DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS: A SOCIEDADE NA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO E PREVENÇÃO CONTRA INCÊNDIO NOS CENTROS HISTÓRICOS O CASO DE SABARÁ

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1 DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS: A SOCIEDADE NA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO E PREVENÇÃO CONTRA INCÊNDIO NOS CENTROS HISTÓRICOS O CASO DE SABARÁ Fabiana De Lucca Munaier* 1 Resumo Este trabalho tem o objetivo de apresentar algumas reflexões a respeito da importância e responsabilidade da sociedade diante da possibilidade de incêndio em patrimônios histórico-culturais tendo em vista que a preocupação com sua preservação encontra-se em ascensão. Resguardar áreas urbanas antigas torna imprescindível uma atuação ao nível da segurança contra incêndio, que é um dos perigos que a ameaça. O presente artigo cita conceitos, situando logo após peculiaridades de centros históricos neste contexto. Para ilustrar uma das abordagens de conservação do patrimônio histórico edificado, avaliamos o estudo de caso de desempenho para a segurança contra incêndios no município de Sabará, onde houve em 2003 um sinistro desse tipo. Encerramos discutindo a importância da comunidade no processo de práticas preservacionistas do Patrimônio Cultural, apontando fatores que contribuem para a vulnerabilidade destas realidades no tocante à preservação e combate a incêndios. Palavras-Chaves: Prevenção, Comunidade, Patrimônio-Cultural, Incêndio, Centro Histórico, Preservação. Artigo Original: Elaborado em: Janeiro / Recebido em: Janeiro / Publicado em: Maio / * 1 Bacharel em Comunicação Social pelo Centro Universitário UNI-BH. Mestranda do curso de Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas Fundação Guimarães Rosa Página web: l

2 2 Desafios Contemporâneos: a Sociedade na Preservação do Patrimônio e Prevenção Contra Incêndio nos Centros Históricos Abstract This paper aims to present some thoughts about the importance and responsibility of society at the possibility of fire in historic-cultural heritage with a view that concern forits preservation is on the rise. Protect ancient urban areas becomes a vital role at the level of fire safety, which is one danger that threatens it. This article cites concepts, standing after peculiarities of historical centers in this context. To illustrate oneapproach to preservation of historical buildings, we evaluate the case study inperformance for fire safety in the municipality of Sabara, where in 2003 there was anaccident of this kind. We finished discussing the importance of community in the process of Cultural Heritage preservation practices, pointing out factors that contribute to the vulnerability of these realities in the conservation and firefighting. Key Words: Prevention, Community, Heritage and Cultural, Fire, Historical, Preservation. Original Article: Prepared on: January / Received: January / Published: May / Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 2 de 18

3 Fabiana De Luucca Munaier 3 1 INTRODUÇÃO Devido à constatação de pouquíssimas políticas de prevenção e combate a incêndio nos centros históricos, a pesquisa teve o caráter de trabalhar o Patrimônio Cultural e a comunidade, além da relação das pessoas com suas heranças culturais, percebendo sua responsabilidade pela valorização e preservação do Patrimônio. Neste sentido, o presente trabalho discute propostas de ações preventivas, técnicas e fornece subsídios para a implementação de ações com maior eficácia no combate a incêndios do patrimônio edificado. Com desenvolvimento e adaptação de soluções práticas, a fim de conscientizar a sociedade para a conservação e manutenção de prédios históricos dentro da atual realidade. Por se tratarem de patrimônios históricos muito ricos, a necessidade de proteger estes acervos contra incêndios é de suma importância para a conservação do conhecimento da história e a sua transmissão as gerações futuras. Essa pesquisa aponta caminhos para prevenir e combater incêndios em centros históricos. Observa-se que o não gerenciamento de riscos de incêndios pode comprometer os conjuntos arquitetônicos históricos, pôr em risco a vida humana e os negócios ali desenvolvidos. Neste quadro se insere a preocupação com a segurança contra incêndio e a responsabilidade de todos que, de alguma forma usufruem dos espaços arquitetônicos dos centros históricos. Do morador ao visitante: todos têm o seu papel na prevenção contra incêndios em práticas diárias e simples. 2 PATRIMÔNIO E PRESERVAÇÃO Conforme o dicionário Aurélio (1999), patrimônio é a herança paterna, bens de família, riqueza, patrimônio natural, moral, cultural, intelectual, etc. Ampliando esse conceito, podemos dizer que é patrimônio o conjunto de elementos históricos, arquitetônicos, ambientais, paleontológicos, arqueológicos e científicos para os quais Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 3 de 18

4 4 Desafios Contemporâneos: a Sociedade na Preservação do Patrimônio e Prevenção Contra Incêndio nos Centros Históricos se reconhecem valores que identificam e perpetuam a memória e referenciais do modo de vida e identidade social. A importância de preservar o que consideramos patrimônio, ou parte dele, está no fato deste se constituir registro da cultura, da expressão artística, da forma de pensar e sentir de uma comunidade em determinada época e lugar, um registro de sua história, saberes, técnicas e instrumentos que foram utilizados. Os bens que formam o patrimônio são modos específicos de criar e fazer tradição na literatura, música, expressões, linguagem e costumes que diferem um povo de outro, unindo ou separando-os. Inclui a herança cultural, os bens culturais produzidos pelos segmentos hegemônicos em cada tempo histórico. Assim, a política patrimonial deve relacionar os usos sociais desses bens no presente conservando a produção cultural do passado. A preservação, ou seja, o ato de manter os testemunhos das manifestações culturais e ambientais possibilita à sociedade reconhecer a sua identidade, valorizando-a e estabelecendo referenciais para a construção de seu futuro (RANGEL, 2002). Ainda sobre a preservação, Medeiros discorre que: A Preservação engloba, de maneira mais ampla, todas as ações que beneficiam a manutenção do bem cultural. Se tomarmos como exemplo uma imagem barroca, podemos considerar ações de preservação até mesmo as leis criadas para garantir a integridade do patrimônio, os mecanismos para viabilizar a realização de projetos de restauração, o cuidado com o meio ambiente que circunda o local ou ações como o desvio do trânsito para evitar a trepidação do prédio onde a obra se encontra. Enfim, todas as ações que colaboram para garantir a integridade do bem que se deseja preservar (MEDEIROS, 2005). A cultura manifesta singularidades que abarcam indiscutível valor humanístico. Quando se preserva legalmente e na prática, conserva-se a memória do que fomos e do que somos: a identidade da nação. O patrimônio é riqueza comum que herdamos como cidadãos, e que se vai transmitindo de geração a geração. Por isso, são tomadas medidas protecionistas através de procedimentos que o poder público e privado adotam, no intuito de preservar os bens patrimoniais. Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 4 de 18

5 Fabiana De Luucca Munaier 5 Uma sociedade que busca o entendimento e o registro de sua evolução cultural deve preservar seus recursos materiais e ambientais em sua integridade e exigir métodos de intervenção capazes de respeitar o elenco de elementos que compõem o seu patrimônio cultural. Segundo o Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais IEPHA/MG, o patrimônio cultural material está classificado entre as seguintes categorias (QUADRO 1): Patrimônio natural Patrimônio edificado Patrimônio urbanístico Bens móveis Patrimônio documental Bens integrados Patrimônio arqueológico Patrimônio paleontológico Fonte: LIBÂNIO, 2008/2009. p.19. QUADRO 1 Classificação do Patrimônio Cultural Material Constituído por paisagens, formações geológicas, rios, cavernas, flora e fauna de uma região. Formado pelos bens imóveis(casas, igrejas, museus, edifícios, etc.) que representam a história do local, de uma época ou manifestação cultural. Conjuntos urbanos dotados de homogeneidade paisagística ou que sejam referenciais da identidade do local. São os objetos, de fácil remoção, que constituem o patrimônio de um povo. Podem ser elementos artísticos ou artefatos culturais sob a forma de obra de arte ou material documental. Formado também por bens móveis, mas com uma característica específica de constituírem o acervo histórico de um povo. São os bens que constituem a ornamentação que compõem os projetos arquitetônicos das edificações (cantarias, pilastras, colunas, púlpitos, painéis parietais, etc.). Formado pelo legado de grupos pré-históricos ou por testemunhos do passado (pinturas rupestres, sítios, artefatos, etc.). Formado pelos fósseis animais e vegetais, incluindo também os sítios onde ocorrem. É importante registrar que, no ano de 2000, foi instituído pelo IPHAN um novo instrumento de preservação, isto é, uma nova categoria de patrimônio cultural, o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial, que inclui as formas de expressão de um povo. Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 5 de 18

6 6 Desafios Contemporâneos: a Sociedade na Preservação do Patrimônio e Prevenção Contra Incêndio nos Centros Históricos 3 ABORDAGEM SOBRE INCÊNDIOS Dentre os prejuízos causados por fenômenos da natureza, o incêndio assola a todos, independente de condições econômicas, políticas ou geográficas e, na maioria das vezes, tem efeitos devastadores, causando perdas e danos irrecuperáveis. Quando pensamos sobre as ações a serem tomadas em caso de incêndio, devemos nos preocupar prioritariamente com a proteção à vida humana. No entanto, apesar desta segurança ser essencial, alguns objetos, edifícios ou sítios históricos/arqueológicos são também de valor inestimável para a humanidade. Tais perdas podem significar impacto emocional e econômico muito grande para a comunidade atingida, além de que, mesmo que o acervo esteja coberto por seguro, dinheiro não poderá repô-los. Portanto, a ocorrência de incêndios em áreas históricas traz consigo uma série de conseqüências negativas e perdas associadas, fazendo necessária a preservação de áreas urbanas antigas com atuação ao nível da segurança contra incêndio, que é um dos principais perigos que ameaça estas zonas. Alguns fatores como a perda do patrimônio histórico e da vida humana; o impacto negativo na indústria do turismo; a dificuldade em atrair novos investimentos para a área atingida; a paralisação de atividades; danos ao meio ambiente; prejuízos financeiros e perda de informações dentre tantas outras conseqüências, levam ao questionamento sobre a proteção do patrimônio histórico contra incêndios e a vulnerabilidade destas áreas ao risco e a necessidade de gerenciá-los. Visto que a ocorrência de incêndios pode comprometer de forma irreversível o desenvolvimento sustentável da área atingida e os bens culturais pela perda de sua autenticidade e integridade, infere-se a necessidade de uma abordagem mais eficaz da problemática dos incêndios, objetivando minimizar os potenciais de risco a áreas em que perdas culturais e econômicas seriam incalculáveis. Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 6 de 18

7 Fabiana De Luucca Munaier 7 Neste cenário de risco, inclui-se a abordagem sobre a segurança contra incêndios em centros históricos, devido à sua importância cultural e econômica, onde a vulnerabilidade dos negócios existentes a vários riscos torna inequívoca a necessidade de melhor gerenciá-los, obtendo ao mesmo tempo espaços mais seguros e economicamente viáveis. O efetivo controle do fogo e sua extinção requerem um entendimento básico de sua natureza química e física. Isto inclui conhecimentos sobre fontes de energia calorífica, composição e características dos combustíveis, e condições do meio ambiente necessárias para sustentar o processo de combustão (SANTA CATARINA, CBM, 2010). Combustão é o processo auto-sustentável de oxidação rápida de um combustível, sendo reduzido por um agente oxidante, com o desenvolvimento simultâneo de luz e calor. A maioria dos incêndios envolve um combustível que quimicamente combina com o oxigênio encontrado no ar atmosférico. Outras substâncias como peróxidos orgânicos, são compostos especiais que contém combustível e moléculas oxidantes, tornando-os capazes de queimar num ambiente sem oxigênio (SANTA CATARINA, CBM, 2010). FIGURA 1 Tetraedro ou quadrado do fogo. Fonte: NILTON, Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 7 de 18

8 8 Desafios Contemporâneos: a Sociedade na Preservação do Patrimônio e Prevenção Contra Incêndio nos Centros Históricos A combustão é definida por suas características físicas, podendo variar de oxidações muito lentas, como a ferrugem, até oxidações muito rápidas, como detonações e explosões. Entre estes extremos, estão as duas reações mais preocupantes: combustão sem chamas e combustão livre. A combustão é representada pelo tetraedro do fogo com as quatro faces representando o combustível, o calor, o oxigênio e a reação química em cadeia. Quando se avalia a proteção contra incêndio de uma edificação, muitos fatores são considerados para que se obtenha êxito diante do provável sinistro, sendo eles: o tipo construtivo da edificação, sua ocupação, materiais que podem vir a queimar, exposições à propagação, perigos que oferecem métodos adequados de combatêlos e, finalmente, os meios de combate disponíveis. Vale ressaltar que as idades das construções devem ser consideradas como um fator primordial neste caso, principalmente porque as edificações mais antigas são constituídas de materiais que possuem maior potencial incendiário, além do fato de que estas foram construídas num tempo onde a preocupação com a proteção a incêndio não era tão latente. Sejam estabelecimentos comerciais, edifícios residenciais, industriais ou para outros fins, cada um deles precisa contar com as devidas considerações na execução do plano de combate a incêndio. A maior ou menor propagação do incêndio depende sempre da ação direta ou indireta do homem e, é a este que cabe também o dever de criar mecanismos eficientes que sirvam como proteção contra esses ataques. 4 APRENDENDO COM OUTROS INCÊNDIOS Entendemos ser de grande utilidade buscar paralelos e exemplos: Em 15 de maio de 2010 um grande incêndio atingiu o laboratório de répteis do Instituto Butantan (FIG. 2), na Zona Oeste de São Paulo, destruindo um dos principais acervos de cobras, aranhas e escorpiões para pesquisas do mundo e o maior do Brasil. Mais de 70 mil espécies conservadas foram queimadas no local. O Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 8 de 18

9 Fabiana De Luucca Munaier 9 Instituto é um centro de pesquisas biomédicas localizado no bairro do Butantã fundado em 1901 e responsável pela produção de soros e vacinas. FIGURA 2 Laboratório de Répteis do Instituto Butantan. Fonte: SÃO PAULO. Prefeitura Municipal, A Matriz de Pirenópolis (FIG. 3) é um dos maiores e tradicionais centros de fé católica para o povo goiano e foi dedicada à padroeira da cidade. Construída entre 1728 e 1732 no auge da mineração do ouro, foi tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1941 e restaurada entre 1996 e Um grande incêndio a destruiu em 5 de setembro de Sociedade, governo e entidades se mobilizaram para reerguer um dos maiores símbolos culturais do centro oeste. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) apoiou a restauração e a reinserção do monumento na paisagem. As obras começaram em 2003 e a Matriz foi reinaugurada em 30 de março de FIGURA 3 Matriz de Pirenópolis. Fonte: PIRENÓPOLIS, Portal de Turismo. Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 9 de 18

10 10 Desafios Contemporâneos: a Sociedade na Preservação do Patrimônio e Prevenção Contra Incêndio nos Centros Históricos 5 PRINCIPAIS LOCAIS DE PRESERVAÇÃO Entre as principais construções que são ou abrigam patrimônio histórico destacamse: museus, centros históricos, bibliotecas e igrejas. Para a segurança da população que ocupa essas construções históricas é imprescindível a implantação dos equipamentos determinados no projeto e a utilização de saídas de emergência específicas para cada caso, além de medidas auxiliares, garantindo, desse modo, a inteira proteção do ocupante. A diversidade de objetos que podem fazer parte do acervo de um museu é enorme, sendo necessária uma compreensão das particularidades de medidas de proteção contra incêndios, para que sejam aplicadas as mais adequadas para cada caso. No que diz respeito às bibliotecas, seus acervos possuem características bem especificas, sendo compostos de materiais, em sua grande parte combustíveis, conservados em estantes, formando áreas compactadas com material extremamente susceptível ao incêndio. Em edifícios e centros históricos é preciso levar em consideração os componentes específicos, além das alterações as adaptações trazidas ao longo dos anos. Estes possuem características marcantes e de grande preocupação, no âmbito da proteção dificultada, muitas vezes, por ocupar áreas de difícil acesso. 6 CENTROS HISTÓRICOS: INDIVIDUALIDADES E RISCO Algumas observações gerais a respeito de centros históricos serão feitas, partindo do pressuposto de que o fator de risco de cada edificação é determinado pelo Corpo de Bombeiros Militar de cada estado e emitido oficialmente pelo órgão de proteção do patrimônio histórico no qual consta o nível de tombamento. Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 10 de 18

11 Fabiana De Luucca Munaier 11 O valor dos centros históricos nacionais é um fato inquestionável, tendo em vista seu papel na história do país. Porém, é essencial que o cidadão não só reconheça esse valor, mas se sinta valorizado por ser parte destes locais e mais que isso, responsável pela sua história e preservação, sendo assim, também responsável pela construção do futuro. O conhecimento do que está em risco torna mais clara as decisões a serem tomadas. Nesse sentido, se faz necessário abordar as características dos bens patrimoniais materiais dos centros históricos. Sua arquitetura, por exemplo, representa um obstáculo parcial: algumas ruas estreitas dificultam a movimentação e o acesso do Corpo de Bombeiros aos locais assim como a fuga das vítimas. A elevada carga térmica acumulada nas edificações em virtude da mudança de uso residencial para comercial e a grande quantidade de material combustível existente ali, contribuem para que o fogo se propague rapidamente. A contínua adaptação das edificações coloniais ao uso das sociedades modernas se faz freqüentemente com sérios prejuízos à segurança contra incêndio. Outro importante fator de risco que caracteriza estas zonas é o fato de que, embora imóveis tenham redes elétricas separadas, o espaço edificado do centro histórico possui, de acordo com os costumes de uma época em que os conhecimentos de segurança contra incêndio eram rudimentares, telhados contínuos ao longo de várias casas, unindo-as fisicamente. Isso faz com que, em um espaço que contenham edificações nestas condições, o alastramento do fogo de um imóvel para o outro acontece com mais rapidez. Algumas casas ainda possuem as portas que se abrem rotacionando para o interior dos imóveis, o que dificulta escoamento das pessoas durante possíveis situações de pânico. Suas edificações típicas do período colonial brasileiro possuem dentre os materiais empregados e os processos construtivos, além de outros, o uso da madeira, que as tornam particularmente vulneráveis a ação do fogo. Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 11 de 18

12 12 Desafios Contemporâneos: a Sociedade na Preservação do Patrimônio e Prevenção Contra Incêndio nos Centros Históricos Enfim, cada uma dessas características tem um impacto próprio na severidade do incêndio. Mas em conjunto, elas fazem do risco de generalização do incêndio um evento provável no patrimônio cultural. 7 O CASO DE SABARÁ Incluída no Circuito do Ouro, a cidade de Sabará está localizada na região metropolitana de Belo Horizonte. Possui um patrimônio histórico de grande importância na formação cultural de Minas Gerais, encontrados na arquitetura colonial dos casarões, igrejas e nas valiosas obras do mestre Aleijadinho. Em Junho de 2003 o município foi vítima de um incêndio criminoso que destruiu parte da igreja de Nossa Senhora das Mercês, construída em estilo barroco, provavelmente na primeira metade do século XVIII. Reedificada por volta de 1780 e reformada em 1825, apesar da história de dificuldades, a igreja reinava vitoriosa em sua localização privilegiada na topografia de Sabará quando o fogo devastou os dois altares rústicos de tábuas lisas, parte do forro e do telhado. Queimou também três imagens em madeira, todas do século XVIII, e um crucifixo. Com ornamentação simples, destituída de qualquer elemento significativo, comparado com outras igrejas mineiras e da própria cidade, que faz parte da história do ciclo do ouro em Minas Gerais, ela foi erguida pela irmandade pobre de Nossa Senhora das Mercês, uma agremiação formada por negros, muitos deles escravos. Apesar de tombada pelo patrimônio histórico nacional desde 1938, um dos motivos que contribuíram para a propagação do desastre foi a ausência de projetos de prevenção-combate à incêndios e fiações elétricas antigas e expostas que reduziram parcialmente o bem cultural em cinzas além da quantidade significativa de madeira e outros materiais de fácil combustão estocados atrás do altar. O Corpo de Bombeiros gastou cerca de uma hora para apagar o incêndio, que teve início por volta das 4h30min. Foi a comunidade local quem deu o alarme. Moradores da cidade Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 12 de 18

13 Fabiana De Luucca Munaier 13 arrombaram a porta da igreja para salvar imagens. Em vistoria realizada no ano anterior ao ocorrido foram identificadas uma série de problemas, e apesar de alguns reparos serem providenciados, os mesmos não foram suficientes, portanto as deficiências não foram totalmente sanadas. 8 A SOCIEDADE NA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO Somente com ações concretas de proteção conseguiremos barrar atos de vandalismo e depredação de aspectos culturais, de forma que é fundamental que cada um de nós tenha ciência da importância de nosso patrimônio e de como protegê-lo, conhecendo os mecanismos a serem utilizados para este fim. Fica portanto evidente que a ação preventiva representa um progresso no tocante à proteção contra incêndios. A evolução das atividades humanas, a proliferação de indústrias, o crescimento vertical dos aglomerados urbanos, a diversificação dos materiais de construção e a utilização maior de materiais combustíveis, agravam o risco de ocupação, por isso exigem a necessária e imprescindível prevenção. O ideal seria que todos conhecessem os riscos de incêndio e quais as atitudes a serem tomadas, afinal, segurança pública em combate a incêndios é também um estado de espírito coletivo, de estar sempre alerta para não fazer procedimentos perigosos que possam vir a ocasionar tais acontecimentos que acarretam em dano. Para dar uma idéia do que deve ser a consciência de prevenção, torna-se necessário definir exatamente o sinistro, logo que este se declare. Do ponto de vista da prevenção, há sinistros, ou risco deles, toda vez que uma causa qualquer provoque a inflamação ou aumento de temperatura capaz de alterar a normalidade de inteiração entre o homem e o ambiente. Neste momento instala-se a insegurança, podendo levar os envolvidos ao perigo e ao pânico. Desta definição, decorre praticamente que um incêndio, não combatido a tempo, toma decerto uma grande extensão. O fundamento primaz da prevenção é evitar as Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 13 de 18

14 14 Desafios Contemporâneos: a Sociedade na Preservação do Patrimônio e Prevenção Contra Incêndio nos Centros Históricos causas do incêndio, combatendo de início e pondo em ação todos os meios existentes. Os municípios devem atuar na implementação dos princípios constitucionais por meio dos instrumentos definidos pela base legal (lei 14130/2001). Porém, tratamos aqui, especialmente do papel diário que cabe à população na prevenção contra incêndio no patrimônio histórico-cultural. Engajar e envolver a comunidade são importantes porque diz respeito à sua história. As causas de um incêndio são as mais diversas: descargas elétricas, atmosféricas, sobrecarga nas instalações elétricas dos edifícios, falhas humanas (por descuido, desconhecimento ou irresponsabilidade) etc. Os cuidados básicos para evitar e combater um incêndio podem salvar vidas e são essenciais à preservação da identidade de um povo. 9 SUGESTÕES DE SEGURANÇA É muito importante que o próprio edifício possua equipamentos que permitam combate imediato ao princípio de incêndio pelos próprios ocupantes da edificação, assim como rotas de fuga, sistemas de orientação e alarme que possibilitem a evacuação das pessoas em tempo hábil, sem pânico ou atropelos que, freqüentemente, causam mais vitimas que o próprio fogo (SOUZA, 1996). Em relação à segurança contra incêndios pode ser adotado um conjunto de medidas de impacto e baixo custo. É fundamental a execução de alguns critérios estabelecidos em um Plano de Ação de Combate à incêndio para os prédios do Centro Histórico por equipe técnica que atendam: Fácil acesso ao edifício, com estacionamento privativo aos bombeiros; Hidrantes em número suficiente e com manutenção permanente; Alarmes de incêndio com transmissão automática para uma central, acionando o Corpo de Bombeiros; Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 14 de 18

15 Fabiana De Luucca Munaier 15 Extintores de incêndio, distribuídos de acordo com as normas vigentes; Revisão periódica da rede elétrica; Corrimão nas escadas e rampas que formam a rota de fuga; Faixas visuais antiderrapantes na borda dos degraus; Sinalização nas saídas de emergência e desobstrução das mesmas; Treinamento de usuários fixos sobre equipamentos e procedimentos em caso de incêndio. 10 CONCLUSÃO O passado histórico se desrespeitado pode gerar perdas significativas para a memória local e nacional. Embora ocorram medidas para resgatar e manter o patrimônio em alguns centros-históricos, grande parte da comunidade ainda não despertou que a sua atuação na função de preservação, é importante porque traz com ela benefícios sociais, econômicos, políticos e culturais para a cidade. Faltam ainda, planos voltados à conscientização da noção de herança coletiva que o patrimônio representa e por isso a importância de preservá-lo. Nesse aspecto a elaboração de um plano de ação, adquire importância como agente de preservação do patrimônio histórico. Nele, existe a oportunidade de aproximar a comunidade ao evento através da participação direta, com orientação dos órgãos competentes. Além disso, a educação patrimonial se faz primordial, através da produção de uma cartilha, onde o cidadão encontre seu papel na prevenção contra incêndio e assuma o patrimônio histórico como sua identidade. Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 15 de 18

16 16 Desafios Contemporâneos: a Sociedade na Preservação do Patrimônio e Prevenção Contra Incêndio nos Centros Históricos REFERÊNCIAS CORPO DE BOMBEIROS MILITAR DE MINAS GERAIS. Apostila. Contagem: Centro de Ensino, FUNDARPE. Disponível em: <http://www.cultura.pe.gov.br/patrimonio.html>. Acesso em: 21 set GUIMARÃES, Nathália Arruda. A proteção do patrimônio cultural: uma obrigação de todos. Revista Jus Navigandi, abr Disponível em: <http://jus.uol.com.br/revista/>. Acesso em: 05 ago IPHAN. Caderno Análise de Risco de Incêndio em Sítios Históricos. Brasília, LEITE, Yuri Lima; ASSIS, Edílson Machado de. Segurança contra incêndio e sua importância em patrimônios histórico-culturais LIBÂNIO, Clarice de Assis (org.). Projeto Resgatando Histórias, Preservando Nossa Memória: manual do educador. Sabará: Prefeitura Municipal, 2008/2009. v. III. MEDEIROS, Gilca Flores. Caderno do Professor. Calendário Museológico. Superintendência de Museus do Estado de Minas Gerais, Disponível em: <http://www.conservacao-restauracao.com.br/por_que_preservar.pdf>. Acesso em: 12 abr NILTON, J. Santos. Teoria do fogo Disponível em: <users.femanet.com.br/quimica/>. Acesso em: 03 maio ONO, Rosaria. Proteção do Patrimônio histórico-cultural contra incêndio em edificações de interesse de preservação. Fundação Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro, Ciclo de Palestras Memória & Informação. PATRIMÔNIO. Dicionário Aurélio Eletrônico, século XXI. Rio de Janeiro: Nova Fronteira e Lexicon Informática, 1999, CD-rom, versão 3.0. Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 16 de 18

17 Fabiana De Luucca Munaier 17 PIRENÓPOLIS. Portal de Turismo. Disponível em <http://www.pirenopolis.tur.br/matriz>. Acesso em 13 de Outubro de PROCORO, Andreza. Sustentabilidade ameaçada: a importância da segurança contra incêndios e suas implicações para a sustentabilidade de áreas urbanas antigas. Pernambuco, RANGEL, Cláudia. Patrimônio Cultural: preservação, conservação e restauração. Simpósio de História do Vale do Paraíba on-line. I. Anais Disponível em: <http://www.valedoparaiba.com/>. Acesso em: 14 jul SABARÁ. PREFEITURA MUNICIPAL. Projeto Resgatando Histórias, Preservando Nossa Memória. v.i. Sabará: aspectos históricos, geográficos e socioeconômicos. Sabará: Secretaria Municipal de Educação, p. SANTA CATARINA, Corpo de Bombeiros Militar. 8º Batalhão de Bombeiro Militar, Grupo de Bombeiros Capivari de Baixo. Texto Técnico sobre Comportamento do Fogo. Disponível em <http://www.ebah.com.br/incendio-pdf-a33978.html>. Acesso em: 14 jul SÃO PAULO. Prefeitura Municipal. Turismo: Parque Instituto Butantan. Disponível em: <http://www.saopaulo.sp.gov.br/conhecasp/ >. Acesso em: 13 out Pirenopolis.tur.br. Disponível em: <http://www.pirenopolis.tur.br/matriz>. Acesso em 13 out SOUZA, João Carlos. A Importância do Projeto Arquitetônico na Prevenção contra Incêndios. In: NUTAU, São Paulo, RODRIGUES, Rosângela de Oliveira Lopes. A vila de São Vicente - Patrimônio Cultural Submerso: uma missão para a arqueologia subaquática. Revista Eletrônica Patrimônio: Lazer & turismo, nov Disponível em: <www.unisantos.br/pos/revistapatrimonio>. Acesso em: 16 jun Biblioteca Virtual Fantásticas Veredas FGR, Belo Horizonte maio 2011 p. 17 de 18

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