Vittorio livi o visionário do vidro ENTREVISTA: TIAGO KRUSSE FOTOGRAFIA: ARQUIVO FIAM ITALIA
O que o inspirou em 1973 a iniciar a Fiam Italia? Em 1968, na Curvovetro, um dos quatro trabalhos trabalho em vido onde estive, criei um banco em vidro curvo de maneira a que fosse mais confortável como assento. Um amigo fotografou-me enquanto estava sentado naquele banco de uma só perna. Ele enviou a fotografia para inúmeros jornais que, intrigados pela extravagância da novidade, a publicaram. Estávamos num tempo em que o vidro ainda era considerado frágil e perigoso. O interesse que aquela fotografia suscitou e os estudos que estava a fazer na Bauhaus levavam-me a pensar que era possível criar uma colecção com essas características. E assim lancei-me no design dos produtos e na construção de fornos especiais, apresentando a primeira colecção de elementos de mobiliário em folha de vidro curva. O resultado foi a fundação da Fiam em 1973, com uma missão muito específica em design de produto. Quanto tempo foi preciso para que os consumidores se sentissem seguros ao comprarem produtos feitos em vidro? Devo dizer que apesar da curiosidade geral revelada em torno do material assim como da estética do projecto, apenas uns poucos eram suficientemente corajosos para escolherem para as suas casas uma peça de mobiliário em vidro. O conhecimento sobre este material era escasso, o vidro era definido como sendo frágil e perigoso. Associavam-lhe aquela imagem de um rapaz novo de tijolo na mão e que ao partir uma janela de vidro se arriscava a uns golpes. Mas os nossos produtos eram criados com um vidro muito espesso e designado para oferecer segurança. Todavia, na altura, este conceito não era entendido e levou a passar por grandes dificuldades. No princípio era muito importante expormos os produtos em condições que acentuassem a sua força e segurança. Em feiras e outros eventos era frequente saltarmos em cima deles para reforçar as suas características. Como é que conseguiu superar a relutância dos mercados? Os mercados estrangeiros vendo um produto bonito, inovador e feito em Itália logo associavam a um conjunto de factores de diferenciação que iriam produzir efeitos imediatos. Mas o mérito também é devido ao facto de eu ter começado desde logo a colaborar com bons designers estrangeiros como Philippe Starck, Ron Arad, Danny Lane, Christophe Pillet e outros. Qual era a essência da inovação? Propor uma peça de mobiliário para a casa que à vista não ocupava espaço, que não estava à mercê das tendências da moda, que poderia encaixar em qualquer tipo de ambiente independentemente do estilo ou cor, que acrescentava valor a tudo o que estava à sua volta e com uma durabilidade quase eterna, quando bem tratada. Acredito que estas qualidades num único material são muito inovadoras e ajudam a determinar o sucesso do produto, contudo cada design proposto também foi um factor determinante. Quais são as principais diferenças entre um vidro trabalho nos anos 70 e aquele trabalhado hoje? A matéria bruta é sempre a mesma. Houve uma melhoria na qualidade do material em si. Shell, design de Danny Lane O que mudou ao nível estético na abordagem do design ao vidro? Desde o início, sendo uma nova tecnologia sem uma história e à espera para se desenvolver, nunca toldámos a imaginação dos designers deixando o seu espírito criativo livre e sem restringi-lo às regras do conhecimento existente. A nossa tarefa passava por resolver todos os problemas técnicos mesmo que em cada momento eles nos parecessem intransponíveis. Tudo isto permitiu-nos, ao longo do tempo, adquirir uma significante riqueza de experiência que colocamos ao serviço dos novos designers. Por outro lado, estamos sempre preparados para os desafios que as suas ideias possam trazer. Como é que a empresa consegue aumentar o valor de um produto feito de vidro?
Ghost, design de Cini Boeri e Tomy Katayanagi
todos os nossos produtos são feitos à mão por mestres vidreiros Uma das características mais importantes da Fiam é que não temos no nosso catálogo produtos feitos em standard ou por máquinas. Todos os nossos produtos são feitos à mão por mestres vidreiros, cada um deles com especialização: escultura, gravura, modelagem e outras. Cada peça é uma criação única com o nome da marca estampado e fundido no vidro, a par de uma marca indicando a data de produção e o código do mestre que a produziu. Isto honra o trabalho do artesão e serve como garantia de produto único para o comprador. Estes elementos juntos à marca da empresa e ao nome do designer criam valor acrescido ao produto e o interesse do mercado. Revelo um dado concreto, ocorrido em Nova Iorque, em que uma das mesas Illusion, design de Philippe Starck, e que produzimos à 22 anos atrás foi vendida em leilão por 50 mil dólares. Quem são os designers ou os artistas que tiveram um papel importante no fascínio criado pelos produtos da Fiam Italia? É uma pergunta difícil de responder porque eu gostava de ajudá-los a todos e uma vez que isso é impossível, vou apenas mencionar uns quantos que deixaram uma marca distinta: Cini Boeri, Massimo Morozzi Vico Magistretti, Enzo Mari, Philippe Starck, Ron Arad, Rodolfo Dordoni, Xavier Lust. Quanto é investido em novas tecnologias? Para nós tecnologia e pesquisa fazem parte do nosso Adn e são como uma matéria bruta. Graças a isso sempre conseguimos gerir o interesse para os designers e para o mercado, que esperam sempre por novas propostas nossas em termos de estilo e de tecnologia. Graph, design de Xavier Lust Atlas, design de Danny Lane