UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS CAMPUS DA FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DE DIVINÓPOLIS

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1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS CAMPUS DA FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DE DIVINÓPOLIS TELEVISÃO E ADOLESCENTES: INVESTIGAÇÕES DE CONSTRUÇÕES DE IDENTIDADE Maria Helena Silva Passos Divinópolis 2008

2 Maria Helena Silva Passos TELEVISÃO E ADOLESCENTES: INVESTIGAÇÕES DE CONSTRUÇÕES DE IDENTIDADE Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado da Universidade do Estado de Minas Gerais, Campus da Fundação Educacional de Divinópolis, como requisito parcial à obtenção do título Mestre em Educação, Cultura e Organizações Sociais. Área de Concentração: Estudos Contemporâneos Linha de Pesquisa: Cultura e Linguagem Orientador: Profa. Dra. Ana Mónica Henriques Lopes Divinópolis Fundação Educacional de Divinópolis 2008

3 P289t Passos, Maria Helena Silva Televisão e adolescentes: investigações de construções de identidade [manuscrito] / Maria Helena Silva Passos f., enc. il. Orientador : Ana Mónica Henriques Lopes Dissertação (mestrado) - Universidade do Estado de Minas Gerais, Fundação Educacional de Divinópolis. Bibliografia : f Televisão. 2. Adolescentes. 3. Identidade. 4. Cultura 5. Gomes, I. M. Mota, Tese. 6. Stengel, Márcia, Tese. I. Lopes, Ana Mónica Henriques Lopes. III. Universidade do Estado de Minas Gerais. Fundação Educacional de Divinópolis. IV. Título. CDD: 306

4 Dissertação intitulada Televisão e adolescentes: investigações de construções de identidade, de autoria do mestrando Maria Helena Silva Passos, aprovada pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores: Profa. Dra. Ana Mónica Henriques Lopes FUNEDI/UEMG Orientadora Prof. Dr. Alexandre Simões Ribeiro FUNEDI/UEMG Profa. Dra. Suzana Cristina Ferreira Souza UNA Prof. Dr. Mateus Henrique Pereira FUNEDI/UEMG (suplente) Divinópolis, 31 de maio de 2008

5 AUTORIZAÇÃO PARA A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA DA DISSERTAÇÃO Autorizo, exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação por processos de fotocopiadores e eletrônicos. Igualmente, autorizo sua exposição integral nas bibliotecas e no banco virtual de dissertações da FUNEDI/UEMG. Maria Helena Silva Passos Divinópolis, 31 de maio de 2008

6 AGRADECIMENTOS Muitas são as pessoas que passam em nossas vidas, com diversas contribuições. A algumas podemos dizer obrigada logo; a outras oferecemos um olhar, um abraço, um pensamento, em orações, meditações; mas há outras às quais tentamos verbalizar, com a limitação das palavras, um muito obrigada mesmo, o que aqui, com o meu perdão aos esquecidos, vou tentar fazer. Aos meus pais, Roque e Helenita pelo apoio incondicional, pela paciência, pelo carinho, pelo respeito e pelo incentivo singular. Especialmente a minha mãe, que, com amor infinito e intenso, de longe ou perto, apoiou-me sempre. A meu pai, que, mesmo mais silente, fez-se presente também. E, mais, a todos da minha família, que de muitas formas contribuíram para a realização deste projeto: Áurea Santos, Auricéia Pelegrinni, Elizabete M. Silva, Márcia e Marcel Tanner. Aos amigos, que muitas vezes participaram em pensamento e ações desta pesquisa, com sugestões, leituras e comentários, especialmente: Josane Moreira Oliveira, Marli e Magali Sales, Carmen Motta, Lindamar Lima, Heloísa Monteiro, José Martins, Maurício e Rose Dolabella. A Raphael Barros, pelas primeiras palavras, quando ainda havia um projeto desta dissertação, pelo apoio e até pelo puxão de orelha, pela atenção e pelo carinho sempre. Aos colegas e companheiros de curso, com os quais dividimos tantas conversas, risos, material e até viagens, momentos festivos, tristes, pelo momento de nossas vidas no qual repartimos e construímos este sonho: Alba, Anke, Deise, Elenice, Elaine, Geralda, Marina, Mercedes e Sônia. Aos colegas de trabalho, especialmente a Mônica. A Itânia Gomes, pelos meus primeiros passos nos estudos de Comunicação, por sua boa vontade e disposição, pelos conselhos e ponderações. Aos adolescentes que responderam ao questionário e participaram da entrevista com boa vontade e empolgação. Sem eles não haveria discurso nem análise. Meu muito obrigada a eles, que são a razão desta pesquisa. Aos funcionários, que sempre com muita competência, atenção e presteza fizeram-se presentes, especialmente: a Sandra Guimarães, pela acolhida inicial; a Rose Peixoto, pela delicadeza; a Mônica Diniz, pela simplicidade. O meu muito obrigada à minha orientadora, Ana Mónica Lopes, que, em alguns momentos, mesmo estando nós em distância, produziu diálogos permanentes e respeitosos

7 com a minha produção; pelas leituras competentes e com profunda acuidade, pelo interesse e carinho com que tratou a minha pesquisa, e também pelos materiais compartilhados e discutidos. Aos professores, especialmente: a Pedro Bessa, pelos conselhos e birras que carinhosamente travamos; a Mateus Pereira, pela leitura severa e pontuada; a Leandro Catão e José Geraldo Pedrosa, pelas trocas de conhecimento; e ao também coordenador do curso, Alexandre Ribeiro, sempre na escuta de nossas angústias e questionamentos e atento ao rigor pertinente das normas e da qualidade do material. Agradeço, finalmente, a Deus, pela oportunidade de conhecer todas essas pessoas, pois, sem elas, por mais idéias e competência que tivesse, de nada valeria. Assim, meu muito obrigada a todos que, neste caleidoscópio vital, nos enriquecem e abrilhantam a caminhada. Com a permissão e conexão de uma força maior, Deus, tudo acontece.

8 A verdade é que a imagem não é a única que mudou. O que mudou, mais exatamente, foram as condições de circulação entre o imaginário individual (por exemplo, os sonhos), o imaginário coletivo (por exemplo, o mito) e a ficção (literária ou artística). Talvez sejam as maneiras de viajar, de olhar, de encontrar-se que mudaram, o que confirma a hipótese segundo a qual a relação global dos seres humanos com o real se modifica pelo efeito de representações associadas com as tecnologias, com a globalização e com a aceleração da história. (Marc Augé) (Apud BARBERO, Jesús-Martin. Os exercícios do ver. São Paulo: Senac, 2001)

9 RESUMO A presente pesquisa tem por objetivo apresentar uma análise do perfil de adolescentes de classes sociais diferentes, seus discursos mediados pela televisão, mais especificamente a partir dos programas preferidos e de uma análise de seus discursos. Reflete um olhar sobre o momento emergente, atravessado de discussões sobre a cultura, a globalização, as migrações, a diáspora, a cena contemporânea, o consumo, as cidades e, sobretudo, a questão da identidade, sua formação e construção, subjetiva, cultural e nacional. A pesquisa também apresenta uma visão sobre as relações dos adolescentes em contextos sociais, como a família, a escola, os colegas e o ECA, as questões pertinentes a essa fase, e, sobretudo, sobre a relação dos adolescentes com os meios de comunicação de massa, mais especialmente com a televisão e suas tangências, a recepção e a cotidianidade, tendo como suporte os estudos culturais, os estudos sobre recepção (tendências latinas) e um pouco da Análise do Discurso, que são proeminentes e ancoram as análises sobre os adolescentes, envolvendo discussões sobre a identidade em suas interfaces com a cultura. Palavras-chave: Adolescentes. Televisão. Cultura. Identidade. Globalização.

10 ABSTRACT This research analyses the profile of teenagers in different social categories: low and high midlle class and theirs discourses mediated by the television, specially through their favorite programs. Also we can observe an emergent moment, the globalization, the culture, the migrations, the diaspora, the consume, the migrations and the identity, with your way and subjective, cultural and national construction. It shows also a way about the relation of teenager in social contexts, as family, friends, school and with the law ECA (the manual of laws about teenagers), and mainly the relation between teenagers and television, the reception( latin tendencies), the quotidian aspects, and overcoat using as methode of Cultural Studies and the Analisys of Discourses. It is a way for the discussion between the culture and identity made with teenagers. Keywords: Teenagers. Television. Culture. Identity. Globalization.

11 SUMÁRIO LISTA DE GRÁFICOS...11 INTRODUÇÃO...12 CAPÍTULO I ADOLESCENTES E MEIO TELEVISIVO Uma breve visão sobre adolescência As relações sociais a família, a escola, colegas e o ECA A relação entre adolescentes e meio televisivo...33 CAPÍTULO II ESTUDOS CULTURAIS, CULTURA, TELEVISÃO E RECEPÇÃO Os estudos culturais: origens e desdobramentos Cultura, confrontando suas tangências Televisão: linguagem, função e histórias Recepção...64 CAPÍTULO III OS FORMATOS DE CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA NA RECEPÇÃO ADOLESCENTE Navegando em identidades: subjetiva, nacional, cultural Os adolescentes pesquisados quem são? A análise dos discursos dos entrevistados Confrontando os dados da pesquisa e os referenciais teóricos CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS APÊNDICE...117

12 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1: Programas mais assistidos (escola pública) Gráfico 2: Programas mais assistidos (escola particular) Gráfico 3: Programas preferidos (escola pública) Gráfico 4: Programas preferidos (escola particular) Gráfico 5: Horas diante da TV (escola pública) Gráfico 6: Horas diante da TV (escola particular) Gráfico 7: Linguagem do programa preferido (escola pública) Gráfico 8: Linguagem do programa preferido (escola particular)

13 INTRODUÇÃO As sociedades modernas pós o advento da Revolução Industrial incorporaram diversos valores marcadamente no conturbado final do século XIX e início do XX. A partir do surgimento da eletricidade, inicia-se um processo sócio-econômico acelerado. Configura-se um período de grande efervescência cultural na Europa: a incorporação da fotografia e do cinema no cotidiano das pessoas, as novas ciências em voga e os movimentos de vanguarda nas artes. O percurso dos meios de comunicação de massa começa a se delinear paralelamente ao processo de fortalecimento e consolidação do capital. Com as classes operárias em pleno vigor, as desigualdades sócio-econômicas vão se cimentando mais e mais e, junto a todo esse cenário, há os contornos dos problemas que se agregam: saúde, educação, moradia, transporte, entre outros. O rádio é o grande pioneiro dos meios de comunicação de massa, antecipando com maestria a chegada da televisão. Ele inaugura-se com uma narrativa auditiva e apropria-se do espaço doméstico, criando uma relação mais estreita entre as pessoas e o mundo. Estabelece uma nova forma de conhecimento, principalmente para a população sem acesso à alfabetização. O saber e as notícias ganharam rapidez, além do entretenimento veiculado por esse meio. Depois surge a televisão, na Europa, na primeira metade do século XX. Sua origem remonta à Alemanha, segundo Nyrma Azevedo apud Margarida Kunsch (1986), e a ocorrência da segunda Guerra Mundial acelerou a difusão e expansão do veículo televisivo. Desde esse período, muitos fatos históricos e o avanço tecnológico rápido que surgiu no pós-guerra, principalmente na década de 60, vão fazer da televisão um objeto fundamental do cotidiano de milhares de pessoas em todo o mundo. Diante desse momento e movimento da audiência televisiva, resolvemos estudar o comportamento de jovens adolescentes e sua relação com esse meio massivo. Diante do comportamento de muitos adolescentes e suas relações de intimidade com as tecnologias, ficamos bastante curiosos para entender como constroem processos mediados simbolicamente pela televisão (através de seus programas preferidos). Acreditamos que a importância da pesquisa reside justamente na ampliação de horizontes sobre jovens adolescentes e a relação com um produto tecnológico tão presente no cotidiano de todos. Vivemos numa cultura globalizada e midiática, em que a comunicação e seus produtos têm papel fundamental, pois atravessam fronteiras culturais, produzem novas subjetividades e muitas vezes assumem uma postura hegemônica na sociedade.

14 Pensamos que os jovens, de modo geral, estão mais vulneráveis aos processos identitários e, mais ainda, os adolescentes, por se encontrarem em fase de autodescobrimento, de transformações psíquicas, portanto, seriam mais atraídos pelo veículo televisivo (hipótese), mas ainda não sabemos que perfil de adolescente se encaixa mais, se o grau de escolaridade e a classe social (outra hipótese) estariam por trás das respostas. Isso só veremos com as pesquisas. As hipóteses levantadas têm como objeto o comportamento dos adolescentes e, sobretudo, o discurso destes. Para conhecermos esses dois universos, usamos um questionário com perguntas objetivas e subjetivas, depois tabulamos os dados objetivos e comentamos os outros, de modo generalizado. Escolhemos como parâmetros para a escolha dos entrevistados a quantidade de horas e a explicitação de itens ditos próximos deles. A metodologia utilizada para a pesquisa é a qualitativa, uma investigação empírica, cujos resultados e dados se concentrarão na amostragem de dois entrevistados, obtidos inicialmente pela aplicação de 60 (sessenta) questionários. Num primeiro momento, os dados dos questionários foram tabulados e, posteriormente, apenas duas entrevistas foram analisadas. A seguir, foi feito o cruzamento das duas fontes. Ressaltamos que o objetivo da pesquisa não é quantitativo, mas sim qualitativo. Precisamos de um universo de coleta dessa proporção para termos uma margem de segurança. Com base nas hipóteses, queremos observar como poucos se debruçam sobre o processo já comentado, por isso analisamos apenas duas entrevistas. Segundo Jacks (2005: 69), a forma pela qual se chega à realidade empírica é, sobretudo, qualitativa. A pesquisa tem uma proposta transdisciplinar, uma vez que ela tem como objeto o comportamento de adolescentes, com um recorte em seus discursos, assim não teríamos possibilidade de chegar a esse objeto, senão por investigações de várias disciplinas, como a Psicologia, as Ciências Sociais, a Educação, a Comunicação, o Direito e a Lingüística. Recorremos a todas elas, a fim de ver esse objeto, multifacetado, sob uma diversidade de óticas, para dar conta de suas transversalidades e confluências como também das intersecções e problematizações que envolvem esse objeto. No entanto, sabemos que a busca pela transdisciplinaridade é algo utópico, como bem lembra Domingues (2005: 26-27): Não tendo um exemplo histórico em que se apoiar, o trans deverá ser construído no futuro, tomando como inspiração a Escola de Sagres, o projeto Apolo e certas experiências recentes nos campos disciplinares, como a inteligência artificial, as neurociências, a bioinformática e tantas outras.

15 Desse modo, são tímidas as insinuações trasdisciplinares que podemos obter, mas tentamos ao máximo, e com os devidos cuidados, não nos contarminar pelas ilusões nem tampouco pelas esperanças demasiadas em obter um resultado verdadeiramente transdisciplinar, sabemos do grau de abertura e dos contornos frágeis desse intento. Inicialmente, o primeiro capítulo apresenta um recorte englobando o conceito de adolescente na cena contemporânea, mostrando como acontecem as relações estabelecidas com a família, colegas, escola, consigo próprio e com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), enfocando principalmente o papel da cultura como mediadora desse processo. Acreditamos que existem adolescentes e adolescentes, ou seja: este momento tão importante do processo evolutivo humano, assim como a maturidade e a terceira idade, é caracterizado por uma série de mudanças corporais e psicológicas e tem como antecedente a puberdade, momento preparatório em que o corpo se transforma do ponto de vista hormonal para a chegada da fase adolescente. Falar de adolescentes implica também conectar com outros discursos adjacentes, a saber: a noção de família, sexualidade, corpo, identidade, cultura, tempo, relações sociais, novas tecnologias, educação. Para que a noção de adolescentes seja ampla e contemple uma imagem contemporânea, escolhemos um recorte que analisa adolescentes que vivem em cidades grandes. Viver nesses centros urbanos produz diferenças assim também como essa urbanidade co-participa da mediação cultural junto com os meios tecnológicos e outros contornos inseridos no processo de globalização, como a questão do consumo. Ainda nesse primeiro momento, focaremos o comportamento adolescente e as tecnologias, acentuadamente a presença da televisão no cotidiano dos jovens adolescentes e da mediação entre eles. Mostraremos como a visão de construção de identidade é vista sob pressupostos da Psicologia. Realçamos que nessa relação está presente uma forma de produção de subjetividade. Paralelamente, esses novos modos criam também diferentes e outs, quer dizer: há excluídos ou desconectados, principalmente aqui na América Latina (faremos comentários com esse enfoque mais no segundo capítulo) e nos demais países emergentes. A globalização da informação produz rapidez e velocidade nas informações, portanto acompanhar esse ritmo torna-se difícil, porém quase uma obrigação, caso contrário estaremos desconectados da cena contemporânea. Esses aparatos tecnológicos participam profundamente da formação cultural das nações e reformatam comportamentos, valores e identidades. Reforçam o poder da globalização sobre as fronteiras tênues de espaços até então nacionais. Os locais distantes e pobres tanto quanto os ricos podem se encontrar na virtualidade, a qualquer momento.

16 Voltamos a outro ponto importante na análise dos jovens adolescentes: questão urbana. Habitar espaços em cidades grandes, com problemas ambientais (poluição sonora, visual) e sociais (miséria, violência, desemprego...) e freqüentar espaços públicos e impessoais, seja de lazer ou de entretenimento, configuram uma diferença entre os que têm um ou outro modo de vida. Os interesses coletivos e individuais disputam a todo instante um lugar na selva de pedra, como são chamadas as grandes cidades. Além disso, hoje encontramos uma variedade de espaços tecnologizados, como lanhouses e lojas de videogames, dentre outras. Assim nos adverte Ribeiro (2006:123): Compreendemos que o intento de uma cartografia da contemporaneidade torna-se não só importante, mas urgente, desde que os próprios princípios da cartografia sejam revisitados para, daí, se remodelarem. O segundo capítulo aborda os Estudos Culturais, Cultura, Televisão e Recepção e a importância de analisar esses elementos de forma a problematizá-los. Enfocaremos também os conceitos de cultura e de hibridação cultural, elaborados por Canclini, e a teoria da interculturalidade, assim como também as tecnologias. Mais acentuadamente, a televisão será analisada sob o prisma da sua relação enquanto co-construtora de identidade nos adolescentes, com base nos Estudos Culturais, além de também focarmos a linguagem e um pouco da história da televisão. Trouxemos a teoria da recepção e contamos sobre as principais correntes da América Latina. Pontuamos uma _ a dos usos sociais, de Martin-Barbero. Mais especificamente, trataremos de problematizar alguns pontos importantes sobre a América Latina e o Brasil, partindo de premissas como a colonização, as formações culturais mestiças, a auto-estima latina, o nacionalismo, o transnacional, o capitalismo em seus desdobramentos, a cidadania e o consumo. As metáforas que representam a narrativa da cultura ao longo dos anos têm seus contornos sinuosos, mesmo porque são uma tarefa complicada. Ainda que tomemos como ponto de partida o nosso centro, a pátria e o continente, ainda assim reorganizar essa colcha de retalhos é um longo caminho, em que encontramos discursos os mais variados, linguagens múltiplas e vestimentas coloridas. O terceiro capítulo versa um pouco sobre as identidades subjetivas, em que pese a questão do corpo, a sexualidade, o psiquismo e a cultura. Depois, mas sempre com regressões de discurso, apresenta um olhar sobre a história cultural brasileira, a partir do viés da história da cidadania, análise que requer uma viagem ao tempo passado, em que no mínimo temos de reescrever o discurso produzido a partir da diáspora do colonizador e seu assentamento e partida. Para tanto, recorremos a Hall e a Bhabha.

17 Trazemos conceitos, discussões e recortes para o discurso sobre identidade, pontuando sua interconexão com a cultura, a globalização, as migrações, a diáspora, o ponto de partida pós-colonial e, sobretudo, a postura em que entrecruzamos televisão e identidade. Escolhemos a leitura que tenta pôr em círculo as análises das culturas juvenis urbanas (mais os adolescentes) e seu comportamento diante do veículo televisivo, não sob aspectos de conteúdo apenas, mas quanto à forma como digerem os programas preferidos, investigados sutilmente, com o uso de questionário e entrevista, feitos em tempo espaçado, tendo a Análise do Discurso como suporte também. Falemos um pouco dessa corrente de investigação da Lingüística. Essa corrente tem duas vertentes, a americana e a francesa. Optamos pela segunda e seremos breves: a análise do discurso francesa tem duas âncoras: a ideologia (influências de Althusser) e o discurso (as idéias de Foucault). A análise do discurso, sobretudo, pontuará as cps (as condições de produção do discurso) e também os embates sociais e históricos em que esse discurso se insere (momento histórico), o espaço próprio de cada discurso no interior de um interdiscurso (a interdiscursividade) e também o quadro das instituições em que esse discurso é produzido, pois delimitam bastante a enunciação. Nessa corrente, a interação social é fundamental na construção do discurso, portanto o outro é parte constitutiva das produções de sentido do discurso. Segundo Brandão (s/d): a linguagem enquanto discurso é interação, e um modo de produção social; ela não é neutra, inocente (na medida em que está engajada numa intencionalidade) e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia. Também no terceiro capítulo, as análises com base nas respostas dos questionários mostrarão mais os comportamentos dos adolescentes e sua relação com a televisão. Em seguida, as análises comparativas entre os questionários e as entrevistas estarão presentes e responderão às indagações feitas no projeto inicial (as hipóteses) que intenta apurar e problematizar os processos de construções de identidade surgidos da relação entre adolescentes e meio televisivo, tendo como algumas variantes: linguagem, costumes, vestuário, gostos e o tempo de ver tv.

18 CAPÍTULO I ADOLESCENTES E MEIO TELEVISIVO 1.1 Uma breve visão sobre adolescência Os conceitos de infância e adolescência são recentes e somente no final do século XIX ganharam importância, como conseqüência da Revolução Industrial e do avanço do capitalismo, que, com altas jornadas de trabalho infanto-juvenil, despertaram na Medicina da época um alerta sobre a necessidade de diminuição dessa jornada (principalmente na Inglaterra) bem como a inserção de ensino escolar obrigatório, o que marcou a fase adolescente como diferente das demais e com tímida visibilidade. Segundo Coll et alii (1999:10): Da forma como os conhecemos na atualidade, crianças e adolescentes são inventos sócio-culturais relativamente recentes. Durante séculos, as crianças eram consideradas como adultos menores, mais frágeis, menos inteligentes. Na Idade Média, a partir dos sete anos, as crianças tornavam-se aprendizes sob a tutela de um adulto, passando a ter responsabilidades que se tornavam progressivamente mais próximas às do adulto. No Ocidente, as definições de infância e adolescência têm notoriedade maior no século XX, momento marcado pelos avanços de novas ciências, pela consolidação de leis trabalhistas, pelo ensino escolar obrigatório e pela diminuição de mortalidade infantil, dentre outros motivos. Portanto podemos dizer que a adolescência faz parte de um processo evolutivo humano, assim como a velhice, e que é um produto essencialmente contemporâneo e variante, sendo delimitado pelos constructos sócio-culturais de um determinado grupo, tendo flutuações que compõem e também oscilam, como: fatores econômicos, emocionais, de gênero, geográficos etc. Mas, para falarmos de adolescência, necessariamente temos de falar também da etapa que a antecede e que, de certo modo, prepara, desencadeia a chegada da adolescência: a puberdade, momento marcado por uma efusão de mudanças físicas no corpo e com evidentes conseqüências psicológicas. Diferentemente, a adolescência é um processo tipicamente psicossocial em que será necessário elencarmos um número grande dos acontecimentos que irão permear esta etapa e que também têm diferentes posicionamentos, variando entre alguns autores. Mas ratificamos

19 que a questão central da adolescência, no nosso entender, é a inserção cultural do adolescente, que varia muito, no entanto a puberdade ocorre de modo igual em todos os povos. Para muitos adolescentes, esse momento de mudanças corporais rápidas e que o impulsiona para uma nova fase, torna-se cheio de conflitos, não sendo, para outros, assim tão complicado, porém, de modo geral, é uma etapa naturalmente repleta de turbulências, com suas características próprias. E todas as mudanças que ocorrem nessa fase são preparações para o início da sexualidade adulta, em que todo ser humano estréia de forma singular, única e de modo subjetivo. Nas palavras de Calderone, citado por Gonçalves e Godoi (2003:61): A sexualidade humana é um fato cultural que põe em jogo questões amplas e fundamentais como a relação entre indivíduos. Podemos considerar que sexualidade abrange quem somos, os caminhos que seguimos até chegarmos a ser homens e mulheres, como nos sentimos nesses papéis e representações e como vivemos essas questões em uma relação. Com base nessa vastidão de possibilidades que suscita a sexualidade humana, nós nos deteremos na fase da adolescência e em suas demandas mais proeminentes, como: reprodução, mitos, tabus e prazer, namoro, ficar, amor X sexo, obesidade, anorexia e questões corporais. Os comportamentos sexuais variam de acordo com padrões sociais aceitos e partilhados por grupos culturais e seus membros; por exemplo, na cultura mulçumana, há inúmeras restrições para as mulheres diante do exercício de sua sexualidade, tendo os homens maior liberdade; entre povos indígenas, isso ocorre de modo consensual, são decisões grupais, em que a opinião pessoal tem uma importância menor. Segundo grande parte dos estudiosos sobre a sexualidade humana, o que pesa favoravelmente sobre todos é a história pessoal de cada um, de como foi vivida a infância, sua relação com os pais, colegas, se serena e sem problemas, assim a adolescência também se apresentará provavelmente calma. E isso se refletirá na vida social dos mesmos, principalmente na escola. No entanto é nessa fase, com o corpo infantil posto em luto e com a função procriadora instaurada, que os adolescentes muitas vezes põem em risco sua saúde, adquirindo doenças sexualmente transmissíveis e/ou tornando-se pais e mães sem o desejarem

20 por falta de conhecimento sobre o funcionamento de suas novas funções, misturando sexo e filhos não programados e muitas vezes indesejados e até rejeitados. Gravidez indesejada, doenças (DSTS, AIDS), desemprego, indefinição profissional e abandono escolar são alguns dos tantos problemas que acontecem com adolescentes e que poderiam ser evitados com mais informações (por parte de pais, escola) para que pudessem viver seu corpo e sua sexualidade de forma mais saudável e tranqüila. Embora haja diversos métodos anticoncepcionais disponíveis no mercado, ainda assim muitos jovens, por motivos os mais diferentes possíveis, defrontam-se com esse problema, além de também conviverem com novos paradigmas sociais, tendo no ficar 1 uma ausência de compromisso, portanto de responsabilidade, e novos valores sobre casamento, família. Um outro problema que acontece com os adolescentes, seja por conta das flutuações hormonais, ou de fatores genéticos, e com um corpo mais propenso a mutações, são as muitas queixas hipocondríacas registradas em consultório como sinais de escamotear as dores ocultas, conflitos psíquicos maiores, como angústias, tristezas. Assim, por trás de tantas reclamações, muitas vezes se encontram outros problemas, e é preciso estar atento a esses mecanismos de defesa, de auto-imunidade, pois eles podem revelar uma relação de extremismo e de doenças com o corpo: obesidade, anorexia nervosa e bulimia, sendo que estas últimas vêem sendo indexadas e corroboradas pela ditadura do mundo da moda, pela mídia e fazendo vítimas fatais, infelizmente. De outro modo, podemos também inferir que nessa relação de posturas radicais diante do corpo, há uma tentativa de dominar, de frear esse processo puberal de transformações, como se a realidade pudesse sucumbir ao desejo adolescente. Ainda com relação ao corpo, ocorre muitas vezes de o adolescente se apresentar com roupas mais exóticas, incomuns, sendo estas extensões de seu corpo, representações de seus gostos, suas leituras ideológicas de mundo, protestos, idolatrias (como times de futebol...) e também, algumas vezes, usam roupas chamadas de unissex, como modo de indiferenciação sexual, ainda aprisionado ao bissexualismo infantil. 1 Ficar é um termo que ilustra o comportamento dos jovens (principalmente os adolescentes) ao se relacionarem por pouco tempo, uma noite, por exemplo, e sem nenhum compromisso. É possível ouvir termos como pegação e peguete fixo para um ficar mais longo, segundo programas de televisão, como Malhação (TV Globo, 17h30).

21 O vestir também é revelador da necessidade do estar em parceria com seus iguais, de sentir-se pertencente a um determinado grupo, que lhe confira identidade, afinidades, como ser grunge, cluber, punk, patricinha 2 etc. As questões corporais e a sexualidade representam a relação de narcisismo dos adolescentes com o seu próprio corpo, com o mundo, sua idealização e busca de um estado de perfeição inalcançável, mas que também proporciona a oportunidade de busca de equilíbrio entre a realidade e as possibilidades concretas de modificá-la. Podemos dizer com tranqüilidade que é na adolescência que a identidade sexualcorporal é confirmada, passando pelos rituais e transformações que naturalmente se encontram nessa fase e também com as singularidades de cada um e, sobretudo, com a inserção sócio-cultural, que marca bastante o processo, em que o adolescente encontra caminhos a ser seguidos, desconstruídos ou outros. Muitos autores afirmam que nessa etapa da vida é que formamos a nossa identidade. Pensamos que nesse momento se inicia, porém não se consolida ainda, uma identidade definida, e por várias razões. Inicialmente, temos que compreender que a fase adolescente, embora se encontre em várias culturas num período pós-puberdade e se estenda até em torno dos 20 anos, ainda assim sabemos que as estatísticas negam tal parecer; principalmente na América Latina e também em outros lugares, em que a dependência econômica é um dos fatores de prolongamento da adolescência, junto com outros pontos, como desemprego, laços parentais expandidos, dentre outros. Sendo assim tão extensa e algumas vezes conturbada, a adolescência em si não representa o momento de iniciar e consolidar a identidade, justamente porque acreditamos que o processo de construção de identidade é algo em permanente movimento, não estático, sempre mutante e tendo no suporte sócio-cultural o seu ancoradouro, um termômetro, oscilante naturalmente. Assim, e por motivos que mostraremos adiante, a adolescência pode se prolongar mais em alguns indivíduos do que em outros, com formatos diferentes também, portanto é impossível afirmarmos que exista consolidação de identidade nessa etapa ou em qualquer outra fase da vida. A noção anti-essencialista é o que parece traduzir em parte uma imagem de construção identitária. Em se tratando de identidade, vejamos o que Erik Erikson (1987) nos fala. Para ele, nessa fase, há uma crise normativa, ou seja, realmente trata-se de um período naturalmente de 2 Grunge, cluber, punk, patricinha... são grupos juvenis que se vestem e se comportam de forma mais arrojada, exótica e geralmente querem chamar a atenção das pessoas por um motivo em especial ou não.

22 conflitos e ele sugere que o adulto conceda uma moratória ao adolescente. Ele também afirma que cada fase da vida tem uma identidade própria e a busca da identidade adulta é a principal tarefa do adolescente. Trazemos a contribuição de Erikson para compreendermos como o pensamento adolescente é singular e tão próprio dessa fase, com suas oscilações e características. Em relação às fantasias e intelectualizações, muito freqüentes nessa fase, parece que representam um luto quanto ao corpo e identidade infantis, cujas marcas psicológicas se encontram no ego que se ressente nesse processo; nas crises religiosas, podemos observar flutuações extremas entre ateísmo e fervor exagerado e que muitas vezes vemos ser usados em situações de fanatismo 3, e até desencadeando crises psicóticas (temporárias ou evolutivas). Um outro elemento que participa da construção de identidade nos adolescentes é a relação deles com o tempo, marcada por uma angústia em saber do futuro e, ao mesmo tempo, pelo medo, um temor também em aceitar a perda do passado, da infância e uma pressa quanto a tudo, como se o tempo pudesse ser manipulado por eles. Também com as atitudes reivindicatórias, ocorridas geralmente em grupo, atestam um vigor juvenil carregado de protestos e, imbuídos de crença na condução dos fatos com final feliz, eles experimentam um jogo de trocas e auto-afirmação importante, sentimento muito presente no imaginário dos jovens, o que revela também o romantismo e a fantasia, vistos nessa fase. Desse modo, podemos assistir ao início de grandes lideranças, de busca de autonomia e liberdade e de fortalecimento de traços de uma personalidade saudável ou não. Alguns se conduzem de modo negativo e até violento. Quando falamos de valores presentes na adolescência, se nos situarmos como país emergente, temos que considerar um fator de participação ativa e de difícil combate : o consumo. E nossas análises passam fundamentalmente pelo discurso veiculado pela mídia, que recria a realidade a partir da ótica de um consumo não apenas material, mas simbólico acima de tudo. O vestuário (um vestir-se exótico), a linguagem (gírias, neologismos), as festas, a dança, a música, o esporte e tudo o que possa exprimir criatividade representam valores importantes e de construção de símbolos culturais para os adolescentes e encontramse expressos nas mais variadas formas culturais, principalmente na Internet e na televisão, como veremos mais à frente. A formação da personalidade do adolescente acontece a partir do conjunto de mudanças iniciadas com a puberdade e parece ser consolidada ao final dessa etapa e passa 3 O extremismo ideológico-religioso por parte de alguns jovens, a exemplo de grupos muçulmanos ou indivíduos isoladamente que se matam em nome de Deus, do paraíso ilustra um fanatismo.

23 basicamente pela relação do adolescente com os pais, com a escola, com as tecnologias, com os colegas e consigo próprio. Somente nesse estar com o outro é que a personalidade em conjunto com o pensamento, valores e outras características dão contorno à construção de uma identidade. Ao mesmo tempo em que consigo próprio e com o outro, nessa relação, o adolescente assim constitui um processo inicial de formação de identidade. Para Debortoli (2003:37): A construção da identidade dos adolescentes é contraditoriamente uma identidade individual e uma identidade coletiva. O adolescente precisa do grupo, precisa do adulto, precisa de referências; mas ele precisa diferenciar-se, construir sua própria identidade. Tornar-se adolescente é viver cercado por profundos conflitos. Novos e diferentes ritmos, tempos, espaços, presença na sociedade e na cultura. Ainda que o adolescente encontre no espaço social o suporte para a construção de sua identidade, mesmo assim é no encontro consigo mesmo que se debruçam os maiores e mais densos conflitos, principalmente a independência, a autonomia, e a liberdade. Essa busca de si mesmo, de entender e saber quem é, como o outro o vê são recorrentes nos adolescentes. Mas somente o auto-espelho não é suficiente, essa troca só se efetiva quando se relaciona com o outro, assim a simbiose social e virtual das trocas funciona de modo fundamental na constituição da personalidade adolescente. E esses outros são: pais, professores, irmãos, colegas, a escola; pois nessas relações eles criam suas identificações, imaginam-se e projetam-se num futuro mais distante, dão asas à imaginação e nesse jogo permitem-se um ensaio sobre si mesmo. É inegável que não somente na adolescência a vida social funciona como um termômetro da saúde psíquica humana, mas nesse momento é vital a convivência em grupos, instalando as primeiras rupturas com o ambiente familiar e assim iniciando-se o processo de constituição de seus valores, desejos, pois, nas relações em que se encontram diferenças, torna-se mais perceptível às comparações e os adolescentes passam a ver outros mundos que não somente o seu, a sua casa e família, estabelecendo também outros vínculos afetivos e sociais. É também nesse vôo de saída sobre novos lugares e pessoas que muitas vezes alguns adolescentes, sem até ter intenção, descobrem a vocação profissional, num momento em que ampliam os horizontes, seja em novos contatos, seja através de leitura, viagens ou outros.

24 Em relação à inserção social, mais especificamente no mundo do trabalho, aqui no Brasil, desde 2000, com a Lei do Aprendiz e informações dadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego no artigo de Rebelo (2007), do Jornal A Tarde, os jovens ganharam a chance de ingressar mais cedo no mercado de trabalho, pois essa Lei obriga as empresas (exceto micro e pequenas empresas) a contratarem jovens na proporção de 5% a 15% do total de empregados do estabelecimento. Eles devem estar entre os 14 e os 24 anos, freqüentar escola ou instituição de aprendizagem diferenciada e, apesar de algumas diferenças com relação ao emprego tradicional, eles têm garantido os direitos trabalhistas e muitas vezes continuam na empresa, através de novo contrato trabalhista, já com mais vantagens. A participação da família e da escola é muito importante nesse momento de escolha da profissão, em que vários aspectos estão em cena, principalmente o desenvolvimento cognitivo. Podemos observar que algumas habilidades parecem aflorar de modo bem explícito, com destaque para as psicomotoras; daí que devem ser incentivados os esportes, as práticas de danças, a música. Enfim todas as modalidades artístico-culturais e corporais encontram-se em alta por conta da ebulição hormonal e por causa da própria efervescência emocional, tão marcante nessa fase, vivida com entusiasmo, alegrias, ideais, esperanças, romantismo que impulsionam os jovens para crescer não apenas por fora, mas estimulam um crescimento psíquico, de individuação 4, de busca e encontro de si mesmo. Para os psicólogos evolutivos, na adolescência, em termos do desenvolvimento cognitivo, encerra-se um período a que chamam de fase final, no sentido de nesse momento estar o ser humano pronto para compreender alguns conteúdos que antes ainda não o podiam fazer. No entanto a aquisição do pensamento formal/abstrato na adolescência depende de dois fatores importantes: conhecimento prévio e função social da escola (que deveria contribuir para esses conhecimentos); mas sabemos que esse olhar da Psicologia Evolutiva não procede e o desenvolvimento humano e a aprendizagem não caminham sempre juntos nem tampouco independe o primeiro do vínculo sócio-cultural. Desse modo, vale a pena comentarmos o que pensam sobre o assunto das Ciências Sociais César Coll et alii (1999:285): Definitivamente, se quisermos que os alunos compreendam a estrutura e a dinâmica dos fenômenos sociais, é preciso que lhes proporcionemos ambos os aspectos, habilidades inferenciais e marcos ou redes conceptuais. 4 O conceito de individuação aqui tomado tem base na Teoria de C. G. Jung, que postula esse princípio como busca de autonomia psíquica e que ocorre ao longo da vida.

25 É importante que separemos o que é função da escola do que ocorre em separado com alguns indivíduos e as habilidades de inferências, que, embora devessem ser prioridade dos objetivos escolares, também podem ser desenvolvidas fora do ambiente escolar. A família e a sociedade são co-responsáveis sempre pelo pleno desenvolvimento tanto dos adolescentes, como de todos os cidadãos. Essa é uma questão que na verdade envolve uma política cultural e educacional, disposta algumas vezes sobre outros interesses e, quanto aos marcos conceituais, muitas vezes figura apenas nos mapas pendurados nas paredes, em que não há proximidade entre os conteúdos e a realidade. Tentando fechar parcialmente esses comentários sobre a formação da identidade dos adolescentes, podemos dizer que eles se apropriam de diversos símbolos culturais (os meios de comunicação de massa) e de várias pessoas (familiares, professores, amigos e ídolos), esportes etc. para a construção iniciante de suas identidades, partindo de espaços menores e/ou virtuais para outros espaços concretos (ruptura espaço/tempo), saindo de si mesmos e indo ao encontro do outro (relações sociais). Nessa salada, esse misto que é a construção de identidade juvenil, assistimos a uma condensação de várias identidades, num estar ainda indiferenciado, e concordamos com Outeiral (2003:63), quando diz que: Na adolescência inicial, a identidade se estrutura como uma colcha de retalhos, na qual cada retalho é um pedaço de alguém, tornando difícil saber com quem estamos conversando no momento... Este é um processo lento e difícil, tanto para o adolescente como para os adultos que convivem com ele. Partindo dessa ótica, é claro que definir a construção de identidades como um conjunto de funcionamento igual que abrange um número grande de adolescentes é uma tarefa sem alcance, posto que esse processo acontece de forma individual, cada um o produz de maneira própria, singular e imprevisível. Tudo é possível, trata-se de olhar mais cuidadosamente e com conhecimento sobre o que é a adolescência. 1.2 As relações sociais a família, a escola, colegas e o ECA O conceito de família é algo que sofreu muitas mudanças ao longo da história da humanidade e nunca foi universal, variando em diversos grupos sociais. Do ponto de vista contemporâneo da antropologia, pode-se dizer que a família é uma unidade grupal com relações de aliança (casal), filiação (pais/filhos) e consangüinidade (irmãos), tendo o modelo

26 patriarcal como base, segundo o texto de Osório (1992), e que tem como objetivo principal a procriação e a transmissão de valores éticos, culturais, religiosos; mas o próprio autor nos adverte mais adiante sobre o caráter obsoleto dessa descrição. Porém as famílias contemporâneas (na maioria nucleares e burguesas) têm um variado formato e apresentam-se com muitos modelos. Vemos novas famílias como a de casais homossexuais e com adoção de crianças, ou ainda pai ou mãe e filhos, com apenas um membro como presença, seja por escolha (maternidade independente ou raramente paternidade), seja por divórcio, ou famílias mistas, em que os casais com filhos de antigos casamentos se unem com os novos filhos do novo casamento e enteados também. Há ainda o formato tradicional com pais e filhos, mas em circunstâncias de mais vulnerabilidade, uma vez que o divórcio permite o fim dos casamentos indesejados, e também a flexibilidade que circula nos novos modos de formação das sociedades contemporâneas, sejam emergentes ou não, com mais incertezas do que antes, com certeza. E também é de fundamental interesse na nossa análise observarmos o fato de a família contemporânea vivenciar mais os desafios da realidade, como gravidez indesejada em adolescentes, drogas, desemprego e outros problemas de modo mais tranqüilo, sem fantasiar as relações constituídas sob novos padrões e, acima de tudo, entendendo que o espaço de soberania e confiança, antes delegado para a família como mediadora entre o mundo e o adolescente, agora encontra um forte concorrente: o mundo da tecnologia. As informações e a formação de conceitos e valores advêm de meios virtuais e muitas vezes são comparados e confrontados com a opinião da família, precisando haver consenso, respeito e harmonia sobre as diferenças entre eles. Isso ocorre mais em relação à vida profissional, quando buscam na opinião dos pais conselhos e dicas quanto à futura atividade, informações do mercado de trabalho e alguns terminam por seguir a profissão dos pais. É bem verdade que em outros pontos, como o modo de vestir, falar e a companhia em festas, a opinião dos pais é completamente descartada, pois nisso se encontram bem à vontade para decidir e resolver suas questões. Nesse momento, faz-se necessário que retomemos novamente algumas considerações sobre como é hoje, na realidade do Brasil, a família. Com a ajuda histórica, podemos tentar retratá-la. Assim, se ontem as famílias se organizavam sob um modo patriarcal e a mulher era a procriadora apenas (até meados do século XX); na cena contemporânea, as mudanças foram radicais e as estatísticas mostram que, em nosso país emergente, o papel da mulher como a provedora econômica do lar tem crescido muito e mais nas camadas mais carentes, em que o

27 trabalho fora e dentro de casa e a responsabilidade com os filhos têm ocupado suas vidas e preocupado a sociedade. Com esse acúmulo de funções e sem a presença paterna (muitas vezes os pais não assumem nem social nem financeiramente os filhos), vemos que a família tem uma nova cara e que esse novo formato vem acompanhado de muitos problemas, como baixas condições higiênico-sanitárias, fome, doenças, miséria, desemprego, violência e, sobretudo, um esfacelamento de valores éticos e morais, em que os modelos parentais são aglutinados num único: a mãe. Também do ponto de vista psicológico, podemos dizer que a ausência masculina repercute muito sobre as crianças e que este não é o foco principal de análise, mas é uma questão importante. Pensamos que seja preciso ressaltar que não estamos falando de pais separados, mas de paternidade irresponsável, inexistente, em que as mães nunca apresentaram o pai ao filho, por abandono do mesmo em assumi-lo afetiva e financeiramente. Desse modo, sabemos que o problema vai além dos limites da casa e tem se tornado um problema social, uma vez que a quantidade de casos é muito grande, fazendo parte principalmente dos grandes centros urbanos brasileiros e com maior concentração nas periferias. Na falta de condições básicas e de uma infra-estrutura social, muitos dos jovens adolescentes terminam indo para as ruas para ajudar as mães, deixando de freqüentar a escola, de ter assistência médica, de ter lazer, enfim nas ruas estão vulneráveis a drogas, delinqüência, prostituição, enfim é uma questão de política social. Desse modo, compreender os adolescentes e sua relação com o mundo passa obrigatoriamente pela família, que vai mediar essa situação, pontuando os parâmetros e os valores às coisas e fatos, juntamente com as instituições sociais e, principalmente, a escola. A grande questão dos adolescentes e sua relação com a família parecem ser os novos modos (mais distantes de atitudes infantis) próximos dos adultos que eles tentam estabelecer. A presença não mais de um modelo patriarcal familiar, e sim nuclear ou matriarcal, em que o diálogo é uma marca forte dessa relação e em que fica fortalecida a oportunidade de crescimento de ambas as partes, também seria um caminho tranqüilo e saudável, mas que infelizmente nem sempre ocorre. A ausência de modelos adultos para os adolescentes (pois muitos pais prolongam demasiadamente a adolescência) parece ratificar comportamentos infantis, imaturos e, algumas vezes, irresponsáveis e ajuda a prorrogar essa fase por muito tempo nos filhos também. Mas muitos fatos e estatísticas nos indicam que esse postergar adolescente é mais comum debaixo da linha do equador (um estar bem latino-americano) e também em países

28 economicamente emergentes (em que os filhos ficam sob a tutela dos pais por longo tempo) e de uma cultura de superproteção, atrapalhando o pleno desenvolvimento dos adolescentes e dos pais também, e até com implicações legais, em que muitas vezes os pais assumem os problemas dos filhos. A escola é um outro espaço de socialização de muita importância e contribuição para os adolescentes, por vários motivos: o tempo de permanência na mesma, a presença dos colegas, o conhecimento e a formação que desenvolvem através de ideologias e premissas, o espaço físico, enfim a escola é um espaço-tempo de longo e importante alcance para os adolescentes e deve estar sintonizada com eles e com o mundo, mas nem sempre é assim. Dentro da escola, muito mais que se socializarem, os adolescentes encontram um espaço iniciante para o fortalecimento de sua personalidade ou não, criam vínculos, amizades, inauguram-se na prática de esportes, ficam, namoram, aprendem, discutem, discordam, criam, produzem. Enfim, num segundo espaço, que não é sua casa, eles vivem momentos importantes de suas vidas, em que as identificações surgem muitas vezes por professores, colegas, ou outros. A ampliação das relações sociais que ocorrem na escola é norteadora para a construção da identidade do adolescente, pois, nesse lugar de informação e formação de valores, ele recria conceitos e situações, simula e re-constrói a realidade, e a si próprio, dando vazão a todo vigor de energia, criatividade, imaginação e fantasia, que são bem pertinentes dessa fase; e na relação com seus iguais, os colegas, experimenta e saboreia ser ele próprio, já que parcialmente um tanto distante da família e sob olhares diferentes dos pais e irmãos. A escola é também local de lutas, de entraves, às vezes de se observar a agressividade, comportamento que talvez se insinue nesse período e que deve ser bem conduzido, canalizado para atividades no campo das artes ou para prática de esportes. Segundo Gonçalves & Godoi (2003:89): O processo educativo que nos garanta uma participação em grupo deve levar em conta as necessidades das pessoas, suas dúvidas, medos, histórias, inseguranças, sentimentos etc. Então, diante da agressividade dos adolescentes, precisamos estar atentos para ajudá-los a canalizar essa energia, tendo em vista a marcha/caminhada que eles têm até chegar à idade adulta. Diante de comportamento que ultrapasse uma agressividade saudável e causador de problemas, como violência, descontrole, desajuste social, delinqüência, assim há de haver preocupação e cuidados. De outro modo, há uma forma de se colocar diante da vida que exige

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