MOBILIDADE: UMA ABORDAGEM SISTÊMICA 1. Renato Balbim 2

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1 MOBILIDADE: UMA ABORDAGEM SISTÊMICA 1 Renato Balbim 2 O objetivo deste texto é apresentar o conceito de mobilidade e as diversas formas que esta adquire. A tentativa é de ilustrar rapidamente cada uma delas e, em seguida, revelar como cada uma dessas formas se relacionam num processo sistêmico em que uma pode possibilitar, impedir, estimular, transformar o conteúdo e a realização de todas as outras. Antes disso, é importante revelar, ainda que rapidamente, o significado da questão da mobilidade para o urbanismo moderno. Para tanto, propõe-se uma pequena abordagem acerca do termo circulação, seu surgimento e desenvolvimento. A idéia de circulação surge, em 1628, em referência ao movimento do sangue no corpo. Sua aplicação de forma conjunta com a respiração teve que esperar por Lavoisier no, século XVIII, que foi quem falou pela primeira vez em sistema de circulação. Foi a partir da generalização dos paradigmas da circulação, sobretudo das teorias do aerismo durante o século 19, que se passou a conhecer várias e profundas alterações nas cidades, sobretudo com o higienismo, a engenharia civil e o planejamento público. Neste momento, o contrário da insalubridade é o próprio movimento. O pensamento aerista pregava a ventilação como fonte de purificação, o que deu surgimento às primeiras recomendações urbanísticas de alargamento de vias, direção, continuidade e mesmo perspectiva. A partir daí a saúde do homem passou a ser vista como dependente do ambiente e das condições de salubridade. No entanto, a idéia de circulação só foi usada em referência aos deslocamentos dos homens depois destas revoluções. Na economia a idéia de circulação foi utilizada a partir do final do século 17, quando a noção de valor monetário passa a fundamentar a idéia das trocas. A partir de todas essas inovações aqui apenas citadas, a circulação de bens, pessoas, do ar, da água, etc, começou a ser vista como benéfica em si, gerando economia, melhorias ambientais, de saúde, oportunidades, diversidades. O primeiro urbanista a efetivamente realizar um plano urbano a partir desse novo 1 Este texto surgiu de apontamentos para palestra proferida na CETESB / Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, em 07 de outubro de Doutor em Geografia Humana. Pesquisador e Consultor na área de planejamento urbano, trânsito, transporte e mobilidade. 1

2 elemento, a circulação, foi Ildefonso Cerdà, com o Plano de Reformas de Barcelona de 1868, antes mesmo de Hausmman, que muitos tomam como o grande idealizador da cidade moderna. No entanto, a cidade do movimento já havia sido projetada e estava em execução bem ao sul de Paris. Apenas para que fique claro, até esse momento, as cidades, evidentemente, também eram projetadas com vistas a permitir o movimento. No entanto, não se podia falar em urbanismo como ciência, mas sim em arte urbana, baseada no pensamento clássico, a partir do qual o traçado viário estava subjugado às determinações arquitetônicas, não sendo pensado apenas para o trânsito, como forma de assegurar a circulação urbana e suas diversas formas, mas segundo práticas religiosas, sociais, culturais, políticas e simbólicas. A importância da circulação para o urbanismo moderno e para a própria idéia de cidade e do modo de vida urbano foi brilhantemente tratada pelo geógrafo Max Sorre, já nos anos Para este autor existe uma clara diferença entre o mundo rural e o urbano e ela reside na força criadora da circulação, que estaria vinculada à existência das cidades e ao seu desenvolvimento histórico. Para Sorre (1984:116), participar de uma vida de relações extensas cria esta atmosfera para a qual foram criadas as palavras civilidade e urbanidade. Para os olhos de um geógrafo, diz Sorre, a cidade não é um acidente da paisagem, seus traços fisionômicos são a expressão concreta e durável do gênero de vida urbano, dominado pela atividade da circulação, oposto aos gêneros de vida rurais. O gênero de vida, para aqueles que não estão acostumados com a terminologia geográfica, é a combinação de técnicas empregadas num determinado lugar, por uma determinada sociedade organizada, para assegurar sua reprodução. Os elementos do gênero de vida de cada grupo estabelecem um equilíbrio que assegura a coesão interna do grupo, garantindo, ao mesmo passo, a sua própria perenidade, que é uma de suas características essenciais dos gêneros de vida. Ou seja, Sorre quis dizer que a circulação, o movimento, é a característica que imprime não apenas os traços e traçados essenciais das cidades modernas, mas é a característica que dá coesão ao gênero de vida urbano, a essa maneira de viver que nos faz se identificar, em certa medida, com qualquer outra pessoa que também more numa cidade. A partir desta breve introdução sobre a idéia de circulação, a importância que adquire para cada um de nós, e o papel que tem na explicação das cidades, pode-se passar a discutir a idéia de mobilidade. 2

3 O conceito de mobilidade e suas acepções. O conceito de mobilidade nasce da influência da mecânica clássica, na qual os fluxos seguem a lógica de atração proporcional às massas e inversamente proporcional às distâncias. Nas ciências sociais, sua vocação foi, desde sempre, ligar o tráfego à sociedade que o faz a cada dia mais intenso. Deve-se ter claro que a noção de mobilidade supera a idéia de deslocamento, pois traz para a análise suas causas e conseqüências, ou seja, a mobilidade não se resume a uma ação. Ao invés de separar o ato de deslocamento dos diversos comportamentos individuais e de grupo, presentes no cotidiano, o conceito de mobilidade tenta integrar a ação de se deslocar, quer seja uma ação física, virtual ou simbólica, ao conjunto de atividades do indivíduo e da sociedade. Em parte a mobilidade está relacionada às determinações individuais: vontades ou motivações, esperanças, limitações, imposições, etc. Mas a sua lógica apenas se explica através da análise conjunta dessas determinações com as possibilidades reais e virtuais apresentadas pela sociedade e pelo lugar de vida para que ela se concretize, ou seja, levando em conta a organização do espaço, as condições econômicas, sociais e políticas, os modos de vida, o contexto simbólico, as características de acessibilidade, o desenvolvimento tecnológico. Ou seja, de maneira extremamente sintética, mobilidade, nas ciências sociais, designa formas de movimento de homens, bens ou idéias, além de suas motivações, possibilidades e constrangimentos que influem, tanto na projeção, quanto na realização dos deslocamentos. Para que se torne mais claro o que se quer tratar por mobilidade é relevante depararmo-nos com as diversas acepções dadas ao conceito. Max Sorre (1955), por exemplo, fala da existência de uma mobilidade essencial, traduzida pela pressão contínua exercida sobre os limites do ecúmeno para fazê-lo coincidir com a terra habitável. Mas, o que significa isso? A mobilidade essencial refere-se à vontade presente no ser humano de se deslocar, de conhecer novos mundos, de explorar. Ecúmeno é o termo aplicado para se referir ao mundo habitado, transformado pela ação humana. Ou seja, a mobilidade essencial é aquela que explica a vontade do homem de expandir as fronteiras do mundo. Sem essa mobilidade essencial, pergunta o autor, como explicar a mescla de tipos que caracteriza as regiões da terra? Essa mesma mobilidade essencial continua impulsionando o homem, agora para fora da terra, para que o ecúmeno seja enfim transponível. 3

4 Isaac Joseph (1984), por sua vez, aponta a existência de três mobilidades de base. A primeira responde à característica própria do homem de ser um ser capaz de locomoção, que realiza encontros e experiências de co-presença. A segunda mobilidade se refere ao lugar específico do habitat urbano, fruto de uma relação particular entre a mobilidade social e a mobilidade residencial, é o que se chama mais à frente de mobilidade cotidiana. A terceira mobilidade é aquela que George Simmel chama de mobilidade sem deslocamento, em referência à versatilidade do habitante da cidade em viver, por exemplo, o passar da moda como modo de vida, movendo-se, transmutando-se, sem que haja mudanças de um lugar para outro. No dicionário crítico de geografia editado por Brunet, Ferras e Théry (1993), a mobilidade é definida como uma forma de movimento que se exprime pela mudança de posição (geográfica ou social). Segundo os autores, existem vários tipos de mobilidade: A mobilidade social é vista através das classes sociais, na verdade classes de renda ou apenas indicações exteriores de renda. Ela é invocada apenas como ascensão, sendo mais ou menos difícil conforme a sociedade em questão. A mobilidade profissional é traduzida por mudança de profissão e tem relações com a precedente. Já a mobilidade do trabalho é medida pelo tempo passado em média pelo trabalhador numa mesma empresa, o que também é chamado de mercado de trabalho. Essas três formas podem alimentar mobilidades geográficas, que implicam mudança de lugar, migrações etc. A mobilidade geográfica pode constituir-se de deslocamentos cotidianos recorrentes, fruto da separação entre lugar de trabalho e habitação (migração pendular), de movimentos destinados às compras e ao lazer, ou, ainda, resultar de ritmos sazonais, imposições de ordem natural, etc. Os deslocamentos duráveis, com mudança de residência, podem ser impostos (deportação, exílio, êxodo) ou desejados (mudanças de vida). Afinal, os tipos de mobilidade apenas no espaço geográfico poderiam ser sistematizados através de uma tipologia articulada em volta das dimensões temporal e espacial do movimento: 1 temporal: intenção de retorno num curto espaço de tempo (movimento circular de ida e volta), ou, ao contrário, ausência de intenção de retorno breve (movimento linear). 2 espacial: deslocamento interno ao lugar de vida ou deslocamento para fora desse lugar. Como resultado, têm-se quatro tipos de mobilidade espacial ou geográfica, aqui não considerados o sedentarismo e o nomadismo. 4

5 São eles: mobilidade cotidiana (movimento interno e cíclico); mobilidade residencial (movimento interno e linear); as viagens e o turismo (movimento externo e cíclico); as migrações (movimento externo e linear). A cada um desses quatro tipos correspondem temporalidades sociais específicas: - mobilidade cotidiana: temporalidades curtas, ritmos sociais da vida cotidiana. É um tempo recorrente, repetitivo, que implica retorno cotidiano à origem. Sua repetição forja hábitos e práticas espaciais. Esse é o termo mais correto para se referir aos deslocamentos, às estratégias de deslocamento, aos orçamentos espaço-temporais, aos modos de transporte e às condições de acessibilidade. Mobilidade urbana, forma que muitos utilizam, não é um termo preciso. Como dito antes, o gênero de vida é urbano, e todas as formas de mobilidade aqui tratadas são também urbanas. Nesse sentido há que se fazer a correta distinção, além do fato que o termo cotidiano tem um desenvolvimento próprio nas ciências humanas, emprestando diversas determinações específicas na definição e na explicação desta forma de mobilidade. - Viagens e turismo: temporalidade mais longas, excedendo um dia. Esse tempo também é recorrente, uma vez que cada nova viagem permite o acúmulo de novas experiências. - Mobilidade residencial: temporalidade ligada ao percurso da vida, é definitiva, pois reenvia à história de vida da pessoa. A mobilidade residencial, na cidade de São Paulo, por exemplo, revela uma seqüência histórica do mapa eleitoral da capital. A realidade é que existe uma baixa mobilidade residencial que decorre das variáveis que permitiram a formação do mito da casa própria e de uma baixa participação do mercado de aluguel no Brasil como um todo. Isso, por sua vez, se traduz numa baixa mobilidade eleitoral. Podese, pois falar de redutos de um ou outro candidato ou, ano após ano, percebe-se que a coloração do mapa pouco se transforma porque as regiões da cidade também pouco se transformam. - Migração: temporalidade ligada ao conjunto total da vida, marca a identidade do sujeito. É também definitiva e independente do possível retorno do indivíduo. Como visto até agora, existem várias definições e acepções acerca do termo mobilidade. Essas derivações, como visto, estão relacionadas, de uma forma ou outra, à duração do deslocamento, ao lugar de permanência que o deslocamento implica (origens e destinos) e às técnicas colocadas em uso para sua efetivação. Decorre desta premissa a existência de tipos principais de mobilidade que serão analisados de forma sistêmica: 1 - a mobilidade cotidiana, que tem duração máxima de uma jornada, circunscrita ao espaço 5

6 urbano, sendo identificada com os deslocamentos domicílio-trabalho, domicílio-escola, trabalho-escola, etc. Essa forma de mobilidade, a mais comum, é tanto consequência da organização urbana quanto fator de reorganização da cidade 2 - a mobilidade sazonal, que se repete a cada ano seguindo ciclos climáticos, podendo durar vários dias dependendo das técnicas empregadas; 3 - as migrações, que são deslocamentos de longa duração entre contextos espaço-temporais distintos, são movimentos que podem durar por toda a vida após realizados; 4 - a mobilidade residencial, que implica na mudança de domicílio numa mesma aglomeração e também é de longa duração; 5 - a mobilidade profissional, que pode ser uma alternativa à mobilidade residencial e pode implicar uma mobilidade social; 6 - a mobilidade social, que é uma forma de deslocamento simbólico que tem como referência uma escala de renda ou de valores; 7 - a mobilidade ocasional, que não obedece a nenhum padrão e está ligada sobretudo às viagens de trabalho. Cada um desses tipos de mobilidade têm ligações fortes entre si, o que leva à idéia de que os fluxos de mobilidade não são isolados uns dos outros, mas estabelecem relações de causalidade, complementaridade, substituição, incompatibilidade, etc. Mobilidade cotidiana como sistema As relações existentes entre cada tipo de mobilidade permitem levantar a hipótese de que os deslocamentos, dos mais diversos tipos, efetivam-se em sistema, implicando-se mutuamente no cotidiano e ao longo do percurso de vida. Ou seja, cada prática de deslocamento e forma de mobilidade (cotidiana, migrações, turismo, residencial, etc) tem sua projeção e efetivação balizada pelas necessidades, complementaridades, imposições, acessos e impedimentos relacionados com todas as demais formas de mobilidade, quer seja na escala individual ou da sociedade. Primeiro temos que considerar que a história aqui tratada se desenrola num quadro único que é o espaço geográfico. Além disso, essa mesma história dos movimentos é também a história de cada indivíduo. A ligação entra a sua história de movimentos individuais e a história dos movimentos no espaço geográfico se dá através daquilo que outro geógrafo, Peter Hägerstrand, chamou de trilhas espaço-temporais. As trilhas espaço-temporais são os roteiros que vamos escrevendo ao longo de nossas 6

7 vidas. A partir dessas trilhas, dos caminhos empregados, dos objetos e ações associados, dos lugares vividos, efetuam-se diferentes aptidões individuais para a mobilidade, uma característica do ser humano, sobretudo na contemporaneidade. Cada indivíduo, sua formação e história, suas trilhas espaço-temporais, o tornam mais ou menos apto para a efetivação das diversas formas de mobilidade. Os extremos são caracterizados pelo sedentarismo e pelo nomadismo. Aí já estamos chegando a uma visão sistêmica das diversas formas de mobilidade, mas a partir somente dos indivíduos. Ou seja, um indivíduo, segundo sua história de vida, estará mais ou menos apto a realizar uma ou outra forma de mobilidade. Se o indivíduo carrega uma bagagem de ter sido criado na estrada, por exemplo, conhecendo diversos lugares, culturas, etc, é mais fácil que ele consiga uma maior mobilidade social, que seja afeito a uma maior mobilidade residencial ou de turismo e por aí vai. Mas isso é pouco, estamos até agora apenas na escala dos indivíduos e isso se aplica apenas a psicogeografia, que é um dos campos que deveriam ser levados em consideração na compreensão das cidades e das sociedades. A característica sistêmica das formas de mobilidade reside no fato de que todas essas formas partem de um mesmo lugar de permanência. Ou seja, o turismo, a mobilidade cotidiana, as migrações, a mobilidade residencial, a mobilidade social, etc, possuem um mesmo ponto de origem do movimento, que é o lugar de permanência. Lugar não entendido apenas como o lugar físico, mas também social e simbólico. A partir do momento em que uma forma de movimento se efetua, devido às transformações nas condições de vida do sujeito do deslocamento, a condição em que se encontra, ou seja, o lugar de permanência ou de origem, também se transforma. Isso decorre tanto da alteração daquilo que chamamos de orçamento espaçotemporal do indivíduo quanto do seu capital simbólico. Por exemplo: uma viagem ao exterior irá alterar completamente o orçamento financeiro de um indivíduo, que não poderá mais comprar o segundo carro a prestação, alterando as condições de mobilidade de seus filhos, mas, por outro lado, o seu capital simbólico pode subir significativamente, permitindo uma ascensão na empresa, que mais a frente pode se reverter na mudança de endereço, num outro padrão social, em novas motivações para novas viagens, dado o novo circulo de relações, em novas condições de acesso, dado ao novo endereço e por aí vai... Já os tipos de mobilidade que alteram claramente o ponto de permanência, aquelas que partem de movimentos lineares, migrações ou mudança residencial, ocasionam alterações em 7

8 todas as outras formas de mobilidade, pela simples mudança do ponto de permanência ou origem do movimento. Além disso, a mobilidade não pode ser considerada de forma isolada da sociedade. A mobilidade é uma prática de inserção. Inserção no mercado de trabalho, na vida social, numa esfera cultural ou religiosa etc. Sua realização apenas acontece em relação a um meio social, que lhe confere sentido e estrutura. Havendo esse sentido e essa estrutura, quem está conferindo a condição sistêmica as formas de mobilidade é a sociedade em si. A mobilidade cotidiana, essa que nos é mais clara, não pode preceder de suas relações com outras formas de mobilidade social. Não se deve isolar a cotidianeidade de outras temporalidades sociais. Nesse sentido, parecem existir ao menos duas possibilidades para ligar mobilidade espacial e social. A primeira considera que todo o movimento no espaço físico implica uma superação de um espaço social. Sabe-se, por exemplo, que a mobilidade obrigada, que utiliza um modo específico de transporte, traduz uma posição social também específica. Dessa forma, mudar do transporte coletivo para o individual, por exemplo, traria não apenas transformações nas características espaciais da mobilidade mas, também, seria em si um deslocamento de posição social, uma mobilidade social, que, na maior parte dos lugares, seria vista como ascensão social. A segunda possibilidade considera a mobilidade social tal como definida na tradição sociológica, a partir da posição socioprofissional e de classe e sua evolução temporal. Nesse sentido, me parece, é ainda mais clara a ligação. Afinal, havendo uma mudança social, o enriquecimento, por exemplo, é natural que o indivíduo mude de casa, ou mude o modo de transporte, ou, apenas, tenha mudada a sua agenda, revelando novos percursos, uma nova mobilidade espacial. Retomemos essa questão. Se a mobilidade espacial não fosse acompanhada de mobilidade social seria válido falarmos em desigualdades, fragmentação ou segregação socioespacial para explicar as diferentes realidades de um mesmo lugar? A mobilidade cotidiana, assim como a mobilidade residencial, o turismo e as migrações expressam alguma forma de mobilidade social, pois revelam um certo capital simbólico que pode estar associado ao modo de transporte empregado ou aos lugares visitados (o interior do estado ou o exterior do país, por exemplo). O que se vem tentando afirmar é que as estratégias de mobilidade que sustentam a projeção da prática de deslocamento implicam reciprocamente todas as demais estratégias de 8

9 mobilidade, assim como suas efetivações. O princípio sistêmico para lidar com a questão da mobilidade foi objeto de longo estudo presente na tese de doutorado que embasa este pequeno texto. A importância desta noção para as políticas públicas urbanas é enorme. Primeiro porque define mobilidade como uma forma sintese de política urbana, segundo porque deixa de pensar o urbanismos apenas a partir de seus fixos e dá o necessário valor aos fluxos urbanos de todas ordem e, o principal, porque permite pensar nos necessários novos instrumentos urbanísticos que poderão transformar padrões historicamente criticados no urbanismo brasileiro. Como exemplo de tal integração, tome-se o mercado de aluguel de residências nas cidades brasileiras. Sabe-se que desde o inicio da segunda metade do século XX, o mercado de aluguel vem perdendo força como forma de acesso a habitação, foi contraposto a essa maneira de morar o conhecido mito da casa própria. Mas o que significa levar cada vez mais pessoas a buscarem casa próprias. Primeiro há a cristalização de enormes economias para aceder a propriedade fundiária, economias essas que poderiam ser gastas de outras formas, inclusive com a melhoria de outros aspectos da vida. Segundo, e mais grave para a estrutura urbana, as pessoas ficam invariavelmente menos móveis no contexto urbano. Dessa forma, o ponto de origem dos deslocamentos é de difícil alteração, enquanto que é de amplo conhecimento que o mercado de trabalho se torna cada vez mais flexível. Isso implica que o indivíduo, preso a casa própria, deve sobrecarragar as infraestruturas de transporte para adaptar sua origem aos diversos destinos que lhe são impostos. Com um mercado de aluguel exíguo, caro e de difícil acesso, também devido a sua extensa burocracia, os indivíduos perdem em mobilidade residencial, onerando a cidade, gerando deseconomias e, muitas vezes, perdendo melhores oportunidades. Sabe-se, por exemplo, que a mobilidade sazonal, que se repete em ciclos, e pode estar ligada com períodos de colheitas na agricultura, tem forte impacto nos padrões de mobilidade de determinadas cidades em algumas épocas do ano (veja, por exemplo, o ciclo da cana-deaçúcar). O mesmo acontece a partir das migrações, que são deslocamentos de longa duração, marcando profundamente a vida das pessoas e suas variadas condições de acesso. Há, também, a mobilidade residencial, que implica na mudança de domicílio numa mesma aglomeração e altera outras formas de mobilidade por alterar o ponto de origem. Este pequeno texto, fruto de uma palestra ministrada na Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, em outubro de 2004, toma como base premissas elaboradas durante diversos anos de pesquisa na área da mobilidade das quais resultou uma tese de doutorado. Durante esse percurso tornei convicto quanto a necessidade premente de que 9

10 urbanistas e planejadores passem a considerar a mobilidade como uma das principais condições para a compreensão das cidades no mundo atual, abandonando um visão obtusa que parte e chega aos pontos de permanência, à simples distribuição dos objetos como explicação das cidades e do urbanismo. Bibliografia BALBIM, Renato Práticas Espaciais e Informatização do Espaço da Circulação. Mobilidade Cotidiana em São Paulo. Tese de Doutorado, FFLCH-USP, São Paulo, CERDÀ, Ildefonso - Teoria general de la urbanizacion y aplicacion de sus principios y doctrinas a la reforma y ensanche de Barcelona. Tomo 1: Teoria general de la urbanizacion. Editons Ariel y Editorial Vincens Vives, Barcelona, 832p., JOSEPH, Isaac El transeunte y el espacio urbano. Gedisa, Buenos Aires, Paris, SORRE, Max - A noção de gênero de vida e sua evolução. Reproduzido de SORRE, Max La notion de genre de vie et son évolution. In: Les fondements de la géographie humaine. Paris, A. Colin, Traduzido por Januário Francisco Megale, in: Coleção Grandes Cientistas Sociais, n.46, Ática, SORRE, Max - Les migrations des peuples. Essai sur la mobilité géographique. Flammarion, Paris,

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