TEA Módulo 4 Aula 5. Tics e Síndrome de Tourette

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Transcrição:

TEA Módulo 4 Aula 5 Tics e Síndrome de Tourette Os tics são um distúrbio de movimento que ocorrem no início da infância e no período escolar. É definido pela presença crônica de múltiplos tics motores, vocálicos e flutuantes, incontroláveis e involuntários. Comumente, são muito associados não só ao TEA como também ao transtorno obsessivo-compulsivo e ao TDAH, podendo apresentar de leve a grave intensidade. No autismo, costuma ser um quadro de difícil controle e tratamento. Nem todo o tic precisa ser tratado, porém os casos que levam a dor, incômodo, déficit funcional e constrangimento social - não só para o portador como também para sua família - merecem atenção. Assim, é necessário considerar o grau de prejuízo do ponto de vista individual e social desses tics para ser instituído o tratamento. Lembrando que nem sempre a medicação é necessária mas nesses casos ela é uma ferramenta importante. Síndrome de Tourette e TEA A Síndrome de Tourette ocorre quando esses tics se tornam crônicos (por mais de 3 meses). Eles começam a surgir na criança após alguns meses, tornando-se um quadro que envolve vários tics em diversos lugares do corpo e com vocalização. A partir desse ponto, a necessidade de tratamento medicamentoso é maior. A associação do Tourette com o TEA ocorre em 4,6 a 6,5% dos casos não sendo, então, tão freqüente; no entanto, quando ela se manifesta, traz grandes problemas relacionados a família e as questões funcionais da criança. No TEA, a síndrome é particularmente mais corriqueira nas crianças com o Transtorno de Asperger, que atualmente é considerado um quadro mais leve de Autismo pelo DSM-5. Nesses casos, foram verificadas alterações estruturais no cérebro e que também podem compartilhar características clínicas em comum como, por exemplo, a ecolalia e também sintomas de TOC. Além disso, quando se associa o Tourette com o TEA o prognóstico dos tics são piores: torna-se mais persistente e o tratamento apresenta uma menor resposta

terapêutica. Assim sendo, o tratamento medicamentoso se impõe e pode ser composto pelo uso de antipsicóticos (risperidona, aripiprazol) ou de agonistas alfa-adrenérgicos (clonidina). Também é possível utilizar medicações mais específicas contra tics, como a pemolina. Um outro recurso a ser considerado é a intervenção psicoterápica com mecanismos de autocontrole ou para melhorar a autoestima para lidar da maneira mais adequada possível com essas situações em contextos sociais. Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) É uma condição comportamental na qual ocorrem obsessões e comportamentos repetitivos em que o indivíduo se sente compelido a agir/pensar de determinada forma sem que haja um controle e essas características podem ser muito comuns em crianças com TEA. Em algumas situações, é dificultoso traçar uma linha de diferença entre o TEA e o TOC. O TOC é mais caracterizado por uma condição onde o indivíduo expõe que possui determinados pensamentos, sente uma angústia e demonstra isso para as pessoas. Um ponto importante é que no TOC não há um déficit de comunicação, porém existe a dificuldade relacionada as fixações, sendo estas precedidas e sucedidas por sintomas de ansiedade/angústia facilmente expressas pela pessoa. Ademais, o perfil das compulsões do toc é mais distinto: é mais ligado a limpeza, a organização. E no TEA são comportamentos repetitivos sem uma funcionalidade social ou de adaptação ao meio. Pode se associar com compulsões em comum e o tratamento normalmente é realizado com o uso da fluxetina e terapia cognitivo-comportamental.

No artigo acima, foi demonstrado que há situações em que realmente se confunde o Transtorno de Asperger com o TOC e se questiona se elas são comorbidades ou uma coisa só. Ainda, ressalta que é difícil definir o limite entre um e outro, mas que há situações que apontam quando é preciso ter uma maior preocupação com o TOC dentro do Asperger: quando os rituais, estereotipias e manias do jovem com Asperger forem de forte intensidade e mais disfuncionais. Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) Esse transtorno é frequente e muito comórbido em pacientes com transtornos neuropsiquiátricos principalmente nos de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), de ansiedade e no transtorno de humor bipolar. O TOD tem um papel específico no que diz respeito a levantar suspeitas de TEA, além de levar a problemas sociais mais contundentes. Em casos de crianças altamente opositivas em idades inferiores a 3 anos - cuja fase o TOD não é muito comum - há de se suspeitar de TEA. Outrossim, crianças hiperativas e profundamente opositivas, antes dos 3 anos, também devem levantar essa suspeita. A presença de tais sintomas ocasiona uma elevada restrição de participação em eventos sociais e faz com que o diagnóstico se torne muito claro. Isso deve levar a uma valorização ainda maior quando os pais chegam ao consultório com a criança com um alto nível de estresse escolar e familiar. É de conhecimento da maioria que a família possui uma grande dificuldade de procurar auxílio médico quando se trata do comportamento dos seus filhos. Quando a família procura precocemente o médico - seja por cansaço ou por indicação da escola - é indispensável suspeitar de transtorno do espectro autista. TOD e TEA

A associação entre os dois transtornos leva a criança a: - Raiva intensa - Irritabilidade excessiva - Agressividade consigo mesmo ou com os outros - Comportamento altamente discordante - Oposição sistemática para regras e rotinas Esse artigo mostra, claramente, a presença de comportamentos opositivodesafiador em meninos com autismo que possuem ou não TDAH. Quando o autismo está associado ao TDAH, o índice de transtorno opositivo-desafiador é imenso; quando o autista não possui TDAH associado, o índice reduz consideravelmente. Portanto, os sintomas de TDAH no autismo aumentam o risco de transtorno opositivo-desafiador e o tratamento sistemático do TDAH dentro do espectro autista é importante para a prevenção.

Nesse outro artigo, é feita uma correlação genética dos sintomas opositivodesafiadores no autismo e na ansiedade. Concluiu-se que essas crianças apresentam um genótipo, uma mutação incomum, o DRD4 gene ligado ao transportador de dopamina. E que, inclusive, essa mutação também tem muita ligação com o TDAH. Notadamente, isto traz a ideia de que estamos caminhando exatamente para um processo de fármacogenética, pois ao se associar uma mutação a um padrão alterado de comportamento, pode se desenvolver medicações que reduzam os sintomas desses fatos clínicos além de novas abordagens no tratamento comportamental. Tratamento - Medicamentoso : especialmente os antipsicóticos - Estratégias comportamentais - Reduzir intolerantes estímulos sensoriais