UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS UFSCAR Departamento de Engenharia de Produção - DEP Curso de Especialização em Gestão Pública

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS UFSCAR Departamento de Engenharia de Produção - DEP Curso de Especialização em Gestão Pública Saúde do Trabalhador: Os motivos de afastamentos por saúde dos servidores da Universidade Federal de São Carlos Antonio Donizetti da Silva São Carlos - SP 2011

2 Saúde do Trabalhador: Os motivos de afastamentos por saúde dos servidores da Universidade Federal de São Carlos Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Gestão Pública, pela Universidade Federal de São Carlos UFSCar, sob orientação da Profa. Dra. Roseli Esquerdo Lopes. São Carlos - SP 2011

3 Ficha catalográfica Silva, Antonio Donizetti da. Saúde do trabalhador : os motivos de afastamentos por saúde dos servidores da Universidade Federal de São Carlos / Antonio Donizetti da Silva. -- São Carlos : UFSCar, p. Monografia - Programa de Pós-Graduação Latu Sensu em Especialização em Gestão Pública -- Universidade Federal de São Carlos, Saúde Ocupacional. 2. Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (SIASS). 3. Afastamentos de saúde. I. Título.

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5 Agradeço a todos os meus filhos por esta realização. Mattheus, Luíza, Leon e Ana Júlia que, juntos no espaço, mas não no tempo, não permitiram que eu ficasse ocupado com este trabalho e não os levassem para a escola, para o lanche, para o zoológico, para a universidade, à praia, ao jogo de bola, ao SESC e tantos outros lugares que me fizeram pensar em idéias para aqui apô-las

6 RESUMO Esta pesquisa tem como objetivo analisar os registros referentes aos afastamentos por saúde dos servidores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) no ano de 2009, tendo em vista as orientações presentes nos documentos publicados pelo Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (SIASS). Foi realizada uma pesquisa documental com dados fornecidos pelo Departamento de Assistência Médico e Odontológico (DeAMO) e Departamento de Desenvolvimento de Pessoal (DeDP) que trazem informações sobre os afastamentos dos servidores. Os dados organizados foram analisados de forma quali-quantitativa tendo sido quantificadas algumas características das ocorrências de afastamento, de acordo com o objetivo da pesquisa, e foram analisados com base em estudos sobre saúde/doença e trabalho bem como das novas políticas do Estado que tratam do tema, especificamente os documentos relativos ao SIASS. As análises revelaram três fatores representativos no conjunto dos dados: os afastamentos por licença gestante, para acompanhamento de familiares e por distúrbios mentais associados ao stress. Constatou-se que no caso das licenças para acompanhamento de familiares, essa tarefa é relegada às mulheres, tanto na categoria docente como na de servidores técnico-administrativos. Ao analisar esses dados, os estudos de Helena Hirata ajudam a compreender como tem sido a inserção profissional das mulheres, considerando o trabalho realizado em casa e o papel de cuidadora atribuído à mulher, inclusive no caso da UFSCar. PALAVRAS-CHAVE: Saúde Ocupacional, Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor (SIASS), Afastamentos de saúde

7 ABSTRACT This research aims to analyze the records relating to medical leave of employers at Federal University of São Carlos in the year 2009, based in the orientations registered on the official documents published on the Integrated Data Base of Worker s Health Attention-IDBWHA. It was developed a documental research with the data published by the Medical and Odontologic Assistance Department and the Personal Development Department which brought information s about the employers leave of absence by medical leaves. The data were organized and analyzed by quantitative and qualitative approach and also were quantified some characteristics of occurrence of leave of absence by health, concerned with the aim of the research and were analyzed with the studies about health/illness, work, and the actual State policies which are related with this issue, specially, with the documents related with the IDBWHA. After the specific data coleta, tree factors were representative in the analyze: the leave of absence by health for pregnancy, for relative s care giving and for mental health disturbs related with stress. Were identified that in cases of relative s care giving, this task were designed for women like lectures and technical workers from the university. The data analyzes were based in the studies of Helena Hirata (2002) which contributed to understand how have been the professional insertion of woman s at work, considering the work performed at home and the role of caregiver attributed to the women. Keywords: occupational health, medical leave.

8 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ASO CAT CID CIPA DeAMO DeAP DeSMeT EPC EPI GF NCOP ProGeP SeSST SIAPE SIASS SIPEC SRH TA s UFSCar Atestado de Saúde Ocupacional Comunicação de Acidente de Trabalho Código Internacional de Doenças Comissão Interna de Prevenção de Acidentes no Trabalho Departamento de Assistência Médico-odontológico Departamento de Administração de Pessoal Departamento de Segurança e Medicina no Trabalho Equipamentos de Proteção Coletiva Equipamentos de Proteção Individual Governo Federal Não Classificada em Outra Parte Pró-reitoria de Gestão de Pessoas Seção de Saúde e Segurança no Trabalho Sistema Integrado de Administração de Pessoal Subsistema Integrado e Atenção à Saúde do Servidor Sistema de Pessoal Civil da Administração Federal Secretaria Geral de Recursos Humanos Tecnico-administrativos Universidade Federal de São Carlos

9 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figuras Figura 1 Organograma UFSCar/SeSST Gráficos Gráfico 1 Afastamentos (por motivos) de TA s, de jan a dez 2009 (em dias) Gráfico 2 Afastamentos (por motivos) de docentes, de jan a dez 2009 (em dias) Gráfico 3 Afastamentos de TA s, por motivos de saúde, em Gráfico 4 Afastamentos de docentes, por motivos de saúde, em Gráfico 5 Afastamentos de TA s, por motivos de saúde, em 2009 Dados DeAMo Gráfico 6 Afastamentos de docentes, por motivos de saúde, em 2009 Dados Gráfico 7 DeAMo Afastamentos, por categoria, em 2009 Dados DeAMO Gráfico 8 Afastamentos, por motivos, janeiro de Gráfico 9 Afastamentos, por motivos, fevereiro de Gráfico 10 Afastamentos, por motivos, março de Gráfico 11 Afastamentos, por motivos, abril de Gráfico 12 Afastamentos, por motivos, maio de Gráfico 13 Afastamentos, por motivos, junho de Gráfico 14 Afastamentos, por motivos, julho de Gráfico 15 Afastamentos, por motivos, agosto de Gráfico 16 Afastamentos, por motivos, setembro de Gráfico 17 Afastamentos, por motivos, outubro de Gráfico 18 Afastamentos, por motivos, novembro de Gráfico 19 Afastamentos, por motivos, dezembro de Gráfico 20 Afastamentos, por sexo, em Gráfico 21 Afastamentos, para acompanhamento de familiares, em Gráfico 22 Afastamentos, por faixa etária, em Tabelas Tabela 1 Resumo de todos os motivos de afastamentos em Tabela 2 Afastamentos, por sexo, TA s e docentes, ano de Tabela 3 Afastamentos, por faixa etária, de TA s e docentes, ano de

10 SUMÁRIO 1 Introdução Contextualização Objetivos Procedimentos Metodológicos Referencial Teórico Breve histórico da relação trabalho e saúde A Atenção à Saúde no Serviço Público Federal A Atenção à Saúde na UFSCar Afastamentos de TA s e Docentes da UFSCar em Afastamentos de TA s e Docentes no período de janeiro a dezembro de Doenças ligadas aos afastamentos na UFSCar, em Características gerais (sexo e faixa etária) Considerações finais Referências... 56

11 1 Introdução 1.1 Contextualização O Governo Federal, preocupado com a forma como a assistência à saúde era oferecida ao conjunto dos servidores, em seus mais variados órgãos de trabalho, resolveu articular nacionalmente um programa de assistência à saúde dos servidores da administração pública, com o objetivo de uniformizar a oferta desse benefício a todos esses servidores, implantando o Subsistema Integrado e Atenção à Saúde do Servidor (SIASS), vinculado à Secretaria Geral de Recursos Humanos, do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, regulamentado pelo Decreto nº 6833 de 29 de abril de 2009 (BRASIL, 2009a). De acordo com o documento de criação do SIASS (2009), em 2003, o Governo Federal criou a Coordenação-Geral de Seguridade Social e Benefícios do Servidor da Secretaria de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Esta se configura como a principal iniciativa para eliminar as distorções existentes nas mais variadas modalidades de assistência. Busca-se, com isso, propiciar uma relação de trabalho mais justa e igualitária para seus servidores. A forma que o governo adotou para obter sucesso nessa empreitada foi abrir essa discussão com os vários órgãos da administração passando, inclusive, pelas entidades representativas dos servidores, tais como os seus sindicatos. Normatizar esses procedimentos foi apresentada como uma das principais - senão a principal meta do governo para oferecer essa assistência, como aponta o documento do SIASS (2009). Como parte dessa política de assistência à saúde do servidor, foi instituído o Decreto nº 6833, de 29 de abril de 2009, que regulamenta os exames periódicos para todos os servidores da administração pública federal direta, onde estão inseridas as universidades federais. A intenção dessa medida visava corrigir uma questão com a qual a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) tem se debatido: a utilização de um sistema de avaliação da saúde de seus servidores, técnico-administrativos e docentes, substituindo a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes no Trabalho (CIPAS) e o Departamento de Segurança e Medicina no Trabalho (DeSMeT). 10

12 Essas duas unidades foram extintas na UFSCar, no final da década de 90, por iniciativa de sua Administração Superior e pela omissão da entidade representativa dos funcionários (sindicato) que, em particular, no caso da CIPA, não deu mais a necessária importância para o prosseguimento das suas atividades. Na UFSCar, as entidades sindicais sempre foram bastante atuantes e, desde os tempos em que as lutas políticas se concentravam prioritariamente no enfrentamento com a Ditadura Militar, na busca por democracia e direitos civis, esses movimentos também travaram, com bastante êxito, a luta por melhores condições de vida e trabalho para seus representados o que, na prática, se refletiu nas diversas conquistas no campo econômico e da saúde. Comissões de averiguação das condições de segurança e órgãos de fiscalização, tais como o extinto DeSMET e a CIPA, foram criados e tiveram significativa atuação nesse campo. Procurando compreender como esta questão está inserida no contexto da UFSCar, foi realizado um levantamento das principais doenças que acometeram os servidores da instituição, no ano de 2009, com a intenção de construir um diagnóstico para a detecção, prevenção e elaboração de políticas focadas para o atendimento desses servidores, nesse âmbito. Estudando-se a estrutura organizacional da UFSCar, no Curso de Especialização em Gestão Pública 1, percebeu-se a necessidade de entender como nessa estrutura apresentam-se as unidades de atenção à saúde dos servidores e como elas poderiam desenvolver os trabalhos relativos ao acompanhamento pericial, as variadas modalidades de atendimento e, principalmente, os órgãos que devem dar conta de lidar com a segurança no trabalho desses servidores. 1 Curso oferecido aos servidores TA s da UFSCar, pela Pró reitoria de Gestão de Pessoas (ProGeP) em parceria com o Departamento de Engenharia de Produção em

13 A UFSCar, a exemplo das demais universidades federais brasileiras, não teve um acompanhamento no que se refere à saúde de seus trabalhadores. O Departamento de Assistência Médico-odontológica da UFSCar (DeAMO) não faz registro dos acidentes de trabalho, a chamada CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) há pelo menos 14 anos. Em alguns casos, ela é, e foi feita, mas não na forma como prevê a Seção de Saúde e Segurança no Trabalho da UFSCar (SeSST), sendo este o agente responsável pela sua realização. Na estrutura da UFSCar não existe uma CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho), e o Departamento de Segurança e Medicina do Trabalho foi extinto no ano de Com o advento da criação do SIASS, pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão do Governo Federal, estão previstos os procedimentos para que a administração federal celebre Termos de Cooperação Técnica para execução das ações e atividades de prevenção a doenças, acompanhamento da saúde dos servidores e realização de perícia médica oficial. Assim, faz-se necessário e urgente um diagnóstico da UFSCar que possa dar subsídios à implantação do Sistema, com vistas a atender a demanda de saúde e de segurança no trabalho de seus servidores. O presente estudo concentra-se na busca de aferir as maiores incidências de motivos de afastamentos dos servidores, justamente para facilitar a compreensão do atual quadro de adoecimento da UFSCar e os mecanismos que deverão ser adotados para uma eficaz Política de Atenção à Saúde. 1.2 Objetivos Este estudo teve como objetivo analisar os registros referentes aos afastamentos por saúde dos servidores da UFSCar no ano de 2009, tendo em vista as orientações presentes nos documentos publicados pelo SIASS. Procurou-se, com esta pesquisa, responder às seguintes questões: Quais foram as doenças que acometeram os servidores da Universidade Federal de São Carlos em 2009? Qual foi o índice de afastamento por doenças no período estudado? 12

14 O que o SIASS orienta frente às ocorrências referentes ao cuidado à saúde na UFSCar? Quais são os procedimentos adotados pela UFSCar frente aos registros referentes à saúde/doença dos servidores? 1.3 Procedimentos Metodológicos A partir da leitura de documentos da última gestão do governo federal sobre a saúde ocupacional dos servidores públicos e de autores que tratam sobre esse tema, apresentando um histórico crítico sobre a relação saúde e trabalho no Brasil, organizamos os procedimentos metodológicos desta pesquisa. Para a coleta de dados lançou-se mão da pesquisa documental. Esse tipo de pesquisa é utilizado para que se possa levantar dados e informações por meio de fontes produzidas pelo próprio pesquisador ou não. No caso deste estudo, os documentos se constituem de fichas arquivadas na Pró-reitoria de Gestão de Pessoas (ProGeP) 2 e no DeAMO, que trazem informações sobre o afastamento dos servidores, e de documentos publicados pelo SIASS. Os dados organizados foram analisados de forma quali-quantitativa. Foram quantificadas algumas características das ocorrências de afastamento, de acordo com o objetivo da pesquisa, e foram analisados através de estudos sobre saúde/doença e trabalho e das novas políticas do Estado que tratam do tema, especificamente os documentos relativos ao SIASS. Com base nesses resultados estabeleceram-se as categorias de análise. Como aponta Minayo (2004): é o próprio caráter do objeto de estudo que indica o caminho a ser seguido na pesquisa. Esse objeto que é sujeito se recusa peremptoriamente a se revelar apenas nos números ou a se igualar com sua própria aparência. Desta forma coloca ao estudioso o dilema de contentar-se com a problematização do produto humano objetivado ou ir a busca, também, dos significados da ação humana que constrói a história (p.36). 2 Antes denominada Secretaria Geral de Recursos Humanos. 13

15 Analisar os dados referentes aos prontuários dos servidores exigiu a observação de uma série de questões éticas e legais, dentre as quais o sigilo dos nomes das pessoas. Isso implicou em um significativo tempo de negociação com os setores da UFSCar, responsáveis por essas informações, onde, a saída encontrada, foi o fornecimento dos dados sem a identificação das pessoas. Com os dados em mãos, precisamos fazer uma compilação para buscar várias informações tais como idade, sexo, faixa etária, categoria e identificação dos acometimentos à saúde, já que, nos dados trabalhados as mesmas estavam codificadas pelo número do CID (Código Internacional de Doenças). Após o levantamento de todas essas informações, começamos a transformálas em gráficos e tabelas para melhor demonstrá-las. Isso demandou um tempo razoável já que a quantidade de informações a serem apresentadas era bastante alta. 14

16 2 Referencial Teórico 2.1 Breve histórico da relação Trabalho e Saúde Neste capítulo, apresenta-se um breve histórico relativo à saúde do trabalhador, como este tema foi ocupando diferentes espaços e adquirindo importância no mundo do trabalho. Minayo-Gomez e Thedin-Costa (1997) analisam a relação trabalho e saúde desde a antiguidade até os dias atuais, destacando que só recentemente o tema passou a ocupar o centro das discussões sobre relações de produção. A relação entre o trabalho e a saúde/doença - constatada desde a Antigüidade e exacerbada a partir da Revolução Industrial - nem sempre se constituiu em foco de atenção. Afinal, no trabalho escravo ou no regime servil, inexistia a preocupação em preservar a saúde dos que eram submetidos ao trabalho, interpretado como castigo ou estigma: o "tripalium", instrumento de tortura. O trabalhador, o escravo, o servo foram peças de engrenagens "naturais", pertences à terra, assemelhados a animais e ferramentas, sem história, sem progresso, sem perspectivas, sem esperança terrestre, até que, consumidos seus corpos, pudessem voar livres pelos ares ou pelos céus da metafísica (p.22). Mendes e Dias (1991, p.2) apresentam uma revisão relativa à medicina do trabalho, indicando que esta surge na Inglaterra, na primeira metade do século XIX, com a Revolução Industrial. Naquele momento, o consumo da força de trabalho, resultante da submissão dos trabalhadores a um processo acelerado e desumano de produção, exigiu uma intervenção, sob pena de tornar inviável a sobrevivência e reprodução do próprio processo. Segundos esses autores, em 1830 iniciou-se as primeiras contratações de Médico do Trabalho, dando origem, então, à figura desse profissional no seio da indústria para fazer o trabalho de acompanhamento das atividades dos operários e das conseqüentes seqüelas que esse trabalho desenvolvido provocava nos mesmos. Esse profissional deveria gozar da total confiança do empregador para a realização dessa investigação. Ainda, ficaria a cargo do médico do trabalho a prevenção dos riscos e a responsabilidade pelos possíveis danos à saúde dos trabalhadores. Esta situação estava carregada de subjetividade, pois o médico estava lá para cuidar dessa 15

17 questão, mas a busca da isenção de responsabilidades por parte do empregador era a tônica evidente (Mendes e Dias, 1991). Assim, podemos constatar que as questões que envolvem a relação trabalho e saúde sempre foram relegadas ao segundo plano na história, particularmente, após o advento da Revolução Industrial. Com o advento da Revolução Industrial, o trabalhador "livre" para vender sua força de trabalho tornou-se presa da máquina, de seus ritmos, dos ditames da produção que atendiam à necessidade de acumulação rápida de capital e de máximo aproveitamento dos equipamentos, antes de se tornarem obsoletos. As jornadas extenuantes, em ambientes extremamente desfavoráveis à saúde, às quais se submetiam também mulheres e crianças, eram freqüentemente incompatíveis com a vida. A aglomeração humana em espaços inadequados propiciava a acelerada proliferação de doenças infecto-contagiosas, ao mesmo tempo em que a periculosidade das máquinas era responsável por mutilações e mortes (MINAYO-GOMEZ e THENDIN-COSTA, 1997,p. 22). Para os autores, esse trabalhador, embora com uma característica de liberdade, pois saía do regime escravocrata, tornou-se refém desse mesmo mecanismo que passa a aprisioná-lo não só na máquina que opera, mas no tempo que tem que dispor para dar conta da produção dos bens necessários à sua sobrevivência, na forma de salário. Esses fatores, combinados com o ambiente de trabalho, em sua maioria, mal dimensionado, com elevadas temperaturas, ambientes insalubres, dentre outros problemas, faz com que os trabalhadores sejam acometidos por várias doenças infecto-contagiosas e, o que é mais grave, tornam-se vítimas de mutilações e mortes relacionadas ao mundo do trabalho. Ainda, conforme Minayo-Gomez e Thendin-Costa (1997), essas condições provocam a necessidade de intervenção de normas e legislações, tendo como seu ponto culminante a presença do médico no interior das unidades fabris. Essa situação, no entanto, apresenta uma contradição bastante interessante pois, ao mesmo tempo em que esse profissional estava ali para a detecção dos problemas de saúde que aqueles trabalhadores contraíam, era um representante direto do patrão buscando intervir para que o trabalhador retornasse o mais breve possível ou nem se afastasse de suas atividades à linha de produção, num momento em que a força de trabalho era fundamental à industrialização emergente. 16

18 Mendes e Dias (1991) apontam que, com o advento da 2ª. Grande Guerra Mundial e do período pós-guerra, os custos provocados pelas perdas abruptas de vidas, combinados com a necessidade imperiosa de arregimentação de mão de obra, começaram a ser sentidos pelos empregadores e pelas companhias de seguro que passaram a ter que despender, relativamente, muitos recursos para o pagamento de pesadas indenizações por acidentes provocados pelo trabalho. Outro ponto destacado pelos autores é que a tecnologia passa também a incidir diretamente no desenvolvimento de novos processos industriais, junto com o uso dos mais variados e inovadores produtos químicos, fazendo com que a Medicina do Trabalho enfrentasse uma de suas mais árduas tarefas: responder à altura pelo descontrole e pela prevenção do crescente número de acidentes que esse novo modelo apresentava. Os autores apontam, ainda, que, em 1959, as experiências relativas à saúde do trabalhador nos países industrializados deram sustentação à Recomendação 112, aprovado pela Conferência Internacional do Trabalho 3. Esse Instrumento Normativo, de abrangência internacional, passou a servir como referencial e paradigma para o estabelecimento de normas legais, tais como as atuais normas brasileiras. De acordo com a Recomendação 112: a expressão 'serviço de medicina do trabalho' designa um serviço organizado nos locais de trabalho ou em suas imediações, destinado a: assegurar a proteção dos trabalhadores contra todo o risco que prejudique a sua saúde e que possa resultar de seu trabalho ou das condições em que este se efetue; contribuir à adaptação física e mental dos trabalhadores, em particular pela adequação do trabalho e pela sua colocação em lugares de trabalho correspondentes às suas aptidões; contribuir para o estabelecimento e manutenção do nível mais elevado possível do bem-estar físico e mental dos trabalhadores (MENDES; DIAS, 1991, p. 3). Faz-se necessário registrar que os trabalhadores, através de suas organizações por local de trabalho e de suas entidades de classe, também se rebelavam com relação a essa ordem de coisas e forçaram o patronato a ter que despender uma maior atenção aos mecanismos de prevenção dos acidentes e 3 A Conferência Internacional do Trabalho funciona como uma assembléia geral da Organização Internacional do Trabalho. Para maiores informações, consulte o site: 17

19 investimentos em instrumentais de segurança no trabalho. Isso leva a medicina do trabalho a ter grande destaque entre as grandes empresas dos países industrializados. A figura do Médico do Trabalho, presente até hoje na organização da planta de trabalho das empresas, buscava, prioritariamente, detectar as causas das doenças e de acidentes de trabalho, como apontam Minayo-Gomez e Thedin-Costa (1997): Assim, a Medicina do Trabalho, centrada na figura do médico, orienta-se pela teoria da unicausalidade, ou seja, para cada doença, um agente etiológico. Transplantada para o âmbito do trabalho, vai refletir-se na propensão a isolar riscos específicos e, dessa forma, atuar sobre suas consequências, medicalizando em função de sintomas e sinais ou, quando muito, associando-os a uma doença legalmente reconhecida (p.23). Para esses autores, as doenças adquiridas no processo laboral são dificilmente detectadas e, quando o são, na imensa maioria das vezes, já estão em estágio adiantado, até porque, em sua fase inicial são muitos, ou totalmente semelhantes às patologias mais comuns. Então, os agentes nocivos à saúde são assimilados como naturais pelos objetos e meios de trabalho, desconsiderando-se os motivos que os originam. Acentuam-se, desse modo, os limites da Medicina do Trabalho uma vez que, sua intervenção restringe-se a fatores pontuais acerca dos riscos mais evidentes. Enfatiza-se a utilização de equipamentos de proteção individual, em detrimento dos que poderiam significar a proteção coletiva; normatizam-se normas de trabalhar consideradas seguras, o que, em determinadas circunstâncias, conforma apenas um quadro de prevenção simbólica. Assumida essa perspectiva, são imputados aos trabalhadores os ônus por acidentes e doenças, concebidos como decorrentes da ignorância e da negligência, caracterizando uma dupla penalização (MINAYO-GOMEZ; THEDIN-COSTA, 1997, p. 23). Com o desenvolvimento de estudos e da pressão das organizações trabalhistas, formas mais amplas de análise dos problemas relativos à saúde do trabalhador foram adotadas. Nesta perspectiva, a Saúde Ocupacional passa a lidar com as questões da saúde do trabalhador, tendo um enfoque mais abrangente, com base em diversos fatores relacionados ao ambiente de trabalho, incorporando a 18

20 teoria da multicausalidade, onde um conjunto de fatores de risco é considerado na produção. Segundo Mendes e Dias (1991), no Brasil, a adoção e o desenvolvimento da Saúde Ocupacional deram-se tardiamente: Na legislação, expressou-se na regulamentação do Capítulo V da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), reformada na década de 70, principalmente nas normas relativas à obrigatoriedade de equipes técnicas multidisciplinares nos locais de trabalho (atual Norma Regulamentadora nº 4 da Portaria 3214/78); na avaliação quantitativa de riscos ambientais e adoção de "limites de tolerância" (Normas Regulamentadoras 7 e 15), entre outras. Apesar das mudanças estabelecidas na legislação trabalhista, foram mantidas na legislação previdenciário-acidentária as características básicas de uma prática medicalizada, de cunho individual e voltado exclusivamente para os trabalhadores engajados no setor formal de trabalho (MENDES e DIAS, 1991, p. 4). O Modelo de Saúde Ocupacional, desenvolvido a partir da premissa de atender a uma necessidade da Produção, não obteve sucesso. Os autores apontam ainda os principais fatores relativos a essa questão: O modelo mantém o referencial da medicina do trabalho firmado no mecanicismo; não concretiza o apelo à interdisciplinaridade: as atividades apenas se justapõem de maneira desarticulada e são dificultadas pelas lutas corporativas; a capacitação de recursos humanos, a produção de conhecimento e de tecnologia de intervenção não acompanham o ritmo da transformação dos processos de trabalho; o modelo, apesar de enfocar a questão no coletivo de trabalhadores, continua a abordá-los como "objeto" das ações de saúde; a manutenção da saúde ocupacional no âmbito do trabalho, em detrimento do setor saúde (MENDES e DIAS, 1991, p. 4). As mudanças necessárias para melhorar as condições e os ambientes de trabalho são grandes e demoradas. Os movimentos sociais e dos trabalhadores contribuem muito para que as mudanças nas políticas sociais que envolvem saúde e segurança se concretizem. Com a participação ativa dos trabalhadores, as críticas aos programas de assistência tornam-se mais contundentes, questionando a prática da medicina do trabalho nas empresas com o objetivo de criar melhores condições de saúde. No Brasil, esta situação é agravada pela incapacidade do Estado em intervir no espaço do trabalho, indo ao encontro de interesses patronais. Minayo- 19

21 Gomez e Thedin-Costa (1997) apontam que a deficiência de formação de Recursos Humanos na área e a generalizada insatisfação profissional geram na rede pública de saúde dificuldades de avaliar e controlar as causas de doenças e acidentes. Os trabalhadores, muitas vezes, evitam apontar os sintomas de doenças com medo de perder o emprego, protelando o tratamento, levando para casa e seus espaços privados tais problemas. Esse tipo de atitude, segundo os mesmos autores, inibe reivindicações de ações mais incisivas aos responsáveis pela garantia da Saúde no Trabalho. As doenças profissionais têm como característica comum, segundo Mendes (1998), a não ocorrência na população geral, sendo gerada por uma condição de trabalho e/ou processos de produção. São doenças evitáveis em locais de trabalho que zelam pela integridade física e psíquica dos trabalhadores. O autor afirma, ainda, que, no Brasil, os registros indicam uma baixa incidência de doenças profissionais, mas, há evidências de falhas nos registros e nos diagnósticos. Atualmente, a Saúde do Trabalhador no Brasil compreende: Um corpo de práticas teóricas, interdisciplinares éticas, sociais, humanas e interinstitucionais, desenvolvidas por diversos atores situados em lugares sociais distintos e informados por uma perspectiva comum (...) configura-se um novo paradigma que, com a incorporação de alguns referenciais das Ciências Sociais particularmente do pensamento marxista amplia a visão da Medicina do Trabalho e da Saúde Ocupacional (MINAYO-GOMEZ e THEDIN-COSTA, 1997, p. 25). Os autores discutem a Saúde do Trabalhador, enquanto campo de conhecimento, como uma construção que combina interesses divergentes em um determinado momento histórico, estando presentes as contradições que marcam as relações entre capital e trabalho, buscando superar as concepções tecnicistas que marcaram essa área de conhecimento. Não se trata de apenas obter adicional de insalubridade ou periculosidade (monetarizar riscos), de instalar equipamentos de proteção, de diagnosticar nexos causais entre o trabalho e a saúde com vistas a obter benefícios da Previdência Social, embora tais procedimentos possam representar etapas de uma luta maior que é chegar às raízes causadoras dos agravos, à mudança tecnológica ou organizativa que preside os processos de trabalho instaurados (MINAYO-GOMEZ e THEDIN-COSTA, 1997, p.25). 20

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