A POLÍTICA DE EFETIVAÇÃO DOS DIREITOS DA POPULAÇÃO NEGRA. Prof. Dr. Silvio Luiz de Almeida

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1 A POLÍTICA DE EFETIVAÇÃO DOS DIREITOS DA POPULAÇÃO NEGRA Prof. Dr. Silvio Luiz de Almeida

2 As ações afirmativas na construção de um horizonte ético Democracia, Republicanismo e Cidadania - Questão racial: problema atinente de todos os brasileiros - Possibilidade de construção de um País democrático e verdadeiramente Republicano. - Republicanismo: existência de instituições públicas voltadas para a satisfação dos interesses do povo e não para o regozijo de elites - Democracia: efetiva participação popular nas decisões acerca dos destinos da sociedade, - Cidadania: pleno gozo dos direitos civis, políticos e sociais Há República, Democracia ou Cidadania quando a maioria da população brasileira está alijada do conjunto dos direitos fundamentais?

3 O racismo na formação do Estado brasileiro Escravidão Latifúndio Patrimonialismo Consequências: - Ausência de um Estado de direito - Ausência de uma República - Ausência de uma cultura democrática

4 Os afrodescendentes e a cidadania Direitos Políticos: - população negra afastada da participação política Direitos Civis: - impediu a formação de direitos individuais - impediu a formação de instituições republicanas capazes de garantir direitos mesmo formalmente instituídos Direito Sociais - menos acesso às políticas universais de saúde, educação, cultura e lazer - desemprego e informalidade

5 Formas de discriminação Discriminação direta intrageracional Discriminação indireta intergeracional Estratificação social

6 Formas de discriminação indireta Discriminação indireta ou discriminação por impacto desproporcional ou adverso. Griggs v. Duke Power Co. de Empresa de energia elétrica, que além do racismo clássico, praticava discriminação indireta, ao instituir testes de inteligência como condição para a promoção. Entretanto, tais testes de inteligência não consideravam que os negros estudavam nas escolas segregadas, de baixíssima qualidade

7 Formas de discriminação indireta Existência da discriminação mesmo quando não há atos volitivos (atos inconscientes) Racismo estrutural A inexistência ou adoção de critérios neutros já é um fator de discriminação Efeitos nefastos da aplicação da neutralidade sobre determinado grupo social.

8 Formas de discriminação indireta Discriminação na aplicação do direito - Ato normativo aparentemente neutro que gera discriminação. - Nesse caso, o propósito discriminatório levará em conta não a lei em si, mas sua aplicação. Discriminação de fato. - Simples omissão em relação às situações específicas dos grupos minoritários. Discriminação manifesta ou presumida - Inversão do ônus da prova. Ex. Garçons, lojas em shoppings, carreiras jurídicas etc. Leva em conta as estatísticas.

9 O que é ação afirmativa? Hipótese de discriminação legítima Discriminação positiva ( reverse discrimination ) Tratamento preferencial: - Dado a grupo historicamente discriminado - Visa a impedir que a igualdade formal perpetue a desigualdade. Caráter redistributivo e restaurador Correção de situação de desigualdades historicamente constituídas Tempo determinado Objetivos sociais claros

10 O que é ação afirmativa? Formulação teórica: segundo pós-guerra. - Estado indutor ou Estado de bem estar social. - Políticas antidiscriminatórias clássicas: proibitivas ou neutras Foco nos atos concretos de discriminação

11 Objetivos das ações afirmativas Coibir a discriminação do presente Eliminar os efeitos da discriminação no passado e que tendem a se perpetuar. Instituir diversidade e maior representatividade dos grupos minoritários Valorizar a dignidade e a promover da autoidentidade.

12 Ações afirmativas - argumentos Backward looking argument Retrospectivo Justiça corretiva Reparação histórica Forward looking argument Prospectivo Justiça distributiva Reconhecimento e redistribuição (diversidade)

13 Ações afirmativas - base jurídica Cidadania formal Base jurídica para as ações afirmativas: Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

14 Ações afirmativas - base jurídica I - a soberania; II - a cidadania III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político. Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

15 Ações afirmativas - base jurídica Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

16 Ações afirmativas - base jurídica IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

17 A redenção de Can Modesto Brocos

18 Política do branqueamento Política de branqueamento - Em 100 anos seremos todos brancos Racismo científico A raça negra no Brasil [...] há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo. (Nina Rodrigues)

19 Homicídios A probabilidade de um homem preto ou pardo morrer assassinado é mais do que o dobro se comparado a de um indivíduo que se declara branco, é o que revela o relatório. Apesar de o número de homicídios no país permanecer estável nos últimos anos, o número de negros assassinados não para de subir, por outro lado, os homicídios entre homens brancos vêm caindo.

20 Homicídios Entre as mulheres, a morte por homicídio entre as pretas e pardas é 41,3% maior à observada entre as mulheres brancas, segundo os dados de 2007.

21 Expectativa de vida A esperança de vida da população negra segue inferior à da população branca. Entre os homens pretos e pardos, o indicador não passou de 66,74 anos. No contingente masculino da população branca, a expectativa alcançou 72,39 anos. No estudo com as mulheres, a esperança de vida entre pretas e pardas foi de 70,94 anos, abaixo dos 74,57 anos estimados para a parcela feminina da população branca.

22 Educação A avaliação de jovens de 15 a 17 anos mostra que 8 em cada 10 estudantes pretos e pardos estavam cursando séries abaixo de sua idade, ou tinham abandonado o colégio. Entre os brancos, 66% dos estudantes estavam na mesma situação. Na população de 11 a 14 anos, que segundo o estudo é a fase que jovens começam a abandonar a escola, 55,3% dos jovens brasileiros não estavam na série correta em Entre os jovens pretos e pardos, essa proporção chega a 62,3%, bem acima dos estudantes brancos (45,7%). O relatório evidencia que a população branca com idade superior a 15 anos tinha, em 2008, 1,5 ano de estudo a mais do que a negra.

23 Educação II A taxa de analfabetismo em 1992 era de 10,6% para brancos e 25,7% para negros; em 2009, 5,94% para brancos e 13,42% para negros. Nesse período, embora tenha caído a desigualdade, a taxa dos negros permaneceu mais que duas vezes maior que a taxa da população branca, de acordo com dados do IBGE compilados pelo Ipea. Por outro lado, o aumento das matrículas em creches ou préescolas é muito maior entre crianças brancas. A entrada no percurso escolar regular é mais atribulada para as crianças afrodescendentes.

24 Saúde Estabelecimentos do SUS atenderam mais pretos e pardos (66,9% da sua população atendida em 2008) do que brancos (47,7%), a taxa de não cobertura também é maior entre o grupo de pretos e pardos, 27% para afrodescendentes e para 14% dos brancos. Em ,9% das mulheres pretas e pardas nunca haviam feito mamografia, contra 22,9% das brancas e 18,1% das mulheres pretas e pardas nunca haviam feito papanicolau (13,2% entre as brancas).

25 Políticas sociais A importância dos benefícios do Bolsa Família sobre a renda das famílias negras é significativamente maior do que para as famílias brancas. Entre os afrodescendentes, o programa representa 23,1% da renda da família. Para os brancos, 21,6%. Além disso, a proporção de famílias cujo chefe é preto ou pardo beneficiadas pelo programa 24% do total de famílias deste grupo no país é quase três vezes maior do que a das unidades familiares brancas (9,8%). embora em números absolutos mais negros tenham ultrapassado a linha da pobreza, a redução proporcional dos índices ficou em torno de 30% para os dois grupos, mantendo as diferenças significativas. Em 1997, 57,7% dos negros brasileiros eram pobres. Dez anos depois, eram 41,7%. Entre os brancos, o percentual caiu de 28,7% para 19,7% no mesmo período.

26 Políticas sociais II Essas políticas gerais não afetam a maneira como os afrodescendentes chegam ao mercado, nem como são tratados dentro dele. A estrutura do vínculo com cor e raça não muda. (Marcelo Paixão)

27 Cenário de agravamento Modelo econômico neoliberal Boaventura de Souza Santos - Desigualdade e individualismo - Mercantilização da vida - Racismo da intolerância - Sequestro da democracia.

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