A ESTÉTICA E O SENTIDO DO MUNDO

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Transcrição:

A ESTÉTICA E O SENTIDO DO MUNDO Edjan Cardoso Bidu Resumo: A arte pode curar a dor? Ela faz parte da história do mundo? Qual a sua relação com a existência humana? Três questões e três pensadores: Schopenhauer, Marx e Nietzsche. O primeiro diz que a arte tem um poder curativo, ainda que momentâneo; o segundo fala do trabalho humano que constrói a história do mundo e nele encontra-se também a arte; o terceiro faz uma viagem à Grécia Antiga para lá começar uma investigação acerca da relação entre existência e arte. São esses os assuntos que o texto pretende abordar. Palavras-chave: Arte. Satisfação. Cura. Trabalho. Existência. 1. INTRODUÇÃO Ao longo da história, muitos foram os pensadores que se dedicaram ao estudo filosófico da arte, Hegel (1770-1831), por exemplo, fez um estudo amplo sobre esse tema que culminou em várias obras, dentre elas pode-se destacar Cursos de estética. Ele acredita que existem fases que compõem a beleza artística e as chama de Formas, cada uma com grau diferente de revelação do espírito absoluto. Isso porque, para Hegel, através da arte o espírito se manifesta sensivelmente. No entanto, nos séculos XVIII e XIX, há outros filósofos como Schopenhauer (1788-1860), Marx (1818-1883) e Nietzsche (1844-1900) que discutem acerca da arte. Desses três, os dois primeiros são contemporâneos de Hegel. O presente texto faz uma breve abordagem sobre os pensamentos desses três autores no que se refere a essa temática. Schopenhauer vê na contemplação da arte um Aluna do curso de Filosofia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). E- mail: edjfab@hotmail.com. 49

conhecimento desprovido da vontade, nessa contemplação há um deleite, uma satisfação, uma cura momentânea da dor e do sofrimento; Marx enfatiza a importância da história na compreensão da obra de arte; e Nietzsche faz uma reflexão sobre arte e existência. 2. O PODER CURATIVO DA ARTE A contemplação da arte, para Schopenhauer, é composta por dois componentes: conhecimento do objeto e consciência de si (sujeito). A relação desses componentes é descrita pelo autor da seguinte maneira: Encontramos no modo de conhecimento estético dois componentes inseparáveis. Primeiro o conhecimento do objeto não como coisa isolada, mas como ideia platônica, ou seja, como forma permanente de toda uma espécie de coisas; depois a consciência de si daquele que conhece, não como indivíduo, mas como puro sujeito do conhecimento destituído de vontade (SCHOPENHAUER, 2012, p. 206). Contudo, duas coisas chamam a atenção nessa citação, objeto como ideia e sujeito destituído de vontade. Para Schopenhauer o homem é movido pela vontade de viver, um querer proveniente de uma necessidade, esta, causa-lhe dor e sofrimento. Viver, segundo ele, é um mal. A arte tem o poder de propiciar uma cura momentânea desse mal, se o indivíduo der lugar ao puro sujeito do conhecimento que contempla o objeto. Este, por sua vez, visto como ideia de sua espécie. Essa relação se eleva, deixando de fora o tempo e o espaço. Assim, há uma satisfação que acaba com a dor e com o sofrimento. Para exemplificar essa elevação, o autor fala da beleza do pôr do sol apreciada por dois sujeitos em lugares diferentes: um de um palácio, o outro de uma prisão. A contemplação propicia a ambos a satisfação, pois estão ausentes o tempo, o espaço, a razão, a vontade e qualquer outro tipo de relação. Entretanto, essa satisfação não é duradoura e Schopenhauer explica porque isso ocorre: Assim que surge novamente na consciência uma relação com a vontade, com a nossa pessoa, precisamente dos objetos intuídos 50

puramente, o encanto chega ao fim (SCHOPENHAUER, 2012, p. 209). Parece que a vontade reivindica o seu lugar, ela tem uma força que faz retornar a sua presença, e, como o autor diz, o deleite propiciado pela contemplação da arte é como uma esmola recebida pelo mendigo, que por um momento sente-se saciado, mas logo volta a mendigar outra vez. Não obstante, o autor de O mundo como vontade e representação, diferencia o belo do sublime. Segundo ele, no belo, o conhecimento puro, ganha primazia na consciência e ocorre sem uma luta, levemente e de forma imperceptível, isso porque a beleza do objeto embriaga a consciência fazendo a vontade sair de cena. No sublime, o desprendimento da vontade deriva de uma consciente luta em busca do conhecimento puro e de uma livre elevação. Dessa forma ele destaca características do caráter sublime: O caráter sublime, por exemplo, notará erros, ódio, injustiça dos outros contra si, sem no entanto ser excitado pelo ódio; notará a felicidade alheia, sem no entanto sentir inveja; até mesmo reconhecerá a qualidade boa dos homens, sem no entanto procurar associação mais íntima com eles; perceberá a beleza das mulheres, sem cobiçá-las (SCHOPENHAUER, 2012, p. 219). No sublime, percebe-se uma elevação do sujeito. Este, ainda que brevemente, fica imune à vontade e ao desejo, livre das inquietações e angústias, experimentando uma efêmera cura da dor. Rosa Maria Dias fala algo interessante sobre isso: Schopenhauer encontra na contemplação estética a possibilidade para transcender o modo comum de se perceber o mundo, para se libertar do desejo, da vontade e apaziguar temporariamente a dor (DIAS, 2010, p. 110). A autora soube bem sintetizar o pensamento de Schopenhauer ao dizer que para ele a contemplação estética propicia a transcendência do sujeito, levando-o a perceber o mundo de uma forma diferente. Assim, a cura da dor, ainda que momentânea, acontece. 51

3. HISTÓRIA E ARTE Karl Marx fala do sentido das relações do homem no mundo (relação do homem consigo mesmo, com os outros homens e com a natureza). Para ele, as relações nascem do querer relacionar-se, há aí um interesse que busca uma reciprocidade. Assim diz o autor: Relacionam-se com a coisa por querer a coisa, mas a coisa mesma é um comportamento humano objetivo consigo própria e com o homem, e vice-versa. Eu só posso, em termos práticos, relacionar-me humanamente com a coisa se a coisa se relaciona humanamente com o homem (MARX, 2012, p. 231). Percebe-se que há uma humanização da relação para que ela tenha sentido para o homem. Dessa maneira, um mesmo objeto pode ter sentidos diferentes a depender de quem se relaciona com ele. Marx usa o exemplo do comerciante de pedras preciosas, para este, o que interessa não é a beleza das pedras e sim o seu valor comercial. Entretanto, o autor fala que a história do mundo é a história do trabalho humano, fruto da relação do homem consigo mesmo, com os outros e com a natureza (relações humanizadas). Celso Frederico fala do entendimento de Marx acerca do trabalho, diz ele: Marx pôde entender o trabalho como uma atividade material que medeia a relação entre o homem e a natureza, como uma mediação que permitiu criar o mundo dos objetos humanos, aqueles objetos extraídos da natureza, modificados e trazidos para o contexto dos significados humanos (FREDERICO, 2012, p. 14). A partir dessa visão de Marx, fica claro que, a arte para ele, está dentro dessas relações humanizadas. A atividade artística ocorre no desenvolver da sociedade, o contexto social tem um peso significante na produção artística e na apreciação da mesma. O autor, ao falar da arte produzida na Grécia Antiga, reconhece essa influência contextual, mas o que o fascina é que ela continua 52

proporcionando prazer artístico e se mostra inigualável ainda hoje. Fazendo uma analogia a pureza infantil, Marx diz que há crianças precoces e crianças maleducadas, mas que os gregos foram crianças normais. Diz ele: Os gregos foram crianças normais. O encanto de sua arte, para nós, não está em contradição com o estágio social não desenvolvido em que cresceu. Ao contrário, é seu resultado e está indissoluvelmente ligado ao fato de que as condições sociais imaturas sob as quais nasceu, e somente das quais poderia nascer, não podem retornar jamais (MARX, 2012, p. 239). Numa sociedade capitalista, por exemplo, na qual o ter e o dinheiro imperam, causando a alienação do homem, os sentidos deste podem ser atrofiados para a sensibilidade artística e canalizados apenas para direção imposta pelo sistema. Produzir arte em tais condições não é uma tarefa fácil. Nota-se como o autor enxerga na arte o resultado das relações humanizadas, provenientes do meio em que ela foi produzida, ou seja, fruto das relações do homem, consigo mesmo, com os outros homens e com a natureza. 4. ARTE E EXISTÊNCIA O filósofo Nietzsche, por sua vez, procura fazer uma ponte entre arte e existência. Qual seria a finalidade da arte na vida do homem? Direcionando o seu pensamento para os antigos gregos, ele observa a importância da mitologia para aquele povo, os deuses criados por eles davam suporte para o enfrentamento das adversidades, impulsionando-os a viver: De que outro modo poderia aquele povo tão profundamente sensitivo, tão impetuoso no desejo, tão particularmente apto ao sofrimento, ter suportado a existência, se esta mesma não lhe tivesse sido mostrada em seus deuses, banhada de uma glória mais elevada (NIETZSCHE, 2012, p. 245). A arte nascida nessa atmosfera complementa a existência. Ele confere à arte um poder curativo: 53

Aqui, nesse perigo supremo da vontade, aproxima-se a arte, como feiticeira salvadora, como feiticeira da cura; somente ela é capaz de converter aqueles pensamentos nauseantes acerca do terrível ou absurdo da existência em representações com as quais se pode viver: são elas o sublime enquanto aplacamento artístico do terrível, e o cômico enquanto descarga artística da náusea do absurdo (NIETZSCHE, 2012, p. 247, grifos do autor). O poder curativo da arte, apresentado por Nietzsche, tem um caráter mágico. Só a arte consegue realizar este enorme paradoxo: ao mesmo tempo que aplaca o terrível promove fôlego para continuar vivendo. Ele aponta a tragédia como sendo a manifestação artística que alcança o mito de maneira mais profunda. Faz lembrar a visão de Aristóteles, quando este fala da catarse propiciada pela tragédia aos seus espectadores. Nietzsche fala também da importância da música na tragédia, dizendo que ela instiga à contemplação do mito e por meio dela é possível não apenas perceber mas também sentir aquilo que a imagem não consegue revelar. A música possui um caráter universal. Quanto à universalidade da música, o autor de O nascimento da tragédia, partilha esse conceito com Richard Wagner. Todavia, ambos atribuem a Schopenhauer o mérito de primeiro reconhecer na música uma primazia em relação às outras artes. A partir da música, Nietzsche faz uma divisão geral das artes em dois polos. Em sua interpretação, de um lado está o apolíneo, polo das belas-artes; do outro está o dionisíaco, polo das artes sublimes. Rosana Suarez explica essa divisão: A divisão se daria entre dois pólos principais: por um lado, o pólo plástico e épico, pólo das belas-artes dominantemente apolíneo -, em que a sedução das belas imagens retém mais demoradamente o olhar do artista, desviando-o do núcleo inquietante do mundo; e, por outro lado, o pólo lírico e trágico, domínio das artes sublimes dominantemente dionisíaco -, em que esse fundo eclode, sob a potência da música, porém sempre em contato com as imagens artísticas transfiguradoras (SUAREZ, 2010, p. 141). 54

Não obstante, essa divisão faz lembrar a diferença que Schopenhauer faz entre o belo e o sublime. O belo, como as belas imagens que retém o olhar, embriaga com a sua beleza e afasta o sujeito da inquietude do mundo (para Nietzsche), da vontade que escraviza (para Schopenhauer); o sublime que exige uma luta para transcender (em Schopenhauer) assim como as artes sublimes, que, com a força da música, provocam uma explosão transcendental. Percebe-se aqui como esses dois pensadores possuem semelhanças a esse respeito. No entanto, Nietzsche faz menção à figura de Sócrates como sendo o protagonista de um jeito peculiar de filosofar que critica a ética, a moral e a arte de seu tempo, trazendo à tona, por meio da dialética, o forte peso da razão questionadora, que sacode e põe em xeque as certezas até então intocadas, desafiando tradições, sobretudo, tradições artísticas, como a tragédia. Ele atribui a morte da tragédia ao otimismo da dialética socrática. Com relação ao artista e a arte, Nietzsche enfatiza a estreita relação entre ambos. A produção artística não é algo alheio a vivência do artista, ela está imbuída em sua existência. O autor volta os olhos para a Estética moderna e chama a atenção para o artista e sua arte, como afirma Rosana Suarez: Pois Nietzsche não nos isola da vivência do artista nem, tampouco, quer abordá-la de maneira superficial ou superintelectualizada. Aliás, para ele, a obra de arte só cumpre o seu papel quando transmite ao receptor da arte a experiência estética do artista criador (SUAREZ, 2010, p. 132). Nota-se aqui a importância que Nietzsche dispensa à vivência estética do artista. Por certo, essa realidade estará dentro de sua produção artística. A arte deve aparecer como um espelho que revela a experiência de seu autor conferindo-lhe autenticidade e credibilidade. 55

5. CONCLUSÃO A partir do que foi dito antes, é possível perceber que a arte, aos olhos dos três autores, tem um papel importante na vida do homem. Para Schopenhauer, ela tem um poder de curar, ainda que de forma breve, a dor e o sofrimento. Isso porque a contemplação da arte eleva o homem ao transcendente, fazendo-o experimentar uma satisfação, livre da vontade, do espaço e do tempo. Para Marx, o trabalho do homem origina a história do mundo, a relação do homem com a natureza é uma relação de interesse, pois ele retira da natureza objetos e os transforma em objetos humanos. Dessas relações humanizadas a arte floresce e acompanha o desenvolvimento da sociedade, a arte caminha junto com o trabalho e enfrenta as mesmas dificuldades que este. Nietzsche debruça na antiga Grécia fazendo uma análise da tragédia e confere a ela um poder mágico de curar, pois o homem diante das adversidades da existência carece de um alento, de um impulso para continuar vivendo. Esse impulso a arte consegue proporcionar por meio da representação, na qual converte o absurdo em possibilidade de enfrentamento e sobrevivência. O autor retornou aos gregos, ao contexto de nascimento da tragédia, para entender a relação da arte com a existência humana. REFERÊNCIAS DIAS, Maria Rosa. Schopenhauer e a arte. In: HADDOCK-LOBO, Rafael (ORG). Os filósofos e a arte. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p. 103-123. FREDERICO, Celso. A arte em Marx: um estudo sobre os manuscritos econômicos-filosóficos. Revista Novos Rumos, Ano 19, n. 42, 2005, p. 3-24. MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos e Grundrisse In: DUARTE, Rodrigo (ORG). O belo e o autônomo. Belo Horizonte: Autêntica; Crisálida, 2012. p. 229-239. 56

NIETZSCHE, Friederich Wilhelm. O nascimento da tragédia. In: DUARTE, Rodrigo (ORG). O belo e o autônomo. Belo Horizonte: Autêntica; Crisálida, 2012, p. 243-264. SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. In: DUARTE, Rodrigo (ORG). O belo e o autônomo. Belo Horizonte: Autêntica; Crisálida, 2012, p. 205-226. SUAREZ, Rosana. Nietzsche: a arte em o nascimento da tragédia. In: HADDOCK-LOBO, Rafael (ORG). Os filósofos e a arte. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p. 125-149. Edjan Cardoso Bidu http://lattes.cnpq.br/7746059257514468 57