REVISTA SABER ACADÊMICO N 16 / ISSN VASCONCELLOS, A. R IDENTIDADE NA PERSPECTIVA DE ZYGMUNT BAUMAN

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1 43 Artigo original IDENTIDADE NA PERSPECTIVA DE ZYGMUNT BAUMAN VASCONCELLOS, A. R. 1 Nome Completo: Ana Rodrigues Vasconcellos Artigo submetido em: 10/06/2013 Aceito em: 30/10/2013 Correio eletrônico: RESUMO O livro Identidade de Bauman é escrito com base em uma entrevista entre Benedetto Vecchhi e Bauman, onde é dispensado entrevistas formais e técnicas de coleta de dados para o uso informal do . Bauman acaba surpreendendo o autor com suas memoráveis contribuições ao tema proposto, Identidade. Benedetto destaca com particularidade a figura de Bauman como sociólogo e como o mesmo se destaca dos demais, pois suas reflexões não apenas contextualizam os acontecimentos, mas estabelece-os como fenômenos sociais. Bauman estabelece um grande vínculo de afetividade com a esposa Janine, que relata carinhosamente a sua participação nas suas produções intelectuais bem como sua vida pessoal. Partindo desses princípios, este trabalho se propõe a um diálogo sobre a Identidade e suas características sociais estabelecidas por BAUMAN, Zygmunt. Palavras Chaves: Identidade, Sociologia, Psicologia, Modernidade, Líquida. ABSTRACT Identity The book is written based on an interview between Benedetto Vecchhi and Bauman, which is waived formal interviews and data collection techniques for informal use of , Bauman ends up surprising the author with his memorable contributions to the proposed theme, Identity. Benedetto out with particularity the figure as a sociologist 1 Ana Cristina Rodrigues de Vasconcellos Docente da UNIESP Ribeirão Preto PEDAGOGA, MESTRE EM EDUCAÇÃO E PSICÓLOGA.

2 Bauman and how it stands out from the rest, as his reflections not only contextualize the events, but establishes them as social phenomena. Bauman establishes a great bond of affection with his wife Janine, who affectionately describes his participation in their intellectual productions as well as his personal life. Based on these principles, this paper propose a dialogue on identity and their social characteristics established by Bauman, Zygmunt. Keywords: Identity, Sociology, Psychology, Modernity, Net 44 INTRODUÇÃO A trajetória de Bauman, sendo de família judia, tendo servido no exército polonês, traz grandes contribuições para o seu pensamento sobre temas relevantes, que o inspira a publicar algumas de suas importantes obras. Bauman iniciou a sua carreira na Universidade de Varsóvia onde teve algumas de suas obras censuradas. Um dos clássicos de Bauman foi a obra intitulada de: Modernidade e Holocausto tornando-o conhecido pela sua criticidade ao regime Nazista e suas considerações sobre a liberdade. Bauman tem muitas obras publicadas, inclusive no Brasil, entre elas destacamos: Amor líquido, Globalização: as conseqüências humanas e Vidas Desperdiçadas. Em sua obra Identidade, pode-se perceber o quanto Bauman estabelece vínculos com diversos segmentos sociais interpretando-os de forma inteligente e envolvente, pois a leitura de sua obra nos remete a um processo de grande reflexão sobre nós mesmos e sobre a nossa realidade social. Bauman aborda vários tipos de Identidades e traz reflexões sobre o ato de pertencer. A esse aspecto, me recordo do nosso Hino Nacional Brasileiro e com a seguinte estrofe, Terra Adorada, entre outras mil, és tu Brasil, Ó pátria amada, dos filhos desse solo és mãe gentil, Pátria amada Brasil. Ao que parece, temos a necessidade de nos afirmar enquanto brasileiros, filhos desse chão, dessa terra, Bauman vivencia isso também, quando está para decidir sobre qual hino seria tocado na sua homenagem, percebi o quanto o sentimento de pertença é importante para nossas vidas e o quanto isso influencia nas nossas falas e até na nossa existência. A esse aspecto, Bauman trabalha a questão da pertença e da Identidade como algo que não é tão sólido, mas negociável os define como flutuantes, algumas, de nossa própria escolha e outras lançadas por pessoas a nossa volta. Bauman inclui a reflexão sobre família, estado e Igreja como constituintes importantes na construção da Identidade.

3 45 Quando fala em Identidade Nacional, percebe-se que o autor considera a questão do Estado moderno no enfrentamento de novas possibilidades de relações a partir das novas identidades produzidas pela sociedade do consumo. A própria questão habitacional, onde um aglomerado de pessoas convive num determinado espaço de terra buscando afirmar suas raízes, seus berços e laços familiares e ainda os que vagam pelas ruas com a sensação de não pertencer nem a este nem aquele lugar os quais Bauman os trata de pessoas sem senhor ou até mesmo pessoas sem dono. BAUMAN E A SOCIEDADE LÍQUIDO MODERNA A essa ideia de sem dono Bauman contextualiza a chamada Comunidade Virtual onde cada um assume o papel que quer, e a qualquer momento pode deixar de pertencer a essa ou aquela comunidade sem danos aparentes. comunidades de frágeis. Bauman chama essas Bauman me faz refletir sobre nossas comunidades virtuais como possibilidades de fuga e de adquirir outras identidades das quais não precisamos dar conta a ninguém. Não que seja contra a tecnologia, mas reitero o autor nas suas considerações do quanto à presença física de alguém, um olhar atencioso pode mudar as nossas relações de proximidade. De acordo com Bauman, parece que estamos numa grande onda de esquizofrenia digital onde o estar junto só faz sentido de precisarem de você ou se ganhar algo em troca. É nisso que nós, habitantes do líquido mundo moderno, somos diferentes. Buscamos, construímos e mantemos as referências comunais de nossas identidades em movimento lutando para nos juntarmos aos grupos igualmente móveis e velozes que procuramos, construímos e tentamos manter vivos por um momento, mas não por muito tempo. (BAUMAN, 2005, p. 32) Essa diferença apontada por Bauman, nada mais é do que a sensação de uma liberdade que não existe verdadeiramente, pois a cada dia nos tornamos mais parecidos um com os outros, pois a nossa forma de vida acaba se moldando nas etiquetas e nos prazos de validade dos produtos que adquirimos para pertencermos a comunidade e sermos habitantes do mundo em movimento. Segundo Bauman, na sociedade líquido-moderna, nos ligamos aos nossos celulares e desligamo-nos completamente da vida sendo capazes de andarmos em uma rua cheia sem

4 46 ver as pessoas. Aqui cabe ressaltar quando Bauman fala sobre o processo de individualização em excesso, as identidades são bênçãos ambíguas que oscilam entre o sonho e o pesadelo e não há como dizer onde um se transforma no outro. As relações de trabalho e da posição ou cargo que ocupa em determinada empresa acabam por determinar o bom ou mau cidadão que é. Pessoas comuns vivem inúmeros projetos de vida, sem sequer terem tempo para reflexão e decidirem se querem ou não buscar alternativas de mudanças. Nessa perspectiva, muitos encontram oprimidos por identidades impostas pelos outros, identidades de que eles próprios se ressentem, mas não têm permissão para abandonar. A esse aspecto, Bauman fala sobre a chamada Subclasse, onde pessoas que perderam o direito de ter a sua identidade preservada por ser filho de mãe solteira, mendigo, viciado em drogas, e assim sucessivamente. Percebo o processo de exclusão nessa situação específica e o quanto a nossa sociedade é medíocre com os chamados diferentes Lembro do poema de Manuel Bandeira, (1993) que retrata essa realidade; O Bicho Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, Era um homem. (MANOEL BANDEIRA, 1993) Bauman retrata a miséria como uma produção do capitalismo desenfreado quando fala do lixo humano que tem sido despejado em lugares por onde a economia foi praticada provocando um aumento da pobreza e da desigualdade social. Quando abordado sobre o significado de cidadania, Bauman descreve o descaso e despreparo do Estado nas mínimas provisões que seriam cabíveis aos menos favorecidos e que por não dar conta da demanda, acaba sendo desacreditado da população. Ao que parece, a população além do descrédito nas promessas do Governo do Estado, ainda sofrem com a experiência do abandono e desprovidos de qualquer amparo se sentem renegados e desprotegidos e ainda assombrados com a exclusão. Bauman chama de

5 47 comunidade fundamentalista a sensação de expectativa e prazer de se pagar para a diminuição da espera e do desejo, formando a sociedade do cartão de crédito, onde se tem o que quer a hora que quer. A comparação da formação da Identidade com um quebra cabeças, nos remete a construção da Identidade pela racionalidade do objetivo, onde se tem algumas peças, mas não se sabe exatamente o resultado final do jogo. Nessa construção da identidade, não há modelos pré-definidos ou estabelecidos por um desenho ou diagrama, não é possível ajustar todas as peças, pois nem sempre elas se encaixam. Bauman fala do processo de libertação ao poder de atribuir tarefas e objetivos na criação dessa Identidade. Nesse momento, a sociedade rígida, passa a ser considerada por Bauman uma sociedade líquida. No processo de liquidez, a sociedade rígida sofre com o desmantelamento dos direitos e obrigações que atavam pés e mãos que impossibilitavam os movimentos e iniciativas. Assim, derretendo esses sólidos, as redes de relações sociais estariam desprotegidas e expostas a outras regras de ações. O derretimento dos sólidos gera com isso, uma progressiva liberdade na economia no que tange as tradições políticas, éticas e culturais. Sedimentando uma nova ordem econômica. Bauman relata sobre o ressurgimento do nacionalismo e da procura por autonomia e independência em meio à crise social causada pela perda dos meios convencionais de proteçã0 ficando de fora os ventos congelantes, furacões, tempestades emboscadas dando lugar ao aconchego de estar dentro um sonho agradável, uma visão do paraíso. Os relacionamentos descritos por Bauman nos dão o entendimento de que se busca a realização pessoal independente de qualquer coisa ou pessoa. Num relacionamento, as pessoas estão mais dispostas a trocar ou desfazer do que não lhes interessa do que estabelecer laços e vínculos duradouros. A única razão de manter algo ou alguém por perto está na expectativa de satisfação a qualquer preço. A valorização das relações está diretamente relacionada com o valor que damos as coisas, segundo Bauman, os relacionamentos passam pelo teste da validade, e se já estão em desuso, com algum defeito, devem ser retirados de circulação. Percebo que a cada momento, incentivados que somos pela mídia ou outros, substituímos pessoas por pessoas por acharmos que seu prazo de validade acabou. Não estaríamos então nos identificando como objetos também? O investimento na área amorosa vem sendo descartado para que não se estabeleça vínculo ou compromisso mútuo. Nesse caso, a Internet é apontada por Bauman como meio de

6 48 salvação para alguns, pois não é necessário relacionar-se ou correr perigo com o próximo, gerando falta de comprometimento e relacionamentos frágeis. Numa sociedade sem respostas para muitas indagações, surge a figura de Deus, com certeza pensada, estudada, admirada e odiada por muitos. Quando não se tem explicação para os nossos imediatismos, então atribuímos a Deus as respostas e nos damos conta de que não é necessário entrar em conflito com algo que não nos pertence. Cada cultura e raça criam e recriam formas e técnicas para acessá-lo, pois ele sempre estará lá. CONSIDERAÇÕES FINAIS Embora Bauman fale das confusões sociais de afirmação das identidades, também relaciona as mesmas classes sociais com o fundamentalismo religioso. Bauman nos fala que muitas igrejas acabam por exercer o papel do estado quando reconhece e valoriza a simplicidade das pessoas que ali se achegam. Tais movimentos religiosos, na sua grande maioria, se estabelecem em comunidades empobrecidas e esquecidas pelo Estado Social num processo de acolhimento. Quando Bauman fala do processo de globalização destaca a complexidade das relações criadas a partir do uso das novas tecnologias da comunicação que nos permite falsear identidades como um simples passatempo, ele alerta para o risco de criar falso o que nem se tem de verdadeiro, no caso a identidade, destacando a correria das pessoas em busca do modismo. Estar conectado a grande rede não exatamente pressupõem estar aceito. O perigo da substituição da pessoa real pela virtual está cada vez mais em moda. Na grande teia, é possível ter um milhão de amigos sem se quer ter conhecido um. Nesse cenário virtual, o contato pode ser interrompido ou deletado a qualquer momento, bastando para isso um único click. O contato vital se tornou a forma mais segura de manter possíveis escolhas e desejos. Bauman ainda fala sobre à auto identificação e que tem poucas chances para ser concluída, e que não há receitas infalíveis para resolver os dilemas criados e comentados durante a entrevista. Bauman: Encerro essa conversa, com uma citação de Bennedetto Vechhi a respeito de Parafraseando uma de suas respostas a respeito da identidade, podemos afirmar com segurança que a

7 globalização, ou melhor, a modernidade líquida, não é um quebra-cabeça que se possa resolver com base num modelo preestabelecido. Pelo contrário, deve ser vista como um processo, tal como sua compreensão e análise da mesma forma que a identidade que se afirma na crise do multiculturalismo, ou no fundamentalismo islâmico, ou quando a internet facilita a expressão de identidades prontas para serem usadas. (BAUMAN, 2005, p. 11) A Esse processo de busca de Identidade e do sentimento de pertença, percebo que Bauman acaba traduzindo o que parecia simples num momento de profunda reflexão sobre nós mesmos, nossas relações, nossa existência e nosso comprometimento com o próximo enquanto cidadãos de uma sociedade líquida. 49

8 50 REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: J. Zahar. MANUEL Bandeira. Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, (20ª ed.), pp e 222 BRASIL, Hino Nacional Brasileiro, Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/hino.htm> Acessado em: 19/05/2009

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