SER. V Seminário de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar 19 a 23 de outubro de Vinícius dos Santos

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1 SARTRE E A REALIDADE HUMANA ENQUANTO DESEJO-DE- SER Vinícius dos Santos Mestrado Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Bolsista CAPES I A noção de desejo-de-sedefinição do Ser-Para-si em termos de nadificação. Trata-se ali de apontar que a aparece em O ser e o nada 70 intimamente ligada à nadificação encontra-se imbricada na origem da transcendência, esta concebida como a ligação essencial das duas regiões do Ser encontradas no estudo do fenômeno, o Para-si ao Em-si 71. Com efeito, o Para-si só pode relacionar-se com o Em-si, ou seja, sustentar a nadificação, determinando-se a si mesmo como falta de ser 72, isto é, fazendo-se determinar em seu ser como um ser que ele não é 73. De fato, a nadificação só pode ser entendida se considerarmos a relação do Para- e não- si com seu próprio ser em termos de falta. Dizer do Para-si que ele é-o-que-não-é é-o-que-é, ou seja, afirmá-lseu próprio ser. Isso se verifica, para Sartre, com a existência do desejo. Sinônimo de como liberdade, é, no fundo, dizer que falta ao Para-si o falta, porém, o desejo, ao contrário da necessidade, não se define em termos de uma ausência objetiva. Pelo contrário, o próprio do desejo é sua insatisfação permanente. Desejar é existir a si mesmo como falta, é ser assombrado (hanté) em seu ser mais íntimo pelo ser que ele deseja 74. De acordo com Sartre, a falta ontológica que origina o desejo deve ser pensada a partir de uma estrutura ternária: o que falta (ou faltante), aquele para quem falta (o existente) e uma totalidade que foi desagregada pela falta e seria restaurada pela 70 Doravante: EN. 71 Cf. EN, Introdução. 72 EN, p EN, p EN, p PPG-Fil - UFSCar

2 síntese entre o faltante e o existente: o faltado (manqué) 75. Se o existente é a realidade humana, ou o Para-si enquanto fundamento de seu próprio nada, o que falta é aquilo que Sartre chama de si, ou a si mesmo como Em-si 76. Quer dizer, o desejo do Para-si é tornar-se Em-si, conservando ao mesmo tempo seu caráter de Para-si, isto é, Ser-Em-si- Para-si. O sentido da realidade humana reside, portanto, na busca do si-faltado ao modo da síntese ideal das regiões es do Ser ou valor 77. Dito de outra forma, o homem é o ser que tende a ser Deus (a outra denominação do Ser-Em-si-Para-si). Mas, radicalmente distintos, a síntese do Ser-Para-si e do Ser-Em-si é impossível e a consciência humana resume-se a uma consciência infeliz: o homem é uma paixão inútil 78. II A constatação dessa irremediável frustração, que é a fortuna do Para-si, nos sugere duas indagações, que tentaremos responder na seqüência: 1- se a síntese futura é impossível, se o Para-si nunca pode ser ao modo do Em-si, porque ele deveria permanecer engajado nesse projeto? 2- ademais, é possível falar em uma totalidade prévia a ser destotalizada, a, isto é, que estaria na base do desejo enquanto falta-de-ser, a partir de uma ontologia que cinde radicalmente o Reino do Ser? A primeira pergunta pode ser respondida assim: é apenas assombrado por essa síntese que a consciência pode ser consciência, ou seja, falta. Para Sartre, o único modo de existir da consciência é existir engajada nesse movimento que visa suprimir o desejo, assombrada por esse fantasma que é o Em-si-Para-si. Por isso, não há prioridade ontológica entre a consciência e esse ser: ambos surgem ao mesmo tempo, formando uma díade paradoxal, mas irreversível: é o ser que a consciência inevitavelmente tem de ser (enquanto falta-de-ser), mas que não pode sê-lo 79. Já a segunda questão remete à conclusão da obra, e nos encaminha para a última parte dessa apresentação. Assumindo a crítica bergsoniana à ideia de Nada 80, parece 75 EN, p EN, p Podemos agora determinar r com mais clareza o que é o ser do si: é o valor. (...). O valor é o si na medida em que ele assombra o íntimo do Para-si como aquilo para o qual o Para-si é. O valor supremo na direção do qual a consciência se ultrapassa a todo instante por seu próprio ser é o ser absoluto do si, com seus caracteres de identidade, de pureza, de permanência, etc., e enquanto ele é fundamento de si (EN, p ). 78 EN, p Cf. EN, p Cf. PRADO JR., 1989, pp PPG-Fil - UFSCar

3 despropositado perguntar r por que há ser ao invés do nada. O mesmo, porém, não se aplica à interrogação por que há o Para-si e não apenas o Em-si?. Nesse sentido, devemos primeiramente notar que a relação do Para-si com o Em-si não é recíproca. O fenômeno do Em-si é uma abstração sem a consciência, pois só há mundo, fenômeno, com a aparição do Para-si. Contudo, o ser desse Em-si independe do Para-si para existir. Temos aqui uma complicação. É que, definido como acontecimento absoluto, o surgimento do Para-si escapa à ontologia, e sua elucidação se desenvolve no intricado chão (ou céu?) da metafísica, um domínio até então aparentemente ausente de EN. Bento Prado Júnior assinala que a passagem da ontologia à metafísica, em Sartre, é passagem do apodítico ao hipotético 81. Numa palavra, se cabe à ontologia descrever as estruturas do Ser (o Em-si como aquilo que é e o Para-si como projeto de autofundação), compete à metafísica formular hipóteses capazes de unificar os dados da ontologia 82, isto é, que possam esclarecer o acontecimento absoluto que vem coroar a aventura individual que é a existência do ser 83. Nesse sentido, a ontologia limita-se a alegar que tudo se passa como se o Em-si, em um projeto para fundamentar-se a si mesmo, se concedesse a modificação do Para-si 84. A metafísica, por sua vez, pensando o surgimento da negação, declara: Mas precisamente porque nos colocamos do ponto o de vista desse ser ideal [o ens causa sui, Em-si-Para-si V.S.] para julgar o ser real que chamamos ólon [i.e., o mundo após o bouleversment provocado pelo surgimento do Para-si V.S.], nós devemos constatar que o real é um esforço malogrado para atingir a dignidade da causa-de-si. Tudo se passa como se o mundo, o homem e o homem-no-mundo não chegassem a realizar senão um Deus malogrado. Tudo se passa, portanto, como se o Em-si em estado de desintegração em relação a uma síntese ideal 85 e o Para-si se apresentassemem. Se considerarmos o emprego do termo desintegração na passagem acima, nos parece permitido pensar em uma totalidade anterior à cisão do Ser, ainda que em termos ideais. Todavia, podemos explorar um pouco mais o tema. Para isso, recorremos à qualificada 81 PRADO JR, 2006, p EN, p EN, p EN, p EN, p PPG-Fil - UFSCar

4 crítica de Renaud Barbaras as acerca da ontologia de EN 86, com o intuito ito de trazer novos elementos para nossa reflexão. III Para Barbaras, se por um lado, a intencionalidade em Sartre pode ser corretamente compreendida em termos de desejo, por outro, uma fenomenologia do desejo não poderia satisfazer-se com a ontologia de EN. É que esta fracassaria justamente em dar conta da realidade do faltado que o desejo reclama. Resumidamente, segundo Barbaras, o desejado (ou o faltado) deve caracterizar-se por um surcroît d être, ou seja, por uma superioridade ontológica 87 em relação aos demais membros da estrutura ternária do desejo, o que parece realmente impossível nos marcos de EN. A dura acusação de fracassoso repousa, com efeito, na constatação de que Sartre, sem conseguir desvencilhar-se e das amarras do dualismo Em-si e Para-si, situa a totalidade do lado do acontecimento [i.e., do Para-si V.S.] e não do lado do Ser, quando deveria situar a totalidade do lado do Ser [que nesse caso não poderia ser definido como Em-si V.S.] e a cisão do lado do acontecimento absoluto 88. É que para o autor de Vie et intentionnalité, o desejado não pode ser uma síntese impossível, mas uma totalidade afetada por uma cisão ou por uma negação 89. Desse modo, invertendondo a ontologia de Sartre, Barbaras sugere que a totalidade pertence ao Ser, enquanto a destotalização é um acontecimento. Numa palavra, a ausência própria ao desejado seria o efeito de uma cisão metafísica contingentente que é o sentido primeiro do Ser 90. Se, de fato, as observações de Barbaras parecem justas, também m é verdade que o próprio crítico pode nos auxiliar, valendo-se da letra sartriana, a encontrar um meio de superar o obstáculo por ele avistado. Barbaras lembra, nesse momento, que Sartre delimita (propositalmente, e, como tentaremos mostrar a seguir) o alcance da ontologia fenomenológica: apesar da assumida a adequação do problema, lemos em EN que a questão da totalidade não pertence ao setor da ontologia 91, pois, para esta, as únicas regiões que podem ser elucidadas são as do Em-si, do Para-si e da região ideal da causa 86 Sur l ontologie sartrienne. Désir et totalité. In: BARBARAS, 2003, pp BARBARAS, op. cit., p BARBARAS, op. cit., p BARBARAS, op. cit., p BARBARAS, op. cit., p EN, p PPG-Fil - UFSCar

5 de si 92. É verdade que Sartre afirma termos uma consciência exaustiva da totalidade, mas apenas para fazer entrever que, com ela, deixamos a apodicidade da ontologia em direção ao hipotético campo da metafísica. De acordo com Barbaras, essa perspectiva é a de um sujeito que está engajado no ser, inscrito na totalidade, e tenta explicitar as regiões do ser 93. Por isso, desse ponto de vista, as indicações que podem auxiliar a metafísica não têm um valor definitivo 94, e se formulam em termos hipotéticos (o famoso tudo se passa como se ). Isso explica que Sartre, logo após eliminar o problema da totalidade dos domínios de sua ontologia, acrescente o seguinte parágrafo, que pode abrir uma via para a resolução dos problemas indicados por Barbaras (o que, diga-se de passagem, é assumido pelo próprio): Cabe à metafísica decidir se será mais proveitoso o ao conhecimento (em particular à psicologia fenomenológica, à antropologia, a, etc.) tratar de um ser que denominaremos o fenômeno, e que seria provido de duas dimensões de ser, a dimensão Em-si e a dimensão Para-si (desse ponto de vista haveria apenas um fenômeno: o mundo), do mesmo modo como, na física einsteniana, considerou-sese vantajoso falar de um acontecimento concebido como dotado de dimensões espaciais e uma dimensão temporal e localizado em um espaçotempo determinado; ou se será preferível, a despeito de tudo, conservar a antiga dualidade consciência-ser 95. Para terminar, e não obstante essa possível saída para os obstáculos sugeridos por Barbaras, não há como o contestá-lo quando ele denuncia certo enigma das relações entre ontologia e metafísica em Sartre. Se não nos cabe decifrá-lo, podemos ao menos arriscar um motivo para a descontinuidade evidente entre ambas as disciplinas. Como dissemos acima, a ontologia fenomenológica pretende-se uma descrição apodítica da realidade humana, cujo ponto de partida necessário é a interioridade do cogito. Em outros termos, a filosofia tem como princípio o homem engajado na totalidade, o ser-no-mundo. A nosso ver, com a adoção desse ponto de partida, Sartre parece insinuar que toda teoria que se ocupe da totalidade (i.e., toda metafísica) irá esbarrar nesse engajamentonto e, consequentemente, numa finitude diante da qual o tema 92 EN, p BARBARAS, op. cit., p A constatação é de Barbaras. 95 EN, p PPG-Fil - UFSCar

6 não poderia ser tratado senão de maneira hipotética. Apenas um ser capaz de superar sua própria sina e realizar r o Em-si-Para-si poderia tratar o todo da mesma forma que a ontologia pode descrever r as regiões do Ser. Polêmicas à parte, o fato é que, se nossa impressão se confirma, podemos igualmente declarar que essa concepção de Sartre não é de forma alguma casual: al: afinal, além da fenomenologia, EN também se inscreve na perspectiva filosófica inaugurada por Kierkegaard, fato, aliás, ao qual Barbaras parece não dar a devida importância. Nesse caso, é preciso considerar algumas das característicass das chamadas filosofias da existência. Primeiramente, o desdobramento por dentro 96 dos problemas concernentes à existência ia humana, que privilegia a subjetividade e (individual) em oposição a um ponto de vista sistêmico e exterior do Todo. Se compartilham de uma união profunda do existencial e do ontológico, como lembra Jean Wahl, essas filosofias são ontologias faltadas (manquées) e que se sabem faltadas, as, que se pensam necessariamente faltadas, pois, com elas, não podemos atingir (atteindre) o ser 97. Some-se a isso o fato de que, sendo o homem um ser irremediavelmente finito, o existencialismo pensa que [esse] homem persegue um fim inacessível 9 A nosso ver, isso se harmoniza, em Sartre, justamente com uma nova démarche metafísica, contrária à da tradição: em linhas gerais, reabilita-se o metafísico, mas apenas na medida em que esse metafísico exprima a conexão viva com o mundo 99. Assim, não é de se estranhar a opção sartriana de definir o homem comoo paixão inútil ; tampouco a de tomar como ponto de partida de sua filosofia o existente engajado na totalidade, limitando a ontologia fenomenológica a descrever as relações do homem com o mundo circundante, e imputando à metafísica um caráter apenas regulador 100. Trata-se para Sartre, afinal, de privilegiar a experiência vivida, o homem concreto e ontologicamente livre, nisto conciliando Husserl (o método fenomenológico e uma consequente ontologia) e Kierkegaard (o eixo temático do existencialismo) Cf. MOUNIER, 1963, p WAHL, op. cit., p MOUNIER, 1963, p ARANTES, Paulo. Bento Prado Jr. e a filosofia uspiana da literatura dos anos 60. In: PRADO JR., 2000, pp [posfácio]. 100 Cf. PRADO JR., op. cit., p. 33: A metafísica aparece como regulação, na sua oposição à constituição ontológica. 101 Há três planos de análise que operam em EN: um existencial (das atitudes concretas), um ontológico (dos seres transfenomenais que sustentam o aparecimento do fenômeno) e um metafísico (funcionando como uma espécie de marco regulatório). O privilégio conferido aos dois primeiros planos dá-se PPG-Fil - UFSCar

7 Terminamos, porém, com as palavras de outro filósofo. É que muito antes de Kierkegaard, ou de Sartre, encontramos em Pascal aquilo que, transposto para o cenário existencialista, descreveríamos como a condição paradoxal e dramática do homem que deseja, em vão, um fundamento para sua existência, mote privilegiado da filosofia sartriana, cujo núcleo (o desejo-de-ser) buscamos expor: Ardemos no desejo de encontrar uma plataforma a firme e uma base última e permanente para sobre ela construir uma torre que se erga até o infinito; mas os alicerces desmoronam e a terra se abre até o abismo 102. BIBLIOGRAFIA 1. BARBARAS, Renaud. (2003). Vie et intentionnalité é recherches phénoménologiques. Paris : Librairie Philosophique J. Vrin. 2. CLAIR, André. (1997). Kierkegaard existence et éthique. Paris: Presses Universitaires de France. 3. COOREBYTER, Vincent de. (2005). Les paradoxes du désir dans L être et le néant. In : BARBARAS, Renaud (org.). Sartre. Désir et liberté. Paris : Presses Universitaires de France. 4. DESCARTES, René. (1973). Meditações. In: Col. Os Pensadores. 1ª edição. Trad. J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. Notas de Gérard Lebrun. São Paulo : Ed. Abril Cultural. 5. LEBRUN, Gérard. (1983). Blaise Pascal voltas, desvios, reviravoltas. In: Col. Encanto radical.. Trad. Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Editora Brasiliense. 6. MOUNIER, Emmanuel. (1963). Introdução aos existencialismos. Trad. João Bénard da Costa. São Paulo: Livraria Duas Cidades. 7. PASCAL, Blaise. (1999). Pensamentos. In : Col. Os Pensadores. Trad. Olívia Bauduh. São Paulo : Ed. Nova Cultural. 8. PRADO JR., Bento. (2000). Alguns ensaios filosofia, literatura, psicanálise. 2ª edição revista e ampliada. São Paulo: Editora Paz e Terra. principalmente por conta de duas das vertentes da herança sartriana: de um lado, a fenomenologia (que, na esteira de Heidegger, é primeiramente ontologia), e, do outro, a abordagem temática existencialista. 102 PASCAL, 1999, p. 47 (fr. 72 Desproporção do homem) PPG-Fil - UFSCar

8 9... (2006). O circuito da ipseidade e seu lugar em O ser e o nada. In: Revista a Dois Pontos: Sartre, v. 03, n (1989). Presença e campo transcendental al consciência e negatividade na filosofia de Bergson. São Paulo: EDUSP. 11. SARTRE, Jean-Paul. (1994). Consciência de si e conhecimento de si. In : A transcendência do ego. Trad. Pedro M. S. Alves. Lisboa : Edições Colibri (2007). L Être et le Néant essai d ontologie phénoménologique.. Édition corrigée avec index par Arlette Elkaïm-Sartre. Collection Tel. Paris: Gallimard. [(2003). O Ser e o Nada. 12ª edição. Trad. Paulo Perdigão. Petrópolis: Editora Vozes]. 13. WAHL, Jean. (1954). Les philosophies de l existence. Paris : Librarie Armand Colin PPG-Fil - UFSCar

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