UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: DESENVOLVIMENTO REGIONAL PROGRAMA REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE TRABALHO E RESSOCIALIZAÇÃO DO HOMEM ENCARCERADO NO PRESÍDIO DE NOSSA SENHORA DA GLÓRIA-SE Autora: Tereza Caroline de Ávila Carvalho Orientadora: Dra. Maria Augusta Mundim Vargas Colaborador: Dr. Marco Antonio Jorge JUNHO São Cristóvão Sergipe Brasil

2 ii UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: DESENVOLVIMENTO REGIONAL PROGRAMA REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE TRABALHO E RESSOCIALIZAÇÃO DO HOMEM ENCARCERADO NO PRESÍDIO DE NOSSA SENHORA DA GLÓRIA-SE Dissertação de Mestrado apresentada ao Núcleo de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe, como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Autora: Tereza Caroline de Ávila Carvalho Orientadora: Dra. Maria Augusta Mundim Vargas Colaborador: Dr. Marco Antonio Jorge JUNHO São Cristóvão Sergipe Brasil

3 iii FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE CARVALHO, Tereza Caroline de Ávila Carvalho. Trabalho e ressocialização do homem encarcerado no Presídio de Nossa Senhora da Glória-se.

4 iv UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: DESENVOLVIMENTO REGIONAL PROGRAMA REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE TRABALHO E RESSOCIALIZAÇÃO DO HOMEM ENCARCERADO NO PRESÍDIO DE NOSSA SENHORA DA GLÓRIA-SE Dissertação de Mestrado defendida por Tereza Caroline de Ávila Carvalho e aprovada em 02 de junho de 2005 pela banca examinadora constituída pelos doutores: Dra. Maria Augusta Mundim Vargas Orientadora Universidade Federal de Sergipe Dr. Marco Antonio Jorge Universidade Tiradentes Dr. Francisco Sandro Rodrigues Holanda Universidade Federal de Sergipe

5 v Este exemplar corresponde à versão final da Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Dra. Maria Augusta Mundim Vargas Orientadora Universidade Federal de Sergipe Dr. Marco Antonio Jorge Colaborador Universidade Tiradentes

6 vi É concedida ao Núcleo responsável pelo Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe permissão para disponibilizar, reproduzir cópias desta dissertação e emprestar ou vender tais cópias. Tereza Caroline de Ávila Carvalho Autora Universidade Federal de Sergipe Dra. Maria Augusta Mundim Vargas Orientadora Universidade Federal de Sergipe Dr. Marco Antonio Jorge Colaborador Universidade Tiradentes

7 vii Àqueles que acreditam que o ser humano pode ser agente modificador de sua própria realidade.

8 viii AGRADECIMENTOS Aos meus pais, que compreenderem minha ausência, com grande paciência, sem me exigirem atenção durante esse longo período de construção da dissertação. À minha tia-mãe Nair, pelo apoio, carinho e atenção. À minha tia-mãe Ilda (in memorian), pelo amor e delicadeza que me tinha, pelo incentivo, por suas palavras sempre sábias. Obrigada! Às minhas irmãs Gisa e Andréa, e a minha prima-irmã Alzira pelo apoio e incentivo. Ao meu sobrinho Andrey, minha fonte de energia, que sem perceber tanto me ajudou com sua alegria contagiante. A José Alejandro, meu companheiro, que mesmo muitas vezes distante geograficamente, sempre esteve presente, dando-me idéias e compartilhando o prazer de poder idealizar um futuro muito mais digno para aqueles que são tão estigmatizados pela sociedade. Obrigada pelo carinho, paciência e amor que tanto me ajudaram nesta caminhada. Aproveito para agradecer a seus pais Maria Antonieta e José Andrés Mella, pelo apoio e por me acolherem em sua casa, com muito amor e atenção durante os seis meses de pesquisa sobre o sistema prisional chileno. À minha grande amiga e irmã de alma, Edjânia Santana, pela forte presença em minha vida, com suas elucidações de grande sabedoria, que foram imprescindíveis para a construção e conclusão deste estudo. Agradeço também à sua família que me acolheu com muito carinho durante o período em que estive em Ribeirópolis para finalizar a dissertação. À minha amiga Sudanês Barbosa que muito me incentivou. À minha querida orientadora Dra. Maria Augusta Mundim Vargas, por aceitar o desafio em orientar um estudo numa área distinta à sua formação, e que acreditou na grande contribuição acadêmica deste trabalho. Obrigada pela paciência, pelo compromisso e estímulo. Agradeço também ao meu amigo e colaborador Dr. Marco Antonio Jorge, que com sua delicadeza, atenção, paixão pelo tema, e com toda clareza de informações, esteve sempre ao meu lado, como economista, estudioso da criminalidade em Aracaju e que também aceitou o desafio de compartilhar este estudo de cunho ambiental. Ao professor Dr. Francisco Sandro Rodrigues Holanda, por participar da banca examinadora, e que muito me ajudou na definição dos indicadores aqui utilizados.

9 ix Ao amigo Sérgio Carvalho, mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente, turma 2002, que foi meu fiel companheiro de tantas informações e de tantas noites de estudos, que me direcionou ao saber científico. Ao Dr. Ângelo Roncalli, ex-diretor do DEPEN e grande amigo, que compartilhou sua experiência de anos de estudo sobre o sistema penitenciário brasileiro. Suas idéias me serviram de ânimo, uma vez que idealizamos um sistema penitenciário muito mais justo. Ao Secretário de Estado da Justiça e da Cidadania, Dr. Emanuel Oliveira Cacho, que contribuiu na fomentação de questionamentos, e que me liberou durante seis meses para fazer uma ampla pesquisa na Gendarmería do Chile, que me serviu de modelo para este trabalho. Ao Dr. Ricardo Franco de Carvalho, Ex-Chefe da ASPLAN da Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania, pelo incentivo e pela paciência com relação a minha ausência. Ao Diretor do Presídio de Nossa Senhora da Glória, Coronel Duvaltécio Bomfim, por acreditar no meu comprometimento com o tema, e demonstrou grande interesse em tornar realidade o estudo em questão. Compartimos do mesmo sonho, que é tornar o Presídio de Glória modelo para o sistema penitenciário sergipano. Ao amigo e atual Chefe da ASPLAN, Edmilson Suassuna, pela eterna paciência e apoio. À minha amiga Cleciana, que tanto me ajudou na tabulação dos dados. Obrigada! A Alexandre e Heriberto pela paciência e pela ajuda nos cruzamentos dos dados. A Bruno Setton, companheiro de trabalho e grande amigo, que me ajudou na pesquisa documental frente à Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania, bem como na formatação das planilhas. À minha amiga e ex-aluna, Maísa e seu marido Humberto por me acolherem em sua casa em Nossa Senhora da Glória durante a pesquisa de campo. Aos homens encarcerados, pela confiança em mim depositada. Obrigada! Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente: Edmilson, Antônio Carlos, Maria Augusta, Rivanda, Roberto e Francisco Sandro, que contribuíram muito com seus saberes tão distintos e complementares. Aos colegas da turma de 2003, pelas discussões em sala de aula, que me ajudaram na formação da interdisciplinaridade neste trabalho científico. Em especial a Mirian, Eurico e Ana Paula pelo incentivo, principalmente em momentos difíceis.

10 x Ao Diretor Nacional da Gendarmería de Chile, Juan Carlo Pérez Contreras que me autorizou realizar uma ampla pesquisa junto ao referido Órgão. Ao Dr. Cláudio Cerda Videla, Chefe de Gabinete do Diretor Nacional da Gendarmería de Chile pela paciência, pela disponibilidade de me ajudar sempre. Que nunca fez objeção para me receber, passando informações muitas vezes sigilosas, mas que acreditou que apenas as usaria academicamente. Ao Dr. Eduardo Evans Espiñeira, assessor do Diretor Nacional da Gendarmería de Chile, que se tornou um grande amigo, sempre presente nas reuniões com os diretores nacionais ligados ao Departamento de Readaptação. A alguns Encarregados Nacionais da Gendarmería de Chile: Dr. Julio Abelleira Figueroa (Assessor do Diretor Nacional), Sr. Rodolfo Aguayo (Chefe do Departamento de Informática), Sr. Luís Neira (Assessor do Chefe do Departamento de Informática), Dra. Silvia Granifo Lagos (Encarregada Nacional do Programa de Saúde Ambiental nas Unidades de Atenção Médica). Em especial meus agradecimentos a Dra. Mariela Neira (Chefe Nacional do Departamento de Readaptação), Dr. Carlos Cabezas (Chefe Nacional de Classificação e Segmentação), Dr. Jorge Tapia Aravena (Chefe Nacional da Área de Trabalho Intramuros) e Dr. Luís Cortez (Chefe Nacional da Área de Educação), que tiveram prazer em estar horas respondendo minhas perguntas com muita paciência e atenção. Para não ser injusta, agradeço a todos que diretamente ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho, funcionários do Núcleo de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente, aos meus amigos e amigas, que muito me ajudaram com tamanho incentivo.

11 xi RESUMO As políticas públicas vigentes no país que estão direcionadas para o sistema prisional não mostram uma preocupação em dar ao homem encarcerado o tratamento adequado à sua ressocialização. O sistema prisional brasileiro tem passado por crises de toda ordem, comprometendo ainda mais a sustentabilidade dos presídios. O homem sempre foi visto como um ser irrecuperável sendo, por isso, relegado ao segundo plano, contribuindo, sobremaneira, para o aumento dos índices de violência e de reincidência criminal. Este estudo tem como objetivo, a partir de questionários aplicados a 99 encarcerados do Presídio Regional Senador Leite Neto, município de Nossa Senhora da Glória, e de entrevistas realizadas com os gestores e executores das políticas prisionais, avaliar se as condições oferecidas no referido presídio possibilitam uma satisfatória reintegração dos encarcerados na sociedade. Para tanto, foi realizada uma discussão teórica dos aspectos políticos e sociais, fazendo uma leitura do homem enquanto parte da natureza, tendo como foco principal o papel do trabalho no processo de ressocialização. O presente estudo permitiu, ainda, apresentar o programa de recuperação do homem encarcerado no Chile, mantendo uma relação com o sistema prisional sergipano. Como resultado foi possível identificar a necessidade da implementação de um programa de classificação e segmentação dos encarcerados no Presídio analisado, bem como do desenvolvimento de projetos voltados para a recuperação do homem pela via do trabalho, da educação e da profissionalização. No entanto, o sucesso da sustentabilidade do presídio não está apenas em preparar o homem para sua reinserção no convívio social, mas, também em preparar a sociedade para recebê-lo enquanto parte da mesma. Palavras-chaves: trabalho, homem encarcerado, ressocialização.

12 xii ABSTRACT Brazil s public policies which are directed to the prison system as it stands do not consider an adequate treatment focus on the reintegration of inmates to society. The Brazilian prison system has undergone crises of all kind, further compromising the penitentiaries sustenance. Man has always been treated as irrecoverable, left behind therefore, contributing, as it is, to the violence rate raise and criminal recurrence. This study aims at - based on a questionnaire answered by 99 convicts from the Presídio Regional Senador Leite Neto, Nossa Senhora da Glória city, and on interviews with both managers and prison policies executors evaluating whether the offered conditions in this detention centre would allow a satisfactory inmate reintegration to the society. In order to achieve the expected goals, a social and political theoretical discussion has been made, depicting man as part of nature, and focusing mainly on the part the job plays in reintegrating convicts to society. The present study also permitted to outline the recovering programme of the inmate in Chile, relating it to our own prison system. The outcome shed lights on the need of an implementation, in the analyzed penitentiary, of a convict s classification and segmentation programme, as well as the necessity of the development of projects directed to recover men through job, education and rise in their professional skills. Nevertheless, the prison sustenance success does not depend only on preparing the man to reintegrate the social living, but also on teaching society how to welcome him as its own part. Key Words: job, inmate, reintegration

13 xiii SUMÁRIO NOMENCLATURA Siglas LISTA DE FIGURAS LISTA DE TABELAS LISTA DE QUADROS Página xvi xvi xvii xviii xix CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO 01 CAPÍTULO 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA NATUREZA E SOCIEDADE Breve discussão acerca da evolução da relação homem e natureza Sustentabilidade - reforma do pensamento Do crescimento econômico ao desenvolvimento sustentável Reforma do pensamento Ordenamento jurídico codificação SISTEMA PRISIONAL/PENITENCIÁRIO Evolução dos sistemas penitenciários Sistema prisional brasileiro Regulamentação do sistema prisional brasileiro- LEP Políticas Criminais e Penitenciárias Sistema prisional chileno: o trabalho como fator de reinserção e de 46 sustentabilidade Dados gerais sobre o sistema prisional chileno Departamento de readaptação Modalidades de trabalho Trabalho com empresas privadas externas Centros de Educação e Trabalho - CET Unidades Produtivas do Patronato Nacional de 58 Réus PANAR Microempresas (pequenas e médias P&ME) Artesãos 60

14 xiv Serviços Internos TRABALHO E REINCIDÊNCIA Segmentação no mercado de trabalho Análise custo-benefício do infrator Trabalho na prisão Efeito estigma 75 CAPÍTULO 3 METODOLOGIA PROCEDIMENTOS DA PESQUISA Montagem dos questionários POPULAÇÃO E AMOSTRA INDICADORES TRATAMENTO DOS DADOS 91 CAPÍTULO 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES RESULTADOS GERAIS RE(INSERÇÃO) NO MERCADO E TRABALHO E 115 REINCIDÊNCIA 4.3 DISCUSSÃO DOS INDICADORES Educação, profissionalização e trabalho Infraestrutura Alimentação, Segmentação e Classificação Visitas familiares e íntimas Assistências (material, à saúde, jurídica, religiosa e social) Atividades de lazer Custos 130 CAPÍTULO 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 132 BIBLIOGRAFIA 138 ANEXO A - Questionário destinado ao homem encarcerado 145 ANEXO B - Questionário destinado ao Diretor e Ex-Diretor do DEPEN 152 ANEXO C - Questionário destinado ao Secretário de Estado da Justiça e da 155 Cidadania ANEXO D - Questionário destinado ao Diretor do DESIPE 158 ANEXO E - Questionário destinado à Diretora de Ressocialização 160

15 xv ANEXO F Questionário destinado ao Diretor do PRESLEN 163 ANEXO G - Questionário destinado ao Coordenador da Segurança Militar 166 das Unidades Prisionais ANEXO H - Questionário destinado ao Superintendente da Polícia Civil em 168 Exercício

16 xvi NOMENCLATURA Siglas PRESLEN Presídio Regional Senador Leite Neto CMMAD Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento DEPEN Departamento Penitenciário Nacional LEP Lei de Execução Penal CTC Comissão Técnica de Classificação ONU Organização das Nações Unidas PLANFOR Plano Nacional de Qualificação do Trabalhador PEA População Economicamente Ativa FAT Fundo de Amparo ao Trabalhador PROGER Programa de Geração de Emprego e Renda PRONAF Programa Nacional da Agricultura Familiar PANAR Programa de Nivelamento de Trabalho CET Centro de Educação e Trabalho PAC Programa de Administração Carcerária INFOPEN Sistema de Informação Penitenciária IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística DESIPE Departamento do Sistema Penitenciário... 85

17 xvii LISTA DE FIGURAS 3.1- Localização das Unidades Prisionais em Sergipe O círculo vicioso da reincidência

18 xviii LISTA DE TABELAS 3.1- Capacidade e população carcerária set/ Relação entre local de nascimento do encarcerado e cidade/estado que foi preso (out/nov-2004) Relação entre local que residem antes da prisão e número de encarcerados (out/nov-2004) Relação entre escolaridade e estado civil (out/nov-2004) Relação entre escolaridade e crime cometido (out/nov-2004) Relação entre idade do homem encarcerado e o início na vida do crime (out/nov-2004) Relação entre tempo de reclusão e crime cometido (out/nov-2004) Relação crime cometido e crimes cometidos anteriores (out/nov-2004) Relação entre cursos feitos no PRESLEN e o tempo que está recluso (out/nov-2004) Relação entre atividades exercidas no PRESLEN e total de atividades exercidas (out/nov-2004) Relação entre as atividades produtivas e exercidas no PRESLEN e crimes cometidos (out/nov-2004) Relação entre atividades produtivas exercidas no PRESLEN e escolaridade (out/nov-2004) Relação entre o tempo que recebem visitas da família e encarcerados que recebem visitas da família (out/nov-2004) Relação entre o tempo que recebem visitas íntimas e encarcerados que recebem visitas íntimas (out/nov-2004) Espaço para acomodações (out/nov-2004) Relação entre crimes cometidos e situação ocupacional no momento do crime (out/nov-2004) Relação entre a situação ocupacional e escolaridade no momento do crime (out/nov-2004)

19 xix LISTA DE QUADROS 4.1- Classificação dos indicadores

20 CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO

21 Capítulo 1 Introdução INTRODUÇÃO O homem pode ser agente modificador da sua própria realidade. Por meio do trabalho o homem é capaz de modificar-se a si mesmo, construindo, desse modo, uma relação harmônica com a natureza. À luz da teoria marxista, o trabalho é um processo do qual participam igualmente o homem e a natureza. Sendo assim, se o trabalho é a expressão própria do ser humano, este é capaz de desenvolver as suas próprias faculdades por meio do desenvolvimento das atividades produtivas a que está ligado. O atual conceito de meio ambiente está voltado para o desenvolvimento humano. Essa nova concepção reintegra os valores e potenciais da natureza, os saberes subjugados, as externalidades sociais, bem como a complexidade do mundo, deixando de lado a racionalidade econômica e enfatizando a racionalidade ambiental. Dentro desse contexto, identifica-se que essa nova concepção, com ênfase, no ser humano, volta-se para a questão da sustentabilidade ambiental que compreende os mais diversos setores. No entanto, essa sustentabilidade só é possível por meio de políticas direcionadas para uma gestão democrática mobilizada pelas reformas do Estado e pelo fortalecimento da organização da sociedade civil. O desafio da sociedade reside, entretanto, na construção de uma nova realidade fundada num saber ambiental em que a consciência ecológica depende do próprio homem. Esta consciência pode ser atingida a partir do querer do próprio homem, levando a relação homem natureza a uma cooperação mútua. A racionalidade econômica, que tem como fundamento o crescimento econômico, resultou nos sérios desregramentos que acometem a sociedade na atualidade. Os desajustes que decorrem de um crescimento econômico deliberado e que não priorizam o ser humano fortalecem o caos, aumentando o nível de desvios de comportamento que podem levar ao aumento da criminalidade.

22 Capítulo 1 Introdução 3 Essa criminalidade tem levado à necessidade de se criar um sistema prisional cada vez mais eficaz, no qual seja possível controlar a violência no meio social e evitar que esta chegue ao caos. Todavia, o sistema prisional em qualquer parte do mundo sofre crises que comprometem o desenvolvimento de um sistema que seja capaz de manter a ordem e ao mesmo tempo, de recuperar o homem para retornar ao convívio social. No Brasil, o sistema prisional vem passando por inúmeras crises, sendo as mais recorrentes as de caráter econômico-financeiro, político, administrativo e jurídico, prejudicando a recuperação do homem encarcerado, enquanto principal objetivo da prisão. O homem, sendo fruto da sociedade, sofre todas as pressões que provém das condições sócio-econômicas do meio em que vive. Ao chegar no sistema prisional que se encontra em crise, o homem encarcerado se depara com um ambiente que pela falta de planejamento e de controle, leva à ociosidade e não está preparado para a ressocialização. À luz dessa problemática, este estudo tenta avaliar as condições oferecidas pelo sistema prisional sergipano. Para isso, tomou-se como objeto o Presídio Regional Senador Leite Neto -PRESLEN, em regime fechado, localizado no município de Nossa Senhora da Glória no semi-árido de Sergipe, buscando verificar se as condições e políticas implementadas neste possibilitam a recuperação do homem que está encarcerado. De forma mais específica, pretende-se com esse estudo: Identificar a relação entre desemprego e criminalidade; Levantar as atividades produtivas existentes no referido Presídio; Levantar a atuação do PRESLEN na formação profissional; Levantar as condições de infraestrutura do referido estabelecimento penal; Analisar a situação do trabalho do encarcerado (renda, número de encarcerados que trabalha, qualidade do produto, comercialização, entre outros); Propor alternativas que viabilizem a ressocialização do homem encarcerado.

23 Capítulo 1 Introdução 4 O Presídio Regional Senador Leite Neto foi escolhido, por localizar-se no semiárido sergipano, área de concentração do PRODEMA-SE, pela existência, no interior do presídio, de atividades produtivas com potencial de desenvolvimento de capacidades autogestoras, a exemplo da marcenaria e do artesanato. E por ser o referido presídio em regime fechado, pois a reabilitação deve partir do momento em que o homem encarcerado entra no sistema prisional. Como forma de discutir todas as questões que envolvem esta problemática, este estudo foi dividido em cinco capítulos, sendo que o primeiro trata desta parte introdutória. O segundo capítulo, por sua vez, apresenta uma discussão teórica dos assuntos que darão embasamento à elucidação da problemática apresentada. Para tanto, serão discutidos neste capítulo assuntos referentes à relação natureza e sociedade, ao sistema prisional/penitenciário e ao trabalho e reincidência. O terceiro capítulo trata da metodologia, no qual é apresentada a área de estudo, o método de análise utilizado, os procedimentos de pesquisa, bem como a população e amostra, os indicadores e o tratamento dos dados obtidos por meio dos questionários e entrevistas nas visitas realizadas. No quarto capítulo estão expostos os resultados e discussões da pesquisa. Para que fosse obtida a consistência esperada dos resultados foi feito um trabalho de discussão dos resultados, com embasamento na teoria apresentada. A teoria serviu como pilar do trabalho, uma vez que se buscou, antes de tudo, um modelo de sustentabilidade para o sistema prisional. As considerações finais deste estudo estão postas no quinto e último capítulo. Neste são feitas considerações relevantes mantendo um paralelo com o sistema prisional do Chile, considerado um modelo a ser seguido, tendo em vista a importância do programa de trabalho desenvolvido e que vem conseguindo resultados positivos, com diminuição da reincidência e aumento do nível de auto-gestão no interior dos estabelecimentos prisionais.

24 CAPÍTULO 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

25 Capítulo 2 Fundamentação teórica FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 NATUREZA E SOCIEDADE Breve discussão acerca da evolução da relação homem e natureza Na história da civilização ocidental houve época em que o modo de pensar a natureza era distinto do que domina as épocas moderna e contemporânea; embora, na Idade Média, entre filósofos clássicos gregos, já existisse uma visão dicotomizada da relação homem e natureza. O advento do capitalismo foi o marco da cristalização dessa visão dicotômica que tem perdurado na contemporaneidade. Não obstante, a sociedade só tenha passado a repensar tal relação, de forma harmônica, no século XX, quando a questão ambiental, finalmente, chegou ao centro das discussões mundiais, reorientando o processo civilizatório da humanidade. Nesse sentido e tendo em vista a importância dessa discussão para a compreensão da evolução da relação homem e natureza, faz-se necessário retomar as relações que foram sendo instituídas ao longo da história da civilização ocidental, desde a Antiguidade Clássica até os dias atuais. No período pré-socrático, por exemplo, o homem grego não compreendia os seus deuses como pertencentes a um mundo sobrenatural, mas como uma presença puramente natural. Na concepção de Bornheim (1989), os deuses existiam da mesma forma que existem as plantas, as pedras, o amor, os homens, o riso, o choro, a justiça. Assim, os deuses gregos não eram entidades sobrenaturais, pois eram compreendidos como partes integrantes da natureza, ou seja, pertencentes à physis. Esta, por sua vez, exprime a totalidade de tudo o que existe, podendo ser apreendida na aurora, no crescimento das plantas, no nascimento de animais e de homens.

26 Capítulo 2 Fundamentação teórica 7 A partir de Platão e Aristóteles o homem e a idéia passaram a ocupar um lugar privilegiado, dando início a um outro conceito de physis. Então, passou a existir certo desprezo pelas pedras e pelas plantas, bem como por toda concepção anterior a esse período, começando, desde esse momento, a vigorar, o entendimento de uma natureza desumanizada ou não-humana que se consolida na modernidade (Gonçalves, 1998). Entretanto, a oposição homem-natureza e espírito-matéria só conseguiram adquirir maior dimensão a partir da influência judaico-cristã. Com o cristianismo no Ocidente o homem passou a ser dotado do privilégio de ser criado à imagem e semelhança de Deus. O Deus agora era um ser único, que subia aos céus e, de fora, passava a agir sobre o mundo imperfeito do dia-dia dos mortais (GONÇALVES, op.cit., p. 32). Sendo assim, os deuses já não habitavam mais esse mundo, como na concepção pré-socrática. Como reflexo dessa nova visão, na Idade Média, inicia-se um processo de dissecação de cadáveres no ocidente europeu, uma vez que corpo e alma não representavam uma unidade, estavam separados, podendo o corpo, após a morte, ser tratado como objeto. Nessa perspectiva, assegura Kesselring (1992) que foi por meio, principalmente, da tradição bíblica, que surgiram novos aspectos da concepção de natureza que, segundo a tradição cristã, era o âmbito da criação. Daí se segue, por um lado, que o mundo teria um início e um fim, e por outro, que ele não surgiu espontaneamente por si mesmo. Desse modo, concebe-se a idéia de que existe um criador, mas que este não faz parte do mundo, não reside dentro da natureza. De acordo com Foladori (2001), os mundos antigo e medieval possuíam uma visão orgânica de mundo, com um modo correspondente de situar-se num Cosmos ordenado e determinado. Ao invés do distanciamento havia uma proximidade dos processos sócionaturais. No período renascentista, as profundas alterações da vida correspondentes ao desmantelamento do Feudalismo tiveram amplas repercussões no campo das idéias, a exemplo da revalorização do empirismo e do racionalismo e da contestação religiosa

27 Capítulo 2 Fundamentação teórica 8 responsável pela eclosão do protestantismo a partir das idéias de Lutero. Conforme Mello e Souza (2003), a partir desse momento histórico, o poder da Igreja Católica de Roma deixou de ser incontestável, sobretudo em domínios filosóficos. Entretanto, foi com Descartes e seu pensamento cartesiano que a oposição homemnatureza, espírito-matéria, sujeito-objeto, tornou-se mais completa, constituindo-se no centro do pensamento moderno e contemporâneo, em que a natureza passou a ser objeto da ciência (Gonçalves, 1998; Kesselring, 1992). Para Descartes, sintomática pela cisão entre homem e natureza é a divisão cartesiana do mundo em duas partes: a res extensa (mundo dos corpos materiais) e a res congitans (mundo do pensamento); neste esquema a natureza restringe-se, por um lado, à res extensa e ao pensamento, e, por outro, não pertence à natureza (apud Bolfe, 2004). Como assegura Gonçalves (1998), dois aspectos importantes marcam a modernidade: o primeiro, o caráter pragmático do conhecimento que vê a natureza como um recurso, um meio para se atingir um fim; e segundo, o antropocentrismo, em que o homem passa a ser o centro do mundo, um sujeito em oposição ao objeto (natureza), visto que o homem, instrumentalizado pelo método científico, mostra-se capaz de penetrar os mistérios da natureza e, assim, tornar-se senhor e possuidor dela. A natureza perde o caráter de finalidade e espontaneidade com o qual os Antigos haviam sido impregnados e passa a ser interpretada como máquina, podendo ser esmiuçada de maneira que tudo seja conhecido, que nada cause espanto ou admiração, pois segundo Donatelli (apud Bolfe, 2004), não havia mais sentido estudar fenômenos com o objetivo de descobrir as intenções da natureza, na medida em que, para a teoria mecanicista, o homem deveria ser um manipulador da natureza. Dessa forma, a natureza foi dessacralizada, como afirma Acot (1990), e o conceito utilitário vem à tona, só interessando o que serve, o que tem rendimento e de preferência o imediato, ampliando-se, com isso, o caráter de finalidade e aprofundando-se a concepção de matéria a ser explorada e dominada pela técnica.

28 Capítulo 2 Fundamentação teórica 9 De acordo com Pelizzoli (2003), com o advento da sociedade capitalista, nos finais do século XVII, a ciência e a técnica passaram a assumir um lugar central na vida dos homens. Com o desenvolvimento mercantil e a ascensão da burguesia, a riqueza passou a depender cada vez mais da técnica. Nesse cenário, Bacon assumiu importante papel ao formular a teoria do procedimento indutivo tendo como finalidade realizar experimentos e extrair conclusões gerais a serviço da industrialização, passando a debruçar-se sobre as técnicas capazes de dominar e controlar a natureza. Nesse sentido, segundo Bernardes & Ferreira (2003), a dialética homem/natureza encontra-se na base do processo de desenvolvimento e de transformação das sociedades humanas. Marx considera a produção como um processo pelo qual se altera a forma da natureza, isto é, pelo trabalho o homem modifica as formas das matérias naturais, de modo a satisfazer suas necessidades. Na concepção de Marx, trabalho e capital não eram meras categorias econômicas; eram categorias antropológicas, impregnadas de um juízo de valor oriundo de sua posição humanista (FROMM, 1983, 46). Ainda segundo Marx: O trabalho é, em primeiro lugar, um processo de que participam igualmente o homem e a natureza, e no qual o homem espontaneamente inicia, regula e controla as relações materiais entre si próprio e a natureza. Ele se opõe á natureza como uma de suas próprias forças, pondo em movimento braços e pernas, as forças naturais de seu corpo, a fim de apropriar-se das produções da natureza de forma ajustada a suas próprias necessidades. Pois, atuando assim sobre o mundo exterior e modificando-o, ao mesmo tempo ele modifica sua própria natureza (FROMM, 1983, 47). O trabalho é, portanto, a expressão própria do homem, uma expressão de suas faculdades físicas e mentais, uma vez que se desenvolve a si mesmo, torna-se ele próprio; o trabalho não é só um meio para um fim, o produto, mas um fim em si mesmo, a

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