MODELOS ATÔMICOS E REPRESENTAÇÕES NO ENSINO DE QUÍMICA



Documentos relacionados
O ENSINO NUMA ABORDAGEM CTS EM ESCOLA PÚBLICA DE GOIÂNIA

Universidade de São Paulo. Escola de Comunicação e Artes, ECA-USP

A criança de 6 anos, a linguagem escrita e o ensino fundamental de nove anos

A FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL. Silvia Helena Vieira Cruz

EDUCAÇÃO, PEDAGOGOS E PEDAGOGIA questões conceituais. Maria Madselva Ferreira Feiges Profª DEPLAE/EDUCAÇÃO/UFPR

- ATOMÍSTICA Folha 04 João Roberto Mazzei

O currículo do Ensino Religioso: formação do ser humano a partir da diversidade cultural

GUIA DO PROFESSOR SHOW DA QUÍMICA

TÓPICOS DE RELATIVIDADE E NOVAS TECNOLOGIAS NO ENSINO MÉDIO: DESIGN INSTRUCIONAL EM AMBIENTES VIRTUAIS DE APRENDIZAGEM.

I O átomo é constituído por duas regiões distintas: o núcleo e a eletrosfera.

As TICs como aliadas na compreensão das relações entre a Química e a Matemática

CONTEXTUALIZAÇÃO DO CONTEÚDO DE TABELA PERIÓDICA UTILIZANDO RÓTULOS DE ALIMENTOS

INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO PARÁ DALGLISH GOMES ESTRUTURAS CRISTALINAS E MOLECULARES NA PRÁTICA PEDAGÓGICA

Reforço em Matemática. Professora Daniela Eliza Freitas. Disciplina: Matemática

Evolução dos Modelos Atômicos A DESCOBERTA DO ÁTOMO

AS DROGAS COMO TEMA GERADOR PARA CONTEXTUALIZAÇÃO NO ENSINO DE QUÍMICA

PARA PENSAR O ENSINO DE FILOSOFIA

FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. Número de aulas semanais 1ª 2. Apresentação da Disciplina

Colégio Saint Exupéry

Classificação da Pesquisa:

RESOLUÇÃO DE EXERCÍCIOS PROPOSTOS AULA 01 TURMA ANUAL. 05. Item A

OS DESAFIOS DE TRABALHAR A INTERDISCIPLINARIDADE NA VISÃO DOS PROFESSORES DE UMA ESCOLA DA REDE ESTADUAL DE ENSINO MÉDIO NO MUNICÍPIO DE SOBRAL/CE

FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES

Utilizando o Modelo Webquest para a Aprendizagem de Conceitos Químicos Envolvidos na Camada de Ozônio

INTEGRAR ESCOLA E MATEMÁTICA

SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO BÁSICA GRUPO DE ESTUDOS CRONOGRAMA II ORIENTAÇÕES GERAIS

Palavras chaves: Recurso didático; bioquímica; ensino médio.

Hernández, Fernando - Transgressão e Mudança na Educação os projetos de trabalho; trad. Jussara Haubert Rodrigues - Porto Alegre: ArtMed, 1998.

CONTEÚDOS BÁSICOS DA DISCIPLINA DE CIÊNCIAS

O uso de jogos didáticos como instrumento motivador para o ensino de química: o jogo Banco Atômico Químico Ana Beatriz Francelino Jota Universidade

PCN - PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS

Fundamentos da Educação Infantil

MASSA ATÔMICA, MOLECULAR, MOLAR, NÚMERO DE AVOGADRO E VOLUME MOLAR.

Construção da Identidade Docente

Quanto aos objetivos TIPO DE PESQUISA

Categoria Trabalho Acadêmico / Resumo Expandido

Flexibilização do currículo do Ensino Médio

A PRÁTICA DE ENSINO NA ESCOLA MUNICIPAL DR. GLADSEN GUERRA DE REZENDE: ATIVIDADES DE FLAUTA DOCE, PERCUSSÃO E VIOLÃO. Autores

Polinômios. Para mais informações sobre a história de monômios e polinômios, leia o artigo Monômios.

PLANO DE AÇÃO - EQUIPE PEDAGÓGICA

Aula 7 Projeto integrador e laboratório.

CRENÇAS DE PROFESSORES E ALUNOS ACERCA DO LIVRO DIDÁTICO DE INGLÊS NO ENSINO FUNDAMENTAL DO 6º AO 9º ANOS DO MUNICÍPIO DE ALTOS PI

CIDADANIA: será esse o futuro do desenvolvimento do País?

Software Livre e o Ensino Público: limites e perspectivas

Metodologias de Ensino para a Melhoria do Aprendizado

Plano de Ensino PROBABILIDADE E ESTATÍSTICA APLICADA À ENGENHARIA - CCE0292

O PROCESSO DE AVALIAÇÃO DAS CRIANÇAS NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO INFANTIL

Palavras-chave: Paulo Freire. Formação Permanente de Professores. Educação Infantil.

Oficina: Jogar para gostar e aprender matemática. Profa. Dra. Adriana M. Corder Molinari dri.molinari@uol.com.br

Boas situações de Aprendizagens. Atividades. Livro Didático. Currículo oficial de São Paulo

A Transposição Didática: a passagem do saber científico para o saber escolar. Introdução. Que é Transposição Didática?

TÍTULO: PROJETO EDUCAÇÃO JOVENS E ADULTOS (EJA) CIDADÃO: UMA EXPERIÊNCIA DE PARCERIA ENTRE UNIVERSIDADE ESCOLA.

O ENSINO DE QUÍMICA NO CURSO DE SECRETARIADO NA MODALIDADE EJA DO IFG CÂMPUS JATAÍ: UMA PROPOSTA DE ATIVIDADES EXPERIMENTAIS CONTEXTUALIZADAS

PALAVRAS-CHAVE Formação Continuada. Alfabetização. Professores. Anos Iniciais.

O SIGNIFICADO DA PESQUISA SEGUNDO PROFESSORES FORMADORES ENS,

A Brink Mobil Tecnologia Educacional atua no cenário educativo há mais de trinta anos, sempre comprometida com o desenvolvimento da educação no país.

RELATÓRIO DE ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM GESTÃO ESCOLAR

O USO DE MATERIAIS CONCRETOS PARA O ENSINO DE MATEMÁTICA A ALUNOS PORTADORES DE NECESSIDADES VISUAIS E AUDITIVAS: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA

INCLUSÃO NO ENSINO DE FÍSICA: ACÚSTICA PARA SURDOS

A HISTÓRIA ORAL COMO MÉTODO QUALITATIVO DE PESQUISA A História Oral é uma metodologia de pesquisa qualitativa que envolve a apreensão de narrativas

PROGRAMA DE DISCIPLINA

Boletim de Educação Matemática ISSN: X Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Brasil

LIVRO DIDÁTICO E SALA DE AULA OFICINA PADRÃO (40H) DE ORIENTAÇÃO PARA O USO CRÍTICO (PORTUGUÊS E MATEMÁTICA)

OLIMPÍADA PIAUIENSE DE QUÍMICA Modalidade EF

EAJA/PROEJA-FIC/PRONATEC

Recomendada com Ressalvas

PRODUÇÃO CIENTÍFICA DOS PESQUISADORES DA UEL, NA ÁREA DE AGRONOMIA: TRABALHOS PUBLICADOS EM EVENTOS DE 2004 A 2008.

A TABELA PERÍÓDICA EM LIBRAS COMO INSTRUMENTO DE ACESSIBILIDADE PARA O ESTUDANTE SURDO NO APRENDIZADO DA QUÍMICA. Introdução

Universidade Estadual do Centro-Oeste Reconhecida pelo Decreto Estadual nº 3.444, de 8 de agosto de 1997

Aula 2: Estrutura Atômica

9º ANO ENSINO FUNDAMENTAL -2015

Universidade de São Paulo Faculdade de Educação. Ações de formação e supervisão de estágios na área de educação especial

CARTILHA COMO RECURSO DIDÁTICO: ABORDAGEM DA QUÍMICA DOS COSMÉTICOS PARA ALUNOS COM DEFICIÊNCIA VISUAL

Cursos Educar [PRODUÇÃO DE ARTIGO CIENTÍFICO] Prof. M.Sc. Fábio Figueirôa

Funções Assegurar a racionalização, organização e coordenação do trabalho Docente, permitindo ao Professor e Escola um ensino de qualidade, evitando

Influência dos jogos e desafios na educação matemática

Unidade 2 Substâncias e átomos

A INFLUÊNCIA DO LIVRO DIDÁTICO DE GEOGRAFIA NA PRÁTICA DOCENTE

1. A IMPORTÂNCIA DOS OBJETIVOS EDUCACIONAIS.

Magneide S. Santos Lima Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologia de Portugal. magneidesantana@yahoo.com.br. Resumo

EMENTAS DAS DISCIPLINAS

ANO LETIVO 2012/2013 AVALIAÇÃO DAS APRENDIZAGENS DO PRÉ-ESCOLAR

Palavras Chave: Ambientes Virtuais, Conhecimento, Informação

SENADO FEDERAL INSTITUTO LEGISLATIVO BRASILEIRO SUBSECRETARIA DE EDUCAÇÃO SUPERIOR PROGRAMA

Unidade: O enfraquecimento do positivismo: ciências humanas e. Unidade I: ciências naturais

PGH 04 - TÓPICOS EM HISTÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL

CONTEÚDOS DE FILOSOFIA POR BIMESTRE PARA O ENSINO MÉDIO COM BASE NOS PARÂMETROS CURRICULARES DO ESTADO DE PERNAMBUCO

Mestrados Profissionais em Ensino: Características e Necessidades

para esta temática que envolvem o enfrentamento ao trabalho infantil tais como o Projeto Escola que Protege.

OFICINA: APROXIMAÇÕES NO CÁLCULO DE ÁREAS AUTORES: ANA PAULA PEREIRA E JULIANA DE MELO PEREIRA

O PLANEJAMENTO DOS TEMAS DE GEOGRAFIA NA ORGANIZAÇÃO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA

Prof. Dr. Olavo Egídio Alioto

PARA AS DESCARGAS ATMOSFÉRICAS

PROPOSTA DE PERFIS PV PARA ÁREAS DE VACÂNCIA OBSERVAÇÕES INICIAIS

ESTRUTURA DO ÁTOMO. 3. (G1 - cftmg 2016) Sobre as propriedades do íon sulfeto ( ) verdadeiro ou (F) para falso.

LIVRO DIDÁTICO DE PORTUGUÊS: um estudo das relações entre as questões de interpretação textual e a proposta de ensino-aprendizagem 1

AS MARCAS DO HUMANO: AS ORIGENS DA CONSTITUIÇÃO CULTURAL DA CRIANÇA NA PERSPECTIVA DE LEV S. VIGOTSKI*

Formação Continuada do Professor de Matemática: um caminho possível

A TABELA PERIÓDICA: JOGO DOS ELEMENTOS QUÍMICOS

Transcrição:

MODELOS ATÔMICOS E REPRESENTAÇÕES NO ENSINO DE QUÍMICA CICILLINI, G. A. E SILVEIRA, H.E. Faculdade de Educação / Instituto de Química Universidade Federal de Uberlândia. Palavras chave: Ensino de química; Produção do conhecimento escolar; Modelos atômicos. 1. OBJETIVOS Esta pesquisa se configura pela proposição da sala de aula como espaço privilegiado de trocas e construções de conhecimento. Assim, esse estudo visa analisar como o saber químico tem sido produzido em aulas de química de escolas de nível médio da rede pública de ensino. 2. MARCO TEÓRICO O foco principal da pesquisa está na concepção do professor sobre o conceito de Modelos Atômicos e como estes são produzidos em sala de aula. Ressaltamos que não há um padrão para o ensino de Modelos Atômicos. Todavia algumas pesquisas podem colaborar para uma reflexão sobre seu ensino. Colinvaux (1998, p.10) considera importante definir o que são modelos na ciência e na tecnologia. Para Boulter; Gilbert (1995, p. 13), um modelo pode ser definido como uma representação de uma idéia, um objeto, um evento ou um processo. Segundo Chassot (1993, p. 104), os modelos são simplificações da realidade, ou porque esta é complexa demais, ou porque pouco conhecemos sobre ela. Mortimer (1994, p. 74) trata os modelos não como uma cópia do real, mas como uma representação. Concebemos, nesta investigação, modelo como uma representação do real, uma simplificação do fenômeno na tentativa de entendêlo e minimizar os múltiplos fatores de complexidade para o seu entendimento. Na aprendizagem dessa temática, Ciscato; Beltran (1991, p.14) consideram fundamental que os alunos vivenciem situações em que eles mesmos tenham a oportunidade de observar os fenômenos e elaborar explicações. Dessa forma, podem perceber a abrangência e as limitações de um modelo. Não se trata de reconstruir todo o conhecimento químico, mas de vivenciar situações em que são necessários raciocínios que envolvam proposição de explicações e recolhimento de observações de um fenômeno com base em modelos. Muitas vezes, a compreensão desses modelos exige de nossos alunos abstrações muito difíceis, principalmente para iniciantes do ensino médio. Porém, cada vez que os discentes conseguem compreender como o modelo explica o fenômeno químico percebendo suas limitações, eles estarão adquirindo a autonomia de raciocínio desejável. O professor e o aluno trazem para a aula experiências de vida decorrentes de suas interações sociais com 1

o mundo, o que reflete o contexto de vida dos educandos. O conhecimento produzido durante as aulas configura-se em diferentes nuanças do saber científico. Tal fato deve ser levado em consideração para compreender como se dão as transformações do conhecimento erudito para o escolar. Cicillini (1997, p. 6), afirma que o conhecimento científico, originalmente produzido pelos cientistas difere daquele veiculado na escola, encontrando diferentes padrões de produção na sociedade atual. Tais produções estão representadas tanto pelo trabalho de pesquisadores, de professores, de elaboradores de material de divulgação científica quanto pelo trabalho de produtores de materiais didáticos, dentre outros. Nesse sentido, deve-se observar que parte das elaborações científicas é apropriada pela sociedade, mas isso não ocorre do mesmo modo pelo qual esse saber foi produzido; há uma espécie de tradução desse conhecimento ao ser divulgado na sociedade. Essa tradução pode ocorrer de modo diferente, gerando novas formas de conhecimento, dependendo do grupo social que esteja utilizando este saber. Dessa forma, a sala de aula é um lugar onde a tradução do conhecimento científico para o escolar ocorre de acordo com a realidade educacional. A seguir passamos a discutir como se deu a apresentação de conteúdos que envolveu Modelos Atômicos. 3. DESENVOLVIMENTO DO TEMA As investigações em sala de aula têm possibilitado reflexões a respeito do processo educativo, seja ele, na abordagem dos conteúdos específicos, seja por outros interferentes relacionados à educação escolar. A pesquisa desta ambiência permite analisar como se dá a produção do conhecimento químico escolar. Segundo Cicillini (1997, p. 29), o conhecimento escolar, entendido como a complexa interação entre as diferentes formas de saber, não corresponde à transmissão direta do saber erudito, estando sujeito a pressões sociais, econômicas, políticas e culturais. Entretanto, existe uma subjetividade no ato de ensinar que oculta algumas relações sociais negociadas no processo ensino-aprendizagem. O saber erudito é ponto de partida para a constituição de um pensar ativo. Porém, este saber está sujeito a variáveis de tal complexidade que o modificam. A concepção de um determinado assunto, o pensar o currículo como confluente de condições sócio-político-econômicas, e até mesmo o entendimento da sala de aula como reprodutora ou questionadora de idéias previamente elaboradas, norteiam o trabalho didático pedagógico desenvolvido na escola. Aspectos metodológicos A pesquisa foi realizada em duas escolas durante quatro meses, com observação de aulas de dois docentes, com registro em caderno de campo e gravador. Para aprofundar questões observadas em aula entrevistamos esses professores e analisamos também os materiais utilizados por eles como plano de aula, de curso e livro didático. O conteúdo selecionado para esta pesquisa foi Modelos Atômicos dada a sua importância para a construção de conceitos. Tal temática, geralmente abordada no primeiro ano do ensino médio, permeia todo o conhecimento químico em diferentes níveis de ensino. O conhecimento químico em aula Verificamos que o assunto Modelos Atômicos foi estudado sob duas vertentes: Modelos Atômicos abordados de forma dispersa nos conteúdos de Química e como tópico especifico do conteúdo. Aspectos referentes aos modelos iam aparecendo à proporção que os professores utilizavam a linguagem química. O conceito de átomo é por si modelar. Como a construção das estruturas moleculares dá-se pela união entre átomos, na fala dos professores, definições como moléculas, átomos, íons, isóbaros, isótopos, isótonos, substância, elementos químicos, misturas, dentre outros, possuem conotação de uma linguagem química de cunho modelar. 2

Prof. 1: As moléculas no estado sólido estão mais presas. No estado líquido as moléculas deslizam, elas não são fixas num mesmo ponto. O estado gasoso, a gente vai observar que as moléculas estão em movimento. As maneiras utilizadas para expressar os símbolos, as fórmulas e as equações, também constituem importante papel na formação do pensamento químico. O uso da simbologia é de grande importância para a aprendizagem em Química, pois contribui para o entendimento da multiplicidade de fatores dos diversos fenômenos; porém as confusões em torno da linguagem são grandes. Mortimer (1996, p. 3), em relação à representação simbólica das substâncias, assim se posiciona: A fórmula H 2 O nada mais é que uma representação da substância. Como tal devemos usá-la, apropriando-nos das informações que ela pode nos fornecer, mas tomando o cuidado de não confundi-la com a realidade da substância água, muito mais complexa e profunda do que aquilo que duas letras do alfabeto e um número permitem antever. As fórmulas químicas ocupavam destaque na fala dos professores. Em muitas ocasiões, os docentes falavam a fórmula no lugar do nome da substância: Aluno: Sim é o O 3. Prof. 1: O 3 é uma substância simples ou composta? Aluno: Simples O ozônio era abordado pelo professor apenas como O 3. Os alunos também desenvolvem aprendizagem de acordo com as falas dos professores. Assim, para aqueles alunos, o ozônio, - gás de grande importância natural que possui ação filtrante para os raios ultravioletas na estratosfera -, seria lembrado apenas como O 3 sem outras conotações importantes para o conhecimento químico. A outra professora ao tratar da Lei das proporções constantes afirma: Profª. 2: [...] pra água existir vai ter uma quantidade fixa de H que se combina com o O. Pra ser H 2 O, tem que ter esse tanto de H e esse tanto de O. Ela trata a substância água usando apenas a simbologia dos elementos que a compõem. Verificamos aí um equívoco: os professores atribuem à simbologia uma conotação de realidade. Assim, para eles, as diversas substâncias são conhecidas por suas fórmulas e símbolos mais que por suas propriedades em nível fenomênico. A importância da água para o ser vivo, a crise de água potável no planeta e a poluição deste recurso nem é mencionada durante as aulas. Em relação aos Modelos Atômicos abordados como tópico específico de conteúdo, um dos professores afirma: Prof. 1: Eu não sei se ajuda o adolescente trabalhar com modelos. Eu acho que pra Química deve contribuir, sim, pra evolução da Química. A Química trabalha com modelos e teorias, então é necessário trabalhar com modelos. [...] Eu não trabalho com outro modelo não, apenas com o de Rutherford, mas eu nem falo de modelo, fica implícito. Não trabalho com nenhum outro modelo, nem o de Thomson, nenhum outro específico. Embora o professor afirme não trabalhar com modelos, ele tende a adotar um modelo que considera mais didático. Analisando seu posicionamento, observamos o porquê de ele esquivar-se em abordar Modelos Atômicos: ele não considera esta temática de importância para o ensino, apesar de revelar na sua entrevista que, para a Química, enquanto Ciência, exista um valor de construção e elaboração conceitual. Mesmo afirmando que nem fala de modelo, ele elege as idéias atômicas de Rutherford e assume este modelo como o próprio átomo, evidenciando uma concepção substancialista e realista desse átomo. De acordo com Mortimer (1994, p. 86): O estudante com a concepção substancialista, não trabalha com a noção de modelo como algo isomórfico à realidade, e, portanto dinâmico, no sentido de que, à medida que novos dados são apreendidos são necessárias mudanças no 3

modelo para se adequar a essa nova realidade. Um estudante com a visão substancialista provavelmente não representa as partículas como um modelo, mas como uma cópia da própria realidade. Neste sentido sua visão, além de substancialista, é também realista. Esse último obstáculo é de natureza epistemológica, uma vez que se relaciona à ausência de uma visão apropriada de modelo. A temática de Modelos Atômicos, abordada como tópico específico de conteúdo, foi apresentada apenas pela outra professora. Sua proposta de trabalho, iniciava-se com o desenvolvimento de um estudo na biblioteca do Colégio, realizado pelos alunos/alunas. Segundo a professora, o estudo contribui para que eles(as) adquiram informações úteis para facilitar posteriores elaborações conceituais desse conteúdo. A avaliação desse trabalho realizado pelos estudantes auxiliou-a para preparar suas aulas. A forma como a docente trata esse assunto inclui: um trabalho realizado pelos discentes; a avaliação deste trabalho; um estudo bibliográfico feito por ela sobre a temática; a idéia de modelos como representação e o desenvolvimento histórico na construção dos modelos, desde Leucipo (aproximadamente 300 a.c.) até Linus Pauling (1901-1994). Ela assim se manifestou quanto ao trabalho dos alunos: Profª 2: Eu senti uma deficiência muito grande no trabalho que vocês fizeram, tanto é que vocês viram as notas. [...] O que eu vi muito no trabalho de vocês era o que? Talvez um pouco de falta de pesquisa de bibliografia. A escola não oferece grande bibliografia. Então, o que eu resolvi fazer? Uma pesquisa, é claro que não é uma pesquisa detalhada, pra vocês terem uma melhor noção. Esta pesquisa, transformada em apostila, foi realizada, segundo ela, com livros do ensino superior e médio e intitulada A Evolução dos Modelos Atômicos, apresentando: resumo das raízes históricas (fazendo referência aos filósofos gregos), Teoria Atômica de Dalton, Modelo Atômico de Thomson, descoberta da radioatividade, Experiência de Rutherford e a proposta do Modelo de Bohr. Verificamos neste material, os modelos que a professora considera importantes a serem estudados no ensino médio: Dalton, Thomson e Rutherford-Bohr. Assim, ela apresenta o conteúdo informando os períodos de elaboração de alguns desses modelos, e os fatos importantes de suas elaborações. Profª 2.: Quando eu pedi os Modelos Atômicos, vocês começaram lá em Dalton. Só que antes de Dalton tiveram algumas coisas importantes pra Dalton estabelecer o modelo dele. Outras coisas que eu vi muito até aqui: fulano descobriu o elétron, fulano descobriu o próton e ninguém descobriu o nêutron. Então, nesse trabalho aqui que eu digitei pra vocês, tem mais ou menos um período de tempo e as pessoas que descobriram de fato as partículas fundamentais. Primeira coisa, quando nós vamos fazer o modelo, fazer entre aspas, nós temos que saber o que? Que nada nasce por acaso. A professora tenta ser cuidadosa ao citar o fazer modelo. Nota-se uma preocupação de sua parte com a forma pela qual esse assunto seria introduzido a fim de não gerar concepções errôneas. Ela demonstrou ter preocupação com a forma como a Química tem sido ensinada no que tange ao tópico Modelos Atômicos ; contudo não chega a tratar os modelos atuais cientificamente aceitos. 4. CONCLUSÕES Os Modelos Atômicos compõem a base da construção do pensamento químico, sendo norteadores da forma como a comunidade química explica os fenômenos observados. Essas representações, portanto, são maneiras de expressar sistemas complexos e de difícil entendimento, pois envolvem múltiplos fatores. A complexidade desses sistemas não é simplificada ao se propor um modelo, contudo, é uma forma de traduzir o fenômeno de maneira que seja possível seu estudo e entendimento. Assim, os modelos não podem ser entendidos como a realidade. Eles devem ser estudados como produção humana e expressão de pensamentos e possibilidades de um grupo de pesquisadores influenciados por fatores sócio-político-econômicos e culturais. Um dos professores apresentou fortes tendências em considerar os modelos como realidade, com características peculiares ao átomo. Esta concepção, influenciada pelos materiais didáticos e pela ineficácia da for- 4

mação inicial e continuada dos docentes, apresenta uma realidade escolar distante da desejável. O processo educacional fica comprometido com as tentativas e erros dos docentes, que, encontrando uma maneira própria de direcionar seu trabalho, o fazem longe da possibilidade de aprendizagem dos estudantes. A professora demonstrou com sua prática, maior conhecimento para abordar o assunto Modelos Atômicos, que o professor. Neste sentido, a docente apresenta uma abordagem adequada em relação ao saber químico inserido no contexto histórico, mesmo com algumas lacunas de conhecimento que poderiam ser facilmente esclarecidas por leituras e pela formação continuada. Existe uma necessidade latente de valorizar seu trabalho didático, mostrando-lhe que sua proposta pode contribuir para a aprendizagem de Química. O momento atual é de repensar as práticas, os materiais utilizados e as posturas metodológicas. Urge uma educação que possibilite ao estudante lutar por sua cidadania, e exercê-la à luz dos conhecimentos adquiridos na escola e na vida. O saber escolar deveria ser construtor não de crenças e doutrinas para perpetuar um sistema, ideologia ou pensamento dominante. Ao contrário, o conhecimento é uma forma de possibilitar uma ação social de respeito ao meio em que estamos inseridos, de questionamentos sociais, de acesso a outros níveis escolares e de constituição de pessoas ativas em sua realidade. Isto nos leva a repensar as práticas docentes e o processo de formação inicial e continuada dos professores, principalmente no que se refere ao ensino de conceitos abstratos como, por exemplo, o ensino de átomos e moléculas. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOULTER, C & GILBERT, J. (1995) Argument in science education: In: Costello, P. & Mitchell, S (Eds.) Competing and Consensual voices. London, Multilingual Matters (84-94). CHASSOT, A. Catalisando transformações na educação Ijuí: Ed. UNIJUÍ, 1993, p. 37 112. CICILLINI, G.A. A produção do conhecimento biológico no contexto da cultura escolar do ensino médio: a teoria da evolução como exemplo. Campinas, 1997, 225 p. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, 1997. CISCATO, C.; BELTRAN, N.O. Química: parte integrante do projeto diretrizes gerais para o ensino de 2o. grau núcleo comum (convênio MEC/PUC-SP). São Paulo: Cortez e Autores Associados, 1991. COLINVAUX Dominique. Modelos e educação em Ciências Rio de Janeiro: Ravil, 1998, p. 7-59 MORTIMER, E.F. O significado das fórmulas químicas, Revista Química Nova na Escola, no. 03, maio 1996, p. 19-21. Evolução do atomismo em sala de aula: mudança de perfis conceituais. São Paulo, SP, 1994. TESE (Doutorado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 1994. 5