1 Formas de abordagem dramática na educação Ana Carolina Müller Fuchs O teatro no contexto escolar possui diversas abordagens que se modificaram conforme a transformação da própria educação. Inicialmente foi utilizado como um instrumento, uma forma para o aprendizado dos mais diversos conteúdos, de várias áreas do conhecimento. Somente mais tarde, o teatro passou a ser considerado uma disciplina, uma linguagem com características próprias e que por si constrói conhecimento. Um conhecimento que ultrapassa a idéia do desenvolvimento de uma forma de expressividade ou de desinibição, mas que possibilita também o desenvolvimento da operatoriedade (FÜRTH, 1987, p. 178), na medida em que os alunos atores precisam articular diferentes perspectivas de uma mesma ação para resolverem os problemas de cena. O fazer teatral também torna possível uma maior compreensão por parte do indivíduo, de si e do mundo que o cerca, pois exige uma reestruturação física e mental para tornar material e artístico as idéias que pretende comunicar. O aluno ator reconstrói uma nova forma de agir em cena e de pensar, fazendo relações entre o mundo cotidiano e a cena, construindo uma nova maneira de representar e refletir sobre suas ações e o ambiente em que vive. Para compreender melhor como o teatro vem sendo utilizado no contexto escolar, serão apresentados a seguir algumas formas de abordagens dramáticas na educação. 1. O Play Way ou Método Dramático é a utilização do teatro como recurso para outras aprendizagens. Antes dessa proposta, o teatro na escola era concebido como uma encenação de uma peça ou o uso dos diálogos durante aulas de latim ou francês. Com o método dramático o teatro é utilizado como caminho para aprender as mais diversas disciplinas. Assim,
2 história podia ser aprendida através de representações de livro-texto. Esse método estava fundamentado em três princípios: a experiência, o fazer, a ação como base para o aprendizado, muito mais do que ler ou escutar; o bom trabalho é resultado do esforço espontâneo e não da obrigação; o meio natural de estudo é o jogo. O método dramático foi e ainda é muito utilizado no contexto escolar para o ensino das mais variadas disciplinas. 2. O Teatro Criativo tem como base o jogo dramático e introduz a idéia de que a atividade teatral deve ser considerada como uma disciplina e ter seu lugar no currículo escolar. Em 1954, Peter Slade publicou Child Drama, baseado em suas pesquisas com crianças. Segundo Slade, o jogo que a criança apresenta é o estado embrionário do teatro, da música e da arte. Segundo o autor, o jogo promove uma liberação emocional e o autoconhecimento. O jogo dramático se caracteriza pela livre expressão, por um discurso espontâneo que é cada vez mais desenvolvido pela improvisação e interpretação. A cada faixa etária há um tipo de jogo e quanto mais velha a criança mais condições ela tem de compreender a linguagem teatral. Para Winifred Ward, precursor do teatro criativo, o teatro na escola é muito mais que jogo e resultado da livre expressão e deve ser usado com ênfase no fazer teatral. O comum nas duas abordagens é o uso da improvisação, da criatividade e da livre-expressão. 3. O Movimento Criativo se apóia na experiência do movimento expressivo, principalmente no que se refere à dança e ao teatro. O precursor deste movimento foi Rudolf Laban, que pesquisou as características do movimento como base para a expressividade. Segundo ele, a compreensão do movimento pode possibilitar uma visão mais ampla da atividade humana. A dança e o teatro se aproximaram principalmente pelo trabalho de Alan Garrand que desenvolveu, a partir das pesquisas de Laban, uma técnica de teatro-dança na qual o movimento espontâneo da criança evolui para o teatro criativo.
3 4. O Teatro Escolar consiste na apresentação de espetáculos por alunos em suas escolas. No começo do século esta era a única atividade dramática na escola, atualmente a representação de peças é vista como uma das possibilidades de sala de aula e as apresentações se desenvolvem a partir dos jogos criativos e de trabalhos de improvisação. Na apresentação de espetáculos por parte de alunos é preciso ter muito cuidado, pois as pesquisas mostram que crianças muito pequenas, que ainda não construíram uma relação de público e platéia, podem criar uma noção destorcida do fazer teatral, ou inibindo-se e sentindo-se constrangidas pelo momento ou criando um comportamento exibicionista. O mesmo cuidado deve se ter com crianças mais velhas, pois o teatro deve ser entendido na sua totalidade de experimentação e apresentação, como um processo de cooperação e construção artística. 5. O jogo dramático já descrito anteriormente, se mantêm como uma abordagem contemporânea do teatro na escola. Mais voltado para a subjetividade do sujeito pressupõe as relações de cada indivíduo com seu imaginário e sua expressividade. Está ligado ao faz-de-conta infantil. É uma prática lúdica individual ou em grupo que propõe a improvisação de um tema ou situação previamente escolhida. Não implica na participação de uma platéia. Não tem como objetivo a apresentação ou representação de algo, mas sim a apropriação dos mecanismos fundamentais do teatro. 6. Os jogos teatrais são uma abordagem contemporânea do teatro na educação. É um sistema de aprendizado da linguagem teatral desenvolvido pela pesquisadora norte-americana Viola Spolin e baseado na improvisação. Spolin compreende o fazer teatral como uma construção individual que ocorre na interação entre os indivíduos e destes com os problemas de atuação. A proposta dos jogos teatrais está relacionada à fisicalização, que é tornar físico, expressar e trazer para o plano material o que há no plano das intenções, imagens, sensações e pensamentos. Seu método inclui jogos que propõem um desafio a ser resolvido e que inclui a
4 relação entre quem improvisa e quem assiste, entre alunos-atores e platéia. A platéia é entendida como um grupo ativo que observa, analisa e retorna ao grupo que está jogando suas percepções e compreensões sobre o acontecido como recurso para a reelaboração do trabalho. Dessa forma o aluno constrói seu próprio fazer e do grupo, num trabalho dinâmico. Importante: a utilização de determinada abordagem teatral no contexto escolar não exclui as outras. É preciso saber de forma clara e coerente os objetivos que se pretende alcançar e buscar os melhores caminhos para atingilos, tendo como princípio que o fazer teatral deve ser construído a partir das necessidades e desejos de todos os sujeitos envolvidos no processo. Assim pode se fazer do teatro um recurso riquíssimo para aprendizagem de outras disciplinas, assim como transformar jogos e brincadeiras em verdadeiros espetáculos. Ou ainda, fazer de uma representação um momento ímpar de descobertas e aprendizagem para todos. Jogo dramático e jogo teatral se mesclam da mesma forma que representação e brincadeira. Trabalhar de forma integrada é sempre mais enriquecedor do que fragmentar e isolar práticas pedagógicas. Para compreender melhor o conceito de improvisação que aparece principalmente nas duas últimas abordagens teatrais na escola: improvisação teatral significa organizar, compor uma cena ou material cênico, sem preparo ou combinação prévia, no instante da ação. Técnica do ator que interpreta algo imprevisto, não preparado antecipadamente e inventado no calor da ação (PAVIS, 1999, p. 205). Ou ainda jogar um jogo; predispor-se a solucionar um problema sem preconceito quanto à maneira de solucioná-lo; permitir que tudo no ambiente trabalhe para você na solução do problema; não é a cena, é o caminho para a cena (SPOLIN, 1998, p. 341). Referências: COURTNEY, Richard. Jogo, teatro e pensamento: as bases intelectuais do teatro na educação. São Paulo: Perspectiva, 1980.
FURTH, Hans. Piaget na sala de aula. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987 SANTOS, Vera Lúcia Bertoni dos. Brincadeira e conhecimento: do faz de conta à representação teatral. Porto Alegre: Mediação, 2002.. Improvisação e operatoriedade: aprendizagem de teatro na escola. In: BECKER, Fernando (Org.) Aprendizagem e conhecimento escolar. Pelotas: Educat, 2002. SPOLIN, Viola. Improvisação para teatro. São Paulo: Perspectiva, 1998. 5