ACIDENTES DE TRABALHO EM SERVIDORES PÚBLICOS: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DE NOTIFICAÇÃO PELA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DE MINAS GERAIS

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1 ACIDENTES DE TRABALHO EM SERVIDORES PÚBLICOS: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DE NOTIFICAÇÃO PELA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DE MINAS GERAIS Autoria: Roberta Kelly Figueiredo, Mirela Castro Santos Camargos Resumo Este trabalho analisou o tratamento da questão dos acidentes de trabalho pela Administração Pública de Minas Gerais em relação aos seus servidores. Para tanto, foram investigados a legislação vigente e os procedimentos adotados para caracterização e prevenção no serviço público mineiro. Concluiu-se que, o tratamento do acidente de trabalho ocorrido entre os servidores se aproxima da concepção da medicina do trabalho, focada no indivíduo e na reparação dos danos. A legislação existente é precária, o processo de caracterização e notificação não é bem definido e informado, desestimulando a notificação de acidentes, principalmente aqueles considerados leves, que não demandam afastamento.

2 ACIDENTES DE TRABALHO EM SERVIDORES PÚBLICOS: UMA ANÁLISE DO PROCESSO DE NOTIFICAÇÃO PELA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DE MINAS GERAIS 1. INTRODUÇÃO Os acidentes de trabalho no Brasil são considerados como o maior agravo à saúde dos trabalhadores. Segundo dados divulgados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2008, o Brasil é 15º país no ranking mundial em número de acidentes do trabalho em geral, sendo o quarto país em número de acidentes com morte (SOBRINHO, 2010). Porém, sabe-se que as estatísticas brasileiras sobre acidentes de trabalho são precárias, visto não abarcarem o setor de trabalho informal, os trabalhadores previdenciários autônomos, proprietários e empregados domésticos, além do funcionalismo público militar e civil. Ademais, a subnotificação também impacta nas estatísticas sobre acidentes, especialmente naqueles de menor gravidade e, nos casos de ocorrências em áreas menos desenvolvidas, inclusive de acidentes graves (BINDER e CORDEIRO, 2003). A notificação é importante porque, na maioria das vezes, os acidentes e doenças relacionadas ao trabalho são evitáveis e passíveis de prevenção. Além disso, é possível identificar o motivo pelo qual os trabalhadores adoecem ou morrem, associando esses dados aos ramos de atividade econômica e aos processos de trabalho, para que possam ser feitas intervenções sobre suas causas e determinantes (BRASIL, 2013). Em um momento em que o acidente de trabalho passa a ser visto como um tema fundamental no que concerne à saúde do trabalhador, torna-se essencial a discussão sobre esse assunto, como modo de fortalecer os instrumentos para prevenção e intervenção, auxiliando na elaboração de novas estratégias de gestão. Apesar da importância da notificação dos acidentes de trabalho, independentemente de sua natureza, o total desconhecimento sobre o que acontece no setor informal da economia brasileira soma-se ao fato de que, no setor privado, as pessoas podem se sentir desencorajadas a notificar acidentes de trabalho, com medo que isso possa prejudicar suas relações com o empregador. Nesse caso, a questão da instabilidade no emprego pode ser um fator importante na tomada de decisão. Em contraposição, no setor público, mesmo que a estabilidade no emprego não seja um determinante importante, caso o acidente não incapacite o servidor de desempenhar suas atividades, esse pode se sentir desmotivado a notificar o acidente, seja por desinteresse, por falta de esclarecimento ou por achar que aquela informação não iria se traduzir em transformação em seu ambiente de trabalho. Para Carneiro (2006), existem poucos trabalhos que relatam experiências em desenvolvimento de ações de prevenção de doenças e promoção à saúde dos servidores públicos. Em geral, a perícia médica, por obrigação legal, é a única atividade realizada, ou seja, a ação no controle da ausência ao trabalho. O desconhecimento sobre o real contexto no qual se inserem os acidentes de trabalho exprime a limitação das análises sobre o tema. As análises, quando existem, enfocam a subnotificação e estão centradas principalmente no setor privado. Pouco se sabe dos acidentes de trabalho no setor público, de como esses são tratados e registrados. Assim, analisar a problemática dos acidentes de trabalho entre os servidores públicos é especialmente relevante nesse contexto de valorização das ações de prevenção de doenças e promoção à saúde, no qual os processos ainda são regidos por regulamentos vinculados a um pensamento teórico focado no indivíduo e, em especial, na compensação dos danos causados pelos acidentes de trabalho. 2

3 Dada a escassez das discussões e informações sobre acidentes de trabalho entre os servidores públicos, seja no âmbito federal, estadual ou municipal, o objetivo deste estudo foi analisar o tratamento dessa questão pela Administração Pública direta, autárquica e fundacional de Minas Gerais em relação aos seus servidores, atentando-se para situações que versam sobre as notificações dos acidentes. Nesta pesquisa, foram analisados a legislação vigente e os procedimentos adotados para caracterização e prevenção de acidentes de trabalho no serviço público mineiro, com vistas a compreender em que medida esses fatores colaboram para a subnotificação dos acidentes de trabalho entre os seus servidores. Buscou-se também discutir de que maneira o tratamento da questão dos acidentes de trabalho pelo estado de Minas Gerais está alinhado aos objetivos estratégicos do governo. O artigo tem a seguinte estrutura, após essa introdução, a seção 2 apresenta o referencial teórico de suporte à pesquisa empírica. A metodologia e os resultados são apresentados nas seções 3 e 4, respectivamente. Encerra-se com as conclusões na seção 5, seguidas das referências. 2. REFERENCIAL TEÓRICO: 2.1. O Campo da Saúde do Trabalhador Desde o surgimento da problemática saúde-doença no contexto do trabalho, as concepções e práticas adotadas se desenvolveram muito. A medicina do trabalho, enquanto especialidade médica, surgiu com a Revolução Industrial, na primeira metade do século XIX, na Inglaterra. Com a implantação de novas tecnologias, os trabalhadores estavam submetidos a um processo acelerado de produção, que colocava em risco a reprodução da força de trabalho e, consequentemente, do sistema de trabalho adotado. Naquele contexto, nascem os serviços de medicina do trabalho que tinham como objetivo proteger os interesses do empregador. Essa atividade era centrada na figura do médico, que se tornava o responsável pela prevenção dos danos à saúde resultantes dos riscos do trabalho (MENDES e DIAS, 1991). Para Mendes e Dias (1991), a adaptação física e mental dos trabalhadores pautava-se na seleção daqueles menos propensos ao absenteísmo e colocação desses em lugares ou tarefas correspondentes às aptidões, além da análise das doenças, faltas e licenças da força de trabalho já alocada. A medicina do trabalho se conformou como uma atividade essencialmente médica, com o cerne de sua prática fundamentado nos locais físicos - e não nos processos - de trabalho. Ademais, a concepção médica adotada era mono-causal, sendo que para cada doença haveria um respectivo agente causador. A prática médica no ambiente de trabalho era pautada no isolamento de riscos específicos e na atuação sobre suas conseqüências, vinculando os sintomas encontrados a uma doença legalmente reconhecida (MENDES e DIAS, 1991, MINAYO-GOMEZ e THEDIN-COSTA, 1997; ALVES, 2004). A partir do início do século XX, a saúde no trabalho torna-se uma questão social e a patologia do trabalho ganha destaque na saúde pública e na medicina legal. A partir de então, emerge o modelo da Saúde Ocupacional, no qual a relação trabalho-doença passa a ser compreendida de modo que o trabalho (especialmente o local de trabalho) contribui para a doença e a doença prejudica o trabalho. Esse modelo vai se consagrar, sobretudo, nas grandes empresas, com a organização de equipes cada vez mais multi-profissionais, buscando relacionar o ambiente de trabalho e o corpo do trabalhador. Essa vertente enfatiza a higiene industrial, reconhecendo, avaliando e controlando os riscos ambientais físicos, químicos, biológicos e ergonômicos que podem ocasionar alterações na saúde, conforto ou eficiência do trabalhador. A avaliação tem como base a clínica médica, mas também contempla fatores 3

4 ambientais e biológicos de exposição e efeito, com vistas a intervir nos locais de trabalho e controlar os riscos ambientais (MINAYO-GOMEZ e THEDIN-COSTA, 1997; ALVES, 2004). O desenvolvimento da saúde ocupacional ocorreu tardiamente no Brasil. Segundo Mendes e Dias (1991), na legislação, a saúde ocupacional expressou-se na regulamentação do Capítulo V da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), relativo à Segurança e Medicina do Trabalho, especialmente na norma que institui a obrigatoriedade de equipes multiprofissionais em ambientes de trabalho e na avaliação de riscos ambientais, e adoção dos limites de tolerância, entre outras. Medidas que deveriam assegurar a saúde do trabalhador restringiamse a intervenções pontuais sobre os riscos mais evidentes. Ademais, a normatização das formas de trabalhar consideradas seguras imputou aos trabalhadores os ônus por acidentes e doenças, concebidos como decorrentes da ignorância e da negligência (MINAYO-GOMEZ e THEDIN-COSTA, 1997). Segundo Mendes e Dias (1991), o modelo da saúde ocupacional mantém o foco conceitual no trabalho em detrimento do setor da saúde e, de forma análoga à medicina do trabalho, continua a abordar os trabalhadores como objeto das ações de saúde, mesmo quando enfoca a questão do coletivo de trabalhadores. Em meio às críticas à Saúde Ocupacional, surge o paradigma da Saúde do Trabalhador, marcado pela busca da compreensão das relações entre o trabalho e a saúde (ou a doença) dos trabalhadores, por meio de uma abordagem multidisciplinar e intersetorial das ações, pautando-se em conhecimentos oriundos de disciplinas como: medicina social, saúde pública, saúde coletiva, clínica médica, medicina do trabalho, sociologia, epidemiologia social, engenharia, psicologia, entre outras. A saúde do trabalhador tem como fundamento a construção de um saber e de um saber-fazer interdisciplinar, que se diferenciam de uma ação centrada no conhecimento médico ou nos saberes divididos em especialidades que compõem uma equipe multiprofissional (MENDES e DIAS, 1991; MINAYO-GOMEZ e THEDIN- COSTA, 1997; ALVES, 2004). Ao avançar em relação aos modelos anteriores, e longe de estar focado na reparação de eventuais danos à saúde do trabalhador, esse paradigma busca a mudança efetiva das condições de trabalho. Nesse contexto, conforme apontado por Alves (2004), uma das práticas que mais se destacam em saúde do trabalhador é a da vigilância em saúde. A vigilância em saúde pode ser entendida como um conjunto de ações contínuas e sistemáticas, que possibilita detectar, conhecer, pesquisar, analisar e monitorar os fatores determinantes e condicionantes da saúde relacionados aos ambientes e processos de trabalho, e tem por objetivo planejar, implantar e avaliar intervenções que reduzam os riscos ou agravos à saúde (CARNEIRO, 2011) Concepções sobre Acidentes de Trabalho Os acidentes de trabalho sempre estiveram presentes no cotidiano dos trabalhadores, mas com o avanço do processo de industrialização e da luta operária a partir do século XIX, tornaram-se um objeto de estudo sistemático. Segundo Machado e Minayo-Gomez (1995), as primeiras teorias formuladas concebiam os acidentes de trabalho de forma genérica e sob uma perspectiva eminentemente jurídica. Pautada no entendimento do Estado como mediador jurídico dos interesses das classes trabalhadoras e das relações de trabalho em geral, as discussões sobre o tema foram ganhando espaço, ao contemplar teorias voltadas à redução da responsabilidade do capital sobre os efeitos do trabalho. As vertentes clássicas de análise dos acidentes de trabalho deram origem a diversas teorias, dentre as quais desponta a preocupação em encontrar o culpado pelo acidente, tendo em vista a determinação jurídica da responsabilidade civil. Gamba (2007) destaca que, no direito brasileiro, a culpa sempre foi o fundamento para a existência da obrigação de reparar o 4

5 dano. A teoria da culpa orienta as análises dos acidentes com vistas a atribuir-lhes uma das causas possíveis, quais sejam, a ação dolosa do empregador, por meio da condição insegura do trabalho, ou dolo do empregado, por meio do ato inseguro. A teoria da culpa é amplamente utilizada no Brasil, onde com pequena alteração pertinente à aceitação da concomitância das perspectivas da condição insegura e do ato inseguro, são ressaltadas diversas interpretações de culpabilidade, que vão desde a imperícia do trabalhador, passando pela acidentabilidade, pela predisposição aos acidentes em decorrência de características individuais, até a dicotomia entre fatores humanos e o ambiente de trabalho, na qual se apóia a legislação brasileira vigente sobre o tema (MACHADO e MINAYO-GOMEZ, 1995). Ademais, Oliveira (2007) destaca que as explicações dos acidentes de trabalho, pautadas no ato inseguro e na naturalização dos riscos, estão muito presentes inclusive na prática discursiva dos trabalhadores. Conforme relatado por Castro (2001), o fato de o empregador ser responsável pelas análises dos atos inseguros e condições inseguras agrava a tendência de se mascarar as responsabilidades patronais fazendo com que o trabalhador seja considerado culpado, até que prove o contrário. Segundo Sobrinho (2010), calcado nessa perspectiva, o direito previdenciário brasileiro ampara a total socialização dos riscos acidentários postos aos empregados. Todavia, não isenta o empregador, caso esse contribua culposamente para a ocorrência do acidente do trabalho. De acordo com Sobrinho (2010) e Oliveira (2007), a análise dos acidentes deve se deslocar para um viés de participação efetiva dos trabalhadores, de compreensão do contexto e atuação sobre ele. A compreensão dos matizes teóricos de análise de acidentes de trabalho, que vão desde a medicina do trabalho até a saúde do trabalhador, é relevante para a análise da atuação do Estado de Minas Gerais no que concerne ao tema. Todavia, é importante ressaltar que, para o objeto desse estudo, discutir quem seria o responsável por indenizar os trabalhadores pelo agravo decorrente do trabalho não faria sentido, visto que a sociedade, representada pelo Estado, é também empregadora, devendo arcar com os custos do acidente em qualquer situação. Ademais, a legislação a que os servidores estatutários estão subordinados é diferente daquela dos trabalhadores regidos pela CLT, que são objeto da legislação brasileira sobre o tema. Contudo, torna-se essencial trazer à tona toda a discussão acima posta, com vistas a identificar o discurso vigente nas teorias sobre acidentes de trabalho. Tanto aquelas que discutem a questão da culpa sob influência da concepção da medicina social e da saúde ocupacional, com o objetivo de reparação do infortúnio e de ressarcimento financeiro ao acidentado; como o apontamento da saúde do trabalhador como perspectiva de análise para os acidentes de trabalho, nos permitirá compreender a atuação da Administração Pública mineira em relação aos acidentes de trabalho entre os seus funcionários Gestão da Saúde do Servidor de Minas Gerais Em Minas Gerais, a implantação do Choque de Gestão, marca o início de uma nova forma de gestão fundamentada no planejamento estratégico de longo prazo. Em 2003, o Governo iniciou o processo de modernização da Administração Pública, conduzido pela Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (SEPLAG), que alterou o foco gerencial para o resultado. A primeira fase do Choque de Gestão, compreendida entre 2003 e 2006, priorizou o rearranjo das contas públicas para alcance do equilíbrio fiscal, sem perder de vista as inovações na gestão. Em 2007 houve a implementação do Estado para Resultados, segunda fase do Choque de Gestão, que tinha como objetivo a consolidação e o aprimoramento do arsenal implantado e a melhoria do desempenho gerencial, com fortalecimento do alinhamento das ações à estratégia. Essa fase foi sucedida, em 2011, pela Gestão para Cidadania. Foram introduzidas novas ferramentas gerenciais relativas à área de recursos 5

6 humanos no Estado, com vistas a implantar um modelo de gestão de pessoas baseado em competências, com foco na meritocracia, na valorização contínua e no desenvolvimento do servidor (NEVES, FRANÇA e VILAÇA, 2012). Ressaltando a relevância dessa temática para o Governo de Minas, em 2011, por meio da Lei Delegada nº 179, foi instituída a Subsecretaria de Gestão de Pessoas (SUGESP), vinculada à SEPLAG. A criação da SUGESP favorece a consolidação de uma política de gestão de pessoas pautada no alinhamento à estratégia governamental. No contexto atual, no qual metas institucionais são pactuadas, com vistas ao alcance de resultados efetivos, a qualidade de vida no trabalho e a saúde do servidor tornam-se essenciais para o alcance dos objetivos almejados. Segundo Carneiro (2011), as questões relativas à saúde do servidor são pertinentes à política de gestão de pessoas. Ele ressalta que, embora seja conveniente a incorporação de diretrizes, concepções e práticas de saúde pública, em especial de saúde do trabalhador, as ações em saúde do servidor não fazem referência ao Estado enquanto promotor de políticas públicas, mas ao Estado empregador, que tem responsabilidades trabalhistas perante os empregados. Desde 2006, o órgão responsável pelas atividades de prevenção de doenças e promoção da saúde dos servidores efetivos do Poder Executivo estadual é a SEPLAG, por meio da Superintendência Central de Perícia Médica e Saúde Ocupacional (SCPMSO). Essa Superintendência tem por competência normatizar, orientar, implementar e executar as atividades de perícia médica e saúde ocupacional desses servidores e, desde 2011, está vinculada à SUGESP, evidenciando a alteração no foco da gestão da saúde do trabalhador para a área de gestão de pessoas. A SCPMSO é composta por três diretorias, quais sejam: Diretoria Central de Perícia Médica (DCPM), Diretoria Central de Suporte Técnico Administrativo (DCSTA) e Diretoria Central de Saúde Ocupacional (DCSO). A instituição de uma diretoria especificamente voltada para a saúde ocupacional em 2006 é muito significativa no que concerne ao deslocamento do foco na doença via assistência à saúde e ações de fiscalização na perícia médica para a saúde via prevenção e promoção à saúde. A DCSO tem por finalidade gerenciar as atividades de saúde ocupacional, competindo-lhe, entre outras coisas, normatizar, orientar, coordenar, supervisionar e executar as atividades dessa matéria, além de realizar estudos e propor medidas para controle e prevenção de acidentes de trabalho e de doenças ocupacionais, bem como para melhoria de ambientes de trabalho (MINAS GERAIS, 2011). Atualmente, a DCSO desenvolve projetos relevantes, porém isolados, na área de saúde do trabalhador. As ações de maior destaque são a realização de levantamentos ambientais, com o objetivo de caracterizar funções insalubres ou perigosas para fins de concessão de benefícios; o Programa de Cessação do Tabagismo, que auxilia os servidores do Poder Executivo estadual a pararem de fumar por meio de grupos de terapia cognitivocomportamental (FIGUEIREDO e SÁ, 2011); o Programa de Saúde Vocal do Professor, que, até março de 2012, capacitou quase professores quanto ao uso da voz, à promoção da saúde vocal e à prevenção de doenças laríngeas (MOREIRA et al., 2012). Porém, a falta de uma Política de Saúde do Servidor conduz a iniciativas sem interdependência e de pouca efetividade no que concerne à prevenção de agravos e à promoção da saúde e da segurança no trabalho. Compreender os objetivos estratégicos do Governo, a estrutura organizacional, e as ações pertinentes à saúde do trabalhador é essencial para avaliar a atuação e as propostas da Administração Pública frente aos acidentes de trabalho entre seus servidores. A estrutura organizacional na qual a saúde do trabalhador está inserida, assim como as ações já desenvolvidas ou projetos em elaboração nessa área, afetam diretamente as questões relativas aos acidentes de trabalho entre os servidores públicos estaduais, tema mais específico desse 6

7 trabalho. Sendo assim, na próxima seção, será apresentada a metodologia empregada para análise proposta. 3. METODOLOGIA A pesquisa que subsidiou a elaboração deste trabalho foi pautada na metodologia qualitativa, por meio de análise documental e de entrevistas semi-estruturadas. Foi realizada análise documental da legislação que rege as questões referentes aos acidentes de trabalho entre os servidores do Poder Executivo do Estado de Minas Gerais e da minuta da legislação que regulamentará a Política de Saúde Ocupacional. Em avaliação prévia do tema, foi identificado que não há muitos dados consolidados sobre a temática. A seleção das entrevistas semi-estruturadas mostrou-se adequada para explorar o tema e conhecer o estado das artes do acidente de trabalho para os servidores de Minas Gerais. Ademais, essa metodologia favorece o alcance de um ambiente informal para a realização da pesquisa e permite o aprofundamento em determinadas temáticas quando necessário. Foram realizadas nove entrevistas, nos meses de outubro e novembro de Para a realização das entrevistas, foram utilizados dois roteiros: um para os gestores e médicos de BH e outro para os médicos peritos do interior. Com a permissão dos entrevistados, todas as entrevistas foram gravadas. A duração das entrevistas variou de acordo com o roteiro utilizado e, o ritmo do fornecimento de informações e o aprofundamento possibilitado por cada entrevistado. Não foi realizada a transcrição do material completo, apenas de alguns trechos mais relevantes. Por questões éticas, os entrevistados não terão seus nomes divulgados. Para obter informações sobre a atuação da Superintendência Central de Perícia Médica e Saúde Ocupacional (SCPMSO) em relação aos acidentes de trabalho, processos pertinentes a essa questão e os projetos relativos ao tema, foram convidados a participar da entrevista três gestores da referida unidade. Também foram realizadas entrevistas com médicos peritos que realizam ou realizavam as caracterizações de acidentes de trabalho em Belo Horizonte e nas unidades periciais do interior. Em Belo Horizonte foram entrevistados dois médicos peritos que possuem larga experiência no processo de caracterização do acidente de trabalho dos servidores estatutários. Até agosto de 2012, esses peritos eram responsáveis pelas caracterizações de acidente na DCPM e, atualmente, um deles continua tratando essa questão na DCSO. As entrevistas com os gestores e com os médicos peritos responsáveis pelas caracterizações de acidentes de trabalho tiveram como objetivo compreender o processo atual de caracterização e as demais ações pertinentes aos acidentes de trabalho na Administração Pública mineira, assim como captar a percepção dos atores sobre a temática e conhecer as propostas para essa área. Com os médicos peritos que atuam nas Unidades Periciais do interior do estado, foram realizadas quatro entrevistas, com o intuito de captar as informações que eles possuem sobre o tema, além do conhecimento e percepção sobre o processo de caracterização do acidente de trabalho. 4. ANÁLISE DOS DADOS Os dados analisados são pautados na legislação que rege a temática dos acidentes de trabalho para os servidores do Poder Executivo estadual, assim como nas entrevistas realizadas. Apesar das entrevistas permitirem vários nuances de análise, nesta pesquisa elas auxiliam na compreensão dos processos vigentes e da percepção dos entrevistados sobre tais processos, no levantamento dos projetos desenvolvidos na área e na apuração das ações 7

8 pretendidas pela Superintendência Central de Perícia Médica e Saúde Ocupacional em relação aos acidentes de trabalho. A análise da legislação, além de informar sobre os procedimentos, tem o intuito de situar o leitor sobre o atual tratamento dado às questões pertinentes aos acidentes de trabalho no Estado de Minas Gerais. Para tal, é necessário apresentar a definição legal do conceito de acidente de trabalho. Acidente de trabalho é definido no artigo 19 da Lei n.º de 1991 como aquele que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa, provocando lesão corporal, ou perturbação funcional, que cause perda ou redução da capacidade de trabalho, temporária ou permanente, ou ainda a morte (BRASIL, 1991). Essa conceituação do acidente típico aplicase aos trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Nessa Lei, as doenças profissionais, doenças do trabalho e acidentes de trajeto também são equiparados a acidentes de trabalho. Os servidores da Administração Pública direta autárquica e fundacional de Minas Gerais são regidos por legislação própria, sendo que, além da Constituição de 1988, vigoram e fazem menção aos acidentes de trabalho a Constituição Estadual, a Lei 869/1952, que dispõe sobre o Estatuto dos Funcionários Públicos Civis do Estado de Minas Gerais (Estatuto do Servidor), e o Comunicado SCSS nº 02/1996. O conceito de acidente de trabalho adotado na legislação mineira não se limita às ocorrências que provoquem perda ou redução da capacidade laborativa ou morte. A concepção mais ampla adotada pelo Estatuto do Servidor de Minas Gerais abre margem, inclusive, para a caracterização como acidente de trabalho de agravos leves, que não gerem redução ou perda imediata da capacidade laborativa. O Estatuto do Servidor define o conceito de acidente de trabalho conforme abaixo: Art O funcionário, ocupante de cargo de provimento efetivo, será aposentado: d) quando inválido em conseqüência de acidente ou agressão, não provocada, no exercício de suas atribuições, ou doença profissional; 1º - Acidente é o evento danoso que tiver como causa mediata ou imediata o exercício das atribuições inerentes ao cargo. 2º - Equipara-se a acidente a agressão sofrida e não provocada pelo funcionário no exercício de suas atribuições. 3º - A prova de acidente será feita em processo especial, no prazo de oito dias, prorrogável quando as circunstâncias o exigirem, sob pena de suspensão. 4º - Entende-se por doença profissional a que decorrer das condições do serviço ou de fato nele ocorrido, devendo o laudo médico estabelecer-lhe a rigorosa caracterização. 5º - A aposentadoria, a que se referem às alíneas "c", "d" e "e só será concedida quando verificado o caráter incapacitante e irreversível da doença ou da lesão, que implique a impossibilidade de o servidor reassumir o exercício do cargo mesmo depois de haver esgotado o prazo máximo admitido neste Estatuto para o gozo de licença para tratamento de saúde. Art Quando licenciado para tratamento de saúde, acidente no serviço de suas atribuições, ou doença profissional, o funcionário receberá integralmente o vencimento ou a remuneração e demais vantagens. (MINAS GERAIS, 1952) O Estatuto do Servidor faz referência aos acidentes de trabalho quando remete à aposentadoria por invalidez e à licença para tratamento de saúde. Somente no Art. 286, que foi revogado pelo art. 1º da Lei Complementar nº 70, de 30/7/2003, o acidente de trabalho volta a ser citado nessa Lei. Esse artigo trata sobre o auxílio-doença e estabelece uma frequência diferenciada desse benefício para o servidor licenciado em decorrência de acidente ou moléstia profissional. Art Ao funcionário licenciado há mais de dez meses para tratamento de saúde, é assegurado o direito, a título de auxílio-doença, à percepção de um mês de vencimento. 8

9 Parágrafo único - Quando se tratar de moléstia profissional ou de acidente, nos termos do artigo 170, o auxílio-doença será devido após três meses de licenciamento, sendo repetido quando este atingir um ano. (Minas Gerais, 1952) Todos os artigos que fazem referência aos acidentes de trabalho ou doenças profissionais têm como fundamento a garantia de benefícios e o foco o indivíduo, sem considerar o ambiente no qual o servidor sofre o agravo e as condições de trabalho às quais ele está submetido. Além disso, os procedimentos para a garantia desses direitos de que tratam a legislação em vigor são regulamentados por ato administrativo inadequado, complexo e pouco acessível. O Estatuto do Servidor determina que o acidente de trabalho, assim como a doença profissional, deve ser caracterizado por laudo médico. A documentação que deve ser providenciada consiste em declaração da chefia imediata do servidor assinada pela chefia e também por duas testemunhas do acidente devidamente identificadas pelo nome e pelo MASP (número de matrícula do servidor público estadual), laudo de exame médico referente ao 1º atendimento recebido pelo servidor após o acidente e Boletim de Inspeção Médica (BIM) preenchido. Essa documentação deve ser encaminhada ao setor competente, que, mediante sua análise, poderá ou não caracterizar o agravo como acidente de trabalho. O servidor deverá comparecer à Perícia Médica, dentro das normas vigentes, porém a análise realizada é documental. Visto que não há outra norma vigente sobre o assunto, não está claro se e em quais situações a documentação pode ser protocolada por terceiros. Caso o acidente seja de trajeto, a chefia deve informar se é o percurso habitual do servidor, se houve registro policial e enviar a xerocópia legível autenticada da ocorrência policial. Para a caracterização do acidente, muitas informações são solicitadas sem que haja formulário próprio para preenchimento pela chefia imediata do servidor ou pelo médico assistente responsável pelo primeiro atendimento. O BIM é um formulário para uso do serviço pericial da SCPMSO e também não possui campos específicos para a análise de caracterização de acidente de trabalho pelos médicos peritos. A falta de formulário para preenchimento da chefia e do médico assistente pode contribuir para a falta de informações necessárias, além de tornar o processo mais complexo para os atores envolvidos. As informações procedimentais constantes no comunicado que estabelece as normas estão disponíveis no Portal do Servidor desde 2010 e também são encontradas em uma cartilha da SCPMSO, disponibilizada aos órgãos e entidades do Poder Executivo estadual (MINAS GERAIS, 2010). A informação sobre a caracterização do acidente de trabalho é limitada a esses meios e, além disso, não há ações de sensibilização sobre a relevância de caracterizar acidentes de trabalho. A comunicação do processo não aborda os motivos para se caracterizar um acidente de trabalho e não atua na sensibilização dos gestores nem dos servidores públicos sobre o tema. Nesse contexto, há desinformação dos servidores, de suas chefias, das unidades de recursos humanos e, inclusive, do corpo pericial. Não há nenhum processo preventivo, nem educacional. Mesmo no nível de perito de interior, é muito precária a informação passada para ele, em um suposto treinamento. Com isso, foi feita uma norma interna que todas as caracterizações são feitas em Belo Horizonte. (Entrevistado 4) As entrevistas realizadas com peritos do interior do estado corroboraram a fala acima. Todos falaram sobre a atuação da SCPMSO em relação à caracterização e houve conflitos entre a forma de proceder. Para alguns, o processo é iniciado no interior sendo toda a documentação solicitada enviada para análise em Belo Horizonte, enquanto outros entrevistados relataram que realizam a caracterização do acidente de trabalho no interior. Alguns disseram desconhecer qualquer ação informativa referente ao tema, enquanto outros relataram haver vasto trabalho de informação. 9

10 A questão da informação / comunicação é sensível para os entrevistados, que a apontam como um fator relevante para a subnotificação de acidentes. A gente teria que melhorar o processo de informação com o objetivo de não prejudicar ninguém, né, ninguém sair prejudicado. Porque existem muitas situações em que o servidor se acidenta. Ele não é informado, a chefia não se intera, às vezes, daquele acidente e esse episódio passa desapercebido. (Entrevistado 3). Ao ser perguntado se os atores envolvidos são devidamente informados sobre o processo de caracterização de acidente de trabalho, um entrevistado respondeu: Não. E aí foi interessante você falar atores porque não é só o servidor. Existem outros atores aí nesse processo que também precisam ser instruídos, né. As chefias precisam, o servidor acidentado precisa, e o próprio perito, né, o próprio serviço de perícia médica. Ele precisa saber lidar melhor com essas situações. (Entrevistado 1) Além da falta de legislação específica, a desinformação dos atores envolvidos no processo concernente aos acidentes de trabalho foi apontada pelos entrevistados como um fator relevante para a subnotificação de acidentes. A falta de compreensão sobre as implicações de se caracterizar ou não, a inexistência de sensibilização sobre o tema e o desconhecimento sobre o que é acidente de trabalho, sobre a documentação exigida e os prazos estabelecidos no procedimento de caracterização foram levantados como motivos que poderiam levar à não caracterização. Algumas dessas falas estão relatadas abaixo: Pela desinformação, pela falta de preparo, pela alta rotatividade. Infelizmente geram situações que não são esclarecidas, que não são documentadas e que poderiam beneficiar ou não esse servidor ao longo de sua vida funcional. (Entrevistado 3) Acho que por muitas razões: a desinformação é uma delas, acho que alguns por receio ou por entenderam que aquilo não levaria a nada, não teria nenhuma razão de ser, não mudaria em nada o contexto. (Entrevistado1) A falta de sensibilização sobre o tema colabora, inclusive, para o receio de alguns servidores em realizar a caracterização. Conforme relatado em entrevista, quando questionado sobre de que seria o receio em caracterizar o acidente: Eu não sei se receio de alguma represália, de aquilo ficar registrado na vida funcional dele e aquilo ser considerado como alguma coisa desabonadora. Mas, me surpreendeu, o fato de uma pessoa conhecida nossa, que sofreu um acidente. Ela chegou a fazer contato com a gente perguntando se ela caracterizasse, ela seria prejudicada de alguma forma. Então, é surpreendente pensar que as pessoas ainda tenham esse tipo de receio: vir a ser prejudicada em função da caracterização. (Entrevistado 1) Porém, como dito em entrevista, não seria possível, no contexto atual, corresponder à demanda gerada por ações de informação e sensibilização, visto que o procedimento não está bem definido. Para isso, é necessário repensar o processo referente aos acidentes de trabalho. A melhoria do processo foi ressaltada como ponto que demanda atuação do serviço pericial, além da definição do que se entende por acidente. Acho que a gente precisa de ter um procedimento bem definido, bem claro, fácil, ágil; divulgar esse procedimento, porque não adianta também a gente querer fazer uma campanha de divulgação, que hoje a gente também não vai conseguir corresponder à demanda. Digamos que hoje o nosso processo ainda tá um pouco lento, obscuro e difícil. Então a gente precisaria de dar uma melhorada no processo, fazer essa divulgação, conscientizar o servidor do que que é um acidente de trabalho, da importância da gente estar atento ao acidente, que quando você identifica uma situação de risco e você atua, você evita vários problemas maiores. E mostrar muito mais o lado da prevenção do que o lado de que o acidente pode vir a gerar algum 10

11 benefício ou algum malefício, alguma repreensão do servidor Trabalhar de forma mais adequada o que o hoje o servidor entende por acidente de trabalho. (Entrevistado 1) Não há uma estruturação do tratamento dos acidentes de trabalho, nem das caracterizações realizadas. Conforme narrado pelo entrevistado ao falar sobre os acidentes de trabalho na Administração Pública mineira: O que tem é o seguinte: ele ainda é mal notificado, ele é mal compreendido, as vantagens não estão bem colocadas, não há uma prevenção (...). No momento do admissional no Estado, a pessoa não é alertada sobre os direitos e as vantagens que ela tem. Então, isso dificulta muito, porque as coisas ainda são feitas de uma forma empírica, no disse a disse. Não se tem uma informação concreta, no computador, para todos do Estado. (Entrevistado 2) Com o objetivo de revisar e sistematizar o processo de caracterização de acidente de trabalho, além de alterar o foco de atuação em relação ao tema, no segundo semestre de 2012 a Superintendência Central de Perícia Médica e Saúde Ocupacional redirecionou todas as atividades vinculadas aos acidentes de trabalho para a Diretoria Central de Saúde Ocupacional (DCSO). Desde então, essa Diretoria realiza a caracterização dos acidentes de trabalho e está revisando o fluxo dessa atividade. Eles estão trabalhando executando a caracterização, mas eles também ficaram incumbidos de refazer o processo, né, propor um novo processo, um novo procedimento, refazer o fluxo, né. Pensar em um formulário, para que a gente possa padronizar no Estado todo. Então, além de assumir a execução, eles ficaram com a responsabilidade de repensar o próprio processo de caracterização. (Entrevistado 2) Com o deslocamento das caracterizações de acidentes de trabalho para a DCSO, já foram implementadas algumas mudanças no processo, como a instituição de formulário próprio para caracterização do acidente de trabalho, para uso interno. Além disso, está sendo estruturado um banco de dados, com informações de todas as caracterizações de acidentes de trabalho realizadas. Nós agora temos todos os dados. Temos os dados do local, temos os dados do acidente, e nós temos os dados da pessoa, se ela sempre mexe com aquilo, se ela não mexe, nós temos a quantidade de treinamento que ela recebeu para aquilo ou não. Um dos dados que a gente está batendo é o treinamento que ela recebeu para trabalhar naquele local, se ela foi avisada, se ela foi treinada constantemente, se ela foi alertada dos riscos. (Entrevistado 2) Até então, somente os acidentes de trabalho com instrumentos perfuro-cortantes eram registrados à parte, possibilitando visualização do número de ocorrências por ano. Conforme informações dos entrevistados, esses acidentes foram registrados em um caderno desde 1998 e, até a metade de 2012, somavam mais de 400 casos. Mesmo se referindo a um tipo específico de acidente, acredita-se que o número coletado nesses 14 anos é muito baixo. Conforme relatado em entrevista, tudo indica que esse número reflita a subnotificação dos acidentes de trabalho existente no estado de Minas Gerais. A partir da transferência da caracterização para a DCSO, todas as caracterizações passaram a ser registradas em planilha, com informações mais completas sobre os acidentes, com o intuito de levantar elementos para subsidiar a nova legislação e possibilitar, no futuro, o levantamento dos ambientes e situações que oferecem risco para atuação direcionada à eliminação dos mesmos. Havia uma consolidação por parte de quem já mexia com isso com perfuro-cortante. Atualmente, nós englobamos também à saúde ocupacional, o acidente de trabalho típico, o acidente de trabalho perfuro cortante, o acidente de trabalho de secreções contaminada e o acidente de trabalho de trajeto. E fazemos o registro disso tudo e 11

12 estamos tentando municiar o computador para a gente ter um estudo mais profundo e tentarmos melhorar a legislação do Estado. (Entrevistado 2) Também foram relatadas ações planejadas de sensibilização sobre acidentes de trabalho. A DCSO está elaborando um folder informativo e, conforme relatado nas entrevistas, está planejado o desenvolvimento de esclarecimento sobre o tema por meio de mídia televisiva, destinado aos servidores públicos estaduais, especialmente aqueles lotados em escolas, que são a maioria dos funcionários da Administração Pública direta, autárquica e fundacional. Essas ações corroboram para a elaboração de nova regulamentação para o tema, para revisão do processo relativo aos acidentes de trabalho e são compreendidas pelos entrevistados como os primeiros passos para a regulamentação da Política de Saúde Ocupacional, que ainda não foi publicada. No contexto atual, foi confirmado pelas entrevistas que a atuação da SCPMSO em relação aos acidentes de trabalho está restrita à caracterização, que até muito recentemente era competência da Diretoria Central de Perícia Médica. Tratar acidentes de trabalho no âmbito da perícia médica corrobora para o desconhecimento sobre sua incidência no Estado, visto que eventos que não geram afastamento não demandam avaliação pericial e, consequentemente, tendem a não ser caracterizados. Nas entrevistas, foi relatada a importância de se notificar todo e qualquer acidente de trabalho, gerando ou não afastamento do acidentado. Esses eventos podem ser prenúncios de acidentes mais graves e, seu devido registro, além de garantir direitos ao trabalhador que porventura tenha sua saúde prejudicada futuramente em decorrência desse fato, pode indicar situações e ambientes que devem ser avaliados para sanar ou minimizar situações de risco. Como registro dos eventos que não geram afastamento podem contribuir para a prevenção daqueles mais graves por meio de uma atuação preventiva, é necessário definir de modo claro o que é considerado acidente. Essa necessidade foi ressaltada pelos entrevistados. O que é que nós vamos considerar como acidente: todo e qualquer evento, independente de ter gerado afastamento ou um dano? Se sim, então o nosso volume de caracterização vai aumentar muito. Se não, o que fazer com esses outros casos? (Entrevistado 1) Eu acho que tem que ficar claro para o servidor, primeiro em que situações que ele vai procurar, né. Qualquer tombo que ele levar ele vai procurar a gente para fazer a caracterização? Então, definir claramente o que é que a gente está considerando como acidente e qual que é o tipo de demanda que deveria realmente ser enviada para cá. Então, a primeira coisa é definir isso. (Entrevistado 1) Uma precondição para se conhecer a incidência de acidentes de trabalho entre os servidores públicos estaduais, é definir o conceito de acidente de modo claro. Sem que seja especificado o que deve ser caracterizado como acidente de trabalho, o que deve ser registrado ou o será desconsiderado nas estatísticas, não será possível conhecer aquilo sobre o qual se tem o objetivo de agir. Nesse sentido, torna-se difícil, inclusive, fazer ações de sensibilização. Atualmente, os casos que não geram afastamento, nos quais o servidor protocola toda a documentação em tempo hábil e o médico perito estabelece o nexo entre o acidente e o trabalho é caracterizado como acidente. Porém, conforme relatado pelos entrevistados, a caracterização desse tipo de evento não é comum. Há subnotificação desses acidentes que não geram afastamento e, na impressão de entrevistado, essa é maior entre os servidores do Estado de Minas Gerais que na iniciativa privada. Ademais, foi também relatado que muitos dos acidentes de trabalho caracterizados são identificados como tal pelo médico perito que avalia o servidor para fim de licença para 12

13 tratamento de saúde. Nesses casos, o médico perito informa ao servidor sobre o procedimento para caracterização ou encaminha para o setor responsável pelo procedimento. Esse fato fortalece a hipótese da subnotificação decorrente da falta de conhecimento dos atores sobre o processo. A Administração Pública de Minas Gerais não possui dados consolidados sobre acidentes de trabalho ocorridos entre os servidores. Atualmente, a caracterização é feita em documento físico pelo médico perito e fica arquivada no prontuário médico do servidor. Há um sistema eletrônico em desenvolvimento e, após implantá-lo, as caracterizações serão lançadas em sistema, sendo possível realizar levantamento dos acidentes notificados. O contexto atual do tratamento da questão não permite um levantamento fidedigno dos acidentes ocorridos, haja visto a falta de sistematização dos dados, a indefinição do processo e da conceituação, além da limitação das informações sobre o tema. Além disso, não é possível avaliar de fato as conseqüências dos acidentes de trabalho, uma vez que os acidentados não são acompanhados pela Superintendência Central de Perícia Médica e Saúde Ocupacional, exceto quando comparecem à perícia médica para avaliação de capacidade laborativa para fim de concessão de algum benefício. Na legislação existente, as referências aos acidentes de trabalho e às doenças profissionais têm o foco no indivíduo e seu objetivo principal é assegurar direitos previdenciários, como integralidade dos proventos em afastamentos temporários do trabalho ou em caso de aposentadoria decorrente desses agravos. Não há referências às relações de trabalho que envolvem o acidente, nem à atuação no ambiente, por meio da construção de registros que possibilitem conhecimento pleno dos acidentes ocorridos para intervenção e prevenção e, como respaldado pela legislação, para a redução de riscos inerentes ao trabalho. Em 2012, a SCPMSO pactuou como um dos produtos de seu Acordo de Resultados a elaboração de uma minuta de norma que institui a política de saúde ocupacional dos servidores. Para elaborar a norma, a equipe da SCPMSO realizou benchmarking em outros Estados do Brasil com vistas a conhecer a iniciativas, além de realizar pesquisa bibliográfica sobre o campo da saúde do trabalhador e sobre a legislação que rege o tema em outros entes da Federação. Baseadas nas discussões realizadas pelo grupo de estudos formado para esse fim, a SCPMSO elaborou a minuta de projeto de lei, alinhada com a perspectiva contemporânea do campo de estudo da saúde do trabalhador (SCPMSO, 2012). Essa nova perspectiva aponta para um alinhamento das ações aos valores da Secretaria de estado de Planejamento e Gestão e aos objetivos estratégicos as Subsecretaria de Gestão de Pessoas, por meio da valorização do servidor. Caso ocorra, essa regulamentação significará um salto considerável no que concerne aos acidentes de trabalho e à Saúde do Trabalhador na Administração Pública, alterando a atuação focada na reparação de danos para o desenvolvimento de ações de vigilância e prevenção de acidentes de trabalho. Contudo, os achados desta pesquisa apontam que ainda existe um longo caminho a ser percorrido. 5. CONCLUSÃO Conclui-se que, atualmente, as ações pertinentes aos acidentes de trabalho entre os servidores efetivos de Minas Gerais são previstas na legislação e têm o objetivo de garantir direitos previdenciários aos indivíduos acidentados. Há um vazio legal no que concerne a ações de prevenção de acidentes de trabalho para os servidores estaduais. A legislação que rege o tema, ou a falta dela, deveria proporcionar aos servidores a eliminação ou a redução dos riscos inerentes ao trabalho, direito previsto constitucionalmente. Além de não haver uma legislação adequada sobre acidentes de trabalho, os procedimentos para sua notificação são regulamentados por um ato administrativo precário, um comunicado, inadequado para tal fim. Além da disponibilização das informações constantes nesse comunicado na internet, não há outros documentos que acrescentem dados 13

14 sobre o procedimento para caracterização ou sobre o que deva ser caracterizado aos atores interessados. Isso colabora para a existência de um processo que não é bem definido, muito menos bem informado. Esse procedimento e, principalmente, os motivos para se caracterizar um agravo como acidente de trabalho não são bem informados aos atores interessados e tornam-se complexos devido, inclusive, à falta de formulários próprios. O processo vigente desestimula a notificação de acidentes leves, que não geram afastamento do trabalho. Contudo, apesar do processo atual contribuir especialmente para a subnotificação dos acidentes que não geram afastamentos, conforme entrevistas, há indicações de que todo e qualquer acidente de trabalho é subnotificado no Estado. O motivo mais recorrente apresentado nas entrevistas foi a desinformação, a falta de conhecimento do processo. A regulamentação da caracterização do acidente de trabalho restringe-se ao ato pericial. Porém, essa temática é essencialmente sensível ao campo da saúde do trabalhador, por meio de prevenção dos agravos e promoção da segurança e da saúde. Essa atuação é facilitada quando há um direcionamento que, no caso do Estado, deve ser legal. Atualmente, inexiste qualquer legislação que discipline sobre matéria de prevenção de acidentes de trabalho para os servidores do estado de Minas Gerais, sendo a legislação vigente pautada na reparação de danos já consumados. Ademais, para que seja possível desenvolver ações de prevenção dos acidentes é necessário conhecê-los. Para que sejam desenvolvidas ações efetivas, todos os acidentes devem ser notificados, inclusive aqueles que não provocam danos imediatos. Os registros dos acidentes devem se aproximar ao máximo do que ocorre na realidade e, para tal, deve-se criar condições que favoreçam uma notificação sem sub-registros ou sem super-registros. Dessa maneira, é possível mapear de fato as situações de risco e atuar pontualmente nos ambientes para sua redução. O processo de consolidação e análise dos dados de acidentes de trabalho é condição básica para atuar em saúde do trabalhador. Porém, além de haver fatores que desestimulam a notificação, os dados das caracterizações realizadas não são sistematizados, impossibilitando análise e mapeamento dos acidentes. Destaca-se que a área competente pela saúde do trabalhador no Estado reconhece limitações no tratamento dos acidentes de trabalho e que é necessário mudar o foco da questão para a prevenção. Além disso, está alinhada com a idéia de que a implementação de políticas efetivas de prevenção de acidentes de trabalho depende da disseminação de informações e do conhecimento das taxas de acidentes e suas principais causas, que possibilitam uma atuação efetiva nos ambientes de trabalho. Agindo em consonância com essa concepção, a Superintendência Central de Perícia Médica e Saúde Ocupacional transferiu recentemente a competência da caracterização dos acidentes de trabalho para a Diretoria Central de Saúde Ocupacional, que, além de executar a caracterização, ficou responsável por revisar o processo atual e propor nova legislação. Essa legislação a ser proposta será parte da regulamentação da Política de Saúde Ocupacional, que terá sua minuta de lei enviada à Assembléia em breve. A temática do acidente de trabalho, segundo relatos, será uma entre as primeiras a ser regulamentada entre todas as matérias que perpassam essa Política, com foco não mais na garantia de direitos previdenciários, mas com o objetivo de criar condições para eliminação dos riscos e reduzir os acidentes de trabalho. Atualmente, o tratamento do acidente de trabalho ocorrido entre os servidores da Administração Pública direta, autárquica e fundacional de Minas Gerais se aproxima da concepção da medicina do trabalho, focada no indivíduo e na reparação dos danos. A legislação existente é precária, não garantindo nem direitos constitucionais, como a normatização com vistas a reduzir riscos. A esperada publicação da Política de Saúde 14

15 Ocupacional e sua regulamentação, caso ocorra, deslocará a atenção para as ações de prevenção, por meio de uma tentativa de alinhamento teórico com o paradigma da Saúde do Trabalhador e alinhada ao valor destacado no mapa estratégico da SEPLAG de valorização do servidor, propiciando melhores condições para o alcance dos resultados almejados pela Administração Pública. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, N. C. R. Corpos entre Saúde e Trabalho: A construção sociopolítica da LER como doença. Belo Horizonte: UFMG, 2004 (Dissertação de Mestrado) BINDER, M. C. P.; CORDEIRO, R. Sub-registro de acidentes do trabalho em localidade do Estado de São Paulo, Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 37, n. 4, Ago Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v37n4/16774.pdf>.acesso em: 15 Abr BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, ed. - Belo Horizonte: Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais, 2012 Disponível em: <http://www.almg.gov.br/opencms/export/sites/default/consulte/legislacao/downloads/pdfs/c onstituicaofederal.pdf> Acesso em: 15 Nov BRASIL, Lei 8213, de 24 de julho de Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Previdência Social e dá outras providências. Disponível em: Acesso em: 25 Abr BRASIL. Ministério da Saúde. Por que notificar? Disponível em:< Acesso em: 17 Jan CASTRO, J. A. L. Acidente de trabalho frente à responsabilidade civil. In: CARVALHO NETO, A., SALIM, C.A.(org.). Novos desafios em saúde e segurança do trabalho. Belo Horizonte: PUC Minas, Instituto de Relações do Trabalho e Fundacentro, CARNEIRO, S. A. M. Saúde do trabalhador público: questão para a gestão de pessoas a experiência na Prefeitura de São Paulo. Revista do Serviço Público. Brasília 57 (1): Jan/Mar Disponível em: <http://www.geocities.ws/occfi/saudedoservidor.pdf#page=24>. Acesso em: 03 Abr CARNEIRO, S. A. M. Saúde do servidor: uma questão para a gestão de pessoas. Trabalho apresentado no IV Congresso Consad de Gestão Pública; Brasília, Disponível em:<http://www.sgc.goias.gov.br/upload/arquivos/ /painel_24-084_085_086.pdf>. Acesso em: 10 Nov FIGUEIREDO, R. K., SÁ, A. M. Programa de Cessação do Tabagismo para os servidores do Poder Executivo Estadual de Minas Gerais, 2011(Mimeo). GAMBA, J. C. M. Responsabilidade civil objetiva pelos danos à saúde do trabalhador. Semina: Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v. 28, n. 1, p.23-44, jan/jun MACHADO, J. M. H., MINAYO GOMEZ, C. Acidentes de Trabalho: concepções e dados. In: Minayo, M.C.S. (org) Os Muitos Brasis: Saúde e População na Década de 80. p São Paulo/Rio de Janeiro: Hucitec/ABRASCO, MENDES, R. DIAS, E. C. Da medicina do trabalho à saúde do trabalhador. Revista Saúde Pública., S. Paulo, 25 (5): 341-9, Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rsp/v25n5/03.pdf>. Acesso em: 03 Abr

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