A força-tarefa da paz Ministério Público lidera movimento pela redução da violência nas escolas

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1 Uma publicação da Escola Superior do Ministério Público de São Paulo ano 7 nº 44 outubro/novembro/dezembro de 2010 A força-tarefa da paz Ministério Público lidera movimento pela redução da violência nas escolas

2 editorial Plural Boletim informativo da Escola Superior do Ministério Público Diretora Eloisa de Sousa Arruda Assessores Eduardo Luiz Michelan Campana Everton Luiz Zanella Karina Keiko Kamei Tomás Busnardo Ramadan Jornalista responsável: Carina Rabelo (MTB: / SP) Direção de arte Guen Yokoyama Editora de arte Vanessa Merizzi Revisor de texto Sárvio Nogueira Holanda CTP, impressão e acabamento Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Tiragem 3 mil Periodicidade Trimestral Escola Superior do Ministério Público Rua 13 de Maio, 1259 Bela Vista São Paulo/SP Telefone: (11) Caro leitor, no trimestre setembro-dezembro de 2010, procuramos dar cumprimento ao compromisso de fazer Plural a nossa Escola Superior do Ministério Público. Transitamos entre temas sobre Filosofia do Direito, Medicina e Direito, Infância e Juventude, Meio Ambiente, Direitos Humanos, Habitação e Urbanismo, Educação, Direito do Consumidor, Criminalidade Organizada e Justiça Terapêutica. Foram eventos que proporcionaram inestimável difusão do conhecimento, produtivo compartilhamento de idéias e feliz congraçamento. Além disso, realizamos a cerimônia de batismo de nossa Biblioteca Hermínio Alberto Marques Porto, daquelas emoções que marcarão para sempre a memória da instituição. Na linha da merecidas homenagens àqueles que construíram a história do Ministério Público, comemoramos os 20 anos do Código do Consumidor, com a honrosa presença de muitos dos que participaram da elaboração desse importante diploma legislativo que mudou a história das relações do consumo no Brasil. Em épocas de novo ano, destaco o Cultura de paz nas escolas pelas muitas palestras e depoimentos edificantes que não apresentaram problemas, mas sim soluções. Saímos todos acreditando na força mobilizadora do trabalho em rede, da solidariedade e do amor ao próximo. Que seja este o mote de nossas ações em Encerradas as edições da Plural do ano de 2010, aproveito para cumprimentar e agradecer os integrantes do Conselho Curador do CEAF/ESMP, por todo o suporte que deram às nossas iniciativas. Agradeço também aos assessores do CEAF/ESMP, pela extrema dedicação e inabalável fidelidade com que exerceram suas funções. Formamos uma equipe coesa, companheira, sempre unida nos momentos difíceis e nas muitas alegrias e recompensas que tivemos. Agradeço ainda aos servidores do CEAF/ESMP que souberam compreender as mudanças que introduzimos e aderiram ao projeto com esforço e dedicação. Não posso deixar de agradecer ainda a todos os colegas de nosso Ministério Público que, neste ano de 2010, de algum modo contribuíram com a Escola, quer propondo e participando ativamente dos congressos, seminários, palestras, cursos e oficinas, quer nos prestigiando com sua presença nos eventos. Que fique registrado o meu reconhecimento a estes muitos e valiosos colegas, pelo trabalho que desenvolvem em prol da Justiça e da Cidadania e que aceitaram compartilhar seus conhecimentos e experiências com as platéias presentes. Um abraço a todos e votos de muita paz!

3 índice artigo entrevista capa matérias Luiz Roberto Alves Por uma Cultura de Paz nas Comunidades Escolares 4 Entrevista: Fernando Capez 7 A Força-Tarefa da Paz. Seminário Cultura de Paz nas Escolas 11 Gilmar Mendes e Eros Grau debatem a filosofia do Direito 14 Inauguração em grande estilo. Biblioteca Hermínio Marques Porto 16 Uma revolução na justiça brasileira. 20 Anos do Código de Defesa do Consumidor 18 seminários A Cidade em Risco. Planejamento Municipal e Áreas de Risco 20 Cirurgias Plásticas na Mira da Justiça. Segurança e Responsabilidade em Cirurgias Plásticas 24 Culpados ou Vítimas? Justiça Terapêutica 28 Freios e Contrapesos. Justiça e Administração Pública 32

4 palestras Direito de Viver e de Morrer. O Direito e a Medicina no Início e no Fim da Vida 33 Educação é prioridade no Plano Estratégico O Ministério Público e a Educação 35 Em busca do anonimato. Transexualidade e Direitos Humanos 37 O enfrentamento à adulteração de combustíveis 40 Os 20 Anos do Estatuto da Criança e do Adolescente 41 painel congresso livros notas O lucro do bem-estar social. Capitalismo Humanista 44 Os promotores do verde. 14º Congresso de Meio Ambiente e 8º Congresso de Habitação e Urbanismo do MPSP Eventos no interior de SP outubro, novembro e dezembro de

5 artigo Por uma Cultura de Paz nas Comunidades Escolares Luiz Roberto Alves O que garantiu a presença e o trabalho da Cátedra de Gestão de Cidades da Metodista neste coletivo cidadão, nesta força tarefa da paz, foi a convergência de sentidos entre a cultura de paz e a cultura de cidadania, que é linha de pesquisa da própria Cátedra. A diretriz acadêmica da Universidade, que pressupõe e sugere a inserção dos educadores no espaço da cidade e o esforço construtivo de inclusões sociais, encontrou no grupo estimulado pela Dra. Vera Acayaba um lugar fecundo para a construção de fundamentos e metodologia para a cultura de paz nas comunidades escolares de São Bernardo do Campo e a partir daí estender-se para muitas outras cidades. 4

6 Luiz Roberto Alves Cátedra Celso Daniel de Gestão de Cidades Faculdade de Administração e Economia Universidade Metodista de São Paulo Acostumados a refletir e levantar dados sobre a condição dos vulneráveis e empobrecidos adolescentes e crianças, a acompanhar os processos de aprendizagem das populações para as tomadas de decisão orçamentárias sobre políticas públicas nos municípios, a questionar a qualidade das gestões das coisas públicas, a discutir a força da cultura como transversalidade das políticas sociais, pesquisadores e pesquisadoras da Universidade vêem na cultura da paz escolar a metáfora do seu trabalho intelectual, isto é, a construção pedagógica da paz poderá ser a melhor lição no exercício da sociedade justa. Essa pedagogia será metáfora porque o microcosmo cultural denominado escola intercambiará valores na sociedade ampla e esta abrirá seus olhos para o direito pleno de serem as novas gerações alegres e felizes. A nossa escola popular, lugar onde podem estar e precisam estar as grandes maiorias dos filhos e filhas dos trabalhadores, reconstruirá a aura imaginada e proposta pelos educadores da Escola Nova, no início dos anos 30 do século passado e buscada insistentemente pelos setores mais conscientes da sociedade, quer sob a humilhação da ditadura, quer sob o entusiasmo ainda burocrático contemporâneo. Essa aura é a consecução do direito, cujo melhor nome passa a ser paz. Provavelmente aí se entenda melhor a imagem repetida por Paulo Freire: a educação não faz tudo na sociedade, mas não poderá haver uma sociedade realmente humana sem educação. A Cátedra de Gestão de Cidades fica feliz, pois, com a sua representação nesse trabalho, que hoje apresenta alguns de seus frutos e organiza forças para as próximas etapas. O livro Nova Aquarela, cujos organizadores e autores se comprometem nessa cultura de desafios, espera ser mais que obra literária para ser veículo expressivo de compromissos. Os fundamentos e a metodologia trabalhados nos textos do Nova Aquarela sugerem que tenhamos a maior clareza quanto aos sentidos dos signos com que nos comprometemos: cultura e paz. De fato, cultura da paz. Quando este articulista 5

7 tinha 20 anos acorria, não poucas vezes, para ouvir dois homens que naquele tempo simbolizavam para mim o direito e a justiça, Mário Carvalho de Jesus e Alceu Amoroso Lima. O que ficou deles no aprendiz não foi pouco (Drummond de Andrade garante que sempre fica algo dos outros em nós), pois aprendeu que a paz é fruto da justiça. Portanto, a paz não será instrumento factual do discurso retórico, mas sim o coroamento de um processo, provavelmente trabalhoso, mas fecundo, de ação humana, de ação simbólica, portanto cultural. Dado que a escola é o lugar em que a cultura se formaliza e se organiza em saberes codificados pelos currículos, programas e projetos pedagógicos, todas as ações educativas ocorridas nela e em seu entorno serão partes da metáfora da paz. O currículo de estudos e projetos não será mais a imposição do saber catalogado, mas uma base de saberes que se integram na paz. E assim ocorrerá com a biblioteca, o planejamento, a festa, a segurança, a quadra, a excursão, o prédio e a relação comunitária. Nada será estranho à paz, ou extra- -paz, como costuma ocorrer no pensamento fragmentador e compartimentado. Criar cultura escolar passa a significar criar a paz. Para os seres em formação, a cultura da paz pode vir a conter todo o significado da paz segundo a nossa herança cristã, hebraica e islâmica: o chalom/çalam nunca significou a mera ausência da guerra e das armas; ao contrário, essa idéia de paz tem o sentido de integralização, de caminhada para a plenitude da pessoa em sua relação com os outros. A paz é um valor de relação, individual e coletivo, crescente, envolvente, que convém ir e deve ir no rumo da totalidade da vida. Talvez esse valor e essa direção não fossem exigidos se não fôssemos seres simbólicos (e as crianças fazem transparecer plenamente seus gestos simbólicos); por isso, em nossos intercâmbios de fala, escrita e gestualidade dão-se confrontos, desafios e até intrigas. Mas, outra vez porque somos simbólicos e expressivos, faremos dessa cultura simbólica um valor de paz no contexto das diferenças e não das inimizades. Aliás, as sementes da paz (infelizmente distorcidas pelos mitos de interesse individual e corporativo, de lucro e exploração) se encontram no próprio mundo infantil e juvenil: na conversa descontraída, no desafio ao novo, na linguagem em mutação, na grandeza dos desejos. Uma cultura de paz terá aí, na natureza dessa idade despojada e corajosa, sua boa disputa simbólica, que pode resultar em cidadania ativa e garantia de bem-comum. Quando éramos pequenos (talvez isso ainda ocorra...) dizíamos depois de uma briguinha: vamos fazer as pazes? O signo lingüístico paz posto no plural acompanha a dimensão da pessoa. Se há duas pessoas, há duas pazes. Todos temos uma paz (como temos uma animação espiritual) e quando celebramos a harmonia a alma pacífica intrínseca acompanha as pessoas e especialmente as crianças - em intercâmbio: são as pazes, a pazinhas que se juntam para uma paz maior. Reside aí outra fonte para o trabalho cultural da paz. Enfim, visto que na caminhada pela cultura de paz nas escolas laboraremos em um processo simbólico-cultural, em que o microcosmo-escola se liga ao macrocosmo da sociedade e a relação não pode produzir alienações, nosso trabalho coletivo não será uma campanha, nem uma onda, nem uma experiência no sentido da exclusiva funcionalidade. Será uma ação educativo-cultural contínua, ao modo de pintura com a nova aquarela da palavra, do gesto, do canto, do atendimento, da dança, do estudo e da festa da escola, capaz de, como não se conheceu antes na escola brasileira e popular, fazer as pazes ao modo da juventude e dar sinais claros de uma cultura da integralidade da vida, um nome justo para a paz. 6

8 entrevista Fernando Capez Eu ainda me sinto um Promotor de Justiça Nas eleições realizadas em 2010, Fernando Capez foi reeleito Deputado Estadual, destacando-se como um dos três candidatos mais populares em São Paulo, com votos. Defensor incansável dos direitos do consumidor, ele relembra com saudades dos tempos em que atuou como promotor de justiça e diz jamais se afastar da veia jurídica que o conduziu à vida pública. Em entrevista à Revista PLURAL, falou sobre as dificuldades na aprovação dos projetos de lei na Assembleia Legislativa, a importância de fortalecer os PROCONS e de garantir a autonomia financeira do Ministério Público. plural. Como foi a decisão de se afastar do Judiciário e abraçar a função legislativa? FC A decisão foi tomada em cima da hora. Eu passava o Carnaval de 2006 com a minha família e amigos do MP. Até que um deles me perguntou: Por que não se candidata a deputado?. Eu não levei a sério, mas o assunto prosseguiu. Após muito meditar, tomei uma decisão audaciosa. Resolvi me licenciar do Ministério Público no final de março de 2006 e me filiar ao PSDB, para disputar uma vaga no Parlamento Estadual de São Paulo. A minha esposa foi totalmente contra, mas resolvi levar a ideia adiante. A campanha foi muito difícil. Foi feita em apenas dois meses porque, logo no início, sofri uma impugnação por parte da Justiça Eleitoral. O argumento foi que a Emenda 45, de dezembro de 2004, impedia representantes do Ministério Público de se candidatarem a cargos eletivos. No entanto, a Constituição diz claramente que os membros do MP que tomaram posse antes da sua promulgação, não estão submetidos às vedações posteriores. O TSE entendeu da mesma forma. Até que a polêmica fosse decidida, o curso da minha campanha ficou prejudicado. Tivemos apenas os meses de agosto e setembro para expor a candidatura. Utilizamos muito a Internet e fizemos cerca de 50 palestras universitárias, com público entre 500 a mil pessoas. Ganhamos a eleição com quase 100 mil votos no primeiro mandato. plural. A atividade legislativa atende às expectativas na propositura de leis dentro das questões ansiadas durante o seu trabalho como promotor? FC Sem dúvida. É muito importante que o parlamentar não esqueça nem abandone as suas origens. Desde o momento que me elegi deputado, eu coloquei em mente que deveria manter inabalável a lealdade à Instituição de onde vim. Procurei fazer uma atuação muito voltada a todo o segmento jurídico, com o objetivo de compreender os pleitos do 7

9 Poder Judiciário seja com relação aos magistrados ou servidores. Hoje, o Poder Judiciário, de acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal, tem direito de receber até 6% da receita líquida anual do orçamento do Estado. Isso não tem sido possível. Nós temos lutado para que haja uma maior participação. Em primeiro lugar, para que os serventuários mais de 70% recebem salários inferiores a R$ 5 mil possam ter uma remuneração que os estimule e dê tranqüilidade para exercer as suas funções. E que existam investimentos capazes de acelerar a tramitação. Cada escrevente fica encarregado de mil processos e o TJSP, em primeira e segunda instância, tem que arcar com 20 milhões de processos em andamento. Isto demanda a contratação de pessoal, funcionários bem remunerados e uma maior participação no orçamento. Com relação ao Ministério Público, tanto os servidores como os membros, necessitam de uma dotação orçamentária compatível com a importância da Instituição. plural. Quais foram as soluções encontradas pela Frente Parlamentar para a autonomia financeira do Ministério Público do Estado de São Paulo? FC - A Constituição diz que as custas e emolumentos cobrados pela Justiça deverão ser destinados à manutenção dos seus próprios serviços. O Poder Judiciário e as instituições essenciais à Justiça, entre elas, o Ministério Público, são auto- -subsidiáveis. Apenas o pagamento das custas e emolumentos de processos em andamento, se fosse destinados exclusivamente para a Justiça, por si só, já tornaria o MP financeiramente autônomo e independente. Eu presido esta Frente Parlamentar com o objetivo de construir com o Poder Executivo um diálogo para fazer com que esta verba não seja depositada em um fundo comum, onde será dissipada com outras despesas. plural. No primeiro mandato, o senhor já apresentou 280 proposituras, entre projetos de lei, indicações, moções, emendas constitucionais, projetos de resolução e requerimentos. De qual destas proposições tem mais orgulho? FC Na Assembleia Legislativa, não é fácil aprovar um Projeto de Lei. Destas proposições, só conseguimos transformar um único em lei até o momento. As empresas que prestam serviços públicos na prestação de água, luz e telefone, todo o começo de ano, estão obrigadas a enviar aos consumidores os recibos de quitação de débitos dos anos anteriores. É bom que o Ministério Público fique atento porque muitas não estão cumprindo esta determinação. Estamos lutando para que, no próximo mandato, alguns projetos possam ser transformados em Lei. Entre eles, o que proíbe hospitais públicos ou privados de exigirem qualquer tipo de caução para internação de pacientes em estado emergencial. Outro obriga aeroportos, shoppings centers e hipermercados a destinar uma sala para instalação do PROCON, que só poderia atender às reclamações dos consumidores daquele local. Os estabelecimentos, cientes de que naquela unidade há um PROCON, naturalmente vão se abster de qualquer tipo de abuso. Outro projeto importante é o que proíbe o uso de celulares, IPads, IPhones e qualquer tipo de rádio ou comunicador dentro de agências bancárias, para evitar que meliantes se comuniquem com o restante da quadrilha dando dicas sobre pessoas que estão sacando dinheiro. Temos um projeto que disciplina o procedimento sem dano, para que a oitiva de crianças vítimas de abuso sexual preste depoimento num ambiente lúdico, com a presença de uma psicóloga. Outro projeto obriga a inserir na grade curricular do ensino médio uma matéria sobre os efeitos nocivos das drogas. Defendemos também um projeto que confere aos transplantados os mesmos direitos 8

10 Precisamos oferecer aos colegas condições de aprimoramento na sua formação e capacitação, dando a eles condições humanas e materiais para que possamos obter uma resposta razoável. dos portadores de deficiência. Por último, destaco um projeto que foi aprovado, e posteriormente vetado, que obriga os estádios de futebol a numerar as cadeiras e multar quem sentar no lugar do outro. Cumprindo e efetivando o Estatuto do Torcedor, traremos mais segurança, atraindo outro tipo de público para os estádios. Estamos lutando para derrubar o veto. plural. Um das comissões mais importantes que presidiu foi a CPI do Transportes Aéreos. Quais foram as conclusões das investigações e o que fazer para evitar um novo caos? FC É preciso construir mais aeroportos e abrir a possibilidade de novas companhias aéreas entrarem no sistema. Hoje, vivemos um oligopólio em que duas empresas dominam o sistema do transporte aéreo. Isto não é bom. Também precisamos trabalhar a manutenção das aeronaves e mecanismos de controle. Fizemos uma série de sugestões que, aos poucos, estão sendo acatadas na regulação dos transportes. Entre as determinações da CPI, estão a proibição dos abastecimentos econômicos nos aeroportos que operam em nível crítico, a obrigatoriedade de testes regulares sobre tripulantes e técnicos para evitar o uso de álcool e drogas; e a implementação em todos os aeroportos da área de segurança no final da pista de pouso. plural. Em 2010, o Código de Defesa do Consumidor completou 20 anos. Quais são os desafios nos próximos anos para a efetividade dos direitos do consumidor? FC Instrumentalizar e dar maior estrutura aos PROCONS, e dotá-los de mecanismos legais para que possam impor sanções quase que imediatas. O Brasil está muito avançado nesta questão. O poder público deve fazer investimentos neste órgão, com a contratação de mais funcionários. Também é fundamental que o PROCON seja instalado em shoppings, aeroportos e supermercados, através da descentralização. A impunidade e a demora na solução de conflitos é o que estimula a leniência das empresas para cumprir a legislação. 9

11 plural. O senhor encaminhou solicitação ao Governador José Serra para a criação do PRO- COND, órgão específico para condomínios. Qual serão as principais questões atacadas nas relações condominiais? FC Cinco milhões de pessoas vivem em condomínios na capital e grande São Paulo. Há conflitos que não são tão graves a ponto de merecer atenção da polícia, como discussões entre vizinhos. Há questões que não se resolvem porque há sempre um morador que se impõe ou intimida os demais. A reunião de condomínio torna-se insuficiente para resolver este tipo de problema. Há também a falta de transparência na contabilidade por parte dos síndicos ou da administradora. O condômino se vê oprimido e sem um canal para reclamar. A ideia foi propor ao Poder Executivo a criação de um órgão, ligado à Secretaria da Justiça, para solucionar conflitos entre condôminos, com a possibilidade de impor multas aos infratores. Este órgão encaminharia à Polícia e ao Ministério Público os casos mais graves, e tentaria uma câmara de conciliação para resolver os casos intermediários. A única crítica que se faz é que o nome lembra o PROCON, e os críticos sustentam que não existe uma relação de consumo em condomínios. Mas o PROCOND não é um órgão de defesa dos condomínios, mas que se destina a resolver questões entre condôminos. plural. Quais são os seus planos para a sua carreira política? Pretende assumir algum cargo no Executivo ou pensa em voltar ao Ministério Público? FC Desde o início da atividade política, somos consumidos por uma carga de trabalho muito grande. Eu acordo às seis da manhã e só sei que irei dormir após a meia-noite. Não tenho sábados ou domingos. A minha família é muito sacrificada. Por incrível que pareça, tenho poucas oportunidades de fazer planos para o futuro. Sou consumido por uma rotina diária que me impede de raciocinar neste sentido. Ás vezes, não sei o que vou fazer no dia seguinte. Acordo e sou surpreendido pela agenda. Estou muito feliz como deputado, mas eu ainda me sinto um promotor de justiça. Eu gosto muito da minha instituição. Tudo que consegui, devo ao Ministério Público. Tenho certeza que os 100 mil votos que tive não foram para o Dr. Fernando Capez, mas para o promotor Fernando Capez. plural. Como você avalia o Governo Lula e quais as suas expectativas para a gestão de Dilma Rousseff? FC - Nós aprendemos em Política que não podemos brigar com a vontade popular. Se o Presidente Lula conseguiu ser reeleito e fazer a sua sucessora eleita, é sinal de que existem méritos que não podem ser desconsiderados. Ele pode ser parabenizado por manter a estabilização da economia, conquistada por Fernando Henrique Cardoso, e por nomear o Henrique Meirelles como presidente do Banco Central. O que pouca gente se lembra é que quem acabou com a inflação foi o Governo FHC, através de um sistema que tirou o ônus dos ombros do Estado através de um bem sucedido programa de privatização. O funcionamento dos serviços públicos foi profissionalizado com a criação das agências reguladoras. FHC também devolveu ao País a dignidade econômica através da constituição de uma moeda forte. Lula também tem o mérito de trazer avanços sociais, isso pôde ser sentido. Desejo que a Dilma Rousseff - que agora não é a presidente dos petistas, mas de todos os brasileiros - seja iluminada na sua gestão, que possa tomar medidas de caráter social e consiga fazer com que serviços públicos, sobretudo da saúde e da educação, funcionem de forma adequada. 10

12 capa Ministério Público lidera movimento pela redução da violência nas escolas A força-tarefa da Paz Depredações, xingamentos, agressões físicas, morte. Infelizmente, a realidade típica do estado de guerra não se restringe aos campos de batalha. Está cada vez mais presente nos lares e, consequentemente, nas escolas. O processo da universalização do ensino, iniciado a partir da redemocratização do Brasil, colocou 97% das crianças em idade escolar dentro da sala de aula. No entanto, o aluno não veio sozinho. Trouxe com ele todos os problemas sociais da sua geração. São crianças e adolescentes que tem problemas com drogas, são hiperativas, sofrem maus tratos em casa ou abuso sexual. É na escola que estes problemas vão extravasar, avalia Suzana Aparecida Dechechi Oliveira, dirigente regional de ensino dos municípios de São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul da Secretaria Estadual de Educação. Os conflitos enfrentados pelas novas gerações se manifestam no aumento crescente da violência escolar. Foto: SXC.hu 11

13 Ainda tem professor que manda bilhetes para a família do aluno e esquece que os pais são analfabetos A Udemo Sindicato de Especialistas de Educação do Magistério Oficial do Estado de São Paulo realiza anualmente uma pesquisa entre as principais instituições de ensino da rede pública para avaliar o quadro da violência. O último levantamento, realizado em 2008, revela que os relatos de violência estão presentes em 86% das 683 escolas da rede pública estadual pesquisadas. Em 88% dos casos, foi verificado o desacato aos professores, funcionários ou membros da direção. Em 85% das situações houve agressão física e 21% registram ameaças de morte. Do total de alunos, 5% foram flagrados com arma de fogo. Segundo o estudo, 70% das escolas registraram boletins de ocorrência. A violência não se restringe na relação entre as pessoas. Relatos de danos contra a estrutura física das instituições de ensino revelam que houve depredação dos prédios (65%); arrombamento de portões e cadeados (46%); danos a veículos (62%); furto de equipamentos (32%) e explosão de bombas (38%). Entre outras infrações cometidas pelos alunos estão o porte ou consumo de bebidas alcoólicas (36%) e tráfico ou consumo de drogas (32%). Na Grande São Paulo, os índices de violência atingem 97% das escolas públicas. Diante desta realidade, entrou em cena o Ministério Público. No dia 10 agosto de 2007, em São Bernardo do Campo município com 256 escolas estaduais e municipais e 160 mil alunos a Promotoria de Justiça instaurou um inquérito civil para a colheita de elementos. Desde então, foi estabelecida uma força tarefa com a participação de promotores de justiça, assistentes sociais, professores, psicólogos, policiais e membros de conselhos tutelares. Uma grande rede de atendimento multidisciplinar. O objetivo do grupo é a construção de uma cultura de paz nas escolas, com a redução de 40% dos atos infracionais de pequeno potencial ofensivo praticados por crianças e adolescentes em ambiente escolar. Pretendemos atingir esta meta até dezembro de 2011, afirmou a promotora de justiça Vera Lúcia Acayaba de Toledo, idealizadora do programa. O grupo se reúne todas as quintas-feiras para avaliar os avanços do programa. Mas onde termina o trabalho da escola e onde começa a atuação do Ministério Público? O ato de indisciplina é de responsabilidade da escola, de acordo com o seu regimento interno, esclareceu o promotor de justiça Luiz Antônio Miguel Ferreira, coordenador da área de educação do Centro de Apoio Operacional Cível e de Tutela Coletiva. O ato infracional, que poder um crime ou contravenção penal, quando praticado por criança, é de competência exclusiva do Conselho Tutelar. Quando praticado por adolescente, trata-se de uma atribuição da Polícia e do Ministério Público. A partir deste momento, o jovem é encaminhado á rede de atendimento multidisciplinar, que considera as causas que deram origem à violência. Para replicar a experiência de sucesso realizada pela Promotoria de Justiça de São Bernardo do Campo, a Escola Superior do Ministério Público promoveu no dia 12 de novembro o seminário Cultura de Paz nas Escolas. Se tivermos um programa parecido em outras comarcas, com certeza, diversos municípios conseguirão concretizar a cul- 12

14 Uma nova aquarela Desenhando políticas públicas integradas para o enfrentamento da violência escolar em São Bernardo do Campo Organizadores: Dagmar Silva Pinto de Castro, Cristiane Gandolfi, Roberto Joaquim de Oliveira Editora: UMESP Ano: 2010 O programa denominado Parceria na Construção de uma Cultura de Paz traz a exitosa experiência de trabalho em rede fundamentado na construção coletiva. Estruturada pela Promotoria de Justiça local e os demais responsáveis pelo Sistema de Garantia de Direitos da Infância e Juventude, a rede tem como objetivo superar a realidade dos conflitos escolares. O livro, de caráter interdisciplinar, traz 30 artigos de abordagem conceitual e a apresentação de casos concretos aplicados no município de São Bernardo do Campo. tura de paz, afirmou a promotora de justiça Vera Lúcia Acayaba de Toledo. Os palestrantes consideraram que a sociedade precisa encarar o atual desafio apresentado na Escola Pública sem transferir as responsabilidades. Não podemos continuar procurando culpados, afirmou Cleuza Rodrigues Repulho, secretária municipal de educação de São Bernardo do Campo. Ao fazer uma análise histórica, Cleuza relembrou que há sempre um novo pivô a ser responsabilizado pela precária situação na educação brasileira. Primeiro, foram as crianças, acusadas de não aprender por não serem suficientemente inteligentes. Depois, os professores, que não sabem lidar com todas as necessidades dos alunos. Por fim, a família, que delegaria à Escola a tarefa da educação. Precisamos aprender a encontrar soluções, afirmou a secretária, que defende que as universidades preparem os novos professores para a realidade do sistema público de ensino sem ilusões. Ainda tem professor que manda bilhetes para a família do aluno e esquece que os pais são analfabetos. O evento reuniu os participantes de diversas áreas de atuação do programa Cultura de Paz nas Escolas, que se emocionaram ao narrar as experiências e a trajetória do grupo nos últimos três anos. Também ministraram as exposições a professora Vera Lúcia de Oliveira; a advogada especialista em Direito Constitucional Rosemeire Aparecida Mantovan; a psicóloga Ângela Letícia dos Santos; a pesquisadora Dagmar Silva Pinto de Castro; o professor Roberto Joaquim de Oliveira; o coordenador da Universidade Metodista de São Paulo Luiz Roberto Alves; e a professora Cristiane Gandolfi. Não adianta termos propostas sem conteúdo, afirmou Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo do Campo, que parabenizou a realização do evento. Este programa é um bom exemplo de proposta concreta, que não visa holofotes ou vitrines. 13

15 matéria Gilmar Mendes e Eros Grau debatem a Filosofia do Direito Ministros participam de evento na Escola Superior Caracterizados por modos distintos de julgar no Supremo Tribunal Federal, os ministros Eros Grau e Gilmar Mendes participaram de um rico debate sobre os temas O Dramático do Decidir e A Decisão Judicial e o seu impacto social no século XXI. O encontro A Filosofia do Direito, coordenado pelo professor Marcelo Neves (PUC-SP), foi realizado na Escola Superior do Ministério Público e promovido pela Editora WMF Martins Fontes nos dias 25 e 26 de novembro de A decisão é a transformação de texto em realidade e norma jurídica, afirmou Eros Grau. Não se interpreta a norma. Ela já é o resultado de uma interpretação, reiterou o ministro ao se referir aos Códigos como um conjunto de normas, portanto, com diversas interpretações distintas. Eros Grau criticou a popularização da justiça, que permite aos leigos comentar e julgar as decisões da corte suprema em rádios, jornais e programas de TV. Hoje tratamos o fenômeno jurídico como se fosse um processo midiático, disse Eros Grau, defensor da preservação do ambiente hermético nas decisões da Corte Suprema. O ministro enfatizou ainda a impossibilidade da objetividade total na interpretação da lei. A prudência, ao contrário da ciência que busca uma única resposta para um fenômeno, traz diversas respostas corretas para uma mesma questão, afirmou o ministro. Surge aí o conceito da jurisprudência. Segundo o magistrado, toda a decisão jurídica é produzida na singularidade. Muitas vezes, para uma decisão ser justa, ela precisa transgredir o texto da lei, para que ele seja adequado à realidade. Gilmar Mendes falou sobre as responsabilidades e os desafios de um ministro no STF. Temos que considerar que uma decisão na corte suprema irá afetar muitas outras decisões. O ministro enfatizou as dificuldades do julgar diante de situações não previstas na Constituição. O Tribunal pode apelar para que o legislador elabore a lei, mas jamais poderá suprir esta lacuna. Mendes citou um caso concreto que ficou no limbo entre a Ação por Omissão, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) e a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF). Dentro do tema, fez referência à Lei 9868 (artigo 27) Ao declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, e tendo em vista razões de segurança jurídica ou de excepcional interesse social, poderá o Supremo Tribunal Federal, por maioria de dois terços de seus membros, restringir os efeitos daquela declaração ou decidir que ela só tenha eficácia a partir de seu trânsito em julgado ou de outro momento que venha a ser fixado. O ministro também citou diversos exemplos de decisões que competem em relação à inconstitucionalidade. Um das ações citadas foi o questiona- 14

16 A prudência, ao contrário da ciência, traz diversas respostas corretas para uma mesma questão Eros Grau Ministro aposentado do STF mento sobre o número abusivo de vereadores em diversas cidades brasileiras, desrespeitando o princípio da proporcionalidade em relação ao número de habitantes. Seria uma catástrofe aplicar a ADIN naquele momento, afirmou o ministro. Teríamos que invalidar as eleições e discutir a todo tempo cada lei municipal considerada inconstitucional. A Corte determinou a mudança para as próximas eleições. Em relação às omissões no texto constitucional, o ministro citou como exemplo a lei que permite a existência de municípios que dependem em até 70% das verbas da Federação. É uma lei inconstitucional. Mas se cortarmos a verba do Estado, estas cidades vão desaparecer. Fixamos um prazo para que o legislativo normatize a questão. Outra solução alternativa para uma situação prática não prevista na norma constitucional foi o debate sobre o direito de greve dos servidores públicos. Transferimos as decisões aos tribunais regionais, estaduais e ao Supremo Tribunal Federal, de acordo com a esfera do órgão público, afirmou o Ministro. Outros temas abordados no evento foram Liberdade e Igualdade, por Álvaro Vita (USP), Há espaço para o positivismo jurídico no século XXI?, por Dimitri Dimoulis (FGV-SP), Fundamentos do Ensino Jurídico no Séc. XXI, por Jean-Paul Rocha (USP); A Dignidade da Pessoa Humana no Séc. XXI, por Ingo Sarlet (PUC-SP), e Problemas Jurídicos Fundamentais: a partir e além do Estado, por Oswaldo Duek (PUC-SP) e Marcelo Neves (PUC-SP), que ministrou uma brilhante palestra sobre as perspectivas do transconstitucionalismo. O evento reuniu 160 pessoas, entre advogados, promotores de justiça e estudantes de Direito, que participaram ativamente do debate. Evento reúne especialistas em filosofia do direito de diversos estados brasileiros 15

17 matéria Inauguração em grande estilo Abertura da biblioteca da ESMP reúne expoentes da Justiça em homenagem ao professor Hermínio Marques Porto Às 19h15 do dia 20 de outubro de 2010, pouco antes do início da cerimônia de inauguração da nova biblioteca da Escola Superior do Ministério Público, em cada roda de amigos presentes, surgia uma lembrança do saudoso Hermínio Alberto Marques Porto, um dos maiores ícones da história da justiça brasileira. Os mais veteranos tinham muitas histórias para contar. Do quanto Dr. Hermínio era dócil e gentil com alunos e colegas, ao mesmo tempo em que tinha uma postura firme no júri. Do quanto era compreensivo com o nervosismo dos jovens aspirantes a promotores de justiça, assustados com a banca de seleção. Do quanto era culto um verdadeiro apaixonado pelas letras jurídicas. Os grupos mais jovens se recordavam das memoráveis aulas nos últimos anos de vida do grande professor da PUC-SP. Os estudantes e estagiários, em silêncio, ouviam com curiosidade a história viva sobre o íco- ne jurídico que apenas conheciam pelos livros. A mesa de abertura da Cerimônia de Inauguração da Biblioteca Hermínio Alberto Marques Porto, realizada no auditório Julio Fabbrini Mirabete, contou com a presença do subprocurador- -geral de justiça de relações externas Francisco Stella Júnior, representando o Procurador Geral de Justiça Fernando Grella Vieira; da procuradora de justiça Eloisa de Sousa Arruda, diretora da ESMP; do secretário de Estado da Casa Civil Luiz Antônio Guimarães Marrey, do Presidente da Associação Paulista do Ministério Público (APMP) Washington Epaminondas Medeiros Barra; do Reitor da PUC-SP Dirceu de Mello; do advogado Antônio Tito Costa, representando a Turma de 1950 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP); do secretário do Conselho Superior do Ministério Público Antônio Carlos da Ponte; do desembargador Marco Antônio Marques 16

18 Biografia Nascido em 1926, no município paulista Batatais, Hermínio Alberto Marques Porto foi criado em Bebedouro (SP). Em 1945, mudou-se para a capital e, em 1950, se formou em direito pela Universidade de São Paulo (USP). Conhecido como mestre do júri, foi Promotor de Justiça em diversas cidades do estado e Corregedor-Geral do Ministério Público, entre os anos de 1977 e 1978 e, posteriormente, de 1981 a Também exerceu os cargos de professor titular de Direito Processual Penal da PUC e vice-reitor da Universidade Paulista (Unip). Aposentado como Procurador de Justiça do Estado, atuou como advogado criminalista e professor de pós-graduação da PUC. Faleceu no dia 23 de junho de da Silva, representando o presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e a Escola Paulista da Magistratura; do diretor da Faculdade de Direito da PUC-SP Marcelo Figueiredo; e de Hermínio Alberto Marques Porto Júnior, que representou a família do homenageado. Após a emocionante apresentação do coral do Projeto Guri, o promotor de justiça Tomás Busnardo Ramadan, assessor da ESMP e mestre de cerimônia, apresentou uma detalhada biografia de Hermínio Marques Porto, destacando o perfil sensato do procurador. Ele foi responsável por uma mudança significativa na Corregedoria do Ministério Público, afirmou o promotor. O órgão deixou de ser meramente punitivo e passou a ser orientador. Washington Barra, que sucedeu Hermínio na diretoria da APMP, parabenizou a escolha pelo homenageado. A nossa instituição tem memória. Estamos testemunhando isto com esta justíssima homenagem, disse. Durante a exibição do filme sobre a vida do memorável Hermínio Marques Porto, era raro encontrar alguém que não escondesse as lágrimas. O vídeo, concedido pelo deputado estadual Fernando Capez, mostrava as fotos e recordações da vida profissional e familiar do inesquecível mestre do júri, que inspirou muitas gerações da área jurídica. Quando Hermínio fez parte da banca do Ministério Público de seleção dos novos promotores de justiça na época da ditadura, ignorou as fichas enviadas pelos militares que comprometiam candidatos envolvidos em movimentos estudantis, relatou Luiz Antônio Guimarães Marrey. Assim que assumiu a direção da Escola Superior do Ministério Público, a procuradora de justiça Eloisa de Sousa Arruda, ao conhecer as novas instalações do prédio do CEAF, localizado na Rua Treze de Maio, não hesitou. Quando entrei na biblioteca, rapidamente tive a idéia de homenagear este homem que tanto amava as letras, afirmou a procuradora. Desde então, Eloisa Arruda e os seus assessores se movimentaram para agilizar as tratativas oficiais, a obtenção do acervo de fotos do homenageado e os preparativos para a reforma das instalações da biblioteca, sob o comando do arquiteto Luiz Carlos Saraiva. Foram instalados sete painéis da altura do pé-direito da biblioteca, com fotos em preto e branco do professor Hermínio, além de uma placa de bronze em aço escovado ao lado da porta principal da biblioteca. O acervo conta com mais de 500 doações nos últimos 10 meses, concedidas por outras instituições, procuradores, promotores, juízes e advogados, que integram desde já a lista amigos da biblioteca. A Escola Superior do Ministério Público agradece a presença de todos e informa que, em breve, todo o acervo da Biblioteca Hermínio Alberto Marques Porto, sob a coordenação da bibliotecária Elizabeth Canineo, estará disponível para consulta online no site: 17

19 matéria Uma revolução na Justiça Brasileira Escola Superior comemora os 20 anos do Código de Defesa do Consumidor Há 20 anos, os direitos do consumidor não tinham lei própria. Vagavam ao sabor dos humores das leis do mercado e da boa vontade de alguns magistrados. A devolução de produtos defeituosos, os problemas relativos à má prestação de serviços ou até mesmo os casos de morte em decorrência de falhas em peças automotivas ou por alimentos contaminados não encontravam norma jurídica que garantisse a efetividade da justiça na crescente sociedade de massa. Para mudar esta realidade, a Constituição Brasileira determinou a elaboração de um Código Brasileiro do Consumidor. Para isto, o Ministério Justiça designou uma comissão de juristas para elaborar um anteprojeto de lei federal. A comissão, presidida por Ada Pellegrini, reunia Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin, Daniel Roberto Fink, José Geraldo Brito Filomeno, Kazuo Watanabe, Nelson Nery Júnior e Zelmo Denari, com o apoio de demais colaboradores. Foram juristas que literalmente colocaram a mochila nas costas e defenderam o Projeto do Código pelo Brasil a fora. O texto jurídico relativo à área penal foi fruto fundamental do trabalho dos membros do Ministério Público. A legislação teve como matéria prima 14 leis estabelecidas em outros países, sob a adequação do olhar dos juristas brasileiros mais modernos da época. Para prestar as justas homenagens àqueles que participaram do marco jurídico, a Escola Superior do Ministério Público, com o apoio da APMP, realizou no dia 24 de novembro de 2010 o evento 20 Anos do Código de Defesa do Consumidor, com a presença de José Geraldo Brito Filomeno, ex-procurador geral de justiça de São Paulo e coordenador da comissão de elaboração do Código; Kazuo Watanabe, desembargador aposentado do TJSP e membro da mesma comissão; Paulo Salvador Frontini, ex-procurador geral de justiça de São Paulo e ex-secretário de defesa do consumidor do estado; e dos promotores de justiça Roberto Senise Lisboa e Adriana Borghi. O Código de Defesa do Consumidor apresentou as bases revolucionárias para o projeto jurídico brasileiro, afirmou o procurador de justiça Jorge Luis 18

20 Em uma sociedade de contratação em massa, o consumidor é a parte mais vulnerável José Geraldo Brito Filomeno, procurador de justiça aposentado; membro da Comissão que elaborou o CDC Ussier, coordenador do Centro de Apoio Operacional Cível do Ministério Público de São Paulo. Filomeno explicou que havia na época um clamor em colocar a defesa do consumidor como uma obrigação estatal. Em uma sociedade de contratação em massa, o consumidor é a parte mais vulnerável, disse. O objetivo inicial da comissão era determinar a reclusão como pena aos crimes contra o consumidor, mas a iniciativa gerou polêmica. Os empresários exigiam a troca do termo reclusão por detenção, o que faz uma enorme diferença no aspecto jurídico. Entre outras dificuldades históricas enfrentadas pela comissão, Paulo Frontini acrescentou que os opositores do projeto queriam retirar do texto legal os imóveis, por se tratarem de bens inconsumíveis. Tivemos que recorrer a figuras políticas fortes na época como o Ulisses Guimarães e o Fernando Henrique Cardoso, afirmou o advogado. O presidente de uma grande montadora de carros chegou a dizer na ocasião que o Código iria matar a indústria brasileira, o que não ocorreu. O grupo de juristas também foi responsável por outras inovações na legislação, como a Lei de Pequenas Causas e a restrição à publicidade abusiva ou enganosa. Há sempre os que querem tirar dos tribunais as grandes questões. Kazuo Watanabe - que fez parte da comissão que elaborou o CDC, a Lei de Pequenas Causas e a Ação Civil Pública - falou sobre a importância da unidade entre o Procon e o Ministério Público na percepção das infrações contra os direitos do consumidor. Apesar da comemoração dos 20 anos do Código, precisamos ficar alertas e ter a consciência de que muito ainda precisa ser feito para melhorá-lo. A procuradora de justiça Deborah Pierri, que homenageou oficialmente os integrantes da comissão, ressaltou o avanço da humanização do consumo após o CDC e parabenizou a o grupo pela determinação em fazer vale os direitos da cidadania. O Código foi considerado um ato de terrorismo jurídico pela mídia da época. Sobre os desafios para o futuro após 20 anos, Roberto Senise Lisboa falou sobre novos projetos de lei relativos ao tema - como o que visa reduzir o superendividamento social - e ressaltou a importância da contribuição contínua dos juristas precursores do Código. Adriana Borghi parabenizou o CDC como o único dispositivo jurídico que trata simultaneamente dos direitos difusos, coletivos e individuais, mas ressaltou a importância da inclusão de novas medidas protetivas ao consumidor. Ainda há muitas vistas grossas por quem deveria punir, como o Banco Central e as agências reguladoras. O Código Brasileiro de Defesa do Consumidor foi instituído pela Lei 8.078, no dia 11 de setembro de

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