Termodinâmica estocástica

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1 Termodinâmica estocástica Instituto de Física Universidade Federal Fluminense Niterói, 4 de maio de 2011 Mário J. de Oliveira Instituto de Física Universidade de São Paulo p. 1

2 Resumo Este colóquio será apresentado em duas partes. Na primeira mostraremos que a evolução histórica das teorias térmicas pode ser entendida como uma sequência de bifurcações do calor. Começamos pela análise do instrumento de Galileu e examinamos as contribuições de Black, Carnot, Clausius, Boltzmann, Onsager e Prigogine. Examinamos também a terceira lei na forma concebida originalmente por Nernst. Na segunda parte apresentamos a abordagem estocática para a termodinâmica de sistemas irreversíveis. Para isso utilizamos (a) a dinâmica regida por uma equação mestra, (b) a definição estatistica de entropia, introduzida por Boltzmann e (c) a definição de produção de entropia na forma introduzida por Schnakenberg. A partir dessa última obtemos a forma bilinear da produção de entropia em termos de fluxos e forças. Quando o sistema está próximo do equilíbrio mostramos que essa abordagem nos conduz aos coeficientes de Onsager e às relações de reciprocidade. Determinamos a produção de entropia no modelo de Ising mostrando que ela possui singularidade no ponto crítico. p. 2

3 Primeira Parte Evolução das Teorias do Calor p. 3

4 Bifurcações do calor 1650 calor calor entropia1 calor prod. entropia entropia calor1 temperatura pressao p. 4

5 Bifurcações do calor 1650 calor calor entropia1 calor prod. entropia entropia calor1 temperatura pressao Egito antigo (Tutmés I): rio-acima = norte, rio-abaixo = sul. O Nilo flui rio-acima. p. 4

6 Bifurcações do calor 1650 calor calor entropia1 calor prod. entropia entropia calor1 temperatura pressao Egito antigo (Tutmés I): rio-acima = norte, rio-abaixo = sul. O Nilo flui rio-acima. O Eufrates flui rio-abaixo. p. 4

7 O instrumento de Galileu Carta de Benedetto Castelli a Ferdinando Cesarini, 20 de setembro de 1638; Opere di Galileo Galilei, vol. XVII, p p. 5

8 Escala de graus de calor de Newton (1701) A scale of the degrees of heat 0 The heat of the air in winter at which water begins to freeze. This heat is determined by placing a thermometer in packed snow, while it is melting. 6 Heat of the air in the middle of the day in the month of July The greatest heat which a thermometer takes up when in contact with the human body. This is about the heat of a bird hatching its eggs The heat of a bath in which wax floating around melts as the bath gets warmer and is kept in continual movement without boiling The heat at which water boils violently The lowest heat at which a mixture of equal parts of tin and bismuth liquifies The lowest heat at which lead melts The heat of coals in a little kitchen fire made from bituminous and excited by the use of a bellows. The same is the heat of iron in such a fire which is shining as much as it can. p. 6

9 Temperatura e calor Ao redor de meados do século 18 surgiu a idéia de que o calor possuia dois aspectos distintos sendo que o termômetro media apenas um deles. Joseph Black, em 1760, foi um dos primeiros a esclarecer a distinção entre quantidade de calor (calor propriamente) e intensidade de calor (temperatura) ao introduzir a idéia de capacidade térmica e de calor latente. Mostrou que a temperatura da água em coexistência com o gelo permanece invariante. p. 7

10 Coexistência de fases p (MPa) gelo agua vapor T ( o C) coexistência gelo-água diagrama de fase da água p. 8

11 Elementos químicos de Lavoisier (1789) p. 9

12 Elementos químicos de Lavoisier (1789) p. 10

13 Mémoire sur la chaleur, Lavoisier e Laplace p. 11

14 Teoria do calórico A teoria do calórico foi utilizada por Sadi Carnot em seus estudos sobre o rendimento das máquinas térmicas, publicados em Mostrou que o rendimento de uma máquina que opera segundo um ciclo formado por duas isotermas e duas adiabáticas não depende da substância mas apenas das duas temperaturas do ciclo (exemplo de lei universal). Isso permitiu a Kelvin a definição de temperatura absoluta. h 2 T 2 mg Q h 1 T 1 W = mg(h 2 h 1 ) W = Q(T 2 T 1 ) p. 12

15 Energia e entropia Durante a primeira metade do século 19 havia a desconfiança de que o calor não se conservava, em contradição com a teoria do calórico. Os trabalhos de Joule e Mayer mostraram que uma quantidade de trabalho sempre se converte na mesma quantidade de calor. Clausius afirma, em 1850, que o calor significa movimento das menores partes dos corpos e mostra que o princípio de Carnot não está em contradição com essa idéia. Com base nesse princípio, Clausius pode introduzir a grandeza denominada entropia que, ao contrário do calor, é uma função de estado assim como a energia é uma função de estado. De acordo com Clausius a diferença de entropia entre dois estados é dada por dq S = T onde a integral se estende sobre qualquer caminho que ligue os dois estados. p. 13

16 Carnot h 2 T 2 mg Q h 1 T 1 W = mg(h 2 h 1 ) W = Q(T 2 T 1 ) p. 14

17 Carnot h 2 T 2 mg Q h 1 T 1 W = mg(h 2 h 1 ) W = Q(T 2 T 1 ) Clausius W = Q 2 Q 1 = T 2 S T 1 S = S(T 2 T 1 ) p. 14

18 Leis da termodinâmica Conservação da energia (Mayer, Joule, Helmholtz): U = Q W ao longo de qualquer trajetória. Em forma diferencial du = dq dw Definição da entropia e temperatura absoluta (Kelvin e Clausius): dq = TdS Conservação da energia em forma diferencial du = TdS pdv A entropia, assim como outro potenciais termodinâmicos, possui a propriedade de convexidade. A entropia é função monotônica crescente do tempo. Princípio de Nernst (1906): S S 0 quando T 0. De acordo com Planck, S 0 = 0. p. 15

19 Transformações termoquímicas. 1. Sistema fechado: S 0. Critérios para processos espontâneos 2. Sistema a temperatura constante: F Sistema a pressão constante: H Sistema a temperatura e pressão constantes: G 0. Para sistemas a temperatura constante, Berthelot usava erradamente o critério U 0. Entretanto, isso funcionava a baixas temperaturas. Nernst supôs que a baixas temperaturas mas T 0, e portanto, S 0, F = U T S U. p. 16

20 Nernst Exemplo van t Hoff, 1905 U U U 0 U 0 F F 0 T 0 T U = U 0 + at 2 U = U 0 + ct F = U 0 at 2 F = U 0 c(t lnt T) p. 17

21 Segunda Parte Termodinâmica Estocástica em colaboração com Tânia Tomé p. 18

22 Processos espontâneos 1. Teoria cinética dos gases: Clausius e Boltzmann 2. Reações químicas: Berthelot 3. Terceira lei da Termodinâmica: Nernst 4. Produção de entropia: Onsager e Prigogine 5. Processos markovianos: Markov, Einstein, Langevin, Perrin, Fokker, Planck, 6. Produção de entropia equação mestra: Schnakenberg 7. Termodinâmica estocástica p. 19

23 Clausius Clausius S S E é o fluxo de entropia para o sistema. dq T = S E S I = S S E S I 0 S I é a produção de entropia. Prigogine S = S I + S E ds dt = Π Φ Π = S I / t taxa de produção de entropia. Φ = S E / t taxa de fluxo de entropia do sistema para o ambiente. p. 20

24 Espaço de estados sistema espaco de estados i J ij j J ij = W ij P j W P ji i p. 21

25 Dinâmica estocástica 1) Equação mestra dp i dt = j {W ij P j W ji P i } = j J ij, W ij é a taxa de transição j i. 2) Entropia S = k i P i ln P i 3) Taxa de produção de entropia Π = 1 2 k ij {W ij P j W ji P i } ln W ijp j W ji P i 0 pois (x y) ln(x/y) 0. p. 22

26 Fluxo de entropia Taxa de produção de entropia Π = 1 2 k ij J ij ln W ijp j W ji P i 0 Taxa de variação da entropia ds dt = 1 2 k ij J ij ln P j P i. Taxa de fluxo de entropia Φ = 1 2 k ij J ij ln W ij W ji, Portanto ds dt = Π Φ p. 23

27 Fluxo de energia Energia U = E i, Φ E = ij J ij E j du dt = Φ E p. 24

28 Balanceamento detalhado Um sistema termodinâmico, em equilibrio ou fora de equilibrio, é definido pelas taxas de transição W ij. No estado estacionário {W ij Pj W ji Pi } = 0, j No equilibrio, o balanceamento detalhado é obedecido Π = Φ W ij P e j W ji P e i = 0, Π = Φ = 0 W ij = P i e W ji P e j P e W ij = c i ij Pj e c ij = c ji p. 25

29 Teorema H de Boltzmann Reservatório térmico a temperatura T P e i = 1 Z e E i/kt W ij = c ij e (E i E j )/2kT Φ = 1 T ij J ij E j = 1 T Φ E = 1 T du dt Teorema H de Boltzmann ds dt = Π Φ = Π + 1 T du dt du dt T ds dt = TΠ df dt = TΠ 0 p. 26

30 Teorema H de Boltzmann Note que F 0 = kt ln Z F = U TS = F 0 + kt i P i ln P i P e i H Boltzmann = i P i ln P i P e i p. 27

31 Processo quase-estático Reservatório térmico a temperatura T e reservatório de particulas a potencial quimico µ, W ij = c ij e [(E i E j ) µ(n i n j )]/2kT Admitimos que T e µ se modificam com o tempo. Não há balanceamento detalhado e du dt = T ds dt + µdn dt T Π Se as taxas pelas quais T e µ se modificam são pequenas podemos mostra que Π é proporcional ao quadrado das taxas. Mas os outros terms são lineares nas taxas e portanto obtemos, du dt = T ds dt + µdn dt du = TdS + µdn p. 28

32 Dois reservatórios reservatorio B espaco de estados system reservatorio A cada ligacao esta relacionada a um reservatorio p. 29

33 Estado estacionario fora de equilibrio Dois reservatórios de calor e partículas W A ij = c A ije [(E i E j ) µ A (n i n j )]/2kT A W B ij = c B ije [(E i E j ) µ B (n i n j )]/2kT B If W A ij 0 W B ij = 0 e vice-versa. A taxa de transição é W ij = Wij A + Wij B p. 30

34 Estado estacionário fora de equilibrio Π = ( 1 T B 1 T A )J E + ( µ A T A µ B T B )J N Fluxo de energia (na verdade calor) do reservatorio A para o sistema J E = ij W ij P j (E i E j ) Fluxo de particulas do reservatorio A para o sistema J N = ij W ij P j (n i n j ) p. 31

35 Proximo do equilibrio Proximo do equilibrio X E = 1 T B 1 T A X N = µ A T A µ B T B são pequenos. Quando X E e X N se anulam, J E e J N também se anulam. Portanto, J E = L EE X E + L EN X N J N = L NE X E + L NN X N L EE, L EN, L NE, L NN são os coeficientes de Onsager, e obtemos L EN = L NE p. 32

36 Produção de entropia 0,03 0,02 Π, d Π /dt 0,01 dπ dt Π T p. 33

37 Fluxo de calor 0,001 J E 0, ,5 3 3,5 4 4,5 5 T p. 34

38 Susceptibilidade ln χ T p. 35

39 FIM p. 36

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