TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS NO EIXO NITERÓI - MANILHA EM SÃO GONÇALO/RJ.

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1 ADALTON DA MOTTA MENDONÇA TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS NO EIXO NITERÓI - MANILHA EM SÃO GONÇALO/RJ. Tese apresentada ao Curso de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em Planejamento Urbano e Regional. Orientador: Prof. Dr. Hermes Magalhães Tavares Doutor em Política Econômica/UNICAMP Rio de Janeiro 2007

2 II FICHA CATALOGRÁFICA M539t Mendonça, Adalton da Motta. Transformações sócio-econômicas no eixo Niterói- Manilha em São Gonçalo/RJ / Adalton da Motta Mendonça f. : il. ; 30 cm. Orientador: Hermes Magalhães Tavares. Tese (doutorado) Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Bibliografia: f Mudança social São Gonçalo (RJ). 2. Indústrias São Gonçalo (RJ). 3. São Gonçalo (RJ) Condições sociais. 4. São Gonçalo (RJ) Condições econômicas. I. Tavares, Hermes Magalhães. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional. III. Título. CDD:

3 III ADALTON DA MOTTA MENDONÇA TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS NO EIXO NITERÓI-MANILHA EM SÃO GONÇALO/RJ. Tese submetida ao corpo docente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em Planejamento Urbano e Regional. Aprovado em: _29_/_11_/_2007_. Prof. Dr. Hermes Magalhães Tavares (Orientador) Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional - UFRJ Prof. Dr. Jorge Alves Natal Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional - UFRJ Prof a. Dra. Wania Amélia B. Mesquita Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. UENF. Prof a. Dra. Maria Helena Matue Ochi Flexor Instituto de Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social.UCSal. Bahia. Prof. Dr. Mauro Kleiman Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional - UFRJ

4 IV Para a família, mestres, alunos e amigos.

5 V AGRADECIMENTOS Agradeço a importante contribuição do professor Hermes Tavares, meu orientador. Agradeço, sobretudo, a sua dedicação e paciência, nesses anos de estudo, pesquisa, diálogo e amizade. Sou grato pelo seu profissionalismo e compreensão, nos momentos mais difíceis no decorrer do desenvolvimento deste trabalho. Sou grato também ao IPPUR, mais que um instituto de pesquisa, é um local onde existem amizades, debates, discussões, enfim, como os verdadeiros ambientes acadêmicos devem ser. Local onde conheci profissionais de diferentes campos, importantes para o meu amadurecimento intelectual. Em particular, agradeço aos professores Jorge Alves Natal, Fred Araújo, Tâmara Egler, Ana Clara T. Ribeiro e Rainer Randolf pelas incontáveis críticas e sugestões feitas durante as aulas nos seminários e Tese. Agradeço as contribuições da Professora da UENF Wania Amélia B. Mesquita pela avaliação e crítica ao projeto de Tese. Agradeço as valorosas participações na banca da Professora Dra. Maria Helena Matue Ochi Flexor, que veio especialmente de Salvador, e do Professor Dr. Mauro Kleiman. Sou muito grato também à equipe de professores e funcionários do IPPUR. Sobretudo à Prof a. Dra. Luciana Correa do Lago que, como coordenadora muito afável e sempre competente, permitiu a extensão do meu prazo de defesa e aos funcionários da secretaria da instituição, representados por Zuleika Cruz e Josemar do Espírito Santo, Alberico, José Carlos e a secretária Márcia, que sempre foram e são solícitos e prestativos. Agradeço também a atenção dos funcionários da Biblioteca do IPPUR/UFRJ e em especial a Carla Regina pelo apoio na revisão das normas de apresentação do texto final. Aos amigos, que fiz no IPPUR, meu obrigado pela força e pela amizade. Obrigado aos informantes entrevistados que colaboraram para a produção desse trabalho. Agradeço o apoio da Universidade Estácio de Sá que, pelo apoio através da capacitação docente no início dos estudos de doutorado para que eu pudesse comprar livros e fazer cópias para o curso. Um agradecimento especial à minha companheira de todas as horas, Vera, que muito colaborou para o fechamento da tese.

6 VI RESUMO MENDONÇA, Adalton da Motta Mendonça. Transformações Sócio-Econômicas no eixo Niterói-Manilha em São Gonçalo/RJ f. Tese (Doutorado em Planejamento Urbano e Regional) Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, O objetivo geral deste trabalho foi o de analisar algumas mudanças ocorridas no Município de São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio de Janeiro - RMRJ. Brasil. Procuramos caracterizar esse fenômeno escassamente estudado, a partir de uma metodologia particular que privilegia a utilização de dados sócio-econômicos. A questão central levantada é saber, a partir de um breve quadro histórico sobre o desenvolvimento industrial no Município, os principais momentos de sua trajetória industrial, expansão e declínio. Dentre as questões mais relevantes, destaca-se o estudo de novos indicadores para o desenvolvimento econômico do Município como um todo. Esperamos que este estudo possa contribuir para uma melhor compreensão do atual estado das artes do desenvolvimento local dos municípios do Estado do Rio de Janeiro. Do ponto de vista teórico e conceitual, tal análise baseia-se, em particular, no conceito de mudança social, bem como nas contribuições da filosofia, economia e estudos recentes sobre a nova economia Fluminense entre outras. Palavras-chave: Desenvolvimento local; Mudanças no Município de São Gonçalo; Desenvolvimento sócio-econômico.

7 VII ABSTRACT MENDONÇA, Adalton da Motta Mendonça. Transformações Sócio-Econômicas no eixo Niterói-Manilha em São Gonçalo/RJ f. Tese (Doutorado em Planejamento Urbano e Regional) Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, The general objective of this work was to analyze some changes in the City of São Gonçalo, Metropolitan Region of Rio de Janeiro MRRJ, Brazil. We look for characterizing this barely studied phenomenon from a particular methodology with social and ecomnomics informations. The raised central question is to know by a brief historical seting on the industrial development in the City, the main moments of its industrial path, expansion and decline. Amongst the most importants questions are the searchs of the new numbers for the economic development of the City as a whole. We have the expectation of that this study, it can also contribute for one better understanding of the state of the arts end the new local development. Of the theoretical and conceptual sight, such analysis is based, particularly, on the concept of social chages, as well from contributions of philosofy, ecomnomics end the new Fluminense economy studies, among others in the Rio de Janeiro State. Key words: Local developement, São Gonçalo City chages; Social end economics development.

8 VIII LISTA DE TABELAS Tabela 1. Explosão demográfica em SG. Entre as décadas de 1950 e 1970 em relação a RMRJ. 42 Tabela 2. População de São Gonçalo. Habitantes por Distrito. Divisão política. 43 Tabela 3. Características Demográficas em São Gonçalo, Tabela 4. População residente em São Gonçalo, Tabela 5. Distritos N. de bairros, de habitantes e percentual, Tabela 6. Evolução da população no Município de São Gonçalo até Tabela 7. PIB e participação percentual de São Gonçalo e de Niterói em Tabela 8. Orçamento Municipal. Segundo a LDO. 59 Tabela 9. As Maiores Receitas de ISSQN 66 Tabela 10. Arrecadação de ISS no Município de São Gonçalo entre 1998 e Tabela 11. Arrecadação de ISS em São Gonçalo. Período entre 1990 a Tabela 12. Crescimento populacional em São Gonçalo de 1940 até Tabela 13. Desemprego em São Gonçalo. IBGE, 1991 e Tabela 14. Índices de desemprego em São Gonçalo. Por faixa etária. IBGE, Tabela 15. Posição na ocupação - São Gonçalo, Tabela 16. Empresas de enlatamento de pescado em São Gonçalo - RJ. 138 Tabela 17. Dados relativos ao São Gonçalo Shopping. Dezembro Tabela 18. Pessoal Ocupado por Ramo de Atividade no Município de São Gonçalo

9 IX LISTA DE SIGLAS ABIA - Associação Brasileira das Indústrias Alimentícias ACEC - Associação do Conselho Empresarial de Cidadania ACO - Área Comprometida com Ocupação Urbana AGEIA - Associação Gonçalense de Engenharia e Arquitetura ALERJ - Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro AMAGUAVA - Associação dos Moradores e Amigos de Guaxindiba, Vista Alegre e Adjacências AMPOVEP - Associação dos Moradores e Pescadores do Porto Velho e Praias ANTT - Agência Nacional de Transportes Terrestres AOP - Área de Ocupação Progressiva AOP II - Área de Ocupação Progressiva II APA - Área de Preservação Ambiental APELGA - Associação de Pescadores Livre do Gradim e Adjacências APP - Área de Preservação e Proteção APAP - Área de Preservação Ambiental Permanente ARENA - Aliança Renovadora Nacional BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CBO - Companhia Brasileira de Offshore CBUM - Companhia Brasileira de Usinas Metalúrgicas CEDAE - Companhia Estadual de Águas e Esgotos CIDE - Centro de Informações e Dados do Estado do Rio de Janeiro CIEP - Centro Integrado de Educação Pública CLT - Consolidação das Leis Trabalhistas CODIN - Companhia de Desenvolvimento Industrial COMPERJ - Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente CONERJ - Companhia de Navegação do Estado do Rio de Janeiro CONLESTE - Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento do Leste Fluminense COSIGUA - Companhia Siderúrgica da Guanabara CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito CPS - Centro de Políticas Sociais

10 X CREA/RJ - Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio de Janeiro DEM - Partido Democrata Antigo PFL Partido da Frente Liberal DENIT - Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes DETRAN - Departamento Estadual de Trânsito DP - Delegacia de Polícia DPO - Destacamento de Policiamento Ostensivo EBIN - Empresa Brasileira de Indústria Naval EGEC - Empresa de Gerenciamento de Empreendimentos Comerciais ENAVI - Empresa Naval de Equipamentos Ltda ETE - Estação de Tratamento de Esgoto FAMERJ - Federação das Associações de Moradores do estado do Rio de Janeiro FEEMA - Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente FEPERJ - Federação dos Pescadores do Estado do Rio de Janeiro FGV - Fundação Getúlio Vargas FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz FIRJAN - Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro FPM - Fundo de Participação dos Municípios FUNDREM - Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro GETEC - Guanabara Química Industrial IAB - Instituto de Arquitetos do Brasil IBAM - Instituto Brasileiro de Administração Municipal IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBRE - Instituto Brasileiro de Economia ICBEU - Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos ICMS - Imposto sobre circulação de mercadorias e serviços IDH - Índice de Desenvolvimento Humano IDH-M - Índice de Desenvolvimento Humano Municipal IPEA - Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas IPTU - Imposto Predial e Territorial Urbano ISP - Instituto de Segurança Pública ISS - Imposto sobre Serviços ISS/QN - Imposto sobre Serviços de qualquer natureza ITBI - Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis

11 XI KBR - Kellog Brown & Root LBA - Legião Brasileira de Assistência LDO - Lei de Diretrizes Orçamentárias MAC - Museu de Arte Contemporânea MEMOR - Instituto Gonçalense de Memória, Pesquisas e Eventos Culturais MTE - Ministério do Trabalho e do Emprego ONG - Organização Não-Governamental ONU - Organização das Nações Unidas PAC - Plano de Aceleração do Crescimento PC do B - Partido Comunista do Brasil PCB - Partido Comunista Brasileiro PDBG - Programa de Despoluição da Baía de Guanabara PDC - Partido Democrata Cristão PDDU - Plano Diretor Decenal Urbano PDI - Plano Diretor de Investimentos PDS - Partido Democrático Social PDT - Partido Democrático Trabalhista PFL - Partido da Frente Liberal PIB - Produto Interno Bruto PME - Pesquisa Mensal de Emprego PMN - Prefeitura Municipal de Niterói PMRJ - Polícia Militar do Rio de Janeiro PMSG - Prefeitura Municipal de São Gonçalo PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento POZI - Programas de Ocupação de Zonas Industriais PP - Partido Progressista PPB - Partido Progressista Brasileiro PRF - Polícia Rodoviária Federal PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira PSTU - Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados PSV - Plataform Suply Vessel PT - Partido dos Trabalhadores PTB - Partido Trabalhista Brasileiro PTN - Partido Trabalhista Nacional

12 XII PV - Partido Verde RAIS - Relação Anual de Informações Sociais RDMZ - Secretaria de Conservação do Governo dos Países Baixos REDUC - Refinaria de Duque de Caxias RENAVE - Empresa brasileira de reparos navais S.A. RMRJ - Região Metropolitana do Rio de Janeiro SCCS - Estaleiro Maric Shipboard Command and Control System SEDIVER - Société Européenne D'isolateurs en Ventre et Composite SEG - Sociedade Expansionista Gonçalense SEMEC - Secretaria Municipal de Educação e Cultura de São Gonçalo SEMPLAN - Secretaria Municipal de Planejamento de São Gonçalo SGP - Secretaria Geral de Planejamento SICPN - Sindicato das Indústrias de Conservas de Pescado de Niterói SLFU - Subsecretaria de Licenciamento e Fiscalização Urbana SMDS - Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social SMF - Secretaria Municipal de Fazenda SMIUMA - Secretaria Municipal de Infra-estrutura, Urbanismo, Habitação e Meio Ambiente STU - Service Technique de l Urbanisme, Serviço Técnico de Urbanismo da França TCE/RJ - Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro TGV - Train à Grande Vitesse, Trem de alta Velocidade, na França UDN - União Democrática Nacional UERJ/SG - Universidade Estadual do Rio de Janeiro em São Gonçalo UFF - Universidade Federal Fluminense UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro UNESA - Universidade Estácio de Sá UNIBAIRROS - Federação das Associações de Bairros de São Gonçalo UNIVERSO - Universidade Salgado de Oliveira UTC - Estaleiro Ultratec Engenharia ZR - Zona Residencial ZUD - Zona de Uso Diversificado ZUPI - Zona de Uso Predominantemente Industrial

13 XIII SUMÁRIO INTRODUÇÃO 14 CAPÍTULO 1: REFERENCIAL TEÓRICO. SÃO GONÇALO SUBÚRBIO INDUSTRIAL, CIDADE DORMITÓRIO OU PERIFERIA GLOBAL Antecedentes históricos e sócio-econômicos São Gonçalo: identificando as transformações sócio-econômicas Transformações recentes no eixo Niterói - São Gonçalo Mudança social e a nova centralidade periférica Revisitando as friches urbanas e os vazios sociais 91 CAPÍTULO 2: DA DESINDUSTRIALIZAÇÃO À REVITALIZAÇÃO DO EIXO NITERÓI - SÃO GONÇALO São Gonçalo: a percepção das mudanças, shopping e supermercados A desindustrialização e a revitalização econômica Causas e fatores da desindustrialização O declínio do emprego industrial e o crescimento dos empregos nos serviços. 145 o São Gonçalo Shopping Rio como exemplo 2.5. A percepção das mudanças e a retomada da indústria naval 159 CAPÍTULO 3: ANÁLISE DOS PLANOS DIRETORES E A PERCEPÇÃO DAS TRANSFORMAÇÕES URBANAS Delimitando as atuais legislações sobre o espaço urbano municipal Planos diretores: transformações planejadas e não planejadas Estudo crítico dos planos diretores de São Gonçalo A percepção dos processos de mudança social 206 CONSIDERAÇÕES FINAIS 220 Relação entre as transformações econômicas e as mudanças sociais 221 Interrogando as novas centralidades no eixo Niterói Manilha 227 REFERÊNCIAS 233 ANEXOS 244

14 14 INTRODUÇÃO A tese sobre as transformações recentes no eixo viário Niterói-Manilha, localizado entre os Municípios de Niterói e de São Gonçalo, tem como objetivos principais: a análise e a demonstração de que está em curso um processo de mudança social a partir de um conjunto de estudos e dados sócio-econômicos no trecho Norte da Rodovia Federal BR 101. Também apontamos que essas transformações podem gerar uma nova espacialização da pobreza. Para estudar este fenômeno, a área objeto foi caracterizada como um lugar que até a década de 1980 era predominantemente industrial, mas a partir desta data sofreu um processo de desindustrialização e, conseqüentemente, de criação de ruínas e vazios industriais - chamados de friches industriais - seguido de um momento de desenvolvimento do comércio e dos serviços. Atualmente, há um incremento no setor industrial, com o reaparecimento da industrial naval e de projetos para a construção de uma nova refinaria de petróleo e gás, o COMPERJ, 1 entre os Municípios de Itaboraí e São Gonçalo, além de novas atividades complementares. A partir do estudo deste processo, traçaremos três objetivos a saber: primeiro, o desenho de um recorte geográfico, limitando a pesquisa em um Município, em seguida um recorte cronológico que se estende ao período mais recente, e, por fim, apresentando uma descrição do fenômeno das transformações sócio-econômicas a partir de dados coletados através de entrevistas com o trabalho de campo. Para desenvolver este trabalho focamos os dois primeiros capítulos em algumas percepções de como era a região escolhida e quais foram as primeiras transformações sócioeconômicas mais perceptíveis. Como exemplo citamos o fechamento de industriais e a criação de supermercados e de um shopping center. 2 Neste sentido, para percebermos a mudança social, recorremos aos dados sócio-econômicos recentes para demonstrar a emergência de um 1 Comperj.Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro. 2 Construído pela Ecia/Irmãos na rodovia Niterói-Manilha com 88 mil m2 de área construída, inaugurado em abril de Um investimento de R$ 60 milhões, financiado com o apoio do BNDES. O escritório responsável pelo projeto foi Farias & Denton localizado na cidade do Rio de Janeiro. Segundo o jornal O Dia, Aberto em março (2004), o São Gonçalo Shopping Rio atrai 120 mil pessoas por fim de semana e 1 milhão por mês. A estimativa de venda para o Natal de 2004 foi de R$ 50 milhões. O empreendimento gerou três mil empregos. Jornal O Dia, página 3, Rio de Janeiro, domingo, 17 de outubro de 2004.

15 15 novo tipo de pobreza, novos perfis de estratificação social, saúde e educação, além de uma nova política de uso dos espaços, que poderá implicar na construção de novas centralidades. O trabalho como um todo está estruturado em quatro capítulos. No primeiro composto por cinco subcapítulos são apresentadas as transformações recentes no Município de São Gonçalo, seus aspectos conceituais e históricos. No segundo capítulo composto por cinco subcapítulos apresentamos a reutilização de antigos espaços industriais e a criação de uma nova centralidade urbana num contexto de novos planos diretores e legislações na década de 1990 até os dias atuais. No terceiro capítulo, dividido em quatro subcapítulos são delimitas as transformações planejadas nos planos diretores decenais municipais e nas atuais legislações sobre o espaço urbano e as transformações que efetivamente estão em curso. No quarto e último capítulo, composto por dois subitens são apresentadas algumas conclusões a partir do estudo proposto. A abordagem teórica na sociologia da mudança (LEFEBVRE et alli), bem como seus antecedentes históricos aplicados ao entendimento das mudanças históricas e sócioeconômicas no Município de São Gonçalo são apresentados nos dois primeiros capítulos. Identificamos as principais transformações econômicas e consideramos a importância do estudo da mudança social para compreender este processo em curso. Essa investigação se deu através de dados empíricos relativos ao período atual e às décadas anteriores do Município de São Gonçalo. Abordamos como foco principal, a desindustrialização e a revitalização econômica no eixo Niterói Manilha no Município de São Gonçalo na década de 1990 e as possíveis causas ou fatores da desindustrialização. Realizamos também um levantamento, através de trabalho de campo, sobre as novas atividades a serem implementadas no município: São Gonçalo Shopping Rio, supermercados e o projeto da refinaria de petróleo da Petrobrás, além dos impactos da retomada da indústria naval e de atividades complementares a esta. No terceiro capítulo, delimitamos as transformações planejadas nos planos diretores e nas atuais legislações sobre o espaço urbano e as transformações que efetivamente estão em curso. Realizamos um estudo crítico dos Planos Diretores Decenais PDDs de São Gonçalo e apontamos as possíveis transformações nos perfis dos bairros (ANEXOS A e B) a partir de etnografias e, principalmente, de dados coletados na imprensa do Estado do Rio de

16 16 Janeiro. Buscamos dar conta da complexidade da análise dos indicadores de mudança social, principalmente renda e escolaridade. Também caracterizamos o perfil da população por setor e atividade econômica e ampliamos, quando necessário, a coleta de dados nos grupos de pesquisa dos jovens e dos trabalhadores locais. Em resumo, são tratadas, como questões principais, a comprovação ou a refutação da hipótese da relação entre as transformações econômicas e a mudança social. Como questões secundárias, tratamos de interrogar se há de fato uma nova centralidade no eixo Niterói-Manilha, no Município de São Gonçalo, bem como novas relações de poder e expansão urbana. Utilizamos como exemplos três localidades: a Boa Vista, considerada centro de bairro; o Jardim Catarina, complexo com quatro grandes loteamentos residenciais e por fim o distrito de Neves, antigo distrito industrial. As principais fontes de pesquisa foram as fontes jornalísticas como os periódicos locais; trabalhos de campo realizados nas comunidades mais próximas que incluíram entrevistas e levantamentos fotográficos e bibliográficas incluindo dados censitários secundários, tais como relatórios de pesquisa, oriundos de institutos de pesquisa nacionais. No quarto e último capítulo, apresentamos as considerações finais indicando alguns resultados ou conclusões, bem como possíveis contribuições para a atualização do debate sobre o município. Discutimos, também, a natureza das transformações econômicas e a produção do espaço social com a criação de novas centralidades. Neste sentido, a análise privilegia o espaço, não como estrutura física, mas como processos econômicos, políticos e culturais articulados à dinâmica social. Questionamos até que ponto essas transformações podem ou não gerar uma nova espacialização da pobreza criando, também, novas configurações da classe média e da pobreza municipal. Cabe destacar a preferência dos períodos maiores para não privilegiar momentos políticos e eleitorais. Neste sentido, ao privilegiar a década de 1990 e o período mais recente não estamos falando de determinados atores políticos ou políticas urbanas específicas. Ao tratar das transformações econômicas, em São Gonçalo, consideramos o crescimento ou inflexão econômica positiva recente no Estado do Rio de Janeiro, a partir de meados dos anos 1990, bem como a permanência de problemas sociais graves.

17 17 Compartilhamos a tese marxista de que a natureza do capitalismo e da sociedade brasileira produz ilhas de riqueza convivendo com pobreza, sobretudo a urbana. Com relação à criação de novas centralidades, recorremos aos diagnósticos dos Planos Diretores de São Gonçalo, (1990 e 2006) para explicar a perda de centralidade de Neves, antigo distrito industrial para o distrito de São Gonçalo.

18 18 CAPÍTULO 1: REFERENCIAL TEÓRICO. SÃO GONÇALO SUBÚRBIO INDUSTRIAL, CIDADE DORMITÓRIO OU PERIFERIA GLOBAL A história dos povos que têm uma história é, diz-se, a história da luta de classes. A história dos povos sem história é, dir-se-á como ao menos tanta verdade, a história da sua luta contra o Estado. Pierre Clastres. A Sociedade Contra O Estado.

19 Antecedentes Históricos e Sócio-Econômicos A organização industrial em torno da Baía de Guanabara iniciou-se a partir da produção açucareira nas primeiras fases da historia da região devido a fertilidade do solo e pela facilidade de escoar a produção. Nessa fase, com a participação do trabalho escravo, segundo Egler (1979, p. 33), o Estado do Rio de Janeiro possuía cerca de 1/4 de engenhos e da produção de açúcar da Colônia, sendo a principal área produtora a Bahia. A industrialização chega ao chamado recôncavo da Guanabara e faz a separação entre a propriedade da terra da propriedade do capital. Nasce a produção fabril e amplia-se essa separação e a desagregação da produção colonial no Estado do Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro atingiu a fase fabril na passagem do século XX, principalmente nos setores de manufatura de bens de consumo, têxtil (fiação e tecelagem) além da indústria alimentar. No Rio de Janeiro a diversificação na produção industrial era superior à de São Paulo. Segundo o Censo de 1907, a Guanabara tinha fábricas que produziam 78 desses grupos de produtos, e em 20 deles ela era a única produtora do país. O Rio de Janeiro se caracteriza no início do século XX como grande centro urbano e capital da República, local de consumo de bens de luxo para o mercado local. (EGLER, 1979, p ). O Estado adotou uma estratégia importante na proteção da nova indústria contra a concorrência estrangeira. Ele emprega instrumentos da dívida e da receita pública para a acumulação de capitais, como por exemplo, políticas de protecionismo fiscal, que facilitaram a concentração e a centralização de capitais para a expansão da atividade industrial. Em Niterói temos o exemplo emblemático do estaleiro localizado na Ponta d Areia de propriedade de Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá que foi erguido em 1845 com o apoio de alguns incentivos públicos. A cidade do Rio de Janeiro, apenas em 1890, foi palco de um surto industrial sem precedentes. Sendo a Capital da nascente república, possuía uma população urbana de habitantes, muito maior que o interior do Estado, este rural, ainda dividido em grandes fazendas e seus barões. A metade das empresas que figuram no Censo industrial de 1907 foi implantada entre 1889 e 1907.

20 20 Contribuíram para este crescimento industrial a abolição dos escravos, ampliando o mercado de consumo e de força de trabalho. Outro fator importante foi a ampliação dos sistemas de transporte a partir da década de 1870, em função do café, que facilitava a ligação com os portos exportadores, principalmente da cidade do Rio de Janeiro. Este fator foi decisivo para a expansão da indústria de bens de consumo individuais, como por exemplo a fiação e tecelagem. Em 1895, a cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal, possuía 14 industrias de fiação e tecelagem, enquanto dez indústrias de grande porte estavam instaladas no Estado do Rio de Janeiro. A maioria destas fábricas foi fundada após 1887, e praticamente todas operavam em escala fabril avançada. Como melhor exemplo, (EGLER, 1979, p. 52) cita a Companhia Progresso Industrial do Brasil, Fábrica Bangu, construída pela firma inglesa Morgan Snell. A fábrica Bangu, bem como outras tecelagens, incluindo as de Niterói, importaram teares, maquinas de alvejar, tinturaria e estamparia da Inglaterra. No início do século XX, inicia-se de fato a transição da manufatura para a fábrica, mas existiam empecilhos para a industrialização. O Estado do Rio de Janeiro não podia garantir um fornecimento constante de matéria-prima compatível com a expansão industrial, nem ampliar o mercado sobre o Estado de São Paulo. O Estado do Rio de Janeiro importava praticamente todas a matérias-primas e os gêneros alimentícios. Em plena fase de crescimento industrial dependia de produtores estrangeiros. Isto mostra que a indústria não podia se desenvolver dissociada da agricultura. Enquanto a indústria paulista apresentava no período entre 1909 e 1913, forte expansão, nota-se o declínio da indústria no Estado do Rio de Janeiro. São Gonçalo, inicialmente grande produtor de açúcar desde o século XVIII quando ainda era uma freguesia. Sua importância nessa produção continua até meados do século XIX e, somente no final deste e início do século XX, a atividade é alterada pelo surto industrial ocorrido na região, principalmente no período de A importância da atividade portuária, em São Gonçalo, diferente do Rio de Janeiro, se explica, primeiro, pela necessidade de escoamento da produção agrícola e via de acesso de mercadorias e pessoas para o interior do antigo Estado do Rio de Janeiro (FERNANDES, 2000, p. 15).

21 21 O acesso aos portos, ou mesmo aos rios da região de São Gonçalo, foi um importante fator de atratividade industrial desde o início do século XX. Um bom exemplo foi a Companhia de Cimento Portland, inicialmente com capital canadense. Localizou-se às margens do rio Guaxindiba e construiu um canal de acesso com seus próprios recursos para facilitar o embarque de sua produção para o porto da Capital Federal, na cidade do Rio de Janeiro. O declínio desses portos inicia-se na segunda metade do século XX quando algumas fábricas e indústrias fecham suas portas ou transferem suas atividades para outras cidades ou para outras regiões. A atividade agrícola, principalmente a produção de laranja e banana, enfrenta problemas com a concorrência. Na década de 1950 iniciam-se novos loteamentos como o Jardim Catarina, Trindade e Jardim Alcântara, estabelecendo-se na década de 1960 o fim da zona rural do município. Apesar desta tese não ter um aprofundamento histórico cabe, aqui, algumas considerações sobre o século XIX. Estas considerações, mesmo que superficiais, são necessárias para a corroboração da hipótese de que a industrialização no eixo Niterói-São Gonçalo se fez por complementaridade e oposição em alguns momentos. Além da localização industrial na orla Oriental da Baía de Guanabara, autores como Oliveira (2003, p. 43) citam que os investimentos industriais mais importantes foram realizados fora do núcleo, ou seja, fora da antiga Capital Federal e ao longo dos eixos viários, principalmente, nas ligações com os Estados de São Paulo e de Minas Gerais. Segundo ele, Niterói, antiga capital do Estado do Rio de Janeiro, também sofreu a influência direta da proximidade do Governo central, mas não foi objeto de uma política que integrasse as ações, instituições e diretrizes públicas de ocupação e desenvolvimento do território. Essa influência resultou, segundo o autor, em um desempenho menor das atividades industriais fora da cidade do Rio de Janeiro, acarretando na pequena industrialização nos Municípios da atual Região Metropolitana e do interior do Estado. A fragmentação da industrialização do atual Estado do Rio de Janeiro também pode ser explicada pela antiga divisão em dois Estados, ou seja, em duas unidades da federação sem a devida política de integração. Um outro fator que explica a pequena concentração de indústrias e fábricas em Niterói e em São Gonçalo seria a opção pela

22 22 localização no lado Oeste da Baía de Guanabara. A Ponte Rio-Niterói foi construída bem mais tarde, na década de 1970 e o trecho Niterói-Manilha da rodovia Federal BR-101 somente na década de 1980 para completar a ligação da rodovia Federal BR 101 norte, em direção ao Estado do Espírito Santo com o Sul, no trecho Rio-Santos, passando pela Avenida Brasil. Na década de 1940, a orla Oriental foi descrita pioneiramente pelo médico Luiz Palmier no consagrado livro São Gonçalo Cinqüentenário e na década de 1950 pelo geógrafo Pedro Geiger na Revista Brasileira de Geografia. Enquanto Palmier tenta enaltecer o Município de São Gonçalo como a Manchester fluminense, Geiger o descreve como um subúrbio da Cidade do Rio de Janeiro: São Gonçalo é na prática, um subúrbio do Rio de Janeiro, no qual fazendas e pomares foram e estão sendo loteados em benefício do crescimento urbano e da industrialização. A produção de cimento, papel, vidro, sardinhas, produtos químicos e matérias de construção são alguns dos ramos industriais deste importante município. Também aí, as empresas de ônibus têm se multiplicado, mantendo longas linhas de comunicação; o bonde e os trens suburbanos nas horas do rush são outros veículos coletivos que servem à população. A área urbanizada é muito extensa, pois é grande a dispersão do casario pelas antigas fazendas loteadas. Neves é conurbada ao bairro de Barretos em Niterói (GEIGER, 1956, p ). 3 A conurbação a que Geiger se refere, no texto acima na década de 1950, não se trata da ligação com a cidade do Rio de Janeiro. A Avenida Brasil e as obras na rodovia BR 101 se constituíram em eixo importantíssimo para integração do transporte após a elaboração desse trabalho do geógrafo para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. A ligação é completada na década de 1970 com a ponte, principalmente porque o acesso à cidade do Rio de Janeiro era limitado pela Baía de Guanabara. Em resumo, a limitação da expansão industrial no lado Leste se deve à Baía de Guanabara, assim como à conurbação entre São Gonçalo e Niterói também se beneficiou da nova proximidade com a cidade do Rio de Janeiro. As estradas que contornam a Baía não possuíam e ainda não possuem uma boa estrutura, além de aumentar em quase 100 km a ligação da BR 101 Norte com a cidade do Rio de Janeiro. Além das falsas oposições que aparecem à primeira vista entre São Gonçalo e Niterói e entre esses dois Municípios e a cidade do Rio de Janeiro, podemos observar alguns 3 GEIGER, Pedro Pinchas. Urbanização e Industrialização na Orla Oriental da Baía de Guanabara, Revista Brasileira de Geografia, Rio de janeiro, outubro/dezembro, p , 1956.

23 23 casos de complementaridade entre os dois Municípios acima citados. Contrariando a tese de Oliveira (2003), acreditamos que a expansão industrial de São Gonçalo não ocorreu a partir de Niterói em direção a São Gonçalo. A ocupação e a industrialização dos Municípios que formam a orla Oriental da Baía de Guanabara foi diretamente influenciada pelo núcleo metropolitano, mas são processos distintos e em alguns casos complementares. Podemos citar as indústrias de conservas e pescado e a indústria de cimento como exemplos dessa complementaridade. Tanto uma quanto a outra não eram encontradas no antigo Estado da Guanabara e sobretudo na cidade do Rio de Janeiro. A linha férrea que ligava o Município de Niterói a Itaboraí passando por São Gonçalo e a linha auxiliar que ia de Niterói ao Município de Maricá, também foram fatores importantes para a expansão da indústria e a formação do tecido urbano no eixo Niterói - São Gonçalo. Tanto o trecho da chamada Estrada de Ferro Maricá, quanto o trecho até Porto das Caixas em Itaboraí, pertenciam à Estrada de ferro The Leopoldina Railway, ligando a cidade de Niterói ao interior do Estado do Rio de Janeiro. Dialeticamente determinada, essa relação entre núcleo e periferia pode nos indicar que, ao mesmo tempo em que a ausência de transporte em determinada época limitou a expansão industrial, num outro momento o seu desenvolvimento provocou um dos maiores crescimentos de periferias metropolitanas no Brasil. Podemos citar como exemplo os casos dos vetores de expansão de São Gonçalo em meados do século XX, atualmente em Itaboraí, e em menor escala, Maricá no final do XX e início do século XXI. A falsa noção de atraso no desenvolvimento de Niterói, e principalmente de São Gonçalo, em comparação ao núcleo, cidade do Rio de Janeiro, comentada por Oliveira (2003), pode ser explicada pela falta de compreensão dos dois tempos, ou seja, dos ritmos de desenvolvimento de cada um desses Municípios. Enquanto a cidade do Rio de Janeiro tem a sua modernização planejada, Niterói e principalmente São Gonçalo, não tiveram e ainda hoje sofrem pela falta de planejamento. Segundo o mesmo autor os registros da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, a FIRJAN, apontam a Indústria de Galões de ouro e prata como sendo a primeira indústria na cidade do Rio de Janeiro em 1811, influenciada pela chegada da família Real ao Brasil. A vinda da família Real foi decisiva também para o desenvolvimento do primeiro

24 24 estaleiro brasileiro, o Arsenal da Marinha de Guerra. Segundo o engenheiro Pedro Carlos da Silva Telles, 4 o Arsenal do Rio de Janeiro, antigo centro de reparos navais, foi modernizado a partir de 1840 com a implantação de novas oficinas e com a vinda dos primeiros brasileiros formados em engenharia naval na Europa (TELLES, 2007). Mauá, que possuía contatos nos gabinetes ministeriais, sabia da necessidade de ampliação dos serviços navais e por isso comprou e ampliou a fábrica de Ponta d Areia em Niterói. 5 Observamos um intervalo de cinco anos, que vai da ampliação do Arsenal da Marinha à aquisição de um modestíssimo telheiro com máquinas primitivas de fundição de ferro e carreiras ao lado, onde se faziam barcos de vela (FARIAS apud VITORINO) 6 em Niterói no ano de 1845 pelo barão de Mauá. A pequena diferença de tempo pode dar pistas sobre a existência de uma complementaridade dialética entre centro e periferia. Mauá, sabiamente, cria a fábrica do outro lado da Baía para disputar mercado com as primeiras fábricas no Rio de Janeiro, segundo o mesmo autor. Quando, no início do século XX, inicia-se um período de retração na indústria do Estado do Rio de Janeiro por causa da I Grande Guerra Mundial e dificuldades no mercado, Niterói e São Gonçalo estavam iniciando um momento de expansão das seguintes indústrias: Companhia Brasileira de Usinas Metalúrgicas - CBUM em 1925, a Companhia Nacional de Cimento Portland, CNCP 7 em 1926 e a têxtil Companhia Fluminense de Manufatura, que apesar ter sido fundada em 1893, foi ampliada no Pós-guerra. As duas primeiras se localizavam em São Gonçalo e a segunda no Barreto, em Niterói. 4 Membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Nacional de Engenharia. 5 Pesquisado em novembro de 2007 no site: O conteúdo faz referência ao artigo de TELLES, Pedro Carlos da Silva. História da Engenharia Naval. S/d Mímeo. 6 FARIA, Alerto. Mauá. Irenêo Evangelista de Souza, Barão e Visconde de Mauá, , Paulo, Pongetti & Cia, pp. 134 a 135. Rio de Janeiro, 1926, apud. VITORINO, Artur José. Operários livres e cativos nas manufaturas: Rio de Janeiro, segunda metade do século XIX. Mímeo, págs. 6 e 7. Rio de Janeiro, Segundo a tese de João Cardoso de Mello foi implantada em 1924 com auxílio de capital canadense e americano e de incentivos governamentais. CARDOSO DE MELLO, João Manoel, IN: Capitalismo Tardio, página 183. Tese de Doutorado apresentada à UNICAMP, São Paulo, Contrariando a data citada por Cardoso de Mello, informações coletadas no site do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento: apontam que a Companhia Brasileira de Cimento Portland foi inaugurada em 1926 na cidade de Perus, 23 km de São Paulo. A produção brasileira de cimento saltou de toneladas em 1926 para em Depois de sete anos de hegemonia da Companhia Perus, a Companhia Nacional de Cimento Portland, subsidiária da empresa norte americana Lone Star, entrou no mercado cimenteiro. Adquiriu uma jazida calcária recém descoberta em Itaboraí, no Estado do Rio de Janeiro, e em seguida inaugurou sua fábrica no município de São Gonçalo, lançando o hoje tradicional cimento Mauá. O resultado é que, já em 1933, a produção nacional começava a ultrapassar as importações.

25 25 Até a década de 1920, o Brasil importava cerca de 90% do seu cimento. Empresas multinacionais se instalam no Brasil como uma forma de expandir o seu capital e suprir essa carência do nosso país. Um caso emblemático é a indústria de cimento Portland em Guaxindiba, 8 utilizando matérias primas retiradas de Itaboraí. Segundo a Tese de Oliveira, (2003, p. 53): neste novo cenário de crise econômica, a produção industrial no Estado se concentra mais nas grandes indústrias, capazes de intensificar a concentração de capitais através de maquinário moderno e de mais trabalhadores, como os setores metalúrgico, naval, têxtil e de moinhos, dentre outros. Além do mais, os salários na cidade do Rio de Janeiro eram mais altos que do outro lado da Baía de Guanabara, e contribuíram para redefinir a localização das indústrias que surgiram a partir da I Grande Guerra Mundial. De acordo com a tese de Oliveira (2003, p. 55 e 56): Neste mesmo período, também ocorre a expansão industrial para o Município de São Gonçalo, partindo da cidade de Niterói, como demonstrou Geiger (1956), ao avaliar a industrialização nos Municípios do Leste da Baía de Guanabara a partir dos anos Segundo Geiger, a industrialização no lado Leste da Baía de Guanabara teve início em 1845, com a instalação dos estaleiros fundados pelo Barão de Mauá em Ponta de Areia, gerando um pequeno núcleo industrial no entorno do estaleiro e do porto. Nesta época, onde hoje se encontra o Município de São Gonçalo, predominavam as olarias. Em 1893, porém, com a inauguração da Cia. Fluminense de Manufatura, localizada no bairro do Barreto, em Niterói, em terreno fronteiriço ao Município de São Gonçalo, a industrialização da região ganha novo impulso, favorecendo a expansão industrial no Leste da Baía, sobretudo dos setores químicos e farmacêuticos, naval, metal-mecânico, conservas e beneficiamento de minerais não-metálicos, particularmente nos ramos de cerâmicas, cimento e vidros. A expansão das atividades industriais para além do território do Distrito Federal, no entanto, não ocorreu sem uma forte resistência a esse espraiamento, por parte do Governo carioca. Como podemos observar, essas duas primeiras atividades industriais, uma em São Gonçalo e outra em Niterói, foram determinantes para definir a localização industrial na orla 8 Segundo o Sr. Sílvio de Oliveira, presidente da Associação dos Moradores e Amigos de Guaxindiba, Vista Alegre e Adjacências - AMAGUAVA. "Esperamos que o Comperj traga alguma coisa boa para a comunidade". Guaxindiba é um bairro pobre de São Gonçalo. Na comunidade moram oito mil pessoas sem acesso a serviços de água potável e tratamento de esgoto. Guaxindiba foi considerada, por alguns entrevistados com área de desova de cadáveres.

26 26 Oriental da Baía de Guanabara. Enquanto o Estado da Guanabara investem em sucessivos projetos para a criação de zonas de expansão industrial, além de distritos e pólos, da Via Washington Luís em 1928, atual Via Dutra, da Avenida Brasil, da Rodovia Presidente Dutra, ambas em 1952 e da Companhia Siderúrgica Nacional - CSN em 1946 em Volta Redonda, na época, distrito de Barra Mansa. Temos uma primeira definição da industrialização da orla Oriental da Baía de Guanabara, não apenas um processo que nasce a partir dos capitais da produção da cana de açúcar e da cafeicultura, mas de um processo de expansão de capitais nacionais e estrangeiros no território fluminense. Segundo Oliveira (2000, p. 10), para Davidovich a frágil rede de cidades no antigo Estado do Rio de Janeiro foi um dos fatores que induziram a concentração de população, de atividades e de recursos na metrópole do Rio de Janeiro. Segundo a autora, esses fatores limitaram o processo de ocupação e desenvolvimento do Estado. Como já citamos anteriormente, o período entre 1920 e 1940 foi positivo para o crescimento industrial de Niterói e, sobretudo, de São Gonçalo. Em 1956 tivemos os investimentos do Plano de Metas com o Governo Juscelino Kubitschek ( ), a expansão da industria naval, a modernização do parque têxtil e a construção da refinaria Duque de Caxias. Fatos aparentemente não muito relevantes, mas dignos de nota são a expansão da construção civil na Cidade do Rio de Janeiro e a construção do Estádio Mario Filho, o Maracanã, na década de O crescimento da indústria da construção civil, e mais tarde, a construção da Ponte Rio-Niterói, no início da década de 1970, representaram um aumento acentuado na produção e na venda de cimento e derivados produzidos na fábrica localizada em São Gonçalo 9. A expansão de um grande número de loteamentos na região na década de 1960 e as obras de construção da Rodovia Federal BR-101 e da Ponte Rio-Niterói, contribuíram para o aumento da densidade demográfica na orla Oriental da Baía de Guanabara. Ainda nessa 9 Os lucros com a ampliação da produção e da venda de cimentos na Companhia Nacional de Cimento Portland, apresentados para a época, não permaneceram em São Gonçalo. Notadamente foram enviados pela Lone Star Co. para os Estados Unidos da América. Só observamos grandes mudanças na unidade de São Gonçalo, quando o grupo francês LaFarge assume a Companhia em 1979.

27 27 década, temos dois fenômenos bem estudados: a transferência da Capital Federal para Brasília e a Fusão dos Estados da Guanabara e Rio de Janeiro. No final da década de 1960, mais precisamente em 1968, a indústria química se destaca em São Gonçalo com a vinda para o Brasil dos laboratórios americanos B-Braun 10. Além desse laboratório de grande porte, ainda encontramos no Município de São Gonçalo o laboratório farmacêutico Herald's e o Guanabara Química Industrial Ltda GETEC. 11 A título ilustrativo, atualmente a empresa B-Braun S.A. é líder na Europa e terceira no mundo no segmento de produtos médico-hospitalares. A empresa produz dezenas de itens de consumo como dispositivos descartáveis e acessórios diversos para o uso em medicina crítica 12 e terapia intensiva. A unidade de São Gonçalo é responsável pela coordenação de todas as atividades do grupo B-Braun na América do Sul. Na década de 1970 temos ainda a retração da indústria naval e o início do processo de fechamento e de transferência de muitas indústrias de Niterói e São Gonçalo. Esses fenômenos foram estudados em nossa dissertação de mestrado (MENDONÇA, 2000) e classificados como sendo o início do declínio da indústria nos distritos industriais do Barreto e de Neves. (ANEXO D). Em 1979, a empresa Lafarge se une ao grupo Lone Star, constrói uma fábrica em Cantagalo e compra a Companhia Nacional de Cimento Portland - CNCP em Guaxindiba, São Gonçalo. Atualmente no local encontramos, junto à Lafarge, as empresas: Chryso Brasil Ltda., Lafarge Aluminoso do Brasil Ltda e Qualimat Distribuidora de Materiais de 10 Segundo o site oficial do laboratório a empresa iniciou fabricando soluções ainda em frascos de vidro e pouco tempo depois trouxe da Alemanha novos conceitos e inovações tecnológicas para o desenvolvimento de novos produtos como: soros intravenosos e os aparelhos eletro-médicos para terapia intensiva. Fonte: Jornal O Fluminense, Niterói, 23/09/ asp?pstrlink=5,344,0,70007&indseguro=0 11 Segundo dados da Revista brasileira de química, a GETEC atualmente é fabricante de sorbitol, manitol e xarope de maltitol. A GETEC, de São Gonçalo, RJ, atua desde 1967 na conversão de açúcares nesses polióis. A empresa não divulga capacidade produtiva, mas segmenta o mercado em higiene oral, como detentora de 60% do volume consumido, sobretudo, pela indústria de creme dental; e em alimentício, em farmacêutico, com 20% do total, cada um. Fonte: 12 Termo empregado pela empresa para a medicina em Centros de Terapia Intensiva.

28 28 Construção. Estas pertencem ao grupo francês Lafarge, associada à Materis Holding Luxemburg S/A. 13 A institucionalização da Região Metropolitana do Rio de Janeiro só ocorre com a Lei Complementar nº 20 de 1º de janeiro de 1975, que cria também o novo Estado do Rio de Janeiro, através da Fusão. Desta época à década de 1980 temos a elaboração de Planos Diretores pela Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro - FUNDREM 14 em São Gonçalo, no ano de 1978, e do projeto do Metrô, que já contemplava a linha três que ligaria os Municípios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí. A crise econômica, a partir de fins dos anos 1970 e início dos 1980, comprometeu o processo industrial do Estado, principalmente nos setores naval e têxtil, configurando nos anos 1980 uma crise maior no Estado do Rio de Janeiro do que em outros Estados para esses setores. Em São Gonçalo, houve crescimento das indústrias de alimentos e química. A empresa americana Quaker Oats, através Quaker do Brasil Ltda, adquire a Fábrica Conservas Coqueiro em 1973, proporcionando um aumento na produção de conservas no País. Mais tarde, na década de 1990, ela adquire outras indústrias de conserva no Município de São Gonçalo e Niterói 15. Para liquidar a concorrência, a Quaker do Brasil adquire quase todas as empresas de sardinhas e alimentos de Niterói, São Gonçalo e até de Itaboraí Sociedade holding integrante do Grupo Materis. Empresa de origem luxemburguesa que atua nos segmentos: indústria química, petroquímica e indústria de produtos de minerais não metálicos. Segundo dados do Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE, o grupo participou de duas operações nos últimos três anos e registrou faturamento inferior a R$ 400 milhões no Brasil em Fonte. 14 FUNDREM. Plano Diretor do Município de São Gonçalo: Relatório Consolidado. RJ, A Quaker do Brasil Ltda representa a indústria americana Quaker Oats pertencente ao grupo Pepsico. (Pepsico do Brasil Ltda). No ano de 1973 adquire a Indústria de Conservas Coqueiro que operava em São Gonçalo desde Esta fábrica de São Gonçalo é hoje a maior unidade isolada de enlatamento de peixes do mundo. Atualmente a empresa é líder no mercado de sardinhas e de atum em lata com uma fatia de 40% do mercado desses produtos. O faturamento anual da Quaker do Brasil está alcançando 500 milhões de dólares, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Alimentícias, ABIA, para o ano de Como exemplo podemos citar as empresas gonçalenses: Conservas Piracema S/A; Conservas Rubi S/A; Sul Atlântico de Alimentos S/A Ind. e Com e a recente Pepsico do Brasil Ltda. Niteroienses: Atlantic Industrial de Conservas S/A, Cia. Industrial de Conservas Santa Iria; Frisa - Frigorífico Rio Doce S/A; Good Fish Produtos Alimentícios Ltda; Pimentel Fisching do Brasil Ltda (barcos de pesca). E em Itaboraí: Cooperativa Agropecuária dos Ranicultores do Estado do Rio.

29 29 Na produção de artefatos isolantes de vidro e tijolos refratários destacamos o grupo francês Seves, produtor da marca Vidromatone. Em 1979, o grupo francês Ceraver instalou em São Gonçalo a Eletro Vidro, empresa que atualmente pertence ao grupo francês Société Européenne d'isolateurs en Ventre et Composite - SEDIVER S.A. Hoje a Seves- Electrovidro S.A. é a única fábrica de isoladores de corrente de toda a América Latina. 17 Segundo a tese de Canosa (1998), ao se referir aos empresários do antigo Distrito Federal, a decadência econômica, nas décadas de 1970 e 1980 do Estado do Rio de Janeiro, poderia ser evitada se houvesse investimentos, por parte do Governo Federal, e se fossem evitados o crescimento e a concentração industrial em São Paulo. São Gonçalo, diferentemente de Niterói, apresentou uma industrialização diversificada, com vários setores industriais participando igualmente no crescimento municipal até a década de O Município foi diretamente afetado com o desemprego na indústria naval de Niterói, setor que chegou a empregar em 1975 vinte e três mil trabalhadores segundo os dados do Sindicato Nacional da Construção Naval. Em 1980, porém, os subsídios dados ao setor foram sendo cortados e, como conseqüência direta, muitas indústrias pertencentes à cadeia produtiva do setor naval foram fechadas, aumentando ainda mais os efeitos negativos na economia fluminense. (OLIVEIRA, 2003, p. 80). Em resumo, entre os anos 1975 e 1980 os setores que se sobressaíram na economia fluminense foram os setores de química, material de transportes, siderúrgicos e metalúrgicos, que se beneficiaram diretamente dos investimentos governamentais. Destacaram-se, também, o setor têxtil, no bairro do Barreto em Niterói e na Região Serrana, a indústria alimentar com o açúcar e a indústria química com o álcool, no Município de Campos dos Goytacazes. Niterói, diferentemente de São Gonçalo, com quarenta e oito bairros, limita-se geograficamente com a Baía de Guanabara a Oeste e com o Município de São Gonçalo ao norte. A construção da Avenida do Contorno na década de 1960 ampliou a ligação de Niterói com São Gonçalo e transformou a Avenida do Contorno em via de passagem para outros 17 Atualmente a empresa Seves Electrovidro S/A. de São Gonçalo produz blocos de vidro e isoladores para rede elétrica para toda a América Latina e ainda exporta para a Europa. A Electrovidro é associada a Vetroarredo da Itália, a Seves e a Sediver, empresas com sede mundial em Nanterre, na França. Fontes: e

30 30 locais ligando inclusive a Ponte Rio-Niterói à BR-101 em São Gonçalo e Niterói ao Norte Fluminense. O bairro do Barreto em Niterói, por exemplo, foi o principal pólo industrial do Município e nele encontravam-se instalados vários estabelecimentos têxteis além de muitas fábricas menores. Uma importante indústria têxtil que permanece em funcionamento até os dias de hoje é a Companhia Fluminense de Tecidos, antiga Companhia Manufatura Fluminense, cuja instalação data do início do século XX e que conserva a arquitetura e o modelo industrial daquela época, ou seja, mantém uma vila operária com aproximadamente 70 casas para trabalhadores. Constatamos, próximo a esta Companhia, que existe atualmente um processo de valorização de imóveis e a construção de novos empreendimentos imobiliários no Barreto. Podemos citar como exemplo o condomínio de edifícios Dr. March, na rua de mesmo nome, onde outrora havia uma fábrica de tecidos. Sendo de fácil acesso ao Centro da cidade e a outros Municípios, devido à proximidade da Ponte Rio-Niterói e da Rodovia Niterói-Manilha, o Barreto está passando por um processo de revitalização urbana e por recentes impactos com o retorno da indústria naval na área. A antiga fábrica de tecidos fluminense ainda existe no local, mas agora sobre o controle do grupo Bangu, proprietário da antiga fábrica no subúrbio carioca, transformada também em Shopping, inaugurado no final do ano de Segundo a tese de Oliveira, o Governo Federal recusou na década de 1980 a instalação de um quarto pólo petroquímico brasileiro no Estado do Rio de Janeiro, optando por distribuir os recursos destinados a esta instalação entre os pólos da Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul devido ao descrédito político do Estado do Rio de Janeiro. (OLIVEIRA, 2003, p. 82). Após a redemocratização política do país, mas com Governo oposicionista de Brizola, em 1983 a economia industrial do Estado sofreu um pouco mais do que os demais Estados. Este quadro de estagnação no Estado do Rio de Janeiro, considerado como de crise ou de esvaziamento econômico foi, de certo modo, o impulsionador de novas propostas para políticos e empresários pensarem em novas ações para recuperar a economia do Estado do Rio de Janeiro.

31 31 Logo no início da década de 1980 o Governo do Estado, representado pela Companhia de Desenvolvimento Industrial - CODIN e o empresariado, representado pela FIRJAN, elaboraram um zoneamento industrial prevendo a criação de um novo condomínio industrial em Guaxindiba, São Gonçalo. Esta proposta não foi implementada, mesmo sendo repetida no Plano Diretor Municipal de A FIRJAN, tendo como presidente um representante do setor naval, Arthur João Donato, propõe a interiorização da estrutura do órgão com a instalação de sedes regionais e a unificação de ações. Além das novas descobertas de poços de petróleo no Norte Fluminense, suas ações foram estratégicas para o crescimento desse setor, sobretudo na retomada da construção naval no Município de Niterói na década de São Gonçalo, além de não possuir apoio da FIRJAN como Niterói, ainda contava com uma forma bizarra de alternância de poder político municipal que se dava entre dois grupos. (ANEXO A). No ano de 1954 até o final da década de 1980 alternavam no poder o grupo Lavoura e a oposição. 18 De 1989 até 2002 revezavam os grupos populistas ligados ao partido de Brizola, PDT, e o grupo de oposição. Essa dualidade na política local só foi, aparentemente extinta, com a eleição de Aparecida Panisset no antigo Partido da Frente Liberal, PFL e atual Democratas em De modo especial, A crise carioca tem sua origem próxima na década de O período entre a década de 1960 e a década de 1980, pode representar uma contribuição política negativa devido à ausência de planejamento ou pelo esvaziamento industrial. A partir do quadro político local, notamos que a política é visivelmente uma borra 19, dificilmente decifrável de governos acusados de corrupção, omissão, descaso com o município, governos interinos para substituir prefeitos investigados, governos populistas, como por exemplo, a administração Lavoura, eleito nos anos de 1954, 1962 e Segundo um jornalista da época, Hamilton Monteiro: Embora haja esforços para renovação das direções partidárias, para que haja maior penetração e dinamismo aos partidos, poucos diretórios o fazem, normalmente os nomes mais antigos, gastos pelo tempo, eternos feudatários das executivas dos diretórios, que não podem se eleger; o fazem por 18 Joaquim de Almeida Lavoura foi eleito três vezes para a prefeitura e obteve sucesso oferecendo o seu apoio para eleger sucessor, Jeremias de Mattos Fontes, para assumir o Governo do Estado do Rio de Janeiro. 19 Expressão utilizada em entrevista por um funcionário da Prefeitura Municipal de São Gonçalo em 2005.

32 32 intermédio de pessoas por eles indicadas, seus fiéis seguidores. [...] Há 16 anos que o Município é dominado por um feudo político altamente nefasto ao desenvolvimento. O resultado disso é que chegamos aos dias atuais sem as mínimas possibilidades de enfrentar as crises infra-estruturais [...] Nesse período a população, viu crescer as praças públicas [...] há que surgir planos e não improvisações que atendam interesses oligárquicos. [...] Não é com caneta ou picareta na mão, conforme dizia uma música cantada na campanha eleitoral de 1958 que se governa e, sim, colocando a mente, para funcionar. 20 Não é necessário elaborar uma complexa retrospectiva política para observar que São Gonçalo durante muitas décadas padeceu por falta de planejamento urbano, e essa ausência, dolosa ou não, associada às disputas nacionais e regionais pela hegemonia no crescimento econômico corroborou para a atual conjuntura industrial. As empresas bem sucedidas atualmente fazem parte de um grupo hegemônico externo que planejou essa expansão com prescrições homeopáticas. Com a ascensão no cenário político do grupo ligado ao governador Leonel Brizola, São Gonçalo também passa a fazer parte dessa nova coalizão política. A primeira eleição de Edson Ezequiel de Mattos pelo Partido Democrático Trabalhista, o PDT 21, colocou em xeque a hegemonia do grupo Lavoura na dominação política e econômica da cidade. O que parecia, a princípio, uma mudança na política local com o fim de um grupo conservador, tornou-se uma nova hegemonia. O populismo do grupo de Ezequiel foi responsável pela renovação da Câmara Municipal, com mais de 70% dos vereadores. Enquanto isso, o grupo Lavoura elegeu apenas três das vinte e uma cadeiras na Câmara dos Vereadores. A partir da Constituição de 1988, São Gonçalo, como muitos Municípios, é obrigado a produzir o seu Plano Diretor Decenal PDD. O prefeito Edson Ezequiel contratou o escritório Mayerhofer & Toledo para elaborar o primeiro Plano Diretor do Município após regime militar, (MENDONÇA, 2000). Ezequiel Neves e o seu grupo político permaneceram no controle da Prefeitura Municipal de São Gonçalo de janeiro de 1989 até Nesse período foi prefeito duas vezes, 20 MONTEIRO, Hamilton de Mattos. Artigos: Sucessão municipal I e II. Jornal O São Gonçalo, 19 e 20 de fevereiro de Apud BARRETO, Edila Gomes: Joaquim de Almeida Lavoura, o nome que virou lenda e as suas eleições. Páginas: 42 e 43. Mimeo, 53p. Ffp/Uerj, Rio de Janeiro, Com a entrada em cena do Governador Anthony Garotinho no Governo Estadual, o grupo de Ezequiel Neves e sua esposa Graça Mattos migrou para o PMDB, onde permanece até o presente momento.

33 33 intercalando com seu ex-secretário João Bravo ( ). As alterações mais significativas na política urbana do Município só retornaram à cena política a partir da eleição em 2000 do prefeito Henry Charles, ( ). Político remanescente do grupo Lavoura, o Dr. Charles como é conhecido, tem seu reduto político nos bairros próximos a Alcântara. A sua administração, com apoio do Governo Estadual de Anthony Garotinho, criou o programa São Gonçalo 2000, que tinha como eixo central a reurbanização da cidade principalmente o bairro de Jardim Catarina. Dr. Henry Charles convidou o arquiteto Luiz Paulo Conde, ex-prefeito do Rio de Janeiro, para propor melhorias na cidade. Conde utiliza a organização não-governamental viver cidades para realizar estudos de diagnósticos preliminares para São Gonçalo, como também para vários Municípios brasileiros. Durante a administração do Dr. Charles, ultrapassa o prazo para a realização da revisão decenal do PDD, mas mesmo com muitas pressões de parte da sociedade organizada e da mídia, não foi feita. A revisão do PDD foi protelada, e quase deixada de lado até 2006, quando a atual legislação da prefeita Aparecida Panisset, contratou o escritório brasiliense Technum Consultoria S.S. 22 para elaborar a revisão. A política gonçalense, bem como a de muitas cidades brasileiras é marcada por diferentes tipos de relacionamento entre o público e o privado. 23 Atualmente, a política local é marcada pelo governismo 24 e pelo assistencialismo religioso, inaugurado no Estado do Rio de Janeiro pelo casal Garotinho, obtendo sucesso em São Gonçalo. A cidade tem, no momento, segundo dados do IGBE, 50% de adeptos de religiões evangélicas. 25 Essa adesão influenciou no processo decisório local e está sendo utilizado, segundo depoimentos, para determinar a localização de obras e interferências na política urbana local. Segundo entrevistados, a 22 Ver por exemplo o site pesquisado em 27 de maio de Ver por exemplo conservadorismo, populismo, clientelismo, personalismo e fisiologismo. 24 O governismo em São Gonçalo é, segundo (ANDRADE, 1998), uma estratégia política onde membros do Legislativo Municipal apóiam o Executivo na produção de políticas públicas em troca da transferência de recursos do Executivo para suas bases eleitorais. Os parlamentares abrem mão do poder de veto, obstrução e controle e o Executivo distribui cargos, vantagens e apoio do governo. Há muito tempo não é relatado a oposição sistemática na Câmara dos Vereadores de São Gonçalo. Observa-se, que a partir da administração do Dr. Charles, quando esse pacto é quebrado surgem denúncias de relacionamentos impróprios com empresas como a Mafran na compra de merendas escolares e mais recentemente, na administração de Aparecida Panisset, com a empresa Gualtama, na construção de praças. 25 OLIVEIRA, Italmar Santos. A territorialidade evangélica pentecostal: um estudo de caso em São Gonçalo, RJ. Dissertação de mestrado para o Ibge/Ence. Rio de Janeiro, 2005.

34 34 Prefeitura estaria favorecendo determinados redutos, vereadores e grupos religiosos que apóiam a sua reeleição. Denúncias de governismo, ou de relações de fisiologismo entre Executivo e o Legistativo Municipal, e de corrupção não são recentes. Durante a administração do prefeito Henri Charles, a política urbana foi sendo paulatinamente associada aos escândalos, na mídia, envolvendo denúncias de corrupção na compra de merenda para as escolas do Município em Rede Nacional. 26 A empresa Marval, na época sediada em Vila Velha, Estado do Espírito Santo, foi denunciada na televisão pelo irmão do prefeito Henry Charles, então secretário de Governo da PMSG responsável pelas compras do município. O irmão do prefeito, sofrendo com ameaças do legislativo, convidou um jornalista da televisão para instalar câmeras em seu gabinete e flagrar as denúncias que apontaram vereadores, advogados, empresários e um exvereador, oferecendo vantagens ou cobrando pelo silêncio e apoio político. 27 Além do governismo citado, é comum encontrar, ainda, a prática do clientelismo, segundo entrevistas 28, este tipo de relação política existe desde os primeiros governos 26 O repórter Eduardo Faustini da Rede Globo, durante 30 dias se fez passar por um substituto do secretário de gabinete da Prefeitura de São Gonçalo, George Calvert, irmão do prefeito e gravou cenas de tentativa de suborno e corrupção. Segundo a gravação, exibida em rede nacional no programa Fantástico da Rede Globo (21/04/2002). Aparem na gravação: o Vereador Ricardo Castor pede R$ 30 mil por mês para parar com as críticas à Prefeitura; o Sr. Miguel Nogueira, advogado do vereador Ricardo Castor intermediando a chantagem; o Sr. Geraldo Cunha, ex-presidente da Câmara oferecendo comissão, caso conseguisse a concessão de um estacionamento e assumindo que aumentou o salário dos assessores parlamentares para "sobrar mais dinheiro para ele e os colegas vereadores"; o Sr. Miguel Macedo, empresário que ofereceu comissões sobre contratos e também o Sr. Giovani Genta, representante da empresa Adter, administradora de terminais rodoviários ofereceu uma "porcentagem" para a administração dos estacionamentos da cidade. Fontes: Fantástico - Rede Globo - 21/04/2002; fonte: site da rede globo de televisão: Os bastidores da denúncia que escandalizou o Brasil. 27 A notícia de corrupção também foi comentada na mídia mundial pela organização mundial de direitos humanos, The Human Rights. Segundo seu dossier: A television reporter from the Globo networked mentioned in the preceding text is Eduardo Faustini. During a project on which he was working for the Sunday evening program Fantástico, he spent a month undercover as the Secretary of the São Gonçalo Town Council Planning Unit (Rio de Janeiro State). Faustini stated that during this time he was offered a bribe to contract the services of a company called Marval Comércio and Services (based in Espírito Santo) as well as other companies. Faustini taped a number of conversations, which were subsequently aired on the Fantástico national television program. In these conversations, Miguel Macedo, a Marval lobbyist, offered a bribe of 20% in return for a contract with the Town Council. Macedo told Faustini that the same type of scheme was being run between Marval and public administrations in Belford Roxo (Rio de Janeiro State) and in Vila Velha (Espírito Santo State). He explained that, in Vila Velha for example, a 20% commission was paid by Marval to the Transport Secretary, Miguel Fernandes. Fernandes then passed on a further commission to the Mayor, Max Filho. Fontes: The Human Rights Crisis in Espírito Santo: threats and violence against human rights defenders. Julho de 2002; pdf; July 7, As principais entrevistas sobre a política local foram realizadas no ano de 2007 com funcionários da Prefeitura Municipal e prestadores de Serviços ligados à Administração. Para tentar preservar as suas identidades optamos por não citá-los ou mesmo usar pseudônimos.

35 35 democráticos em São Gonçalo. Hoje o clientelismo produz uma divisão do território da cidade por vereadores e candidatos. Em entrevistas ouvimos até a designação, absurda, de divisões em feudos, onde verdadeiros senhores feudais teriam poder político, econômico e em alguns casos de força, como por exemplo no controle dos transportes alternativos. Em muitos bairros são encontrados centros sociais ou centros comunitários controlados direta ou indiretamente por candidatos ou por seus aliados visando diversos cargos legislativos e executivos. Até mesmo a prefeita tem a sua associação. Além da ilegalidade, prevista por Lei, essas associações recebem recursos públicos para sua manutenção. A tese de (SENNA, 2004), por exemplo, está repleta de casos desse tipo de assistencialismo na saúde pública no território municipal. Segundo ela, há um verdadeiro loteamento da cidade no atendimento de demandas da saúde, saneamento básico entre outras obras públicas. Desde o início do mandato de Henry Charles pesquisas vêm comprovando a permanência desse tipo de clientelismo. A título ilustrativo, estudos de Senna (2004, p. 136) citam entrevistas realizadas em 1998, nas quais dos vinte e um vereadores gonçalenses, dezessete prestam algum tipo de assistência social para a população local, (Santos Júnior, 2001). Destes, quatro declararam possuir ao menos um centro de atendimento comunitário [...], (além de) encaminhamento para serviços especializados, corte de cabelos, cursos profissionalizantes, emissão de documentos e assistência jurídica [...] Tem todo um esquema que não custa nada para o político. O político não investe sequer um real, ele não gasta nada. Ele só recebe as vantagens. Ele tem as fundações que divulgam o seu próprio nome [...] São fundações onde se coloca o esquema da ambulância, que é só para levar uma pessoa dali que está passando mal até o pronto socorro; onde se consegue remédios na própria farmácia do município. E a população fica satisfeita, porque ela conseguiu resolver logo o seu problema; foi atendida de imediato (SENNA, 2004, p. 136 e 137). A administração do Dr. Charles ( ) no PMDB pode ser um exemplo do poder que o assistencialismo tem na cidade. Foi eleito vereador duas vezes consecutivas, Deputado Estadual e prefeito do município. Sua campanha eleitoral para prefeito foi pautada na ordem urbana da cidade e na melhoria da saúde com o slogan: chame o doutor!. Recebeu apoio do então Senador Sérgio Cabral Filho e do ex-governador Welington Moreira

36 36 Franco nas carreatas e nos comícios que presenciei na Brasilândia. Foi notável a oposição do PDT de Ezequiel Neves e seus candidatos a vereador, uma clara resistência ao retorno de representantes do grupo Lavoura ao poder, no qual um desses representantes era o ex-prefeito Hairson Monteiro, candidato a vice-prefeito na chapa de Henry Charles. A dinâmica política local não é diferente de muitos Municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, RMRJ, mas podemos identificar algumas especificidades para entender a política urbana. Percebemos que, apesar dos discursos, o aperfeiçoamento da política urbana não é prioritário. Mesmo com o atual Plano Diretor Decenal, PDD de São Gonçalo e diversas Leis que regulam a organização político-administrativa do Município, ainda continuam utilizando a divisão territorial elaborada na década de 1940 e reafirmada nas décadas de 1960, 1990 e no atual PDD. Um dado constante nas entrevistas, segundo alguns entrevistados, é o conformismo representado por frases como: São Gonçalo é assim porque sempre é administrada por pessoas de fora, por políticos que moram no Rio de Janeiro e em Niterói e usam o eleitorado para se eleger, mas depois não retornam à cidade. 29 As campanhas de Alice Tamborideguy para a Prefeitura e para a Assembléia Legislativa são dados citados como referência. Esse comportamento de culpabilidade dos políticos de fora foi utilizado para comentar a influência do Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, César Maia na administração local. O prefeito do Rio de Janeiro enviou alguns secretários para trabalharem em São Gonçalo, mudou a cor da Prefeitura para laranja como no Rio de Janeiro e os uniformes das escolas municipais e da Guarda Municipal. Também é comum, segundo entrevistas, ouvirmos comentários políticopartidários afirmando que alguns prefeitos de São Gonçalo acabam comprando mansões em Camboinhas e Itaquatiara, bairros nobres de Niterói, mas mantêm a sua residência política em São Gonçalo. Dificilmente a população local, analisada através dos entrevistados, admitiu que a política urbana é realizada com a participação de gonçalenses, alguns na política há mais de trinta anos, e não por pessoas que têm a cabeça no Rio de Janeiro e em Niterói e os pés no chão de São Gonçalo. 29 Entrevista realizada com um funcionário da Prefeitura Municipal de São Gonçalo em 2006.

37 37 Parece uma contradição, mas os políticos gonçalenses são considerados conservadores, como os políticos do grupo Lavoura, mas se inspiram nos contemporâneos como os de Niterói e do Rio de Janeiro. Um clássico exemplo é a atual administração, no qual a prefeita Aparecida Panisset tentou, de várias formas, a aliança política com o prefeito Godofredo Pinto do PT de Niterói, e faz referências à política urbana participativa, mas não consegue se dissociar da prática administrativa de César Maia, Partido Democrata, do Rio de Janeiro. Algumas pesquisas na imprensa apontam pelo menos duas tentativas frustradas da prefeita Aparecida Panisset em migrar para o partido dos trabalhadores 30. Em ambas as ocasiões o Diretório Municipal repeliu a sua entrada no PT 31. Apenas o PDT aceitou a sua entrada na legenda. Aparecida Panisset, filiou-se ao PDT, acompanhada pelo pré-candidato da legenda à Prefeitura de Niterói, Jorge Roberto Silveira. Durante a assinatura da ficha de filiação a prefeita comentou: Estou muito feliz por retornar ao PDT, onde me iniciei na política. Este partido sempre esteve em meu coração [...]. O mais importante não é o meu retorno. É preciso escutar o povo, que não é compreendido nem ouvido. Ele precisa de nós. 32 Enfim o que parecia, à primeira vista, como sugere (SENNA, 2004) o fim do domínio político do grupo Lavoura com a vitória do grupo brizolista de Edson Ezequiel em 1988 e depois com a substituição deste pelo grupo do antigo PFL, parece mais um intervalo populista, prontamente preenchido pela velha política conservadora representada antes pelo grupo Lavoura, e agora pelo velho conservadorismo modernizado com o retorno da prefeita Panisset ao PDT. Eleita vereadora em 1996 pelo PDT, Panisset novamente no partido se prepara para concorrer à reeleição em 2008 com o apoio do brizolismo modernizado por Jorge Roberto da Silveira, que a título ilustrativo, filho do antigo governador do Estado, Roberto Silveira, ligado ao grupo Lavoura em São Gonçalo. 30 Jornal O Fluminense, sexta-feira, 18 de maio de Caderno Política. 31 Na última tentativa, o diretório municipal do Partido dos Trabalhadores de São Gonçalo, reunido em sua sede no Boaçu, decidiu não aceitar o pedido de filiação da Prefeita Panisset. Parte do PT local vem mantendo conversação com o deputado estadual Altineu Côrtes. Nosso Jornal de Notícias. PT decide domingo se Panisset ingressará na legenda. Edição São Gonçalo, 07 a 09 de julho de CARVALHO, Anderson. Prefeita Aparecida Panisset assina filiação ao PDT em São Gonçalo. Jornal O Fluminense. Caderno política. 20/08/ asp?pstrlink=2,5,0,119061&indseguro=0.

38 38 A expectativa de mudanças positivas, seja na política urbana, no desenvolvimento sócio-econômico, saúde ou na educação é similar à maioria das cidades brasileiras, mas um dado que nos parece específico de São Gonçalo é que essa esperança quase sempre se faz com alternância do poder. O grupo Lavoura permanece no poder da década de 1950 até a década de O grupo brizolista permanece do final da década de 1980 até o ano 2000, quando retorna a política lavourista com Henry Charles, de certa forma, presente até os nossos dias nos discursos da Prefeita Aparecida Panisset. 33 Enfim, buscar mudanças recentes e significativas no eixo, Niterói Itaboraí, que corta o Município de São Gonçalo conduz a um contexto contraditório e difuso, caracterizado pela convivência de pobreza e carência de serviços urbanos básicos, lado a lado da riqueza e expansão de indústrias de ponta como os laboratórios, a indústria de alimentos e de artefatos isolantes de vidro. Podem ser encontradas também contradições no predomínio de relações políticas conservadoras e nos discursos modernizadores. As mudanças recentes, sobretudo econômicas, são reflexos dessa expansão de indústrias e dos investimentos de agentes externos, grupo Ecia/Irmãos Araújo na construção do São Gonçalo Shopping, por exemplo. Além de sobejos de políticas mais amplas como a decisão dos governos Federal e Estadual de retomar a política de construção naval em Niterói ou o complexo petroquímico do Estado do Rio de Janeiro, o COMPERJ. Esses exemplos, direta ou indiretamente, podem gerar mudanças e empregos em São Gonçalo. Enfim, a cidade possui pelo menos duas fases distintas de mudança. Uma ligada à expansão fordista das indústrias que entra em declínio na década de 1970 em São Gonçalo e outra que se inicia com a implantação de mercados e shoppings com a ampliação dos setores de comércio e de serviço a partir da década de O atual momento parece ser de confirmação da posição hegemônica das principais indústrias e ao mesmo tempo de expansão da oferta de serviços e comércio. Mesmo com sucessivas ampliações, ainda há a carência nos setores de lazer, saúde e educação. 33 Segundo a imprensa local: Aparecida ofereceu ao PT, as Secretarias de Governo e de Trabalho - esta já ocupada pelo petista Luiz Paiva - e as subsecretarias de Habitação e Educação. Porém, os petistas almejam muito mais: querem a Secretaria de Educação, por entenderem que ali poderão ser incrementas as políticas públicas adotadas pelo Governo Lula em todas as prefeituras ad-ministradas pelo PT no país. O outro ponto de difícil acordo é a convivência no escalão municipal com membros do partido Democratas, ex PFL, que são liderados pelo Prefeito César Maia, adversário contumaz do presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores. Jornal O São Gonçalo, edição 2525, caderno política, 7, 8 e 9 de julho de 2007.

39 39 Não importa se a conjuntura política local tende para uma linguagem que lembra progressismo político, fazendo um mimetismo de lulismo petista ou se tende para o velho conservadorismo dos barões da política gonçalense, a dinâmica da política urbana local descrita pelos entrevistados tem sempre variações muito tênues. A ausência de grandes mudanças, de novos grupos no cenário político local pode explicar a atual conformação da cidade. A condução política da questão urbana carece de gerenciamento, o que impede o desenvolvimento de novas práticas de administração pública e da ampliação democrática na participação do processo de mudança social. Um círculo vicioso no qual a cidade não se desenvolve porque não há vontade política suficiente, e quando não existe essa vontade, não são criadas novas idéias e possibilidades de mudança.

40 São Gonçalo: Identificando as Transformações Sócio-Econômicas Esse item apresenta algumas transformações mais significativas nesse espaço urbano através de análises de dados sócio-econômicos e do levantamento das principais atividades. A delimitação empírica abrange o eixo viário ou conurbação que liga o Município de Niterói, extremidade Sul do eixo, com o Município de São Gonçalo, na extremidade Norte. As principais referências geográficas para melhor compreensão deste trabalho são a rodovia BR- 101, a antiga ligação férrea da Leopoldina no trecho Niterói Itaboraí e a chamada orla Oriental da Baía de Guanabara. Como exemplos de transformações recentes, são observadas: a construção de novos locais de comércio e de serviço como o São Gonçalo Shopping Rio, as novas áreas de lazer em torno da Baía de Guanabara como o Parque da Praia das Pedrinhas e o Piscinão de São Gonçalo. Enquanto objetivo secundário discutimos também, alguns projetos como a Estação Hidroviária de São Gonçalo e os planos para o aumento do número de empregos na indústria naval niteroiense e gonçalenses. 34 Para investigar e compreender algumas transformações ocorridas na área, consideramos alguns investimentos do capital internacional onde existiam apenas fábricas e indústrias de médio e pequeno porte descritas anteriormente. Hoje encontramos também empresas como a Quaker Oats, Akzo Nobel (International tintas), a Gerdau (departamento comercial), a Vidromatone e grandes hipermercados como o Carrefour em São Gonçalo e o Sam s Club do grupo Wal Mart em Niterói. Além da entrada de grandes cadeias de lanchonetes, Bob s e McDonalds, bem como lojas chamadas de âncora no novo shopping. O lazer é representado pela escola de samba Porto da Pedra no bairro Vila Lage em São Gonçalo e pela Viradouro no Barreto em Niterói. Representam um novo perfil para essas localidades antes ocupadas por fábricas, vilas operárias e habitações da classe média. 34 A partir da construção de novas plataformas, a Petrobrás, está gerando milhares de vagas, diretas e indiretas nos projetos de expansão no setor de petróleo até o ano de O projeto do Comperj será devidamente analisado nos capítulos da segunda parte desse trabalho. Desde a inauguração, no dia 23/11/2005 da plataforma P-50 houve um aumento na produção nacional de petróleo de 1,9 milhão de barris por dia até Segundo a Petrobrás o País deverá estar produzindo 2,3 milhões de barris diariamente. Jornal O Dia, quinta-feira, 24 de novembro de 2005, pág. 19. Atualmente O Rio de Janeiro constrói e repara cerca de cinco plataformas, sendo quatro delas (P-43, P-54, P-52 e P-51) em Niterói. Os estaleiros Mauá-Jurong, associado ao Maric SCCS, da China; Enave-Renave; McLaren; Ebin-Ultratec; CBO; o grupo, Roy Reiter e o Promar; entre outros menores. Em São Gonçalo apenas o estaleiro Cassinu produz peças navais e está ligado a CBO. Companhia Brasileira de Offshore.

41 41 A dinâmica demográfica no eixo Niterói-Manilha também provoca um considerável interesse sociológico. São Gonçalo em outubro de 2004 já se apresentava como segundo maior colégio eleitoral do Estado do Rio de Janeiro com 592 mil eleitores. Esta potência política não foi atraente para o Partido dos Trabalhadores que rejeitou a entrada da atual prefeita como já foi descrito 35 e contribuiu para a escolha do Município de Itaboraí para receber investimentos do COMPERJ. O partido dos Trabalhadores administra o Município de Niterói 36 com menor número de habitantes que São Gonçalo, passou por mudanças substanciais em diversos setores tais como: transportes viário e marítimo, setor de turismo com o caminho Niemayer e o Museu de Arte Contemporânea e setor industrial, primeiro com a parceria da FIRJAN 37 e depois com investimentos dos Governos Estadual e Federal. Um conjunto de recursos do Governo do Estado como o programa Rio Oil & Gas e do Governo Federal como o apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES se traduziu em investimentos e projetos para a indústria naval e para o desenvolvimento local 38. O Município de Niterói aparece na imprensa como exemplo de lugar onde houve o aumento na qualidade de vida e de possibilidades de emprego, enquanto São Gonçalo aparece nas páginas policiais e, no máximo, em alguns discursos que comentam o aumento da auto-estima dos moradores com os novos espaços de consumo, trabalho e lazer. Segundo um jornal de grande circulação metropolitana temos agora: 35 Nos meses de junho e julho, de 2007, os jornais locais de São Gonçalo e de Niterói noticiaram a tentativa da prefeita de São Gonçalo em ingressar no PT, mas o diretório municipal não aceitou o seu ingresso no Partido. Esta estratégia política foi a última cartada para a busca de recursos para os empreendimentos do COMPERJ na cidade e para receber apoio político nas eleições de Em 2004 o prefeito eleito em Niterói foi Godofredo Pinto do PT com 65,09% ou votos. Enquanto que João Sampaio, do PDT, recebeu 34,91% ou votos. Como foi feriado prolongado, foram 11% ou 34 mil abstenções. O PFL venceu nos dois maiores colégios eleitorais - Rio e São Gonçalo, que juntos representam 50% da população do Estado. Foi Eleita no primeiro turno com 51,95% a deputada estadual e futura prefeita de São Gonçalo Aparecida Panisset, PFL. No período anterior foi prefeito o médico e ex Deputado Estadual Henry Charles. A prefeita de São Gonçalo se comprometeu a participar da campanha do petista Godofredo Pinto em Niterói. Jornal O Fluminense, Publicada na internet em: 11 de outubro de O último documento pesquisado, elaborado pelo FIRJAN em 2006, só cita São Gonçalo em uma explicação sobre os municípios que compõem a região metropolitana do Rio de Janeiro. Ver página 23. Mapa do Desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro : Rio de Janeiro: Sistema FIRJAN/DCO, 112 p Segundo o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, o Estado do Rio de Janeiro é o principal alvo dos investimentos. Um investimento total de US$ 32 bilhões (R$ 71,6 bilhões) nos próximos cinco anos. Jornal O Dia, página 19. Rio de Janeiro, 24 de novembro de 2005.

42 42 Shopping center, quatro hipermercados, redes de fast-food, academia com piscina e aparelhos de última geração, praia bombando com água limpa. Você está pensando na Barra da Tijuca? Enganou-se. Estamos falando da Barra de São Gonçalo, como já está sendo conhecido trecho de aproximadamente 10 quilômetros na Rodovia Niterói-Manilha, que reúne todos os atrativos do paraíso do consumo carioca e virou de vez point do Município com a inauguração do Piscinão de São Gonçalo há 10 dias. 39 Fenômeno semelhante de euforia somente foi observado em 1940 pelo médico e pesquisador Luiz Palmier quando denominou o distrito industrial de Neves de Manchester Fluminense. 40 Esse entusiasmo pode ter contribuído para atrair de novos moradores e à conseqüente explosão demográfica que aconteceu em São Gonçalo entre as décadas de 1950 e 1970 quando as indústrias locais, e também de Niterói, atraíram um considerável contingente populacional aumentando o número de loteamentos regulares e clandestinos no município. Fato semelhante está acontecendo novamente em São Gonçalo e mais expressivamente em Itaboraí por conta da instalação do COMPERJ. Tabela 1. Explosão demográfica em São Gonçalo entre as décadas de 1950 e 1970 em relação a RMRJ. Número de lotes em 1000 unidades Município de São Gonçalo até / / / 78 TOTAL Percentual de crescimento 16,5 127,4 33,3 20,9 198 Total da Região Metropolitana RJ 186,3 774,6 267,9 196,3 1425,1 Fonte: Cadastros da Prefeitura Municipal para 1978 e dados da FUNDREM para 1979, apud (SANTOS, 1982, p. 84). Hoje o crescimento populacional não acompanha o crescimento de ofertas de postos de trabalho na região. O mercado de trabalho local, como em muitos Municípios do Brasil, ainda vive o efeito retardado desse crescimento demográfico de duas últimas décadas 41 e acumula um contingente populacional de baixa escolaridade e renda, principalmente em São Gonçalo. A título de ilustração, fenômeno semelhante ao de São Gonçalo pode ser constatado atualmente nos Municípios de Macaé, Campos dos Goytacazes e mais recentemente Rio das Ostras no Norte fluminense. Segundo (NATAL, 2003, p. 37), alguns Municípios situados fora da região metropolitana apresentaram taxas de crescimento populacional bem maiores do que a taxa média em função das ofertas de trabalho em torno 39 Jornal O Dia, Rio de Janeiro, domingo, 17 de outubro de Alguns outros municípios do Rio de Janeiro e mesmo do Brasil já receberam esse tipo de eufemismo. No Estado do Rio de Janeiro, podemos citar o Município de Volta Redonda nas décadas de 1940 e TCE, Estudo Socioeconômico sobre o Município de Niterói, pág. 58. Rio de Janeiro, 2004.

43 43 da extração de petróleo na Bacia de Campos. 42 A migração para a região vem crescendo sensivelmente e contribuindo por um lado para o aumento do valor da terra e, por outro para a geração de, problemas sociais, econômicos e de infra-estrutura. São Gonçalo, diferente no Norte Fluminense, apresentava no censo de 2000 uma população de habitantes, correspondentes a 8,3% do contingente da Região Metropolitana do Rio de Janeiro - RMRJ. Dados sobre o Município indicaram uma taxa média geométrica de crescimento no período de 1991 a 2000 de 1,49% ao ano contra 1,17% na região e 1,30% no Estado. O contingente de eleitores de São Gonçalo representa aproximadamente 64% da sua população. O Município tem um número total de domicílios, com uma taxa de ocupação de 87%. A faixa etária predominante encontra-se entre os 20 e 39 anos. Os idosos representam 9% da população do Município contra 16% de crianças entre zero e nove anos. A população local distribui-se no território municipal conforme o quadro a seguir: Tabela 2. População de São Gonçalo. Habitantes por Distrito. Divisão política. São Gonçalo Monjolos Ipiíba Neves Sete Pontes TOTAL Fonte: Censo do IBGE Segundo esse último censo do IBGE a população dos dois principais distritos, Neves e São Gonçalo, cortados pela rodovia BR-101 é de habitantes. O Município de São Gonçalo ocupava a 23ª posição no Estado em 2000 no Índice de Desenvolvimento Humano Médio - IDH-M de 0,782. Com relação aos componentes do índice, São Gonçalo apresentou o IDH-M educação de 0,896 equivalente a 12 a. posição no Estado e pontuou 0,742 no IDH-M esperança de vida na 40 a. posição dentre os noventa e um Municípios. Seu IDH-M renda foi de 0,706 ficando na 31 a. posição no Estado do Rio de Janeiro. 42 O autor comenta sobre municípios de Cabo Frio (66,2%), Macaé (41,4%), Angra dos Reis (39,4%), Teresópolis (14,4%), Petrópolis (12,2%), Volta Redonda (9,9%) e Campos (8,2%). NATAL, Jorge. Rede Urbana e Desenvolvimento Econômico Fluminense: um estudo de caso. Mimeo. 37p. IPPUR/UFRJ

44 44 Para uma breve comparação podemos afirmar que Niterói tinha em 2000 uma população de habitantes, correspondente a 4,3% do contingente da Região Metropolitana. O Município apresentou uma taxa média geométrica de crescimento no período de 1991 a 2000 de 0,58% ao ano, contra 1,17% na região e 1,30% no Estado. Niterói tem cerca de eleitores e ao contrário de São Gonçalo, sua divisão política não se faz por distritos, mas por áreas de planejamento e existem secretarias responsáveis pelo urbanismo, pelo planejamento urbano e pela ciência e tecnologia voltada para a pesquisa e para o estudo dos problemas urbanos locais visando desenvolvimento. Recentemente o Município de São Gonçalo passou a contar com secretarias responsáveis pelo urbanismo e pelo planejamento urbano como a SMDS, SMIUMA e a SLFU. Esta última foi responsável pela revisão do último PDD em Com relação ao planejamento São Gonçalo apresenta desde a década de 1960 cinco distritos. Sendo um caso típico de área ainda degradada com ruínas e espaços vazios ou sub utilizados anteriormente ocupados por indústrias ou atividades complementares, mas ainda freqüentemente classificado como subúrbio industrial ou cidade dormitório. Além do trecho Niterói-Manilha da BR-101, ironicamente chamado de barra de São Gonçalo, 43 os dois principais bairros estudados foram Neves e Boa Vista, respectivamente quarto e primeiro distritos. Neves aparece à primeira vista como um cemitério de indústrias com esqueletos de fábricas e o aspecto de declínio e degradação, mas diferente da nossa última pesquisa, realizada em 2000 agora tem mais igrejas e supermercados. Ruínas industriais ainda podem ser vistas em vários pontos, sendo as principais a planta fabril da Gerdau com uma placa de vende-se desde 2000 e algumas indústrias de conservas como a Gradim. O fenômeno das ruínas e vazios industriais é desenvolvido no item 1.5. Apenas ressaltamos a sua constatação a partir do quadro atual do Município que abrange o seu surgimento. Não privilegiamos recortes cronológicos ou etapas específicas, pois estas costumam apontar as transformações nos espaços a partir de sistematizações (SOJA, 2000), momentos do desenvolvimento econômico (EGLER, 1979) ou descrevendo as mudanças apenas como frutos de políticas públicas ou projetos de intervenção urbana (SOUZA, 43 Jornal O Dia. Rio de Janeiro, página 3, domingo 17 de outubro de Matéria: Barra de São Gonçalo. Falando da euforia dos moradores de São Gonçalo sobre a revitalização urbana do litoral.

45 ). Optamos pela sistematização de uma totalidade maior (OLIVEN, 1980, p. 14) onde o viés sociológico é convidado a participar das explicações sobre as transformações recentes no Município de São Gonçalo. A extremidade Sul do eixo Niterói-Manilha, divisa entre os Municípios de Niterói e São Gonçalo desenvolveu-se economicamente nas décadas de 1940 e 1960, mas nas décadas seguintes inicia-se um processo de fechamento e transferências de grandes indústrias provocando o aparecimento de espaços vazios ou sub utilizados. Novas atividades surgem no final da década de 1990 ligadas ao comércio e serviços enquanto Niterói assiste o renascimento da indústria naval no final da década e direta ou indiretamente atingem o Município de São Gonçalo que se benefício graças ao emprego da força de trabalho oriunda da época áurea da indústria naval. 44 Essa força de trabalho constitui, em alguns casos, uma reserva para as empresas que estão contratando em firmas terceirizadas, principalmente nos estaleiros de maior porte que se uniram como o caso da Enave com a Renave; Ebin com Ultratec ou UTC e o Mauá- Jurong, em consórcio com empresas multinacionais como a Kellog Brown & Root ou KBR, Halliburton, e Maric SCCS. 45 O apoio aos estaleiros de São Gonçalo não foi comentado nas eleições de 2004, mas vem aparece em 2006 e 2007 como uma nova questão estratégica nos discursos dos candidatos à Prefeitura de São Gonçalo em Esses não esquecem de citar a posição estratégica às margens da Baía de Guanabara que possibilitaria a realização de antigos projetos como o condomínio industrial da CODIN, a revitalização dos estaleiros Cruzeiro do Sul e Cassinu através incentivos fiscais para a captação de novos projetos e apoio logístico para o complexo petroquímico de Itaboraí. 44 A estrutura de construção naval em São Gonçalo está limitada apenas ao Estaleiro Cassinu. Uma parcela da nova classe de operários para futuras atividades do Comperj ainda está sendo preparada e provavelmente deverá vir de outros municípios e de outros Estados. 45 Após quase 20 anos operando separadamente, a Enavi e a Renave, estaleiros de Niterói, foram comprados pelo Grupo Reicon. Rebelo, indústria, comércio e navegação Ltda, de propriedade do Alte. Hernani Fortuna. O grupo Reicon atualmente é proprietário do parque industrial na Ilha do Viana, localizada na Baía de Guanabara. O acesso é feito pelo Píer do Maruí, no bairro do Barreto. Os estaleiros ENAVI, Empresa naval de equipamentos Ltda. e RENAVE, Empresa brasileira de reparos navais S.A. fundiram-se em outubro de 1995 reunindo facilidades para os reparos, construções navais, docagens e conversões. Possuem juntas cinco diques disponíveis e 1500m de ancoradouro com recursos para atender as exigências da comunidade naval nacional e internacional. O grupo Reicon é envolvido principalmente no comércio de petróleo. Ao reuni-los em uma única companhia escolheu o nome ENAVI para representar o novo complexo de reparos. O escritório central fica no Norte do Brasil, Belém no Estado do Pará, tendo a navegação como uma das suas principais atividades.

46 46 Atualmente São Gonçalo é o terceiro maior Município em população na região metropolitana do Rio de Janeiro. Sua área territorial é, segundo a Fundação Centro de Informações e Dados do Estado do Rio de Janeiro - CIDE, 46 de cerca de 251km 2. Por localizar-se na orla Oriental da Baía de Guanabara tem seus limites a Norte e a Leste com o Município de Itaboraí, ao Sul com o Município de Maricá, a Sudoeste com o Município de Niterói e a Oeste com a Baía de Guanabara. Com a localização privilegiada no eixo de ligação entre a Capital Fluminense e outras cidades do Norte do Estado, São Gonçalo é cortado pelas rodovias estaduais RJ-104 e RJ-106, além da Rodovia Federal BR-101. Possui elevada densidade demográfica com habitantes/km2. Mesmo com controvérsias e comprovação visual a Prefeitura Municipal de São Gonçalo, a PMSG, declara que a taxa de urbanização municipal é de 100% conforme o quadro abaixo: Tabela 3. Características Demográficas em São Gonçalo, População Total População Urbana ,00 População Rural 0,00 População Masculina ,19 População Feminina ,81 Densidade Demográfica (hab/km2) 3.550,27 Fonte: Censo Demográfico do IBGE, Boa parte da população é relativamente jovem e encontra-se na faixa etária de 20 a 49 anos de idade, representada por quase a metade do total de habitantes (48,13%), conforme pode ser observado na tabela abaixo: 46 Segundo a Fundação CIDE, (2003), a área do município de São Gonçalo é de 251 Km2. Uma referência no site da PMSG aponta uma área de 251,3 Km2, segundo a Lei 0/20 de 1990.

47 47 Tabela 4. População residente em São Gonçalo, Idade N. total % 0 a 4 anos de idade ,30 5 a 9 anos de idade ,21 10 a 14 anos de idade ,22 15 a 19 anos de idade ,05 20 a 29 anos de idade ,81 30 a 39 anos de idade ,60 40 a 49 anos de idade ,82 50 a 59 anos de idade ,78 60 e + anos de idade ,21 Total ,00 Fonte: Censo Demográfico do IBGE, A divisão política do Município compreende noventa bairros, (ANEXOS A e E), mas existem inúmeros sub bairros e localidades que não são computados pela Prefeitura Municipal de São Gonçalo PMSG que ainda divide, administrativamente o Município desde a década de 1940, em cinco distritos 47. Tabela 5. Distritos N. de bairros, de habitantes e percentual, Distritos/bairros habitantes % 1 o distrito São Gonçalo. 30 bairros ,0 2 o distrito Ipiíba. 20 bairros ,9 3 o distrito Monjolos. 17 bairros ,8 4 o distrito Neves. 13 bairros ,6 5 o distrito Sete Pontes. 10 bairros ,7 Total. 90 bairros ,0 Fonte: Censo Demográfico do IBGE, A expansão populacional de São Gonçalo foi um o processo rápido e sem planejamento por parte poder público, mas essa dinâmica fez parte de um artifício perverso de alguns loteamentos e políticas populistas na segunda metade do século XX. 47 Definidos pelo Decreto-Lei Municipal n , de 28 de janeiro de 1949.

48 48 Tabela 6. Evolução da população no Município de São Gonçalo até Ano/Período * População Evolução(%) 42,16 92,19 75,90 42,86 26,87 14,27 Fonte: IBGE, censo demográfico de *Intervalo de apenas nove anos por causa do atraso de um ano na realização desse recenseamento. A evolução de 92,19% no período tem várias hipóteses de explicação. Optamos por responder a esse questionamento a partir de duas outras interrogações: até que ponto esse crescimento demográfico beneficiou a formação de elites políticas locais? E até que ponto esse crescimento populacional é apenas uma parte da dinâmica de expansão da Região Metropolitana do Rio de Janeiro - RMRJ como apontam os pesquisadores: Santos (1982), Barbosa, (1999), Lago (2000) e Brandão (2002). Através das contradições, podemos observar que as elites locais se beneficiaram de um processo maior, que foi a criação de vetores de expansão metropolitana, mas também foram prejudicados por esta expansão. A criação de grandes loteamentos sem infra-estrutura foi responsável pelo surgimento de redutos populistas que indiretamente contribuíram para o afastamento dessas elites do poder. O caso de São Gonçalo mostra que a flexibilização de Leis para facilitar a implantação de loteamentos inadequados contribui, até hoje, para a segregação e concentração da pobreza em determinados bairros: Boa vista, Boaçu, Guaxindiba, Salgueiro, Água Mineral, Engenho Pequeno, Jardim Catarina, bairro das Palmeiras, Itaóca entre outros à margem da Baía de Guanabara. Não estão sendo questionados que os principais períodos de industrialização: de 1920 a 1930 e de 1940 a 1960 constituem fatores de atração de mão-de-obra, mas outros fatores, que não são citados na literatura específica, também foram importantes. Dentre estes fatores vale destacar a expansão e influência de Niterói como capital do antigo Estado do Rio de Janeiro até a fusão dos Estados em 1975, a eleição do gonçalense Geremias de Mattos Fontes para o Governo do Estado em , o declínio da agricultura local, a construção da Ponte Rio-Niterói e as mudanças na legislação na década de 1960 que permitiu o boom de novos loteamentos, além de outros fatores internacionais como as guerras e as migrações por exemplo.

49 49 Se até meados dos anos 1960, o Município ocupou papel de destaque com suas indústrias nas décadas seguintes teve destaque pelo crescimento demográfico. Esse boom de loteamentos fez São Gonçalo ser classificado como cidade dormitório, como subúrbio de Niterói e até mesmo ser alvo de preconceitos como, por exemplo, de jovens na intenet que criaram comunidades para defendem um muro separando o Município de Niterói 48. Enquanto Niterói crescia verticalmente São Gonçalo crescia horizontalmente. Sucessivos administradores permitiram, e ainda continuam permitindo, a criação de novos loteamentos clandestinos. Lago (2000) considera que esses loteamentos periféricos também contribuíram para a expansão demográfica na RMRJ. Segundo a autora a década de 1950 marcou o período de consolidação do processo de metropolização. Essa expansão perversa e ilegal se deve, em parte, à falta de titulação da propriedade da terra, à falta de fiscalização e ao não cumprimento da legislação urbanística pouco rigorosa nos Municípios vizinhos à capital. Nota-se, na imprensa local, um aumento na freqüência de termos como favelas e até mesmo de complexos para se referir aos loteamentos mais pobres de São Gonçalo. Essa mudança é recente e pode marcar uma distinção entre bairros com loteamentos legais e ilegais no município. São considerados complexos bairros e localidades como o Jardim Catarina e o Salgueiro. Este adjetivo é comum como referência a algumas comunidades da cidade do Rio de Janeiro e passou a ser aplicado à São Gonçalo recentemente. Uma das possíveis causas do emprego de verbas do Plano de Aceleração do Crescimento PAC, nesses bairros e comunidades é que eles poderiam inviabilizar o fluxo da produção do COMPERJ que poderá passar pelo eixo Niterói-Manilha. Este corredor viário é responsável por grande parte dos deslocamentos diários da população de São Gonçalo e de Itaboraí rumo a Niterói e Rio de Janeiro. São, em sua maioria, deslocamentos de trabalhadores e de estudantes. Esses deslocamentos diários eram segundo o censo demográfico do IBGE em 2000, de pessoas para Niterói e de pessoas para a cidade do Rio de Janeiro. Atualmente, autores como Santos, (2003) e Brandão, (2002), afirmam que São Gonçalo permanece um certo tipo de periferia de Niterói ou uma periferia estendida. Em 48 Ver por ex. o site a comunidade: Eu odeio São Gonçalo. Acessado em 23 de março de 2007.

50 50 entrevistas locais percebemos um movimento contraditório quando gonçalenses constroem e defendem a sua identidade em oposição a Niterói. A antiga capital do Estado do Rio ainda é vista, por alguns como a usurpadora das praias oceânicas que pertenciam a São Gonçalo. Comentários como estes circulam desde a década de 1940 quando a política de São Gonçalo era determinada pelo Governo do antigo Estado, sediado no Palácio do Ingá em Niterói. Desde aquela época circulam também boatos de que os comerciantes de Niterói são influentes e não permitem a criação de uma Estação de Barcas em São Gonçalo para não perder o fluxo diário no centro de Niterói. A expansão dessa periferia se dá a partir de Niterói na direção dos Municípios de Maricá e Itaboraí onde se nota um crescente movimento de loteamentos clandestinos, principalmente nos bairros do Arsenal, Anáia, Jóquei e Vista Alegre além do aumento de invasões em terrenos públicos. São residências distribuídas em 71 favelas do município, segundo a Prefeitura Municipal de São Gonçalo. O último Estudo sócio-econômico do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro - TCE/RJ para São Gonçalo e os dados da Fundação CIDE, indicam que no ano 2000 São Gonçalo representava cerca de 3% do PIB da região metropolitana e 2% do Estadual, concentrando cerca de 8,2% do contingente populacional da região metropolitana e 6,2% do Estado. Esvaziamento econômico, indústrias multinacionais e conglomerados globais que não investem na cidade somados ao aumento do número de favelas e a crescente tendência do Município para o setor de comércio e de serviços pode indicar que a desigualdade social pode aumentar a distância entre São Gonçalo e os Municípios vizinhos, contemplados por planos e projetos do Governo Federal. A consciência de que a localização da orla gonçalense é estratégica não só para a Petrobrás, mas para outras empresas que desejem se instalar no local parece distante. Observando o outro lado da Baía de Guanabara pode ser vista a Ilha do Governador e a Ilha de Paquetá que possuem habitações de classe média e mesmo com todos os problemas, ainda são mais agradáveis que a orla Oriental ou o lado de cá. As praias de São Gonçalo que são igualmente impróprias para o banho parecem impróprias para morar. Percorrendo a parte gonçalense do eixo Niterói-Manilha da BR-101 que margeia a Guanabara não encontramos nenhum empreendimento habitacional, a não ser o condomínio de prédios do Gradim da década de 1980.

51 51 A construção do São Gonçalo Shopping ainda não é um fator positivo para o aumento do número de construções na Boa Vista. Não há sinais de revitalização econômica nesse bairro. A centralidade de Niterói ainda é muito grande, influenciando não só a economia, a política, mas a administração local. Para não apresentar um quadro pessimista ao falar de São Gonçalo é importante exacerbar algumas características positivas da cidade. Atualmente temos uma das maiores estações de tratamento do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara - PDBG, inaugurada em Essa é a maior iniciativa na área de saneamento básico realizada na orla Oriental da Baía de Guanabara até hoje. Também fazemos parte da Área de Preservação Ambiental de Guapimirim com manguezais e áreas de preservação permanente. Avaliar a problemática que envolve as transformações recentes implicou, também, num esforço de pesquisa para encontrar os últimos acontecimentos que apontam para um maior crescimento populacional e conseqüentemente para novas contradições sociais, por exemplo, o complexo petroquímico no Município vizinho. A divulgação na mídia da instalação do COMPERJ em Itaboraí já está interferindo no crescimento demográfico de São Gonçalo devido à proximidade daquele Município. Entre 1950 e 1980 o movimento foi contrário, muitas pessoas se mudaram de Itaboraí, Rio Bonito ou de outros Municípios do interior do Estado do Rio de Janeiro, devido à atração do crescimento de São Gonçalo, conformando-se como uma periferia estendida de Niterói. Hoje assim como no passado o crescimento populacional do Município, sem os correspondentes investimentos públicos em infra-estrutura urbana, já está acarretando, segundo dados do ISP, Instituto de Segurança Pública, o aumento recente dos índices de violência, quando se observa a história da orla Oriental da Baía de Guanabara. 49 Segundo dados da Petrobrás o Complexo petroquímico 50 é o principal empreendimento industrial da empresa no Brasil com investimento previsto em torno de US$ 49 Pesquisa realiza em marco de 2006 no Mapa da Violência IV: Os Jovens do Brasil. Juventude, Violência e Cidadania". Brasília, Unesco, Previsto para entrar em operação em 2012 e atualmente no início do projeto básico, no qual está inserido o processo de Licenciamento Ambiental, o COMPERJ é fruto da parceria da Petrobras com o Grupo Ultra e o BNDES. O Complexo terá capacidade para processar 150 mil barris/dia de óleo pesado nacional. Em uma mesma planta industrial, sua estrutura será formada por uma Unidade de Refino e 1ª geração (Unidade

52 52 8,3 bilhões. Ao ser implantado em Itaboraí seguramente poderá transformar o perfil sócioeconômico da região de influência, de maneira especial São Gonçalo pela sua proximidade, mas sem a devida contrapartida em arrecadação e divisão de impostos e outros tributos, poderá provocar impactos no meio ambiente e no desenvolvimento urbano da região como um todo. A parceria da Petrobrás com o Grupo Ultra com o financiamento do Bndes fortalece a penetração desse Grupo na Orla Oriental e aumenta a sua participação na construção naval brasileira. Até então o Grupo operava na região através do estaleiro Ultratec e a Ultra Engenharia nas antigas instalações do estaleiro Ebin na Estrada do Contorno no bairro do Barreto em Niterói. Com a participação nesse empreendimento, o grupo paulista ligado à Ultra-brás terá um raio de dominação que compreende o início o fim do eixo Niterói-Manilha. São Gonçalo, indiretamente afetado pelo arco rodoviário (ANEXO C) que ligará Itaboraí ao Porto de Itaguaí poderá receber indústrias complementares de componentes para outras indústrias. Até o presente momento São Gonçalo, em tese, sediará o centro de treinamento da Petrobrás em parceria com a Prefeitura, um tipo de centro de integração para capacitar profissionais da região para evitar a migração regional na construção do complexo. O Arco Rodoviário Metropolitano poderá ser uma das principais obras do PAC no Estado do Rio de Janeiro. Segundo o projeto inicial irá cortar oito Municípios ligando o Complexo Petroquímico, o COMPERJ em Itaboraí ao Porto de Itaguaí no Sul do Estado. 51 A previsão é de que em 2009 o arco terá pouco mais de 100 kms de extensão e unirá as rodovias federais BR-493, BR-101 (Norte e Sul ) e BR-040 (Rio-Teresópolis). Haverá ainda um trecho de 72 quilômetros, ainda a ser construído, de responsabilidade do Governo do Estado entre a BR-040 e a Rio-Santos (BR-101). Petroquímica Básica UPB, para produção de petroquímicos básicos, como eteno (1,3 milhão de toneladas/ano), propeno (880 mil toneladas/ano), benzeno (600 mil toneladas/ano) e700 mil toneladas/ano), além de um conjunto de unidades de 2ª geração (Unidades Petroquímicas Associadas - UPA s) que vai transformar estes produtos básicos em produtos petroquímicos. 51 DIAS, Thaís. Arco Metropolitano em Jornal O Fluminense. Caderno cidades. Publicado em 19/08/2007.

53 53 A escolha estratégica de Itaboraí e não de São Gonçalo que já teria vendido o terreno 52 para a Petrobrás em Guaxindiba para receber o Complexo foi fundamentada segundo a Prefeitura de Itaboraí em estudos preliminares dos aspectos técnicos, econômicos, ambientais e sociais de modo a permitir a viabilidade do empreendimento ao longo dos anos. A justificativa da Prefeitura de Itaboraí foi semelhante a adotada por São Gonçalo, ou seja, a existência de área disponível para a expansão, já prevista, do Complexo após cinco anos da entrada em operação. Itaboraí foi selecionado não por ser administrado pelo mesmo partido do Governo Federal, mas sim, segundo a sua Prefeitura, por dispor de: Infra-estrutura logística adequada por sua proximidade dos Portos de Itaguaí (103 km) e Rio de Janeiro, dos terminais de Angra dos Reis (157 km), Ilhas d Água e Redonda (30 km) e por ser atendido por rodovias e ferrovias, além das sinergias com a REDUC (50 km), com as plantas petroquímicas da Rio Polímeros e da Suzano (50 km) e com o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello - CENPES (38 km), detentor da tecnologia de FCC Petroquímico ou Craqueamento Catalítico Fluido, que é o grande salto tecnológico desse empreendimento. 53 Estas justificativas acima não seriam suficientes para legitimar a instalação do complexo em Itaboraí. São Gonçalo além de possuir as Ilhas d Água e Redonda, depósitos estratégicos de petróleo para o Estado do Rio de Janeiro, é bem mais próximo de todos os endereços acima citados, excetuando a REDUC se a ligação com essa refinaria fosse feita por terra. Caso a ligação do COMPERJ com a REDUC fosse por meio de dutos sob a Baía de Guanabara, São Gonçalo também seria mais estratégico e econômico. Além da implausível justificativa para a não instalação do complexo em São Gonçalo percebemos, durante a pesquisa através da mídia, a ausência de investimentos no Município para ampliar sua participação no COMPERJ. Sem uma maior participação no pólo a divisão dos resultados futuros a partir do complexo petroquímico também poderá ser comprometida. 52 Esse terreno está sendo cogitado pela PMSG para receber a base para armazenagem de produtos líquidos da refinaria, ainda em fase de planejamento. A Petrobrás tem um terreno de 230 mil metros quadrados. Este foi comprado de São Gonçalo durante a primeira administração do Prefeito Edson Ezequiel de Matos, ex engenheiro da Petrobrás e Prefeito eleito pelo PDT em dois mandatos, 1989 e Fonte: Retirado do Jornal Valor Econômico. Rio de Janeiro. 6/4/2007.

54 54 A discussão e o planejamento de políticas públicas na instalação do COMPERJ estão sendo feitos em conjunto com o consórcio do Leste Fluminense CONLESTE que agrega hoje onze Municípios. Foi criado em janeiro de 2006 para, segundo o seu diretorgeral Álvaro Adolpho dos Santos, diminuir as fronteiras municipais. Um dois locais citados para receber investimentos através do PAC é o bairro Jardim Catarina ao invés de Guaxindiba, ambos bairros pobres de São Gonçalo. Guaxindiba apresenta desde 1926 inúmeras facilidades para a expansão industrial. Na época da implantação da indústria de cimento Portland, como já descrito anteriormente, havia um canal que ligava o Rio Guaxindiba à Baía de Guanabara e um ramal da linha férrea que ligava o bairro a Rede Ferroviária Federal até o Barreto em Niterói. Sem investimentos há décadas, Guaxindiba se transformou em uma comunidade carente com cerca de oito mil pessoas que não têm acesso aos serviços de água potável e tratamento de esgoto. Já foi considerada até área de desova de cadáveres. Segundo entrevista com o Sílvio de Oliveira, presidente da Associação dos Moradores e Amigos de Guaxindiba, Vista Alegre e Adjacências, AMAGUAVA, os moradores têm a esperança de que o COMPERJ possa trazer alguma coisa boa para a comunidade, mas esse otimismo é acompanhado do medo de uma possível explosão demográfica na região com invasões de áreas e aumento da favelização a partir do aumento dos fluxos migratórios. Ao lado de Guaxindiba encontra-se o Jardim Catarina, o maior bairro de São Gonçalo. Objeto de preocupação do planejamento urbano desde 1978 como aparece nos trabalhos de Santos realizados em 1982 para o IBAM e em trabalhos da FUNDREN realizados em Jardim Catarina é um conjunto de loteamentos com alguns moradores, ainda, desprovidos de abastecimento de água e saneamento básico. Foi por muito tempo considerado pela imprensa local como um dos maiores loteamentos da América Latina não somente pelo tamanho, mas também pela sua complexidade e ausência de planejamento desde o seu início. Os loteadores, da empresa Sociedade Expansionista Gonçalense SEG, não respeitaram na divisão do loteamento a existência de rios e declives que provocam alagamentos constantes nas áreas abaixo do nível do mar e próximas à Baía de Guanabara. Ainda hoje algumas dessas áreas continuam sendo ocupadas e vendidas clandestinamente.

55 55 Enfim, São Gonçalo e Itaboraí ainda não têm indicadores satisfatórios em educação e em renda per capita segundo dados do Índice de Desenvolvimento Humano - IDH de Neste sentido, ambos podem ser igualmente considerados para a instalação do COMPERJ. Como nos mostra a história, o crescimento econômico nem sempre está associado à distribuição de renda. A apropriação dos benefícios do COMPERJ e das indústrias complementares pode se tornar no futuro um fator de disputa entre Municípios do CONLESTE e ainda não existe a certeza se a Petrobrás conseguirá reduzir ou compensar os possíveis impactos sócio-ambientais. A partir dos dados coletados na imprensa local pode-se inferir, a priori, que tanto a Prefeitura de Itaboraí administrada por Cosme Salles do PT quanto a Prefeitura de São Gonçalo, administrada por Maria Aparecida Panisset do PDT, não fazem referência aos custos sociais e ao aumento da desigualdade social que projetos deste porte podem trazer. Podemos citar como exemplo Duque de Caxias depois da REDUC, Macaé e Campos após a descoberta de novas bacias petrolíferas quando houve um aumento dos índices de violência e pobreza. A justificativa para a escolha de Itaboraí e não de São Gonçalo, pelo Governo Federal, para a instalação do COMPERJ é uma decisão política e foi fundamentada em estudos preliminares. Aspectos técnicos com as distâncias entre o complexo e o Rio de Janeiro e as Ilhas na orla de São Gonçalo, aspectos econômicos como o terreno que a Petrobrás já havia adquirido em Guaxindiba, as facilidades da presença da rede ferroviária e da saída para o mar da Baía de Guanabara, além dos aspectos ambientais e sociais, como a proximidade de Itaboraí com a APA Guapimirim, são dados suficientes para questionarmos, de modo sensato, a viabilidade do empreendimento ou a determinação da escolha sem os devidos relatórios ou pesquisas sobre os possíveis impactos e conflitos, além dos gastos com gás para a produção. Sem dúvida, as distâncias entre as cidades do Rio de Janeiro, Itaboraí e São Gonçalo, já seriam suficientes para questionar os fatores da escolha locacional.

56 56 Geralmente alguns momentos de mudança social 54 são acompanhados por contradições e a sua percepção se dá com a observação de novos empreendimentos e atividades econômicas, como o São Gonçalo Shopping por exemplo ou a revitalização da construção naval. Porém alguns empreendimentos contraditoriamente não contribuem para a mudança social, mas para a permanência de antigas formas de estratificação social. Segundo a análise elaborada pelo IBGE em 2000 sobre o produto interno bruto no intervalo entre 1999 e 2002 nos Municípios em questão: O mais recente levantamento de Produto Interno Bruto dos Municípios do Brasil, elaborado pelo IBGE, de 2002, traz a dimensão do encolhimento da economia da cidade do Rio de Janeiro. No intervalo entre 1999 e 2002, o PIB do Município encolheu 9,4% [...] Do outro lado da Região Metropolitana também houve empobrecimento, com uma taxa de crescimento de -1,6% ao ano em Niterói e de 0% em São Gonçalo. O mesmo estudo de Contas Nacionais do IBGE contém a verdadeira história do dinamismo do Estado do Rio de Janeiro que, a olhos pouco atentos, camufla a estagnação da sua Região Metropolitana. O crescimento do estado é puxado, sobretudo, pelos Municípios beneficiados pela exploração de petróleo, por pólos industriais do Sul Fluminense e, em menor medida, pelo dinamismo turístico de alguns Municípios da Região dos Lagos. 55 Em oposição à euforia expressa na imprensa, na literatura específica e durante o trabalho de campo coletamos comentários questionando a estética local, feitos por diferentes pessoas sobre o eixo Niterói-Manilha. Num primeiro olhar apresenta uma certa imagem de degradação, de abandono e de pobreza, uma imagem, ainda presente, que traz outros questionamentos sobre a real abrangência da indústria naval em Niterói, (GUEDES, 1997a). A recente expansão da construção naval na divisa entre Niterói e São Gonçalo não está utilizando os estoques de terras situados na orla de São Gonçalo, apenas o Estaleiro Cassinu no bairro gonçalense do Gradim produz componentes para embarcações e faz reparos. 54 Mudança social. Aplicamos a definição sociológica que explica mudanças na organização social ou na estrutura, tais como mudanças nos índices de qualidade de vida, aumento ou diminuição da taxa de emprego e de mobilidade social. Não nos deteremos apenas em um dado socioeconômico. Segundo BOUDON et alli, A sociologia moderna... tende a repudiar a idéia de que existiria uma causa dominante da mudança social. Esta sociologia tende a reconhecer a pluralidade dos tipos de mudança. Alguns processos de mudança são endógenos, isto é, determinados por causas internas a um sistema social; outros são exógenos; outros são mistos. Certos processos são lineares; outros, oscilatórios. Certos processos são previsíveis; outros, mais dificilmente previsíveis, especialmente porque são, em uma etapa de seu desenvolvimento, geradores de uma demanda de inovações. 55 Fonte: PEREIRA, Marcel. Artigo: A agonia carioca. Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 21 de julho de Noticias.asp?NOTCod=208264

57 57 A degradação da orla Oriental da Baía de Guanabara ainda é atual e demonstra o declínio das indústrias de Niterói e principalmente de São Gonçalo e seus principais efeitos no espaço urbano (MENDONÇA, 2000, p. 70). 56 Segundo estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre a poluição na Baía de Guanabara, os resíduos dos estaleiros de Niterói são transportados para a orla de São Gonçalo e para o fundo da própria Baía de Guanabara em direção à APA de Guapimirim. 57 Além da poluição e do aspecto de degradação, constatamos a persistência de certos bolsões de pobreza e a falta de desenvolvimento em localidades que, em tese, denominamos de vazios sociais. O aparecimento dessas localidades sem serviços públicos como infra-estrutura e equipamentos urbanos era justificado pelo declínio industrial e classificadas como parte de um grande subúrbio complementar às atividades do Rio de Janeiro. (GUEDES, 1997a). Uma das principais preocupações para a pesquisa foi identificar elementos da transformação recente da indústria para o setor terciário, pois, a princípio, pareceu uma grande contradição o surgimento de novos empreendimentos e o aumento de índices negativos de desenvolvimento sócio-econômicos. Traçamos abaixo uma pequena tabela relacionando o PIB e a população do Município envolvido no estudo em comparação com o Município mais próximo. 56 Idem. MENDONÇA, Adalton Ver principalmente o 2º capítulo: A revitalização de ruínas e vazios industriais. 57 Segundo dados do Anuário do Instituto de Geociências, UFRJ, as partes mais próximas a São Gonçalo apresentam qualidade das águas bastante crítica. As bacias hidrográficas correspondentes a esta zona se encontram bastante antropizadas, gerando uma quantidade moderada de material em suspensão. O estudo apresenta um mapa de Fatores Poluidores construído com dados referentes à quantidade e ao posicionamento das indústrias, e os percentuais de domicílios sem acesso à rede de água, de esgoto e sem coleta de lixo direto, cujos dados foram retirados do Censo Demográfico de A partir da distribuição pontual das indústrias estima sua densidade, através da definição do número de ocorrências em um raio de interesse. Na folha E (Niterói) observase um grande vazio de indústrias, se comparado com o verificado na primeira, exceto pelas áreas próximas a Niterói e São Gonçalo. Esta distribuição coincide, em grande parte, com a distribuição da população. A maior parte das indústrias localiza-se ao longo das rodovias BR-101 e RJ-104. Na porção nordeste a ocorrência de indústrias é a menor, principalmente por causa da APA de Guapimirim. Fonte: Anuário do Instituto de Geociências, UFRJ, p. 136 v. 26, 2003.

58 58 Tabela 7. PIB e participação percentual de São Gonçalo e de Niterói em Município e respectiva Unidade da Federação Posição ocupada Produto Interno Bruto a preço de mercado (1 000 R$) Relativa Participação percentual Acumulada Niterói/RJ 51º ,29 45,11 São Gonçalo/RJ 36º ,34 40,42 Fonte: IBGE, Diretoria de pesquisas, coordenação de contas nacionais. 58 São Gonçalo figura como tendo índice zero de taxa de crescimento do PIB do Estado do Rio de Janeiro e Niterói apresentou um decréscimo de -1,6% no intervalo entre 1999 e Os dois quadros a seguir representam alguns dados do PIB dos Municípios em questão e as participações percentuais relativas e agrupadas segundo a Unidade da Federação. Os dados disponíveis são do primeiro ano do Governo do prefeito Henry Charles, A herança do segundo mandato do prefeito Ezequiel Neves perdurou durante o Governo do Prefeito Henry Charles e ampliou-se na administração de Aparecida Panisset. A estimativa do produto interno bruto para o ano 2005 não melhorou, mas ao contrário houve uma redução. O PIB de São Gonçalo foi de R$ 4,2 bilhões, a título de comparação o PIB de Niterói foi de: R$ 5,8 bilhões segundo a Fundação CIDE e o IBGE. 59 A proposta de orçamento para 2006 encaminhada pela Prefeitura de São Gonçalo para a Câmara de Vereadores previa uma receita de R$ 393 milhões. O setor de infra-estrutura e urbanismo receberia mais recursos: R$ 129 milhões o que representa 32% dos gastos. Os investimentos em infra-estrutura são basicamente em saneamento, um dos principais problemas do município. Em relação ao orçamento de 2005 a proposta apresentou um crescimento de 12%. 58 Nota: Dados da tabela estão sujeitos à revisão. 59 Ver o site: Dados para o ano de 2005 pesquisados em fevereiro de 2006.

59 59 Tabela 8. Orçamento Municipal. Segundo a LDO. Município/ano São Gonçalo - R$ Niterói - R$ Fontes: PMN: e Jornal do Brasil On line. Rio de Janeiro, sexta-feira, 25/11/05. Não questionamos a discussão sobre a reversão da estagnação econômica da década de 1990, tratada por Penalva Santos (2003) quando a autora apontou os fortes indícios da expansão da economia. Hoje essa hipótese é confirmada pelo reaquecimento da dinâmica econômica e principalmente pelo incremento da produção petrolífera do Estado, mas muitas áreas, incluindo-se São Gonçalo, não estão sendo agraciadas nesse processo. Não falta bom senso político para gerar alternativas mais eficientes de equilíbrio entre Municípios, mas esse bom senso esbarra na falta de recursos e na ampliação da participação dos Municípios mais pobres na reanimação da atual dinâmica econômica Fluminense. Nos debates mais recentes, sobre a questão do desenvolvimento de São Gonçalo e região, sobretudo nas reuniões da conferência das cidades sobre o desenvolvimento no Município realizadas a partir do dia 28 de junho de 2007, notamos a ausência das discussões referentes a elaboração de arranjos produtivos locais 60 que poderiam ser realizados, ou pensados, junto às empresas de construção e reparos navais já existentes em Niterói ou através de sistemas produtivos e inovativos locais junto ao CONLESTE. A ausência de sinergia entre alguns agentes econômicos pode ser explicada por vários fatores. O que consideramos mais importante é a concorrência entre Municípios pelo grande mercado consumidor de São Gonçalo com cerca de um milhão de habitantes. No caso da construção naval não há explicação pela demora na utilização dos espaços da orla gonçalense com antiga tradição ao apoio desse setor. A disputa política por votos nos redutos eleitorais gonçalenses na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro ALERJ, pode 60 Segundo Suzigan esses arranjos seriam aglomerações territoriais de agentes econômicos, políticos e sociais, com foco em um conjunto específico de atividades econômicas - que apresentam vínculos mesmo que incipientes e geralmente envolvem a participação e a interação de empresas. Enquanto que sistemas produtivos e inovativos locais são arranjos produtivos em que interdependência, articulação e vínculos consistentes resultam em interação, cooperação e aprendizagem, com potencial de gerar o incremento da capacidade inovativa endógena, da competitividade e do desenvolvimento local. (SUZIGAN, 2004; páginas: 544 e 545).

60 60 ser também uma explicação para essa ausência de sinergia entre os Municípios. A insuficiência de interação política e econômica contribui para a falta de desenvolvimento sócio-econômico na medida em que São Gonçalo vem sendo preterido como parceiro, mas sim como ator secundário. Os discursos pró Rio de Janeiro que defendem a união de Municípios são constantes, mas quando o complexo petroquímico estiver em funcionamento os discursos podem ou não ser substituídos pelas disputas na divisão dos lucros com a produção. Segundo o prefeito de Maricá Ricardo Queiroz: No início, muitos desdenharam da criação do CONLESTE, pelo multipartidarismo e diferenças econômicas e sociais. Mas, após um ano, os encontros já provaram que o discurso está afinado [...] Esquecemos que somos de partidos diferentes. Aqui não há espaço para oposição. Estamos trabalhando somente pensando no bem comum, aproveitando esta oportunidade única que a Petrobrás está proporcionando a todo o Estado. 61 Existe uma crença difusa por quase toda a sociedade de que a Petrobrás representa a salvação da região Leste Fluminense. Segundo a empresa será transferido para o CONLESTE apenas 0,5% do valor destinado à construção do Complexo Petroquímico e até o presente momento o valor divulgado para a obra é de US$ 8,3 bilhões. 62 Segundo a imprensa os prefeitos demonstram uma inquietação com a Lei dos Consórcios e com a sua regulamentação, pois esta concede autonomia aos Municípios associados que poderão comprar e vender materiais sem a necessidade de licitação até R$ 600 mil, além de poderem celebrar contratos com instituições públicas como a Caixa Econômica Federal ou o BNDES. Após a criação do CONLESTE, coordenado pelo prefeito de Itaboraí Cosme Salles (FELICE, 2006, p. 5) o secretariado executivo do consórcio está elaborando conceitos básicos para o seu funcionamento, um certo tipo de plano mestre da região 63 para guiar de 61 FELICE, Gabriel. Artigo: Conleste começa a todo vapor. Jornal O Fluminense. Niterói, 05 de novembro de Idem, FELICE, Eleito o primeiro presidente do Conleste. União de onze prefeitos para gerar crescimento econômico da região em 5 de fevereiro de Entrevista cedida ao jornalista Gabriel Felice para o Jornal O Fluminense publicada em 28/01/2007.

61 61 forma abrangente o desenvolvimento. 64 Os gestores do CONLESTE trabalham com a proposta de destinar 0,1% do ICMS ou do Fundo de Participação dos Municípios - FPM, cerca de R$ 20 mil mensais, para a saúde, educação e meio ambiente. Esse valor não será suficiente para uma região onde a maior parte dos Municípios apresenta problemas no sistema rodoviário, deficiência equipamentos urbanos, falta de saneamento básico e hospitais desestruturados. Além do mais alguns problemas podem aumentar como a venda de lotes e a migração em busca de oportunidades de emprego no complexo petroquímico. Em São Gonçalo já existe a procura por terrenos de uso misto na divisa com o Município de Itaboraí. O engenheiro Oscar Marmolejo, segundo Felice (2006, p. 4), é mais realista que alguns representantes dos Municípios envolvidos no CONLESTE. Designado para representar a Organização das Nações Unidas ONU e acompanhar as reuniões do COMPERJ, pede prudência e afirma que o empreendimento deve ser tratado com todo o aprofundamento que merece para trazer mais benefícios que prejuízos. Segundo ele: É preciso haver um grande planejamento para que não se agrave ainda mais o que não está indo bem. Com estrutura e boa vontade é possível reverter qualquer situação ruim. Boa vontade todos estão demonstrando que têm. 65 Ainda não começaram os debates sobre temas mais polêmicos como a divisão de royalties, segurança pública, geração de emprego e direcionamento de novos investimentos. Em dezembro será realizado o 1 Fórum de Gestão Social para debater essas questões e tornar claro se o voluntarismo político sobrevive ao velho personalismo político. Niterói, antiga capital do Estado do Rio de Janeiro corre por fora para conquistar a liderança do consórcio. O Município possui uma Secretaria de Ciência e Tecnologia bem estruturada, enquanto os outros onze Municípios do consórcio não possuem ou estão em processo de criação. Essa Secretaria vem, há quase uma década, coletando informações, produzindo relatórios e estudos sobre o Município como um todo. Niterói possui também uma tradição no planejamento urbano e pessoal qualificado que realiza seus próprios planos e políticas de desenvolvimento urbano. 64 O deputado estadual Luis Paulo Correa, (PSDB) encaminhou, em agosto de 2007, um projeto de lei à Mesa Diretora da ALERJ propondo a criação de um Plano Diretor Regional, voltado para a área metropolitana. "As cidades não irão se desenvolver separadamente. Precisam se coordenar e se ajudar. Até porque, 80% dos investimentos são implementados nessa região". 65 FELICE, Gabriel, op. Cit; reportagem do dia 05/11/2006.

62 62 Segundo Felice (2007, p. 5) o prefeito de Niterói, Godofredo Pinto, demonstra plena consciência de que a falta de planejamento prévio pode causar danos para a população e cita o Município de Macaé como exemplo de desordem social. Diferente de São Gonçalo, a Prefeitura Municipal de Niterói PMN, já está elaborando projetos como o corredor viário da cidade, a linha férrea para desafogar o trânsito de Niterói, o alargamento da Avenida Central na Região Oceânica e sua ligação com a RJ-106. Segundo a mesma matéria esses serão os principais acessos dos moradores de Niterói para o complexo petroquímico e para a Região dos Lagos. Empresários de Niterói também estão preocupados com os possíveis impactos que o COMPERJ pode trazer para a cidade. A Associação do Conselho Empresarial de Cidadania - ACEC 66 se reuniu em agosto de 2007 para questionar políticos e representantes da Petrobrás sobre o andamento do maior empreendimento público do país e sobre os possíveis danos ao Município (FELICE, 2007). Provavelmente discutiram as expectativas objetivas de lucro frente o novo cenário de possibilidades além e preocupações com o meio ambiente. Segundo o mesmo autor, durante essa reunião o atual diretor geral do COMPERJ, Victor Pais, destacou a iniciativa do Governo Estadual com a construção do Arco Metropolitano, que ligará o COMPERJ aos portos de Itaguaí e Sepetiba. 67 Os políticos de Niterói, ao que tudo indica, estão se preparando para os próximos debates e, resguardadas as devidas proporções, para a disputa pelos royalties 68 da bacia de Campos na Câmara Federal que poderá acarretar, em nossa opinião, uma possível disputa pelos resultados do COMPERJ na Alerj. Enquanto um Deputado Estadual de Niterói está 66 ACEC. Associação do Conselho Empresarial de Cidadania. Atualmente presidida por Elízio da Fonseca. 67 FELICE, Gabriel. "Empresários discutem Comperj. Jornal O Fluminense. Caderno cidades. Publicado em 09/08/ Royalties: No caso do petróleo, são recursos financeiros provenientes da compensação financeira paga às cidades pela exploração de petróleo ou gás natural em depósitos localizados na plataforma continental brasileira. A lei 9478/97 determina que a parcela do valor do royalty que exceder 5% da produção seja distribuída da seguinte forma: quando a lavra ocorrer em terra ou em lagos, rios, ilhas fluviais e lacustres, 52,5% são destinados aos estados onde ocorrer a produção; 15% aos municípios onde ocorrer a produção; 7,5% aos municípios que sejam afetados pelas operações de embarque e desembarque de petróleo e gás natural; e 25% ao Ministério da Ciência e Tecnologia para financiar programas de amparo à pesquisa científica e ao desenvolvimento tecnológico do setor. Quando ocorrer na plataforma continental, estados produtores recebem 22,5%. Outros 22,5% vão para os municípios produtores confrontantes; 15% à Marinha; 7,5% àqueles afetados pelas operações; 7,5% para um fundo especial, distribuído entre todos os estados e municípios e 25% ao Ministério.

63 63 acompanhado as discussões, tanto em Brasília quanto no Rio de Janeiro, os edis e demais representantes de São Gonçalo parecem alheios à discussão. Quatro projetos de lei que tramitam na Câmara Federal em Brasília, propondo uma redivisão dos royalties do petróleo pelos mais de 5,5 mil Municípios brasileiros. Hoje, 800 deles são beneficiados pelo repasse dos recursos. O parlamentar 69 também quer chamar a atenção para a importância dos royalties e sua boa aplicação para o desenvolvimento do Estado do Rio. Só no primeiro semestre o Estado arrecadou mais de R$ 868 milhões com os royalties de petróleo e gás. O Deputado pretende lançar uma cartilha explicando o que são e o papel importante do benefício para o Rio de Janeiro. Segundo o Deputado : Os royalties correspondem a 20% de todo o orçamento do Estado. Dos 92 Municípios fluminenses, cerca de 70 são beneficiados pelos royalties". O Estado do Rio recebe cerca de 75% dos royalties distribuídos aos estados. O Município que mais arrecadou no primeiro semestre de 2007 foi Campos (R$ 217 milhões). Em segundo está Macaé (R$ 161,49 milhões), seguido por Cabo Frio (R$ 66 milhões). Niterói aparece em sétimo lugar (R$ 29,90 milhões). Itaboraí, Marica e São Gonçalo ocupam a 26ª posição, tendo sido repassados R$ 4,45 milhões para cada uma das cidades, que após a reclassificação passaram a ser consideradas produtores secundários de petróleo. 70 São Gonçalo parece cingido entre o COMPERJ em Itaboraí e a vocação hegemônica de Niterói. As mudanças que poderão ocorrer a partir da entrada em cena dessa nova atividade petroquímica afetamdo os Municípios do consórcio e poderão romper com o estigma de cidade dormitório ou expansão suburbana de Niterói. A orla de São Gonçalo poderá receber investimentos e ampliar as condições de moradia para os blue collar, a eventual massa de operários que escolherão a cidade para morar enquanto os bairros nobres de Niterói poderão receber os quadros mais especializados, os white collar do COMPERJ. No terceiro capítulo observamos como o planejamento urbano local ainda não atentou para a contenção de grandes loteamentos em São Gonçalo a despeito do que ocorreu na década de Acreditamos que somente o planejamento eficaz pode minimizar possíveis desequilíbrios e novas problemáticas na expansão dessa nova atividade petroquímica. 71 São analisados, também, os PPDs a partir de um viés instrumental contemplando os artigos que tratam das áreas atingidas pelas transformações econômicas em curso. Os 69 Presidente da Comissão de Assuntos Municipais e de Desenvolvimento Regional da Alerj, deputado Rodrigo Neves, PT de Niterói. 70 SOARES, Marcelo Macedo. Artigo: Contra a redivisão dos royalties. Jornal O Fluminense. Caderno Política. Niterói, 12 de agosto de Durante entrevista ouvimos, em depoimento de um informante que, na gíria política que São Gonçalo precisar evitar ser o steak, empresado entre Itaboraí e Niterói feito um hambúrguer do PT.

64 64 bairros de Neves, Gradim, Boa Vista e Porto Velho são usados com exemplos específicos a fim de promover um debate sobre o desenvolvimento da orla da Baía de Guanabara.

65 Transformações recentes no eixo Niterói - São Gonçalo Observando que as transformações em curso no eixo entre Niterói-São Gonçalo são recentes, inferimos que o processo de ocupação desordenado do Município contribuiu para o declínio de algumas indústrias e dificultou o aparecimento de novas atividades ligadas ao comercio e aos serviços. Neste item usamos dados sócio-econômicos referentes à região metropolitana 72 e ao Leste fluminense para comentar algumas transformações recentes mais significativas e a mudança social. As transformações mais significativas se iniciam, segundo as analises de (SANTOS, 1982), com o processo de crescimento e ocupação da periferia por volta da década de 1950 com o boom de loteamentos. Mudanças recentes no chamado mundo do trabalho e na formação/reprodução dos trabalhadores, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais - RAIS 73 para a região, apontam o crescimento do emprego ligado à construção naval e ao setor terciário. Existem dados etnográficos relevantes nos trabalhos ainda inéditos produzidos por dois grupos de estudos fluminenses, um da Universidade Federal Fluminense coordenado por (GUEDES, 1992) 74 e outro da Universidade Estadual do Rio de Janeiro coordenado por (FREIRE, 2004) do Departamento de Geografia da Faculdade de Formação de Professores em São Gonçalo. Autores como Souza (2001), Penalva Santos (2003), Tavares (1993), Natal (2004) entre outros, comentam a grande a velocidade com que mudanças se processam em algumas regiões do Estado do Rio de Janeiro e do país, todavia é importante evitar qualquer suposição 72 Geralmente os dados estatísticos bem como informações sociais e econômicas estão agrupadas por municípios ou por regiões metropolitanas. Neste sentido utilizamos dados para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, hoje com 18 municípios, bem como para a Região Leste Fluminense. Regionalização do Estado elaborada pelo SEBRAE/FIRJAN. Segundo esta nova definição a região leste, contém os seguintes municípios: Araruama, Armação de Búzios, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Casemiro de Abreu, Iguaba Grande, Itaboraí, Maricá, Niterói, Rio Bonito, Rio das Ostras, São Gonçalo, São Pedro da Aldeia, Saquarema, Silva Jardim e Tanguá. 73 RAIS: Relação Anual de Informações Sociais. Consulta por Municípios. Niterói. Código São Gonçalo. Código Fonte: 74 Guedes, Simoni Lahud, Grupo de pesquisa sobre os trabalhadores da indústria em Niterói vinculado ao curso de pós-graduação em antropologia. Ver por exemplo a tese de doutorado: Jogo de Corpo: Um Estudo de Construção Social de Trabalhadores. Tese de doutorado, vols. I e II MN/PPGAS/UFRJ, RJ, GUEDES, Simone Lahud. A Reapropriação do Espaço Urbano em Bairros de Trabalhadores, mimeo. Trabalho para o VII ANPUR, Recife, 1997 e SBS Fortaleza em 2001.

66 66 de que as referidas mudanças foram precedidas por apenas uma causa ou fator, seja ele econômico, político ou social. Acreditamos que as condições anteriores ao período não são satisfatórias para explicar as mudanças no eixo Niterói - São Gonçalo e que estas não possibilitaram as transformações que buscamos avaliar. Assim como os trabalhos acima citados são exemplos da retomada da análise das transformações recentes da economia fluminense, seus estudos reforçam a necessidade de compreender os impactos sobre o planejamento urbano e regional tratados nesse trabalho acrescidos do viés sociológico. Para compreendermos o desequilíbrio que ocorre em São Gonçalo observamos que não ocorreu o aumento da arrecadação com os novos empreendimentos no período A tabela abaixo com as cinco maiores receitas de imposto sobre serviços ISS/QN 75 apresenta os Municípios mais populosos da região metropolitana. Tabela 9. As Maiores Receitas de ISS/QN 2003 Município UF Pop. ISSQN (R$) ISS per capita (R$) Rio de Janeiro RJ 5,937,253 1,170,703, Niterói RJ 464,353 52,376, Duque de Caxias RJ 798,103 49,938, Nova iguaçu RJ 780,343 14,640, São Gonçalo RJ 914,534 12,883, Município UF Pop. ISSQN (R$) ISS per capita (R$) Rio de Janeiro RJ 6,051,399 1,324,207, Niterói RJ 471,403 68,287, Duque de Caxias RJ 830,679 63,926, Nova Iguaçu RJ 817,117 19,833, São Gonçalo RJ 914,534 * Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional e *Projeção. 76 Consultando os levantamentos do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, observamos a evolução das transferências totais da União e do Estado para o Município de São Gonçalo e verificamos um aumento de 74% entre 1998 e Enquanto 75 ISSQN: Imposto sobre serviços de qualquer natureza. Site. 76 Os dados de 2003 e *Projeção para São Gonçalo calculando um acréscimo de 10% do ano de 2003 para o ano de Comparação até o limite mínimo de receita de R$10 milhões em 2004.

67 67 que a receita tributária teve uma queda de 12% no mesmo período. São Gonçalo, por exemplo, apresentou uma redução na receita tributária de 2% na arrecadação de IPTU, de 11% na receita de ITBI e de 43% nas taxas. Houve um acréscimo nominal de 14% no ISS. Tabela 10. Arrecadação de ISS no Município de São Gonçalo entre 1998 e Fonte: Relatório do TCE/RJ de outubro de Ainda não foram computados os dados de 2004 e Tabela 11. Conversão em gráfico da arrecadação de ISS em São Gonçalo entre 1990 a Fazendo correlações com o que observamos acima notamos que além da diminuição de receitas, seja pela queda na receita tributária, seja pela arrecadação de impostos e taxas, verificamos uma nítida divisão na evolução do grau de pobreza 77 entre os Municípios mencionados. Por um lado temos Niterói com uma baixa proporção de pobres (menos de 15%) enquanto que, por outro lado, São Gonçalo tem uma proporção de pobres que oscilava em 24% para a década. Segundo Glauber Teixeira que trabalha no Centro de Referência da Assistência Social - CRAS em Guaxindiba, se o COMPERJ for bem planejado trará progresso, caso contrário vai trazer mais crescimento desordenado e favelização. 78 Glauber afirma que São Gonçalo tem receita anual de cerca de R$ 300 milhões, mas 50% da população do Município não tem acesso à rede de esgoto e ocupa a 22ª colocação do IDH Fluminense. Segundo dados 77 Este indicador consiste na proporção da população que se encontra abaixo da linha de pobreza, ou seja, a população que apresenta renda inferior à ½ salário mínimo. 78 Fontes: Jornal Valor Econômico. Rio de Janeiro. 16/4/2007 e Ministério do Planejamento. Noticias.asp?NOTCod=

68 68 oficiais do censo 2000 São Gonçalo tem PIB de R$ 5,2 bilhões, renda per capita de R$ 5.481,01 e cerca de R$ 23,50 por pessoa por ano para investimento. A indústria era a principal vocação da área e fonte de geração de empregos até a década de No momento atual o comércio e os serviços ocupam essa posição. A implantação de grandes redes de supermercados como o Makro, Carrefour, Extra e mais recentemente o Sam s Club e o São Gonçalo Shopping Rio em 2003 demonstram essa mudança recente na criação de postos de trabalho. Diariamente, cerca de 60 mil usuários de barcas saem de São Gonçalo para o Município do Rio de Janeiro e outros milhares vão de ônibus, Transportes irregulares, conhecidos como vans, e automóveis. Um bom exemplo desta circulação diária está no trabalho de Araújo (2003) 79 que trata das vias que ligam os dois Municípios. Segundo o autor as vias são utilizadas por grafiteiros como verdadeiras galerias de arte nas quais a linguagem urbana das pichações e desenhos substitui os inexistentes canais formais de comunicação entre a população e o Governo local. As ligações entre Niterói e São Gonçalo são grandes corredores viários para a passagem de trabalhadores que se deslocam de Itaboraí, Maricá e São Gonçalo em direção à Niterói e ao Rio de Janeiro. A empresa Ecia - Irmãos Araújo, localizada na cidade do Rio de Janeiro, percebeu essa grande circulação, elaborou uma pesquisa sobre o perfil do morador de São Gonçalo e definiu a localização estratégica no eixo Niterói e São Gonçalo às margens da Baía de Guanabara para construir o São Gonçalo Shopping Rio. A pesquisa, segundo a revista Investnews em 2007, visou à modernização do comércio local e apontou que a segunda maior cidade do Estado em população tinha uma demanda mensal de consumo de R$ 318 milhões e que 50% dos consumidores que freqüentavam o Plaza Shopping, principal Shopping de Niterói e mais próximo do Município de São Gonçalo. 80 A ideologia de modernização implica na construção de novos espaços de consumo e lazer na periferia como o São Gonçalo Shopping visando dar acesso às classes C 79 ARAÚJO, Marcelo da Silva. Vitrines de concreto na cidade: juventude e grafite em São Gonçalo. Orientador: Prof. Dr. Helio Vianna. RJ: EBA/UFRJ, 2003; IX, 224p (ilustrada). 80 Fonte: Investnews, vida financeira. vernoticia_chhjci.html. Pesquisada na internet em agosto de 2007.

69 69 e D aos novos mercados. Segundo podemos observar em Natal (2004) 81 a partir de 2003 os empresários começaram a dirigir produtos e propagandas para atrair essas classes, o que coincide com o início da construção do Shopping para incorporar aqueles que ganham de 2 a 10 salários mínimos e constituem cerca de 40% do mercado de consumo do país e mais de 30% dos domicílios brasileiros. (NATAL, 2004, p. 108). Em São Gonçalo a construção de espaços de consumo pode representar apenas o consumo do espaço, (LEFEBVRE, 2000). Novos empreendimentos não significam, diretamente, a melhoria na qualidade de vida dos habitantes como indica pesquisa recente do IBGE, onde São Gonçalo aparece como tendo o segundo pior desempenho do Estado em relação à participação no PIB per capita do País. 82 Além disso, os entrevistados ressaltam a ausência de novos espaços de educação fundamental no Bairro da Boa Vista e a baixa escolaridade nos bairros próximos como Boaçu, Gradim e Itaóca entre outros. Apesar das novas universidades particulares que se instalaram no Município no mesmo período 83 e a multiplicação de outdoors em inglês quando ainda existe analfabetismo e baixa escolaridade. A construção da Estação Hidroviária de São Gonçalo e do entreposto municipal de pesca com restaurantes anexos na Boa Vista e próximos ao São Gonçalo Shopping ou no Gradim na Rua Manoel Duarte, podem ser elementos geradores de um novo centro econômico. Esse centro poderá alterar algumas relações de poder entre os Municípios vizinhos como Niterói, que representa um caminho obrigatório para os trabalhadores do Rio de Janeiro que moram em São Gonçalo, Itaboraí e Maricá. Pode significar, também, a perda do monopólio do transporte hidroviário de ligação com o Município do Rio de Janeiro. Shopping Center, piscinão, estação de barcas e mudanças na esfera produtiva, como o fechamento de algumas fábricas, contribuem para produzir transformações demográficas na orla de São Gonçalo desde a década de 1960, quando era apenas um vazio urbano entre os novos loteamentos de Alcântara e as indústrias de Neves e do Barreto NATAL, Jorge. (Org.) Conjuntura fluminense recente 1998 a Memórias selecionadas. Papel Virtual. FAPERJ. 270p Jornal O São Gonçalo, Matéria: Na contramão do crescimento, p. 6. Terça-feira, 22 de novembro de Universidade Estácio de Sá, Faculdades Paraíso, Univer-cidade, Universidade Cândido Mendes, a Universo e a Universidade Icebeu. 84 Fontes: IBGE, apud (Fusão, 1969, p. 102) e Site do IBGE, Cidades em

70 70 Muitos fatores contribuíram para o crescimento demográfico acentuado principalmente nas décadas de 1960 e O crescimento industrial nas décadas de 1970 e 1980, e o tipo de urbanização adotado nas décadas de 1950 e 1960, possibilitaram grandes aglomerados humanos como Jardim Trindade, Jardim Alcântara e Jardim Catarina e atraíram grande número de habitantes dos Municípios vizinhos. Fenômeno bem semelhante, acontece hoje em São Gonçalo e, em menor escala, em Itaboraí. Em estudos anteriores, (MENDONÇA, 2000), observamos que a procura por trabalho nas indústrias de Neves e do Barreto promoveu aumento no número de loteamentos residenciais, ocupados, principalmente, por moradores oriundos do interior fluminense. Na tabela abaixo podemos observar um dos momentos mais significativos das migrações internas, mostrando a evolução do número de habitantes para o Município de São Gonçalo: Tabela 12. Crescimento populacional em São Gonçalo de 1940 até Ano População * Fontes: Censos do IBGE de 2000; Abreu, M, 1987 e Fusão*, 1969, pág Ao observar a história do município, não encontramos grandes empreendedores, mas empresas familiares ou de médio porte que vendiam fazendas e grandes áreas, como a imobiliária São Gonçalo e a loteadora Sociedade Expansionista Gonçalense SEG 85. Atualmente, também são relatados inúmeros loteadores clandestinos atuando desde a antiga área rural próxima a Niterói, via Arsenal-Tribobó e RJ-104 e RJ-116 e na área de estudo, principal ligação do eixo Niterói São Gonçalo, próximo à Baía de Guanabara, na BR-101, inclusive com loteamentos clandestinos em áreas de proteção ambiental. Segundo alguns moradores, entrevistados no bairro da Boa Vista, mesmo com o recente asfaltamento da comunidade em frente ao shopping, os terrenos remanescentes de manguesais correm risco de invasões. Ao indagarmos os habitantes dessa comunidade sobre as mudanças no seu bairro eles traçam uma nova identidade para o local, não mais ligada ao passado da comunidade pesqueira, mas essas identidades culturais 86 estão sendo impostas de fora para dentro pelas novas sociabilidades inseridas no processo de mudança social, produto 85 A Sociedade Expansionista Gonçalense, atualmente com sede em Niterói, tem como foco os municípios de Maricá e de Itaboraí. 86 O conceito de identidade derivado do latim identitate, pode significar tanto qualidade daquilo que é idêntico, pessoal, quanto identidade cultural, ou seja, a consciência que um grupo tem de si mesmo.

71 71 das novas relações sociais desses antigos moradores com os novos investimentos públicos e privados na orla Oriental da Baía de Guanabara. Dentro desse conjunto de projetos, um que vem paulatinamente sendo comentado na mídia é o projeto da estação hidroviária. A demora na execução desse projeto parece sugerir que existe uma disputa entre a PMSG e a empresa que administra o São Gonçalo Shopping ou entre a Prefeitura e a concessionária das Barcas para definir a escolha do local da estação. A imprensa afirma que o Shopping adquiriu um terreno em frente para construí-la, mas a Prefeitura defende a utilização do terreno de uma antiga fábrica de conservas desativada no bairro do Gradim. Segundo a imprensa a Prefeitura construirá a estação aquaviária de carga e passageiros de São Gonçalo com apoio da Secretária Estadual de Transportes, da Agência Reguladora de Transporte e da Concessionária Barcas S/A que discute, na Justiça, se tem ou não direito a explorar a concessão uma vez que o prazo para a exploração desse serviço já expirou e ainda não foi renovado. 87 Alguns argumentos são usados para justificar a mudança na execução do projeto do bairro da Boa Vista, em frente ao shopping, para o bairro do Gradim, numa área de 16,3 mil metros quadrados. A secretaria Estadual de Transportes afirma na imprensa que Após estudos técnicos ficou comprovado que o Gradim é mais viável do ponto de vista econômico, mobiliário e náutico do que a praia das Pedrinhas. Segundo essa matéria, o valor presumível da passagem na Boa Vista seria 15% mais caro que no Gradim, mais próximo ao Rio de Janeiro. Além disso, segundo existiria um projeto para integração com linhas de ônibus 88. A construção de uma estação hidroviária no Gradim poderá mudar algumas referências à identidade operária e a hábitos que resistem ainda hoje no local. Podemos presenciar algumas formas de socialibilidade oriundas de antigos usos do bairro e dos processos de classificação do espaço presentes de forma latente em alguns entrevistados. 89 Alguns moradores relatam alterações nas identidades quando relacionam a construção de novos espaços de consumo em antigos espaços ainda existentes das fábricas de sardinha e de 87 VIANNA, Valéria. Artigo: Secretário de Transportes anuncia local onde ficará a estação aquaviária de São Gonçalo. Jornal O Fluminense. Caderno cidades, pesquisado em 24 de agosto de asp?pStrLink=2,76,0,119832&IndSeguro=0 88 Idem VIANNA, Valéria. 89 Durante ao trabalho de campo ficou claro um certo tipo de embate entre o determinismo cultural e o determinismo geográfico.

72 72 reparos navais mudando para residências e comércios. 90 Em alguns casos é possível perceber essa nova identidade construída a partir dos novos espaços. A euforia com a designação popular de barra de São Gonçalo esconde ao olhar mais cuidadoso reminiscências de identidades anteriores, rural, litorânea, fabril, proletária, operária e suburbana. 90 Segundo Maurício de Abreu estes antigos espaços são rugosidades que permanecem até hoje. Resquícios de antigas instalações fabris, de ruínas de prédios antigos ou traços urbanos característicos de outras épocas; ou espaços existentes apenas na memória dos habitantes, que resistem ao movimento e permanecem na memória e, em alguns casos produzindo identidade. Ver por exemplo, seu livro: A evolução urbana do Rio de Janeiro.

73 Mudança social e a nova centralidade periférica As transformações recentes na área delimitada provocam mudanças urbanísticas, culturais e políticas, mas ao mesmo tempo constatamos que essas transformações não causam mudanças sociais significativas. Efetuando uma análise comparativa e baseando o estudo no recorte geográfico no eixo Niterói - São Gonçalo encontramos mudanças pontuais, mas são mudanças que não chegam a impedir a coexistência de certos bolsões de pobreza na Boa Vista, Itaóca, Gradim e Boaçu onde há pouco desenvolvimento. A pobreza, que antes era explicada como conseqüência do declínio industrial agora aparece contraditória, graças à retomada de crescimento no Estado (SANTOS, 2003). Para compreendermos a mudança social e a conseqüente criação de uma nova centralidade periférica é necessário ressaltar que Niterói e São Gonçalo atribuem pesos diferentes ao cumprimento das Leis urbanas e existe um descompasso entre as fases de revitalização urbana. Enquanto São Gonçalo se prepara para um possível desenvolvimento industrial com o COMPERJ, Niterói investe no turismo como se estivesse num momento posterior de intervenção urbana (cf. SOUZA, 2001). Em alguns trabalhos são citados em etapas (VAZ et alli, 2001) ou momentos que vão desde o embelezamento urbano, passando pela renovação urbana até atingir o atual estágio de revitalização urbana onde seriam, em tese, realizados investimentos no turismo e na qualidade de vida. O primeiro momento refere-se ao tempo em que Niterói era a capital do antigo Estado do Rio de Janeiro e São Gonçalo convertia-se em periferia ou em subúrbio industrial criando-se assim a principal dualidade histórica entre as duas cidades. Marx, por exemplo, refere-se a momento histórico similar com a conhecida afirmação do Manifesto sobre a criação de antagonismos e a dualização da vida urbana (MARX, 2004). 91 Na década de 1960 e 1970 a orla Oriental da Baía de Guanabara se transforma em importante eixo de expansão da cidade do Rio de Janeiro. De forma bem clara podemos constatar que o Rio de Janeiro converte-se em centro, Niterói e um sub centro e São Gonçalo em periferia. 91 Segundo o jovem Marx no livro O manifesto do partido comunista, a época da burguesia caracteriza-se por ter simplificado os antagonismos de classe. A sociedade dividi-se cada vez mais em dois vastos campos opostos em duas classes diamentricamente opostas: a burguesia e o proletariado. (Marx, 2004).

74 74 O segundo momento refere-se ao período histórico seguinte quando há um esgotamento da modernização econômica. Momento de declínio dos antigos distritos industriais e da construção naval. Segundo Harvey, uma solução possível para o declínio econômico seria a geração de políticas e de possibilidades para um modernismo (HARVEY, 1994). É quando Niterói urbaniza suas praias oceânicas; constrói os condomínios do tipo Ubá e planeja o Museu de Arte Contemporânea - MAC. O Rio de Janeiro cria programas de revitalização dos centros de bairro e de favelas. São Gonçalo cria seu primeiro PDD, mas não há modernização política, modernismo ou qualquer mudança qualificada, permanecendo aquém da centralidade periférica. São Gonçalo, hoje, em tese, arrisca-se em ser classificado novamente como periferia se o desenvolvimento econômico se concentrar apenas em Itaboraí. E por fim, o último período, às vezes chamado de pós-moderno quando, segundo Vaz (2001), tenta-se recuperar elementos históricos e simbólicos, compatibilizandoos com a modernização dos espaços. Esse último momento pode ser visto como produtor dos conceitos de revitalização urbana, renovação, reabilitação, requalificação, regeneração, restauração etc, para comentar apenas alguns dos inúmeros conceitos com re então em voga na década de Em Niterói observamos a construção do caminho Niemayer e atualmente a revitalização do centro da cidade. Para compreender o processo de mudança social e a criação de novas centralidades na periférica, procuramos estudar um dos conceitos mais caros e mais antigos desde o início da filosofia, que, de tempos em tempos, re aparece nos estudos sócioeconômicos que é o conceito de mudança social 92. Na filosofia, em muitos casos, a preocupação com as permanências e as mudanças das coisas particulares e transitórias é antiga, o que pode ser um facilitador em nosso trabalho conceitual. 93 Para compreender tais movimentos a filosofia clássica buscou estabelecer uma lei universal e fixa (Lógos), que regesse todos os acontecimentos particulares e ao mesmo tempo fosse o fundamento da harmonia universal ao invés de etapas ou momentos de desenvolvimentos. É a harmonia feita de tensões com a do arco e a da lira. 92 Boudon et alli, op. cit. O conceito de mudança social. 93 Heráclito, pensador grego que se preocupava com o estudo das mudanças. Viveu a cerca de 500 anos a.c. em Éfeso, cidade da Jônia.

75 75 Mais tarde, Heráclito foi retomado por Hegel para discutir o princípio universal que rege todos os movimentos e incorpora uma nova visão, a dialética. Mais recentemente, este último foi retomado por Lefebvre para fazer uma nova leitura sobre o movimento na lógica dialética e nos estudos sobre a mudança, a chamado de revolução urbana. 94 Heráclito: Retomamos o ponto de partida e vejamos Hegel comentando as descobertas de Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: O ser é mais que o não-ser, nem é menos; ou ser e nada são o mesmo, a essência é mudança [...] Pois Heráclito diz: Tudo flui (panta rei), nada persiste, nem permanece o mesmo. E Platão ainda diz de Heráclito: Ele compara as coisas com a corrente de um rio - que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente ; o rio corre e toca-se outras águas. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar (Aristóteles), pois que imediatamente se transforma; o que é, ao mesmo tempo já novamente não é [...] Heráclito diz; tudo é devir; este devir é o princípio. 95 O sociólogo Henri Lefebvre (1995), comentando Hegel, propõe que atualmente em meio a tantas contradições, as mudanças são ainda mais profundas do que no início do Século XIX e em parte, ainda as mesmas. Nesse sentido, ele diz: sejamos resolutamente modernos. Se o real está em movimento, então que nosso pensamento também se ponha em movimento e seja pensamento desse movimento. Se o real é contraditório, então que o pensamento seja pensamento consciente da contradição. Para compreendermos as transformações recentes, não necessitamos recorrer, metodologicamente, a dezenas de teorias nem mesmo se isto fosse possível. Como diz Bourdieu uma teoria não é o maior denominador comum de todas as grandes teorias do passado, (1967, p. 42). Esta citação nos alerta sobre o risco metodológico da reunião de vários conceitos ou de várias teorias neste trabalho como também o perigo de fazer uma história da teoria da mudança ou das teorias que abordam as mudanças. Neste sentido, nos concentramos nos fatos, nos fenômenos e nas questões referentes ao nosso questionamento principal: São Gonçalo está sofrendo mudança social graças às transformações recentes na 94 Para Lefebvre, a mudança é princípio do fenômeno urbano, enquanto que para Hegel, o princípio universal que rege as mudanças (também das cidades) é um princípio lógico. 95 Hegel, George W. F. Crítica Moderna. Os Pensadores Pré-Socráticos, Coleção os. Págs. 102 e 103. Nova Cultural SP, 2000.

76 76 economia fluminense? Quando nos referimos, não apenas aos fatos, mas também aos fenômenos mais abrangentes, reinterpretando-os, acrescentamos a necessidade de criar novos olhares ou novas visões para compreender esse objeto principal. Optamos por usar o método como um instrumento ou mesmo como uma técnica. Recorremos a uma conhecida citação de Bourdieu sobre a diferença entre o uso de uma teoria como doutrina ou como um método de pesquisa para explicitar o uso de múltiplas visões sobre as mudanças em São Gonçalo, enquanto técnica de pensamento para nos auxiliar a extrair conclusões mais precisas. Segundo Bourdieu: Devemos [...] reconhecer [...] a convergência das grandes teorias clássicas em relação aos princípios fundamentais que definem a teoria do conhecimento sociológico como fundamento das teorias parciais, limitadas a uma natureza definida de fatos [...] (segundo) Keynes [...] A teoria econômica não fornece um elenco de conclusões estabelecidas e imediatamente aplicáveis. Trata-se de um método e não de uma doutrina, de um instrumento do espírito, de uma técnica de pensamento, que ajuda aquele que o possui a tirar conclusões corretas. A teoria do conhecimento sociológico, como sistema de regras que regem a produção de todos os atos e discursos sociológicos possíveis, e somente destes, é o princípio gerador das diferentes teorias parciais do social [...] e, por conseqüência, o princípio unificador do discurso propriamente sociológico que não deve ser confundido com uma teoria unitária do social. (BOURDIEU, 1967, p. 43). Neste trecho, observamos o risco de produzir um sincretismo ou de criar uma análise com fundamentos de teorias parciais, limitadas. Uma teoria é um método, ou melhor, um instrumento para tirar conclusões e não as próprias conclusões. Os fenômenos que procuramos explicar aqui desaparecem se partimos do pressuposto que as mudanças no eixo Niterói - Manilha são totalmente conhecidas, são dados reais e inquestionáveis. Este pensamento dificulta o esclarecimento sobre o objeto e impede a dúvida metódica. É necessário avançar, produzir novos conceitos, nova relação entre teoria e empiria, para não cometermos o erro empirista, ou seja, ficar na base empírica e pensar que os dados bem coletados podem explicar os fenômenos, nem tão pouco fazer teoria sem prática. Observamos também o perigo de se fazer um trabalho historicista, esquecendo que a sociologia é também empírica e não recomenda a naturalização (a reificação) dos conceitos. Um dos primeiros passos que adotamos, foi observar a relação entre conceitos e os fatos, isto é, as mudanças que estão ocorrendo na área. Sobretudo pesquisando na orla

77 77 oriental, onde as mudanças estão se processando mais rapidamente. Envolvendo também outras áreas do conhecimento, principalmente as ligadas ao setor petroquímico como o COMPERJ. Para criando novos olhares e produzir novos objetos é necessário percorrer a literatura sobre mudança social e algumas transformações urbanas como os processos de evolução urbana. Em decorrência da atualidade do objeto, encontramos vasta literatura sobre mudança, mas com ambições diversas. Umas buscam o primum mobile da mudança, agente indutor do início da mudança. Por exemplo, a descoberta de novos poços de petróleo e a criação de uma nova centralidade do Norte fluminense, (PIQUET, 2003). Alguns autores citam, e se propõem a estudar esse primeiro movimento nas contradições materiais, na produção, no desenvolvimento tecnológico ou nas mobilizações sociais. No caso da orla Oriental da Baía de Guanabara, esse primeiro movimento parte das transformações na produção para os embates na cultura e na sociedade local. As mudanças em São Gonçalo ainda não produziram uma nova centralidade, nem ao menos transformou bairros em centros de distritos ou mesmo em Centros de Bairros - CBs, como previa o PDD de Se esse trabalho fosse sobre a nova centralidade no Norte fluminense seria necessário pesquisar o aumento da produtividade na extração de petróleo, passando pelas novas divisões de royalties e pelo crescimento dos impostos. Nosso percurso foi diferente, não partimos desta visão, deste primum mobile. Acreditamos que, no caso da orla da Guanabara, existem diferentes fenômenos ocorrendo simultaneamente, o que pode contribuir para a retomada do crescimento da economia Fluminense. Autores como Penalva Santos (2003) e Natal (2004, p. 54) são partidários desse primum móbile. Natal, por exemplo, cita o espetacular crescimento da produção de petróleo e gás natural no Estado do Rio de Janeiro no período de , e segundo ele esse movimento, é o mesmo no qual se dá a positiva inflexão econômica em análise. Outros, porém, propõem descrever etapas necessárias da mudança, à qual conferem implicitamente uma direção, qualificando-a como evolução, desenvolvimento ou

78 78 modernização. São os casos de Souza, (2001) e Oliveira (2003). Algumas teorias buscam ainda a força motriz da mudança: luta de classes, conflitos entre grupos políticos, contradições entre forças produtivas e modelo culturais; são os casos de Aglietta, Castels, e em alguns momentos Lefebvre. Há ainda quem busque as formas da mudança. Estas podem ser dos tipos linear ou multilinear como afirmaria Sahlins segundo (BOURRICAUD, 1993) ou cíclica (SOROKIN, 1968), sendo que alguns acreditam que as mudanças devem necessariamente assumir a forma de uma seqüência, bloqueios e momentos de crises. Alguns autores defendem que a mudança seja contínua e sem incidentes, procedendo de uma seqüência de desequilíbrios e de ajustamento progressivos, enquanto que outros pretendem que seja descontínua ou marcada por ruptura ou de mutações, metáfora construída a partir da distorção de um conceito biológico, mas recorrentemente empregada para comentar processos de mudança. 96 Em alguns casos, a economia trabalha com outra variante do conceito de mutação. No caso de Tavares (1995), vemos alusão às transformações a partir das contradições entre política e economia. Reconhecemos a complexidade do estudo da mudança social e por conseqüência não devemos fazer rejeições a esta ou aquela tradição, mas devemos nos limitar ao estudo sócio-econômico, em nosso caso mais acessível, quando surgirem contradições entre uma e outra abordagem. Como diz Lefebvre, nosso pensamento (é) condenado pela condição humana a ir da ignorância ao conhecimento [...] O conhecimento de um ser qualquer tem um começo. Deve atacá-lo por seu ponto fraco, por seu lado vulnerável; ou, simplesmente, por aquele que nos é acessível [...] A análise não pode reduzir o complexo ao perfeitamente simples. Atualmente, longe de reduzir o complexo ao simples, o método científico busca, sob as aparências simples, os fenômenos do real complexo. (LEFEBVRE, 1995, p ). 96 OLIVEIRA, Jane Souto de. Mutações no mundo do trabalho: O (triste) espetáculo da informalização. Revista Democracia viva nº 21. Ibase, Rio de Janeiro, abril e maio de 2004.

79 79 Na intenção de analisar processos de transformação e de mudança social iremos deparar ao longo desse trabalho com estudos de Lefebvre sobre os movimentos de ocupação, transformação e produção dos espaços, além de impactos sobre as identidades locais. Em São Gonçalo, por exemplo, percebemos, através de entrevistas, uma nova definição indentitária em relação à antiga classificação fabril. Após a mídia ter rotulado de a barra de São Gonçalo, perguntamos com alguns moradores, dos bairros da Boa Vista viam a nova relação com o lugar. Segundo algumas pessoas, as mudanças ainda estão acontecendo, mas já são visíveis como o piscinão e o shopping. A maioria dos moradores entrevistados tem conhecimento, mesmo que superficial, da instalação do COMPERJ, mas muitos acreditam, graças à propaganda da Prefeitura, que este será instalado em São Gonçalo e não em Itaboraí. Ao interrogar se esses novos usos estão, de fato, alterando a idéia que os moradores têm sobre a vocação do eixo entre Niterói e Manilha, percebemos que não. Para alguns moradores, a vocação de São Gonçalo, e principalmente do eixo Niterói Manilha, ainda é a antiga vocação industrial. Poucos entrevistados defendem a ampliação das atividades ligadas ao novo Shopping ou a ampliação do setor de serviços ou de comércio. Além das transformações sócio-econômicas, não notamos uma refinalização coletiva das subjetividades locais. Quando o assunto é a geração de emprego, por exemplo, os jovens associam automaticamente a instalação do COMPERJ e a indústria naval. As transformações recentes não são consideradas em seu movimento, em sua dialética, como uma nova produção da subjetividade para usar uma expressão de Sartre comentada por Guatarri, (1996). Ou seja, mudam-se as atividades, mas nem sempre as mentalidades. As entrevistas apontam que não basta encontrar mudanças na economia ou na paisagem urbana e até mesmo a criação de novas centralidades, como o bairro da Boa Vista. As transformações são efetivas quanto não é apenas trabalho de especialistas, mas quando há envolvimento da população local. Ou seja, uma mudança de fato, requer também uma mobilização de todos os componentes da Paisagem Urbana. (GUATARRI, 1991, pp. 293, 294 e 300). Mobilização que envolve mudança nos sentimentos sobre a relação dos habitantes com o seu bairro e a sua cidade.

80 80 Por mobilização, leia-se maior participação na gestão, na mudança dos espaços e na condução da própria vida. Uma vez alterado um modelo de pensamento que privilegia determinadas áreas ou regiões em detrimento de outras. Alguns habitantes entrevistados ainda não mudaram suas percepções sobre o eixo Niterói - São Gonçalo. Fazem questão de pensar a sua localidade a partir dos seus distritos, das suas profissões e falam da cidade através das antigas indústrias ou do Município enquanto cidade dormitório. 97 A seguir explicitamos melhor os instrumentos e as técnicas de pesquisa que nos ajudaram a compreender a mobilização e o sentimento de participação, por exemplo, do indivíduo com o seu bairro. Neste texto descrevemos o que chamamos de dialética de novos espaços e o estudo do movimento dialético. Quando ouvimos alguém da comunidade de pescadores do Gradim ou da Boa Vista dizer: isto é um bairro, temos a impressão de que ele se refere a uma coisa natural, diferente do próprio entrevistado, existente em si mesma e com características próprias. Entretanto, o simples fato de chamar uma coisa de bairro operário ou comunidade indica que o local não existe em si, mas existe para quem acredita na sua existência, isto é, possui um sentido, uma experiência para o operário ou para o pescador. Vamos supor que este pertence a uma classe trabalhadora politicamente organizada, como o caso da colônia de pescadores, com cultura e identidade própria, que acredita que esse bairro faz referência e reforça sua identidade. Para ele, esse bairro não é mais uma simples coisa, mas uma referência à sua identidade. Imaginemos em seguida que somos uma empresa capitalista que explora shoppings centers e que haja interesse em investir nesse bairro. Como empresários, compramos terrenos para explorá-los, transformando antigos espaços vazios em propriedades privadas, local de trabalho e capital, ou seja, as transformações nas paisagens urbanas de São Gonçalo podem afetar a memórias do trabalho. Como exemplo, recorreremos a trabalhos como a dissertação de Leila Araújo (2001) 98 para reconstruir, pela fala dos indivíduos, a paisagem urbana da antiga região industrial dos Municípios da área objeto. Segundo Araújo, (2001), a memória dos antigos trabalhadores do distrito de Neves é produto e produtora da identidade dos trabalhadores 97 Como exemplo, podemos citar o caso dos entrevistados na antiga colônia de pescadores do Gradim. 98 ARAUJO, L. de O. Paisagens urbanas reveladas pelas memórias do trabalho. Scripta Nova, Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona, vol. VI, nº 119 (54), [ISSN: ]

81 81 ainda hoje. Mesmo com as fábricas fechadas a memória permanece, ainda, indelével. Corroborando com a visão de Ajaújo, acreditamos que as paisagens urbanas são insolitamente reveladas pelas memórias do trabalho, mas também observamos que a memória seleciona as lembranças mais convenientes. 99 Consideramos, por fim, que somos fotógrafos, pintores ou planejadores urbanos. Neste caso, o bairro não é nem referência identitária, nem propriedade privada capitalista, nem local de moradia, mas forma, cor, volume, linhas, profundidade, um campo de visibilidade e de planejamento 100. Sob essas quatro formas: bairro, referência identitária, um novo shopping center e campo de planejamento, o bairro como coisa natural desapareceu, sendo negado como mera coisa pela consciência e pela ação humanas. Tornou-se não-coisa porque tornouse bairro operário-para-nós, significação, ente cultural. Foi consumida-destruída-suprimidanegada pela cultura dos habitantes. Em termos hegelianos, o Espírito negou-se como natureza e afirmou-se como cultura. Negou-se como ser-em-si, tornando-se ser-para-si. A negação dialética não significa a destruição empírica ou material de coisas, e sim a destruição de seu sentido imediato que é superado com os novos usos, por um novo sentido, posto pelo próprio espírito na corrente hegeliana. 101 Acrescentamos o estudo da dialética, pois entendemos por dialética dos espaços a nova centralidade produzida por empreendimentos nos antigos espaços urbanos ou industriais. Consideramos, também como dialético o movimento que recria novos espaços, antes, destruídos ou sub utilizados para consumi-los e depois novamente destruí-los. A possibilidade de construção de novas centralidades constitui o essencial do fenômeno urbano. Uma centralidade considerada junto com o movimento dialético que a 99 Devido ao acidente da Petrobrás, muitos pescadores ainda permanecem impossibilitados de pescar nas águas da Baía de Guanabara. A poluição, mesmo que agravada com o acidente, é muito antiga, mas serviu de cimento para unir pescadores para receber indenizações da Petrobrás. No ano de 2006 e 2007 observamos na mídia várias manifestações e barqueatas. 100 Chamo de campo de planejamento, um determinado espaço onde convivem conflitos sobre o seu devir, sobre o planejamento do seu futuro. Local onde diferentes grupos lutam para planeja-lo, como um campo de batalha. 101 Nem todos os espaços do eixo Niterói Manilha estão passando por processos de transformação. Alguns locais mantêm-se preservados, como a Ilha das Flores, que por pertencer à Marinha o Brasil, permanece sem grandes alterações.

82 82 constitui e a destrói, que a cria e a extingue. O fato de que qualquer ponto possa ser tomado como centro é o que caracteriza o espaço-tempo urbano. (LEFEBVRE, 1970, p. 122). 102 Esse movimento é inevitável e dialético. Como diria Marx e mais tarde Berman, tudo o que a sociedade burguesa constrói é construído para ser posto abaixo [...] das roupas aos teares e fábricas que as tecem, aos homens e mulheres que operam as máquinas, às casas e aos bairros onde vivem os trabalhadores, às firmas, às vilas e cidades, regiões inteiras e até mesmo as nações tudo isso é feito para ser desfeito amanhã, despedaçado ou esfarrapado, pulverizado ou dissolvido, a fim de que possa ser reciclado ou substituído na semana seguinte e todo o processo possa seguir adiante, sempre adiante, talvez para sempre, sob formas cada vez mais lucrativas. (BERMAN, 1996, p. 97). Nessa linha metodológica, o que consegue resistir ao movimento perpétuo do tempo é o próprio movimento. Sendo assim, a necessidade de conhecer e decifrar a dialética em outros autores. Desde Platão e Aristóteles, há divergências quanto ao papel da dialética na produção do conhecimento. Ambos concordavam que a dialética é o logos, 103 dividido internamente em predicados opostos ou contrários. Os dois filósofos consideram que a realidade e a verdade obedecem ao princípio de identidade e expulsam a contradição. Esta é considerada irreal (do ponto de vista da realidade) e possível (do ponto de vista da verdade), pois é irreal e impossível que uma coisa seja e não seja ela mesma ao mesmo tempo e na relação. Ao utilizar a dialética, percebemos que um determinado espaço muda, mas permanece com características do seu antigo uso. Um bairro como Neves que antes era rural, passou para industrial, hoje urbanizado, passa por um novo processo que envolve o setor de serviços, ainda possui atributos rurais. Em algumas casas ainda é comum a criação de animais e aves para consumo familiar. Através de entrevistas observamos também que a visão de mundo de algumas pessoas é contraditória. A função da dialética, em Platão, era expulsar a contradição no processo de conhecimento, aqui ela nos faz conhecer a contradição pela qual passa os habitantes envolvidos em processos de mudança. 102 LEFEBVRE, H. La revolución urbana. Madrid. Alianza Editorial, Ver também Le droit à la ville. Paris. Anthropos, CHAUI, Marilena. Cap. IV Lógica e Dialética. IN: Convite à Filosofia. pp Ed. Ática. 6ª ed. SP

83 83 Segundo Hegel a dialética é a única maneira pela qual podemos alcançar a realidade e a verdade como movimento interno da contradição. 104 Heráclito já considerava que a realidade é o fluxo eterno dos contraditórios. No entanto, segundo Chaui (1997), a contradição dialética possui duas características principais: a) Nela, os termos contraditórios não são positivos contrários ou opostos, mas dois predicados contraditórios do mesmo sujeito, que só existem negando um ao outro. Dessa forma, em lugar de dizer urbano-rural, centro-periferia, urbano-suburbano, exploradoresexplorados, industrial-pós-industrial, local-global, moderno-pós-moderno, devemos compreender que é preciso dizer: urbano-não-urbano, rural-não-rural, suburbano-nãosuburbano, exploradores-não-exploradores, industrial-não-industrial, local-não-local, globalnão-global e assim por diante. b) O verdadeiro negativo é uma negação interna, como aquela que surge se dissermos, por exemplo, o espaço urbano é o espaço não-rural, o urbano é o não-rural, pois, aqui o ser do urbano, a sua realidade, é a negação da realidade do rural, e o urbano é o rural negado como rural. Não temos um espaço industrial que virou urbano, mas um espaço industrial que deixou de ser industrial porque foi transformado em urbano, e agora está se transformando novamente. Em pesquisa anterior, (MENDONÇA, 2000), observamos que a cultura ainda indica a manutenção de traços rurais, como por exemplo, a criação de animais em casa ou a pesca artesanal na Baía de Guanabara ao lado do São Gonçalo Shopping. Poderemos também comentar as mudanças, dizendo que um espaço industrial que está sendo revitalizado e classificado de pós-industrial, na realidade pode ser um espaço industrial que está deixando de ser industrial porque se transforma em algo ainda não classificado. O eixo Niterói - São Gonçalo possui esses predicados. Ao mesmo tempo em que permanece como zona industrial e residencial, foi proposto no Plano Diretor de São Gonçalo como centro de desenvolvimento para o comércio e o lazer. 104 Na teoria hegeliana, no universo tudo é movimento e transformação e, as transformações das idéias determinam as transformações da matéria.

84 84 A cultura também não permanece estática frente aos efeitos das mudanças, como no caso do desenvolvimento endógeno das comunidades que margeiam a orla Oriental da Guanabara. As comunidades da Boa Vista, Gradim e Itaóca, entre outras, estão criando Organizações Não-Governamentais para defender seus direitos, mas ainda mantém algumas referências da antiga condição trabalhadora. Ver por exemplo os trabalhos de Araújo (2002) e Guedes (1997) que, entre vários temas, citam a cultura como elemento de defesa da identidade ligada ao passado industrial. Por outro lado, percebemos que a dinâmica da própria cultura, - que dentre várias criações, também produz os processos de mudança, - não pode ser destruída por ela em sua totalidade, (BAUDRILLARD, 2000). Em resumo, a cultura também produz memória, e esta pode fornecer informações sobre os hábitos, por exemplo, dos operários da Gerdau que entrevistamos. Ao questionarmos sobre as suas principais lembranças, eles relataram além dos trabalhos árduos na laminação, os momentos de alegria quando participavam do time dos metalúrgicos. O conceito antropológico de cultura, mesmo abrangente, caracteriza bem que modo de vida e de sociabilidade é um produto e ao mesmo tempo é produtor da mudança. Semelhante à célebre frase de Galileu, eppur si muove, 105 a estrutura proposta por Marx na metodologia encontrada no prefácio à contribuição à cr tica da economia política parte do movimento do concreto, isto é, do que é observado na sociedade. Porém, esse olhar para o concreto em muitos, casos está repleto do senso comum do investigador e não revela, a primeira vista, a essência do que estamos estudando. Do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção. (MARX, 1979, p. 5). O objeto de pesquisa, em nosso caso específico, à primeira vista, apareceu como um concreto figurado. Para Marx, é a forma como o objeto aparece ao pesquisador exige que esse objeto seja analisado mais detalhadamente para revelar que o concreto figurado esconde 105 Mas ela se move. Frase de Galileu Galileiem em seu julgamento para provar o movimento da terra em Roma, no ano 1633.

85 85 dentro de si uma série de relações complexas. Segundo Marx esse concreto figurado pode ser descrito como: uma representação caótica do todo, e através de uma determinação mais precisa, através de uma análise, chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do concreto idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos determinações mais simples. (MARX, 1978, p. 116). Segundo o mesmo autor, primeiro conhecemos a realidade aparente, depois, através do pensamento científico, apreendemos o que seria o verdadeiro significado, ou a essência, daquilo que a realidade aparente não mostra. O concreto, segundo Marx, é uma síntese de múltiplas determinações, e o método dialético deve ser adotado como uma forma de se fazer essa síntese. Partimos da observação da realidade, ou do concreto figurado, das categorias simples que o compõem, para depois definir as relações dessas categorias entre si, buscando a essência daquilo que estamos estudando. Percebemos que a realidade observada é uma abstração com determinantes ocultos que têm que ser descobertos. Esse processo, de descoberta, é realizado pelo pensamento com auxilio da dialética. Extraindo essa essência a partir da volta à categoria inicial e a partir das relações entre as categorias simples fazemos as primeiras considerações preliminares, porém, nosso olhar não é neutro, ele parte de nossa realidade histórica e cultural, como mostra Marx: até as categorias mais abstratas precisamente por causa de sua natureza abstrata -, apesar de sua validade para todas as épocas, são, contudo [...] igualmente produto de condições históricas, e não possuem plena validez senão para estas condições e dentro dos limites destas. (MARX, 1978, p. 120). Partindo dessas considerações preliminares, buscamos estabelecer relações entre as categorias simples, pois é a partir dessas relações mais simples, que o concreto figurado se transforma em concreto de pensamento, totalidade de pensamento ou todo de pensamento. Segundo Marx, seria uma síntese de múltiplas determinações, ou múltiplas abstrações, que é o concreto depois da nossa operação mental.

86 86 Se partíssemos da sociedade mais complexa, isto é, da sociedade capitalista encontraríamos categorias e conceitos em sua forma mais complexa e abriríamos espaço para decompormos em formas mais simples. Na sociedade capitalista estão as categorias em sua forma mais complexa, portanto é daí que conseguimos, simplificar nosso objeto concreto até atingirmos sua forma pensada. Segundo Marx, (1978), seria uma certa viagem de volta ao pensamento, indo do mais simples ao mais complexo, é semelhante ao processo histórico real. Marx utiliza a metáfora do macaco, segundo ele, a chave para a anatomia do macaco está na anatomia humana, mas sem naturalizar a nossa sociedade, aplicando essa metáfora como regra. Ou seja, para se entender o capitalismo, Marx, parte do capital, aquilo que domina toda a realidade desse modo de produção. Então ele conceitua o que é o capital e começa sua análise por pela forma mais simples deste, isto é, a mercadoria. No nosso caso, para entendermos as transformações recentes em São Gonçalo, necessitamos conceituar essas transformações e lembrar que são categorias disfarçadas em outras formas. Assim como Marx diferencia o capital do dinheiro, devemos diferenciar as transformações recentes das transformações que ocorrem habitualmente devido à própria dinâmica das cidades. Segue assim a necessidade do método dialético. Ao adotarmos o processo dialético do conhecimento passamos a perceber este conhecimento como algo que evolui com o tempo, tendo a sua própria dinâmica, e esta não é observada como realidade. Ou seja, A realidade que observamos, não é necessariamente a dinâmica das cidades. Em São Gonçalo, por exemplo, a primeira vista, parece estacionada no tempo e mais grave ainda, observando indicadores como o IDH, temos quase a certeza estatística, mas como diria Hegel ao comentar a dialética, quebrando a casca da nós, temos uma análise mais apropriada. Como primeiro passo, fomos ao real (a realidade de São Gonçalo) identificando as transformações mais visíveis até perceber que essas transformações fazem parte de um todo mais complexo, e este envolve a cultura, a política local, a religião, a violência etc. Por isso, acreditamos que nossa pesquisa só pode ser elaborada porque tínhamos uma observação prévia da realidade. Após o primeiro passo que é a observação da realidade, percebe-se que o real é uma construção social e resultado do pensamento, que segundo (LEFEBVRE, 1995) é produto e é produtor dessa realidade.

87 87 As contradições que expomos, como por exemplo, a reutilização de antigos espaços industriais e o surgimento de novas atividades no local convivendo com a manutenção dos baixos índices sócio-econômicos apresentados, nos faz recorrer a explicação marxista. Acreditamos que esta nos permitiu compreender que os fenômenos delineados de revitalização de espaços são criados pelas condições objetivas das quais o nosso pensamento deve se dedicar. Na visão marxista, os fatos humanos mais primários são relações dos homens com a natureza na luta pela sobrevivência e que tais relações são as de trabalho, dando origem às primeiras instituições sociais, sendo essas econômicas (estrutura). Mas, para mantê-las, o grupo social cria idéias e sentimentos, valores e símbolos e novas identidades, aceitos por todos e que justificam ou legitimam as instituições assim criadas (superestrutura), ou seja, a cultura. Também para conservá-las, o grupo social cria instituições de poder que sustentam pela força, pelas armas, pelas Leis, pelas relações sociais ou pelas idéias-valores-símbolos produzidos. A releitura do marxismo nos permite compreender as articulações entre o plano econômico (material) e o simbólico (imaterial) nas transformações recentes e a permanência, na tradição 106 e nos mitos do passado glorioso e industrial da manchester fluminense apresentados em dissertação anterior ou da antiga abundância da pesca, muito citada nas entrevistas. A tradição e a realidade podem ser reconduzidas para que a ordem social possa mudar ou persistir, ao mesmo tempo em que a cultura também pode ser a invenção dessa ordem simbólica, criação de novos significados, como diria Geertz, sistemas de símbolos significantes. O cientista social Berman (1996), seguindo os passos de Marx (2004), aponta um caminho para nosso trabalho, a existência da mudança permanente. Ao visitar algumas localidades percebemos em relatos, que alguns habitantes estão mudando seus projetos e suas vidas para se adaptar às mudanças. Muitos dos jovens entrevistados estão procurando cursos na área de petróleo e gás. Cerca de vinte mil se inscreveram na primeira seleção para trabalhar na obra do COMPERJ. Percebemos que também os jovens estão sendo aprisionados nesse moinho que ora os joga para indústria, ora esporte, ora música, ora empresa. Encontrei 106 Esta pode ser inventada pelos habitantes locais. Como nos mostra Hobsbawn, E et Ranger IN: The Invention of Tradition. Cambridge University Press, 1983.

88 88 jovens que dizem mudar de objetivo cada vez mais rápido. Os jovens parecem perdidos entre a polivalência ou a especialização. A titulo ilustrativo, não percebemos esta preocupação com a mudança permanente entre políticos, o que pode refletir, a priore, na ausência de dinâmica do planejamento local. 107 Enquanto os jovens estão tentando se adaptar às mudanças de forma rápida e eficaz, os políticos que deveriam atualizar as Leis e principalmente o planejamento urbano de São Gonçalo parecem não se atentar ao fato com a mesma agilidade. Segundo Berman, (1996), o indivíduo urbano encontra-se num turbilhão, buscando adaptar-se às situações e imposições, cada vez severas do capital. Como já havíamos dito, podemos conversar com jovens que fazem vários deslocamentos semanais de São Gonçalo a Niterói e ao Rio de Janeiro, tentando alcançar qualquer chance que aparece, dos trabalhos temporários a concursos para qualquer cargo ou realizando novos cursos técnicos para o trabalho na indústria naval. Este indivíduo é exemplificado, por Berrman, como Alcebíades a todo tempo, sempre pronto para as novas situações de emprego e atendo aos novos símbolos e mensagens globais: polivalência, adaptação, competição e incerteza. Os jovens que expressam nas suas opiniões a recusa do passado rural, não abominam a velha forma de dominação política a qual estão inseridos. Cerca de 50% desses jovens em São Gonçalo, por exemplo, são eleitores evangélicos que apóiam as práticas da política local. 108 Pensam estar adaptados para o mercado darwinista, mas não percebem que podem ser peças em desuso nessa engrenagem social. Por fim, neste item apresentamos através da análise das entrevistas, como cerca de vinte e sete jovens que representam uma parcela da sociedade, vivencia os impactos e as contradições das transformações recentes. Observamos que essas contradições nem sempre provocam novas percepções sobre a realidade. Ao mesmo tempo em que jovens do bairro da 107 O município de São Gonçalo teve apenas dois planos. Um elaborado pela FUNDREM: Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em 1978, e o atual Plano Diretor Decenal elaborado em Muito do que está contido no atual plano vem da observação de algumas diretrizes do primeiro plano. Ou seja, vinte e sete anos sem a execução de planejamento urbano. 108 Segundo a dissertação de OLIVEIRA, Italmar Santos. A territorialidade evangélica pentecostal: um estudo de caso em São Gonçalo -R.J. IBGE/ENCE. Rio de Janeiro, O autor afirma que a expansão do cristianismo evangélico (neo)pentecostal nas grandes áreas urbanas onde se faz mais presente e com maior concentração em suas áreas periféricas, convertendo e arregimentando os estratos sociais com menor renda e com menor nível de instrução, teve na última década em São Gonçalo a amplitude de um fenômeno tsunami quando aumentou sua população em 105,8% distribuídos por denominações

89 89 Boa Vista, por exemplo acreditam que a estação hidroviária poderia mudar completamente o perfil do bairro, alguns, que também habitam o mesmo bairro, planejam seu futuro buscando novas qualificações nas antigas indústrias e não apostam nas profissões ligadas ao comércio ou aos serviços. A título ilustrativo, apesar de não observamos movimentos de defesa da identidade local como antes, ligadas aos sindicatos e ao passado industrial, encontramos depoimentos a favor das empresas que são símbolos das mudanças globais: Wal Mart, Bob s, McDonalds, Carrefour. Essas empresas, em pesquisa realizada na década de 1990 por (ARAÚJO, 2001), foram classificadas na época, por movimentos contrários aos novos empreendimentos, como empresas nocivas. 109 Em resumo, há cerca de dez anos, as pessoas eram contrárias às empresas globais que estavam se instalando, principalmente em Neves. Hoje essas empresas não são mais hostilizadas. Não devemos ser a voz do outro e sim deixá-lo falar com diz Foucault na Microfísica do poder. Sabemos que essas empresas não investem em responsabilidade social nos bairros vizinhos e oferecem apenas empregos temporários ou de baixa remuneração, mas a opinião das pessoas também está mudando. A indignidade de falar pelos outros é um preço que temos que pagar. Os moradores são prejudicados pelo capital e além do mais, são compelidos a mudar suas visões de mundo sobre essas novas formas de exploração e expropriação dos seus espaços. A teoria exige que as pessoas a quem ela concerne falassem por elas próprias. 110 Este é um tipo de contra discurso pouco presente no planejamento. Segundo Foucault, os intelectuais descobriram recentemente que as massas não necessitam deles para saber [...] e elas dizem muito bem, mas existe um sistema de poder que barra, e os próprios intelectuais fazem parte desse sistema de poder. A idéia de que eles são agentes da consciência e do discurso faz parte desse sistema, (Idem, 1971). A seguir apresentamos a segunda parte desta tese onde descrevemos os momentos da desindustrialização até a revitalização do eixo Niterói - São 109 A tese de ARAÚJO, Leila Oliveira de Lima, (2001) sobre a região industrial, mostra alguns movimentos sociais de moradores contra a construção dos supermercados. Ver por ex. Jornal O Fluminense de 24/07/1992, pág. 4: Chaminé é implodida para dar lugar a supermercado. 110 Foucault, M. Os intelectuais e o poder. Conversa entre Michel Foucault e Gilles Deleuze. Pág. 72. IN: Microfísica do Poder. Cap. IV pp ª ed. Graal, RJ, 1993.

90 90 Gonçalo com o auxílio do viés sociológico e da percepção das mudanças sociais pela imprensa local. Essa revitalização do eixo Niterói - São Gonçalo é pontuada pela década de 1990 e está diretamente ligada ao fechamento de indústrias e fábricas na orla Oriental da Baía de Guanabara e com a reutilização de friches urbanas, espaços vazios e ruínas industriais. A partir dessa primeira constatação, apontamos empreendimentos e projetos públicos e privados para a retomada de desenvolvimento local. Alguns destes empreendimentos já estão afetando diretamente a orla da Baía de Guanabara e, de forma indireta, o Município de São Gonçalo.

91 Revisitando as friches urbanas e os vazios sociais Segundo a definição do Service Technique de l Urbanisme STU, 111 o conceito friches, mais precisamente de friches industrielles ainda é utilizado na França para designar: um espaço, construído ou não, desocupado ou muito sem utilização; antes ocupado por atividades industriais ou outras atividades ligadas à indústria. E a reinserção deste espaço, no mercado imobiliário, independente do seu uso, implicará num novo planejamento, salvo a utilização precária ou provisória. 112 No Brasil, esta definição necessita da devida separação entre a palavra friche, de origem holandesa e do francês arcaico. Segundo o dicionário histórico da língua francesa, o termo latim vervactum, significa retornar a terra, roçar ou cultivar: retourner la terre, défricher. 113 Esta origem francesa da palavra "friche" pode designar o estado e a duração de terras não cultivadas por muitos anos. A idéia de "friche" está associada ao repouso da terra, liberada pela agricultura, de certa forma "abandonada". Uma outra origem de palavra aparece no século XIX, encontrada em comentários nórdicos e holandeses também sobre o cultivo da terra 114. A palavra (virsch) servia para qualificar a terra fraîche obtida sobre os polders. Há uma raiz comum nessa palavra com a original no francês arcaico fresche, que significava frais, ou terra descansada ou repousada. A idéia comum nas duas origens é a ligação com o solo, prestes a ser cultivado. Concluímos que a idéia original de friche é a idéia de um espaço, preservado ou não, que pode ser cultivado, utilizado para receber novos significados, projetos que possam combater o abandono. 111 Pesquisa realizada em fevereiro de 2007 em Paris no STU. Serviço Técnico de Urbanismo da França. 112 SEPROREP/STU: L Enjeu Friche Industrielle, Paris, STU, 1984, p. 6, apud DELUC, Isabelle, 1989 p Segundo o Dictionnaire historique de la langue française de DONADIEU, Pierre. "La jachère hypothèses pour un exorcisme". INRA. Institut National de la recherche agronomique. Le Courrier de l'environnement n 19, Paris, maio de 1993.

92 92 Se a idéia original da palavra denota repouso: "En friche veut dire au repos", as terras ou espaços adormecidos estão nessa condição enquanto não recebem novos usos, novos significados. Transportamos essa idéia de repouso da terra cansada, exaurida pelos usos agrícolas, agora para o espaço urbano, industrial, para representar terrenos outrora utilizados pelas plantas fabris por um longo tempo, mas que podem ser, agora, novamente cultivados, isto é, no caso urbano, aptos a receberem nova cultura de reconquête (reconquista), podendo abandonar, ou não, a ligação com a memória coletiva, que, em nosso caso, atribui a esses antigos espaços a sua identidade industrial. De uma forma geral, as friche ou friches podem significar desde terras abandonadas até sobrenomes de famílias suíças e francesas, que chegaram no Brasil no século XIX. Por outro lado, preferimos trabalhar com o (conceito) friches que pode ser relacionado tanto aos terrenos liberados pela agricultura quanto pelas indústrias. O conceito friche também foi utilizado para a análise da diferenciação espacial e temporal entre a nova atividade industrial e os vazios decorrentes da velha atividade agrícola. Este conceito, porém, não diz respeito ao conceito de friche tal qual usamos aqui, mas um antecessor flurwüstung, onde os vazios são entendidos como de origem direta da industrialização do espaço rural, ou por causa das migrações em direção às cidades que causaram o abandono de vilas inteiras nos campos no período da industrialização. A definição que elegemos para discutir as alterações econômicas num determinado espaço, como o aparecimento de ruínas e vazios industriais, usávamos as influência européias, principalmente francesas, que tratam, desde a década de 1980 das friches industrielles e friches urbaines 115. Quando concluímos a nossa dissertação de mestrado em 2000, tínhamos a preocupação, acadêmica, como diria Pierre Bourdieu, de analisar a relação entre conceitos e 115 Friches urbanas: Terras livres e abandonadas no meio urbano e na periferia por não terem sido cultivadas ou construídas, onde há demolições de edifícios, fábricas ou instalações provisórias. Os antigos quarteirões de fábricas e vilas operárias. Friches industriais: terrenos abandonados pelas indústrias, por estas terem sido relocalizadas ou cessado suas atividades. Esta expressão é indicada aos terrenos ainda ocupados por construções de indústrias, não demolidos, mas inutilizados. (Dictionnaire de l Urbanisme et de l Aménagement (Merlin e Choay. 1985, p. 312).

93 93 as razões práticas da nova pobreza urbana, 116 não a partir de dados estatísticos, mas a partir da constatação da existência de grandes terrenos abandonados entre Niterói e São Gonçalo. Na década de 1990 e também agora na primeira década do século XXI examinamos esses abandonos como aspectos fundamentais para entender a vida nos antigos bairros industriais dos distritos do Barreto e de Neves. Optamos por pesquisar o caso do Município de São Gonçalo, estigmatizado pela pobreza concentrada e inserido em dois mundos distintos: pobreza e possibilidade de reconquista desses espaços. Por um lado, a indignação em alguns depoimentos pode representar as conseqüências nocivas desse tipo de economia que trouxe tantos prejuízos sociais segundo alguns habitantes. Por outro lado, podem ser percebidas algumas possibilidades através de novas formas de interação social e possibilidades de revitalização desses antigos espaços, que podem ser transformados em novos espaços de cultura e lazer ou retornar à industrialização. Simmel, ao longo da sua vida, analisou, de outro ângulo, a situação onde o indivíduo, na sociedade moderna, busca se compreender enquanto ponto de interseção entre vários mundos. Hoje, podemos observar, também, que a vida nas grandes metrópoles, produz novas formas de interação social, através das experiências e das vivências em novos e antigos espaços. Segundo ele, quando o indivíduo se envolve na multiplicidade de relações, vivencia um dualismo. Somos ao mesmo tempo um todo individualizado e parte desse todo, desse universo de novos significados. De la multitud de relaciones en las que los hombres, los grupos, las imágenes se entrelazan, nos deja petrificados en todas partes el dualismo de que lo aislado pretenda ser un todo y de que su pertenencia a un todo mayor sólo quiera otorgarle el papel de miembro. Sabemos que nuestro centro está al mismo tiempo fuera de nosotros y en nosotros, pues nosotros mismos y nuestras obras somos meros elementos de totalidades que nos reclaman como parcialidades de la división del trabajo; y en esto nosotros mismos queremos, sin embargo, ser algo redondeado y que-está-sobre-sí-mismo y crearlo. (SIMMEL, 1996, p. 175). Compreendemos com o estudo dos espaços vazios e de ruínas que o cenário urbano ou a paisaje, como prefere Simmel, exerce influências sobre as experiências individuais. Alguns entrevistados afirmam que São Gonçalo não muda, mas quando citamos 116 BOURDIEU, Pierre. Razões práticas. Cap. Espaço social e espaço simbólico, pp Ed. Papirus, São Paulo

94 94 o Shopping ou novos hipermercados, eles afirmam que já estão tão acostumados com a imagem degradada da cidade e que esses empreendimentos contemporâneos, às vezes, não trazem novos significados ou, pelo menos, demoram a apagar os antigos. Estamos como hombres totales frente al paisaje, tanto el natural como el convertido en arte, y el acto que nos lo crea es inmediatamente un acto que mira y un acto que siente, hecho saltar en astillas en estas separaciones por vez primera en la reflexión posterior. El artista es sólo aquel que consuma este acto conformador del mirar y del sentir con tal pureza y fuerza que absorbe en sí plenamente la materia natural dada y la crea de nuevo como a partir de sí; mientras que nosotros, los restantes, permanecemos más ligados a esta materia y, en esta medida, todavía acostumbramos a percibir este y aquel elemento aislado allí donde el artista realmente sólo ve y configura «paisaje» (SIMMEL, 1976, p. 176). Acreditamos que as pessoas que moram perto de friches ou de áreas em abandono se acostumam com essas paisagens e as naturalizam. Criam sentimentos e valores para classificar, separar e comparar o seu contexto urbano através de suas experiências. Diferente do artista que procura o belo, o morador comum parece observar o que as outras pessoas comentam e gravam em suas mentes significados atribuídos e arraigados. Daí a permanência de estigmas nos discursos sobre São Gonçalo, dee certo modo ligados aos costumes e às percepções daqueles que não habitam a cidade. Simmel, no mesmo artigo, comenta que não devemos explicar o indivíduo apenas pela referência a si mesmo, mas também levando em consideração as suas interações com os outros como no caso dos moradores dos antigos distritos de São Gonçalo, notadamente influenciados por hábitos e costumes de Niterói e Rio de Janeiro, como diz Simmel, pelas configurações sociais, formadas pelas relações no trabalho, igreja, escola e pelo convívio em diferentes instituições. O debate sobre esses espaços antes denominados de vazios, sejam eles urbanos ou industriais, nos remete novamente a este mesmo questionamento do grande mestre da sociologia. Hoje, compreendemos como os espaços vazios ou em ruínas exercem influência sobre as experiências individuais. Em uma das entrevistas, um jovem de dezenove anos, comentou que o seu sonho era mudar-se para Niterói porque em São Gonçalo não existe vida. Provavelmente, o jovem

95 95 se referia à vida cultural, lazer ou à vida noturna. A sua relação com o tempo, com as antigas construções e os usos não o deixa se identificar com as ruínas do passado, pois as suas experiências não fazem parte desse mundo do trabalho. O jovem entrevistado, em tese, parece vivenciar a experiência de morar em São Gonçalo, mas não se identifica com o universo industrial do município. Essa constatação pode revelar diferentes perspectivas e formas de tratamento que indivíduos ou grupos sociais utilizam para classificar seus espaços. A experiência com as identidades e com os laços sociais que são feitos e desfeitos ilustra bem a nossa preocupação, diferente dos primórdios dos conceitos que antes aplicamos para compreender esse fenômeno. O conceito de friches pode representar algo mais, como ruínas e vazios relacionados a sentimentos e experiências, enfim terreno fértil para o cultivo de novos hábitos e costumes. Assim como no passado, o conceito representou as terras frescas liberadas para novos plantios da agricultura, agora, liberadas para o cultivo de novas experiências. Recentemente, um documentário intitulado: ruínas urbanas, produzido por Índia Mara Martins em 2006, apresentou novas experiências e diferentes olhares, como costumo dizer, de multi-visões - sobre a relação entre indivíduos e o meio urbano, os novos usos e ocupações de vazios no meio urbano da cidade do Rio de Janeiro, examinados a partir da sua multiplicidade de interações sociais. Exemplos como a Companhia de Tecidos Nova América (1925), transformada, em 1995, no Nova América Outlet Shopping servem, no documentário, para discutirmos a atualidade do conceito de friches urbaines. Algumas pessoas que freqüentam o Shopping não associam a construção ao seu passado industrial e provavelmente acham até que a edificação foi construída para abrigá-lo, renegando todo o seu passado. No início dos primeiros trabalhos de campo, por não termos, em nossa língua, uma denominação que traduzisse completamente esse fenômeno usamos, inicialmente a terminologia estrangeira: friches urbaines. Há um problema conceitual, já que esta definição representa, ainda, espaços industriais e vazios urbanos, à primeira vista em abandono que podem ser transformados, revitalizados e receber novos usos sociais, mas não se refere ao espaço no sentido abstrato, isto é, a relação com novas categorias de representação desses espaços e não com espaços existentes e concretos. Como nas palavras do jovem citado anteriormente: minha cidade está morta, friche, nesse sentido figurado, quer dizer vazios ou

96 96 ruínas sociais, diferente do sentido concreto como o utilizado na literatura para exemplificar vazios ou ruínas industriais. Nos depoimentos também ouvimos vários relatos sobre os novos usos nesses espaços como alojamentos, escritórios, estacionamentos, áreas de lazer, parques, armazéns e por outras indústrias, mas não encontramos nenhuma referência aos vazios sociais tais quais tentamos desenvolver aqui. Muitas vezes, novos empreendimentos não conseguem disfarçar a imagem de degradação da paisagem urbana, principalmente nos subúrbios industriais, exceto quando são grandes operações. 117 No Brasil, alguns casos de fábricas, ruínas e espaços vazios reanimados são exemplos de alteração nos usos e valorização dos indivíduos. O bairro da antiga Fábrica de Tecidos Nova América, inaugurada em 1925 passou por uma fase de valorização após a planta fabril ser re-inaugurada como Shopping em A transformação em Shopping afetou, de forma positiva, esse subúrbio carioca, transformando-o em referência para a região norte. Acreditamos que medidas de revitalização 118 da e na orla Oriental da Baia de Guanabara podem contribuir para a valorização da identidade dos moradores da cidade na medida em que o declínio das atividades econômicas contribuiu para a baixa de auto-estima da população local. Novas atividades nessas áreas, através da reutilização da infra-estrutura disponível e de vazios industriais podem recuperar traços importantes da identidade cultural local, formada pela classe trabalhadora e perdidos por conta do declínio industrial 119 citado. Foi necessário trabalhar um conceito como o de vazios sociais para designar locais, bairros, distritos ou mesmo cidades, onde a ausência de atividades econômicas criou 117 Em (MENDONÇA, 2000), a construção do Grande Estádio de France em la Plaine Voyageurs em Saint- Denis, subúrbio de Paris, e as Docklands em Londres. Operações urbanas que visavam mudar a imagem e a economia na região. Conseguiram interferir, também, na identidade social desses antigos espaços que foram zonas portuárias, vilas operárias, banlieue rouge etc. Em fevereiro deste ano, retornamos a Paris e podemos constatar as novas referências sobre Saint-Denis. 118 O conceito de revitalização é utilizado apenas como uma ferramenta para designar um novo uso, uma nova vida, ou uma revitalização de espaços vazios ou pouco utilizados. Optamos pelo sentido amplo do termo, pois esse envolve novos usos e novas formas de ação sobre espaços degradados ou sub utilizados oriundos de processos ou modelos de organização social do espaço. 119 Imaginemos como as crianças matriculadas nas escolas da cidade cantam todos os dias pela manha o Hino Municipal: Teu passado - cidade - foi honroso, teu futuro será maravilhoso, e o teu presente fúlgida verdade... Tens usina com muitas chaminés que logo dizem prontas quem tu és.

97 97 um vazio de atividades sociais, alterou alguns significados, contribuiu para a diminuição da auto-estima e desvalorização de determinados aspectos importantes da cultura local. Em francês, a definição friches sociales 120 está diretamente associada aos conceitos de ciclos industriais, e de descentralização industrial. O conceito, tal qual propomos aqui serve para associar outros pontos importantes da análise das mudanças. Um desses pontos é a abordagem das suas dimensões sociais, econômicas e espaciais. Em se tratando de arquitetura e planejamento urbano, é fundamental entender corno diferentes grupos representam e utilizam suas casas, as ruas que freqüentam, o bairro que habitam, seus padrões de sociabilidade, suas preferências estéticas, sua etiqueta, visões da sociedade e do mundo em geral. A sociedade brasileira contemporânea vive, dramaticamente, as dificuldades e impasses entre os diferentes grupos que a compõem. A gravíssima desigualdade social, o contraste de níveis de vida e uma efetiva crise de Valores, produzem um quadro de conflitos e tensão. (VELHO, 1997, p. 4). Sob o ponto de vista antropológico, as mudanças sociais podem provocar momentos de tensões e conflitos em diversos setores da sociedade. O declínio ou o desenvolvimento econômico e as devidas medidas de ajuste social podem criar locais de conflito e tensão social, assim como as cidades que são transformadas da noite para o dia em pólos industriais, sofrendo os efeitos da falta de planejamento e cidades que passam por processos de esvaziamento ou declínio industrial. A construção do conceito de vazio social é bem diferente da definição técnica friche industrial. Para o Serviço Técnico de Urbanismo da França, o conceito friches industrielles, é utilizado geralmente para designar um espaço, construído ou não, desocupado ou muito sem utilização; antes ocupado por atividades industriais ou outras atividades ligadas à indústria. 121 A definição que acreditamos ser a mais apropriada deveria levar em consideração não apenas o espaço construído, mas também a memória e os usos sociais, ou seja, o que as pessoas da orla fazem ou pensam sobre a reconquista desses espaços. 120 A definição, friches sociales, foi introduzida na França em 1966 pelo geógrafo Jean Labasse. Essa definição serviu como uma primeira referência para pensarmos os vazios sociais associados aos indivíduos e não apenas aos espaços. Ver, por exemplo, LABASSE, Jean IN: L organisation de L espace: Éléments de Géographie Voluntaire. p. 457, 458. Hermann, Paris, SEPROREP/STU: L Enjeu Friche Industrielle, Paris, STU, 1984, p. 6 apud DELUC, Isabelle, p

98 98 Segundo Jacques Malezieux 122 o desenvolvimento econômico em cidades com passado industrial - no seu caso a região parisiense - necessita de implementação de medidas e políticas que visem à reconquista de friches industriais. O autor define o conceito a partir dos espaços industriais, mas não cita os vazios sociais. Daí, a necessidade de fazer uma distinção entre a palavra friche, que de uma forma geral pode significar simplesmente terras abandonadas, o conceito friches industriais que pode ser relacionado aos terrenos liberados pelas indústrias e, por último, o conceito de vazios sociais que se refere às práticas ou usos sociais, antes e após uma friche. O conceito friche também foi utilizado para a análise da diferenciação espacial e temporal entre a nova atividade industrial e os vazios decorrentes da velha atividade agrícola. Este conceito, porém, não é o conceito de friche tal qual usamos aqui, mas um antecessor flurwüstung, onde os vazios são entendidos como de origem direta da industrialização do espaço rural, ou por causa das migrações em direção às cidades que causaram o abandono de vilas inteiras nos campos no período da industrialização europeu. De fato, cidades afetadas por crises econômicas, principalmente velhas regiões e subúrbios industriais, precisavam revitalizar suas economias. Na França, esta situação demandou estudos de planejamento e ações governamentais para reverter tais problemas, não só econômicos, mas sociais e espaciais, que se agravaram no fim dos anos 1970 e início da década de Nessa década algumas ações foram realizadas pelo Institut d Aménagement et d Urbanisme de la Région Ile-de-France IAURIF, na região. 123 Na região de Saint-Denis, podemos observar que a participação da comunidade foi considerada, mas mesmo assim o processo de reanimação alterou o perfil e o funcionamento de cidade. 124 Em São Gonçalo, onde o processo de industrialização não teve a mesma magnitude, a crise e o declínio industrial também foram fatores agravantes. A quantidade de vazios e ruínas industriais não é grande, mas é grande o sentimento de vazio 122 MALEZIEUX, Jacques: Politique et pratique du développement économique dans les communes anciennement industrialisées de l agglomération parisienne, Revista Hommes et Terres du Nord, páginas 299 à 303. Paris MALEZIEUX, Jacques: Réanimation de Friches Industrielles en Banlieue Parisienne, Congrès national de sociétés savantes, Geographie p Lyon, Em fevereiro de 2007 constatamos que um dos novos empreendimentos que mais chamou atenção, em Saint-Denis, foi um shopping center, junto à antiga saída de metro. Esse shopping alterou o fluxo de automóveis de pedestres pelo local. Também alterou o perfil do centro da comuna. Antes uma municipalidade rouge, agora mais um pólo de comércio e habitação periférico.

99 99 social, carência e abandono, constatados através de entrevistas e depoimentos desde os primeiros contatos com a população local. A expressão vazio social sugere uma homogeneidade que não existe, e pode indicar apenas uma das causas do fenômeno: o desaparecimento da vocação inicial de localidades com marcas da antiga industrialização. Cabe, também, ao planejamento urbano e seus agentes a preocupação em integrar esses vazios à comunidade, para proporcionar uma melhor qualidade de vida urbana e restaurar a atratividade. O objetivo não é o de reconstruir indústrias, mas propor usos mais racionais para esses vazios, a fim de diminuir a miséria e melhorar a conceito que alguns habitantes têm da sua própria localidade. Constatamos também que referências pejorativas sobre a cidade, como um todo, remetem quase sempre a comparações com Niterói e Rio de Janeiro e que também há uma nítida separação entre os pontos de vistas de moradores antigos e moradores mais recentes. No que se refere a esse tema, encontramos algumas publicações interessantes dos professores Evadir Molina e Salvador Mata e Silva, 125 ambos estudiosos de São Gonçalo, que acreditam que essa dicotomia tem sentido ao observarmos as estatísticas referentes ao número de habitantes da cidade durante a passagem de rural para industrial e antes e depois da Ponte Rio-Niterói. Apesar de existirem artigos e teses sobre diferentes épocas da cidade, não encontramos dados sobre que comprovem a estranha relação dos habitantes com a cidade. Enquanto os mais velhos fazem alusão ao passado industrial de forma positiva, alguns jovens entrevistados mencionam o oposto. Em seus discursos, notamos argumentos contrários à industrialização, semelhantes aos discursos ecológicos relatados por alguns. Notamos que algumas escolas, como por exemplo, a Walter Orlandine, centros culturais como o ICBEU; a UERJ/SG e algumas organizações não-governamentais desenvolvem atividades para manter viva a memória da indústria local, talvez acreditando que possibilidades de revitalização possam surgir através da tomada de consciência sobre o passado da cidade. 125 MATA & SILVA, Salvador e FERREIRA, Osvaldo Luiz: SÃO GONÇALO Ed. Belarmino de Mattos. CDD São Gonçalo, RJ SILVA, Salvador Mata e, MOLINA, Evadyr. São Gonçalo no século XVIII. Rio de Janeiro: Ed. Muiraquitã, 1998.

100 100 Do nosso trabalho em 2000 até hoje, multiplicaram-se as monografias e estudos sobre a industrialização na cidade. As Faculdades de História, Pedagogia, e principalmente de Geografia da FFP da UERJ em São Gonçalo, criaram grupos de estudo e laboratórios para analisar esse objeto. Paralelamente, o número de textos publicados relativos ao assunto também aumentou na internet. Talvez esse movimento possa favorecer a difusão de informação sobre as reutilizações e revitalizações dos vazios sociais e dar um novo rumo para a cidade. Enquanto na França, a busca pela evolução do conceito nos mostra que os primeiros approches foram sobre as técnicas operacionais e aspectos jurídicos, fiscais, e patrimônio arquitetônico, nesse estudo o conceito ainda interessa mais aos planejadores, pesquisadores e estudantes de uma forma geral que às comunidades locais diretamente afetadas. Pesquisadores também se interessaram na França na década de 1980 e aqui no Brasil a partir da década de 1990, na arquitetura e no planejamento, pelos vazios urbanos com abordagens sob diferentes ângulos. O fato do tema ainda ser discutido no meio técnico, acadêmico ou profissional, mostra que estudos de caso ainda são necessários, sobretudo quando contemplam o ponto de vista da cultura e identidades dos indivíduos e grupos sociais locais. Em São Gonçalo, pelo menos, essa abordagem é uma inovação que denota uma nova relação com o objeto. Por outro lado, empresas privadas que, na busca pelo lucro, realizam programas de revitalização, implementando atividades comerciais, habitações e equipamentos urbanos. No eixo Niterói Manilha, a maioria das novas atividades sofreu a ação de capitais nacionais e estrangeiros e as intervenções do poder público, como o piscinão, a orla da praia das Pedrinhas e da praia da Luz são exemplos de ações públicas populistas e fisiologistas, pois são geralmente inauguradas em vésperas de campanhas eleitorais e não provocam a reconquista dos espaços. Além disso, a urbanização do entorno geralmente é limitada e criada apenas como condição de acesso, como nos casos das obras da praia da Luz, que tem acesso limitadíssimo e em menor grau a orla da praia das pedrinhas.

101 101 Na outra extremidade da orla oriental, no distrito de Neves, a constatação de vazios sociais é maior. Distrito nitidamente em decadência após o declínio industrial, não teve traços arquitetônicos e urbanísticos preservados. 126 Encontramos em Rietbergen, (1989), a necessidade de proteção para o patrimônio industrial. Segundo ele, a importância da preservação dos monumentos industriais é fundamental para a preservação da identidade. Enquanto o autor cita exemplos nos Países Baixos e na Grã-Bretanha pioneiros neste tipo de arqueologia industrial, citamos como exemplo a fachada da antiga siderúrgica Hime em Neves que merece atenção especial. 127 Acreditamos que propostas individualizadas, como operações pontuais da iniciativa privada, não sejam soluções definitivas para transformar estigmas e visões de mundo que legitimam a existência de vazios sociais. Para os vazios industriais. Segundo Malezieux: quanto mais proteção recebe uma construção, maiores serão as probabilidades de conservá-la. Para os vazios sociais, quanto maior a resistência, maior será a chance de preservar a sua identidade. Para Rietbergen (1989), a reutilização de construções industriais é uma medida de conservação mais concreta que a proteção oficial por aspectos culturais e históricos ou a restauração destes bens. 128 Segundo o autor: conservando apenas pelo valor industrial, corremos o risco, no melhor dos casos, de ter um espaço com a função de museu. Como bem sabemos, nos países em desenvolvimento, na maioria dos casos as friches se transformam em ruínas ou são demolidas, uma vez que geralmente não há uma política de preservação para este tipo de patrimônio em particular. 126 As vilas operárias do Vila Lage, Fiat Luz e Vidreira vem sofrendo a ação do tempo e modificações sucessivas feitas pelos próprios moradores. 127 A fachada da antiga Siderúrgica Hime, ainda de pé, remonta a década de São grandes janelas em forma de arco que marcavam a entrada principal da usina. Na década de 1970, quando a siderúrgica funcionava a todo vapor era comum sentir o calor do forno através dos arcos da janela quando passávamos de ônibus pela Rua Oliveira Botelho. Segundo entrevistados: a antiga usina e a fachada com os arcos representam o apogeu do distrito de Neves, seus sofrimentos com as altas temperaturas da laminação e os vários casos de cegueira pela intensidade da luz produzida pelo metal incandescente. 128 Rietbergen, 1989, op. cit. O autor descreve uma Lei nos Países Baixos sobre a proteção das construções industriais: The Monument and Historic Buildings Act e o Monumenten Inventarisatie Project. Os projetos de inventário de monumentos foram projetos executados entre 1986 e 1995 inicialmente em áreas rurais. O alvo do projeto era definido pela municipalidade devido à importância cultural para a região. Segundo a Secretaria de Conservação do Governo dos Países Baixos certos edifícios históricos dão à cidade ou à vila um caráter e beleza, típicos da sua época. São referências do nosso passado. Este departamento, denominado de RDMZ, foi criado em Atualmente é o ponto central para o conselho, a pesquisa e o know-how no campo dos monumentos. Para o departamento, a tarefa mais importante é a proteção e a conservação de monumentos, não somente de edifícios históricos, mas também o ambiente histórico, the historical environment enquanto paisagens valiosas. Esta tarefa é regulada em Lei para edifícios históricos através do ato de 1988.

102 102 Em São Gonçalo, detectamos que nem sempre a solução dos problemas das construções industriais está na busca de novas utilizações e novos usos. O caso das Conservas Orleans, por exemplo, que teve sua fachada recuperada parcialmente, mas transformada em loja de materiais de construção sem a devida preocupação de restauração da edificação, que fazia referência à memória da época industrial. Outros exemplos, como as vilas Hime, onde foram feitas modificações sem a preocupação em conservar os aspectos arquitetônicos e os desenvolvimentos sucessivos, são fortes indícios de como as vilas operárias não despertam interesse com as vilas fechadas da vidreira que vêm sofrendo alterações significativas, mas ainda conservam algumas características originais. A título ilustrativo, as instalações das Conservas Coqueiro antes da venda para a Quaker, já haviam encoberto algumas construções existentes no local 129 além da Gare de Neves, convertida em presídio para a 73ª DP descrita a seguir em etnografias do terceiro capítulo. Os impactos urbanos causados pelo declínio industrial em São Gonçalo não são calculados por meio de métodos e técnicas de intervenção. Nas entrevistas, podemos entender como as pessoas se sentem vivendo em uma cidade que classificam de dormitório. Enquanto na França o aumento do número das friches assinalou mudanças na economia e na tecnologia, aqui, as mudanças não se tornaram objetos de novas políticas urbanas e sociais. Como diria o grande mestre Claude Levi-Strauss, o objeto é bom pra pensar, mas aqui não foi pensado, ou foi pensado pelo avesso como sugerem algumas soluções aplicadas em São Gonçalo, diferentemente da França, possuem características próprias e compatíveis com as práticas sociais de descaso e abandono, condizentes com nossas características sócio-econômicas e culturais. Daí, a necessidade de pensar novas políticas urbanas e sociais que possam, efetivamente, trazer mudanças de fato e não utopias. 129 Encontramos uma foto publicada na década de 1950 que mostrava uma igreja católica na área fábrica Coqueiro. Não conseguimos comprovar a veracidade dessa construção, por isso preferimos não citá-la.

103 103 As políticas púbicas podem começar pela identificação das friches ou pela elaboração de propostas específicas para cada bairro ou região, com propostas apoiadas na fiscalização do setor público, podendo ter ou não a participação parcial ou integram do setor privado. As intervenções que encontramos, como supermercados e shopping, não visam à reabsorção dos locais abandonados para a sociedade, mas criam verdadeiras ilhas de segregação, como as áreas próximas aos novos hipermercados e ao São Gonçalo Shopping. Em Niterói e em São Gonçalo as primeiras intervenções em antigos terrenos industriais foram feitas pelo setor de supermercados e habitação, mas nenhum caso de intervenção foi realizado pelo setor público, o que poderia criar áreas de lazer, por exemplo. A carência destas áreas pode ser compreendida através da comparação com Municípios de Niterói e Rio de Janeiro. Na França existem casos de revitalizações bem sucedidas, como a da região Norte Pas de Calais, que se deve, em parte, pelo seu apelo ao passado e pela sua herança industrial de antiga região com usinas siderúrgicas e construção ferroviária como o conhecido TGV, Train à Grande Vitesse, ou trem de alta velocidade. Nessa região, houve o envolvimento dos atores locais e regionais com o meio ambiente e com a reconquista dos espaços, e foi criado, ainda, um programa de reflorestamento que viabilizou a plantação de hectares de vegetação, o que mostra as várias possibilidades de inovação aplicáveis com a participação da comunidade. Em São Gonçalo somam-se à carência de espaços verdes os problemas de transportes e serviços públicos e áreas e atividades ligadas ao lazer. A rede ferroviária, completamente sucateada, não facilita a conexão entre os diferentes meios de transporte e contribui para afastar novos investimentos e a possibilidade, mesmo que remota, da ligação direta por barcas ou linha três do metrô para o Rio de Janeiro através da Baia de Guanabara continua uma hipótese muito utilizada em épocas eleitorais, sem definição de cronograma definitivo. Somando a carência dos transportes, a cidade não possui equipamentos, serviços e espaços adequados destinados às novas empresas, que par hasard queiram se instalar. Observamos na administração local uma centralização de informações incompatível com uma gestão coerente. A burocracia, que ultrapassa o urbano, atinge e impede a criação de

104 104 conselhos e fundos de ajuda para impulsionar a economia local e a cultura. Idéias que poderiam ser discutidas na cidade, geralmente são abortadas antes mesmo de entrarem em discussão. As últimas reuniões participativas para a elaboração do PDD contaram com a participação de uma dúzia de pessoas e as propostas mais criativas, segundo um funcionário da administração local, entraram na sala nas pastas da equipe consultora. A participação efetiva dos habitantes também poderia ser um fator de atratividade e debate sobre outras questões. Podemos perceber que a cidade é valorizada quando a identidade coletiva é respeitada e ao mesmo tempo pode se tornar fonte de recursos. O número pequeno, mas crescente de estudos publicados sobre este tema no Brasil, mostra uma tomada de consciência recente. Nos casos de São Gonçalo e Niterói, foram os empresários que descobriram as possibilidades de investimento a partir das friches, e só mais tarde a academia e atores do planejamento ligados ao poder local tomaram conhecimento da problemática. Mesmo assim, as administrações municipais ainda não pensaram ações emergenciais para estes espaços, conforme nos mostram os Planos Diretores locais de São Gonçalo, Niterói e Rio de Janeiro. Um ensaio sobre as friches ultrapassa a delimitação geográfica de um objeto de pesquisa. Uma abordagem mais ampla torna-se necessária, sobretudo quando falamos de Niterói, São Gonçalo e Rio de Janeiro. A conceituação friche urbaine aplicada em nosso primeiro estudo tratou de um ex-distrito industrial que representa ora uma conurbação em Municípios vizinhos, ora um conjunto de bairros de um mesmo município, São Gonçalo e Niterói. Bairros geralmente de uso misto, isto é, constituídos por habitações e outras atividades. Para o nosso estudo, nos limitamos apenas à definição mais ampla que abrange espaços construídos ou não, desocupados ou muito sub-utilizados, antigamente ligados a atividades industriais ou cuja reinserção no mercado imobiliário, independente do uso, implica num novo planejamento, salvo os casos de utilização precária ou provisória que observamos, como estacionamentos, favelas, galpões de igrejas e oficinas clandestinas. A ampliação da conceituação facilitou o contato com a diversidade de terrenos, empresas industriais abandonadas ou usadas para outros fins como equipamentos urbanos, campos de futebol, habitações irregulares e supermercados.

105 105 Vários fatores concorrem para a existência das friches no local estudado, fatores políticos e econômicos, a ausência planejada de planejamento urbano local, a diminuição no consumo de terrenos para as atividades industriais (como é o caso da reestruturação da Siderúrgica Gerdau), a diminuição das áreas ocupadas por empresas que necessitavam de portos ou grandes pátios, bem como a redefinição das atividades, devido à concorrência. No caso da área estudada, vemos nitidamente a preocupação com a diminuição dos custos de transporte, que provocam a transferência de atividades para outras cidades. Não podemos deixar de citar o caso do Barreto, bairro em Niterói, que em função da falta de políticas públicas de incentivo à continuidade das atividades de construção naval, teve seus estaleiros fechados na década de 1980, e reabertos apenas na década de Consecutivas crises econômicas também contribuíram acentuaram o número de processos de relocalização geográfica e afetam novas reorganizações econômicas e urbanas na cidade. Em São Gonçalo, o número de terrenos liberados não é grande, mas estes ainda são marcados por atividades anteriores. O caso da Gerdau é ideal para exemplificarmos: o terreno em Neves inicialmente foi um campo para corridas de cavalos (jóquei), depois uma Aciaria da Companhia Brasileira de Usinas Metalúrgicas - CBUM, depois vendido à Siderúrgica Hime, comprada posteriormente pela COSIGUA, 130 e finalmente passou a pertencer à Gerdau. 131 Podemos encontrar ainda a vila de operários da HIME, a fachada da Fábrica, o campo de futebol do time dos metalúrgicos, referência da identidade local, os prédios da Usina da Gerdau e o próprio nome do bairro operário Vila Lage em homenagem ao industrial Henrique Lage. Até hoje, em função destes marcos, verifica-se que o modo de organização espacial local ainda é muito influenciado pelo período industrial. As friches nos Municípios de São Gonçalo e Niterói não são caracterizadas pela sua grande diversidade, nem pelo tamanho ou localização, mas quanto às suas funções originais, que definiam a identidade fabril do município, ligada às atividades industriais do século XX. Neste sentido, ao pensar tais locais, laços sociais devem ser considerados com o passado e com a identidade operária. 130 Companhia Siderúrgica da Guanabara. 131 A Gerdau encerrou suas atividades de produção no ano Continua com as atividades comerciais, na saída pela rodovia Niterói Manilha. O terreno, com cerca de quinze mil metros quadrados, localizado na outra extremidade, frente para a Rua Oliveira Botelho, está à venda desde 2000, mas até o presente momento, 2007, ainda não tinha sido vendido.

106 106 Novas ocupações e instalações de estabelecimentos comerciais na região têm promovido a mudança da paisagem e dessa identidade operária. Outdoors com propagandas de grandes empreendimentos, automóveis, lanchonetes como Bob s e McDonalds, supermercados e lojas como Carrefour, Sam s Club e a C&C, (Casa e Construção), são novos símbolos que se sobrepõem aos anteriores, mudando não somente a vocação original da área, como também os hábitos da população, num efeito dominó de abandono das origens e rápida assimilação das novas atividades comerciais e de serviço, afetando não só a vida econômica, mas também a vida cultural e social dos jovens entrevistados. Algumas atividades industriais no meio urbano deram origem à diferenciação e à solidariedade entre diferentes comunidades da cidade, e contribuíram para criar antagonismos com outras cidades vizinhas. A organização de alguns bairros também está ligada aos diversos tipos de estabelecimentos outrora envolvidos na produção. A degradação de algumas áreas, como por exemplo, terrenos próximos a uma friche, apresentam à primeira vista ao visitante relações diretas com essa friche industrial, o que chamamos a seguir de efeitos da degradação de uma friche urbana. Efeitos sócio-econômicos constituem apenas alguns dos efeitos possíveis sobre o tecido urbano. Dentre estes, podemos citar os efeitos da degradação urbana ligados às friches: efeitos visuais, espaciais, econômicos, sociais e culturais. A aparência de degradação dos locais com friches deve-se ao tipo de uso e à falta de manutenção que sofrem os terrenos e prédios ainda existentes, e produz também um efeito depreciador na paisagem urbana. Em outros trabalhos, denominamos de cemitérios de indústrias o perímetro que ia da descida da ponte Rio Niterói até o bairro da Vila Lage. Alguns efeitos também podem favorecer o aparecimento da insegurança, e em alguns casos o surgimento da violência nas áreas próximas, influenciando as práticas sociais, alterando hábitos da vida dos habitantes, costumes e visões de mundo, relacionados aos espaços. Alguns locais degradados foram associados pelos entrevistados ao vandalismo, tráficos de drogas, assaltos e até assassinatos. As ruínas urbanas podem passam, no imaginário local, como ruínas humanas, desvalorizando a auto-estima de moradores de áreas próximas a friches.

107 107 Outros efeitos sociais e econômicos associados as friches por alguns habitantes são os relacionados com o aumento da taxa de desemprego, e à diminuição da vida cultural : diminuição do número de cinemas, teatros, abandono de praças e áreas de lazer. O aparecimento, na década de 1980 do jargão cidade dormitório demonstrava o esvaziamento econômico local e uma crítica às administrações municipais. Apontava que havia um desequilíbrio entre comércio local e os centros vizinhos de Niterói e do Rio de Janeiro, estes últimos sempre beneficiados. Quando o centro do Rio e de Niterói estão cheios, horário comercial, São Gonçalo está vazio, mas no fim de semana é o contrário, diz um morador da Covanca. O desaparecimento de algumas atividades também significa a diminuição de receitas. A perda de recursos em alguns casos pode tornar-se fonte de despesas com a manutenção e vigilância dessas áreas. Há também um efeito de desanimador das empresários que buscam implantar atividades em locais próximos, implicando a sub-utilização das infraestruturas, das redes e dos equipamentos existentes, sinal da desvalorização de todo um patrimônio social e mesmo uma concentração de friches pode implicar na desvalorização de um distrito, outrora classificado como local de concentrações de trabalhadores das industriais. Alguns operários que se mantém no local podem se encontrar numa situação de marginalização e exclusão não só dos novos mercados de trabalho, mas principalmente dos benefícios que possuíam. A mudança de atividade força esse grupo social a adquirir sua autonomia e flexibilidade, num contexto onde, além do choque na mudança econômica, são as culturas e as práticas operárias que podem se transformar, resistir ou até desaparecer. O caso da já citada rua Oliveira Botelho é emblemático, há uma concentração de pequenas e médias empresas ocupadas por ex-operários das indústrias locais que resistem à venda de suas oficinas. A equação de equilibrar as novas intervenções e os estabelecimentos existentes não é tão simples. Para que os espaços possam ser reutilizados sem prejudicar seu metier é preciso que se faça uma análise sobre as modificações que poderão ocorrer no zoneamento após a reutilização de um terreno ou construção. As alterações dificilmente são previstas sem um minucioso relatório e a liberação de terrenos de grande porte ou de vários terrenos de tamanho médio, mas contíguos, poderia resultar numa política pública, municipal ou estadual

108 108 que valorizasse em parte o potencial desse espaço urbano, como por exemplo, a construção de empreendimentos ou o alargamento de vias públicas, levando em consideração a preservação do interesse local. A revitalização pode ser realizada através de empreendimentos como operaçõespiloto, estudos detalhados e simulações que implicariam na manutenção da identidade dos distritos e na promoção de novas formas de geração de renda. Diferentemente do que pode ser observado, constatamos a modificação das vocações e a rápida transformação da imagem da cidade e a modificação da percepção dos moradores. Algumas áreas em Niterói e em São Gonçalo estão tendo suas vocações alteradas para favorecer empresas dos ramos de serviço e comércio. Mas, para a razão econômica que ainda persiste, espacialidades são desvalorizadas com a implantação de outros usos ou atividades culturais e de lazer. Em nossa opinião, a recuperação ou revitalização de friches poderia assumir formas diversas: novas atividades com habitações populares, equipamentos urbanos, espaços verdes, esporte, lazer etc. A revitalização pode tanto remediar carências urbanas como falta de habitações, ausência de vida econômica local e áreas de lazer, quanto contribuir para a manutenção da identidade local. A mudança, em muitos casos, é inevitável, mas é necessária a luta pela identidade ou identidades dos grupos sociais presentes, já que é preciso respeitar o passado.

109 109 CAPÍTULO 2: DA DESINDUSTRIALIZAÇÃO À REVITALIZAÇÃO DO EIXO NITERÓI - SÃO GONÇALO O âmbito dos desejos e reivindicações humanas se amplia muito além da capacidade das indústrias locais, que então entram em colapso. A escala de comunicações se torna mundial, o que faz emergir uma mass media tecnologicamente sofisticada. O capital se concentra cada vez mais nas mãos de poucos. Camponeses e artesãos independentes não podem competir com a produção de massa capitalista e são forçados a abandonar suas terras e fechar seus estabelecimentos. A produção se centraliza de maneira progressiva e se racionaliza em fábricas altamente automatizadas. [...] Um vasto número de migrantes pobres são despejados nas cidades, que crescem como num passe de mágica - catastroficamente - do dia para a noite. Para que essas grandes mudanças ocorram com relativa uniformidade, alguma centralização legal, fiscal e administrativa precisa acontecer; e acontece onde quer que chegue o capitalismo (BERMAN, 1986, p. 89).

110 São Gonçalo: a percepção das mudanças, shopping e supermercados O artigo realizado por Araújo em 2002 revela que as novas paisagens que surgem na década de 1990 são frutos do retorno das atividades econômicas nesses bairros: Entretanto, tais mudanças representam o novo, que vem sendo acrescido a essa paisagem com sutileza e relativa lentidão. No entanto, as ruínas fabris, que continham a visibilidade de um período fluente e efervescente do lugar, vêm sendo postas abaixo. Tal fato vem sendo observado pelo olhar atento do pesquisador e por outros sujeitos, que de forma direta ou indireta estão inseridos nesse movimento. 132 A percepção das mudanças acima citadas e apontadas por Araújo faz parte do novo repertório dos indivíduos entrevistados, sobretudo no distrito de Neves. Quando questionados sobre os novos empreendimentos, os entrevistados apontam, como novas referências da cidade, o São Gonçalo Shopping, os supermercados Carrefour e Sam s Club, o piscinão e, acreditem se quiser, o pólo petroquímico, este ainda em fase de projeto, e se edificado pertencerá ao município de Itaboraí. Em função da guerra de publicidade, entretanto, São Gonçalo, para muitos entrevistados, é o local escolhido para o COMPERJ. Segundo Araújo, em outubro de 1992 o Carrefour foi inaugurado em Neves. O supermercado francês foi construído em poucos meses e a toque de caixa. Para a autora, em tempo recorde e foram investidos 15 milhões de dólares. Derrubaram por completo o prédio principal, chaminé e o bosque da quase centenária fábrica de Fósforos Fiat Lux, para dar lugar ao novo hipermercado e o seu estacionamento, com capacidade para vagas. (ARAÚJO, 2002, p. 6). O terreno do atual supermercado, antes de pertencer a Fiat-Lux, fazia parte do manguezal, que ia de Neves ao fundo da Baía de Guanabara. Antes da construção do supermercado, havia uma comunidade - a favela da Fiat-Lux, que inicialmente ocupou os terrenos atrás dos outdoors da Rua Oliveira Botelho. Essa comunidade, com cerca de uma dúzia de barracos, foi removida da área para dar lugar ao supermercado. Quando a rodovia Niterói-Manilha começou a ser construída, muitas comunidades se ampliaram, graças à criação de novos aterros, como o de Itaoca, onde situava 132 ARAÚJO, Leila de Oliveira Lima, Paisagens urbanas reveladas pelas memórias do trabalho. Scripta. Nova revista electrónica de geografía y ciencias sociales Universidad de Barcelona. Vol. VI, número 119, (54). Barcelona, 1 de agosto de 2002.

111 111 o lixo da cidade de São Gonçalo e, ilegalmente de outros municípios. De Neves à Itaoca, hoje existem as comunidades com maiores índices de pobreza do município. O distrito de Neves foi ampliado em alguns quilômetros, surgindo assim escolas, posto de saúde, ruas, uma igreja, um posto do DETRAN e a nova 73ª Delegacia de Polícia. O crescimento de comunidades e de favelas se expandiu para as áreas próximas ao friches ou ruínas e vazios industriais, deixados pelas fábricas e indústrias, e pelos terrenos remanescentes de manguezal que não foram devidamente protegidos. Após a inauguração do Carrefour, o distrito de Neves definitivamente abandonou a fase das grandes indústrias e entrou na fase de comércios e serviços. O terreno em Niterói, ao lado da fábrica Fiat Lux, separado de São Gonçalo pelo rio Bomba, foi adquirido pelo grupo americano Wal Mart, que construiu o Sam s Club, supermercado exclusivo para associados, que vende desde alimentos até eletrodomésticos e equipamentos eletrônicos para comerciantes, lojistas e atacadistas. A instalação destes grandes empreendimentos e o aumento de construções na área atraíram mais recentemente a loja C&C, Casa e Construção. Nas proximidades, instalaram-se ainda as lanchonetes Bob s e McDonald s, a concessionária de automóveis da Fiat, dois postos de gasolina e uma oficina de serviços automotivos. Ao lado, já em Niterói, encontramse o Clube Cinco de Julho e a quadra da Escola de Samba Unidos Viradouro, que em função do carnaval atrai um grande número de pessoas oriundas também do Rio de Janeiro e Niterói. No bairro vizinho, chamado de Vila Lage, em São Gonçalo, funcionam lado a lado a nova quadra da Escola de Samba Unidos do Porto da Pedra, o Centro Social Missionário Nova Unção e a Indústria Seves-Electrovidro, onde havia as antigas Electrovidro, a Vidreira e Cia. Vidrobrás. Em Neves, permanece a Comercial Gerdau, próxima à Igreja Evangélica situada no antigo terreno da Fundição Palmares. As entrevistas mais recentes, realizadas em 2006, nos permitiram situar o distrito de Neves, e de modo geral o município de São Gonçalo, como locus de novas percepções a partir dos novos empreendimentos. Mas, ao mesmo tempo, respostas sobre as histórias da cidade e, em especial, do quarto distrito, ainda estão fortemente relacionadas ao período das antigas fábricas e indústrias. Moradores entrevistados contam que os novos espaços continuam não

112 112 correspondendo aos anseios e necessidades, principalmente os espaços públicos de lazer, que continuam escassos. Algumas respostas parecem indicar a existência de uma dialética entre as transformações econômicas em curso e as representações sociais da população local, uma tentando influenciar a outra. Esta contradição, certamente produto da percepção durante a pesquisa, também é transformada pela pesquisa. A observação sobre o movimento perpétuo de transformação do município sujeito ao fluxo da história, como diria Löwy (1993), indica que a cidade ainda não realizou a passagem da Manchester para a nova realidade, tal a força socializadora do período industrial até os nossos dias. 133 A entrada em cena de novos elementos como o shopping e supermercados parecem não influenciar a memória dos habitantes mais velhos que, quando entrevistados, afirmam espontaneamente que os elementos do período industrial como ruínas, estações de trem, e terrenos vazios no perímetro urbano ainda influenciam as suas percepções sobre a cidade. Elementos como a ferrovia e os portos constituíram, antes da rodovia, as referências de localização espacial e o marco histórico do desenvolvimento industrial e comercial de São Gonçalo. Ao mesmo tempo, também foram elementos da socialização e reificação das relações sociais, dos operários com a cidade. Por isso, quando conversamos com habitantes mais idosos, estes têm conhecimento das transformações que a cidade vem sendo submetida, mas alguns ainda cultivam uma certa nostalgia do passado. Essa hipótese reforça a nossa tese de que existem várias formas de percepção das mudanças no eixo Niterói - Manilha. Enquanto moradores de Neves valorizam algumas lembranças do passado industrial e criticam o atual estado de declínio, os habitantes da Boa Vista, por exemplo, referem-se às mudanças de forma mais positiva, reafirmando a crença na evolução do bairro e concomitantemente do município. Como apontamos na primeira parte, a localização do bairro de Neves e do bairro da Boa Vista, ambos às margens da Baia de Guanabara, favorece a reconquista dos espaços vazios ou abandonados, mas o poder público parece esquecer que cada um tem um passado distinto e este reflete nas formas como os moradores percebem os seus espaços. 133 LÖWY, Michael: Ideologias e Ciência Social. Elementos para uma Análise Marxista. Cortez Editora. 9ª edição SP, 1993.

113 113 As formas de resistência, ou resiliência 134 às mudanças também são demonstradas de modo diverso. Enquanto os moradores de Neves e, sobretudo, os ex-operários têm sua organização nos modelos sindicais e de associação de moradores, como o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Materiais Elétricos de São Gonçalo, localizado na Rua Maurício Abreu, 2336, que se destaca pela sua atuação no passado no distrito de Neves, São Gonçalo tem vários sindicatos 135 ligados a outras tantas modalidades profissionais. Em relação às associações de moradores, podemos dizer que as mais atuantes são as de Vila Lage e de Neves, formadas principalmente por ex-operários das indústrias do bairro. No bairro da Boa Vista e Gradim, em função das proximidades da Baía, as associações mais atuantes são as ligadas aos pescadores, como já citamos anteriormente. Os atuais projetos e propostas de reutilização nesses bairros poderão ser fortemente marcados pela resistência à mudança e mesmo pela rejeição das propostas. As associações de pescadores da região já se manifestaram contra a implantação da estação hidroviária e mais recentemente contra a poluição provocadas por grandes empresas na Baía de Guanabara que vem prejudicando suas atividades. Desde janeiro de 2000, pescadores de São Gonçalo se sentem prejudicados pelo derramamento de óleo na Baía de Guanabara, que cobriu as praias das pedrinhas e do Gradim, junto às colônias de pescadores. Segundo alguns moradores do local, a mancha se estende da divisa do município de São Gonçalo com o bairro do Barreto em Niterói até a APA de 134 O conceito de resiliência é usando aqui para designar as comunidades que vem ao longo do tempo resistindo às mudanças culturais e sócio-econômicas. O conceito é originário das Ciências Físicas, mas foi aplicado na Psicologia (MASTEN & COATSWORTH, 1998) para conceituar manifestações de competências e habilidades na realização de tarefas inerentes ao desenvolvimento humano. Essas competências eram observadas em pessoas que na infância passaram por situações de privação social e emocional que poderiam impedi-las de executar atividades no futuro. SOUZA, Marilza Terezinha Soares de et alli. Resiliência Psicológica: Revisão da Literatura e Análise da Produção Científica. Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology , Vol. 40, Num. 1 pp Em São Gonçalo, além do sindicato dos trabalhadores nas indústrias metalúrgicas, mecânicas e de materiais elétricos, existem o sindicato dos trabalhadores nas indústrias de produtos químicos e farmacêuticos; o sindicato dos trabalhadores nas indústrias do vestuário; o sepe (professores das escolas públicas); o sindicato especifico dos vigilantes; o sindicato nacional dos trabalhadores aposentados e pensionistas; o sindicato dos vendedores de produtos farmacêuticos; o sindicato do comércio varejista; o sindicato dos empregados de edifícios; o sindicato dos empregados em estabelecimentos bancários; o sindicato dos estabelecimentos de ensino; o sindicato dos servidores municipais; o sindicato dos trabalhadores em transportes rodoviários; o sindicato dos trabalhadores na indústria de cimento cal gesso e o sindicato dos trabalhadores nas indústrias da construção e do mobiliário.

114 114 Guapimirim. No dia 01 de outubro de 2007, os pescadores de São Gonçalo e adjacências fizeram uma barqueata contra a poluição, que saiu de São Gonçalo com destino ao Rio de Janeiro para protestar contra o aumento da poluição na Baía de Guanabara 136 e o descaso da Petrobrás em relação à demora no julgamento da ação de indenização movida contra a empresa em Em razão das manifestações mais recentes, as possibilidades de reutilização dos espaços cedidos pelas industriais devem ser reavaliadas. A proposta do COMPERJ traz à tona a discussão sobre a reindustrialização da orla Oriental da baía de Guanabara. Acreditamos que essas manifestações, parte da percepção das mudanças, devem ser consideradas como tema contemporâneo para o debate do planejamento e da industrialização. A implantação de projetos de grande porte ou de grande impacto, como a estação hidroviária, o complexo petroquímico ou o porto seco, estão, muitas vezes, distantes da realidade local. As grandes empresas, mesmo com o todo marketing da responsabilidade social, não parecem preocupadas em analisar seus impactos sobre as comunidades do entorno da baía. Na medida em que o atual Plano Diretor de São Gonçalo não reverencia as comunidades, as empresas parecem também não levá-las em consideração. Na parte referente ao Plano Diretor, procuramos apontar críticas e sugestões que possam contribuir para repensar, não só o papel dos poderes públicos com as comunidades, mas também como esses poderes podem elaborar instrumentos em sintonia com as comunidades e perceber melhor seus anseios frente às mudanças em curso, suas opiniões e suas identidades. Enquanto Freire (2004) enaltece as características fabris do bairro de Neves - Neves é uma antiga localidade (um lugar para muitos trabalhadores) que teve seu auge industrial no 136 Jornal O Globo. Terça-feira, 02 de outubro de Página 19. Caderno Rio. Pescadores protestam contra Petrobrás na Baía. Eles criticam demora da empresa no pagamento de indenizações relativas a vazamento de óleo em Idem. Segundo a matéria do O Globo: a Petrobrás foi condenada em primeira instância a ressarcir os prejuízos de mais de 12 mil pescadores, mas uma série de recursos vem retardando o pagamento. A Federação de Pescadores do Estado do Rio (Feperj) acusa a Petrobrás de agir de forma antiética ao contratar como advogado um ex-desembargador, Paulo Sérgio Fabião, que atuou no processo. O pedido de indenização contra a Petrobrás foi julgado procedente pela juíza Simone Gastesi Chevrand, da 25ª Vara Cível, em Durante o processo, um agravo de instrumento foi apreciado pela 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça e teve como relator o então desembargador Paulo Sérgio Fabião. Aposentado em 2004, Fabião foi chamado pela Petrobrás para passar a defendê-la em meados de 2007.

115 115 das décadas de 30 e 40 que correspondeu ao Estado Novo, nós classificamos a Boa Vista como o bairro de grandes contrastes. De um lado da rodovia, um grande shopping, o São Gonçalo Shopping Rio e de outro lado a praia das Pedrinhas e o Piscinão, única área de lazer popular na região. Enquanto Neves é o lócus do trabalho, pela sua origem, Boa Vista é o local da diversão. No verão, o calçadão da praia das Pedrinhas se enche de banhistas, com mais de vinte barraquinhas de madeira e alvenaria que vendem cervejas e peixe fresco pescado nas águas da Guanabara. Próximo a esta área, circulou no ano 2006 uma proposta para abrigar o antigo Mercado de Peixe do Rodo de São Gonçalo e um espaço para o comércio e consumo dos pescados. Esta proposta, que não se desenvolveu, estaria em maior sintonia com as características de uso do bairro e com os costumes dos moradores e freqüentadores, já que nos fins de semana dos meses de verão, circulam cerca de quinze mil banhistas pelo Parque das Pedrinhas, denominação oficial do conjunto que envolve o calçadão da praia, o piscinão, a área de lazer, os quiosques (oficiais), as baraquinhas, o bosque e o estacionamento. Há um grande movimento de veículos no verão que saem da Rodovia e seguem pela orla da praia das Pedrinhas. Com o grande número de transeuntes, leva-se em média uma hora para chegar ao final da praia, uma distância com cerca de apenas quinhentos metros. Enquanto Boa Vista mostra perspectivas de novas atividades ligadas ao lazer e ao turismo, segundo Freire Neves ainda é um ambiente urbano degradado com grandes indústrias e inúmeras casas comerciais em estado de ruínas. A industrialização está passando, mas acredita-se que a vocação, não somente de Neves, mas também de outros bairros do entorno como o Gradim, Porto Velho, e Porto Novo ainda seja industrial. Ao mesmo tempo em que a indústria em São Gonçalo vem sofrendo um processo de crescente decadência, o poder local aposta na recuperação da econômica municipal com as verbas do Plano de Aceleração do Crescimento - PAC e com a chegada do COMPERJ, mesmo com um aparente consenso na literatura sobre a economia municipal, de que São Gonçalo não seja capaz de absorver toda a mão de obra ociosa. Nos texto de Senna (2004), do TCE-RJ (2004), Freire (2004) e Araújo (2002), a administração municipal cultua a crença quase religiosa no discurso do retorno da industrialização ou como diz a mídia na re-industrialização. Distante da posição acadêmica e, a princípio na contra-mão do crescimento do setor de serviços, a administração local não

116 116 procura desenvolver formas alternativas de geração de renda e emprego para mais de oitenta mil desempregados na cidade, além do crescente numero de trabalhadores informais. Enquanto as pequenas empresas tradicionais de alimentos e confecções 138 sobrevivem frente às sucessivas crises, São Gonçalo ainda concentra o principal pólo de lojas e pequenas fábricas de roupas do leste fluminense. Este dinamismo, graças à proximidade com a capital, vem perdendo fôlego num contexto de disputa com outros pólos. Alcântara já não compete mais com Cabo Frio, Petrópolis e Teresópolis, e isto mostra que o recente processo de reindustrialização da orla Oriental poderá encerrar de vez o setor de confecções e de alimentos. Existem pequenas e médias confecções espalhadas pelo território do município, mas se concentram ainda em Alcântara, próximo ao futuro COMPERJ e como já se disse anteriormente, as últimas indústrias de pescado e alimentos se concentram no distrito de Neves. Os baixos salários e condições de emprego também são fatores que afastam os trabalhadores qualificados das empresas de São Gonçalo, restando apenas aqueles com baixa qualificação e dificuldades de absorção pelo mercado. Os salários pagos nas pequenas e médias empresas legalizadas, é de um a dois salários mínimos, mas segundo Oliveira (2005, p. 4) entre 28% e 30% dos chefes de família em São Gonçalo, recebem menos de um salário mínimo por mês. O desemprego em São Gonçalo vem crescendo desde a década de 1990 e essa realidade também não é muito diferente no Rio de Janeiro, onde a taxa de desemprego em 1991 era de 7,7% e em 2000 subiu para 18,0% conforme as informações 139 abaixo fornecidas pelo IBGE para a década de Tabela 13. Desemprego em São Gonçalo. IBGE, 1991 e ,8%, 17,3%, Fontes: Censos do IBGE de 1991 e 2000 e (OLIVEIRA, 2005). 138 As empresas de alimentos se concentram em Neves e no Porto Novo. A principal ainda é a Quaker, Coqueiro. Recentemente a principal indústria de confecção, as Lojas Leader, cerrou suas portas em São Gonçalo. No local funciona apenas um grande depósito. 139 Informações disponíveis no site do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em: Pesquisado nos censos demográficos de 1991 e de 2000.

117 117 Tabela 14. Índices de desemprego em São Gonçalo. IBGE, Faixa entre 16 e 17 anos de idade Masculino Feminino 51,6%; 42,7% Faixa entre 18 e 24 anos de idade Masculino Feminino 22,5% 33,7% Distinção racial Brancos Negros 6,8% 6,7%, Distinção racial Brancos Negros 17,3%. 20,3% Fontes: Censos do IBGE de 1991 e 2000 e (OLIVEIRA, 2006). A seguir temos a tabela 15 com a posição por diferenciação sexual e grupo ético em São Gonçalo ocupação para 2000.

118 118 Fontes: Censos do IBGE de 1991 e 2000 e (OLIVEIRA, 2006). Ao mesmo tempo em que o centro da cidade, mais conhecido como Rodo de São Gonçalo 140, perde lojas e ganha barraquinhas de camelô. 141 O centro não se consolidou enquanto centro de consumo e de cultura, e ao longo das últimas décadas todos os cinemas da cidade foram fechados, alguns transformados em Igrejas Evangélicas. Só recentemente, com a inauguração do Shopping, a cidade ganhou oito novas salas de projeção, disputando o público 140 Referência à Praça Luiz Palmier, onde o bonde fazia a volta, o rodo. Retornando para o Barreto. 10 Termo utilizado popularmente para falar de comércio informal.

119 119 com os cinemas de Niterói. A abertura do shopping também contribuiu para o fechamento de algumas lojas, que se deslocaram para o empreendimento. Duas lanchonetes McDonald s fecharam, uma no Rodo e outra no bairro do Zé Garoto, esvaziando ainda mais o Rodo. O trabalho doméstico aparece como sendo a principal ocupação para as mulheres negras, como em muitas cidades brasileiras. São Gonçalo fornece muitos trabalhadores domésticos para a Zona Sul do Rio de Janeiro, distante 35 quilômetros, agravando ainda mais a condição de vida das pessoas que não encontram trabalho na cidade e precisam se deslocar diariamente de uma cidade para a outra. Se antes as empresas se instalavam em São Gonçalo para diminuir seus custos com terrenos e mão-de-obra mais barata, hoje ainda sofrem com a falta de infra-estrutura. Esse processo pode ser identificado ao se analisar a perda de importância da cidade. O desemprego e a falta de infra-estrutura, somados à grande taxa de crescimento demográfico, considerada uma das mais significativas do Estado, vêm fazendo com que São Gonçalo se torne um dos municípios mais violentos do Estado. Segundo Freire (2004), o setor terciário foi o principal responsável pela geração de empregos e São Gonçalo vem se transformando em uma economia de serviços, o que configura uma fase de desindustrialização, e não de reindustrialização conforme a mídia e o poder local parecem acreditar.

120 A desindustrialização e a revitalização econômica No início do século XX, quando se iniciou o processo de industrialização de São Gonçalo, a economia do Rio de Janeiro já estava consolidada e em franco processo de perda na disputa com o Estado de São Paulo. São Gonçalo, eixo de expansão secundário para a indústria, apresentava grandes possibilidades para ser um novo eixo de expansão demográfica. Devido ao tamanho do seu território, dividido em grandes fazendas, já era possível prever, em tese, seu futuro sem planejamento e controle do seu crescimento. Nas décadas de 1950 e 1960, como já mencionamos anteriormente, já apresentava taxas elevadas de loteamentos e de crescimento demográficos. A cidade estava, assim, acumulando as desvantagens locacionais que iriam, no futuro, impedir o seu desenvolvimento. A industrialização de São Gonçalo, com exceção do bairro do Arsenal, praticamente se limitou ao distrito industrial de Neves. Nas décadas de 1940 e 1950, a economia local era uma mera coadjuvante da economia de Neves. Com a decadência das fazendas da região de Alcântara, a economia gerava entorno dos portos e das indústrias de Neves. O século XX foi um período marcado por perdas na cidade, tanto das antigas indústrias quanto dos equipamentos e instituições que se localizavam nos treze bairros que compunham o distrito de Neves. A decadência cultural e política da cidade também podem, em termos, serem explicadas pela decadência do distrito. A perda de centralidade da indústria e da dinâmica econômica não trouxe novas possibilidades e perspectivas. Mesmo o médico e pesquisador Luiz Palmier, com todo o seu entusiasmo pela cidade, na década de 1950 não conseguiu enaltecer as belezas locais de São Gonçalo cinqüenta anos depois. O desastroso processo de ocupação do território com grandes loteamentos irregulares abertos, ainda hoje, à luz do dia e o processo de desindustrialização tiraram do município a condição de atrair novas indústrias, mesmo se isso fosse ecologicamente viável. Tal descaso fez, e ainda faz, a economia local mergulhar numa crise sem precedentes e sem possibilidades imediatas de superação. As sucessivas crises, como a crise dos anos 1970 e das duas décadas seguintes, criaram um contexto econômico desfavorável para a atual revitalização econômica apresentada na mídia como sendo uma tábua de salvação da administração atual.

121 121 A decadência do Estado do Rio de Janeiro, como um todo, é anterior a década de 1970, mas é comumente associada à perda da função administrativa de Capital Federal. Essa posição política, privilegiada, dividia o Estado em núcleo e periferia e ainda hoje é nítida essa divisão do Estado. São Gonçalo, por sua vez atuava como periferia de Niterói, Capital do antigo Estado do Rio de Janeiro, produzindo bens e alimentos como complementaridade do mercado carioca. Santos (2002) cita, de forma interessante, a passagem em que Lessa (2000) confirma essa hipótese sobre as atividades realizadas em São Gonçalo. Segundo esse autor, essas atividades foram responsáveis pelos principais núcleos ativos do interior fluminense, produzindo alimentos para a população da metrópole carioca 142. Do papel de campo produtor de alimentos e mercadorias para pólo industrial, São Gonçalo teve a sua estrutura urbana completamente modificada para atrair novas indústrias. A atratividade exercida por São Gonçalo também se dava pela quantidade de portos para o escoamento da produção industrial já citada e pela oferta de terras para a construção de plantas fabris. Com as reestruturações produtivas, que diminuem o consumo de espaço pelas empresas e devido ao grande número de re-localizações, a cidade se encontra hoje sem possibilidade de desenvolver, nem a agricultura, nem a indústria de outrora. A desindustrialização produziu o fenômeno das friches, ruínas e vazios industriais, estudados em Mendonça (2000). Atualmente, as friches de São Gonçalo e de Niterói não são mais tão visíveis quanto na década passada, porém ainda é visível uma certa quantidade delas em Niterói no bairro do Barreto e em São Gonçalo, dispersas pelos bairros de Neves, Porto Velho, Gradim, Porto Novo e Vila Lage. Essa diversidade também se dá no tamanho e na função das friches. Os novos usos vão desde habitações até uma arena radical 143, onde até recentemente jovens apostavam corridas e arrancadas com seus carros dentro de uma indústria desativada. Há um certo consenso na literatura, e expresso nas palavras de Santos (2002), de que o século XX foi um período marcado por perdas do Rio de Janeiro, tanto de suas antigas funções dinâmicas quanto até mesmo de sua ascendência cultural e política no País, mas que acabou trazendo novas perspectivas para a economia fluminense: a crise econômica do País, 142 LESSA, Carlos. O Rio de todos os brasis. Ed. Record. Rio de Janeiro, Definição popular criada por jovens para classificar o galpão de um antigo estaleiro no Gradim utilizado como pista de corridas.

122 122 com a perda de centralidade da indústria na dinâmica econômica, poderá abrir-lhe melhores perspectivas. A autora não cita, entretanto, que as melhores perspectivas podem não conduzir a novos usos compatíveis com os anseios da população local. Desde a perda de dinamismo da indústria gonçalense na década de 1970 até hoje, as melhores perspectivas são caracterizadas pela utilização dos espaços de pequeno e médio porte, onde as indústrias já apresentavam declínio há muito tempo, com exceção da indústria de alimentos, química e de artefatos de vidros, compradas por empresas de grande porte para atender ao mercado nacional e mundial. Segundo Santos (2002), em 1970, a fatia da economia fluminense na indústria brasileira era de menos de 16% e a da economia paulista alcançou 58%. Entre 1930 e 1970, apenas São Paulo elevava sua participação no PIB industrial brasileiro em detrimento dos demais estados da Federação, mais particularmente em detrimento da participação da indústria fluminense. A indústria paulista tornava-se o centro dinâmico da indústria brasileira, e as dos outros estados tornavam-se zonas de complementaridade da paulista. 144 Como já dissemos no primeiro capítulo, São Gonçalo, que tem sua origem industrial como complementar ao Rio de Janeiro, agora é duplamente complementar. Quando a região metropolitana do Rio de janeiro era um importante centro industrial, São Gonçalo possuía uma certa importância relativa, mas quando o centro perde importância, a periferia perde duas vezes, diz um político local entrevistado. Desde a sua origem, a industrialização de São Gonçalo se mostrou com desempenho insuficiente para se tornar autônoma no conjunto dos municípios fluminenses, e: no interior fluminense, o governo do antigo Estado do Rio de Janeiro pecou por falta de iniciativa. Em 1960, o Distrito Federal foi transferido com a inauguração da nova capital federal, Brasília. Nesse momento, a cidade do Rio de Janeiro tornou-se Estado da Guanabara e foi mantida a separação entre núcleo e periferia da Região Metropolitana. Constituindo-se numa Cidade-Estado, a Guanabara teria de procurar uma estratégia de desenvolvimento que contemplasse apenas as áreas contidas na cidade. Idem (2002). 144 Op. Cit. SANTOS, Angela Moulin S. Penalva. Economia fluminense: Superando a perda de dinamismo? IBGE. LPP, Laboratório de Políticas Publicas, Rio de Janeiro. Setembro de 2002.

123 123 Neste mesmo período, São Gonçalo começa a apresentar uma taxa de crescimento demográfico elevadíssima dentre os de municípios da RMRJ. Esse período pode ser classificamos como sendo de expansão demográfica. Esse crescimento, por sua vez, é mencionado em entrevistas, como uma das causas responsáveis pela degradação da cidade. O setor terciário pode se beneficiar com esse grande mercado potencial. Além do mais, o setor de serviços vem sendo o principal responsável pela geração de emprego no município, ao mesmo tempo em que as atividades produtivas ligadas à indústria apresentam uma certa estabilização. Para corroborar a nossa tese de que São Gonçalo pode apresentar um melhor desempenho com as atividades terciárias do que com a re-industrialização, utilizamos uma passagem de Santos (2002) afirmando que: o contexto atual pressupõe a possibilidade de a economia fluminense superar sua secular estagnação, não apenas em função da presença da mencionada economia de serviços na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mas também da disponibilidade das novas vantagens locacionais: amplo mercado consumidor, oferta de infra-estrutura produtiva e de mão-de-obra especializada. Aliás, a maior disponibilidade desses recursos nas regiões mais desenvolvidas, Sudeste e Sul, poderá traduzir-se no aumento de sua participação no PIB brasileiro. Enquanto o poder local continua defendendo a crença no retorno do processo de industrialização, perdemos, em tese, a condição imposta pelo século XXI, marcada pela pósindustrialização com forte tendência ao setor terciário. Além do mais, São Gonçalo, com cerca de um milhão de habitantes, apresenta um grande mercado consumidor em potencial pouco explorado, disponibilidade de força-de-trabalho e infraestrutura logística devido a sua localização na orla da Baía de Guanabara. A constatação em nossas pesquisas de locais abandonados, ligados ou não a atividades industriais, pressupõe a possibilidade de re-utilização destes espaços. Galpões da antiga Gerdau em Neves; gares ou estações ferroviárias desativadas ou transformadas em residência, como as estações do Tamoio, Gradim, Porto Novo e até em presídio, caso da antiga estação de Neves, hoje presídio ligado à 73ª DP; empresas de diferentes atividades transformadas em Igrejas, como os casos da antiga Fundição Palmares e da antiga Oficina, em frente à praça de Neves; a antiga Indústria Estrela, hoje estacionamento, campo de futebol e salão de festas; além de áreas reservadas para a especulação imobiliária, terrenos não construídos ou

124 124 abandonados considerados como friches, pois outrora estavam ligados ao passado industrial. Constatamos, também, sobretudo nos bairros do Gradim, Vila Lage e Neves que alguns desses terrenos estão se tornando críticos em relação ao processo de favelização, em função da crescente desativação dessas indústrias e abandono de suas construções e terrenos, que se tornaram alvo de novas ocupações irregulares, classificadas com favelas, com grande quantidade de desempregados ou pessoas sem renda fixa. Segundo alguns moradores da comunidade, onde havia indústria não tinha perigo de assaltos, devido ao grande fluxo de trabalhadores nos locais 145. O distrito de Neves é o que apresenta melhor infra-estrutura e grandes áreas em potencial para a implantação de novas atividades e reutilização das friches. Boa localização, infra-estrutura e oferta de terrenos estão tornando o distrito vulnerável, tanto para a especulação imobiliária quanto para o processo de favelização. Esta disputa entre o legal e o ilegal, quando se trata de habitação, poderia, em tese, impedir a implantação de grandes empreendimentos, sobretudo do setor de serviços. Segundo alguns moradores de Neves, principalmente os que moram no trecho entre a pracinha do Vila Lage e o Carrefour, terrenos abandonados como o da antiga Gerdau, (colocado à venda desde 2001, mas sem interessados), aumentam o risco de assaltos e desvalorizam suas habitações devido à proximidade da antiga planta fabril, em péssimo estado de conservação. O serviço de segurança particular cuida apenas da parte interna da fábrica para evitar o furto de alguns materiais ainda existentes. O abandono da área atraiu também a degradação por vandalismo, marca negativa do declínio econômico, a decadência de antigos imóveis do início do século XX e a ausência de vida cultural e social, conforme comentado. As estórias que os habitantes locais nos contaram, enalteciam o passado glorioso dos vários cinemas e espaços de diversão que existiam em Neves. Saudade e melancolia se misturam nas lembranças dos bons tempos na região. 145 Atualmente, vem crescendo, nesses locais a atuação de grupos de extermínio, chamados pela população de cerol ou de carro da lingüiça, para combater a expansão do tráfico de drogas e atividades ilícitas. Não podemos comprovar a atuação de milícias ou grupos paramilitares, mas há uma certa tradição, segundo algumas estórias, da atuação de grupos de extermínio no município. Os locais mais próximos à rodovia Niterói- Manilha são considerados pontos de desova de cadáveres. E atualmente de prostituição infantil. Geralmente a iluminação pública e a segurança são precárias em toda a orla oriental da Baía de Guanabara. Há apenas um posto de policiamento da Polícia Rodoviária Federal, na altura do bairro Porto do Rosa e um DPO ao lado do São Gonçalo shopping.

125 125 As antigas atividades culturais e industriais contribuíram para a criação da identidade dos moradores do município. A organização de bairros, margeando a linha férrea, também está ligada ao passado industrial e os estabelecimentos que ainda existem, ou melhor, resistem estão condenados pela degradação. Essa degradação não é apenas privilégio de Neves, já que outros bairros também sofrem os efeitos econômicos da falta de revitalização. Em função da poluição da Baía, todos os bairros da orla Oriental da Baía de Guanabara sofrem com a ocupação ilegal dos terrenos e as habitações de baixa renda, produzindo um efeito depreciador sobre a paisagem urbana. Tal efeito pode gerar, em tese, outros efeitos, como a sensação de insegurança, que influencia diretamente as práticas sociais, isto é, a vida dos habitantes, que alteraram seus hábitos, deixando de praticar exercícios ou caminhadas pelas ruas próximas à Baía de Guanabara. Alguns moradores ainda freqüentam o piscinão até certa hora, e têm opiniões críticas quanto à mudança de gestão, antes estadual e agora municipal desse espaço. Com o aparecimento de novas atividades como o shopping, os grandes supermercados e as áreas populares de lazer, o município tem a chance de atrair novas empresas que procuram implantar atividades que aproveitem a infra-estrutura e os equipamentos já existentes. A hipótese da entrada de novas atividades pode representar uma a solução para terrenos como o da Gerdau em Neves e para plantas de antigas indústrias na orla do Gradim. Na Rua Oliveira Botelho, no trecho que vai da pracinha do Vila Lage até quase a pracinha do Barreto, principal via do distrito de Neves, há uma grande concentração de pequenas lojas e empresas de fundo de quintal, outrora ligadas à metalurgia, esquadrias de alumínio e de ferro e serralherias, muitas formadas por ex-operários das indústrias da cidade. Essa concentração de atividades poderia ser re-conquistada pelo Poder Público em operações urbanas que alterassem os usos ou que criassem centros de bairros mais dinâmicos. As intervenções urbanas poderiam ser executadas com a implantação de novos equipamentos, embelezamento e pequenas intervenções que pudessem revitalizar o trecho em questão. Para que o trecho Neves - Barreto possa ser revitalizado, sem prejudicar seus habitantes, é necessário que as modificações sejam realizadas não só em conformidade com a vocação da área, mas com a participação da população, para não repetir os mesmos erros do

126 126 programa Rio-cidade, aplicado na cidade do Rio de Janeiro, na década de 1990, onde somente as vias principais foram privilegiadas. Por ter sido um projeto local e pontual não conseguiu superar carências além dos corredores comerciais. O programa se iniciou pelos principais corredores comerciais e se expandiu através do Programa Rio-Ruas pelas demais ruas das proximidades, mudando a infra-estrutura das redes aéreas, drenagem, sistema viário etc. O Projeto São Gonçalo 2000, nitidamente inspirado no Rio-cidade, foi feito nos primeiros anos da administração Henry Charles, entre 2001 e 2004, que trouxe o ex-prefeito Luiz Paulo Conde, mentor do projeto do Rio, para planejar ligações entre diferentes partes do município com a Rodovia Niterói- Manilha e urbanizar alguns bairros de São Gonçalo. O projeto não foi levado adiante e não privilegiou eixos viários ou centros de bairros como no município do Rio de Janeiro. Os principais benefícios do projeto São Gonçalo 2000 foram a reconstrução de praças, como a do Gradim e ligações da rodovia Niterói Manilha com o Centro ou Rodo de São Gonçalo. A ligação Porto da Pedra Rodovia BR 101 não valorizou terrenos ou imóveis, mas facilitou o acesso ao shopping na Boa Vista 146, tipo de intervenção que valoriza uma parte importante do município, mas ainda não contribui para a atração de outros empreendimentos ou mesmo para o embelezamento urbano e revitalização das vias públicas existentes. Intervenções nos moldes do Rio Cidade e de São Gonçalo 2000, se bem executadas, poderiam, em tese, contribuir para a reestruturação da cidade. No capítulo referente ao Plano Diretor de São Gonçalo, comentaremos outros projetos, dentre estes a criação de distrito industrial de Guaxindiba e a Estação Hidroviária também. A Prefeitura Municipal chegou a negociar dois terrenos para impulsionar novos empreendimentos - o primeiro foi durante a administração de Ezequiel Neves, quando em 1998 a Prefeitura vendeu para a Petrobrás parte do terreno da antiga Fábrica de Cimento Portland, no distrito de Alcântara, para a construção de um Pólo Distribuidor de Combustíveis. Recentemente, na administração de Panisset, a PMSG negociou o terreno para a construção da Estação das barcas. 146 Em 2006 a Prefeitura construiu um viaduto em frente ao Boa Vista Shopping Rio facilitando o acesso para ambos sentidos da rodovia BR 101. O Governo do Estado também construiu uma passarela de pedestres, sobre a rodovia, entre o shopping e o piscinão para diminuir o número de atropelamentos.

127 127 Esses dois empreendimentos também podem contribuir para a revitalização no município, podendo até modificar vocações de bairros e suas adjacências, quiçá transformando até a imagem de degradação da cidade. Os bairros da Boa Vista e Gradim podem ter suas vocações alteradas para favorecer a especulação imobiliária e a instalação de empresas dos ramos de serviço e habitação. Como já dissemos antes, acreditamos que a valorização desses bairros, historicamente ligados à pesca, a indústria de conservas e as atividades de lazer, pode acarretar transtornos para os atuais moradores e para as atividades ali exercidas. Não é um fato isolado e nem sigiloso que mesmo impróprias para o banho, essas áreas são utilizadas para o lazer. Segundo o levantamento feito por pesquisadores da UERJ de São Gonçalo: Todas as estações, excetuando-se a estação 6 (canal) são praias que comumente recebem banhistas, e ou freqüentadas por pescadores locais que obtêm nestas águas seu alimento e sua fonte de renda. Algumas destas praias, como por exemplo, a praia de São João, a praia da Luz e a praia das Pedrinhas possuem toda uma infra-estrutura de quiosques para receber turistas que acabam por consumir o pescado extraído do próprio local. A estação 6, trata-se de um rio (ou canal) que recebe o aporte direto de esgoto e que deságua próximo a estas praias, sendo utilizada como estação controle justamente para se ter uma idéia da quantidade de poluição que alcança estas. Esta estação sempre apresentou devido a estes fatores, os menores valores de salinidade e as maiores contagens dos indicadores microbianos de poluição, estando sempre imprópria para o banho segundo a Resolução número 20 de 1986 do Conselho Nacional do Meio Ambiente, CONAMA em (PIMENTEL, 2004, p. 15). E mesmo com a proibição, que já tem cerca de vinte anos, encontramos muitos pescadores e catadores de caranguejo desempenhando suas atividades de pesca. Atualmente, com os sucessivos derramamentos de óleo, sobretudo após o desastre de 2000 essas práticas vêm diminuindo, mas ainda são freqüentes. Os peixes e caranguejos extraídos desse local e vendidos para os donos dos quiosques restaurantes das Pedrinhas e da praia da Luz estão altamente contaminados, segundo o mesmo levantamento da UERJ: os valores médios de coliformes fecais encontrados para as estações 1 (praia de São João), 2 (praia da Luz), 3 (praia da Beira), 4 (praia da Caiera) e 5 (praia de São Gabriel), estão abaixo do máximo permitido para balneabilidade segundo esta mesma Resolução (1.000 coliformes fecais /100ml), a qual porém, sugere que a classificação dos corpos d água baseie-

128 128 se em um mínimo de 5 coletas, onde no máximo 20% destas ultrapassem o valor acima citado; o que classifica as estações 2 (praia da Luz) e 4 (praia da Caiera), juntamente com a estação 7 (praia das Pedrinhas) que apresentou média superior ao valor permitido, como impróprias ao banho. (PIMENTEL, 2004, p. 5). A orla Oriental da Guanabara vem apresentando esses valores impróprios para balneabilidade há muito tempo. Acreditamos que a re-industrialização e a ocupação ilegal podem agravar esse quadro, ao passo que a revitalização pode, de alguma forma, influenciar, pelo menos, no debate sobre qualidade das águas da Baía de Guanabara e seus usos, uma vez que proibir a pesca e o lazer não produziria nenhum efeito. As autoridades não parecem se preocupar com assunto a ponto de colocar placas em todo o entorno da Baía de Guanabara para proibir o banho e as atividades de subsistência, e enquanto isso a população local e os banhistas de fim de semana continuam freqüentando o local como se não houvesse qualquer ameaça às suas saúdes. Como as margens da Baía de Guanabara têm, historicamente, servido de moradia e trabalho para as comunidades pesqueiras, qualquer alteração pode causas uma expulsão branca dos habitantes locais. A criação de postos de pedágio, caso seja privatizada a rodovia federal BR 101 Norte, como já citamos anteriormente, poderá penalizar, ainda mais, essa população. As atividades culturais e de lazer que encontramos na orla são eventos sazonais das classes populares. Geralmente, a orla é ocupada no verão e os moradores de outros bairros e mesmo de Itaboraí ocupam a orla num trecho que vai da praia das Pedrinhas, passando pelo piscinão até as ilhas de Itaoca e do interior da baía de Guanabara. Além da área de lazer na Praia das Pedrinhas, barraquinhas são improvisadas nas ilhas de Jurubaiba e nas praias da Luz e São João e algumas embarcações fazem passeios e travessias para outras ilhas como Paquetá, por exemplo, mostrando a demanda por investimentos nas atividades de lazer e turismo da região. A recuperação ou revitalização dessa orla da Guanabara tem provocado rupturas com as antigas atividades e tradições das populações locais. Contudo, ainda existem espaços verdes e espaços utilizados por empresas ligadas aos antigos ramos de reparos navais e pesca. A permanência de estaleiros como o Cruzeiro do Sul e o Cassinu parecem remediar as transformações econômicas que estão contribuindo para modificar o a orla Oriental.

129 129 No entanto, empreendimentos que não contribuem para a geração de renda e emprego, nem modernizam as empresas já existentes ou não atraem novas atividades podem, em tese, aumentar as estatísticas negativas de poluição da Guanabara e dilacerar o tecido urbano do Município de São Gonçalo tão desgastado e surrado por políticas ou empreendimentos mal sucedidos. A orla apresenta espaços vazios aparentemente não funcionais para ao capital, mas isto não significa que contribuem para a manutenção das relações sociais. Foi comum, durante nossas entrevistas, ouvir relatos de moradores de diferentes bairros, que ainda mantém o costume de juntar amigos para pescar na orla de São Gonçalo. Encontramos muitas garagens de barcos na orla do Gradim, Boa Vista e arredores. Em muitos casos, também ouvimos que as praias também servem para a reunião das famílias, piqueniques e festas de aniversário. Projetos de revitalização dessa orla devem considerar essas atividades na medida em que contribuem para atrair os habitantes de São Gonçalo para as áreas de lazer no litoral. A carência dessas áreas é comentada por quase todos os moradores entrevistados. A magnitude da carência pode justificar atitudes emergenciais da administração local para não desperdiçar esse ambiente. O ecossistema principal que era o mangue, agora está parcialmente destruído. Infelizmente graças à sua localização privilegiada entre uma rodovia federal e a Baía de Guanabara, a área de manguezal, que abrangia parte da APA Guapimirim, fazendas e depósitos de empresas, e ia de Neves até o fundo da Baía de Guanabara, foi escolhida para a construção de loteamentos ilegais, sem a mínima infra-estrutura, que degradam paulatinamente o meio ambiente. A carência de lazer, que geralmente caracteriza os espaços dos pobres, poderá aparecer no futuro como um fator importante para a reivindicar a proteção do eixo Niterói Manilha. A opção de revitalização ao invés de re-industrialização deve ser pensada para o município como um todo. Esta nova mentalidade ligada ao lazer, não mudaria a vocação da orla, mesmo tendo o seu passado e identidades ainda ligados ao período industrial.

130 130 A explicitação dessas carências como o lazer não é suficiente para induzir ao debate sobre as outras carências da cidade. Observando de perto, a orla Oriental, como um todo, é um dos locais mais pobres do Estado do Rio de Janeiro e o chamado fundo da baía de Guanabara apresenta os piores índices de qualidade de vida (TCE, 2004). O lazer e o turismo populares, como vem sendo feitos na orla, proporcionam alguns benefícios para essa comunidade pobre, como a geração de empregos sazonais (informais) nos quiosques e vendas ambulantes, além de diversão a baixo custo para os moradores do local e até municípios vizinhos. No entanto, da forma como são realizados hoje provocam danos ao meio ambiente, com grande acúmulo de lixo deixado pelos usuários das praias e áreas de lazer após os fins de semana e temporadas de verão. Induzir à revitalização para criar novas formas de renda ou ganho para a população pode, de fato, ser muito difícil, uma vez que depende da participação do poder público e, na medida do possível, de parcerias com a iniciativa privada. Mas, o capital busca novas oportunidades de lucro, e nesse local é praticamente impossível encontrar estas oportunidades nos moldes requisitados pelo capital. Os bairros mais próximos à Baía de Guanabara, como já dissemos anteriormente, são os locais mais pobres do município, o que mostra a necessidade premente de se estudarem novas formas de solidariedade para solucionar essas questões. Os debates públicos, poderiam ser formas de discussão mais amplas e democráticas sobre as possibilidades de geração de empregos como o lazer e podem contribuir para a valorização da orla Oriental da Baía de Guanabara. Algo para minimizar os danos causados pela concentração da pobreza em determinadas áreas. Segundo os dados oficias da PMSG, na cidade a renda per capita gira em torno de R$ 144,00, sendo o distrito de Neves o que apresenta a maior renda per capita com cerca de 2,97 salários mínimos e o distrito de Monjolos com 1,98 salários mínimos. 147 Em muitos casos, estes dados representam uma meia verdade, pois ocultam os custos sociais que diferenciam o morador de Neves dos moradores da outra extremidade da cidade. Há uma grande diferença em viver em locais alagadiços como o Jardim Catarina, invasões como as áreas próximas ao mangue ou próximo ao lixão de São Gonçalo. Os custos com 147 Pesquisado em março de 2007 no site da PMSG. IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000.

131 131 transporte e alimentação são barreiras para a população local, mas também criam uma atmosfera desfavorável para a instalação de empresas e a valorização de áreas livres no local. Apesar de sua geografia a orla da Guanabara não atrai, por enquanto, muitos interessados em investimentos. Uma vez que as possibilidades de expansão espacial são limitadas, a utilização destes espaços, mais cedo ou mais tarde, será inevitável. Alguns moradores entrevistados acreditam que o atual estado dos bairros que compõem o eixo Niterói-Manilha cria empecilhos para a revitalização destes mesmos bairros. O processo de re-industrialização se torna a solução mais prática para o poder local, na medida em que o custo para a implementação de novas atividades industriais é a isenção de impostos, e em alguns casos, a cessão de terrenos com um mínimo de urbanização e infra-estrutura instalada. A revitalização já envolve um planejamento e estudos mais detalhados, projetos de urbanização de órgãos específicos, e a preocupação em criar atividades que aumentem a valorização do conjunto urbanístico da cidade.

132 Causas e fatores da desindustrialização Marshal Berman (1986), fazendo alusão à obra de Marx, não descreve apenas o nascimento de um novo capitalismo, mas uma mudança na sociedade que evoca o desespero daqueles que são afetados pelo ritmo frenético que o capitalismo impõe a todas as facetas da vida moderna, inclusive nos confins de mundo, como nos bairros mais pobres das cidades de Países como o Brasil. Após um breve período de dekansho, como diriam os japoneses sobre o longo período entre a elaboração da primeira parte e a sua escrita, retornamos a mais uma parte do trabalho. Nesse item, fazemos a apresentação sucinta de algumas causas da desindustrialização de São Gonçalo e evidenciamos que o conjunto de fatores da desindustrialização no município não é idêntico a outros municípios, estados ou Países. A revitalização do eixo Niterói - São Gonçalo na década de 1990 está diretamente ligada a alguns acontecimentos, dentre estes, destacamos a transferência e o fechamento de indústrias e fábricas na orla Oriental da Baía de Guanabara, bem como a reutilização de espaços vazios e ruínas industriais no eixo Niterói Manilha. A partir deste primeiro momento ou estágio de revitalização, contamos com projetos públicos e privados em diferentes setores, para a retomada de desenvolvimento do Estado. Alguns destes projetos poderão, em tese, afetar diretamente a orla da Baía de Guanabara, e conseqüentemente os municípios de São Gonçalo, Itaboraí e Niterói principalmente. Entre alguns desses projetos citamos, por exemplo, a implementação da Estação Hidroviária da Madama em São Gonçalo, 148 a construção do chamado anel viário ligando o porto de Sepetiba à rodovia federal BR 101 norte, na altura do município de Itaboraí; a privatização de alguns trechos da BR 101, trecho Niterói - Manilha; a construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro - COMPERJ; a reabertura de um antigo estaleiro em São Gonçalo; os possíveis usos da antiga planta fabril da empresa Gerdau em Neves; o 148 Projeto que vigora no PDD desde o início da década de Por exemplo, ver o Art. 55 A Prefeitura de São Gonçalo considera a implantação do Terminal Hidroviário do Porto da Madama como essencial ao desenvolvimento municipal e ao equacionamento dos seus problemas de transporte. Lei n.º 065/91. Plano Diretor da Cidade de São Gonçalo em 9 de dezembro de 1991.

133 133 crescimento do fenômeno da favela fábrica 149 na antiga Indústria Gradim, novos usos como a Escola de Samba Unidos do Porto da Pedra e uma Igreja Evangélica na Av. Lúcio Tomé Feiteira, no bairro Vila Lage, entre outros casos de reutilização e revitalização no eixo Niterói Manilha. Sobre a privatização de trechos da BR 101, observamos que desde abril de 2005 vem sendo discutido na ALERJ o projeto de privatização da rodovia que, segundo o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes - DENIT, é uma das formas de viabilizar a conservação da estrada. Se por um lado, este projeto viabiliza os custos de manutenção da rodovia, por outro a instalação de praças de pedágio na Rodovia Niterói-Manilha, 20 quilômetros depois da descida da Ponte Rio-Niterói, poderá penalizar a população mais carente dos municípios de São Gonçalo e de Itaboraí. Segundo a deputada estadual Graça Mattos, representante do PMDB gonçalense: a rodovia já causou transtornos porque muitos locais da cidade ficaram abaixo do nível do mar. Agora fazer a população pagar para chegar à cidade é um absurdo", analisa Graça. Na opinião da deputada, o pedágio deve existir para manter as rodovias, mas ela pede uma cobrança em áreas menos urbanas que os arredores do Carrefour, onde deve ser instalada uma das praças de pedágio. 150 É importante frisar que a construção do trecho Niterói - Manilha da BR-101, cortou ao meio de alguns bairros de São Gonçalo, separando, no início da década de 1980, por exemplo, os bairros da Boa Vista, Jardim Catarina, Neves, Guaxindiba e Portão do Rosa, além de outros não menos importantes. O Ministério dos Transportes realizou em outubro deste ano os leilões para as concessões de sete trechos de rodovias federais para a iniciativa privada. Na concessão, estão incluídos 320,10 quilômetros da BR-101 no Estado do Rio de Janeiro, que vão da Ponte Rio- Niterói até a divisa do Estado com o Espírito Santo. Segundo o Ministério dos Transportes, as concessões servirão para obter investimentos para realizar melhorias, mas os usuários pagarão pedágio. Em maio de 2007 a 149 Usamos esta expressão favela fábrica para falar da ocupação irregular em espaços, ruínas ou terrenos de antigas indústrias desativadas. 150 Jornal O Fluminense. Privatização: polêmica na ALERJ, pág. 4. Caderno Política. Niterói, 29 abril de 2005.

134 134 imprensa noticiou que algumas modificações estariam sendo realizadas no atual modelo de concessão para que as empresas assumam os trechos com menor custo para os usuários. Segundo a matéria: a principal alteração é que não teremos mais o pagamento da outorga, (valor que as empresas teriam que pagar ao governo federal em troca da concessão da rodovia) e isso fará com que a tarifa do pedágio seja mais barato. 151 A resolução do Conselho Nacional de Desestatização que aprova as condições para o processo de concessão de trechos das rodovias federais foi publicada em 21 de maio deste ano no Diário Oficial da União. Esta resolução define os valores máximos de pedágios, por trecho, que serão cobrados pelas empresas vencedoras 152 e os leilões que estavam previstos para 16 de outubro foram realizados no dia oito de outubro de Segundo a mídia local: A empresa OHL com sede na Espanha foi a grande vencedora do leilão. O pedágio custará em torno de R$ 2,258 no trecho Rio de Janeiro até o Espírito Santo. Esse valor para o pedágio significa um deságio de 40,95% em relação ao valor de R$ 3,824 definido pela ANTT. 153 A empresa construirá, nos 320,1 quilômetros da BR-101 Norte, cinco pedágios. O interesse pelo trecho da BR 101 que corta o estado do Rio de Janeiro foi grande, pois foram feitas 10 propostas pelo trecho. A OHL Brasil, presidida por José Carlos Ferreira de Oliveira, parece apostar alto no crescimento econômico e na evolução no tráfego no País. 154 Segundo informações colhidas no endereço eletrônico da empresa espanhola OHL Concesiones, 155 essa seria a primeira empresa não brasileira em gestão de concessões de rodovias no País. A OHL Brasil detém, no estado de São Paulo, 100% do acionariado de quatro lotes de rodovias, administrados por quatro concessionárias: Autovias, Centrovias, Vianorte e Intervias. Os quatro lotes formam uma malha viária interligada de km no Estado de São Paulo, Estado mais industrializado do Brasil e o responsável por mais de um terço do PIB de todo o País. 151 Jornal O Fluminense. BR-101 perto da privatização. Modificações reduzirão preço do pedágio. Caderno Economia, Acesso em 08 de maio de Jornal O São Gonçalo. BR-101 e outras sete rodovias serão privatizadas este ano. Caderno geral. Página 6, terça-feira, 22 de maio de ANTT. Agência Nacional de Transportes Terrestres. 154 Fonte: Jornal O dia. Rio de Janeiro, terça-feira 09 de outubro de As informações são de Klinger Portella, do site: Terra. 155 OHL Concesiones. Endereço: C/ Gobelas El Plantío. CEP: Madrid. Telefone: +(34) Fax: +(34)

135 135 O Grupo OHL é um dos grupos líderes da construção, concessões e serviços da Espanha. Foi criado em novembro de 2000 para desenvolver infra-estruturas mediante o sistema de concessões. Atualmente, a atividade de concessões é a linha de negócios mais estratégicos para o Grupo. 156 Além de rodovias, atua no setor aeroportuário no México, setor naval com portos de atracação, portos esportivos e comerciais, além de ferrovias e linhas de metrô na Espanha. Segundo o Jornal O Fluminense, a previsão inicial é de que sejam criados cinco praças de pedágio no trecho RJ-ES, onde deverão ser cobrados cerca de R$ 2,258 a partir de meados de Ainda não foram divulgados os bairros onde serão construídos os pedágios, mas se dividirmos os 320,10 quilômetros da BR-101 por cinco, temos em média um pedágio a cada 60,02 quilômetros. Como já existe um pedágio na saída da Ponte Rio - Niterói, acreditamos que o pedágio mais próximo poderá ser construído entre São Gonçalo e Itaboraí. A previsão inicial é a de que existam cinco praças de pedágio nesse lote, onde deverão ser cobrados cerca de R$ 2,258 a partir de meados de Segundo estimativas da Polícia Rodoviária Federal, apenas entre Niterói e São Gonçalo, o número de veículo chega a 150 mil nos dias úteis, exatamente por causa da grande procura pela ponte, onde a média diária é de 130 mil automóveis [...] A Agência Nacional de Transportes Terrestres informou que ainda não estão definidos os locais onde serão instaladas as praças de pedágio no trecho privatizado da BR 101. No próximo dia 19, os dirigentes da própria ANTT vão confirmar os vencedores do leilão realizado ontem após checagem da documentação apresentada em outras fases da licitação. 157 A colocação de pedágios entre São Gonçalo e Itaboraí pode inviabilizar projetos entre as duas cidades, como o atual COMPERJ. A cobrança também prejudicaria milhares de pessoas que estão migrando para Itaboraí e que trabalham no Rio de Janeiro ou em Niterói. O número de veículos, estimados pela PRF em 150 mil por dia, pagando um pedágio de R$ 2,258, representa um ganho bruto de R$ ,00 apenas num dos cinco trechos pedagiados na BR Fonte: 157 Jornal O fluminense. Caderno Economia. Niterói, 10 de outubro de Empresa espanhola garante direito de administrar trecho da BR-101 no Estado do Rio. Matéria de Luiz Gustavo Schmit e Sérgio Soares.

136 136 A explicação da existência da desindustrialização em São Gonçalo é um fato sui generis, em que se devem levar em consideração múltiplos fatores. Os principais fatores que concorrem para essa explicação são aqueles apresentados na própria dinâmica histórica, um certo tipo de evolução que vai do desenvolvimento de antigas atividades rurais ao declínio destas, passando para atividades industriais e conseqüentemente o seu declínio. Contudo, podemos falar de alguns fatores políticos e econômicos que também contribuíram para a desindustrialização. Segundo Oliveira (2005, p. 3 e 4), a cidade apresenta um perfil global de periferalidade. Isso significa concentração de população pobre e negra, com menor escolaridade, baixo nível de acesso a serviços e equipamentos urbanos. Esse ambiente de periferalidade foi produzido pelo processo de modernização e não é seu oposto, mas seu resultado determinado. A industrialização do Rio desorganizou modos tradicionais de reprodução social, ao mesmo tempo que foi motor de atração para grandes contingentes populacionais, recrutados para nova vida urbana em posição subordinada no mercado de trabalho, na participação política e no acesso a benefícios e direitos. A diminuição da atividade industrial nas décadas de 1960 e 1970 acarretou um menor consumo de terrenos para essas atividades e para a diminuição das áreas ocupadas tradicionalmente por empresas que necessitavam dos portos da orla Oriental da Baía de Guanabara ou de grandes pátios. Os principais portos do século XX em São Gonçalo, foram os portos de Neves, Porto Velho, Gradim, Porto Novo e Madama, além do terminal de Guaxindiba para a indústria de Cimento. No bairro do Gradim, surgiu uma das comunidades mais antigas, a chamada Favela do Gato. Ao seu lado, o Governo Municipal construiu uma Escola de Pesca para oferecer cursos aos filhos dos pescadores do município. Neste bairro, encontra-se também uma antiga usina elétrica de médio porte, fechada há mais de 20 anos, que gerava energia para o Porto Velho, Porto Novo, Porto da Pedra, Paraíso além do Gradim. A redefinição das atividades econômicas também é considerada como fator relevante devido à concorrência internacional em certos ramos. Como já citado, no ramo das indústrias de conservas, o Grupo norte-americano Pepsico e Quaker do Brasil adquiriu as empresas de São Gonçalo, sobretudo as Conservas Coqueiro e inúmeras pequenas fábricas no distrito de

137 137 Neves. A concorrência multinacional também levou à ampliação do setor químico farmacológico, com a instalação dos laboratórios B-Braun no distrito de Alcântara, além da ampliação da indústria de cimento pelo grupo francês LaFarge em Guaxindiba. Outro caso exemplar, já citado, foi o caso da indústria de artefatos de vidros do grupo francês SEVES, no caso da Electrovidro, que levou à redefinição das atividades de produção de vidros e artefatos de isolamento e tijolos refratários em toda a América Latina. A redução de algumas atividades industriais em São Gonçalo também está ligada à redução dos custos de transporte e à proximidade com as fontes de matéria prima, como nos casos das fábricas de fósforos e de fogos que existiam em Neves, entre as quais podemos citar a Cia de Fósforos Fiat Lux e a Fábrica de fogos Santo Antônio. Citamos também, algumas fábricas de conservas no bairro do Gradim como a Orleans e a Jangada, além de alguns pequenos estaleiros como o Cruzeiro do Sul e o Cassinu, que retomou as suas atividades na década de 1990 para complementar algumas atividades da construção naval de Niterói. A redução de algumas atividades também está ligada às consecutivas crises econômicas que vêm sofrendo o Estado do Rio de Janeiro, a despeito da inflexão positiva na década de Em São Gonçalo, as crises nas décadas de 1970 e 1980 acentuaram os processos de relocalização industrial, afetaram a continuação de antigas atividades e limitaram a entrada de novas atividades econômicas na cidade. Como exemplo, podemos citar a existência de terrenos liberados pelas atividades anteriores: a planta fabril da Gerdau, parte da planta fabril da Vidrobrás, além de algumas fábricas de conservas, oficinas e laboratórios. A reorganização espacial das indústrias nos distritos de São Gonçalo não se deu pela entrada de novas atividades do mesmo setor, mas pela substituição por atividades ligadas ao comércio e serviços e pela modernização de algumas atividades produtivas como artefatos de cimento e vidro, bem como produtos químico-farmacêuticos. A diversidade de atividades produtivas em São Gonçalo produziu um leque que abrangeu desde grandes multinacionais como a Quaker até pequenas fábricas de máscaras de carnaval, vassouras, trenas e metros para a construção civil, refrigerantes Mineirinho e Flecha, produtos de limpeza etc. Esta diversidade, de certa forma, foi e ainda é positiva para o município, pois evitou o fenômeno de centralização de atividades, além de garantir trabalho para antigos empregados de algumas indústrias fechadas. A abertura de muitas oficinas na

138 138 região do distrito de Neves também ocorreu em função do fechamento das grandes indústrias, pois a maior parte delas pertence a ex-metalúrgicos e ex-funcionários da indústria naval. Nas décadas de 1970 e 1980, com o aumento dos custos de transporte e do processo de produção tradicional, antigas fábricas como as de conservas se transferiram para o sul do País, em busca da proximidade das áreas de pesca e de uma melhor infra-estrutura. Com isso, o número de indústrias e de fábricas de pescado caiu de nove na década de 1970 para duas ou três na década de Atualmente, o município de São Gonçalo possui apenas quatro indústrias de pescado, todas ainda concentradas no antigo distrito industrial de Neves. Tabela 16. Empresas de enlatamento de pescado em São Gonçalo - RJ. Nome da Empresa Endereço e telefone Volume de produção latas/dia Quaker Brasil Ltda. 1 Rua São Jorge, 95/195, Porto Velho, São Gonçalo, RJ ( sardinha atum) Conservas Rubi S/A Conservas Piracema S/A Sul Atlântico de Alimentos S/A Rua Cruzeiro do Sul, 55, Gradim, São Gonçalo, RJ. Rua Dr. Manoel Duarte, 152, Gradim, São Gonçalo, RJ. Rua Dr. Manoel Duarte, 2061, Gradim, São Gonçalo, RJ sardinha e atum sardinha sardinha 1 A informação sobre o total de latas produzidas pela Quaker Brasil Ltda. provém da própria empresa. Fonte 1: Infopesca: O Mercado de Pescados no Rio de Janeiro. Vol. 3, Fonte 2: Sindicato das Indústrias de Conservas de Pescado de Niterói - Rua Visconde do Uruguai, 535, 11 andar.centro Niterói, RJ. O setor siderúrgico também sofreu mudanças significativas nesse período. A siderúrgica Hime, em Neves, foi vendida para a Cosigua, a Companhia Siderúrgica da Guanabara transferiu, aos poucos, suas atividades para a Gerdau, que por sua vez, transferiu as atividades de produção para a usina de Santa Cruz no Município do Rio de Janeiro e passou a manter apenas a divisão comercial em São Gonçalo. A transferência da produção da Gerdau para a região de Santa Cruz deveu-se à proximidade ao porto de Sepetiba e ao futuro arco rodoviário, viabilizando as vias de escoamento de sua produção e recebimento das matériasprimas.

139 139 As mudanças na produção de conservas e pescado corresponderam à diminuição da produtividade do setor e à escassez de matérias-primas, simultaneamente ao agravamento das crises econômicas do Estado e à ausência quase que absoluta de planejamento industrial e de qualquer projeto de reorganização espacial no município. Além disso, algumas plantas fabris da cidade se tornam obsoletas em função da racionalização dos novos modos de produção, que já não necessitam de tanta força de trabalho e grandes plantas fabris, resultando, segundo a nossa tese, na ampliação das friches industriais na década de Entre os anos de 1996 a 2001, segundo Freire (2004), o Estado passou por dois processos: um de prejuízos com o enxugamento do Estado e outro de recuperação econômica marcado pelo binômio petróleo e gás da Bacia de Campos. Em municípios como São Gonçalo, o resultado dessa análise é negativa, pois nesse período foram criados apenas sete mil novos postos de trabalho o que, para Freire, representa ao mesmo tempo uma escassez de empregos na indústria, mas simultaneamente uma ligeira ampliação da oferta de algumas atividades ligadas ao setor terciário. Esses dois movimentos de desemprego e emprego não são contraditórios entre si. Em São Gonçalo, as causas da desindustrialização a partir dos anos 1970 fazem parte de um outro tipo de fenômeno diferente, mas complementar à emergência do setor de comércio e de serviços no distrito de Neves. Enquanto a desindustrialização teve como principal causa fatores econômicos, a terciarização tem como alavanca a grande oferta espacial de terrenos livres ou plantas fabris subutilizadas, com baixos custos e incentivos da administração municipal. O exemplo mais recente é a aquisição da planta da antiga Fábrica de Conservas JANGADA, pela PMSG, para a futura instalação da Estação Hidroviária. 158 A desapropriação da planta fabril das conservas Jangada poderá representar a reconquista de cerca de 11 mil metros quadrados. A futura estação será construída próxima à sede municipal, a cerca de 600 metros da BR-101, Niterói-Manilha. A princípio, o projeto da nova estação será realizado pelo arquiteto Paulo Casé, autor de uma série de intervenções importantes na cidade do Rio de Janeiro. 158 FELICE, Gabriel. Terminal hidroviário de São Gonçalo começa a sair do papel. Jornal O Fluminense. Caderno cidades. Acesso em 01/09/2007.

140 140 As principais ruas dos antigos bairros industriais do Gradim e do Porto Novo, inclusive a Rua Manoel Duarte, que será o principal acesso ao terminal de barcas, segundo a PMSG também ganharão obras de reurbanização, visando a mudança da identidade local de industrial para comercial. A construção de uma estação de barcas no local poderá, em tese, afetar também a rotina dos pescadores locais numa área em que a tradição pesqueira é grande, mesmo com o fechamento das indústrias de conservas e com a escassez do pescado na Baía de Guanabara. Segundo os pescadores das associações de pesca próximas à área da futura estação hidroviária das barcas, o percurso traçado pode interferir na rotina e resultados do trabalho dos mais de 1,3 mil pescadores locais. Para as duas entidades principais - Associação dos Moradores e Pescadores do Porto Novo e Praia - AMPOVEP e Associação dos Pescadores Livres do Gradim e Adjacências 159, além dos impactos com a pesca tradicional, caso não seja realizado um estudo sério de impacto sócio-ambiental, as áreas de manguezal próximas também poderão ser afetadas novamente com a formação da maré com o movimento de grandes embarcações. Nas proximidades da futura estação de barcas, além de quatro grandes indústrias de pescado e duas grandes associações de pescadores, existem ainda pequenos e médios estaleiros para reparos de construções navais, como o Estaleiro Cassinu, que se destaca pelo seu porte médio e o Estaleiro Eisa, recentemente reativado. 160 Não obstante o voluntarismo da PMSG em assinar protocolos de intenções para reativar antigas estruturas de fábricas e indústrias como a antiga Indústria Gradim de Equipamentos para se transformar no Estaleiro Eisa, é sabido também que a construção e os reparos navais encontram-se em processo de retração e diminuição de postos de trabalho, o que provocou a recente greve de operários do Estaleiro Mauá. A área da antiga Indústria Gradim possui cerca de 46 mil metros quadrados e está situada no bairro do Gradim, próxima à futura estação hidroviária. Atualmente desativada, a indústria encontra-se cercada por uma ocupação irregular de habitações de alvenaria. 159 Os endereços das principais associações: Associação dos Pescadores da Praia das Pedrinhas APPP. Rua Professora Maria Joaquina, Praia das Pedrinhas (21) , São Gonçalo; Associação dos Pescadores Livres do Gradim e Adjacências APELGA. Rua Cruzeiro do Sul, 50 Gradim. (21) Jornal O Fluminense. Caderno economia. Assinado acordo para reativar Estaleiro Eisa. Acesso em 31/08/2007.

141 141 Para entender além da desindustrialização e o incremento do setor terciário, a PMSG também conjectura a construção de portos secos ou terminais de carga e descarga. Esse porto 161 seria uma espécie de terminal para armazenamento de cargas a ser construído, possivelmente, próximo à Ilha de Itaóca e ligado ao continente por uma ponte com acesso exclusivo à BR-101 no trecho Niterói-Manilha. A estratégia de localização segue o mesmo princípio do COMPERJ e busca a ligação com o arco rodoviário para servir como uma nova rota comercial para o interior do Estado do Rio de Janeiro e Estados vizinhos. Segundo a imprensa local, a PMSG, na figura da prefeita Panisset, acredita que: tudo que vamos fazer é alargar o canal natural já existente no fundo da Baía de Guanabara para a passagem de embarcações de médio porte. Será uma reutilização da área marítima com vistas à reativação da indústria naval e à instalação do Porto Seco, que poderá armazenar cargas e contêiner. Além dos enormes gastos de uma obra dessa envergadura e do aumento da poluição na Baía com a dragagem que reviraria o fundo do canal central, a Prefeitura parece entrar na contra-mão do desenvolvimento sócio-econômico devido à má compreensão do processo de desindustrialização que a região vem passando e das outras possibilidades de revitalização urbana ligadas ao setor terciário e mesmo ao futuro do COMPERJ. A ampliação do setor de serviços e comércios, além de mais econômica, também pode ser mais viável a curto prazo. A atual tendência, não só em São Gonçalo, mas em muitas regiões metropolitanas brasileiras, reforça a tese do incremento do setor de serviços, através de parcerias entre os setores públicos e privados, visando o desenvolvimento limpo e sustentável, apesar de o discurso oficial da PMSG visualizar o eterno retorno às supostas raízes industriais da cidade e o fantasma da Manchester Fluminense, que de tempos em tempos renasce e nos assombra. Como afirma a prefeita Panisset: Os bairros Porto do Rosa, Porto da Pedra e da Madama foram áreas de porte industrial. Quero resgatar a história e a atividade econômica do município. 162 Segundo o Secretário Municipal de Fazenda, José Maria Machado Rodrigues, os projetos do porto e das barcas vão ajudar a cidade a atrair investimentos. São Gonçalo sofre 161 Fonte: Agência de notícia da PMSG. São Gonçalo, 15/09/ mento%20econ%c3%83%c2%b4mico. 162 Idem, site da agência de notícia da Prefeitura de São Gonçalo.

142 142 com o esvaziamento de receita e indústrias. Falta infra-estrutura para o recebimento de empresas. Queremos tornar o município atrativo. 163 O Secretário parece se esquecer que o mercado classifica os municípios como interessantes ou não para investir e não é o poder local, por mais bem intencionado que seja, que determina onde, quando e como o capital será investido. São Gonçalo passa por uma fase crítica de violência, com um número crescente de homicídios, latrocínios, roubos e furtos, além da crescente favelização no município desde a década de O Secretário Municipal de Fazenda, acima citado, esqueceu de mencionar que esses pequenos detalhes vêm provocando, como já apontamos no capítulo anterior, o agravamento da diminuição de receitas do município. A violência não somente colabora para o fechamento de indústrias e conseqüente desindustrialização, como afasta novos investimentos no município. Assim com fatores os econômicos e sociais também favoreceram a desindustrialização no município, não podemos esquecer das questões políticas, como o populismo sem compromisso com o desenvolvimento local, que beneficiou a especulação imobiliária de grandes loteamentos sem infra-estrutura, muitos deles em antigas fazendas que, depois de loteadas e vendidas, contribuíram para a desvalorização do município, chamado de cidade dormitório até a década de Ao mesmo tempo em que se agravava a ausência de terrenos para a expansão industrial no final da década de 1970 e primeira metade da década de 1980, a favelização e a incompetência política, sobretudo nas administrações de Jayme Campos e subseqüentes, contribuíram para o declínio industrial. Fatores externos como crises econômicas internacionais e nacionais, somadas à falta de interesses em direcionar recursos para a modernização das fábricas e indústrias locais agravaram-se com a omissão e o laissez-faire, adotados pela municipalidade. Omissão na fiscalização dos loteamentos e da explosão demográfica que vêm causando a desordem vivenciada na cidade ainda hoje e o laissez-faire que contribui para que a cidade perca arrecadação de impostos, taxas e tributos, e contribui para o agravamento da informalidade. 163 Idem.

143 143 A soma dessa postura da administração municipal mais a conjuntura econômica negativa resultou num terreno fecundo para as crises relacionadas com o declínio industrial então verificado. Em primeiro lugar, a mentalidade rural e provinciana na gestão da coisa pública e em segundo lugar a ausência de divisas para revitalizar e adequar a cidade aos investimentos do capital, que favoreceram não somente o declínio da indústria local, como também da indústria brasileira. Confirmando a nossa tese, Oliveira (2005, p. 3) afirma que o crescimento de São Gonçalo deve-se, naturalmente, à dinâmica da metrópole carioca, constituindo-se a partir dos anos 1940, diante do elevado processo de urbanização, numa aglomeração urbana, reservatório de mão-de-obra barata, notadamente formada por emigrantes nordestinos. Nos anos 1950, a cidade chegou a ser considerada pólo industrial, tendo também expressiva concentração de fazendas dedicadas à citricultura. A partir dos anos 1980, como ocorreu com o restante do País, a recessão econômica e a desindustrialização tiveram seus efeitos sentidos na cidade. Considerada "periferia consolidada", a cidade de São Gonçalo inscreve-se na teia de relações metropolitanas como uma região de privação relativa ou pobreza. No capítulo anterior, indicamos que as chamadas indústrias tradicionais do distrito de Neves, como as conservas, a indústria de couros como o Curtume São Sebastião, fósforos, fogos e a alimentícia iniciaram suas atividades em meados da década de 1940, mas conquistaram o mercado no período seguinte, nas décadas de 1950 e Nas décadas seguintes, entretanto, sem os devidos esforços para a modernização e aprimoramento tecnológico, essas indústrias iniciam um período de declínio, que culminou na década de À exceção das conservas Coqueiro 164, as outras empresas tecnologicamente desatualizadas foram paulatinamente encerrando as atividades ou operando mais lentamente. Somados aos processos de abertura do mercado, crises econômicas e defasagem tecnológica, as empresas de pequeno e médio porte remanescentes foram levadas à falência, o que agravou consideravelmente o problema do desemprego em São Gonçalo. 164 Em razão de suas características e da venda da unidade da Rua São Jorge para o grupo Quaker Brasil Ltda.

144 144 A situação atual em São Gonçalo, sobretudo das empresas tradicionais não favorece a atração de novos investimentos, seja de capital nacional ou mesmo estrangeiro. A falta de espaço para a expansão industrial, o crescimento demográfico acentuado e a ausência de mãode-obra qualificada, entre outros motivos, geram a descrença, em alguns habitantes, na entrada de novos investimentos na cidade. Em entrevistas realizadas em 2006, recolhemos depoimentos de ex-trabalhadores descontentes e incrédulos com a possibilidade de criação de mais empregos, na retomada dos investimentos na área industrial e no sucesso do COMPERJ. Parece que ambos os lados: capital e trabalho não cultivam a esperança dos bons tempos da Manchester fluminense como a atual prefeita. As promessas de dias melhores não têm convencido nem os investidores nem os trabalhadores entrevistados.

145 O declínio do emprego industrial e o crescimento dos empregos nos serviços. O São Gonçalo Shopping Rio como exemplo Em São Gonçalo, as duas últimas décadas têm sido sui generis em relação às transformações no processo de urbanização. Ao mesmo tempo em que constatamos o crescimento das desigualdades sociais, parcela da população local vislumbra possibilidades de desenvolvimento. O caso São Gonçalo shopping é emblemático nesse sentido. Por um lado, esse empreendimento inseriu parcela da população do município no mercado de consumo local. Até então, os consumidores de São Gonçalo freqüentavam apenas os shoppings de Niterói. Por outro lado, parece aprofundar a diferença entre aqueles que estão dentro desse novo mercado e daqueles que estão fora do shopping. O contexto geral do bairro da Boa Vista é bem diverso daquele vivido no interior das lojas e estabelecimentos do shopping. Apresentamos neste sub item a hipótese de que o crescimento dos empregos no comércio e nos serviços, como no caso do São Gonçalo shopping, não trouxe a recuperação econômica após o declínio do emprego industrial. No contexto municipal, sobretudo a partir da inauguração do primeiro shopping 165 do município em março 2004, percebemos uma nova configuração do espaço público próximo ao empreendimento, como a construção de viadutos e o calçamento de vias de acesso, mas não em relação aos espaços privados, tais como novas habitações e novos empreendimentos. Não houve a entrada em cena de novos atores voltados para a ampliação das práticas de comércio e de serviços no distrito. A inclusão social 166 e a possibilidade de constituição de novas relações entre o shopping e a sociedade também não foram construídas. Neste contexto de ausência de 165 Inaugurado no dia 25 de março de 2004 como o quarto maior do Estado e o, o São Gonçalo Shopping tem m² de área bruta locável. Conta com 176 lojas satélite e 15 lojas âncora. Segundo a propaganda tornando-o um dos shoppings mais bem ancorados do país. O empreendimento teve um investimento de R$ 60 milhões da empresa Ecia Irmãos Araújo. Representa um novo empreendimento na orla oriental da Guanabara que, segundo o site do shopping é um: impulso para a cidade que está em pleno progresso com uma população de um milhão de habitantes. Fonte: 166 Por inclusão social definimos qualquer forma de envolvimento e participação do empreendimento, supracitado, com a melhoria na qualidade de vida ou benefícios para a comunidade local. Essa participação pode

146 146 políticas urbanas e de projetos para a ampliação da participação dos atores da sociedade civil, há uma visível privatização do espaço público. Exemplos como a alteração nas linhas de ônibus municipais para atender ao shopping e o calçamento das vias de acesso são influências nítidas do mercado sobre as políticas urbanas no âmbito local. As políticas sociais parecem circular na órbita das agendas das empresas localizadas no bairro. Quando o São Gonçalo Shopping passou da administração do grupo EGEC/BR Malls para a administração da empresa Ancar, de propriedade do Grupo Fernandes Araújo, detentor acionário da empresa GSR Shopping Ltda; 167 seria uma boa oportunidade para mudar a relação do empreendimento com as comunidades do entorno. Medidas como apadrinhamento de alguma praça ou mesmo do piscinão em frente não foram cogitados e nem mesmo os buracos nos acessos ao shopping parecem estimular a responsabilidade social. As empresas de São Gonçalo, de modo geral, ainda parecem desconectadas da questão social. A influência desses atores nas políticas públicas, através da urbanização de áreas, infra-estrutura e incentivos fiscais está na contramão de políticas urbanas participativas e democráticas. A ausência de relações entre as empresas e a sociedade civil parece descortinar a falta de modernização nas ações do capital local e global nas periferias. A sociedade local é alvo da ação organizada de máfias nos transportes coletivos, nos loteamentos e também em algumas associações. Os habitantes da cidade, que são os mais interessados nas melhorias, são também os mais desorganizados política e socialmente. Surge o espaço privilegiado para a ausência de relacionamento entre o capital privado e a sociedade civil, que forma lacunas preenchidas pelo oportunismo político ou pela economia informal que prolifera no município. se dar de diferentes modos. No caso do shopping as intervenções, da construtora Ecia Irmãos Araújo e da PMSG, não trouxeram benefícios diretos para a comunidade. Ainda existem assentamentos informais e falta de infraestrutura no quarteirão em frente ao shopping. O empreendimento, controlado desde julho de 2007 pela empresa Ancar: Gestão Integrada de Shopping Centers não implementou programas de inclusão social, ou planos de apoio às comunidades locais. 167 A empresa Ancar Gestão Integrada de Shoppings Centers, tem convênios com as seguintes empresas: - Ivanhoe Cambridge. Caisse de dépôt et placement du Québec; Ancar Empreendimentos comerciais; Nacional Iguatemi; General Growth Properties, Inc; Grupo Multiplan e o grupo Cadillac Fairview. A Ancar no Rio se localiza na Av. das Américas, Subsolo - Shopping Rio Design Barra. CEP Rio de Janeiro RJ. Tel./PABX: / Fax.: Fonte:

147 147 Diversos autores 168 já apontaram para a necessidade de articulações entre indivíduos e instituições, sobretudo para os bons resultados para ambos, quando há relações entre a sociedade civil, a econômica e a política. Esse relacionamento pode, ao nosso ver, facilitar a revitalização e o desenvolvimento dos locais onde organizações respeitam a comunidade local e vice-versa. Segundo Teixeira (2000), por exemplo, quando novos atores coletivos se articulam, podem produzir ações que fortalecem a sociedade civil como um todo e influenciar nas políticas públicas e nas políticas urbanas. A problematização colocada por Teixeira (2000) questiona a capacidade de mobilização dos movimentos populares e sindicais e neste sentido, nos solidarizamos com essa posição quando observamos a desorganização dos movimentos sociais, ONG s e associações gonçalenses. A título ilustrativo, quando um novo empreendimento, como o shopping, se estabelece no município parece não se preocupar em tomar conhecimento das associações locais a fim de traçar estratégias de solidariedade. A proliferação de Organizações Não-Governamentais - ONG s em São Gonçalo a partir da década de 1990 não contribuiu para alargar a participação popular nas decisões públicas, muito menos nas iniciativas privadas. 169 Novos empreendimentos que desembarcam na cidade não desempenham um papel social relevante, em virtude da ausência de redes de solidariedade que aproximem empresários e comunidade local. Quando não há grupos que possam pressionar pelas suas reivindicações, como afirma Dagnino (2002), a sociedade perde o poder de pressão. Embora São Gonçalo possua diversas associações, sindicatos e organizações não-governamentais, a PMSG não confere o mesmo reconhecimento que é dado aos demais segmentos: políticos e econômicos, sobretudo. 168 Ver por exemplo os textos de ARATO, Andrew et COHEN, Jean; Civil society and political theory. Cambridge: Mit press, DAGNINO, Evelina (Org.). Sociedade civil e espaços públicos no Brasil. São Paulo: Paz e Terra, TEIXEIRA, Elenaldo. O local e o global. Limites e desafios da participação cidadã. São Paulo: Cortez, SCHERER-WARREN, Ilse. Cidadania sem fronteiras: ações coletivas na era da globalização. São Paulo: Hucitec, As principais organizações não-governamentais nas décadas de 1990 e 2000 foram aquelas ligadas a cultura e ao meio ambiente.

148 148 Na medida que a sociedade participa das transformações sociais e econômicas, a sua identidade pode ser preservada ou convertida em algo melhor, que possa contribuir para o crescimento da cidade como um todo. Conforme afirma Arato (ARATO et al. 1992), a participação contribui para enraizar valores, normas, instituições e identidades sociais na cultura política: O sucesso dos movimentos sociais deve ser entendido não enquanto o preenchimento de seus objetivos substantivos, ou enquanto sua autoperpetuação como movimento, mas como a democratização de valores, normas, instituições e identidades sociais enraizadas na cultura política. É nesse contexto, que a categoria dos direitos torna-se importante. Se concebermos o ganho dos movimentos em termos de institucionalização de direitos, tal como definimos, o desaparecimentos dos movimentos sociais, seja em virtude de transformação operacional, seja devido a sua absorção por identidades recentemente construídas não significa o desaparecimento do contexto que leva à geração e constituição dos movimentos. Os direitos conquistados estabilizam as fronteiras entre o mundo da vida e movimentos sociais e o Estado e economia, eles também constituem condição de possibilidade de emergência de novas associações, fóruns e movimentos. 170 A ausência de organizações sólidas que possam pressionar contra a entrada de empreendimentos nocivos ao meio ambiente e a identidade local nos traz inquietações. Ainda não sabemos a dimensão desse fenômeno recente, que é a transformação da orla Oriental da Guanabara, especialmente no eixo Niterói-Manilha, mas já podemos visualizar possíveis dificuldades após suas implementações. A abordagem de experiências anteriores vem demonstrando que os grupos mais desorganizados são aqueles que mais sofrem frente a grupos poderosos, sejam do capital nacional ou global. Citamos o caso dos pescadores frente aos efeitos da poluição da Guanabara em 2000 e do descaso da Petrobrás, bem como os moradores do distrito de Neves, que estão perdendo os últimos espaços que fazem referência à identidade industrial da cidade. Agora, iremos nos debruçar nas informações sobre o shopping e a sua atuação na Boa Vista. Interrogamos alguns moradores sobre os papéis dos novos empreendimentos em geral, e em particular ao São Gonçalo shopping, que a principio significou uma ruptura com as relações tradicionais entre essa cidade e Niterói. Há uma divisão de opiniões na própria sociedade local, onde muitos consideram que o shopping trouxe avanços ainda que lentos e 170 Arato et Cohen, 1994, página: 176.

149 149 descontínuos para o desenvolvimento do município e alguns que não vêem qualquer perspectiva de melhorias a partir do empreendimento. Desde que foi inaugurado no dia 25 de março de 2004, o São Gonçalo shopping, de uma forma geral, passou a ser não só uma referência positiva para a cidade, mas também um fator de orgulho para a população formada principalmente por jovens e adolescentes. Os jovens entrevistados se enchiam de orgulho ao citar o empreendimento como o maior do shopping do Estado, ou maior até que o Barra Shopping. Na verdade, ele não foi o primeiro shopping do município, já que São Gonçalo já possuía inúmeras galerias de lojas e pequenos shoppings no Rodo e em Alcântara, além do shopping Corcovado, 171 construído na Rua Carlos Gianelli, na entrada do Boaçu. O São Gonçalo Shopping tem cerca de m² de área bruta e foi construído entre a antiga barreira da Boa Vista, onde era retirado barro para as olarias de Itaboraí e São Gonçalo e o campinho de futebol da barreira. O terreno original tem cerca de m². Na época da construção, o shopping já era comentado pelo seu grande porte, mas a concepção das lojas foi pensada com um perfil mais popular, com lojas com aluguéis mais acessíveis e possibilidade de instalação de marcas locais. Este tipo de empreendimento, bem difundido no Brasil dentre os Shoppings, escolheu uma combinação entre compras, lazer e alimentação visando atrair a população de São Gonçalo e Itaboraí, e enfrentar a concorrência com o comércio de Niterói, principalmente os shoppings Plaza e Bay Market, junto às barcas. Se fosse de pequeno porte, certamente não iria competir por muito tempo com os shoppings de Niterói, mas como foi construído com grandiosidade, acabou agradando à população. A disputa pelo consumidor gonçalense que fazia suas compras em Niterói, e em menor grau em Alcântara, foi travada com o uso de táticas de diferenciação de ofertas de consumo e através da localização estratégica. Com sua praça de alimentação debruçada sobre a Baía de 171 O shopping Corcovado, inaugurado na década de Foi construído no terreno de um antigo solar situado na Rua Carlos Gianelli. A localização privilegiada no início da via, na localidade conhecida como a entrada do Boaçu não contribuiu para o sucesso desse empreendimento. Talvez o seu pequeno porte ou a ausência de uma loja âncora tenham influenciado no seu fracasso. Mais tarde foi inaugurado o Rodo shopping. De porte maior e com o funcionamento de um cinema nos seus primeiros anos, teve mais sucesso que o anterior. Localizado na Avenida Nilo Peçanha, uma continuação da principal Avenida do Município e caminho que vai do Centro para Alcântara, teve mais sucesso que o primeiro shopping.

150 150 Guanabara, proporciona lazer e uma bela paisagem frente ao mar como poucos empreendimentos no Brasil. O Shopping conta com quase duzentas lojas, sendo quinze de médio e grande porte, consideradas lojas âncora. A área total construída, com cerca de m², abriga uma grande universidade, a Estácio de Sá, oito salas de cinema, um supermercado e uma praça de alimentação com mais de dez restaurantes. A sua implementação fez surgir uma nova rua, denominada de Avenida São Gonçalo no bairro Boa Vista no quilômetro 8,5 da rodovia BR 101, trecho Niterói-Manilha. O empreendimento, segundo o site da construtora, foi resultado de um investimento de R$ 60 milhões da Ecia Irmãos Araújo e representou o primeiro investimento de grande porte no bairro da Boa Vista. Após a construção, a empresa BR Malls passou a administrar o São Gonçalo shopping até junho de A partir desta data, a empresa Ancar Gestão Integrada de Shopping Centers começou a administrá-lo em parceria com empreendedores e lojistas. A empresa BR Mall fazia a gestão do São Gonçalo Shopping Centers com a EGEC, 172 firma de contratos para a prestação de serviços, que atuava com a empresa JSR Shopping Ltda, com o objeto de reduzir a inadimplência dos lojistas e a redução dos custos das despesas orçamentárias. A Ancar, atual gestora do negócio, especializou-se no ramo dos shoppings desde a década de 1970, segundo a propaganda da empresa: Na década de 1970, mas precisamente em 1972, a família Carvalho, há 33 anos no comando do Banco Andrade Arnaud, identifica um grande e promissor nicho mercadológico no segmento dos shoppings centers e, após transferir o controle acionário do Banco, cria a Ancar Empreendimentos Comerciais. Adquirir 50% das ações do Conjunto Nacional Brasília, o primeiro shopping da região Centro-oeste e o segundo inaugurado no País. A partir daí, o presidente da Ancar Empreendimentos, Sergio Andrade de Carvalho, é eleito o primeiro presidente da Abrasce em 1980 e após a inauguração de vários shoppings pelo Brasil o Sr. Sergio Carvalho torna-se o 172 EGEC, Empresa de Gerenciamento de Empreendimentos Comerciais. Segundo o site da empresa, a remuneração da EGEC pelos serviços contratados é, em geral, dividida entre uma remuneração fixa e uma taxa de administração variável baseada em uma porcentagem da receita auferida pelos empreendimentos. Além disso, eventualmente é estabelecida uma remuneração a título de adicional de produtividade, representando uma porcentagem sobre o total da receita de acordo com a proporção de metas atingidas estabelecidas.

151 151 único latino-americano a fazer parte do Conselho de Trustes do ICSC - International Council of Shopping Centers até Desde a década de 1990, a Ancar inaugurou uma parceria com a sociedade civil a partir do shopping Nova América Outlet Shopping, que no princípio usava o conceito de outlet, mas depois passou a ser um shopping tradicional. Em 1997, a empresa criou o projeto social "Plantando o Amanhã" e a Organização Não-Governamental Cruzada do Menor para promover um bom "relacionamento com a comunidade". Sua missão é, segundo a empresa: Ser a primeira opção em gestão de Shopping Centers e criar uma experiência única. Encantadora para os consumidores, rentável para os lojistas e empreendedores, através de uma equipe feliz e comprometida com os valores da empresa [...] fazendo a diferença - Compromisso com a melhoria da qualidade de vida e transformação das comunidades ao nosso redor. Não podemos, ainda, perguntar sobre esse compromisso com a comunidade ao redor, pois a Ancar tem pouco tempo de experiência com o bairro da Boa Vista e seu entorno. Por isso, em nossa pesquisa não encontramos ações efetivas realizadas com o intuito de atender alguma reivindicação da população local, mas para não sermos levianos aguardamos pelo futuro do shopping. A nossa pesquisa indicou algumas reivindicações dos moradores locais, principalmente das comunidades em frente ao shopping, que aguardam o desenvolvimento econômico além da área do empreendimento. Alguns moradores entrevistados comentam que o shopping não trouxe benefícios diretos além da facilidade de compra e também não gerou empregos para os moradores locais, pois a maioria destes não tem qualificação profissional e experiência necessária para atender às lojas, restaurantes e demais atividades realizadas no shopping. Além do mais, alguns moradores da Boa Vista comentam que o shopping não contribui socialmente para o combate da pobreza da população da região. Apenas cinco minutos de automóvel separam o shopping das comunidades mais pobres do município como: 173 Fonte: Ancar Gestão Integrada de Shopping Centers. Av. das Américas, Subsolo - Shopping Rio Design Barra. CEP Rio de Janeiro RJ. Tel./PABX: / Fax.:

152 152 Itaoca, Jardim Catarina e o manguezal. O bairro também tem uma localidade pobre denominada de Morro da Boa Vista, mas não tão miserável quanto as três citadas. O empreendimento e os seus gestores ainda não identificaram a necessidade da geração de alguma atividade que possa contribuir para auxiliar ou gerar dinamismo no comercio adjacente ao empreendimento. O shopping é contemplado por cerca de quinze linhas de ônibus, algumas circulares e outras municipais. Algumas linhas foram criadas pela PMSG, especialmente para conduzir consumidores e funcionários para o local. Os pontos irregulares do transporte ilegal, (vans piratas na linguagem popular), estão localizados em frente ao posto da Guarda Municipal e à Cabine da Polícia Militar. Na rua em frente ao shopping não existem calçadas para pedestres e esta rua, denominada de Avenida Barão de São Gonçalo, é um trecho com cerca de cem metros, inúmeros buracos e iluminação precária. Em frente ao shopping, na Rodovia BR 101, trecho Niterói-Manilha, mais precisamente no quilômetro 8,5 da pista, constatamos pontos de prostituição de jovens no início das tardes. A praia das Pedrinhas tem tradição quanto ao lazer e à diversão no município há muito tempo e até a década de 1980, quando a pista foi construída, existia a zona do tenente Hélio, famoso bordel que funcionava na rua de barro que dava acesso à praia das Pedrinhas. Atualmente, os botecos e quiosques da orla, agora urbanizada, não são pontos de prostituição. Apenas atraem moradores de diferentes bairros e de cidades vizinhas para o lazer. Esse contraste com o shopping, em frente, parece contraditório, pois são dois grupos bem distintos que ocupam um mesmo espaço, separados apenas pela rodovia. Enquanto o shopping oferece aos seus usuários total suporte com segurança, ar condicionado e estacionamento, o outro lado parece, à primeira vista, um caos. Segundo a propaganda da administradora: A Ancar Gestão oferece aos lojistas total suporte nos empreendimentos que administra, em busca da redução de custos e aumento nas margens de lucro. Shoppings seguros e atraentes para o consumidor significam maior tráfego e volume de vendas e, conseqüentemente, maior retorno de capital para os investidores [...] A empresa administra a execução de manutenções preventivas utilizando um software específico, e também se responsabiliza pelo planejamento, organização e supervisão do controle da área de estacionamento, além de outros serviços Idem

153 153 No mundo inteiro, o negócio shopping vem se consolidando, pois ao mesmo tempo em que aglomera grandes empresas num mesmo local e diminui os riscos com insegurança das ruas, também isola a população pobre do entorno, criando um tipo de ilha da fantasia para poucos. A administração eficiente, nesse caso, é aquela que atende aos anseios dos comerciantes e empresários, e se compromete com alguns problemas urbanos locais, cria organizações não-governamentais, tem responsabilidade social, mas não consegue a redução da crescente miséria ao seu redor. Alguma coisa está errada ou essa é a lógica do velho capital tal qual nós conhecemos? Creio que agora temos mais um elemento: o marketing social. Enquanto os gestores afirmam abertamente a preocupação com a estética e o conforto interno e com os acessos às mercadorias e serviços, nós nos preocupamos, também, com aqueles que apenas se alimentam das novas propagandas e desejos criados pelos departamentos de marketing e merchandising expostos no lado de fora do empreendimento em suntuosos outdoors. Quebrado um paradigma no mercado, enxergando a importância cada vez maior da ambientação, a Ancar criou na estrutura dos shoppings o departamento de Arquitetura e Ambiente, que tem como função estar focado em tudo ao que é relacionado à percepção do cliente, criando um ambiente valorizado, onde prevalece o capricho, o cuidado nos detalhes e o bem-estar do consumidor. 175 A empresa, socialmente responsável, utiliza seus colaboradores como voluntários em programas de integração entre as comunidades e os empreendimentos sob sua responsabilidade. Esperamos que essa filantropia seja estendida ao morro da Boa Vista ou ao lixão de Itaoca para, segundo a empresa, gerar o bem-estar e crescimento social nas comunidades. Assim como os custos e os benefícios são monitorados freqüentemente através de gráficos e índices comparativos, esperamos um dia ver tais estudos auxiliando em escolas e creches da região. A eficiência na prestação de serviços de administração dos shoppings poderia ser socialmente utilizada para apoiar a gestão, quase sempre precária, de alguma escola ou associação local. Não falo apenas em São Gonçalo, mas de qualquer município onde os índices sejam semelhantes aos encontrados nesse município: 175 Idem site da Ancar.

154 154 Com relação aos componentes do índice, São Gonçalo apresentou IDH-M Educação de 0,896, 12º no estado, e pontuou 0,742 no IDH-M Esperança de Vida, 40º posição dentre os noventa e um municípios analisados. Seu IDH- M Renda foi de 0,706, no qual o município ficou em 31º lugar no estado. (TCE, 2004, p. 26). Estes grandes empreendimentos não são criados em municípios que não oferecem retorno de seus investimentos. A escolha se dá mais pela sua localização do que pelo novo nicho de negócios. Segundo uma reportagem sobre shoppings, a chamada indústria dos Shoppings no Brasil teve seu início em 1966, mas seu boom de crescimento foi a partir das décadas de 1980 e 1990, quando o País e, sobretudo, o Rio de Janeiro, passaram por uma grave crise econômica e de segurança: Na década de 70, além do Conjunto Nacional de Brasília, cinco novos empreendimentos foram iniciados, mas foi a partir da década de 80 que a indústria de Shopping Centers iniciou seu grande impulso de crescimento, com o número de Shopping Centers aumentando consideravelmente até o final da década de 90, quando o ritmo de lançamento de novos empreendimentos começou a diminuir. 176 Parece uma contradição, mas é só aparente. Quando São Gonçalo e o Estado do Rio de Janeiro passam por uma fase de inflexão econômica positiva, como diz Natal (2004) é a hora exata de investir e abrir um novo empreendimento no caminho entre a metrópole e a bacia de petróleo de Macaé. Desde 1966, o número de empreendimentos vem crescendo de forma acentuada, totalizando, em 31 de dezembro de 2006, atualmente 346 Shopping Centers, segundo a ABRASCE 177. São vários os fatores de crescimento dos Shoppings Centers, como o crescimento urbano, a necessidade de maior segurança e maior conforto [...] entre outros. 178 Por apresentar características de shopping regional, o São Gonçalo shopping congrega uma variedade de lojas, serviços e lazer. Ainda que tenha um perfil mais popular que a maioria, é comum o chamado passeio pelo shopping, onde as pessoas caminham pelos corredores, observam as lojas, e consomem esporadicamente. As lojas chamadas de âncoras criam fluxos, mas não o consumo. 176 Fonte: 177 ABRASCE: Associação Brasileira dos Shoppings Centers. 178 Idem

155 155 De modo geral, os recursos para a implementação dos Shoppings Centers provêm de capitais próprios dos investidores, reunidos em acordos e também de valores oriundos de contratos de abertura de crédito com instituições financeiras fomentadoras, como o BNDES e a Caixa Econômica Federal. Os investimentos no setor são geralmente feitos mediante a aquisição de cotas-parte. Segundo Natal (2005, p. 60), a economia do Estado teve sua inflexão positiva, também graças aos financiamentos com recursos públicos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, como foram os caso do São Gonçalo shopping e muitos outros empreendimentos, como a retomada da construção naval. Segundo o autor, graças à ideologia pró-mercado dos governos federais: a economia fluminense ingressou nessa fase graças aos investimentos privados, muitos deles financiados com recursos públicos (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), diga-se, como foi o caso da privatização da Ponte Rio-Niterói e de tantas vias entregues para efeito de exploração a firmas privadas e à mudança de cenário então empreendida graças à emergência de uma ideologia claramente pró-mercado e anti-estado, por suposto. 179 Se esses empreendimentos são realizados em alguns casos com subsídios públicos, por que não atuar com responsabilidade social? Segundo dados da Ancar, a empresa exerce a responsabilidade social em outros locais, e não necessariamente nas proximidades de seus empreendimentos. Com a recente incorporação do São Gonçalo shopping na sua carteira de clientes, a cidade poderá ser beneficiada, nem que seja pelo marketing social: A Ancar Gestão é uma empresa socialmente responsável, que utiliza não apenas recursos financeiros, mas também a sua experiência em administração, com a participação de seus colaboradores como voluntários, para viabilizar programas que levem à integração das comunidades com os empreendimentos sob sua responsabilidade. Atualmente, a Ancar desenvolve, implanta e gerencia projetos que visam o bem-estar e crescimento social nas comunidades assistidas, como a Cruzada do Menor e o programa Junior Achievement. A Ancar apóia ainda o projeto Espaço Compartilharte, que atua desde 1991 em Canoas, área rural de Teresópolis/RJ. O projeto promove oficinas sócio-educativas e ações complementares à escola formal, além de acompanhamento médico, dentário, fitoterápico e psicossocial de crianças, adolescentes e seus familiares, vivendo em situação de risco pessoal e social.uma das ações desenvolvidas no Espaço Compartilharte - o Programa Compartilhando a Arte de Brincar - conquistou o importante Prêmio Criança 2004 da Fundação Abrinq, na categoria Convivência Comunitária NATAL, Jorge. (Org). Rede urbana, dinâmica econômica e questão social: o Estado do Rio de Janeiro pós 95. Rio de Janeiro: Publicati editora p. 180 Idem site da Ancar.

156 156 A empresa cita como parte da responsabilidade social a criação de novos postos de trabalho, mas a realidade gonçalense não sofreu grande impacto com esse novo empreendimento. Abaixo, apresentamos alguns dados sobre o São Gonçalo Shopping para o exercício social encerrado em 31 de dezembro de 2006, feito pela consultoria da empresa BR Malls Participações S.A. Tabela 17. Dados relativos ao São Gonçalo Shopping. Dezembro Unidade Estado Área bruta construída: ABC (m²) Nº lojas (em unidades) Visitantes/ano/milhões São Gonçalo Shopping RJ 46, milhões Fonte: Pesquisa realizada em abril de 2007 na internet no site: Segundo o último relatório da consultora, o São Gonçalo Shopping foi inaugurado no dia 25 de março de 2004, como o quarto maior Shopping Center do Estado do Rio de Janeiro, com dois estacionamentos, um na entrada da frente e o maior nos andares superiores, somando vagas. Conta com 176 lojas, sendo 169 lojas Satélites e 7 âncoras, dentre elas o Hipermercado Extra, a Leader Magazine, a Marisa, as Lojas Americanas, C&A, Casa & Vídeo, Casas Bahia e o Ponto Frio. O relatório não cita os mais de usuários da Universidade Estácio de Sá e o documento fala apenas da freqüência total, que é de aproximadamente 11,4 milhões consumidores ao ano. 181 Bem diferente dos dados apresentados na mídia que, segundo o jornal O Dia chega a atrair 120 mil pessoas por fim de semana e 1 milhão por mês, com uma estimativa de venda para o Natal de 2004 de R$ 50 milhões e geração de três mil empregos diretos no empreendimento. 182 A participação do pessoal empregado em São Gonçalo não sofreu grandes alterações de 2003 para o ano seguinte com a inauguração do shopping. Segundo dados do IBGE temos: 181 Prospecto preliminar de oferta pública de distribuição primária de ações ordinárias de emissão da: BR Malls Participações S.A. Companhia Aberta de Capital Autorizado. Praia de Botafogo 501, salão 701 (parte), Bloco II, CEP , Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CNPJ n.º / NIRE CVM n.º ISIN. Publicado na página: 182 Jornal O Dia, domingo, 17 de outubro de RJ, página 3.

157 157 Tabela 18. Pessoal Ocupado por Ramo de Atividade no Município de São Gonçalo Atividade Pessoal ocupado Alojamento e Alimentação Atividades imobiliárias, aluguéis e serviços prestados às empresas Comércio, reparação de veículos automotores, objetos pessoais e domésticos Construção Indústrias extrativas 144 Indústrias de transformação Produção e distribuição de eletricidade, gás e água 73 Saúde e Serviços sociais Educação Outros serviços coletivos, sociais e pessoais Transporte, armazenagem e comunicações Intermediação Financeira Administração pública, defesa e seguridade social TOTAL Fonte: Cadastro Central de Empresas. IBGE, Rio de Janeiro, A administração do shopping não forneceu os dados precisos, mas calculamos que lá trabalham diretamente cerca de pessoas, com um rendimento nominal mensal médio, em 2003, de um a dois salários mínimos. Uma grande universidade transferiu o campus do Rodo, onde tinha cerca de 565 alunos, para o shopping e hoje conta com mais de alunos. Segundo uma revista sobre shoppings centers: o pioneirismo dessa iniciativa de localização de campus universitário em shopping vem do Rio de Janeiro em função das questões de segurança, já que estudar em um ambiente afastado dos problemas urbanos é tranqüilizante até para os pais. 183 Para o empresário do setor de shoppings ter uma universidade no shopping significa atrair um público consumidor que pode chegar à casa dos 5 mil alunos/dia. Além disso, fortalece consideravelmente o mix de lojas. A universidade atrai outras atividades como papelarias e copiadoras, além de aumentar o consumo nas praças de alimentação. É um público bonito, que agrega valor ao shopping. Eles são tratados com muito conforto, segurança e se tornam pessoas de casa 184, avaliou o diretor Evandro Ferrer, da empresa 183 Revista Shopping Centers - Junho/2005. artigo: Uma aula de empreendimento: Universidades em shoppings agregam valor ao imóvel, beneficiam lojistas e trazem segurança e conforto para os alunos. 184 Idem, Revista Shopping Centers - Junho/2005.

158 158 Ancar. Na época da publicação dessa revista a Ancar administrava o Nova América, e conforme dito anteriormente, assumiu desde junho de 2007 a gestão do São Gonçalo shopping. 185 Para efeitos de comparação, no shopping Nova América os alunos compõem 15% do público do shopping, mas em São Gonçalo 95% dos alunos da Universidade moram no município, consumindo não apenas enquanto estudantes, mas como moradores da região, conforme avaliou Marcos Evangelho, superintendente do shopping até junho de 2007: a demanda daqui é muito grande. Há falta de universidade na região de São Gonçalo, Itaboraí e Rio Bonito. Você abre um nicho para aqueles que procuram resolver seus compromissos perto de casa. 185 Idem, ibidem.

159 A percepção das mudanças e a retomada da indústria naval A expectativa não foi somente em torno das possibilidades de desenvolvimento a partir do São Gonçalo shopping. A retomada da industria naval também significou a esperança de novos empregos para a orla gonçalense, mas não aconteceu, de fato, a atração de novos investimentos nesse setor. As tentativas de desenvolvimento da construção naval em São Gonçalo não foram tratadas com a devida atenção por parte do poder local, e portanto não atraíram investimentos do grande capital, que preferiu revitalizar os estaleiros de médio e grande porte que já existiam em Niterói. No trecho Niterói - Manilha da BR-101, os dois principais bairros com tradição em reparos e construção naval foram o Gradim e o bairro Madama. No primeiro, ainda é possível encontrar esqueletos de oficinas e o aspecto de declínio, mas no segundo bairro a degradação é ainda maior. Lá encontramos uma maior quantidade de grandes oficinas de reparos em ruínas e industrias de conservas também fechadas, também encontradas no Gradim. O Estaleiro Cruzeiro do Sul, convertido na Arena Radical dos jovens era usado para corridas ilegais de automóveis e continua à espera de revitalização. O uso clandestino foi interrompido pela Polícia Militar em agosto de 2006, e até o presente momento continua abandonado. Nas eleições de 2004, a atual administração prometeu o apoio aos estaleiros de São Gonçalo. A atual prefeita ainda mantém, no Gradim e na Madama, além de outros bairros, redutos eleitorais expressivos, mas após as eleições de 2004, apenas a mídia local comenta a construção naval na cidade como uma questão estratégica para o município. A posição estratégica às margens da Baía de Guanabara não é suficiente para a atração de novos empreendimentos no setor naval. Além de não haver necessidade de expansão desse setor, pois é nítido o esgotamento da demanda em Niterói, o calado 186 na região não é satisfatório. Tal problema, no entanto, não impede que se façam obras para aumentar o calado e incentivar o reparo e construção de embarcações de pequeno porte Profundidade necessária para o serviço de ancoragem e atracamento de embarcações. 187 Agradecimentos ao pessoal do AMRJ: Arsenal de marinha do Rio de Janeiro. Em especial ao engenheiro naval Jorge Luis da Silva que nos forneceu clippings com o atual estado das artes no setor naval fluminense.

160 160 A revitalização do antigo Estaleiro Cassinu 188 é um bom exemplo dessa possibilidade. Mesmo sem incentivos fiscais e sem apoio, essa empresa conseguiu aumentar a sua fatia de participação no setor naval e contribuir para a arrecadação municipal. Produtor de componentes para as embarcações, o estaleiro também faz reparos em apoio à indústria naval da cidade vizinha. A expansão da construção naval em Niterói não contribuiu para a redução do número de greves e manifestações de trabalhadores navais, comuns a partir de Provavelmente, se houver novamente o declínio da indústria naval em Niterói, como ocorreu na década de 1980, o estaleiro gonçalense sentirá mais fortemente os efeitos da crise. A construção naval em Niterói tem seu prazo de validade estabelecido pela capacidade de exploração e comercialização de matérias-primas extraídas na Bacia de Campos. Quando diminuir a produção, certamente reduzirá também a necessidade de transporte dos seus produtos, sobretudo, gás e petróleo. Com a descoberta de uma nova área de extração na bacia de Santos, São Paulo, denominada de Tupi, pode acontecer um impacto na construção naval por mais cinqüenta anos. Além do mais, os bairros gonçalenses estão mais próximos que Niterói da APA de Guapimirim. Vazamentos em estaleiros da orla de São Gonçalo seriam mais danosos que em Niterói, onde as praias são utilizadas com freqüência por moradores e turistas. Já constatamos em estudos da UFRJ sobre a poluição na Baía, que resíduos dos estaleiros de Niterói são transportados para a orla de São Gonçalo e estão se encaminhando para o fundo da Baía de Guanabara, em direção a APA de Guapimirim Estaleiro Cassinu Chipyard. Cruzeiro do Sul, 662. São Gonçalo - CEP: Tel. (21) Rio de Janeiro/RJ 189 Segundo dados do Anuário do Instituto de Geociências, UFRJ, as partes mais próximas a São Gonçalo apresentam qualidade das águas bastante crítica. As bacias hidrográficas correspondentes a esta zona se encontram bastante antropizadas, gerando uma quantidade moderada de material em suspensão. O estudo apresenta um mapa de Fatores Poluidores construído com dados referentes à quantidade e ao posicionamento das indústrias, e os percentuais de domicílios sem acesso à rede de água, de esgoto e sem coleta de lixo direto, cujos dados foram retirados do Censo Demográfico de A partir da distribuição pontual das indústrias estima sua densidade, através da definição do número de ocorrências em um raio de interesse. Na folha E (Niterói) observase um grande vazio de indústrias, se comparado com o verificado na primeira, exceto pelas áreas próximas a Niterói e São Gonçalo. Esta distribuição coincide, em grande parte, com a distribuição da população. A maior parte das indústrias localiza-se ao longo das rodovias BR-101 e RJ-104. Na porção nordeste a ocorrência de indústrias é a menor, principalmente por causa da APA de Guapimirim. Fonte: Anuário do Instituto de Geociências, UFRJ, Pág. 136 Volume

161 161 A tradição ao apoio desse setor naval em São Gonçalo se dá mais por ser residência dos metalúrgicos e operários navais dos estaleiros de Niterói do que pela história naval local. A revitalização do Estaleiro Cassinu aconteceu graças aos novos contratos para a modernização de embarcações. A empresa CBO, Companhia Brasileira de Offshore 190 está revitalizando o Estaleiro Cassinu para servir de apoio na construção e reparos navais. Na época da pesquisa de campo, a obra realizada no estaleiro iria gerar em média 200 empregos, afirmava um consultor da Sobena. 191 Em um desses contratos o estaleiro recebeu a quantia de R$ 13 milhões para modernização de três embarcações da Companhia Brasileira de Offshore. O contrato foi assinado em 2004 na sede da Secretaria Estadual de Energia, da Indústria Naval e do Petróleo com a presença do então Secretário Wagner Victer, do presidente da CBO, Luiz Maurício Portela e do diretor-presidente do Estaleiro Cassinu, Antônio de Santana. Este programa de revitalização do setor naval gonçalense, apoiado pelo governo estadual 192, serviu para demonstrar a possibilidade de revitalização do setor. O Estaleiro Cassinu hoje conta com uma área maior e com possibilidade de expansão e depende da demanda em novos reparos ou construções. Segundo o presidente do estaleiro, Sr. Antônio de Santana, foram construídos os rebocadores CBO Carmem, CBO Célia e CBO Clarisse, embarcações do tipo TS 3000 e SV 300, com 43 metros de comprimento cada um. O estaleiro elaborou projetos de modernização em geral nas embarcações, visando a substituição da propulsão e instalação de um novo propulsor lateral para cada embarcação. Esses três rebocadores foram construídos para operar na logística entre plataformas da Bacia de Campos, no transporte de material e equipamentos, e terão sua capacidade instalada ampliada. Quando este estaleiro, em São Gonçalo, entrou num processo de revitalização, a partir dessas três embarcações, acreditava-se que as chances de revitalização do setor seriam 190 Companhia Brasileira de Offshore - CBO, responsável pelo encomenda do CBO Guanabara, tem como principal acionista o grupo Fischer, presidido por Norberto Farina. 191 SOBENA. Sociedade Brasileira de Engenharia Naval Fonte:

162 162 aumentadas para atender à demanda das atividades de apoio offshore normalmente realizadas pelos estaleiros de Niterói. Mas, ao longo da pesquisa notamos que os mesmo problemas detectados na orla de Niterói e na Baía de Guanabara começaram a aparecer próximos ao recém inaugurado estaleiro: Técnicos da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (FEEMA) e da Prefeitura de São Gonçalo vistoriaram ontem a área da Baia de Guanabara, na altura do estaleiro Cassinu onde houve um vazamento de óleo no último domingo. Foi constatado que cerca de 2 mil litros do produto vazaram e uma pequena quantidade foi para o fundo. De acordo com a Prefeitura, as multas podem chegar a R$11 milhões. 193 Ao mesmo tempo em que o tão desejado progresso parecia retornar ao velho distrito industrial, aparecem os fantasmas da poluição e degradação da Baia de Guanabara. Mas, a CBO e o estaleiro Cassinu ampliaram seu contrato, segundo matérias publicas no Jornal O Globo: A Companhia Brasileira de Offshore CBO, está investindo US$ 75 milhões na construção e modernização de seis embarcações. A obra será feita no estaleiro Wilson Sons, em Santos, e no estaleiro Cassinu, em São Gonçalo. Deste total, US$ 30 milhões serão recursos próprios. Segundo o presidente da CBO, Luiz Maurício Portela, o projeto vai gerar cerca de 4 mil empregos diretos e indiretos. A obra vai permitir a revitalização do estaleiro Cassinu, que vai receber um investimento de US$ 23 milhões. Segundo o Secretário Estadual do Rio de Energia, Indústria Naval e Petróleo, Wagner Victer, o contrato com o Cassinu será assinado na próxima semana. - Esse, provavelmente, será o 18º estaleiro reaberto no estado desde afirmou Victer, lembrando que, até então, o Cassinu vinha se dedicando a pequenos reparos. 194 Na mesma época, o COB passou a utilizar também o Estaleiro Ebin, em Niterói. O Ebin construiu uma embarcação do tipo Plataform Suply Vessel - PSV 195 para ser utilizada no transporte de cargas e mantimentos para as plataformas de petróleo da bacia de Campos. 193 Fonte: O Fluminense, Caderno cidades. Feema vistoria vazamento. Acesso em 19/07/ RANGEL, Juliana Jornal. O Globo. Edição Online Matérias: CBO encomenda novas embarcações a Wilson Sons e Cassinu e CBO investe US$ 75 milhões na construção de novas embarcações. Rio de Janeiro, 20 de Maio de Este navio, de médio porte, tem toneladas e 76,70 metros de comprimento. Esta embarcação teve sua construção executada em poucos meses. Popularmente considerado como navio rebocador.

163 163 O caso mais recente em São Gonçalo refere-se à reabertura do Estaleiro Eisa, revitalizando as estruturas da Gradim Equipamentos. Dessa vez, a PMSG participa na assinatura do protocolo de intenções e poderá permitir a abertura inicial e de postos de trabalho, que segundo a imprensa local somam quinhentos num primeiro momento, podendo chegar a mil numa segunda fase. 196 A antiga área da Gradim Equipamentos é de aproximadamente de 46 mil metros quadrados e o local, no bairro do Gradim, ainda desativado, aguarda novos investimentos para a reforma. A previsão é de que seja inaugurado no fim deste ano para a construção de estruturas metálicas para atender ao segmento naval e indústrias em geral, além do COMPERJ. 197 Esperamos que a Petrobras passe a priorizar, também, o reparo de suas frotas em estaleiros de São Gonçalo. Mas, com o compromisso ambiental e responsabilidade social para impedir novos casos de vazamento e poluição da Guanabara. Acreditamos que o desenvolvimento econômico, experimentado no passado, seja acompanhado de políticas sociais na defesa do patrimônio e das identidades locais. Na medida em que os estaleiros gonçalenses recebem novas encomendas, os riscos para as colônias de pescadores do Gradim e da Boa Vista, também podem aumentar. Neste capítulo, analisamos algumas mudanças recentes no Município de São Gonçalo. Procuramos caracterizar essas mudanças através do estudo das possíveis causas e fatores da desindustrialização. Num segundo momento, procuramos conhecer como a população entrevistada está percebendo as mudanças. Usamos como agente motivador dos questionamentos, os períodos anteriores e posteriores aos empreendimentos: São Gonçalo shopping, os grandes supermercados e a industria naval local. A questão central levantada aqui foi saber se a revitalização econômica está contribuindo para superar o declínio econômico causado pela desindustrialização. A revitalização econômica foi estudada a partir do estudo das chamadas friches urbanas. Diferentemente das pesquisas anteriores, usamos novos conceitos para esse trabalho como o 196 Jornal O Fluminense. Caderno economia. Assinado acordo para reativar Estaleiro Eisa. Acesso em 31/08/ Idem, O Fluminense. 31/08/2007.

164 164 de vazio social. Adaptamos esse conceito para tentar explicar a relação entre as friches - ruínas e vazios industriais - com os locais sem investimentos e em decadência, aos quais denominamos vazios sociais. Apresentamos o atual estado das artes do crescimento dos empregos nos serviços, citando os casos do São Gonçalo shopping e a retomada da indústria naval gonçalense. Dentre as questões mais relevantes, destacamos o estudo dos novos empreendimentos a partir da investigação das empresas gestoras e multinacionais envolvidas no território municipal. O momento atual do município tem sido marcado pela expectativa, com ênfase nas promessas da atração de novos postos de trabalho no COMPERJ, na ampliação do shopping, na estação hidroviária e na ocupação da orla gonçalense com novos empreendimentos. Os empreendimentos estudados aqui, em sua maioria produtos da iniciativa privada, demonstram de certa forma o abandono do planejamento urbano local em detrimento do planejamento pontual do capital. Este tipo de planejamento age sobre o devir das comunidades mais desprovidas de poder de participação e pressão. Praticamente nenhuma política urbana foi elaborada pela administração local para prever possíveis divergências entre os novos empreendimentos e as comunidades próximas. Os empreendimentos, por sua vez, até o final da redação desse texto, não haviam criado políticas sociais voltadas para algum aspecto relevante nos bairros pobres onde atuam. No período estudado, entre 2005 e 2007, a política urbana continuou marcada pelas mesmas características das administrações anteriores. Um misto de indiferença 198 e factóides que alimentam a disputa na mídia escrita local. 199 A administração Panisset, que começou com o PFL e migrou recentemente para o PDT, após ser recusada pelo PT, pouco se diferencia das anteriores. Essa administração recebeu apoio do prefeito da cidade do Rio de Janeiro, mas não trouxe modernização e transparência à gestão atual. 198 A velha máxima da política clientelista local: deixa como está pra ver como é que fica. 199 Como tentamos demonstrar nos textos anteriores, sucessivas administrações do município vem usado os periódicos locais para defender ou atacar a política de desenvolvimento da cidade.

165 165 Encontramos a mesma centralização de decisões presente no governo Charles, mas com uma pequena diferença: a adoção de políticas supostamente participativas e sem as devidas discussões. Não observamos a instauração de novos conselhos municipais ou mais independência e deliberação para os atuais, a elaboração de propostas progressivas para ampliar a participação da sociedade civil não aconteceu e não notamos a mobilização popular. Em paralelo, detectamos a ausência de políticas urbanas efetivas e o início de um processo de enfraquecimento do poder local em detrimento do aumento do poder do capital econômico em certas decisões importantes para o município. A construção do viaduto na Boa Vista para facilitar o acesso ao shopping, além da colocação de uma entrada simbólica da cidade, são dois exemplos desse poder. Os moradores do bairro da Boa Vista, mesmo após a construção do shopping, ainda sofrem com a falta de água e de saneamento básico. Enfrentam essa deficiência de serviços urbanos básicos com a crença que novos empreendimentos possam gerar mais empregos e trazer revitalização para a região. A percepção das mudanças contribuiu para abrandar esta situação. Alguns moradores entrevistados têm nítida idéia de que a administração local é incapaz de gerar sozinha os processos necessários para o desenvolvimento da região. Alguns moradores parecem acreditar que a atuação dos capitais privados na cidade contribui para combater a pobreza. Mas, alguns moradores parecem desconhecer que parcela dos capitalistas da região promovem loteamentos clandestinos, ocupação e uso do solo urbano irregular que contribuiu para o declínio econômico da cidade. Quando os moradores da barreira foram surpreendidos com a construção do shopping, antiga frase de Marx ressonou aqui, como atual: uma massa de proletários livres foi lançada no mercado de trabalho pela dissolução dos séqüitos feudais. Mas, diferente da época feudal, quando essa massa se transformou no operariado urbano, os jovens da Boa Vista não tiveram a mesma sorte. O grande senhor feudal de Marx cria o proletário mediante expulsão violenta de sua base fundiária. Aqui, o grande senhor usurpa a terra e cumpre uma função social.

166 166 Observamos que existe uma contradição nas respostas dos moradores relacionada aos empreendimentos, tanto em Neves quanto na região da Boa Vista. Alguns moradores não fazem a distinção entre investimentos de capital local e do capital internacional. Não percebem que o shopping trouxe investimento, cultura e lazer, mas também ocupou uma enorme área da orla da Guanabara, atraindo a especulação imobiliária ilegal que está produzindo loteamentos clandestinos. No início de 2007, encontramos uma faixa anunciado lotes à venda no resto de manguezal entre a chamada torre da Rádio Manchete e o São Gonçalo shopping. Os moradores também não percebem que o lucro desse empreendimento é muito maior que os benefícios que traz para a comunidade. Além do mais, como expusemos anteriormente, não desenvolve, ainda, atividades ditas de responsabilidade social com a população mais pobre do município. O capital, na tradição marxista, promove e consolida a exclusão social. Promove também as estruturas que encobrem a segregação sócio-espacial e os problemas urbanos mais comuns. Quando comparamos o São Gonçalo shopping a uma ilha de fantasias, olhávamos o entorno, já que o empreendimento é cercado por morros, bairros sem infra-estrutura e áreas pobres com deficiência de planejamento e urbanismo e os loteamentos não possuem alguns serviços urbanos mais básicos. 200 Enquanto isso, no shopping, como dissemos, a empresa gestora inovou montando um departamento de arquitetura e ambiente para embelezar o mix de lojas e influenciar a percepção do cliente. 201 O problema externo não é visível, porque os acessos ao estacionamento do shopping foram plenamente urbanizados e o próprio shopping fica no alto, destacando-o na paisagem e também das construções do asfalto. 200 É comum encontrarmos, nos dias de chuva, vários sacos plásticos nas principais vias da Boa Vista e do Gradim. Quando perguntamos a procedência desse lixo, alguns moradores responderam que são usados para proteger os pés da lama no percurso da casa até o ponto de ônibus. Motivo de vergonha para os jovens entrevistados. Principalmente para aqueles que vão para o shopping. A Avenida Joaquim de Oliveira, por exemplo, fica facilmente alagada nos dias de chuva, no trecho próximo ao shopping até a localidade do Coroado, na Brasilândia. 201 Segundo o site da Ancar. A empresa inovou: quebrado um paradigma no mercado, enxergando a importância cada vez maior da ambientação, a Ancar criou na estrutura dos shoppings o departamento de Arquitetura e Ambiente, que tem como função estar focado em tudo ao que é relacionado à percepção do cliente, criando um ambiente valorizado, onde prevalece o capricho, o cuidado nos detalhes e o bem-estar do consumidor.

167 167 A relação entre as comunidades da orla da Guanabara e a administração municipal não é tão participativa e transparente como comentada no PDD, o Plano Diretor. Muito comum perguntarmos a população local o que é um plano diretor, e a maioria desconhece esse instrumento legal e a sua relevância social. O fato da existência de legislações bem elaboradas e complexas não representa a aplicação desses instrumentos, como exemplo, podemos citar a desordem dos loteamentos, invasões e a crescente favelização às margens da rodovia BR Uma primeira constatação nos locais denominados de vazios sociais refere-se à atuação diferenciada do poder público quando há interesses privados em jogo. O exemplo mais evidente é o grande número de críticas feitas pela população à falta de água, que segundo alguns moradores do Gradim, Porto da Pedra e da Boa Vista, aumentou em alguns pontos depois da construção do shopping, onde não há o mesmo problema. A falta de água e de alguns serviços públicos essenciais, em muitos casos, não está desligada de uma prática comum nas cidades brasileiras, que privilegiam o capital privado em detrimento da população. Não só a chuva provoca transtornos na região, mas a falta de calçamento provoca uma poeira de pó de barro nos dias de sol forte, freqüentemente citada nos depoimentos coletados. Em meio a este quadro, questionamos: qual é o peso do capital privado na orientação e na elaboração da política urbana local? Além do mais, essa interrogação sugere duas outras: o plano diretor é um instrumento pro forma, por formalidade? Seus atos legais são apenas ad solenitatem, ou seja, para solenidades ou se ajustam às reivindicações da população? Com isto, podemos afirmar que o plano em si é um instrumento importante, mas que vem perdendo algumas funções na medida em que permanece distante das comunidades. O fato não é a maior prioridade para determinado seguimento da sociedade, mas a constatação de pesos diferentes em decisões da gestão dos seus espaços comuns. Observam-se, sem dúvida, importantes avanços econômicos no eixo Niterói Manilha, mas não constatamos o mesmo avanço na solução de questões sociais antigas. As

168 168 organizações não-governamentais que atuam na região 202 não são suficientes para combater o nível de pobreza que existe nessa área. Além do mais, não têm peso político no processo de gestão local. Sem o conhecimento mais amplo da realidade e poder político, as associações de moradores e as comunidades de pescadores se sentem preteridas nas decisões políticas mais importes. A diminuição da pesca na orla gonçalense teve vários motivos, mas é inegável que a poluição e o assoreamento são, em último caso, os fatores preponderantes. Da década de 1950 até hoje, todos os quatorze portos, que existiam entre Neves e o porto do Rosa, desapareceram. Os últimos pontos de atracação são as pequenas marinas improvisadas por estaleiros e clubes como o Cruzeiro do Sul, e principalmente pelas colônias de pescadores. A título ilustrativo, devemos destacar a importância desses portos na história e na economia da região. Conforme afirma Braga (1998), São Gonçalo já possuía em 1860 mais de 30 engenhos e olaria para telhas e tijolos. Estes produtos eram embarcados nos portos da Ponte, Gradim, Boaçu, Porto Novo, Porto Velho, Ponta de São Gonçalo, Guaxindiba e da Vala em Neves. 203 A importância histórica não foi suficiente para evitar e completa extinção desses portos. Ligados à evolução industrial da cidade, foram explorados até o seu assoreamento completo. A ligação destes portos com o comércio e as principais indústrias da orla Oriental da Baía de Guanabara era forte e em função do assoreamento, apenas alguns deles permanecem na ativa. Comunidades próximas herdaram seus nomes, e hoje são bairros do município. Desde a época em que era chamada de sertão de Niterói, esses bairros da orla gonçalense foram tachados de muito insalubres para habitação Associação Guardiões do Mar e associações de pescadores por exemplo. 203 BRAGA, Maria Nelma Carvalho. O município de São Gonçalo e sua história. 2a. ed. Falcão, São Gonçalo, "A região por onde se estendeu o casario da cidade é aquela situada mais próxima ao mar, (Baía de Guanabara) onde se localizavam os portos de ancoradouro, que, pela ordem, a partir da localidade de Neves, assim se apresentavam: Porto do Lyra, Porto da Madama, Porto Velho, Porto Novo, Porto da Pedra, Porto da Ponte e Porto do Rosa; mas como esta zona não era muito salubre, as casas e prédios administrativos situavam-se na parte mais elevada, ao sopé dos morros por onde passava a Estrada de Ferro Leopoldina Railway e a Estrada de Ferro Maricá, que,vindo do interior, convergiam na Vila de Neves onde se situavam os armazéns para baldeação e os agentes dos produtores do interior." MONTEIRO, Hamilton de Mattos. Desestruturação e Reestruturação do Município de São Gonçalo O processo de Urbanização do Sertão de Niterói. Mimeo. 24p. Niterói: UFF

169 169 Atualmente, todos os bairros têm áreas edificadas e tornaram-se zonas de usos mistos, com serviços, industrias e comércios convivendo em meio à poluição e locais de embarque e desembarque de pescadores. Não há racionalidade administrativa na escolha de prioridades do município. Hoje, os recursos técnicos da Prefeitura estão incumbidos de atrair novos empreendimentos em torno do COMPERJ, como o caso do Estaleiro Eisa que poderá construir peças para a nova refinaria e para a companhia de petróleo da Venezuela. Essa racionalidade parece desconsiderar o passado industrial que gerou a poluição da Baía de Guanabara e que contribuiu para o inchaço da cidade. Com isso, o mesmo discurso do século XX retorna ao cenário das zonas periféricas e dos antigos distritos industriais gonçalense. Este discurso disseminava a crença que os objetivos sociais são alcançados na medida em que se prioriza o capital privado, esperando que ele possa entrar, se instalar e gerar novos postos de trabalho no município. Como diria Robert Castel: é o caso de mostrar que, em primeiro lugar, as populações que povoam essas zonas ocupam, por isso mesmo, uma posição homóloga na estrutura social. Em segundo lugar, que os processos que produzem essas situações são igualmente comparáveis, isto é, homólogas em sua dinâmica e diferentes em suas manifestações. 205 Para que o século XXI não presencie a repetição de alguns erros do século XX, tornase necessário o abandono desse tipo de planejamento urbano que se mostrou incapaz de combater a produção e reprodução da pobreza no município e não trouxe resultados desde a sua primeira edição em 1989, isto é, há dezoito anos, tempo demais para comprovar a sua ineficácia em alguns pontos. Não utilizamos a nomenclatura de planejamento estratégico para designar as estratégias de gestão da PMSG, porque consideramos que este não é o caso, ainda que em alguns momentos a orientação do plano é a atração de capitais vulgarmente chamados de flexíveis, como alguns capitais da construção naval e do setor de comércio e serviços 206. São Gonçalo, nesse sentido, está ligado diretamente ao circuito internacional de grandes capitais 205 CASTEL, Robert, As metamorfoses da questão social. Página 27. Ed. Vozes, RJ, Como por exemplo, os capitais que estão por trás dos estaleiros Eisa e Cassinu. Assim com os capitais que controlam ações do São Gonçalo shopping: grupo Ivanhoe Cambridge. Caisse de dépôt et placement du Québec através da Ancar. Nos grandes supermercados, Wall Mart e Carrefour. Além dos já citados Seves, Quaker Oats, PepsiCo, LaFarge, Akzo Nobel e B-braun em outros empreendimentos.

170 170 financeiros, que não têm a intenção de enfraquecer o planejamento local, mas são combativos quando seus interesses são interrompidos por ações ou políticas que restringem seus fluxos. Na medida em que administrações municipais, populistas ou progressistas, interfiram nos interesses de grandes capitais, podem surgem problemas como o esvaziamento ou o declínio de atividades econômicas. Quando as cidades como São Gonçalo participam da economia globalizada e flexível tornam-se mais frágeis, o controle passa a ser disputado pelo mercado. Essa disputa nos faz crer que a administração local tende a privilegiar planejamento pontual em detrimento do planejamento contínuo, que inclua também ações estratégicas de combate à concentração de pobreza nas localidades como Itaoca, Zumbi, Gebara, Palmeiras etc, onde o capital não demonstra interesse, apenas descaso. Mesmo em municípios com prefeitos progressistas como Itaboraí e Niterói, notamos o comprometimento com capitais especulativos. A Petrobrás trouxe muitos investimentos para Niterói e certamente aplicará milhões no COMPERJ em Itaboraí, mas a empresa faz parcerias com Halliburton, Kellog Brown & Root (KBR) e Maric SCCS, 207 grupos que representam nitidamente a economia flexível. Além disso, a relação entre investimentos estrangeiros e postos de trabalho é nitidamente desigual. Esses grupos, para obter um maior lucro, estabelecem de prioridades muitas vezes contrárias aos interesses dos municípios onde atuam. Os dados coletados pela UFRJ, citados nesse capítulo sobre o aumento da poluição na Guanabara, são argumentos fortes. O aumento da poluição e o desemprego foram algumas das conseqüências negativas deixadas pelo último surto de desenvolvimento da indústria naval na década de A escolha entre formas mais democráticas de gestão urbana que valorizam as comunidades ou formas que priorizam a economia flexível e extemporânea, deve ser expressa em documentos mais eficientes que os atuais Planos Diretores ou demais Leis municipais. 207 Para mais detalhes, consulte a discussão sobre a indústria naval em Niterói no primeiro capítulo.

171 171 CAPÍTULO 3: ANÁLISE DOS PLANOS DIRETORES E A PERCEPÇÃO DAS TRANSFORMAÇÕES URBANAS Do mesmo modo que os outros trabalhadores, por exemplo, o tecelão, ou o construtor de navios, devem ter à mão a matéria que convém à sua obra, e a obra é tanto mais bela quanto mais bem preparada for a matéria, também é preciso que um fundador de Estado e um legislador tenham já pronta e convenientemente elaborada a matéria que lhes é própria [...] Se uma cidade tiver poucos habitantes, pecará por penúria; se os tiver em excesso, poderá subsistir como nação, se contar com as coisas necessárias, mas já não será uma cidade. Com efeito, não se poderá estabelecer nela uma boa ordem. (ARISTÓTELES, 1978).

172 Delimitando as atuais legislações sobre o espaço urbano municipal Se o filósofo Aristóteles pudesse visitar, mesmo que hipoteticamente o município de São Gonçalo, certamente ficaria chocado e pronunciaria o texto acima. Perplexo, observaria que uma pequena vila de pescadores e fazendeiros foi transformada em município do porte de uma cidade-nação. Diria ele, quando o legislador não encontra mais a matéria que lhe é própria que é impossível estabelecer a ordem. O atual estado das artes e das legislações que tratam do espaço urbano municipal podem ser testemunhas silenciosas desta sombria hipótese. Iniciamos esta parte analisando alguns documentos legais elaborados pela PMSG os dois Planos Diretores produzidos após a Constituição Federal de Começamos com o Plano de 1989, publicado em 1991, e depois analisaremos o estudo atual do PDD de 2006, publicado em 2007 no site oficial da Prefeitura Municipal de São Gonçalo. 208 Os dois Planos Diretores de São Gonçalo são popularmente classificados como planos de governos. O primeiro tem as marcas dos sujeitos políticos locais representantes da aliança PT-PDT e o segundo, de espectro mais amplo, representa a aliança política entre o antigo PFL e os pequenos partidos de centro-direita. Em comum, os dois Planos Diretores foram elaborados por escritórios externos técnicos e contaram com o suporte da administração pública municipal. Essa prática pode demonstrar a centralização na escolha das principais diretrizes e uma espécie de descrédito nos recursos humanos da própria administração local. Muitos dos cerca de cinco mil funcionários, diretos e indiretos na época, poderiam ter sido melhor aproveitados nesse trabalho. Segundo 208 Pesquisa realizada em abril de 2007 na internet no site oficial da PMSG,

173 173 alguns entrevistados, foi uma prática que gera gastos públicos e que não atinge os objetivos para os quais foi concebida. Como em outros tantos municípios brasileiros, o Plano diretor de São Gonçalo foi terceirizado. Se, por um lado, compreende-se que a contratação de escritórios externos especializados no assunto, pudessem agilizar sua produção, por outro os Planos muitas vezes se afastaram da realidade local, tornando-se difíceis de implementar. A contratação do escritório Mayerhofer & Toledo, externo a administração local, resultou em um plano diretor com um enfoque tradicional. A firma especializada que realizou o primeiro PDD em 1991 desconsiderou a consulta popular. Na época a população necessitava de uma ouvidoria ou de um canal de atendimento para a s suas reivindicações. As principais reclamações que ouvíamos nas primeiras pesquisas realizadas em 1990 foram sobre transporte, asfalto, água, equipamentos urbanos e saúde, e são muito semelhantes às reclamações atuais. Hoje o município conta com cerca de sete conselhos, mas a participação popular e a representatividade são ineficientes e não têm efeito prático na resolução dos graves problemas urbanos. Em nove de dezembro de 1991 foi publicada Lei n.º 065/91, revogando a Lei 036 de 1979 e instituindo o Plano Diretor da Cidade de São Gonçalo. Este Plano Diretor de 1991 veio substituir o plano anterior, elaborado em 1978 pelo governo estadual e aprovado em A revisão deste plano deveria ser feita após a Constituição de 1988, mas atrasou quase 11 anos. O Plano de 1991, iniciado em 1989, teve como ponto de partida algumas informações e diretrizes da Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro 209 sobre o Município. 209 FUNDREM: Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Plano Diretor do Município de São Gonçalo: Relatório Consolidado. RJ, 1978.

174 174 A FUNDREM realizou em 1978 o estudo para implementar um Plano Diretor de São Gonçalo. Elaborou propostas de atuação em diversos setores: parcelamento da terra, uso do solo, zoneamento além de instrumentos relativos ao desenvolvimento do município. A Fundação pretendia elaborar um instrumento para o executivo do municipal, a partir do qual seria possível a viabilização de um sistema de planejamento e monitoração em vários municípios da Região Metropolitana. Tal plano, no entanto, não foi implementado e, ainda hoje, falta revisar o uso do solo e o zoneamento. Este último nos remete ao governo Lavoura, descrito na primeira parte deste trabalho. A demora na implementação dos Planos contribui por torná-los, de certa forma, obsoletos. Algumas informações, como os estudos sobre a realidade econômica municipal, analisadas nos dois últimos Planos Diretores (de 1991 e de 2006), por exemplo, já se encontram desatualizas, em função da dinâmica atual do município. De uma forma geral, os dados sobre a economia local carecem de constante atualização e podem resultar em propostas ineficazes. A elaboração do Plano Diretor em 1991 foi cercada de críticas por não ter sido observado o princípio da ampla participação nas principais etapas de Plano. Esse primeiro Plano Diretor, diferentemente do segundo PDD, não foi concebido na lógica dos planos participativos, mas foi realizado em reuniões abertas em locais previamente definidos. Os locais utilizados para a confecção deste PDD corroboram as críticas a ausência de participação efetiva. A escolha da sede da Prefeitura em São Gonçalo e de escritórios de arquitetura e planejamento na Cidade do Rio de Janeiro não condizem com o discurso participativo atual. Na literatura política, essa é a geografia da verdade, na qual o planejamento é produzido com o uso da técnica e que:

175 175 A verdade, como o relâmpago, não nos espera onde temos a paciência de emboscá-la e a habilidade de surpreendê-la, mas que tem instantes propícios, lugares privilegiados, não só para sair da sombra como para realmente se produzir. Se existe uma geografia da verdade, esta é a dos espaços onde reside, e não simplesmente a dos lugares onde nos colocamos para melhor observá-la. Sua cronologia a é a das conjunções que lhe permitem se produzir como um acontecimento, e não a dos momentos que devem ser aproveitados para percebê-la, como por entre duas nuvens. Poderíamos encontrar na nossa história toda uma tecnologia desta verdade: levantamento de suas localizações, calendário de suas ocasiões, saber dos rituais no meio dos quais se produz. Extratos do texto, La maison des fous. (FOUCAULT, 1993, p. 65). Na elaboração do segundo Plano Diretor, em 2006, essa tecnologia tornou-se, ainda mais sombria, na medida em que o discurso participativo impôs que algumas reuniões fossem realizadas hors la maison e com a participação de algumas lideranças locais. Essa participação social que deveria ser a conditio sine qua non 210 do planejamento. De acordo com a imprensa local, foi feita por luminares que se reuniram na Câmara dos Vereadores 211. Segundo a imprensa local, no auditório da nova Prefeitura, no Mutondo, foi realizada uma reunião de atualização do PD destinada aos secretários municipais 212 ou ainda, na última sextafeira, os subsecretários se reuniram com ambientalistas, representantes da sociedade civil e arquitetos na Câmara Municipal. 213 Foram várias reuniões nas dependências da Casa Legislativa 214 e algumas realizadas em locais privilegiados onde já reside uma verdade. Esse ritual teve um calendário específico, quase sempre as sextas-feiras ou aos sábados em locais como associações e órgão públicos para legitimar a consulta pública. 210 Conditio sine qua non: condição sem a qual não; requisito essencial ou condição necessária. 211 Jornal Nosso Jornal. Caderno Política. Edição on line 2269 Internet São Gonçalo, 24, 25 e 26 de junho de Nosso Jornal de Notícias. Edição São Gonçalo, 05 de outubro de Nosso Jornal de Notícias. Edição Gonçalo, 29, 30, 31 de julho de Nosso Jornal de Notícias. Edição on line São Gonçalo, 09, 10 e 11 de dezembro de 2006.

176 176 Em razão desse tranqüilo processo de elaboração do segundo PDD observamos a continuidade do antigo Plano Diretor ao invés do avanço na discussão das questões sociais do município. Com a análise dos dois últimos Planos ficou evidenciado que a forma de participação da sociedade poderia ser diferente, especialmente no que se refere à elaboração de propostas de participação e controle efetivo no planejamento urbano. No primeiro Plano Diretor do município o desenvolvimento econômico foi pensado a partir de alternativas como a implantação de um pólo de desenvolvimento industrial em Guaxindiba, alternativa que visava a gradual substituição das indústrias do distrito de Neves para o novo sub-centro de desenvolvimento de Guaxindiba, (PDD, 1991, p. 6 e 7). O Plano já mencionava, a possibilidade da criação de um Pólo distribuidor de combustíveis (idem, p. 14), que atrairia empresas ligadas a petroquímica para um novo pólo industrial. Essa possibilidade foi pensada em função da ligação do prefeito Ezequiel Neves com a Petrobras. A PMSG pretendia mudar a configuração e a economia da cidade, atraindo novos investimentos, (Idem p. 14), mas não considerou a existência de ruínas e vazios industriais em Neves nem a expansão, quase espontânea, do setor terciário na orla da Baía de Guanabara. Nessa ocasião, a necessidade de diagnósticos precisos foi substituída pelo imperativo do desenvolvimento per se. Não havia estudos sobre a situação econômica das principais empresas como a Gerdau, por exemplo, que estava preparando a transferência da unidade Neves para a Santa Cruz, no município do Rio de janeiro. O texto do primeiro Plano Diretor citava que a existência de terrenos vagos em áreas bem estruturadas denuncia uma forma de investimento perverso onde desaparece a função social da propriedade, mas não indicava terrenos nem quais iniciativas poderiam resolver ou remediar tais situações.

177 177 O segundo plano já cita esta área consolidada como preferencial para a ocupação urbana e para os investimentos em infra-estrutura, devendo ser adensada inclusive com a ocupação dos vazios urbanos existentes, de forma a viabilizar os investimentos (PDD, 2006, p. 142). A necessidade de investimentos em infra-estrutura e aproveitamento dos vazios existentes é óbvia, mas deveria ser privilegiada há uma década. Propostas concretas, como a oferta de incentivos e apoio a relocalização industrial, não foram efetivadas, apesar de o segundo Plano propor algumas alternativas. Mas a simples repetição de artigos da Lei 1981 pode ser um forte indício de que o zoneamento Industrial em São Gonçalo continua sendo fac simile da proposta inicial da FUNDREM. 215 O atual PPD menciona o zoneamento urbano da Região Metropolitano do Rio de Janeiro da década de 1980, principalmente o 1º artigo desta Lei, ao comentar a alternativa para a localização de atividades industriais definidas no segundo parágrafo como: zonas de uso predominantemente industrial (ZUPI) - destinadas, preferencialmente, à instalação de indústrias cujos processos, submetidos a métodos adequados de controle e tratamento de efluentes, não causem incômodos sensíveis às demais atividades urbanas e nem perturbem o repouso noturno das populações. (PDD, 2006, p. 132). Do ponto de vista legal, tanto o primeiro quanto o segundo plano diretor parecem não levar em consideração as principais mudanças que estão ocorrendo no município. Ao repetir a antiga proposta de zonas destinadas à instalação de indústrias torna a Lei desatualizada e provoca uma confusão entre a realidade local e as diretrizes propostas no Plano. Mesmo considerando que o setor terciário local está em desenvolvimento, o atual Plano aponta para o adensamento das antigas áreas litorâneas próximas ao distrito de Neves e continua apostando na fórmula clássica 215 Artigos 1º a 3º da Lei Estadual nº 466, de 21 de outubro de 1981 Dispõe sobre o Zoneamento Industrial na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

178 178 do desenvolvimento industrial através da complementaridade ao COMPERJ ou do Distrito de Guaxindiba. A simples mudança no discurso, não representa uma mudança de atitudes. Enquanto nossas observações apontam para a retomada do antigo processo de ocupação do Gradim pelo Estaleiro Cassinu e talvez até com a reabertura dos Estaleiros Eisa e Cruzeiro do Sul, o texto da nova Lei proclama o contrário: A manutenção do atual modelo de desenvolvimento urbano baseada no espraiamento ou sprawling tem-se mostrado inadequada ao município uma vez que: não cria no cidadão o vínculo com o espaço físico, ou seja, o orgulho de ser e de morar em São Gonçalo; promove a degradação ambiental do município; apresenta altos custos para a implantação de infra-estrutura. (PDD, 2006, p. 47). A opção pela fórmula tradicional foi escolhida, provavelmente, para facilitar a entrada do capital de ocasião, ou seja, aquele capital ligado ao boom do petróleo da bacia de Campos. Este capital em geral, entretanto, não está comprometido com o desenvolvimento durável e socialmente responsável que beneficiaria o município. Os dois Planos analisados também não indicam métodos para atingir o desenvolvimento durável e responsável. Várias questões urbanas são tratadas, mas suas soluções representam uma certa continuidade do projeto desenvolvimentista do primeiro plano. O segundo Plano cita, por exemplo, as propostas de desenvolvimento econômico com a implantação de novos sub-centros de desenvolvimento apresentados no primeiro PDD e que igualmente não foram implementados. Assim como o antigo discurso da implantação do pólo industrial de Guaxindiba.

179 179 O Título IV dispõe sobre as Propostas de Desenvolvimento Econômico, incluindo entre elas a implantação de novos subcentros de desenvolvimento em Porto Velho, Boa Vista e Guaxindiba, assim como o fortalecimento dos subcentros do Rio do Ouro e Largo da Idéia para servir de apoio a área rural. Igualmente considera prioritária a implantação do Terminal Pesqueiro no Porto Velho e o incremento das atividades de pesca, reparação e construção naval e embocadura dos rios Brandoa e Marimbondo, bem como, a implantação do pólo industrial de Guaxindiba.(PDD, 2006, p. 144). As diretrizes relativas ao desenvolvimento econômico enfatizam, quase sempre, o papel da indústria no Município como ator principal do desenvolvimento. Como já apontamos em capítulos anteriores, o município não promove a articulação entre esses atores econômicos e a sociedade. Todos os sub-centros apontados acima, primeiramente citados em 1991 e repetidos em 2006 não foram implementados e a distância entre a comunidade e o poder local parece se expandir. Além do mais, durante nossas pesquisas não encontramos ações com o intuito de unir empresas e poder local em prol das comunidades que envolvem algumas dessas empresas. Em função da expansão das favelas na região, grandes empresas como a Electro-vidro e a Comercial Gerdau, antiga indústria, têm investido mais na segurança de suas propriedades do que em ações voltadas para a comunidade. Fora isso, a pequena e microempresa do município não recebem incentivos para a inovação e participação em ações que possam contribuir para reduzir danos como o desemprego e a miséria. Observamos nos trabalhos de campo que alguns dos bairros acima citados como subcentros: Porto Velho, Boa Vista, Guaxindiba, Rio do Ouro e Largo da Idéia continuam tão pobres quanto antes. A instalação do São Gonçalo Shopping não representou a geração de empregos ou

180 180 de renda para a população da Boa Vista, bairro em que se encontra e sim a crença no aumento da violência na região 216, segundo alguns jovens entrevistados. Se o fortalecimento do setor de serviços merece destaque na economia do Bairro da Boa Vista, igualmente merece destaque a precariedade no abastecimento de água, saneamento básico e demais serviços públicos. Enfatiza-se no segundo PDD alterações urbanísticas no bairro para facilitar a implantação de estabelecimentos comerciais de porte, com acesso direto pela Rodovia Niterói Manilha, mas a referida Lei de 1999 não cita os meios necessários para a manutenção das empresas no local ou incentivos para a atração de novos estabelecimentos do setor de serviços. (PDD, 2006, p. 147). 217 As diretrizes relativas ao desenvolvimento econômico da orla gonçalense não resultaram no desenvolvimento de atividades relacionadas à pesca e aproveitamento da orla oriental da Guanabara, ainda pouco explorada. O primeiro Plano Diretor citava a construção de um terminal hidroviário e de pesca no bairro do Porto da Madama, (PDD, 1991, Art. 45º). Já o segundo PDD apenas reforça essa idéia citando o ofício nº 055/SEMPLAN/91, de 29 de Julho de 1991, onde é delimitada a área próxima as ruas Manuel Duarte, Alberto Torres e pelo rio Brandoa como prioritária para a implantação dos Terminais Hidroviários e Pesqueiros. (PDD, 2006, p. 134). As matérias relacionadas à pesca e ao meio ambiente devem ser criticadas, pois na elaboração dos Planos Diretores os anseios das comunidades de pescadores não foram 216 Um jovem entrevistado relatou que vários carros foram roubados no dia da inauguração do shopping. A partir dessa data o Bairro da Boa Vista começou a conviver com outras modalidades da violência. O bairro, desde a década de 1970 aparece entre os mais pobres do município. É comum lembrarmos dele quando a mídia nacional apresenta a origem de bandidos como o jovem Sandro Nascimento. Este jovem ficou conhecido internacionalmente pelo seqüestro do ônibus 174 no Rio de Janeiro em junho de Lei nº 25/99 (publicada em 23/06/99) autoriza o Poder Executivo a promover alterações urbanísticas do parcelamento do solo urbano no Bairro Boa Vista, 4º Distrito do Município de São Gonçalo.

181 181 contemplados. Segundo algumas entrevistas, os pescadores solicitam a construção de terminais pesqueiros próximos às colônias e não às fábricas. Também são contrários a instalação de terminais hidroviários, como a estação das barcas, em locais de fluxo de pequenas embarcações. Outro aspecto importante relativo ao meio ambiente diz respeito aos possíveis impactos que a implantação dos terminais hidroviários ou pesqueiros pode trazer para a região, notadamente degradada por décadas de descaso. A ocupação litorânea de se deu de forma livre e com a ocupação desordenada das margens da rodovia BR 101. Conforme as imagens de satélite podem mostrar, pouquíssimas áreas remanescentes de mangue resistem além da Ilha de Itaóca, Boa Vista e da APA Guapimirim. Com a notícia da instalação do COMPERJ em Itaboraí, a orla de São Gonçalo desponta com um importante vetor de expansão urbana do Município. Esta segunda expansão contradiz qualquer proposta de zoneamento contida nos dois Planos Diretores, e principalmente com a realidade local. O litoral que deveria ser conservado para atividades estratégicas para o desenvolvimento econômico, a cada ano recebe mais habitações e até loteamentos irregulares. Algumas discussões apresentadas neste trabalho se referem apenas aos aspectos técnicos dos Planos Diretores analisados, mas devemos ressaltar que as diferenças entre o primeiro e o segundo PDD são muito visíveis. Enquanto o primeiro avança em proposições e perde em participação, o segundo plano avança no diagnóstico, mas reitera a crença de que é necessário desenvolver a cidade através das antigas fórmulas econômicas. O primeiro Plano Diretor não tratava da participação efetiva da sociedade civil, mas contraditoriamente apresentou propostas de cunho popular como, por exemplo, no segundo

182 182 parágrafo do Art. 2 que destina a área periférica do litoral à recreação e o desenvolvimento de pequenas localidades já existentes. O segundo plano se intitula participativo e privilegia o desenvolvimento industrial como a instalação do Complexo Petroquímico Rio de Janeiro alheio ao impacto que empreendimentos desse porte podem trazer para as comunidades litorâneas de Neves até a divisa com Itaboraí. Devemos ressaltar, entretanto, que o processo de revisão do primeiro Plano Diretor não pretendeu ter o alcance de um novo plano para o Município, mas pretendeu, ao nosso ver, adequar a Lei de 1991 às diretrizes estabelecidas na política urbana nacional. Daí o emprego da denominação participativo, copiosamente em voga na final da década de 1990, para definir a atual revisão.

183 Planos Diretores: transformações planejadas e não planejadas Mais uma vez representantes de organizações não-governamentais, líderes comunitários, membros da sociedade civil organizada, do Crea/RJ, IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), da AGEIA (Associação Gonçalense de Engenharia e Arquitetura), de vereadores e funcionários da Secretaria de Infra-estrutura, Meio Ambiente e Urbanismo, além do subsecretário de Urbanismo e coordenador do Plano Diretor Marcelo Fanteza e do Secretário de Saúde Einars Sturms, se reuniram na manhã de ontem, na Câmara dos Vereadores, para discutir assuntos relativos ao Plano Diretor do município. Em pauta, a apresentação de um esboço dos estudos da região dos bairros Boa Vista e Praia das Pedrinhas, de acordo com projeto solicitado de requalificação urbana da área, proposto na última audiência pública do Plano Diretor, realizada no mês passado. 218 O texto acima, retirado de um jornal local, refere-se ao segundo Plano Diretor de São Gonçalo. Ao analisar o relatório final do PDD, elaborado após essas reuniões, observamos que a cantilena se repete. Transformações planejadas são substituídas por não planejadas e assim o planejamento urbano segue a sua segunda edição sem atingir as metas básicas para o município. O texto acima é uma demonstração clássica da distância entre o que é desejado e pactuado nas reuniões e texto final da Lei. Tanto o segundo PDD quanto a Lei orgânica municipal não definem precisamente com executar a requalificação urbana das áreas acima citadas. A Lei orgânica municipal cita que as praias, manguezais e a zona costeira são áreas de relevante interesse ecológico e de preservação permanente. 219 O Plano Diretor que deveria ser um instrumento básico da política de desenvolvimento e propor novas formas de e expansão urbana não traz novas soluções para o município. Já existem na orla algumas atividades de turismo ecológico no funda da Baía de Guanabara explorando o potencial da APA de Guapimirim e das ilhas do município. 218 Jornal Nosso Jornal. Caderno Política. - Edição on line São Gonçalo, 24 a 26 de junho de Artigos 202 e 203 da Lei Orgânica do Município de São Gonçalo editada em de 04 de abril de 1990.

184 184 Tanto o PDD quanto a Lei Orgânica são legislações rígidas que impõem um tipo de preservação contrária aos hábitos dos moradores locais. Por não englobar os anseios e práticas de diferentes comunidades espalhadas pelo território do município, as leis não promovem novas ligações viárias ou marítimas nas áreas urbanas consolidadas. Onde poderiam ser elaborados, por exemplo, conexões hidroviárias entre a orla gonçalense e as Ilhas de Paquetá e do Governador além de alguns outros pontos em Niterói e no município do Rio de Janeiro. No PDD de 1991 está previsto apenas a ligação entre São Gonçalo e a estação das barcas na Praça XV no centro da cidade do Rio de Janeiro 220, conforme citações anteriores. Os serviços de transporte estão apoiados, sobretudo, num sistema exclusivamente rodoviário atualmente com mais de cem linhas regulares de ônibus além de linhas vans alternativas, (regulares e irregulares). A passagem do leito do ramal da RFFSA na estrutura urbana de São Gonçalo não é utilizada servindo apenas como obstáculo ao sistema viário principal. O ramal completamente sucateado é atravessado por corredores viário de tráfego pesado, quase sempre congestionados, que misturam caminhões, carretas, ônibus, vans e carros de passeio. A proposta da linha três do metrô, contida nos Planos Diretores, vem corroborar a tese de que as transformações planejadas são quase sempre suplantadas pelas intervenções não planejadas no território municipal. O exemplo da linha férrea existente é clássico para compreendermos que a ausência de vontade política só é menor que a carência de recursos, um montante inicial de cerca de R$ 750 milhões para a implantação da terceira linha de metrô: 220 O cidadão que deseja ir de São Gonçalo à Ilha do Governador, no Rio de Janeiro tem duas alternativas. A primeira seria um ônibus de São Gonçalo até Niterói, depois uma barca até o Centro do Rio de Janeiro e por último uma barca para a Ilha do Governador, levaria em média duas horas. Também poderia utilizar um ônibus de São Gonçalo até o Centro do Rio ou para a Avenida Brasil e depois pagar uma outra condução até a Ilha do Governador. Nesse caso levaria cerca de uma hora e meia ao passo que se existisse uma ligação hidroviária gastaria menos de vinte minutos. Se o caso fosse a Ilha de Paquetá, a distância seria menor ainda.

185 185 Ontem, representantes da empresa francesa Veolia, maior operadora de transportes do mundo, visitaram o ramal com o secretário. Um novo projeto, ligando o centro de Niterói a Alcântara, em São Gonçalo, pode sair do papel, mas falta a verba de R$ 750 milhões. O objetivo do secretário é a implantação do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), que usaria 28 antigos carros da Linha 2 do Metrô (São Cristóvão a Pavuna, no Rio) na primeira fase da Linha 3. Os carros ficariam agrupados em 14 composições com capacidade para 636 passageiros cada. Hoje, o secretário participa de reunião com representantes da Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Secretaria estadual de Habitação para tentar viabilizar a verba [...] O coordenador de operações da América Latina da Viole, Jean-Louis Soulas, demonstrou interesse na linha, mas não prometeu nenhuma obra. Essa pode ser a nossa primeira operação no Brasil, mas não há nada definido. É apenas uma visita, resumiu o francês. A primeira fase da obra, com a verba de R$ 750 milhões, alcança 17 quilômetros (centro de Niterói a Alcântara). Ao todo seriam 12 estações, sendo três em Niterói e nove em São Gonçalo: Araribóia, Jansen de Mello, Barreto, Neves, Vila Lage, Paraíso, Parada 40, Zé Garoto, Mauá, Antonina, Trindade e Alcântara 221 A expectativa do Secretário Estadual de Transportes, Júlio Lopes é que a captação desta verba seja feita até o final desse ano e o início das licitações em O projeto, que está em estudo desde 1979 poderá sofrer mais modificações em relação ao traçado original para beneficiar 40 mil moradores. Atualmente, segundo diagnóstico oficial do Plano Diretor, o sistema ferroviário que corta o município é ocioso, e são realizadas apenas 02 viagens diárias para manter as áreas do entorno da linha férrea desocupadas. Não se verificam cancelas para garantir a segurança durante a travessia de pedestres e veículos sobre os trilhos, o que torna os cruzamentos perigosos (PDD, 2006, p. 69). Em pesquisa de campo. Constatamos que cerca de 200 pessoas utilizam o trem que funciona em condições precárias. Ele trafega uma vez pela manhã e outra no fim da tarde. Mais de 10 mil famílias deveriam ser removidas da região, pois as suas casas estão localizadas às margens da linha do trem. 221 Jornal O São Gonçalo. Caderno: Política/Geral. Matéria: Metrô continua emperrado. Secretaria de Transportes busca verba de R$ 750 milhões para a linha Niterói-SG. Página 3. Sexta-feira, 11 de maio de 2007.

186 186 Por outro lado, segundo dados do IBGE 222, milhares de pessoas circulam de ônibus entre Niterói e São Gonçalo. a falta de integração entre as modalidades de transportes acarreta num gasto diário muito maior para estas pessoas, que se beneficiariam com tarifas de transportes integrados. Segundo o secretário estadual de transportes, a tarifa VLT pode ser menor que R$ 2, próximo ao valor cobrado atualmente pelos coletivos no mesmo percurso. A segunda fase do projeto, que abrangeria os outros dezessete quilômetros do ramal ferroviário, seguiria de Jardim Catarina, passando por Laranjal, Guaxindiba, Itambi, Amaral, até chegar a Visconde de Itaboraí, em Itaboraí. 223 Se por um lado o secretário estadual diz que o ramal de Guaxindiba ainda tem condições de ser reativado, o leito da Estrada de Ferro Maricá, totalmente desativada, praticamente desapareceu e se encontra ocupado em vários pontos por atividades irregulares. Como havíamos dito, em Neves, por exemplo, uma gare foi ocupada pela 73ª Delegacia de Polícia. No bairro Paraíso, uma oficina foi ocupada pelo prédio da Associação dos Ex- Combatentes e no bairro de Santa Catarina a oficina de reparos foi convertida em igreja evangélica e parte ocupada por invasores. Algumas observações feitas pelos técnicos da FUNDREM em 1978 durante a elaboração do estudo do Plano Diretor continuam válidas ainda hoje, e vem se agravado com a ocupação irregular de toda a área que margeia a linha férrea do município. Na época o estudo da Fundação afirma que: 222 O comércio e as empresas de Niterói e do Rio de Janeiro continuam, segundo o IBGE provocando os maiores deslocamentos diários para fora do município de São Gonçalo. Os dados do último censo apontavam cerca pessoas ao dia. Fonte: IBGE. Estudos e Pesquisas Estruturais e Especiais. Censo Demográfico de Idem, Jornal O São Gonçalo. 11 de maio de 2007.

187 187 Constata-se a não existência de um transporte de massa, mas apenas de um frágil sistema de transporte rodoviário incapaz de satisfazer a função fundamental que lhe cabe e criando problemas para a população que com ele convive. (PDD, 1991, p. 120). Desde o estudo básico do primeiro Plano Diretor ao diagnóstico 224 mais preciso do segundo Plano realizado em 2006, constatamos que o município de São Gonçalo vem sendo, quase sempre, tratado como subúrbio periférico de Niterói. Situa-se entre o passado rural e o declínio industrial e, graças a conurbação que apresenta com Niterói, continua sendo estigmatizado. São Gonçalo ainda demonstra um significativo crescimento que confirma seu perfil de cidade dormitório, celeiro de mão-de-obra para Niterói, (PDD, 2006, p. 24). Os estudos, analisados até o presente momento, não oferecem alternativas ao modelo perverso de parcelamento do solo no município. Este vem aumentando visivelmente desde o final da década de 1950 e modificando a configuração urbana numa amplitude quase irreversível. Paralelamente à falta de alternativas de desenvolvimento como o turismo e a agricultura, com o declínio da atividade industrial na década de 1960 o município, através de uma Lei do legislativo comete um grave equívoco ao considerar 100% do seu território como urbano: Por se tratar de um município de perímetro urbano, a área ocupada corresponde a um total de quase 70% de sua área total. Apesar de a área rural ter sido extinta em 1962, ao transformar o município em área urbana, a atividade rural praticamente não acontece ou se dá de forma irrelevante na caracterização do município. No geral, o bairro de Ipiíba é hoje o que mantém esse aspecto rural mais acentuado. Em se tratando do município, representa 8% da área total. No entanto, essa ocupação menos adensada da área rural vem proporcionando uma crescente atividade de loteamentos clandestinos que não são acompanhadas por diretrizes de urbanização nem de legislação. (PDD, 2006, p. 42). 224 O estudo básico do primeiro PDD foi elaborado pelo escritório de arquitetura, planejamento e consultoria Mayerhofer & Toledo. O diagnóstico do segundo Plano Diretor foi elaborado pelo escritório Technum Consultoria SS, coordenado pela arquiteta e urbanista Mônica Von Glehn Herkenhoff de Brasília.

188 188 Esta nova legislação desencadeou uma ocupação mista, residencial-industrialcomercial, pois não havia, na época, um plano ou instrumento de zoneamento mais minucioso. Em 1978 a diretoria de planejamento da FUNDREM concluiu o estudo para implementar um Plano Diretor em São Gonçalo visando um zoneamento mais rigoroso para o município 225. Nele estavam contidas propostas de atuação setorial, projetos de Lei para um novo parcelamento da terra, uso do solo, zoneamento e instrumentos relativos ao próprio Plano Diretor. Pretendia-se obter um instrumento para o executivo do municipal, a partir do qual seria possível a viabilização de um sistema de planejamento e monitoração. Tal plano, no entanto, não foi implementado. Como não existiam as chamadas zonas industriais institucionalizadas, a FUNDREM então, localizou e delimitou três zonas de uso predominantemente industrial, ZUPIs, onde indústrias já estavam implantadas desde a década de Uma ZUPI costeira, situada no litoral do município que corresponde à parte do atual distrito de Neves; a ZUPI Tribobó/Alcântara, no entroncamento viário entre a RJ-104 e a RJ-106; e a ZUPI Guaxindiba, às margens da rodovia federal BR-101. O que deveria ser o distrito industrial de Guaxindiba, localizado na ZUPI de mesmo nome e ocupando uma área de m 2, não se concretizou. Atualmente, como demonstramos na primeira parte deste trabalho, a principal indústria continua sendo a cimenteira desde o final da década de 1920 com a produção de artefatos de cimento. Atualmente a área é ocupada pela empresa francesa La Farge. O distrito deveria funcionar sob forma de condomínio com cerca de 18 lotes com área média de m 2 cada. Este parcelamento permitiria uma maior agilidade em seu 225 FUNDREM: Plano Diretor do Município de São Gonçalo: Relatório Consolidado, RJ, 1978.

189 189 gerenciamento e principalmente a implantação de infra-estrutura e serviços modernos com o emprego de alta tecnologia para sediar empresas do COMPERJ. Desde 1981 a Lei n.º 466 de 21 de outubro autoriza o Estado a dispor sobre o zoneamento industrial das suas regiões metropolitanas, cabendo, então, aos municípios, a elaboração de seus Programas de Ocupação de Zonas Industriais (POZI). Neste período São Gonçalo passava por graves turbulências administrativas envolvendo corrupção, mas em 1982 um Decreto municipal n.º 04 de 26/01 regulamentou o uso do solo, utilizando as seguintes categorias já definidas pela Lei n.º 36 de 1979: - Área Comprometida com Ocupação Urbana, - ACO, dividida em Zona de Uso Diversificado - ZUD, tipo I e II e Zona Residencial (I, II e III); - Área de Ocupação Progressiva - AOP; - Área de Ocupação Progressiva II - AOP II; - Zonas de Uso Predominantemente Industrial ZUP; - Área de Preservação e Proteção APP. O zoneamento atual, contido no PDD de 2006 foi definido pelo Plano de Organização Territorial, regido pela Lei n. 13/98 publicada em 10/06/98. Este plano estabelece as normas de organização do território do município, disciplina a situação fundiária da terra, o sistema viário, o uso e a intensidade do uso do solo, e indica as áreas propícias à localização dos equipamentos urbanísticos de uso público. Pela atual desorganização territorial, podemos deduzir que estes Planos de ordenação não tem grande eficácia em São Gonçalo.

190 190 Abaixo descrevemos alguns dos principais artigos do Plano de Organização Territorial de 1988 reproduzidos no PDD de Lei nº 13/98 (publicada em 10/06/98) - Altera dispositivos que menciona da Lei nº 164, de 05 de janeiro de Revoga a Lei 45/95 e o art. 3º da Lei 164/88 e os Decretos 17/88; 41/89; 04/82 e 036/91. Modificações ao Plano de Organização Territorial do Município de São Gonçalo. A Lei nº 13/98 assim dispõe sobre o zoneamento do Município: Art. 1º - O Artigo 3º, da Lei Municipal nº 164, de 05 de janeiro de 1988, que institui o Plano de Organização Territorial do Município de São Gonçalo, passa a vigorar com as modificações e acréscimos que seguem no Art. 3º; Z1 Zona de Uso estritamente Residencial. 226 Z2 Zona Mista. 227 Z3 Zona Mista Intensiva. 228 Z4 Zona Predominantemente Industrial. 229 Z5 Zona de Uso Predominantemente Rural. 230 Z6 Zona de Recreio. 231 Z7 Zona de Preservação. 232 (PDD, 2006, p. 154). A organização das áreas predominantemente industriais descrita na Lei permite todos os usos residenciais junto aos usos comerciais, de serviço, além de todos os usos industriais permitidos no Zoneamento Industrial Metropolitano. Tal fato permitiu que ao lado das grandes indústrias de Neves, Guaxindiba e Arsenal fossem construídos grandes loteamentos, 226 Onde só serão permitidas construções unifamiliares e multifamiliares e equipamentos de serviço e comércio de vizinhança. A taxa de ocupação de terreno máxima permitida deverá de 60% (sessenta por cento). 227 São permitidos todos os usos residenciais, todos os usos de comércio, equipamentos, serviços, manufaturas e indústrias leves. A taxa de ocupação de terreno máxima permitida deverá ser de 65% (sessenta e cinco por cento). 228 Admitem-se todos os usos das zonas mistas (Z2), com permissão de maior densidade de ocupação. A taxa de ocupação de terreno máxima permitida deverá ser de 70% (setenta por cento). 229 São permitidos todos os usos residenciais, de comércio, de serviço, e todos os usos industriais permitidos no Zoneamento Industrial Metropolitano, sobre o qual versa a Lei Estadual nº 466/81. A taxa de ocupação máxima permitida deverá ser de 50% (cinqüenta por cento). 230 Destina-se ao incentivo das atividades agropecuárias no Município, caracterizando-se pelas predominâncias de usos não necessariamente urbanos. Admitem-se os usos: residencial unifamiliar, de recreação e lazer, industrias leves e manufaturas. O lote mínimo resultante para projeto de parcelamento da terra deverá ser de 5.000m2 (cinco mil metros quadrados). A taxa de ocupação de terreno máxima permitida deverá ser de 20% (vinte por cento). 231 Só se admite equipamento de recreio, cultural, educacional público ou particular e residenciais unifamiliares. O lote mínimo resultante para projeto de parcelamento da terra deverá ser de 500m2 (quinhentos metros quadrados). A taxa de ocupação de terreno máxima permitida deverá ser de 30% (trinta por cento). 232 Somente serão permitidos usos de recreio, cultural, educacional e residenciais unifamiliares. Não se permitirá o parcelamento. Não será permitido nenhum tipo de obras que venha modificar os aspectos paisagísticos, históricos ou arqueológicos do local, tais como: movimento de terra, cortes de árvores ou construções de grande porte, todos os projetos localizados nesta zona deverão ser precedidos, obrigatoriamente, de um Relatório de Impacto no Meio Ambiente - RIMA.

191 191 clandestinos ou não com o apoio dos governos estaduais e municipais. Por exemplo, Jardim Catarina, conjunto do bairro Vila Lage e condomínios no Arsenal e região. O crescimento irregular no entorno desses aglomerados também inviabilizou a expansão de algumas empresas e indústrias. No estudo básico do primeiro Plano Diretor as ZUPIs, (Zonas de Uso Predominantemente Industrial) não são descritas em detalhes. O texto final do Plano não levou em consideração que em 1991, quando foi concluído esse estudo básico, a área industrial de Neves já representava apenas 9,2km 2 (4% do território), e a área efetivamente ocupada um total de 162 km 2 (76%). A área comprometida com este modelo de urbanização irregular vertiginoso correspondia a 153 km 2 dos atuais 249,14 km 2 do município o que representava, na época, 67% da área total, excluídas as áreas industriais. A situação de São Gonçalo apresenta atualmente uma série de especificidades: carência de infra-estrutura, caracterizada pela expansão urbana provocada pelo crescimento demográfico ocorrido nas décadas de 1960 e 1970, superior à média estadual, o desenvolvimento econômico incapaz de acompanhar o crescimento da população na década de 1980 e o aumento da desordem urbana, culminando com a favelização e acarretando mais violência na década de A forma de divisão territorial adotada pelo município criou três macro-áreas, apresentadas da seguinte forma no PDD de 1991 e reiteradas em 2006:

192 192 - Área Urbana Consolidada; - Área Periférica do Litoral; - Área Periférica do Interior. A área Urbana Consolidada, prevista no PDD desde 1991 abrange a porção mais densamente ocupada do município, compreende parte do 1º Distrito, limitada pela rodovia BR- 101, parte do 3º distrito limitada pela BR-101, até a altura da localidade de Guaxindiba; a parte mais populosa do 2º distrito representada pelos bairros contíguos à rodovia RJ-104 e os 4º e 5º distritos: Neves e Sete Pontes. Essa área urbana consolidada é considerada preferencial para a ocupação urbana e para os investimentos em infra-estrutura. Segundo os dois Planos Diretores, devendo ser estimulado tanto a adensamento das áreas já ocupadas, como o preenchimento dos vazios urbanos existentes de forma a promover uma ocupação racional do território e viabilizar os investimentos necessários. (PDD, Art. 2º). O plano diretor de 1991 também previa três novos centros de desenvolvimento: Porto da Madama, Boa Vista e Guaxindiba, aproveitando a localização, destes bairros, às margens da BR-101. Para cada um desses núcleos ou centros, deveriam ter sido feitos projetos específicos para criar condições de atração de novos investimentos. Hoje o setor que vem apresentando maior desenvolvimento nos últimos anos tem sido o setor terciário. Na área industrial de Neves, ainda decadente, foi previsto o reforço às instalações existentes no litoral até o bairro do Gradim, através da instalação do Terminal Pesqueiro no Porto Velho. O chamado núcleo de Guaxindiba próximo ao centro comercial e residencial de Alcântara foi destinado para o uso industrial e à localização de atividades complementares ao

193 193 COMPERJ. Em 1991 falava-se em Pólo Industrial de São Gonçalo, visando atrair empreendimentos de porte metropolitano para reforçar a participação do município na economia do estado. A atração de novos investimentos não se concretizou, mas observamos um aumento na oferta de terras para loteamentos nas adjacências do núcleo de Guaxindiba. Ao contrário de Guaxindiba, o antigo distrito industrial Neves sofreu algumas mudanças desde a década de Instalaram-se na área grandes supermercados e mais recentemente a Comercial Gerdau. Além disso, em 1991 foram previstos para o distrito de Neves alguns projetos. Um projeto de urbanização para o entorno do futuro terminal hidroviário, ainda sem local definido; um projeto de alinhamento do acesso para o terminal; a requisição urbanística de áreas com superfície superior a 2.000m 2 ; o IPTU progressivo para áreas com superfície superior a 2.000m 2 e, por último, a aplicação do instrumento de parcelamento ou edificação compulsórios. Esses instrumentos, mesmo não aplicados in totum foram reeditados na atual edição do Plano Diretor, (PDD, 2006, p. 143). A primeira análise, dos setores econômicos, apresentada nas informações básicas (PDD, 1991), apontava que as indústrias de São Gonçalo com maior participação na economia municipal eram caracterizadas pela baixa concentração tecnológica e de mão-de-obra, (indústrias de bens de consumo não duráveis), e por índices insatisfatórios de poluição. Na década de 1990, de um número de sessenta e sete indústrias, trinta, ou seja, 45%, apresentavam alto potencial poluidor, vinte e quatro com (36%), potencial médio. Treze restantes (19%), baixo ou desprezível Segundo os dados da FEEMA, das trinta indústrias com alto potencial poluidor, quatorze indústrias tinham tal classificação por suas emissões nos corpos d água, três no ar e treze, em ambos, o que perfaz vinte e sete pontos de poluição das águas e dezesseis do ar, nestas categorias. Das vinte e quatro com médio potencial poluidor, oito tinham tal classificação por suas emissões nos corpos d água, sete no ar e, nove em ambos, o que perfaz dezessete pontos de poluição das águas e dezesseis do ar nestas categorias.

194 194 Quanto à localização das indústrias com alto potencial poluidor, 12 estavam no 1º distrito, (São Gonçalo); 3 no 2º distrito, (Ipiíba); 2 no 3º distrito, (Monjolos); 12 no 4º distrito, (Neves), e uma no 5º distrito, (Sete Pontes). Ainda quanto à localização dos 67 empreendimentos, (20,9%) estavam, em 1985, localizados em Zonas de Uso Predominantemente Industriais (ZUPIs) do município, o que aponta para situações de inadequação locacional para a grande maioria, fator que se torna ainda mais relevante no caso daquelas que estão implantadas em áreas densamente povoadas, como o 4º distrito por exemplo. Atualmente a localização das indústrias com alto potencial poluidor continua margeando as rodovias estaduais e em menor escala a rodovia BR 101, na área contígua à Baía de Guanabara. A atividade industrial no distrito de Neves, hoje completamente decadente e não atrai novos investimentos desse setor. Nas proximidades com Itaboraí o município é marcado por loteamentos com grandes proporções, como Jardim Catarina, mas apresentam lotes com áreas abaixo da permitida pela legislação o que inviabiliza completamente a atividade industrial na região. São Gonçalo, a princípio, apresenta dois centros, o Rodo e o centro de Alcântara. O primeiro foi planejado, mas o segundo não. No centro urbano de Alcântara encontramos prédios e lojas mais modernos e as edificações mais altas do município. Apesar de ter seu uso predominantemente residencial é o principal centro de serviços e comércio do município. Encontramos também a chamada rua da feira, local das lojas de jeans e vestuário em geral, além da grande concentração de vendedores ambulantes. Alcântara não possui mais o glamour do passado quando era denominado de pólo de confecções, mas ainda exerce atratividade para sacoleiros e consumidores de muitos bairros e

195 195 municípios da região metropolitana, sobretudo, Itaboraí, Silva Jardim, Rio Bonito e Maricá. Nas proximidades do centro de Alcântara é possível distinguir áreas ocupadas por usos comerciais e de serviços, principalmente ao longo dos eixos viários principais do distrito onde se concentra a atividade de comércio. (PDD, 2006, p. 42). Os trechos abaixo, extraídos do Plano Diretor de 1991 apresentam algumas soluções tecnicistas da época que até hoje não foram implementadas: Art. 35 O Código Municipal do Meio Ambiente definirá a obrigatoriedade do tratamento dos esgotos sanitários, indicando o nível e as soluções alternativas de tratamento adequado. Art. 56 Deverão ser feitas gestões junto ao Governo Federal para a utilização do ramal ferroviário existente e não utilizado, em efetivo sistema de transporte de massa, seja pela reforma e ampliação do atual sistema, seja pela implantação de um novo sistema de transporte de massa. O Poder Público Municipal continua buscando articulações políticas com os governos Estadual e Federal e com a iniciativa privada. Mas ações técnicas, como as apresentadas acima, não recebem apoio pelo alto custo de implantação e por não trazer retorno eleitoral para os políticos locais que disputam espaço com políticos de outras regiões. Alguns instrumentos do Plano Diretor são expressos em artigos de Lei, mas não indicam os fundos para sua execução. A dependência dos Poderes Estaduais e Federais torna o município refém da conjuntura política e obriga periodicamente alianças e a dança das cadeiras, ou seja, a troca de partido político. A atual prefeita, por exemplo, já trocou de partido três vezes, o que infelizmente não é uma exclusividade de São Gonçalo. Os instrumentos técnicos às vezes são subjugados pela conjuntura política e não têm eficácia em curto e médio prazos. Assim como já foi expresso em textos anteriores sobre o Plano

196 196 Diretor de São Gonçalo, alguns instrumentos são de aplicação de longo prazo, para administrações sucessivas, visando não perpetuar a administração e o grupo político que governa no momento da elaboração do Plano. Por ironia do destino, em muitos momentos estes grupos mantêm-se no poder até hoje. (MENDONÇA, 2000). Em geral esses instrumentos técnicos analisados são mecanismos de retórica e não contribuem efetivamente para o desenvolvimento de áreas periféricas. Um velho ditado romano descreve bem esse sentimento compartilhado por muitos entrevistados: Aliud est falsum, aliud simulatum. Aliude est dare, aliud promittere. Aliud est calare. aliud tacere. Uma coisa é a falsidade, outra, a simulação. Uma coisa é dar, outra prometer. Uma coisa é calar, outra mentir, (esconder). Justificativas desse tipo foram comuns quando questionamos pessoas envolvidas na administração. O projeto do terminal hidroviário no distrito de Neves foi realizado em 1982 pela Companhia de Navegação do Estado do Rio de Janeiro, a antiga CONERJ. 234 Hoje, vinte e cinco anos depois, ainda figura no repertório das promessas políticas. Outro exemplo é o projeto do distrito industrial de Guaxindiba realizado em 1983 pela Companhia de Desenvolvimento Industrial, a Codin. A construção da Estação de Tratamento de Esgotos - ETE, 235 no bairro da Boa Vista ainda é incompleta. 234 CONERJ: Programa de Transportes Hidroviários de Massa na Baía de Guanabara. Estudo de Demanda e Integração. PLANAVE S/A. Rio de Janeiro, A ETE Estação de Tratamento de Esgoto - da Boa Vista, implantada pelo programa de despoluição da Baía de Guanabara, encontra-se em operação, mas não está operando com toda a sua capacidade devido à insuficiência de esgotos para tratamento. Além do mais essa ETE foi construída próxima a área urbana e ao lado da área de lazer popularmente denominada de piscinão da Boa Vista.

197 197 A estação prevista no primeiro Projeto de Despoluição da Baia de Guanabara (PDBG) é mais um exemplo de projeto inconcluso devido à má gestão de verbas públicas. E mesmo quando for concluída apenas minimizará a demanda existente de saneamento básico, reivindicada pela população local. O desenvolvimento de um município do porte de São Gonçalo e mesmo de um distrito fica comprometido quando o poder local é condescendente com interesses eleitoreiros e submete a lógica técnica a esses interesses. Quando não respeita a participação popular, ou pior ainda a vida urbana, subverte a razão de ser do planejamento.

198 Estudo Crítico dos Planos Diretores de São Gonçalo Através da análise dos dois últimos Planos diretores constatamos que esses instrumentos de política urbana ainda são comprometidos por políticas partidárias. A antiga fórmula que combinava macro projetos regionais com diagnósticos detalhados e relatórios consolidados é mais próxima a realidade atual. Impede a interferência dos governos locais e impõem um ritmo ao crescimento das cidades. Os antigos instrumentos elaborados pelas fundações para o desenvolvimento metropolitano nas décadas de 1970 e 1980 merecem as devidas críticas, mas serviam para amortecer algumas contradições sociais que caracterizam a vida urbana naquele momento. Na época era possível implementar instrumentos de ordenamento e uso do solo, controlando a expansão desordenada e conduzindo à dinâmica urbana. Em algumas ocasiões ouvimos ponderações justificando as dificuldades para implementar um planejamento urbano no município. Alguns entrevistados justificavam, em seus depoimentos, os problemas por conta do tamanho do território com cerca de 249 km 2 ; devido ao tamanho da população, cerca de um milhão de habitantes ou devido à ausência de movimentos sociais organizados. A falta de canais de comunicação entre a Prefeitura municipal e a população continua sendo uma constante nas reclamações coletadas. Procedimentos simples como a solicitação de retirada de entulho ou substituição de lâmpadas da iluminação pública pode levar meses ou mesmo não ser executada. Estes fatos são agravados pela ausência de debates democráticos com a população.

199 199 O segundo PDD, realizado no ano de 2006 é um exemplo tácito da participação social pro forma. Mesmo o Estatuto das Cidades não conseguiu trazer novas práticas e ampliar a participação popular em São Gonçalo. Os Planos Diretores repercutem na mídia local, mas questionados, os entrevistados negam conhecer a sua aplicação. A participação nos debates e reuniões deliberativas continua sendo feita por grupos de interesse local e por algumas entidades representativas da sociedade civil. Não acreditamos que Planos Diretores possam ser considerados soluções para problemas urbanos, pois esses envolvem uma trama complexa que vai além do plano local e envolvem interesses de capitais globais. Dedicamos a segunda parte deste trabalho tentando demonstrar essa hipótese. Mas acreditamos que instrumentos de ordenação urbana podem contribuir para evitar disputas políticas e desequilíbrios entre distritos ou bairros nas cidades. A democracia pressupõe a institucionalização dos conflitos entre os setores organizados, mas também instrumentos de conquista e ampliação da cidadania. Os Planos e estudos analisados até aqui podem, no mínimo ter sido, oportunidades para que os sociólogos e planejadores entrem em contato com as mais diversas realidades e pontos de vista. Optamos por fazer esse item intitulado de Estudo Crítico dos Planos Diretores de São Gonçalo com o intuito de criticar a velha crença racionalista ainda disseminada em muitas administrações municipais. Essa crença, quase religiosa significa, além da concentração de poder nas mãos dos técnicos e políticos, a reprodução das desigualdades sociais de uma forma mais racionalizada.

200 200 O chamado planejamento participativo, em voga na década de 1990 e repetido no estudo preliminar do PDD de 2006, ainda não é a panacéia que irá instaurar uma democracia participativa como alguns podem crer. A letra fria da Lei não substitui a nobreza do diálogo como forma de solucionar problemas urbanos. A simples utilização do termo participativo não significa que todos os níveis desde a elaboração até a tomada de decisões sejam necessariamente participativos. O limite entre a necessidade da utilização técnica e a atividade participativa ainda está por ser delimitado. Dentre os vários questionamentos que tivemos durante a elaboração desse trabalho, podemos afirmar que pelo menos um foi elucidado. Inferimos que as propostas contidas no produto final do PDD de 2006, assim como no Plano anterior, não fazem referência aos vazios sociais ou bolsões de pobreza que detectamos no município. A ampliação no diagnóstico social do último Plano não foi suficiente para penetrar recantos como o Engenho Pequeno, Luiz Caçador e Salgueiro, esquecidos pelos planos analisados. Localidades como essas, carentes de quase todos os serviços públicos, representam uma lacuna entre o planejamento urbano dito participativo e a realidade local. A título ilustrativo, é bom lembrar que consideramos como - vazios sociais - localidades onde a ausência de planejamento contribuiu para agravar a situação de precariedade. As localidades, acima citadas estão entre as mais pobres e renegadas do município. Quase consideradas sub produtos da especulação fundiária, não são sequer citadas nos Planos Diretores ou demais legislações analisadas. Durante dois anos de pesquisa nos jornais locais encontramos apenas referências nas páginas policiais. A demora em ocupar socialmente esses espaços, através de instrumentos já previstos em leis, facilita a ocupação irregular. Podemos

201 201 constatar tanto na área de preservação ambiental do Engenho Pequeno quando nas comunidades do Salgueiro, Água Mineral, e Luiz Caçador a favelização desses antigos espaços rurais, um tipo de transição não planejada do rural ao urbano que não passa pelo processo de urbanização tradicional. O toque de recolher imposto pelo tráfico de drogas e os constates crimes comentados pelos moradores desses locais podem explicar a não citação desses bairros nos Planos Diretores. A não previsão em Lei da construção de moradias populares, equipamentos e serviços destinados às camadas populares configura e reforça a tese da existência desses vazios sociais e os mantêm excluídos da chamada cidade legal. Estas localidades deveriam ser diagnosticadas nos futuros Planos Diretores. Tanto a criação quanto a aplicação de instrumentos de inclusão social só podem ser concretizadas através de leis específicas para as suas principais necessidades. As condições e prazos fixados para a sua execução também devem ser contemplados para que não se repita o erro de descrever nos artigos dos Planos sem a devida regulamentação. Instrumentos, como a requisição urbanística através de permuta, previstos no Artigo 17º do primeiro PDD possibilitariam a intervenção do Poder Público nos vazios sociais urbanos já parcelados, mas carentes de equipamentos sociais. Podemos citar como exemplos os bairros do Jardim Catarina e da orla da Baía. O Jardim Catarina não é um simples bairro, é um conjunto de três grandes loteamentos ocupados de forma distinta e segundo os dados da PMSG possui cerca de lotes e conta com cerca habitantes.

202 202 Para São Gonçalo, apenas o Jardim Catarina será contemplado através de projetos do PAC. O governo federal prevê a destinação de verbas públicas para o saneamento básico; criação de espaços públicos de lazer e a implantação de equipamentos urbanos e comunitários. O conjunto dos loteamentos do Jardim Catarina foi escolhido porque além de ser cortado pela BR 101, está localizado próximo a área delimitada para a construção do COMPERJ, além do mais, faz fronteira com o antigo distrito de Guaxindiba, tornando-se de grande interesse estratégico. A existência de vazios sociais não assinala apenas o declínio de uma economia amparada na indústria, mas também comprova que a ausência de um planejamento urbano eficaz intensificou os movimentos de esvaziamento de bairros como Neves, Gradim e Porto da Madama. Antigos espaços de vocação industrial ainda não possuem projetos específicos para as suas revitalizações. Neves por exemplo, ainda sofre com um lento processo de substituição de atividades do setor secundário para o setor terciário. Além disso a construção de mais uma igreja evangélica da cidade, numa área de m 2 ocupada até 1999 pela Fundição Palmares na Avenida Oliveira Botelho, em Neves, comprova a tese de que a ocupação de espaços anteriormente industriais por outras atividades é uma tendência no distrito. A atual administração local demorou a reconhecer e incentivar a recuperação de espaços pouco utilizados ou quase abandonados por novas atividades industriais, por outro lado, a mesma administração mostra-se empenhada na aquisição de terrenos ou fábricas, como a Conserva Jangada para implantação do já citado terminal Hidroviário, mas demonstra preocupação com reutilização de plantas fabris do porte da Gerdau, por exemplo, que transforma parte do bairro de Neves em um grande vazio urbano.

203 203 Para este tipo de vazio urbano é previsto no Artigo 182º da Constituição Federal nos parágrafos 2º e 4º, que o poder público exija os proprietários de imóveis não edificados, subutilizados ou não utilizados promovam o seu adequado aproveitamento, de modo a fazer com que cumpram sua função social. O não atendimento a essa exigência poderá penalizar o proprietário com o parcelamento ou edificação compulsórios. Para a aplicação desse instrumento, é necessário que o imóvel esteja situado em área contemplada pelo atual Plano Diretor. Como não é o caso, não há uma Lei específica regulando essa questão e dificultando a sua execução. Os instrumentos de parcelamento ou edificação compulsórios já se encontravam descritos dezesseis anos atrás no Artigo 16º do Plano Diretor de A inércia do poder público em produzir operações de revitalização urbana, como no caso do entorno da antiga usina da Gerdau, cria entraves para a entrada de novos empreendimentos e aumenta os custos dos agentes incorporadores que poderiam produzir habitações populares no terreno da antiga planta fabril. A valorização de espaços considerados como vazios urbanos poderia atrair novas atividades e principalmente a aproveitar a infra-estrutura existente. Neste sentido, o sistema viário existente no eixo Niterói Manilha é um fator de valorização e de atratividade. Mas a ausência de políticas públicas para o incentivo da habitação na região litorânea do município ainda é um fator decisivo para propiciar o aparecimento de loteamentos e comunidades de baixa renda. A própria PMSG está desenvolvendo um projeto para a construção de casas populares no Gradim. A intenção é louvável, pois prevê a urbanização e substituição de comunidades como a Favela do

204 204 Gato 236, mas pode seguir o mesmo modelo de comunidades do Rio de Janeiro como a Maré à Vila do João espraiando-se paralelamente a via principal. Desde o nosso último trabalho, realizado em 2000, a preocupação com a revitalização dos vazios urbanos e industriais ainda é pequena, tanto por parte da administração municipal quanto Estadual. As operações ainda não ocorreram e estão inteiramente à mercê da lógica especuladora do mercado. Independentemente das preocupações detectadas nas comunidades locais e apontadas no Estatuto da Cidade e descrito no produto final para a elaboração do segundo Plano Diretor: Dentro da esfera do planejamento municipal, considerados como instrumentos de política urbana, o Estatuto da Cidade apontou, entre outros: [...] Instrumentos específicos, tais como: parcelamento, edificação ou utilização compulsórios, imposto predial e territorial urbano progressivo, desapropriação com pagamento em títulos da dívida pública, concessão de direito real de uso; concessão de uso especial para fins de moradia; direito de superfície; outorga onerosa do direito de construir e de alteração de uso, transferência do direito de construir; operações urbanas consorciadas, consórcio imobiliário. (PDD, 2006, p. 120). Os dispositivos citados acima nos fazem lembrar a sombria hipótese aristotélica e explícita no atual estado das artes. Não basta demonstrar em Lei a preocupação em tratar das questões urbanísticas e questões ambientais. O direito à cidade sustentável, incluindo-se o direito à moradia 237 para a população de baixa renda, não é considerado na gestão municipal. E isso acontece nesse momento de rápida mudança do seu eixo Niterói manilha. Este eixo continua crescendo a cada dia, enquanto as políticas vêm na contra-mão desse crescimento. A administração municipal parece não levar em conta o futuro próximo que 236 A Lei nº 31/99 publicada em 06/06/1999, passou a denominar a antiga Favela do Gato em Vila Cassenú. A comunidade, situada no bairro do Gradim, uma das mais antigas no município de São Gonçalo, abrigava antigos trabalhadores da indústria de conservas e pescadores da Baía de Guanabara. 237 O direito a moradia faz parte da Emenda Constitucional nº 26, de 14/02/2000 e foi introduzido na Constituição Federal entre os principais direitos sociais.

205 205 poderá representar um aumento demográfico graças à instalação do COMPERJ. A atual administração deveria assumir um papel mais ativo e implementar políticas sociais antes que o município tenha a sua estrutura econômica novamente transformada. A atual crise no planejamento urbano não é mais expressa, como na década de 1970 pelo esvaziamento dos órgãos de planejamento, mas ao contrário, pelo excesso de instituições ineficientes e de legislações que não apontam de forma clara as fontes financeiras. Não existem projetos eficientes para combater a metropolização da pobreza e uma preocupação especial com a população de baixa renda. A indicação em diversos instrumentos legais não passa de letra morta e vem provocando um fenômeno recente no município, a ocupação de prédios privados por famílias de baixa renda como nos casos da Avenida Maricá e da região entre o bairro de Santa Catarina e Pita.

206 A Percepção dos processos de mudança social Neste item analisamos depoimentos coletados em entrevistas e recolhidos por correio eletrônico para compreender a percepção social sobre o processo de mudança no município. Utilizamos algumas observações técnicas recentes, contidas na literatura disponível sobre mudança social e transformações econômicas. São Gonçalo assim como grande parte das cidades contemporâneas é um lócus privilegiado de estilos de vida e visões de mundo distintas, como afirma (VELHO, 1997, p. 4). As transformações em curso no eixo Niterói-Manilha, desde o final da década de 1980, ampliam essa multiplicidade de opiniões. Moradores, visitantes e trabalhadores de São Gonçalo são unânimes em detectar esse processo, mas para Velho é fundamental a constatação da não linearidade desse processo. Através de entrevistas percebemos que alguns moradores dos bairros próximos à Boa Vista interpretam positivamente a construção do shopping e do piscinão em São Gonçalo. Mas quando nos afastamos desse sub centro e questionamos moradores de Sete Pontes e Ipiíba, distritos mais distantes. Registramos algumas críticas referentes à escolha da localização do empreendimento. Um entrevistado mencionou que a Boa Vista é uma roça. O shopping deveria ter sido construído no Centro da cidade, pois temos que pegar dois ônibus para chegar lá. Quando saímos, depois do cinema, é muito perigoso ficar esperando o ônibus. Tem muito perigo de assalto e o ônibus demora muito Entrevista concedida por um morador do bairro de Sete Pontes em outubro de 2007.

207 207 Por outro lado, para um morador da Boa Vista, o shopping está fazendo com que a Prefeitura asfalte as ruas do bairro e o piscinão foi a salvação para o lazer. Temos até festa no final do ano, com shows e uma queima de fogos. 239 Assim, é importante destacar que encontramos a coexistência de múltiplos julgamentos e em certos casos, posições conflitantes. A complexidade começou a surgir quando ouvimos as críticas de moradores da Boa Vista e posições elogiosas de moradores distantes. Para alguns entrevistados na Boa Vista, o shopping encobre a realidade pobre do morro da Boa Vista. O aumento da falta de água se deu por conta do desvio da água do bairro para o shopping e não pelo adensamento populacional no primeiro distrito. O distrito sede, (São Gonçalo) passou a abrigar no ano 2000 cerca de 36,0% da População municipal. 240 Assim como as opiniões são diversas, o bairro apresenta uma certa diversidade entre os seus habitantes. Não há uma uniforme ética, como apontou o jovem americano. We drove through a street just past Sao Goncalo shopping (near the bay) and heading towards the city centre, one big long street of a few miles long, with barely road coverings a truely awful street, I think all folks where black around there, her dad drove through very quickly so I guess it was pretty bad. de um jovem americano em Nós dirigimos por uma rua após o São Gonçalo Shopping (próximo à Baía de Guanabara) em direção ao centro da cidade, uma grande rua com algumas milhas de comprimento, com péssima cobertura de asfalto. Uma rua verdadeiramente horrível. Pensei que todos ali fossem negros. Seu pai dirigiu muito rápido, por isso eu considerei que fosse muito perigoso. Lá encontramos divisões étnicas não tão precisas, como em bairros onde predomina grupos da mesma origem ou em condomínios, (VELHO, 1997, p. 4). O que o jovem acima não 239 Entrevista com morador da Boa Vista em dezembro de Fonte: IBGE/DPE - Censo Demográfico de 2000.

208 208 foi capaz de perceber é homogeneidade da classe social que predomina nessas áreas periféricas. São famílias da classe trabalhadora ou classe média empobrecida compartilhando o mesmo bairro com moradores oriundos de antigas comunidades de pescadores. (VELHO, 1997, p. 4). Como diz o antropólogo, nem sempre isso se dá de forma nítida, havendo freqüentemente uma interpenetração, quase indistinguível, à primeira vista, de grupos e estilos sociais particulares. (VELHO, 1997, p. 5). Num mesmo bairro, assim como nos grandes edifícios de apartamentos é comum identificarmos categorias sociais e indivíduos bastante heterogêneos quanto ao seu modo peculiar de construção social da realidade, opções existenciais e valores em geral. 241 A memória individual e social é um dos principais instrumentos para a manutenção e alimentação de quaisquer identidades. Aspectos da paisagem, praças e prédios, ruas, móveis, álbuns de família, quadros, preferências e tabus alimentares, crenças, superstições, histórias familiares, piadas, jargão, vocabulário em geral, formas de expressão lingüística, tudo isso constitui um acervo de memória permanentemente interpretado que estabelecem fronteiras entre diferentes segmentos sociais. Essas fronteiras não são, no entanto, impenetráveis e sua rigidez é relativa. Constantemente elas flutuam e sofrem transformações a partir de fatos e experiências novas mais ou menos imprevisíveis. O fenômeno que nos interessa particularmente é o ininterrupto processo de negociação dessas diferenças, permitindo a própria continuidade da vida social. Idem, (VELHO, 1997, p. 5). Diferenças encontradas entre os depoimentos de moradores e visitantes produzem ou reproduzem as fronteiras culturais. Quanto mais estrangeiro for o observador; mais rígida poderá ser essa fronteira. tis a horrible place that São Gonçalo, I ve never seen a place like it I dont think, ive been to a few rough places in europe but I think I would be robbed or killed in 2 minutes in some of them streets. (Idem, 2006). 241 VELHO, Gilberto. A Utopia Urbana: um estudo de antropologia social. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1989 (5a edição).

209 209 São Gonçalo é um lugar horrível. Eu jamais vi um lugar como este. Não consigo nem pensar. Estive em alguns lugares rudes na Europa, mas em São Gonçalo pensei que fosse ser roubado ou assassinado em dois minutos andando em algumas de ruas dessa cidade. Depoimento de um jovem americano à sua amiga gonçalense. 242 (Idem, 2006). Quando comparamos depoimentos de pessoas de diferentes segmentos sociais as contradições são mais aparentes nas suas visões de mundo. Segundo Lefebvre, essas contradições nos aproximam da verdade. Para um jovem de um país desenvolvido a revitalização de um bairro, como a Boa Vista, deveria envolver a reorganização da vida urbana, mas as ruas continuam feias e tristes e trazendo à tona a distinção social entre o espaço social e o espaço simbólico apresentados nas opiniões dos diferentes jovens como diria Bourdieu. 243 Having just returned from Brasil after 5 weeks holiday staying with my brasileira and her family in Niterói, I can confirm that she is indeed correct, I attended a wedding of her cousin in Sao Goncalo and whilst drving through to the church, and whilst on a bus a couple of times in the place, I can confirm there are some really really ugly streets in this city. Infact there are more ugly women than what I would call pretty or even average looking when compared to Rio. (Idem, 2006). Logo após retornar ao Brasil, depois de cinco semanas de férias com a minha brasileira e sua família em Niterói, eu posso confirmar que ela estava correta. Eu assisti ao casamento do seu primo em São Gonçalo, e enquanto nos dirigíamos a Igreja, em dois ônibus naquele lugar, eu posso afirmar que realmente existem muitas ruas feias nesta cidade. De fato as mulheres de lá são as mais feias quando comparadas, em média, com as do Rio de Janeiro. 244 (Idem, 2006). Quando a administração local ou um grande empreendimento revitaliza terminado distrito em detrimento de outro produz fronteiras rígidas (VELHO, 1997, p. 5) ocultas ao pensamento do senso comum. Esse não compreende nem aceita a lógica dialética. 242 Tradução livre do depoimento de um jovem americano enviado à sua amiga gonçalense por em janeiro de A transcrição respeitou a grafia utilizada por este jovem na internet. 243 BOURDIEU, Pierre. Razões práticas. Cap. Espaço social e espaço simbólico, pp Ed. Papirus, São Paulo Tradução livre do depoimento de um jovem americano. Idem.

210 210 O pensamento é e só pode ser, transição, movimento, passagem de um grau a outro, de uma determinação a outra, relação com o real e com suas próprias etapas percorridas, (LEFEBVRE, 1995, p. 178). Os depoimentos, dos jovens entrevistados, indicam que eles pertencem a diferentes grupos sociais, mas compartilham valores e visões de mundo preconceituosas. Não reconhecem que a pobreza tende a ser evidenciada quando localidades como a Boa Vista passam a fazer parte da cidade formal. A ligação da rodovia BR 101 até o Rodo de São Gonçalo só foi pensada a partir do projeto São Gonçalo Começou a ser utilizada por pessoas de outras cidades pra chegar até a quadra de escola de samba no Porto da Pedra e a partir da inauguração do São Gonçalo Shopping, colocou de vez o bairro em evidência. Compreender a positividade dessas contradições é uma exigência interna do pensamento (LEFEBVRE, 1995, p. 178). Segundo a dialética lefebvreiana o pensamento é movimento, assim como os espaços, os pensamentos sobre esses mesmos espaços, tendem a se transformar, entrar em movimento. O pensamento se afirma como movimento de pensamento ao mesmo tempo que pensamento do movimento, i.e. conhecimento do movimento objetivo. Se imobilizado, ele se destrói. A análise, a separação dos momentos, não pode ser senão momentos do pensamento vivo. (LEFEBVRE, 1995, p. 178). Conseguimos avançar na análise das entrevistas quando reconhecemos as contradições dos depoimentos. Assim descobrimos que as diferentes visões de mundo são contraditórias, mas complementares. O bairro é feio e bonito, é uma roça e é moderno ao mesmo tempo. Como diria Lefebvre o real é contraditório e a relação entre dois termos contraditórios é descoberta de algo preciso: cada um é aquele que nega o outro. (LEFEBVRE, 1995, p. 179).

211 211 By the way, Sao Goncalo itself surely must be the poorest city in Brazil, it is a horrible place and even the good streets (ie the ones with tarmac or concrete and not just mud) are terrible, I didnt see all the city but what I saw was terrible and I am told it is all similar or worse. (Idem, 2006). De fato, São Gonçalo deve ser certamente a cidade mais pobre no Brasil. É um lugar horrível. Mesmo as melhores ruas (com asfalto) ou concreto têm lama, são terríveis, não conheci toda a cidade, mas o que eu vi foi terrível, e eu digo, toda ela deve ser assim ou parecido. (Idem, 2006). Minhas amigas marcaram depois do trabalho para ir ao São Gonçalo shopping para trocar o sapato que ela tinha comprado, mas não gostou. As lojas estavam em promoção. Muitas novidades. Depois fomos comer na praça de alimentação. Puxa! Foi um máximo. Botamos o papo em dia. Foi maravilhoso. Mas a Rita nunca tinha ido ao shopping, ela estava encantada com tanta beleza, luxo, harmonia de organização e a decoração Entrevista com uma jovem estudante sobre o shopping em São Gonçalo está passando por um momento distinto, entrando na nova lógica do capital global. Antes o capital internacional explorava a cidade e não se preocupava com a sua estética. O período de auge da Portland, La Farge, International, Quaker, Seves e B-Braun aos poucos cede espaço para o terciário, representado pelos hiper mercados e pelo shopping. Estas mudanças provavelmente irão impor uma nova estética de consumo que influenciará os bairros periféricos. Não só o jovem americano, mas qualquer pessoa que visitasse a orla da Boa Vista na década de 1990 pensaria como ele. A beleza citada pela jovem, ao visitar pela primeira vez o shopping é um sentimento que vem sendo compartilhado por muitos jovens que por grande parte de suas vidas conviveram com espaços precários e desprovidos de luxo e preocupação estética. Alem disso os cinemas do empreendimento, que atraem os jovens, ainda são os únicos divertimentos desse tipo na cidade Até a década de 1970 o município possuía vários cinemas: São José, Tamoio, Venda da Cruz, Paraíso e Neves. Na década de 1990 a cidade possuía apenas o cinema do Rodo shopping, fechado na mesma década. Com o crescimento das denominações evangélicas todos os outros cinemas foram convertidos em Igreja. Até a inauguração do São Gonçalo shopping, em 2004, o Cine Teatro Alcântara era o único para atender uma população de quase um milhão de habitantes. Este último sobreviveu porque pertencia a uma Escola particular. Hoje o shopping tem oito salas de cinema que trazem orgulho para os entrevistados.

212 212 A falta de investimentos e a crise de empregos na economia municipal são amenizadas pelas promessas de trabalho no shopping e no COMPERJ. A via expressa, que corta o centro da cidade, ganha novos acessos ao empreendimento. O transporte irregular e clandestino, por conta dos novos itinerários e das vans piratas abre novos caminhos e loteamentos. Eu já ouvi falar muito sobre o São Gonçalo shopping, mas particularmente nunca fui. Mas como todo shopping, lá encontram-se muitas oportunidades de emprego, e um dos mais conhecidos como os empregos temporários que bem ou mal oferecem chances de jovens conquistarem o primeiro emprego, mesmo que seja apenas por alguns meses. O shopping de São Gonçalo é de muito difícil acesso para quem precisa utilizar o transporte coletivo. Para ir é uma tristeza, não é todo lugar que passa um ônibus para lá, mas van tem bastante, que por sinal lota na volta. Depoimento de uma jovem sobre o shopping em Ao incluir o bairro da Boa Vista e arredores no circuito do capital global novos loteamentos surgem. É o capital do varejo acompanhando o capital global. A comunidade pobre em frente ao shopping cresce e o último espaço de mangues quase foi vendido. Graças à denúncia de moradores uma placa de venda de lotes foi retirada pela PMSG e até o presente momento não foi recolocada. Quando começou o projeto de construção falaram que ia haver melhoria nas proximidades do shopping e que ele ia trazer melhorias a São Gonçalo, mas só melhoraram as ruas de acesso ao shopping. Sem contar com as casas humildes que têm nas localidades próximas ao shopping, que não está de acordo com o tipo de pessoas que estão acostumadas a freqüentar o shopping. A Prefeitura poderia fazer melhorias nas proximidades do shopping. Depoimento de morador da Boa Vista em Assim como Alexis de Tocqueville 246 acreditamos que os dois maiores problemas, a violência e a pobreza, só podem ser combatidas quando são criadas as comissões de cidadãos (selected-men), segundo ele, composta por aqueles que moram e trabalham no bairro, para discutir 246 TOCQUEVILLE, Alexis. A Democracia na América. Obra escrita em 1835 sobre os Estados Unidos da América. 2ª edição. São Paulo ed. Edusp, 1977.

213 213 os seus problemas e planejar em conjunto as soluções. As políticas públicas municipais ditas participativas, demonstraram não compreender a complexidade das transformações em curso. O transporte regular, tão criticado nas entrevistas, perde espaço a cada dia. Não atende todos os bairros e localidades do município. Mesmo subsidiado não compete com os preços do transporte irregular. A chamada máfia das vans controlada, entre outros, pelo vereador Motta da Copasa 247 conta com mais de cinco linhas para atender o público do shopping. A população gonçalense, aos poucos, vai virando refém desse transporte, fato que levou o recentemente a uma disputa territorial para controlar o transporte no eixo Niterói Manilha. Além dos pontos negativos que foram destacados no decorrer desse trabalho, podemos observar no relato da jovem que trabalha no shopping a alegria de ter seu emprego, cercado de segurança, lazer e alimentação. Eu não conhecia muito o shopping e não tinha o que falar. Bom, agora posso falar um pouco porque já trabalho lá quase uns dez meses. É bem grande mesmo como falaram. Eu acho muito mal dividido. Não tem muitas lojas. Ele não é muito movimentado. Se você for lá nos dias de semana no horário da manhã é bem vazio, a tarde é um pouco mais movimentado, não posso falar muito porque trabalho no horário da manhã. Eu acho muito bom, porque trabalho menos, mas em compensação, no fim de semana é muito cheio. Qualquer hora que você for lá vai tá movimentado. Tem uma coisa que gosto muito no shopping São Gonçalo é a praça de alimentação que tem muita variedade pra comer. Você pode ir comer sanduíches, como você pode ir jantar, porque tem variedade em restaurante e pizzaria. Tem muita segurança pelo shopping todo. Pelo menos eu nunca vi casos de roubo. Gosto também das salas de cinema. Tem bastante opções de filmes e não é tão caro. Por isso vive tão cheio. Tem uma academia bem grande no primeiro piso tem a faculdade Estácio e tem um grande estacionamento com capacidade para muitos carros. Bem é isso que eu posso falar do shopping São Gonçalo, eu gosto muito de lá. É um lugar tranqüilo para passear com a família. Depoimento de uma trabalhadora do shopping em Atualmente preso por sua ligação com a chamada máfia das vans.

214 214 É quase senso comum, mas o depoimento da jovem acima se relaciona com a visão de mundo de um futuro moderno e idílico apontado por administradores do shopping. Segundo eles é possível harmonizar trabalho, segurança e lazer num mesmo espaço. Consumo, lazer e educação combinam? Parece que sim. Desde que diversas universidades brasileiras passaram a procurar shopping centers para a instalação de seus campi, os corredores dos empreendimentos ganharam um público adicional: alunos e alunas como mochilas, pastas e [...] sacolas de compras. Vantagens para os alunos, que têm nas instalações a segurança e o conforto necessários além de um acesso rápido a serviços concentrados em um só lugar 248 Entretanto, alguns estão do lado fora do paraíso idílico. As relações entre o shopping, a cidade e a favela ainda são incipientes e vêm acompanhadas quase sempre de um estigma negativo. Desde a construção do empreendimento em 2003 havia a promessa de urbanização da Boa Vista e adjacências, mas as autoridades olham as áreas pobres do entorno e suas populações como um problema a ser eliminado. O economista Carlos Lessa, (2000) 249 já destacava ao comentar a cidade do Rio de Janeiro que a população pobre, habitante em sua maioria, das favelas, durante o processo de urbanização da cidade, no início do século foi discriminada e excluída do planejamento urbano em detrimento de uma classe dominante, que visava a utilização do espaço urbano como símbolo urbanístico moderno. [...] os perigosos para a saúde. Sua presença afetava o prestígio da capital republicana. No cortiço a superpopulação e a precariedade dos serviços de infra-estrutura (água, esgoto, lixo, energia e gás) somavam-se á precariedade higiênica e à ausência de conforto e privacidade [...] A República se propôs a cancelar os cortiços por razões urbanísticas e sanitárias explícitas, em busca de uma configuração de prestígio. A reforma urbana nada propôs em relação aos quarteirões lindeiros à área reformada, tampouco sugeriu nenhum novo 248 Revista Shopping Centers. Matéria Uma aula de empreendimento. Junho, LESSA, Carlos, O Rio de Janeiro de todos os Brasis: Uma reflexão em busca de auto-estima. Ed. Record, Rio de Janeiro, 2000.

215 215 padrão de controle policial. Não realizou qualquer política habitacional para os pobres. Simplesmente não tomou considerações a moradia para o povo. Desconheceu o problema. Parecia que, para os homens da Reforma Passos, o povo era invisível. (LESSA, 2000, p. 296) A história se repete como na piada marxista. Assim como a reforma urbana de Pereira Passos, a construção do shopping desconsiderou os quarteirões lindeiros A administração municipal não realizou nenhuma política habitacional para os moradores das comunidades em ao lado e atrás do shopping. Simplesmente asfaltou a rua, (que o jovem americano considerou com péssima cobertura de asfalto) e desconheceu os outros problemas. O povo ainda parece invisível para a mentalidade dos antigos os homens da Reforma. Desde o período da Reforma Passos vários projetos de intervenção nos chamados vazios sociais foram executadas. Umas autoritárias, com remoções e expulsões e outras menos violentas como as reconstruções e urbanizações. O programa favela-bairro no Rio de Janeiro procurava inserir áreas pobres aos bairros. Neste trabalho não nos detivemos no estudo das favelas em São Gonçalo, mas vários sociólogos e antropólogos estão pesquisando as políticas públicas para as comunidades pobres do município. 250 A Avenida Barão de São Gonçalo, rua de acesso ao shopping, foi criada com uma dupla utilidade. A primeira foi ligar a Rodovia Federal BR 101 ao empreendimento como uma alça de acesso e em segundo lugar separar o shopping do bairro, tornando-o suspenso no espaço que o ligaria a favela. 250 Em São Gonçalo temos Simone Guedes, Leila de O. Araújo, Désirée Guichard Freire, Carlos Nelson Ferreira Santos entre outros que pesquisaram ou pesquisam o município. No Rio de Janeiro temos Luiz Antônio Machado da Silva, Maria Alice Rezende de Carvalho, Alba Zaluar, Lícia do Prado Valladares, Luiz César Queiroz Ribeiro entre outros.

216 216 Essa rua atualmente vem sendo utilizada como ponto final das vans piratas e uma grande quantidade de veículos parados durante o dia. Na rua passou a funcionar uma praça de alimentação paralela onde são vendidas quentinhas para os motoristas. Também encontramos um lava a jato que cuida das vans e dos táxis. No seu início, próximo à BR 101, funciona um posto de gasolina onde alguns carros usados são negociados paralelamente aos feirões do shopping. Além disso entre o shopping e a BR, em dois trabalhos de campo, encontramos jovens fazendo da pista ponto de prostituição. Logo após o shopping temos a primeira via de acesso ao centro (Rodo) de São Gonçalo. O maior trecho desta via é asfaltado, (Avenida Joaquim de Oliveira), mas em péssimo estado de conservação. Não encontramos favela, apenas casas simples de alvenaria. Alguns sobrados e pequenos comércios de bairro. Esta via é muito utilizada pelos moradores da Boa Vista, Brasilândia e Boaçu e por moradores de outros bairros que vão ao Rodo. Na Boa Vista, quase todas as casas são de alvenaria, mas na parte alta encontramos casas feitas recentemente, cobertas com de resto de telhas, tábuas e folhas de zinco. Esta parte alta é popularmente chamada de morro da Boa Vista e já convive com conflitos do tráfico de drogas. O alto do morro não é de difícil acesso, mas habitantes do local não encorajam a visita de estranhos. 251 Ainda nessa área, serviços públicos como: água, luz, esgoto, asfalto, telefone, correio etc são precários ou inexistente. Apenas a vista para o shopping e para a Baía da Guanabara valoriza a transação imobiliária das casas. A associação de moradores, como em outras áreas da 251 A pesquisa não se estendeu mais na comunidade por questões de segurança. Até a década de 1980 cheguei a freqüentar a casa de alguns colegas no Morro da Boa Vista, mas hoje não me atreveria a entrar na localidade sem um bom motivo.

217 217 cidade, é loteada por pré-candidatos a vereador que se servem do cargo para trocar favores com a administração municipal. Próximo ao Bairro da Boa vista, encontramos o bairro Rosane e Brasilândia, localizados entre o litoral e o centro da cidade, onde o padrão de construção das casas é melhor. O bairro Rosane é um antigo condomínio popular da Caixa Econômica Federal e o bairro da Brasilândia é dividido em duas partes. Perto da Boa Vista e do bairro Rosane há um grande conjunto habitacional, Alair Pires, com sessenta e quatro prédios, cada um com cinco andares e um total de vinte apartamentos cada bloco. O conjunto é popularmente chamado de Coroado em referência à novela que passava no final da década de 1960 quando foi construído. O outro lado da Brasilândia é mais antigo. Suas ruas fazem referência aos estados brasileiros. As casas mais próximas à Igreja Matriz são mais valorizadas e atendidas por todos os serviços públicos. Os moradores da Brasilândia, entrevistados, são unânimes em afirmar os benefícios que o São Gonçalo shopping trouxe para o bairro. Novas linhas de ônibus, com preços especiais, foram criadas para ligar o Rodo ao shopping. Quase todas passam pelo Bairro da Brasilândia e algumas vão até Niterói via BR 101 evitando cortar todo o município de São Gonçalo. Entre a Boa Vista e a Brasilândia funcionam o Posto de Saúde da Família, o Centro Integrado de Educação Pública, o CIEP Pastor Waldemar Zarro e uma Igreja Católica recentemente construída. Atrás desses três imóveis encontra-se o único campo de futebol comunitário que ainda resiste à especulação financeira. Conhecido como campo do seu Paulino ou campo do bairro Rosane é o único reduto de lazer para os moradores dos três bairros. Nele é comum encontrarmos moradores fazendo cooper bem cedo pela manhã até a noite. Jogos de

218 218 futebol nos fins de semana, os principais comícios eleitorais e shows. Os parques de diversão e circos também escolhem a área do campo para suas atividades. Para concluir, acreditamos que as transformações em curso no município de São Gonçalo estão provocando mudanças significativas no espaço e na vida dos seus habitantes. Ao longo das duas últimas décadas e em especial à de 1990 o número de empreendimentos do setor terciário cresceu significativamente e vem acarretando uma maior heterogeneidade social, isto é diversificando as práticas que antes eram feitas apenas nas ruas estão passando também para dentro dos espaços privados, como o shopping, hiper mercados, academias e áreas de lazer privadas. As entrevistas apontam para mudanças significativas, não só nas percepções dos moradores, mas as modificações no espaço social, ou seja, no convívio e nas formas de socialização. Acreditamos também que o crescimento do município que poderá acontecer com a entrada em cena do COMPERJ poderá acarretar políticas públicas de repressão ou conversão de comunidades tradicionais, como os pescadores, para áreas mais pobres e distantes. Os espaços, que antes denominamos vazios sociais poderão se tornar espaços do capital e seus moradores, como afirmou Lessa, um povo invisível. Foram excluídos das discussões participativas antes da implantação dos Planos diretores ou são alvos das decisões de investimento de capitais estrangeiros. A resistência existe, mas não suplanta o processo de transformação em curso. A última questão se coloca: as comunidades continuaram produzindo demandas até o momento que os atores políticos e agentes do capital tomem consciência das suas atividades.

219 219 Sabe-se que a lenta maturação do ser humano que o faz depender da família, da moradia e do 'habitar', da vizinhança e do fenômeno urbano, tem por implicação a educabilidade, e por conseqüência uma espantosa plasticidade. O ser humano tem necessidade de acumular e esquecer; tem necessidade simultânea ou sucessivamente de segurança e de aventura, de sociabilidade e de solidão, de satisfações e de insatisfações, de equilíbrio e desequilíbrio, de descoberta e criação, de trabalho e de jogo, de palavra e de silêncio. A casa, a morada, a residência e o apartamento, a vizinhança, o bairro, a cidade, a aglomeração, satisfizeram, ainda satisfazem, ou não satisfazem mais a alguns desses aspectos. (LEFEBVRE, apud GUEDES, 1992). Assim como o filósofo sabemos, que a maturação do ser humano é lenta, principalmente os homens das reformas. A emergência do fenômeno urbano, isto é da entrada em cena do terciário no município, poderá trazer implicações para todos os segmentos sociais que compartilham os espaços. A necessidade de acumular e esquecer as contradições do capital, como por exemplo o aumento do sentimento de insegurança nos locais que se desenvolvem está colocando em debate essa nova sociabilidade. A opção pelos espaços fechados pode gerar um certo sentimento de segurança, mas também de solidão. A satisfação do consumismo pode levar a depressão e ao desequilíbrio. Enfim a dialética lefebvriana foi uma das escolhas para dar conta desse objeto em movimento. Da criação à destruição dos espaços surge o novo trabalho e um novo silêncio. Essa nova sociedade satisfaz ou não as pessoas que produzem e são produtos desse fenômeno urbano.

220 220 CONSIDERAÇÕES FINAIS Incentivar a prática da responsabilidade social e ambiental nas empresas não é um aspecto ligado, apenas, à ética: é também um fator estratégico fundamental para a competitividade. A empresa que adota uma gestão socialmente responsável alcança diversas vantagens em relação às que não adotam tais práticas. Esse fato pode ser comprovado pela análise de alguns índices financeiros, tais como o Dow Jones Sustentability Index que valorizou 196% em 12 anos, contra 145% do Dow Jones. Mapa do Desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro: (FIRJAN, 2006).

221 221 Relação entre as transformações econômicas e as mudanças sociais Optamos por estudar os fenômenos recentes em São Gonçalo sob uma perspectiva complexa que envolve economia, história, política e a chamada, evolução urbana. Segundo (OLIVEN, 1980, p. 14) a cidade não se auto-explica, pois não é uma totalidade, apenas a objetivação de uma totalidade maior na qual ela se insere. Nesse sentido, A partir dessa perspectiva, que denominamos de multi-visões, entramos em contato com fatores econômicos, políticos e sociais para compreender o atual estado das artes do desenvolvimento municipal como um todo. Conforme Weber (2004), a cidade é uma pré-condição para a expansão do capitalismo e seu desenvolvimento intensifica o crescimento da própria cidade. Dialeticamente, o capital produz a cidade e esta, ao crescer, intensifica a exploração capitalista, (OLIVEN, 1980, p. 14). Servindo-se dos diferentes setores da economia extrativista, industrial e pós-industrial, esse capital experimenta diferentes momentos como o atual de intensificação do setor terciário. O desenvolvimento das cidades, de modo geral, não as transforma no lócus da consciência revolucionária como desejavam Marx e Engels. Pelo contrário, através do caso estudado em São Gonçalo, podemos inferir que os novos espaços de comércio e diversão, segundo depoimentos de jovens entrevistados, tendem a produzir a expansão da consciência consumista capitalista. Essa consciência pode criar campos cegos que nos impedem de ver os vazios sociais nos arredores dos espaços de consumo.

222 222 Desde Louis Wirth, a sociologia urbana considera que o fenômeno urbano produz e reproduz um modo de vida específico e nele a cidade é definida como espaço de consumo, onde, segundo Lefebvre, (2000), o consumo do espaço se faz por meio de um campo cego cujo sentido é atribuído pelo inconsciente. São cegos porque indivíduos urbanos modernos fazem de conta que não estão vendo os espaços dos pobres, vazios sociais, onde os pobres invisíveis citados por Lessa (2000) não são mais excluídos da ideologia do consumo que ilumina esses campos. Segundo OLIVEN (1980, p. 23), nas teorias de Wirth a cidade tem o poder de induzir mudanças no comportamento social. Nas teorias de Castells, ele encontra vínculos entre o centro do modo capitalista e os efeitos nos comportamentos nas periferias. Essa ideologia da modernização tem o propósito de justificar o estado de subdesenvolvimento das sociedades mais atrasadas, encobrindo as verdadeiras causas desta situação. A periferia se transforma em mais um espaço de reprodução do consumismo capitalista, antes privilégio apenas dos centros urbanos mais desenvolvidos. Essa transformação se faz por meio de uma ideologia modernizante diferente da ideologia positivista do século XIX, pois não se traduz necessariamente nas promessas de progresso nem de ordem urbana. Esta ideologia, ou visão de mundo, opera através de mitos como a Barra de São Gonçalo, mencionada no primeiro capítulo desse trabalho, ou graças à ideologia prómercado, (NATAL, 2005, p. 60) descrita no segundo capítulo. Essas ideologias simplificam antagonismos, ocultam diferenças culturais, econômicas e sociais entre membros de uma mesma sociedade, (OLIVEN, 1980, p. 29).

223 223 Diferentemente dos autores citados por Oliven, não compartilhamos a visão pessimista de que a urbanização traz a desorganização cultural nem a visão otimista de que a urbanização provoca a mudança social. Oliven (1980, p. 30). Constatamos, a partir desse estudo realizado em São Gonçalo, que ambos os modelos pecam ao desconhecer a visão dialética. Segundo Lefebvre (2000, p. 126). a relação dialética entre a forma urbana e o conteúdo oculta a exploração capitalista urbana. A cidade vem recebendo novos empreendimentos de alcance global e alterando a sua forma, mas a sociedade em si continua alheia às principais decisões sobre seu futuro, apesar do discurso participativo. A passividade dos interessados, seu silêncio, sua prudência reticente quanto ao que lhes concerne, dão a medida da ausência de democracia urbana, isto é, de democracia concreta. Em São Gonçalo uma grande parcela dos cidadãos entrevistados classifica como um avanço e modernidade a construção do shopping, mas alguns têm conhecimento das contradições sociais que um empreendimento desse porte descortina. Se a esfera sócioeconômica e a cultural não mantêm uma relação de linearidade do tipo mecanicista, (OLIVEN, 1980, p. 33), alguns entrevistados também relacionam o aumento da violência com a maquiagem que o shopping trouxe para a Boa Vista. No terceiro capítulo, descrevemos como a percepção psicológica produz valores e motivam a crença no desenvolvimento sócio-econômico local. A maioria dos moradores do eixo Niterói-Manilha, por exemplo, continua com a mesma precariedade dos serviços básicos e a maior parte não trabalha nos novos mercados e no shopping. Ainda assim, muitos afirmam que têm agora a oportunidade de consumir nesses empreendimentos.

224 224 O filho de um pescador pode até ter a possibilidade de trabalhar num hipermercado, na construção naval, no shopping ou no futuro complexo petroquímico, mas certamente esse emprego e os novos hábitos de consumo adquiridos não interferirão na estratificação social imposta pela lógica capitalista. Segundo Oliven (1980, p. 76), essa modernização tende a criar uma homogeneização de comportamentos individuais numa escala mais ampla, processo que é fortalecido pela padronização dos bens oferecidos aos consumidores. Uma nova ordem se instala e transforma diferentes indivíduos e grupos por ela envolvidos em novos consumidores, mas as mudanças não ocorrem apenas na economia, mas também na cultura, na esfera de comportamentos, valores, estilos de vida, lealdades, identificações, concepções de mundo (Idem, 1980, p. 77). Nos fins de semana, por exemplo, filhos de antigos operários de Neves e pescadores da Baía se encontram no shopping, divididos por grupos MSN, 252 mas sentem vergonha de contar a sua origem e ocultam os sacos plásticos que usam nos pés para não sujar os sapatos em dias de chuva. São os chamados pés de barro que o shopping ajudou a descortinar. 253 As respostas apontam que a ideologia de modernização não implica em melhores oportunidades de vida, mas no acesso simbólico a todas as camadas sociais dos novos grupos de consumo, tais como os encontrados nas tribos do shopping. Agora, os grupos e 252 Grupos de jovens que se organizam através da internet para freqüentar o shopping nos fins de semana. MSN, Microsoft Service Network é um novo software que facilita a navegação na internet. Com ele, as pessoas podem pode ler seus s, falar com os amigos on-line, apreciar música e vídeo on-line e navegar na Web. Esse programa traz os benefícios das tecnologias comuns da Microsoft relacionadas à Internet como, por exemplo, o Hotmail, o Internet Explorer, o Windows Messenger e o Windows Media Player; tudo em um programa simples que funciona com a sua conexão de Internet existente. Fonte site da microsoft.com. 253 Encontramos no shopping algumas tribos urbanas de diferentes denominações, emos, posers, rockeiros, pagoderos e funkeiros. Estes grupos de jovens se reúnem na praça de alimentação nos fins de semana. São filhos das classes trabalhadoras do município.

225 225 indivíduos podem compartilhar os mesmo símbolos dos jovens da zona Sul, mas isto não produz igualdade entre eles. As desigualdades se apresentam desde a sua localização, como diz um entrevistado: não sei o porquê desse shopping ter sido construído em uma localidade tão ruim, mas de certa forma acaba iluminando o lugar, trazendo um contraste com o local em questão [...] Esse é um shopping bom e com infra-estrutura superior aos clássicos Plaza e Bay Market (em Niterói), entretanto, por opção minha, tendo a freqüentar os clássicos, não que eu seja saudosista, mas sim por vários fatores, incluindo a localidade e os freqüentadores me levam a eles. Curioso, um shopping que leva o nome de uma cidade não ser localizado no centro dela. (Depoimento de um estudante do ensino médio de São Gonçalo, em 2007). Percebemos uma mudança na tendência da exclusão da classe subalterna que agora afirma participar das atividades antes privilégios das classes médias de Niterói e de outras cidades, mas continuam sem acesso aos recursos e bens econômicos urbanos economicamente incorporados nessas cidades. O comércio e as empresas de Niterói e do Rio de Janeiro continuam, segundo o IBGE, provocando os maiores deslocamentos diários para fora do município de São Gonçalo. Os dados do último censo apontavam cerca pessoas ao dia. 254 Os invisíveis sociais citados por Lessa (2000) estão localizados fora dos centros clássicos, mas dialeticamente, essa população que trabalha ou estuda fora de São Gonçalo ainda utiliza serviços e comércios de Niterói e do Rio de Janeiro. O crescimento do terciário no município pode alterar esse quadro, mas a geração de empregos pode ser insuficiente para garantir vaga para os cerca de desempregados no município. (IBGE, 2000). 254 IBGE. Estudos e Pesquisas Estruturais e Especiais. Censo Demográfico de 2000.

226 226 Por último gostaríamos de reafirmar as formas de resistência ou resiliência 255 que encontramos nos grupos sociais entrevistados. Estes demonstram uma resistência possível às mudanças impostas pela lógica perversa do mercado. Enquanto os moradores, ex-operários e pescadores defendem suas organizações sociais tradicionais, os modelos defendidos pelo grande capital encontraram formas de combate tão eficientes como foram a lutas no passado. Estas podem representar uma fonte de inspiração para os novos embates no futuro. 255 O conceito de resiliência é usando aqui para designar as comunidades que vem ao longo do tempo resistindo às mudanças culturais e sócio-econômicas. O conceito é originário das Ciências Físicas, mas foi aplicado na Psicologia (MASTEN & COATSWORTH, 1998) para conceituar manifestações de competências e habilidades na realização de tarefas inerentes ao desenvolvimento humano. Essas competências eram observadas em pessoas que na infância passaram por situações de privação social e emocional que poderiam impedi-las de executar atividades no futuro. SOUZA, Marilza Terezinha Soares de et alli. Resiliência Psicológica: Revisão da Literatura e Análise da Produção Científica. Revista Interamericana de Psicología/Interamerican Journal of Psychology , Vol. 40, Num. 1 pp

227 227 Interrogando as Novas Centralidades no Eixo Niterói Manilha A ideologia de modernização implica na construção de novos espaços de consumo e lazer na periferia, como o São Gonçalo shopping, visando dar acesso às classes C e D aos novos mercados. Segundo podemos observar em Natal (2004), os empresários começaram a dirigir produtos e propagandas para atrair essas classes, a partir de 2003, o que coincide com o início da construção do shopping, com a intenção de incorporar aqueles que ganham de 2 a 10 salários mínimos e constituem cerca de 40% do mercado de consumo do país e mais de 30% dos domicílios brasileiros. (Idem, 2004, p. 108). Para que essas classes passem a consumir os produtos oferecidos nos empreendimentos recém inaugurados é necessário criar novos estilos de vida e visões de mundo para dirigir o consumo como apontava Lefebvre ao criticar, na revolução urbana: o capitalismo burocrático de consumo de massa dirigido. Uma nova dinâmica econômica impõe mudanças especiais para transpor obstáculos, mas não dissipa a antiga relação entre crescimento econômico e distribuição de seus frutos. (Idem, 2004, p. 116). A tese apontada por Natal de que a inflexão econômica não dá conta de explicar o crescente numero de indigentes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, apesar do crescimento econômico, aqui corrobora o drama social que detectamos em São Gonçalo e se transforma em comédia. Os excluídos assistem, das suas casas nos morros da Boa Vista ou de Neves a chegada de novos produtos ao Carrefour, Wal Mart e ao Shopping, mas ainda não podem tocá-los. Nesta tese, os fatores de natureza sociológica são convidados a explicar esta cena dantesca em São Gonçalo. A febre apontada por Natal para os shoppings da periferia,

228 228 que triplicaram de número nesta década (Idem 2004, p. 122), não ampliou na mesma progressão o número de postos de trabalho. A febre que pudemos observar em todos os segmentos sociais entrevistados é a do aumento na sensação de insegurança e do consumo de bens supérfluos. A modernização das indústrias multinacionais em São Gonçalo também está produzindo, desde a década de 1990 a queda do emprego industrial. Os cortes na Seves, B- braun, LaFarge, Akzo Nobel e Quaker Oats devem-se à modernização e à substituição do trabalho humano. Além disso muitas lojas e indústrias não absorvem o trabalho dos jovens sem qualificação profissional. Os Sindicatos dos Trabalhadores, nitidamente esvaziados no município desde a década de 1980, não têm poder de negociação e não oferecem cursos profissionalizantes suficientes aos jovens sem esperança, que acabam engrossando as fileiras da criminalidade (Idem, 2004, p. 249). Em resumo, Natal corrobora a nossa tese ao afirmar que o clima de euforia no Estado do Rio de Janeiro, também encontrado em nossa pesquisa sobre São Gonçalo, deve ser encarado com a devida cautela. Observamos que a concentração de renda também aumenta, proporcionando este cenário contraditório. Assim como a riqueza do petróleo não permanece na Bacia de Campos, a riqueza prometida por novos empreendimentos em São Gonçalo ainda não foi descortinada. Para não repetirmos argumentos e opiniões de Natal (2005) e Penalva Santos (2003), optamos pelo viés sociológico ao apontar que, ao contrário das teses dominantes, para a maioria dos segmentos entrevistados em São Gonçalo o quadro econômico é favorável e permite o acesso aos símbolos de status representados por produtos e serviços que circulam

229 229 na economia global. O morador mais pobre da Boa Vista ou do distrito de Neves acredita que um dia entrará no templo do consumo e acessará os bens e serviços de que necessita. Esse morador nem sempre perde ou ganha, vive a procura de brechas no vazio social de serviços públicos e ofertas de emprego. Não sabe, em tese, que o dinamismo econômico que o município experimenta nem sempre determina a distribuição funcional da renda (NATAL, 2005, p. 21), mas nem por isso deixa de mimetizar aqueles que têm acesso a essa renda. 256 Antes dos hiper mercados, do piscinão e do shopping, a população da orla gonçalense experimentava uma crescente perda de auto-estima detectada através dos inúmeros apelidos e piadas sobre as suas histórias de vida. É inegável que os novos empreendimentos contribuíram para o resgate dessa auto-estima e para uma mudança na identidade local, antes ligada à indústria e ao mundo do trabalho. Diferentemente do Estado do Rio de Janeiro que, segundo Natal (2005, p. 46) passou por um período de crise econômica no intervalo que compreende os anos de 1980 até 1995, São Gonçalo, de modo geral, passou a vivenciar o crescimento do seu setor terciário que contribuiu para esse clima de aparente euforia. Enquanto a crise do Estado Rio de Janeiro tem sua origem na industrialização capitalista de São Paulo no último quartel do século retrasado delegando às demais economias regionais funções especializadas e de complemento à principal economia do país, (NATAL, 2005, p. 47) a crise em São Gonçalo e de outros municípios pobres no Estado faz parte dessa lógica brasileira, mas também pode ser explicada pela incompetência de alguns políticos locais como tentamos demonstrar no segundo capítulo desse trabalho. Em São 256 Muito provavelmente os jovens que se organizam em tribos urbanas aos sábados no São Gonçalo shopping não sabem ao certo porque representam papeis muito diferentes da sua realidade. Filhos de pescadores se transformam em emos, filhos de operários da construção naval em roqueiros ou punks. Mimetizam a juventude das classes médias e altas do Rio de Janeiro e de São Paulo na esperança de ter a mesma distinção social.

230 230 Gonçalo, sucessivos grupos políticos se revezaram e, ainda se revezam, no poder há décadas, bem antes do início da hegemonia econômica paulista. Além dessa pseudo elite política o Estado e o município têm, conforme frisa Natal, as chamadas elites empresariais que conseguiram transformar o discurso pró Rio de Janeiro em defesa de interesses particulares estritamente econômicos em supostos interesses regionais. (NATAL, 2005, p. 48). Em alguns casos, esses interessas encontram-se travestidos de incentivos à prática da responsabilidade social e ambiental para ampliar a margem de lucro nas bolsas de valores de Nova York. 257 No terceiro capítulo tentamos apresentar como as falácias do planejamento urbano, dito participativo, continuam sendo as marcas indeléveis desta nova forma de intervenção no espaço urbano, sublinhando a prevalência do mercado sobre as antigas modalidades de planejamento mais orientadas pelo Estado e pelos também chamados interesses nacionais. (NATAL, 2005, p. 49). Observamos como os Planos Diretores de 1991 e de 2006 são quase fac-símiles de propostas contidas no Plano anterior da FUNDREM e de estudos do IBAM, quando o Estado possuía agências de planejamento mais adequadas que muitos dos atuais escritórios terceirizados. 258 A inflexão econômica positiva apontada por Natal pode induzir à euforia, mas a recente centralidade na economia do eixo Niterói-Manilha mostra que alguns desses estabelecimentos industriais, comercias e de serviços remetem seus lucros para as suas sedes e não investem no local em que se situam. Nossas pesquisas sobre a responsabilidade social de 257 FIRJAN. Mapa do Desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro, , página Por exemplo, na pesquisa bibliográfica encontramos trabalhos do antigo Centro de Pesquisa Urbana, CPU do Instituto Brasileiro de Administração Municipal IBAM, elaborado por Carlos Nelson Ferreira dos Santos, Marco Antonio da Silva Mello, François Bremaker, Arno Vogel entre outros, que desde a década de 1970 elaboraram propostas para São Gonçalo.

231 231 alguns desses estabelecimentos apontam que ainda há mais propaganda que atividade efetiva. A despeito dos novos postos de empregos criados e dos impostos gerados, o orçamento do município de São Gonçalo vem seguindo a taxa de crescimento dos últimos anos. Outro ponto abordado nesta tese foi a privatização do trecho norte da Rodovia Federal BR 101 que corta o Município de São Gonçalo por uma empresa espanhola. Graças ao aumento de fluxos o lucro será garantido. Natal ao abordar o conceito de rede urbana nos indica que esta rede é composta por fluxos materiais e imateriais agindo sobre os fixos, espaço geográfico, que estão provocando mutações nas cidades e bairros por onde passa o novo capital global. Segundo Milton Santos, as grandes mutações contemporâneas que produzem novas técnicas de expansão capitalista aderem o capital global ao território e ao cotidiano em quase todo o mundo. Vivenciamos uma nova materialidade que, segundo Milton Santos, constrói um mundo confuso e perverso, mas dialeticamente pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana. Segundo Milton Santos, a grande mutação tecnológica é dada pela emergência e disseminação de técnicas da informação como o MSN na sociedade, que une os jovens no shopping aos sábados. Ao contrário das técnicas das máquinas essas tecnologias de comunicação são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso perverso atual seja subordinado aos interesses dos grandes capitais. Quando sua utilização for democratizada, entretanto, essas técnicas doces poderão estar ao serviço do homem para trazer mais responsabilidade que consumo.

232 232 Santos também nos fala de uma mutação filosófica do homem que poderá capacitá-lo a atribuir um novo sentido à sua existência, não apenas as ideologias do consumismo que presenciamos em nossa pesquisa. Acreditamos que novos empreendimentos são necessários e bem-vindos. No entanto, a relação entre expansão econômica e bem-estar social implica num conjunto de mediações que não podem sucumbir ao raciocínio fácil e imediato do mercado.

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244 244 ANEXOS Anexo A. Evolução Política do Município de São Gonçalo. 259 A partir da década de Ano Prefeito 1940 Eugênio Sodré Borges/ Brígido Tinoco Egílio Justi/ Aécio Nanci 1947 Darci Pereira Nunes/ Alberto Goulart de Macedo 1948 Alberto Goulart de Macedo Egílio Justi 1952 Gilberto Afonso Pires / Joaquim de Almeida Lavoura Gilberto Afonso Pires 1956 Joaquim de Almeida Lavoura Joaquim de Almeida Lavoura 1960 Joaquim de Almeida Lavoura / Jeremias de Mattos Fontes/ Fidélis Freire Ribeiro (interino) 1963 Fidélis Freire Ribeiro (interino)/ Jeremias de Matos Fontes 1964 Jeremias de Matos Fontes Joaquim de Almeida Lavoura ou Osmar Leitão Rosa 1968 Joaquim de Almeida Lavoura José Alves Barbosa/Osmar Leitão Rosa/Nicanor Ferreira Nunes 1971 Nicanor Ferreira Nunes 1972 José Alves Barbosa ou Nicanor Ferreira Nunes 1973 / Joaquim de Almeida Lavoura 1974 Joaquim de Almeida Lavoura 1975 Joaquim de Almeida Lavoura/ Zeir de Souza Porto 1976 Zeir de Souza Porto 1977 Zeir de Souza Porto /Jayme de Mendonça Campos 1978 Jayme de Mendonça Campos 1979 Jayme de Mendonça Campos / José Alves Torres/ Jayme de Mendonça Campos 1980 Jayme M. Campos/ Arismar Dias/Jayme Campos/Arismar Dias/ Jayme M. Campos 1981 Jayme de Mendonça Campos Jayme de Mendonça Campos /Hairson Monteiro dos Santos 259 Fontes: SANTOS, Carlos Nelson Ferreira dos: Processo de crescimento e ocupação da periferia. RJ, IBAM, 1982, e BRAGA, Maria N. C. O Município de São Gonçalo e a sua história, p.176/177. São Gonçalo, Além de dados pessoais.

245 1984 Hairson Monteiro dos Santos / Manoel de Lima 1989 Edson Ezequiel de Mattos João Barbosa Bravo Edson Ezequiel Mattos Dr. Charles Armond Calvert Maria Aparecida Panisset

246 246 Anexo B. Bairros do Município de São Gonçalo, º Distrito: São Gonçalo 2º Distrito: Ipiíba 3º Distrito: Monjolos 4º Distrito: Neves 5º Distrito: Sete Pontes (30 bairros) (20 bairros) (17 bairros) (13 bairros) (10 bairros) Alcântara Almerinda Barracão Boa Vista Barro Vermelho Antonina Amendoeira Bom Retiro Camarão Covanca Boaçu Anaia Grande Gebara Gradim Engenho Pequeno Brasilândia Anaia Pequeno Guarani Mangueira Morro do Castro Centro Arrastão Jardim Catarina Neves Novo México Colubandê Arsenal Lagoinha Parada 40 Tenente Jardim Cruzeiro do Sul Coelho Laranjal Paraíso Venda da Cruz Estrela do Norte Eliane Largo da Idéia Patronato Zumbi Faz. dos Mineiros Engenho do Roçado Marambaia Porto da Madama Santa Catarina Galo Branco Ieda Miriambi Porto Novo Pita Ilha de Itaoca Ipiíba Monjolos Porto da Pedra Itaúna Jardim Amendoeira Pachecos Porto Velho Lindo Parque Jóquei Raul Veiga Vila Lage Luiz Caçador Maria Paula Santa Luzia Mutondo Nova Repúplica Tiradentes Mutuá Rio do Ouro Vila Três Mutuaguaçu Sacramento Vista Alegre Mutuapira Santa Izabel Nova Cidade Várzea das Moças Distritos e suas áreas no Município. Palmeiras Vila Candosa 5 Distritos Área em ha. Porto do Rosa 1º São Gonçalo (sede) Recantos das Acácias 2º Ipiíba - Rio do Ouro Rocha 3º Monjolos, J Catarina Rosane 4º Neves Salgueiro 5º Sete Pontes São Miguel Vila Iara Área total ha. Zé Garoto Tribobó Trindade Fontes: Plano Diretor da Prefeitura Municipal de São Gonçalo, A divisão de São Gonçalo em cinco Distritos. A modificação administrativa verificada em 31/07/1957 e ainda utilizada. 260 Fonte: Pesquisa realizada em agosto de 2007 no site da Prefeitura Municipal de São Gonçalo.

247 247 Anexo C. Desenho do Arco Rodoviário e relação de Municípios da RMRJ, Idem.

248 248 Anexo D. Distritos do Município de São Gonçalo, Idem, ibdem.

249 249 Anexo E. Bairros do Município de São Gonçalo. 2007, Idem, ibdem

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