Elaboração: Edna Cézar Balbino Fernanda Lúcia de Campos Luís Cláudio Sartori ÁREA TEMÁTICA - SAÚDE BUCAL Colaboração: Adrianne Stein Ana Regina Fernandes B. Cozzolino Andréia dos Santos Ribeiro Dalila Ap. Nogueira Deise Alves de Amorim Edna Alves Silva Eleodora F. Felice Flavio Luis Osório Julie Silvia Martins Márcia Aoki Marazzi Márcia C. Alejandro Arbex Maria Luisa de Gouveia Ramalho Maria Stela Miadaira Maria Teresa Sauranyi de Andrade Maricene C.M. Ferreira Mario Maccarone Filho Mario Nakanishi Regina A Marques- Regina Helena Pinheiro Sanches Ricardo Juniti Akitiv Rosimara MB Andrade Rubens Nunes Junior Sergio Luis S. Morais Silvio Carlos Coelho de Abreu 111
ACOLHIMENTO EM SAÚDE BUCAL O acolhimento é considerado como um processo, especificamente de relações humanas; um processo, pois deve ser realizado por todos os trabalhadores de saúde e em todos os setores do atendimento. Não se limita ao ato de receber, mas em uma seqüência de atos e modos que compõe o processo de trabalho em saúde. Na análise do acolhimento é necessário ir além dos fenômenos lingüísticos, ou seja, do discurso verbal, pois nem sempre o que ocorre como um ato de linguagem, faz-se presente em intencionalidade, indo além da mensagem emitida. Acolher não significa a resolução completa dos problemas referidos pelo usuário, mas a atenção dispensada na relação, envolvendo a escuta, a valorização de suas queixas, e também o que se comunica sem o recurso das palavras, e através disso reconhecer as necessidades individuais ou coletivas, transformando-as em objeto das ações de saúde. Refere-se também que no acolhimento se explica de certa forma como se efetiva a implantação do SUS, e como os indivíduos se posicionam frente ao lema Saúde como direito de todos e de cidadania. Sendo assim o acolhimento pode se apresentar de formas diversificadas segundo as práticas de cada modelo assistencial, e segundo os diferentes espaços intercessores do processo de trabalho em saúde, bem como o seu conjunto. O usuário do serviço de saúde busca obter no acolhimento, uma relação de compromisso por parte do trabalhador de saúde, e a priorização problema/necessidade que o leva ao Sistema de Saúde, esperando a atenção, a escuta e o respeito, por parte dos trabalhadores. O acolhimento do cidadão no contexto da saúde bucal, mais que resposta a uma determinada situação de urgência caracterizada por dor espontânea, pulsátil intensa, inchaço na face, abscesso / fístula, hemorragia, trauma/ queda/ fratura, deverá ser porta de entrada que permita adesão desse usuário 112
a programações integrais construídas sobre o eixo da promoção e recuperação da saúde. Quando se refere à promoção e recuperação da saúde, o cenário privilegiado é a atenção básica, que por um lado inclui cuidados relacionados à grupos prioritários em nível social e epidemiológico e, por outro, os serviços de especialistas socialmente mais necessários.(pinto 2000). No entendimento da área temática, o conceito de atenção básica em saúde bucal deve ser encarado de forma ampla, com foco na prevenção, participação comunitária, enfoque multi-setorial e na oferta equânime dos serviços que não se limitam apenas às práticas curativas indispensáveis. Para o planejamento da atenção básica em saúde bucal dos usuários, incluindo acolhimento e organização equânime da demanda, optou-se pela realização de rastreamentos, empregados para identificar as condições de saúde bucal e subsidiar o planejamento das ações coletivas e das ações de assistência individual. A Organização Mundial da Saúde (1994), definiu como reconhecimento sistemático (rastreamento), os métodos preditivos de busca ativa para detectar riscos médicos/sanitários não manifestos ou enfermidades assintomáticas, para a implementação de oportuna intervenção. Rastreamento, triagem ou scrreening, para PE- REIRA (2001), é a procura por indivíduos suspeitos de estarem enfermos ou em risco de adoecer, no seio da população aparentemente sadia. Trata-se de uma estratégia que facilita a tarefa de proporcionar maior cobertura populacional de serviços de saúde, de modo a proteger maior número de pessoas, com menor esforço. Para STARFIELD (2002), o reconhecimento de um problema (ou de necessidade) é o passo que precede o processo de planejamento e diagnóstico. Se os problemas ou necessidades de saúde não forem reconhecidos, não haverá qualquer processo diagnóstico ou, então, será um processo inadequado. Os usuários podem não se queixar de problemas por não estarem cientes deles, ou podem se queixar de uma coisa que mascara outra. O papel do profissional de saúde é a determinação precisa das necessidades de saúde de um paciente ou de uma população. Nesse protocolo de acolhimento, a técnica de rastreamento proposta para identificação de agravos em saúde bucal, combina critérios e procedimentos considerados relevantes para cárie dentária, condições do periodonto e tecidos moles bucais. Os critérios foram estabelecidos desde o início da década de noventa com a participação de equipes de saúde bucal, assessoradas por especialistas em cariologia, periodontia e semiologia. A técnica compreende a observação da cavidade bucal, feita com iluminação natural com auxílio de espátula de madeira. Os critérios de rastreamento das condições relacionadas com a doença cárie,doença periodontal e condição dos tecidos moles bucais são: 113
Critérios de rastreamento para cárie dentária com enfoque no grau de ataque/severidade das lesões. ESCORES A B C D E F CONDIÇÃO Ausência de lesão de cárie, ausência de manchas brancas ativas, sem presença de placa bacteriana dental envelhecida Ausência de sinais de cárie em atividade, apresentando sinais de doença pregressa, ou seja, cavidades adequadamente restauradas e/ou perdas dentárias adequadamente substituídas Ausência de lesão de cárie ativa, com presença de cárie crônica e/ou perdas dentárias não substituídas Presença de sinais de doença cárie mancha branca ativa e presença de placa dental bacteriana envelhecida. Presença de sinais de cárie ativa, caracterizada pela observação de lesão aguda. Presença de dor referida e/ou abscesso Fonte: PSF Santa Marcelina, São Paulo, 1999. Critérios de rastreamento para doença periodontal com enfoque no grau de ataque/severidade das lesões. ESCORES CONDIÇÃO 0 Estruturas periodontais sadias 1 Presença de gengivite 2 Presença de cálculo supragengival 6 Presença de bolsa, sem mobilidade e migração dentária 8 Mobilidade e perda da função dentária X Ausência de dente B Seqüelas de doença periodontal anterior (retração gengival) Fonte: PSF Santa Marcelina, São Paulo, 1999. Critérios de rastreamento para lesões bucais com enfoque nas situações que sugerem risco para o câncer. PSF Santa Marcelina, São Paulo, 1999. ESCORES CONDIÇÃO 0 Tecidos moles aparentemente sadios 1 Alterações em tecidos moles, sem sugestão de malignidade 2 Alterações em tecidos moles, com sugestão de malignidade 114 Fonte: PSF Santa Marcelina, São Paulo,1999.
Acolhimento, rastreamento e organização da demanda considerando o agravo cárie dentária: Serão encaminhados para grupos com enfoque na promoção e recuperação da saúde e para a clínica os usuários classificados com escore F, E, D, C, B, A, nesse ordenamento: do maior para o menor risco. Acolhimento, rastreamento e organização da demanda considerando o agravo doença periodontal: Serão encaminhados para grupos com enfoque na promoção e recuperação da saúde e para a clínica os usuários classificados com escore 8, 6, 2, 1, 0, nesse ordenamento: do maior para o menor risco. FLUXOS Acolhimento, rastreamento e organização da demanda considerando o agravo lesões em tecidos moles: Serão encaminhados para grupos com enfoque na promoção e recuperação da saúde e para a clínica os usuários classificados cm escore 2, 1, 0, nesse ordenamento: do maior para o menor risco. Importante: Todos os escores, e para todas as condições, serão checados em clínica independentemente da condição de risco que originou o acolhimento e encaminhamento. Por exemplo: um usuário pode ter sido encaminhado para a clínica a partir de em escore E para o agravo cárie dentária. Na clínica serão sempre checados os escores que classificam as condições do periodonto e dos tecidos moles. 115
FLUXOGRAMA DE ATENDIMENTO DE QUEIXAS ODONTOLÓGICAS QUEIXAS ODONTOLÓGICAS IDENTIFICAR SE EXISTE URGÊNCIA SIM NÃO dor espontânea, pulsátil e intensa inchaço na face abscesso/ fístula hemorragia trauma/ queda/ fratura problemas com os dentes em geral dor provocada por quente, frio e doce dente de leite não cai dente permanente nascendo fora do lugar preenchimento da ficha de anamnese de urgência assinatura do paciente ou responsável Orientar que a queixa não se caracteriza como urgência e que pode ser agendado para grupo de triagem para a solução do problema Aferição da PA dos adultos CONSULTA ODONTOLÓGICA NO DIA Observar aspectos da face que, excluindo escoriações típicas de quedas, sugiram sinais de violência física. Se confirmado, observar fluxo especifico para situações de violência. Observar alterações dos tecidos moles que sugiram infecção por HIV e encaminhar para o fluxo especifico. AGENDAMENTO PARA GRUPO DE TRIAGEM DE RISCO 116
ORIENTAÇÕES GERAIS PRESENÇA DE ABSCESSO / INCHAÇO NA FACE E/OU FÍSTULA INTRA/ EXTRA ORAL (PRESENÇA DE BOLSA NO PÉ DO DENTE) Orientar bochechos com água morna Não fazer compressa quente Evitar aquecimento local Evitar exposição ao sol Encaminhar para o dentista realizar drenagem (procedimento) CORTE DE LÁBIO / LÍNGUA / MUCOSA ORAL Limpar o local com soro fisiológico 0,9 % Compressão do local com gaze Aplicar compressa de gelo Preencher ficha de anamnese / urgência Para adultos, verificação da PA Encaminhar para avaliação / sutura. DESLOCAMENTO DE DENTES POR TRAUMA (deslocamento lateral, para dentro do alvéolo ou para fora do alvéolo) 1) Deslocamento lateral: Com uma gaze fazer realinhamento imediatamente para evitar a formação de coágulo. 2) Deslocamento para fora do alvéolo: Fazer realinhamento imediatamente. 3) Deslocamento para dentro do alvéolo: Não deve ser feito nenhum procedimento no sentido de posicionar o elemento. Aplicar compressa de gelo se tiver edema Encaminhar imediatamente para o Cirurgião Dentista realizar procedimento de avaliação e/ou contenção. 117
ORIENTAÇÕES GERAIS FRATURA DE DENTES POR TRAUMA Colocar o fragmento do dente em soro fisiológico. Se houve trauma de mucosa, fazer imediatamente compressa com gelo. Encaminhar para o Cirurgião Dentista realizar procedimento PERDA DO DENTE DECÍDUO ( DENTE DE LEITE ) POR TRAUMA AVULSÃO NUNCA REIMPLANTAR DENTE DECÍDUO Limpar a região afetada com soro fisiológico 0,9%. Orientar a morder um rolete de gaze. Aplicar compressa com gelo se tiver edema (inchaço) Encaminhar para o Cirurgião Dentista. PERDA DO DENTE PERMANENTE POR TRAUMA (AVULSÃO) Se o dente foi recuperado, lavar com soro fisiológico 0,9% sem fazer nenhuma fricção. Reimplantar imediatamente no alvéolo observando face correta. Na impossibilidade de reimplante, o dente deve ser mantido debaixo da língua do paciente / responsável, em soro fisiológico a 0,9% ou no leite até o momento do reimplante. Aplicar compressa com gelo se tiver edema (inchaço ) Encaminhar para o Cirurgião Dentista realizar contenção ( procedimento ). Se o dente não foi recuperado, oriente que a recuperação imediata é muito importante pois o elemento pode ser reimplantado. E também oriente como deve ser conservado até o momento do reimplante. 118
FLUXOGRAMA DE ATENDIMENTO A HEMORRAGIA HEMORRAGIA NA UBS Fazer compressão com gaze/ compressa com gelo Necessidade de pronto atendimento Hemorragia pós-cirúrgica Hemorragia traumática Ausência do dentista Cirurgião dentista Pequeno sangramento Grande sangramento Enfermeiro médico Ausência do dentista Ausência do dentista Cirurgião dentista Cirurgião dentista Médico Compressão compressa com gelo Sutura Enfermeiro médico MEDICAÇÃO INJETÁVEL Vitamina K Buco maxilo facial Se necessário Compressão com gaze 119
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Buischi, Y. P. Promoção de Saúde Bucal na Clínica Odontológica. São Paulo. Artes Médicas, 2000. 2. Kramer, P. F.; Feldens, C. A.; Romano, A. R. Promoção de Saúde Bucal em Odontopediatria. São Paulo. Artes Médicas, 2000. 3. Projeto Qualis- Santa Marcelina- Modelo de Atenção, 1998. 4. Sartori, L. C. Saúde bucal da família. São Paulo, mimeo, 2001. 5. Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. A Organização das Ações de Saúde Bucal na Atenção Básica. São Paulo. fev. 2001. 6. Secretaria Municipal da Saúde. Prefeitura do Município de São Paulo. COGest. A Reorganização da Saúde Bucal na Atenção Básica no Município de São Paulo. São Paulo. mar. 2003. 120