A Química do DESCAFEINADO
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- Salvador Quintão Faro
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1 A Desvendar a Química do dia-a-dia
2 A Química do DESCAFEINADO p Ver video online O descafeinado é mais um bom exemplo da presença da Química no nosso dia-a-dia. O primeiro processo para obter o café descafeinado passava por lavar os grãos de café com um solvente orgânico idêntico aos solventes das tintas e vernizes, que dissolvia bem a cafeína, mas que dissolvia também os compostos que dão aroma e sabor ao café, deixando-o sem aroma nem sabor! Além disso, havia sempre o perigo da presença de resíduos do solvente nos grãos, com os consequentes efeitos nefastos para quem procurava esta forma supostamente mais saudável do café. A situação mudou com a descoberta dos fluidos supercríticos e das suas propriedades como solventes. Explicando melhor, vamos falar das alterações de estado da matéria com a pressão e a temperatura. Por exemplo, à pressão e temperatura ambiente, o dióxido de carbono é um gás, mas com o aumento da pressão pode passar a líquido, e se baixarmos a temperatura passa a sólido. Se aumentarmos a temperatura e a pressão, atinge um novo estado, o de fluido supercrítico passando a apresentar propriedades de líquido e de gás. Ou seja, um gás com a densidade de um líquido! Hoje em dia, a cafeína é retirada do café por lavagem com dióxido de carbono supercrítico, em condições em que este dissolve a cafeína, mas não os aromas do café. Quando o café, já descafeinado, regressa à pressão ambiente, todos os resíduos de dióxido de carbono se evaporam. E mesmo que alguns vestígios permaneçam, não representam qualquer problema para a saúde, já que o dióxido de carbono faz parte do nosso metabolismo. Assim, graças aos desenvolvimentos da Química, os consumidores podem saborear o gosto e o aroma do café sem os efeitos prejudiciais da cafeína. Para saber mais A cafeína é provavelmente o estimulante mais famoso em todo o mundo. Mas, o que sabemos nós sobre a química desta substância tão presente nos nossos hábitos alimentares? A cafeína, de fórmula química C 8 H 10 N 4 O 2, existe na natureza, em mais de 63 espécies de plantas (as mais conhecidas são, para além do café, no cacau e no guaraná). O seu nome resulta de ter sido extraída pela primeira vez a partir do café, em 1821, pelo químico alemão Friedlieb Ferdinan. Quando consumida, a cafeína é rapidamente absorvida pelo trato intestinal e distribuída pelo sangue para quase todos os tecidos do corpo (bem mais demorada é a sua eliminação pelo organismo, a qual varia de pessoa para pessoa, razão pela qual há quem se gabe de beber um café e adormecer sem problemas). No sistema nervoso central, a cafeína atua sobre os mesmos recetores que a cocaína, embora de uma forma mais mitigada. Ainda assim, a cafeína exerce um efeito estimulante suficiente para aumentar a concentração e o rendimento intelectual. Vários estudos sugerem que pode contribuir para aumentar o desempenho em tarefas manuais diminuindo o tempo de reação. Além disso, dilata os brônquios e os vasos sanguíneos, aumentando a velocidade dos movimentos respiratórios. É também responsável pelo aumento das secreções digestivas, o que facilita a digestão e é dotada de propriedades diuréticas. Perante este cenário não admira que mais de 90% dos Europeus consumam cafeína. No entanto, também aqui a moderação é fundamental para o equilíbrio do organismo e de um bom sono! Voltando ao início, ao descafeinado, é importante referir que grande parte da cafeína é obtida industrialmente através do descafeinado! Confuso? A cafeina pode ser sintetizada, laboratorialmente, a partir da dimetilureia (C 3 H 8 N 2 O) e do ácido malónico (C 3 H 4 O 4 ) no entanto, este não é o processo usual para a sua produção industrial uma vez que a mesma é facilmente obtida (e de Fig. 3.1 Diagrama de fases do dióxido de carbono de acordo com a pressão e temperatura. Fig. 3.2 Estrutura da cafeína. A cafeína existe em diversas bebidas para além do café. Por exemplo, a teína do chá foi isolada em 1827 e em 1831 ficou demonstrado que era afinal cafeína.
3 A Química do DESCAFEINADO forma mais económica) como subproduto do processo de descafeinação. São conhecidos três métodos para produção do descafeinado e consequente extração da cafeína, embora todos eles utilizem o mesmo princípio: o da passagem por um solvente, cujo objetivo é dissolver apenas a cafeína a este processo de separação dá-se o nome de extração por solvente. Assim, para além da extração com recurso ao CO 2 ou com recurso a solventes orgânicos, existe um terceiro método no qual é utlizado como solvente a água (a água, dada a sua capacidade em dissolver a maior parte das substâncias, é também conhecida como solvente universal). Este processo baseia-se no facto de a solubilidade da cafeína em água aumentar com o aumento da temperatura. Assim, os grãos de café são imersos em água quente, o que permite a dissolução da cafeína, mas também de outros componentes do café. Para recuperar estes compostos, a água que contêm a cafeína passa por um filtro de carvão ativado, o qual adsorve as moléculas de cafeína e deixa passar as restantes. Por fim, os grãos de café (já sem cafeína) são de novo mergulhados nesta água descafeinada para recuperarem os aromas perdidos. Existem algumas variantes deste processo de descafeinação alguns dos quais, em vez de utilizarem filtros físicos para retirar a cafeína da água, recorrem a agentes descafeinantes, como o acetato de etilo. Curiosidade A utilização do dióxido de carbono supercrítico na indústria alimentar não se restringe apenas à descafeinação, pelo contrário, a lista de processos onde é utilizado é imensa e com tendência a aumentar: extração de aromas, pigmentos, antioxidantes e outras substâncias ativas de plantas, frutos e legumes (como os carotenos da cenoura ou a teobromina do cacau); obtenção do extrato de lúpulo para o fabrico da cerveja; redução do teor de colesterol; remoção de pesticidas de substâncias naturais, etc,etc. No entanto, não é só na indústria alimentar que o dióxido de carbono supercrítico é utilizado. As suas qualidades notáveis como solvente fazem com que este composto seja atualmente utilizado nas mais diversas áreas: da indústria química, à farmacêutica passando pela eletrónica. Uma das suas principais vantagens reside no facto de este ser um solvente amigo do ambiente quando comparado com os solventes orgânicos e halogenados tradicionais, os quais, para além de serem tóxicos, prejudicam também o meio ambiente. Aliás, por esta razão, num futuro próximo todas as lavandarias poderão utilizar o dióxido de carbono supercrítico para a lavagem a seco, substituindo assim o percloroetileno. Estações de tratamento de resíduos perigosos recorrendo a esta tecnologia estão também a ser desenvolvidas, embora aqui a água supercrítica possa ser a escolhida uma vez que, tal como já foi referido, a água é o solvente universal e em condições supercríticas torna-se um solvente de outro mundo. Mas não existe ainda a solução perfeita: para a água se tornar um fluido supercrítico são necessárias temperaturas acima dos 350 C e uma pressão superior a 200atm! Fig. 3.3 Estrutura do acetato de etilo. O acetato de etilo é utilizado diretamente como solvente orgânico para extrair a cafeina ou como agente descafeinante. Uma vez que este composto está naturalmente presente em frutos como pêssegos ou maçãs, a sua toxicidade é considerada irrelevante.
4 A Química do DESCAFEINADO Faça em Casa A técnica de extração por solvente utilizada no processo de descafeinação tem aplicações nas mais diversas indústrias. Esta técnica consiste na separação de um ou mais componentes de uma mistura sólida por meio de um solvente líquido. Não só na indústria, mas também no dia-a-dia, recorremos a esta técnica quando, por exemplo, preparamos um chá ou mesmo um café. O que propomos que faça em casa é a extração de um corante natural da beterraba através desta técnica e que investigue qual o melhor solvente para esse efeito da mesma forma que grupos de cientistas estão continuadamente à procura de melhores solventes para extrair a cafeína do café sem retirar aromas e sabores. Material Beterraba (qualidade vermelha) Solventes: acetona, álcool e água 3 Copos de plástico transparentes Papel de cozinha Faca Caneta para marcar os copos Procedimento 1. Comece por marcar os copos identificando os solventes: água, álcool e acetona. 2. De seguida, coloque em cada um dos copos cerca de 3ml do respetivo solvente (corresponde a aproximadamente 1,5cm de altura do copo). 3. Corte a beterraba em 3 pequenos pedaços iguais com ajuda de uma faca. 4. Passe os pedaços de beterraba por água e seque com papel de cozinha (para retirar o corante em excesso). 5. Coloque um pedaço de beterraba (o qual deve ficar completamente coberto pelo solvente) em cada copo, agite levemente e espere 5 minutos. Observe. 6. Volte a agitar os copos novamente e espere cerca de 30min.Verifique a tonalidade em cada copo. Resultado Diferentes tonalidades que representam diferentes capacidades de extração. O que aconteceu A cor das beterrabas deve-se a um conjunto de pigmentos designados por betalaínas, os quais, juntamente com a clorofila, com as antocianinas e com os carotenos, compõem o leque de cores de plantas, frutos e vegetais (ver também Química das cores de Outono ). As betalaínas podem ainda ser divididas em duas classes: as betacianinas (responsáveis pela coloração roxo avermelhada) e as betaxantinas (responsáveis pela coloração amarelada). O objetivo desta atividade era determinar qual o melhor solvente para extração das betacianinas. O copo com acetona foi aquele que apresentou um tom vermelho mais forte o que significa que a acetona foi o solvente com maior capacidade para extrair os pigmentos da beterraba. Apesar de as betacianinas serem solúveis em água, este não é o melhor solvente uma vez que não consegue influenciar a permeabilidade da membrana das células que armazenam as betacianinas. Estas membranas possuem uma região hidrofóbica (que repele a água) e uma região hidrofílica (que gosta da água). Uma vez que as moléculas da acetona apresentam na sua estrutura zonas semelhantes, possuem maior afinidade com a membrana e por isso conseguem mais facilmente extrair as betacianinas. NOTA DE SEGURANÇA Esta experiência utiliza apenas sólidos e líquidos comuns. As crianças deverão sempre ser supervisionadas por um adulto responsável. Os autores e a Universidade de Aveiro não assumem qualquer responsabilidade por danos ou prejuízos sofridos em resultado das experiências descritas. Fig. 3.4 Estrutura da betanina. A betanina é uma das betacianinas mais comum nas beterrabas. Fig. 3.5 Fotografia com os resultados da atividade. Coloração do extrato de beterraba nos diferentes solventes.
5 A Química do DESCAFEINADO a QdC@UA Os fluidos supercríticos são apenas um dos exemplos de sucesso na busca por solventes com as características mais adequadas aos processos industriais. No Departamento de Química da Universidade de Aveiro, a investigação abrange também um outro grupo de solventes inovadores: os líquidos iónicos. Os líquidos iónicos são substâncias constituídas por espécies de carga negativa e positiva, os iões, tal como o conhecido cloreto de sódio (ver também A Química do Sal ). No entanto, ao contrário dos sais normais, que formam cristais de elevado ponto de fusão o cloreto de sódio funde acima dos 800 C -, os líquidos iónicos têm pontos de fusão muito baixos, mesmo abaixo da temperatura ambiente, razão pela qual são... líquidos! É possível modular a composição dos líquidos iónicos de forma a obter o solvente mais adequado ao processo industrial pretendido, e há muita investigação a fazer nesta área. Um trabalho recente dos investigadores do Departamento de Química descreve a utilização de um novo líquido iónico como solvente eficaz na extração da cafeína a partir das sementes de guaraná um passo importante para a possível utilização da cafeína, um pesticida natural, na proteção das culturas agrícolas. Contacto Prof. João Coutinho Departamento de Química / CICECO Universidade de Aveiro Fig. 3.5 Imagem de promoção da publicação científica: guaraná, água + líquidos iónicos, extração sólido-líquido, cafeína.
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