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CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DA OBESIDADE A obesidade é uma doença crónica que se caracteriza pelo excesso de gordura corporal e que atinge homens, mulheres e crianças de todas as etnias e idades. A sua prevalência a nível mundial é tão elevada que a Organização Mundial de Saúde (OMS) a considera a epidemia do século XXI. Está hoje cientificamente provado que a obesidade reduz a qualidade de vida e constitui um importante fator de risco para o aparecimento, desenvolvimento e agravamento de outras doenças, como a hipertensão arterial, a diabetes, as doenças cardiovasculares, alguns tipos de cancro e doenças osteoarticulares, entre outras.
O QUE CAUSA A OBESIDADE PESO, UMA QUESTÃO DE PESO Num adulto saudável, o peso mantém -se quando o aporte de energia é equivalente ao seu gasto. Se a ingestão calórica for inferior ao gasto, o resultado será a perda de peso. Pelo mesmo princípio, se a ingestão de calorias for superior ao dispêndio energético, o excesso será armazenado como gordura no organismo, implicando, inevitavelmente, um aumento do peso corporal. Nota: Um equilíbrio energético positivo de 2 kcal/dia, ou seja, 2 calorias a mais por dia, poderá resultar no aumento de 1 kg em 10 anos! Assim, o excesso de peso e a obesidade resultam de um desequilíbrio energético sistemático, em que a quantidade de energia ingerida é superior à quantidade de energia despendida. Na origem desse desequilíbrio, podem estar envolvidos fatores genéticos, metabólicos, comportamentais e ambientais, nos quais se inclui a alimentação. É importante realçar que a obesidade surge após e pelo agravamento do excesso ponderal e que, por isso, é necessário, antes de mais, prevenir o aumento de peso ou, se tal não aconteceu, intervir logo que o limite superior do peso saudável (IMC > 25 kg/m2) seja ultrapassado. Há outras situações em que, embora o peso se mantenha dentro dos limites aceitáveis, a percentagem de massa gorda do organismo se encontra substancialmente aumentada e, neste caso e do mesmo modo, é desejável que o valor de gordura corporal atinja a normalidade. 10 CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DA OBESIDADE
PESO, UMA QUESTÃO DE PESO FATORES GENÉTICOS A presença de genes envolvidos no aumento de peso gera uma maior suscetibilidade ao risco de desenvolver obesidade, na presença de condições ambientais favorecedoras. A genética pode influenciar a eficiência energética do organismo, ou seja, a sua capacidade de converter os alimentos em energia, bem como o seu dispêndio energético com o exercício físico. Os genes podem afetar não só a quantidade de gordura acumulada, mas também a sua localização. Existem provas científicas que sugerem haver uma predisposição genética que determina, em certos indivíduos, uma maior acumulação de gordura na zona abdominal, em resposta ao excesso de ingestão de energia e/ou à diminuição da atividade física. HISTÓRIA FAMILIAR O risco de obesidade é maior se um dos pais, ou ambos, tiver excesso de peso. Isto pode dever -se não só à herança de genes, mas também à partilha de um ambiente obesogénico, caracterizado por um elevado consumo calórico (ingestão de quantidades exageradas de comida ou utilização de grandes quantidades de gordura na sua confeção) e baixa atividade física. IDADE À medida que a idade avança, há tendência para uma diminuição da atividade física, paralela a um natural decréscimo da massa muscular, o que resulta numa redução do metabolismo. Estas alterações traduzem- -se numa diminuição das necessidades energéticas e irão resultar num aumento de peso, caso não haja redução da ingestão calórica ou aumento da atividade física para compensar estas mudanças. SEXO As mulheres têm menos massa muscular do que os homens, o que determina um metabolismo basal mais baixo, ou seja, menor dispêndio energético em repouso. Por esse motivo, têm maior tendência a ter excesso de peso do que os homens. SEDENTARISMO Adultos e crianças mais sedentários, que despendem mais tempo com televisão, computador ou jogos eletrónicos, têm menor gasto energético e maior prevalência de obesidade. Existe também uma correlação entre a zona de residência e o excesso de peso, verificando -se que quanto mais urbanizada for, maior é a prevalência de obesidade, refletindo, provavelmente, um menor acesso à prática de atividade física ao ar livre e uma maior acessibilidade aos alimentos. GRAVIDEZ E ALEITAMENTO Durante a gravidez, o peso das mulheres aumenta necessariamente, devido ao peso do bebé, do líquido amniótico e da placenta e ao aumento de volume sanguíneo e dos seios. Algumas mulheres têm dificuldade em retomar o seu peso habitual após o parto, sobretudo se esse aumento for superior ao recomendado (ver quadro na página seguinte), sendo frequente que o mesmo venha a contribuir para o desenvolvimento de obesidade. No entanto, se a ingestão de alimentos e o peso forem corretamente aconselhados e controlados, depois do parto e terminado o período de amamentação, a mulher já deverá ter atingido o peso que tinha antes de engravidar. CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DA OBESIDADE 11
PESO, UMA QUESTÃO DE PESO O QUE CAUSA A OBESIDADE IMC antes de engravidar Aumento de peso recomendado (kg) vitais. Porque a massa muscular é metabolicamente mais ativa do que a massa gorda, ao ser reduzida, ajudará a baixar ainda mais a atividade metabólica e com ela o gasto energético diário. Baixo peso (IMC 18,5) Peso normal (IMC 18,5 a 24,9) Pré-obesidade (IMC 25 a 29,9) Obesidade (IMC 30) 12,5 a 18 11,5 a 16 7 a 11,5 5 a 9 Institute of medicine. Weight gain during pregnancy. Reexamining the guidelines. (2009) MEDICAÇÃO A utilização de alguns fármacos, (corticoesteróides, alguns antidepressivos e antipsicóticos, anti -hipertensores ou anticonvulsivos, entre outros) pode induzir ou contribuir para o aumento de peso. DIETAS DE MUITO BAIXO VALOR CALÓRICO Alguns tratamentos para emagrecer, sobretudo os que se baseiam em dietas de muito baixo valor calórico, podem contribuir para um posterior aumento de peso, uma vez que, por serem muito restritivos, obrigam a uma redução do metabolismo e à utilização de massa muscular para a obtenção da energia que o organismo necessita para as suas atividades CESSAÇÃO TABÁGICA A nicotina induz o aumento do metabolismo basal, pelo que deixar de fumar provoca frequentemente a diminuição do dispêndio energético e o consequente aumento de peso. Adicionalmente, a nicotina tem outros efeitos fisiológicos que afetam o comportamento e os mecanismos sensoriais, pelo que a sua ausência provoca melhoria do paladar e aumento do apetite, podendo induzir o aumento da ingestão de alimentos. PROBLEMAS MÉDICOS Ocasionalmente, a obesidade é potenciada por causas endócrinas tais como o hipotiroidismo, défice da hormona do crescimento, síndrome de Prader -Willi, lesões hipotalâmicas, doença de Cushing, síndrome do ovário policístico, entre outras. Outros problemas médicos, tais como os osteoarticulares, podem também levar ao aumento de peso pela diminuição da atividade física. ALIMENTAÇÃO O fator que mais contribui para o aumento de peso é o consumo regular de alimentos com grande densidade calórica, como os que contêm elevado teor de gordura ( fast food, produtos de pastelaria, salgadinhos, aperitivos, etc.), açúcar (bolos, gelados, chocolates, refrigerantes, etc.) e álcool. 12 CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DA OBESIDADE
PESO, UMA QUESTÃO DE PESO CONSEQUÊNCIAS DA OBESIDADE NA SAÚDE O aumento das porções/doses de alimentos que tem vindo a ocorrer ao nível da indústria alimentar e restauração também contribui para o aumento da ingestão energética e, consequentemente, para o aumento de peso. Pense -se no tamanho dos pacotinhos de pipocas que se vendiam à porta do cinema e os (baldes) que se vendem agora... Os pacotes de batatas fritas incluídos nos menus das cadeias de fast food tinham à volta de 200 kcal. Agora, têm quase três vezes mais!... FÍSICAS O excesso de peso e a obesidade estão na origem de muitas alterações que determinam a diminuição da qualidade e da esperança de vida, custos elevados para a saúde (diretos e indiretos), a redução da produtividade e um elevado número de mortes, conduzindo, ainda, a uma série de doenças e sintomas que, no dia a dia, criam desconforto e mal -estar: diabetes, doença cardiovascular, AVC, problemas osteoarticulares, apneia do sono, cancro (mama, cólon, endométrio e outros), dislipidémias (colesterol e/ou triglicerídeos elevados), infertilidade e outros (cansaço fácil, sudorese excessiva...). Independentemente das causas que predispõem para a obesidade, esta só surge se a ingestão for superior ao gasto calórico do organismo. É, por isso, muito importante saber como reduzir as calorias na alimentação diária. E isso não passa necessariamente por reduzir a quantidade de comida, mas sim e obrigatoriamente o número de calorias ingeridas! PSÍQUICAS E SOCIAIS Porque nos dias de hoje se valoriza excessivamente a estética, a obesidade está inúmeras vezes, associada a depressão, ansiedade e diminuição de autoestima, fruto da discriminação escolar, laboral e social. À medida que a sobrecarga de peso aumenta em crianças e adolescentes e a obesidade se instala, o ciclo de distúrbios psicológicos vai -se agravando, conduzindo a baixa autoestima, à falta de rendimento escolar e, em casos extremos, a tentativas de suicídio. É necessário, por isso, que a família, os amigos, os professores, o pediatra ou o médico de família estejam atentos, sinalizem a situação e procurem resolvê -la o mais precocemente possível. Também nos adultos, quanto mais cedo se intervier, mais fácil será resolver o problema. CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DA OBESIDADE 13
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QUEM É OBESO? Os principais fatores a considerar antes de se decidir pelo tratamento.
COMO AVALIAR SE UMA PESSOA É OU NÃO OBESA? PESO, UMA QUESTÃO DE PESO Há vários métodos mais ou menos complexos para avaliar se um indivíduo está ou não obeso, bem como para determinar o seu grau de obesidade. Por uma questão prática, abordaremos apenas aqueles que podem facilmente ser realizados em qualquer local e por qualquer pessoa através de equipamentos simples e portáteis. De entre estes, destacam -se: 1 a determinação do índice de massa corporal; 2 a avaliação da gordura corporal através do teste da bioimpedância; 3 a medição do perímetro da cintura. 1 Índice de massa corporal (IMC) Este índice relaciona o peso com a estatura da pessoa. Mede a corpulência, que se determina dividindo o peso (em quilogramas) pela estatura (em metros) elevada ao quadrado: IMC = Peso (kg)/estatura (m2) Ex: Indivíduo que mede 1,60 m e pesa 80 kg IMC = 80 kg : (1,60 m x1,60 m) = 31,3 kg/m2 Classificação do peso conforme o Índice de Massa Corporal IMC < 18,5 kg/m2 Baixo peso 18,5 IMC 24,9 kg/m2 Peso normal 25 IMC 29,9 kg/m2 Pré-obesidade De acordo com o resultado deste índice, a Organização Mundial de Saúde define pré-obesidade quando o IMC tem valor igual ou superior a 25 e obesidade quando o IMC é igual ou superior a 30. A tabela ao lado permite classificar o peso em função do IMC. 30 IMC 34,9 kg/m2 35 IMC 39,9kg/m2 IMC 40 kg/m2 Obesidade moderada (grau I) Obesidade grave (grau II) Obesidade mórbida (grau III) N.B.: Em atletas, grávidas e pessoas com edemas, o IMC não é uma medida fiável, uma vez que não permite distinguir a causa do excesso de peso (massa muscular, gordura ou água). 16 QUEM É OBESO?