AS IMPLICAÇÕES DA PAISAGEM NO AUXÍLIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

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1 AS IMPLICAÇÕES DA PAISAGEM NO AUXÍLIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Wallace Matheus Torres Peres / UERJ Renan Caldas Galhardo Azevedo / UERJ INTRODUÇÃO O meio ambiente, nas ultimas décadas, tem sido alvo de questões sobre o seu futuro e a manutenção de um ecossistema sustentável para as próximas gerações tornouse algo dubitável. Nesse contexto, surge a Educação Ambiental como ferramenta para resolver a problemática socioambiental de maneira a contribuir para uma reflexão sobre a ação da sociedadeno cotidiano, em busca de uma prática em defesa da qualidade de vida.para complementar, a Educação Ambiental acaba por ser apoiada por políticas públicas relacionadas ao meio ambiente. No Brasil, essa política é gerida pela Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) do Ministério do Meio Ambiente, que tem como um dos princípios promover a ideia de sustentabilidade, demonstrando a importância social para uma construção coletiva de preservação ambiental. A leitura da paisagem assume um papel fundamental nesse processo, pois, é a própria paisagem o principal material didático utilizado na aplicação da Educação Ambiental nas escolas, sendo esta a base desse trabalho. Para a melhor assimilação do aluno, e consequentemente para a formação do cidadão nada esclarece mais a respeito do ambiente do que a paisagem que o permeia. Sendo assim,o objetivo do trabalho foi o de evidenciar, através dos métodos de aprendizagem, como o uso da paisagem está relacionado ao ensino e a prática da

2 Educação Ambiental dentro das escolas, contribuindo como uma ferramenta importante para auxiliar o ensino da Educação Ambiental dentro e fora da sala de aula. Como metodologia buscou-se encontrar e analisar quais são as práticas produzidas pelo professor dentro da sala de aula sobre Educação Ambiental e como essas práticas se relacionam com o uso da paisagem, seja por meio de trabalhos, projetos ou diálogos produzidos entre o professor e os seus alunos. Outro meio de buscar essa confirmação entre o uso da paisagem como ferramenta para a Educação Ambiental foi através da pesquisa em livros didáticos de Geografia do 5 e 6º ano do ensino fundamental, buscando descobrir como a paisagem poderia contribuir ao ensino da Educação Ambiental. Os livros foram elementos muito importantes para esse trabalho, pois foi através deles que a relação paisagem e Educação Ambiental ficaram mais evidentes e que o uso da paisagem pode contribuir de forma exponencial para o aprendizado da Educação Ambiental. PAISAGEM E EDUCAÇÃO AMBIENTAL As Paisagens possuem significados simbólicos quando relacionadas à atuação e a sua transformação pelo homem. Desta forma, existe uma grande complexidade para abordar este tema. Mais do que palavras, a paisagem representa todo um contexto de elementos que são captados por nossa percepção, não só da aparência física, mas de todo o fenômeno em si. Milton Santos definia a paisagem como tudo aquilo que nós vemos, o que nossa visão alcança, é a paisagem. Esta pode ser definida como o domínio do visível, aquilo que a vista alcança. Não é apenas formada de volumes, mas também de cores, movimentos, atores, sons, etc. (SANTOS, 1988). Mais do que isso, a paisagem precisa de toda uma interpretação além do campo visual, que se estende para a nossa percepção em todos os sentidos. Para Denis Cosgrove, a análise da paisagem é mais complexa e com uma maior dependência da percepção. A paisagem, de fato, é uma Maneira de ver, uma maneira de compor e

3 harmonizar o mundo externo em uma cena, em uma unidade visual. Sendo assim: paisagem é um conceito complexo de cujas implicações desejo especificar três: (I) um foco nas formas visíveis de nosso mundo, sua composição e estrutura espacial; (II) unidade, coerência e ordem ou concepção racional do meio ambiente; (III) a ideia de intervenção humana e controle das forças que modelam e remodelam nosso mundo.. (COSGROVE,1998). A paisagem é também um processo de construção/concepção subjetiva por parte do sujeito que a observa, pois ele carrega em si a sua leitura de mundo, leitura essa que pode estar em fase inicial de construção ou em constante metamorfose. Em muitos casos podemos perceber que a compreensão do meio ambiente, enquanto interação complexa de configurações sociais, biofísicas, políticas, filosóficas e culturais, parece distante de grande parte dos sujeitos que vivenciam as paisagens. A partir desta percepção a forma como a paisagem será interpretada pelo observador poderá ser modificada. Apesar dessa relação homem natureza ser real, o homem está sendo inserido como único agente nas transformações ambientais. Em outras palavras, deu-se a relação homem homem o mesmo caráter atribuído a relação homem-natureza (sujeito objeto), instrumentalizando, assim, as relações sociais. EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO COTIDIANO ESCOLAR As propostas para a Educação Ambiental vêm sendo focos de conflitos e disputas entre diferentes concepções e práticas. De forma genérica, podemos destacar como a pedagogia crítica de Freire pode sugerir princípios e orientar diretrizes para a implementaçãode práticas de ensino-aprendizagem na área ambiental. A metodologia proposta por Paulo Freire está centrada na cultura como dimensão da formação de uma consciência crítica que, pelo seu caráter dialógico, permite aos sujeitos partilharem laços interpessoais e interpretar a realidade, fundamentando a transição entre a identidade da resistência e o projeto social de emancipação coletiva.

4 Mesmo com esses conflitos, a aplicação da ideia de Educação Ambiental se inicia nas escolas, onde os alunos começam a aprender a importância de se preservar o meio e construir esse ideia coletiva de preservação. A escola é o local onde há o primeiro contato do aluno com a ideia de preservar o meio ambiente, tudo através de métodos educativos que visam um maior entendimento da importância da natureza. Livros e práticas pedagógicas são de suma importância para esta iniciativa construída no âmbito escolar. É também na escola que o conceito de paisagem é ensinado e introduzido na vida das crianças. Por esses motivos a escola desempenha um papel fundamental para ensinar o aluno o que é a paisagem e o que é a Educação Ambiental, de forma a fazer uma síntese entre os dois temas em sala de aula. Se a educação não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda (FREIRE, 1996). Seguindo o pensamento de Paulo Freire, percebe-se a importância da iniciação da Educação Ambiental no âmbito escolar desde as primeiras séries do ensino fundamental. Algumas medidas implantadas pelos professores fazem com que o aluno pense nesse ambiente sustentável. Assim, algumas práticas feitas pelos professores e observadas na pesquisa são de suma importância para construir nos alunos a ideia da Educação Ambiental. Algumas dessas práticas foram: a construção de murais com gravuras sobre causa e efeito da poluição do ambiente utilizando de imagens que demonstravam paisagens preservadas ou destruídas pela ação humana; trabalhos para demonstrar a importância da coleta seletiva; construir materiais a partir de objetos recicláveis; e até a construção de um jornal informativo a respeito da preservação de recursos naturais básicos para a vida como a água. Além disso, conversas informais no cotidiano escolar sobre os temas relacionados ao meio-ambiente constituem essas medidas principais, buscando conciliar o tema da Educação Ambiental no dia-a-dia das crianças. A IMPORTÂNCIA DOS LIVROS DIDÁTICOS Outro componente de importância fundamental nesse processo são as leituras e trabalhos feitos por meio dos livros didáticos. Os livros didáticos dispõem de imagens

5 que representam a paisagem e por meio do uso da percepção se é capaz de mostrar quais são os elementos pertencentes à paisagens preservadas ou não pelo homem. Textos apresentados pelos livros começam a introduzir o conceito de paisagem na sala de aula e ajudam a demonstrar quais são os elementos que pertencem à paisagem. O que se pode observar é que gradativamente o conceito de paisagem e Educação Ambiental são apresentados aos alunos e que conceito de paisagem começa a ser ensinado com uma maior ênfase no 6º ano do ensino fundamental, sendo levado em conta as características de cada tipo de paisagem, diferenciado as paisagens naturais, com os elementos que representem o meio ambiente, como florestas, rios e animais, em comparação com as imagens que expressam paisagens que possuem elementos construídos ou transformados pela ação humana, como as cidades e seus prédios, ruas e avenidas. A imagem abaixo exemplifica essa relação de se levar até o aluno essa relação entre a paisagem matriz e a paisagem modificada: Imagem extraída do livro Projeto Araribá Geografia, Ed. Moderna, p.13 A ideia intrínsecaé a de começar a demonstrar ao aluno como essa relação entre paisagem ambiente existe de fato, de uma maneira mais objetiva. Não só mostrar essa

6 relação como também levar em conta que as paisagens podem ser modificadas pelo ser humano e suas práticas sociais. Com esta diferenciação introduzida, a metodologia dos livros didáticos começa a mostrar aos alunos imagens que representam áreas preservadas ou que já foram modificadas pelos seres humano. Há sempre o confronto de paisagens distintas ou mesmo fotos que comparem a paisagem de um local em um período anteriora sua degradação e o depois, demonstrando qual foi o resultado da ação humana no local e quais foram as suas consequências. Além dessas comparações há um questionário ou textos fazendo o aluno pensar se a paisagem apresentada pelo livro é natural ou não, caso não seja, o livro questiona quais seriam as possíveis práticas ocorridas no local para ocorrer aquele problema e quais seriam as soluções. Mediado pelo professor, o aluno começa a realizar a distinção entre um local, dito como preservado ou não pelo homem, ou seja, será através da busca dos elementos inseridos na paisagem que o aluno começa a definir se houve ou não transformações naquele meio demonstrado pelo livro. Assim, pela simples análise do recurso visual das imagens do livro que demonstrem tipos de paisagens diferentes, o aluno consegue perceber a diferença entre uma área preservada ou uma área degradada, tornando uma ferramenta essencial para a compreensão da preservação da natureza. Em síntese a metodologia do uso das paisagens nos livros analisados do 5º e 6º anodo Ensino Fundamental guiam o aluno com o intuito de ensina-lo quais são as modificações ocorridas na paisagem, se estas são boas ou ruins para o meio, o orientando para avaliar a paisagem e o seu contexto, através da busca dos elementos demonstrados pelas imagens. Como por exemplo na imagem apresentada abaixo:

7 Imagem extraída do livro Projeto Pitanguá Geografia, Ed. Moderna, p.68. AS PAISAGENS DO COTIDIANO E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A EDUCAÇÃO AMBIENTAL Uma outra praticada feita pelo professor em sala de aula foi a de aproveitar a experiência que têm os alunos de viver em áreas da cidade descuidadas pelo poder público para discutir, por exemplo, a poluição dos riachos e dos córregos e os baixos níveis de bem-estar das populações, os lixões e os riscos que oferecem à saúde das gentes (FREIRE, 1996). O professor também passa a trabalhar com elementos mais próximos a ele, a fim de conseguir demonstrar aos alunos quais são estes elementos que fazem parte da paisagem, como esses estão dispostos no bairro onde se localiza a escola e aproveita essa paisagem para trabalhar a Educação Ambiental. Através deste método, o professor pede aos alunos para descrever quais são os locais que possuem elementos naturais ou não, como estes elementos estão e se estes ainda estão preservados ou não em seus bairros ou mesmo perto da escola onde estudam. Por este motivo a ideia de percepção da paisagem cotidiana, torna-se importante para a aplicação da Educação Ambiental nas escolas. É nessa direção que se baseia o professor, tentando mostrar não só as paisagens ilustradas pelos livros didáticos ou mesmo métodos que visem somente a construção de trabalhos sobre o tema, ele busca coletar elementos cotidianos da paisagem vivenciada pelos alunos e que esteja mais próxima da escola, de suas casas ou mesmo do caminho percorrido por eles entre sua casa e a escola.

8 Sendo assim, a prática da Educação Ambiental não possui barreiras quando demonstradas através do uso da percepção dos alunos para os elementos constituintes do meio em que estão inseridos. Por esse motivo o uso das paisagens para evidenciar os espaços que são ditos como naturais ou como modificados pelo homem facilmente ajudam o professor no ato de ensinar aos seus alunos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após consultar o professor e seus métodos de aplicar o ensino da Educação Ambiental, concluiu-se nesta pesquisa que, dentre as praticas feitas pelo mesmo, o uso da paisagem como instrumento de apoio para os estudos em sala de aula sobre as atividades humanas e seus impactos no meio ambiente, contribui exponencialmente para a aplicação e o ensino da Educação Ambiental nas escolas. Seja por meio do uso de livros didáticos com suas imagens ou mesmo explicitando experiências cotidianas do aluno, a paisagem sempre estará inserida na escola, buscando mostrar as transformações ocorridas em certos locais e a importância que existe em preservar o meio ambiente dos possíveis danos causados pelos seres humanos na natureza. Os elementos constituintes de cada paisagem acabam por levar o aluno a entender as diferenças existentes em cada paisagem e o ajuda a perceber quais são os impactos possíveis da ação humana sobre o meio ambiente. Assim, entende-se que o uso da paisagem acaba por contribuir de grande forma ao ensino da Educação Ambiental, não só no entendimento do aluno, mas também auxilia o professor na tarefa de ensinar Geografia, conseguindo utilizar do recurso visual como uma ferramenta essencial para o ensino da Educação Ambiental dentro das salas de aula REFRECIAS BIBLIOGRÁFICAS

9 BOLIGIAN, L.; GARCIA,W.; MARTINEZ, R.; ALVES, A.; GEOGRAFIA Espaço e Vivência - O espaço geográfico mundial - 6º Ano - 5ª Ed. São Paulo: Editora Atual, COSGROVE, Denis. A Geografia Está em Toda Parte: Cultura e Simbolismo nas paisagens Humanas. In: CORREA, Roberto & ROSENDAHL, Zeny. paisagem, TEMPO E CULTURA. Rio de JANEIRO: EdUERJ, ED. MODERNA, JOMAA, Fernando Carlo; Projeto Pitanguá - Geografia - 6 Ano - 2ª Ed. SãoPaulo: Editora Moderna, ED. MODERNA; MAESTU, Juliana; Projeto Buriti - Geografia.5º Ano - 2ª Ed. São Paulo: Editora Moderna, ED. MODERNA; VEDOVATE, Fernando Carlo; Projeto Araribá - Geografia - 6º Ano / 5ª Série - 3ª Ed. São Paulo: Editora Moderna, ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor 1994 FERRAÇO, Carlos Eduardo (Org.). Cotidiano escolar, formação de professores(as) e currículo. São Paulo: Cortez, FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. 28 ed. São Paulo: Paz e Terra, Pedagogia do oprimido. 42 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Os (des)caminhos do meio ambiente. 2ª ed., São Paulo: Contexto, 1990

10 MORIN, Edgar. O método I: a natureza da natureza. 3ª. ed. Portugal: Publicações Europa América Ltda., SANTOS, Milton. A NATUREZA DO ESPAÇO: TÉCNICA E TEMPO, RAZÃO E EMOÇÃO. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, Metamorfoses do Espaço Habitado. 5ª edição. São Paulo: Editora Hucitec, TUAN, Yi-fu, Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Difel, 1980.

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