Instituto de Alta Performance Connections with Leading Thinkers O especialista em inovação Bruno Moreira analisa as dificuldades que impedem um maior nível de colaboração por parte das empresas brasileiras em seus esforços de inovação, e aponta possíveis soluções.
Bruno Moreira é diretor da Inventta, consultoria de inovação com sede em Campinas. Ele também é partner do Grupo Instituto Inovação, que inclui a Inventta, a gestora de recursos Inseed, e o laboratório de inovação TroposLab. Armen Ovanessoff e Eduardo Plastino, do Instituto de Alta Performance da Accenture, e Samir Mohan, da Accenture Strategy, o entrevistaram como parte de uma pesquisa sobre inovação na economia brasileira. 2 Instituto de Alta Performance da Accenture Copyright 2015 Accenture. Todos os direitos reservados.
IAPA: Apesar de ter algumas empresas altamente inovadoras, o Brasil tem ficado para trás no que tange à inovação. O que explica isso? MOREIRA: O primeiro aspecto que devemos levar em conta é o papel que as corporações multinacionais desempenham na economia brasileira. Temos o que pode ser chamado de um dilema de colônia. Trata-se de uma situação na qual muitas empresas tomam suas decisões mais importantes em suas sedes, no exterior. Se você olhar para nossos clientes, cerca de 60% a 70% deles são empresas estrangeiras. IAPA: Mas o fato de elas serem seus clientes por si já não significa que as subsidiárias locais das multinacionais têm alguma autonomia no que diz respeito aos orçamentos de inovação? MOREIRA: Isso com frequência é verdade para empresas que enxergam o mercado brasileiro como particularmente importante. Estas incluem companhias em setores voltados para o consumidor, bem como no setor agrícola e na indústria automotiva. Em outras palavras: a forma como as multinacionais tratam a inovação no Brasil depende, em grande medida, de quem toma as decisões importantes. Algumas empresas simplesmente não permitem que essas decisões sejam tomadas no Brasil. IAPA: Também há um baixo nível de colaboração no ambiente da inovação no Brasil. Por exemplo, a última Pesquisa de Inovação (Pintec, realizada pelo IBGE) mostrou que poucas empresas no Brasil colaboram com outros players - como outras empresas e universidades - em seus esforços de inovação. Até que ponto isso afeta os resultados do país em inovação de forma mais ampla? MOREIRA: Afeta muito, porque a colaboração com frequência é a chave da inovação. A área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) tem um papel fundamental aqui. Inquestionavelmente, inovação é mais do que P&D, mas a colaboração, muitas vezes, se centra nessa área porque as empresas querem colaborar em segmentos nos quais não dominam o conhecimento necessário. Infelizmente, é difícil encontrar bons parceiros com quem colaborar em P&D no Brasil. IAPA: Por quê? MOREIRA: A maior parte da ciência de qualidade aqui é feita em universidades e centros de pesquisa públicos. Em muitos casos, é muito difícil negociar contratos e lidar com questões como propriedade intelectual com eles. Poucos escritórios de transferência de tecnologia nessas universidades e centros de pesquisa têm as competências necessárias para construir relações frutíferas com outros players no mercado. Um ponto crucial é que eles não têm recursos para contratar profissionais que tenham um entendimento profundo das dinâmicas do mercado, o que torna a colaboração com empresas mais difícil. IAPA: Você mencionou o papel da propriedade intelectual. Está claro que uma boa gestão dos direitos de PI é uma prioridade para que possa haver colaboração na inovação. Por que é especialmente difícil lidar com universidades na questão da propriedade intelectual? MOREIRA: As universidades frequentemente querem compensação excessiva por sua propriedade intelectual. Isso acontece porque elas não costumam ter pessoas que realmente entendam como o mercado funciona. O resultado é que os acordos oferecidos pelas universidades não refletem os riscos de mercado envolvidos em inovação. E estes riscos formam o contexto no qual direitos de propriedade intelectual e royalties precisam ser vistos. Em função disso, muitas empresas recusam-se a colaborar com a academia. Para muitas delas, é mais fácil simplesmente contratar o estudante envolvido em determinado esforço de pesquisa. Em suma, é difícil encontrar bons parceiros com incentivos alinhados no mundo acadêmico. 3 Instituto de Alta Performance da Accenture Copyright 2015 Accenture. Todos os direitos reservados.
As empresas que, no passado, sofreram algum tipo de impacto doloroso provocado por mudanças no cenário de negócios tendem a ser mais abertas a colaborar para inovar IAPA: Contratar pessoas, levando-as das universidades para o setor privado, é a única solução para as empresas? MOREIRA: Bem, se excluirmos essa opção, restam poucas outras às empresas que procurem colaboradores para inovar exceto trabalhar com outras firmas. Mas aí elas esbarram nas dificuldades que discutimos há pouco: pelo menos no caso de várias grandes empresas, as decisões-chave não são tomadas no Brasil. E ainda há uma outra questão ligada à propriedade intelectual. Enquanto boa parte das multinacionais sabe como lidar com os desafios da propriedade intelectual, a maioria das empresas brasileiras não sabe fazê-lo. Não temos muitos escritórios de patentes bons no Brasil. Muitas patentes pedidas no Brasil são fracas, ou seja, não dão proteção suficiente às empresas. Isso torna a colaboração muito difícil. Aos poucos, as coisas estão melhorando no universo da propriedade intelectual brasileiro, mas ainda temos muito trabalho pela frente. IAPA: Está claro que muitos fatores dificultam a colaboração no Brasil. Quais são os fatores mais propícios a ela? MOREIRA: As empresas que, no passado, sofreram algum tipo de impacto doloroso provocado por mudanças no cenário de negócios tendem a ser mais abertas a colaborar para inovar. Quando tudo vai bem, a maioria das empresas acredita que não vale a pena fazer o esforço de colaborar. Isso reflete uma mentalidade comum no Brasil resumida pelo ditado em time que está ganhando não se mexe. IAPA: Mas existem exemplos notáveis de grandes empresas brasileiras que implementaram novos processos para aumentar seus níveis de inovação. MOREIRA: É verdade, mas mesmo as empresas que têm bons processos com frequência ficam presas ao teto da inovação incremental. O problema é que a vantagem competitiva e o crescimento forte, na verdade, vêm da inovação de ruptura. Para produzi-la, você precisa de ligações entre grandes empresas e start-ups, pois é destas últimas que vem a inovação verdadeiramente transformadora. Mas sejamos justos: algumas empresas no Brasil têm bons processos de inovação e já estão tentando promover o empreendedorismo interno ou trabalhando de forma mais aberta com inovação. Mas ainda estamos no começo dessa nova era e ninguém sabe dizer com certeza se essas estratégias serão mais bem-sucedidas na promoção da inovação de ruptura. IAPA: Quais são os principais desafios enfrentados pelas empresas que tentam incluir técnicas colaborativas em seus processos de inovação? MOREIRA: Um problema é que uma empresa pode adotar uma abordagem aberta e procurar fornecedores para inovar, mas acabar descobrindo que estes não têm a mesma atitude. E já conversamos sobre os problemas envolvidos na colaboração com universidades. Então, a pergunta pode ser resumida da seguinte forma: Como ser aberto e bem-sucedido no Brasil quando poucos players têm mentalidade aberta?. Dependendo do setor, as empresas ainda enfrentam problemas adicionais, porque inovação requer empreendedorismo, e o empreendedorismo de base tecnológica no país ainda está focado demais em TI e na economia da internet. É claro que são áreas importantes, mas nós também precisamos de mais empreendedorismo e inovação no agronegócio, ciências da vida e outros setores. IAPA: Que outros fatores dificultam a colaboração entre pequenas empresas, incluindo start-ups, e grandes corporações? MOREIRA: No Brasil, as pequenas empresas estão abertas ao diálogo. Mas as grandes companhias encaram as possíveis conversas com as empresas de pequeno porte com preocupação, acreditando que podem acabar se expondo a situações difíceis e têm razão de se preocupar. A abertura requer que as empresas estabeleçam controles internos para minimizar a exposição a riscos. As grandes empresas também precisam ter cuidado para gerir quaisquer riscos que possam surgir quando elas decidirem se tornar mais abertas. IAPA: Faz sentido, mas isso se aplica a todos os mercados, não apenas ao brasileiro. E estudos interacionais 4 Instituto de Alta Performance da Accenture Copyright 2015 Accenture. Todos os direitos reservados.
indicam que as empresas brasileiras são menos abertas a colaborar do que seus pares em outras economias muitas das quais com problemas similares. Ao mesmo tempo, executivos brasileiros orgulham-se de suas redes pessoais de contatos e relações fora da empresa. Como podemos entender esse paradoxo? MOREIRA: As opções disponíveis em cada país fazem diferença. Como já discutimos, você não encontra muitos parceiros bons aqui quer porque eles não existem, quer porque você não consegue achá-los. A cultura também pesa. Para usar um exemplo pessoal, eu, assim como muitos outros brasileiros, prefiro trabalhar sozinho. Além disso, existe uma falta de confiança generalizada em toda nossa sociedade e mundo empresarial. Também não temos muitos casos de sucesso que sirvam de exemplo para as empresas. E, para completar, nós, brasileiros, em geral, não somos muito pacientes e pesquisa e inovação requerem paciência, ainda mais quando feitos em conjunto com outras pessoas. IAPA: Na última década, em particular, o governo brasileiro adotou várias políticas para apoiar a inovação e investiu consideravelmente em P&D. Em vista disso, por que o Brasil não está mais bem posicionado em inovação? MOREIRA: O governo brasileiro tem seguido uma estratégia de dois eixos. De um lado, está tentando fortalecer a P&D brasileira por meio do repasse de recursos substanciais às universidades públicas e de incentivos à iniciativa privada. O problema é que inovação requer mais do que apenas P&D, então também precisamos de apoio ao resto do processo. Do outro lado, o governo brasileiro tentou por muitos anos criar campeões setoriais, mas se esforçou bem menos para melhorar os resultados de inovação de Sempre haverá gargalos se você não tiver uma massa crítica de inovadores em toda a cadeia de suprimento pequenas e médias empresas. IAPA: E essas empresas PMEs, sem ser as start-ups têm um papel importante na inovação? MOREIRA: A questão é que sempre haverá gargalos se você não tiver uma massa crítica de inovadores em toda a cadeia de suprimento. Vou dar um exemplo. Nós começamos um projeto para uma grande empresa que fornece matéria-prima para empresas em outros setores. Muitos de seus clientes são PMEs que não inovam, e para os quais a matéria-prima representa uma parte grande do custo. Essas PMEs estão pressionando a grande empresa a baixar seus preços. Mas a grande empresa sabe que, se essas PMEs inovassem, o preço da matéria-prima não seria uma preocupação tão importante para elas. Então, a grande empresa começou um projeto para ajudar quinze firmas na etapa seguinte da cadeia de suprimento a serem mais inovadoras. Muitas dessas empresas são clientes suas. IAPA: Como os líderes de uma empresa podem promover a inovação? MOREIRA: Os líderes precisam estar preparados para cometer erros. Se você está tentando criar algo novo, é inevitável que o fracasso seja parte do processo. A liderança precisa aceitar isso. IAPA: E os colaboradores? Quais são as características de uma força de trabalho inovadora? MOREIRA: Você precisa contar com algumas competências fundamentais no seu pessoal, mas não é necessário que cada integrante do grupo tenha todas elas. O que você precisa é que a equipe em seu conjunto as tenha. Eu diria que as principais capacidades são as de negociação, gerenciamento de projetos e planejamento de negócios, bem como conhecimentos sobre direitos de propriedade intelectual. Comprometimento com a inovação também é importante, e eu acredito que as pessoas que estão entrando agora no mercado de trabalho, da geração dos millenials, vão desempenhar um papel crucial aqui. Os jovens de hoje têm uma mentalidade aberta e, portanto, ajudarão as empresas a serem mais abertas. Na visão deles, você é o que você compartilha. Mas as empresas também vão precisar ajudar os jovens a entender os limites. Nem tudo pode ser compartilhado. IAPA: Esta conversa foi muito estimulante e interessante. Muito obrigado por seu tempo e insights. MOREIRA: Foi um prazer. Gostaria de permanecer em contato e continuar discutindo estes assuntos. 5 Instituto de Alta Performance da Accenture Copyright 2015 Accenture. Todos os direitos reservados.
Como parte da missão do Instituto de Alta Performance da Accenture de desenvolver ideias e insights de ponta, seus pesquisadores conversam com frequência com líderes acadêmicos, executivos de empresas e analistas setoriais. A série Connections with Leading Thinkers inclui algumas dessas entrevistas, mostrando os bastidores das interações entre os pesquisadores e alguns dos experts mais renomados do mundo. www.accenture.com/institute Para mais informações, favor entrar em contato com: armen.ovanessoff@accenture.com e.plastino@accenture.com Sobre a Accenture A Accenture é uma empresa líder global em serviços profissionais, com ampla atuação e oferta de soluções em estratégia de negócios, consultoria, digital, tecnologia e operações. Combinando experiência ímpar e competências especializadas em mais de 40 indústrias e todas as funções corporativas - e fortalecida pela maior rede de prestação de serviços no mundo -, a Accenture trabalha na interseção de negócio e tecnologia para ajudar companhias a melhorar seu desempenho e criar valor sustentável para seus stakeholders. Com mais de 358.000 profissionais atendendo a clientes em mais de 120 países, a Accenture impulsiona a inovação para aprimorar a maneira como o mundo vive e trabalha. Visite www.accenture.com.br. Sobre o Instituto de Alta Performance da Accenture O Instituto de Alta Performance da Accenture desenvolve insights estratégicos acerca de questões essenciais de gestão e tendências macroeconômicas e políticas por meio de pesquisa e análise originais. Seus pesquisadores conjugam reputação global com a vasta experiência da Accenture em consultoria, tecnologia e outsourcing para produzir pesquisas e análises inovadoras sobre como as empresas alcançam e mantêm o alto desempenho. Visite-nos em www.accenture.com/institute Copyright 2015 Accenture Todos os direitos reservados. Accenture, seu logotipo e High Performance Delivered são marcas registradas da Accenture.