primariamente envolve o septo sem dilatação ventricular Complascência anormal-relaxamento diastólico reduzido, com enchimento e débito geralmente normais. 50% são hereditárias Prevalência 1:500, Mortalidade 1% Mortalidade 4-6% na criança/adolescente

Sintomatologia A severidade dos sintomas progride com a idade Dispnéia aos esforços é geralmente o principal sintoma Angina, palpitações e síncope também podem estar presentes em fases mais avançadas

Achados de exame físico Presença de quarta bulha (B4) Pulso apical hiperdinâmico Sopro sistólica ejetivo na ponta ou borda external esquerda baixa Aumento do sopro com manobra de valssalva (redução da cavidade ventricular esquerda)

Exames complementares ECG-HVE em 30%, Aumento do átrio esquerdo - 25-50% Ondas Q septais - 25% RX - usualmente normal Eco-Hipertrofia assimétrica, alterações de relaxamento, hipercontração

Simétrica Simétrica ou concêntrica

Apical Cavidade pequena Hipertrofia apical

Miocardiopatia hipertrófica Obstrutiva IM Valva mitral deslocada contra o septo

Diástole MCPH - Ecocardiograma Sistole

Pós extrassístole CMPH Dinâmica da obstrução Efeitos da contratilidade e enchimento do VE Valssalva

Tratamento - prognóstico Desencorajar exercícios vigorosos B-bloqueadores ou bloqueadores de cálcio para redução da sintomatologia Marcapasseamento - resultados tardio ruins Avaliar concomitância de arritmias, risco de morte súbita - CDI? Alcoolização septal ou Cirurgia para casos refratários

MCPH: Alcoolização septal

Cardiomiopatia Hipertrófica Miectomia Septal

Prognóstico Diagnóstico na infância e adolescência História familiar de MCPH e morte súbita Síncope Morte súbitas - Desconhecido? Arritmia complexa - FV? - FA com alta resposta - Piora aguda da obstrução com colapso circulatório?

Cardiomiopatia Dilatada

Etiologias de cardiomiopatia Quais as principais causas de ICC? Doença isquêmica Hipertensão Cardiomiopatia idiopática Infecções (miocardite viral; Doença de Chagas) Toxinas (álcool ou drogas citotóxicas) Doença vascular Taquiarritmias

Ciclo Vicioso na ICC Disfunção do VE Trabalho VE Pré-carga Pós-carga Débito cardíaco PA DC (via contratilidade e FC) PA (via vasoconstricção e Volume) Mecanismo Frank-Starling Remodelamento Ativação Neurohormonal

Base hemodinâmica dos sintomas

Internações hospitalares por ICC EUA 1970-2000 Altas em milhares 600 500 400 300 200 100 Mulheres Homens AHA: Heart Disease and Stroke Statistics 0 1970 75 80 85 90 95 2000 Anos

Sobrevida em ICC 100 Mortalidade CF II - 15%/ano CF IV- 50%/ano Sobrevida % 80 60 40 20 Mulheres Homens Circulation 1999; 99:1816 0 0 6 12 18 Meses

Efeitos da etiologia 100 Periparto Sobrtevida % 80 60 40 20 Doxorubicina Idiopática Isquêmica Infiltrativa AIDS N Engl J Med; 342:1077 0 0 5 10 15 Anos

Classe funcional e Sobrevida na ICC SOLVD e CONSENSUS Sobrevida % 100 80 60 40 20 0 CF IV Mtl 44-64% Sbv 36% assintomáticos CF II ou III Mtl 5-19% Sbv 81% Mtl 15-40% Sbv 60% N Engl J Med 1992; 327:685-1991; 325:293 0 1 2 3 4 Anos

Consumo de oxigênio - sobrevida em ICC Sobrevida % 100 80 60 40 20 > 18ml/kg/min 14-18ml/kg/min 10-14ml/kg/min < 10/kg/min 0 0 3 6 Meses 9 12 Circulation 1991; 83: 778

Frações de Ejeção e mortalidade na ICC Mortalidade % 12 10 8 6 4 2 SOLVD N= 1172 RR 1,8 FE < 35% FE > 35% J Am Coll Cardiol 2000; 35: 1237 0 0 3 6 9 12 Meses

Insuficiência Tricúspide Sobrevida na ICC Eventos: MT - TX e Int ICC Sobrevida % 100 80 60 40 20 Com IT Sem IT 68% sem eventos 30% sem eventos 0 0 12 24 Semanas 36 48 Am J Cardiol 1998; 82: 1301

Disfunção Diastólica Sobrevida em ICC Eventos: MT - TX e Int ICC Sobrevida % 100 80 60 40 36% eventos TD > 125ms 86% eventos 20 0 TD < 125ms 0 12 24 Meses 36 48 J Am Coll Cardiol 1998; 31: 1591

Alterações neuro-humorais na ICC Pacientes normais Ann Intern Med 1984; 101:370 10 8 Pacientes com ICC Norepinefrina 6 4 2 0 Renina ADH Número de vezes o normal

Natremia - sobrevida em ICC 0 6 12 Circulation 1986; 73: 257 100 80 60 40 20 0 Sódio > 137 Sódio < 137 24 36 Meses Sobrevida %

Níveis Norepinefrina - Sobrevida em ICC 1 0,90 Sobrevida % 0,80 0,70 0,60 Q1 Q2 Q3 Q4 BNP pg/ml < 274 274<394 394-<574 >574 Q1 Q2 Q3 Q4 0,50 MT % 13,8 16,5 23 24,2 0 6 12 Meses 24 36 Circulation 2003; 107: 1278

Níveis de BNP - Sobrevida em ICC 1 0,90 Q1 Sobrevida % 0,80 0,70 0,60 Q1 Q2 Q3 Q4 BNP pg/ml < 41 41<97 97-<238 >238 Q2 Q3 Q4 0,50 MT % 9,7 14,3 20,7 32,4 0 6 12 Meses 24 36 Circulation 2003; 107: 1278

Níveis de Endotelina Sobrevida por ICC Sobrevida % 100 80 60 40 20 Endotelina < 4,3 fmol/l Endotelina > 4,3 fmol/l 0 0 100 200 Dias 300 400 J Am Coll Cardiol 1998; 32: 1695

Tratamento versus Prognóstico RALES Digital + diurético + inibidor da ECA + beta-bloqueador + espironolactona = maior redução de mortalidade Morte por todas as causas Idade < 67 anos Idade > 67 anos Não isquêmicos Isquêmicos FE < 26% FE > 26% Sem Beta-bloqueador Com Beta-bloqueador N Engl J Med 1999; 341: 709-17 0.2 0.4 0.6 0.8 1 1.2 1.4 Espironolactona melhor Placebo melhor

Utilização das terapias baseadas em evidência Registro ADHERE IECA BRA B-bloq N= 52047 Pacientes tratados % 100 80 60 40 20 0 Espiron Diurét Digoxina 69% 47% 41% 12% 17% 28% Rev Cardiovasc Med. 2003;4 Suppl 7:S21-30 Medicamentos