Relatório de Atividades do 2º Simpósio Nacional de Assistência Farmacêutica e 2º Encontro Nacional de Farmacêuticos no Controle Social

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1 Relatório de Atividades do 2º Simpósio Nacional de Assistência Farmacêutica e 2º Encontro Nacional de Farmacêuticos no Controle Social Centro de Eventos do Portobello Hotel Dias 13 e 14 de agosto de 2009 Salvador BA Organização Escola Nacional dos Farmacêuticos Federação Nacional dos Farmacêuticos 1

2 Relatório de Atividades do 2º Simpósio Nacional de Assistência Farmacêutica e 2º Encontro Nacional de Farmacêuticos no Controle Social O 2º Simpósio Nacional de Assistência Farmacêutica e 2º Encontro Nacional de Farmacêuticos Conselheiros de Saúde ocorreram nos dias 13 e 14 de agosto de 2009, como parte das atividades do 6º Congresso da Federação Nacional dos Farmacêuticos, no Centro de Eventos do Hotel Portobello em Salvador-BA e contou com a presença de profissionais que atuam em 22 estados brasileiros e Distrito Federal. A atividade foi uma iniciativa da Escola Nacional dos Farmacêuticos e da Federação Nacional dos Farmacêuticos, com apoio da Secretaria de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde; Secretaria de Gestão Participativa do Ministério da Saúde; Agência Nacional de Vigilância Sanitária; Superintendência de Assistência Farmacêutica da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia; Organização Pan-Americana de Saúde; Conselho Regional de Farmácia do Estado da Bahia; Associação Brasileira de Farmacêuticos e Associação Brasileira de Ensino Farmacêutico. Tendo por objetivo a continuação do trabalho de inserção e qualificação do debate da Assistência Farmacêutica e a qualificação de seu controle social a partir da mobilização e preparo dos profissionais com formação em farmácia. 1ª Mesa Desafios da Assistência Farmacêutica no Brasil abriu os debates: José Miguel do Nascimento Júnior Diretor do Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde. Norberto Rech Diretor adjunto da Agência, representante do Senhor Presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária Dr. Dirceu Raposo. Gisélia Santana Superintendente da Assistência Farmacêutica, Ciência e Tecnologia Secretaria de Saúde do Estado da Bahia. Célia Machado Gervásio Chaves Presidente da Federação Nacional dos Farmacêuticos Rilke Novato Públio Secretário Geral da Escola Nacional dos Farmacêuticos (Mediador) O diretor do Departamento de Assistência Farmacêutica - DAF fez um retrospecto da elaboração e aplicação das políticas de Assistência Farmacêutica pontuando o que considera os aspectos mais relevantes desse processo, como a inclusão dos medicamentos fitoterápicos na lista de atenção básica e o fomento a produção desses produtos. A inclusão dos homeopáticos e a constituição do Comitê para o Uso Racional de Medicamentos que tem interagido dinamicamente com as ações e orientações do ministério, além da consolidação da Farmácia Popular, como instrumento de democratização do acesso ao medicamento. 2

3 Destacou ainda que apesar de avanços nesse campo, o Brasil precisa de um novo marco regulatório no que tange as normas de regulação sanitária sobre a produção, já que em razão dos diferentes arranjos produtivos existentes no país, elas podem contribuir para o desenvolvimento do sistema ou fazer com que ele desapareça. No caso da produção dos fitoterápicos, Miguel deu o exemplo do cenário do Estado de Santa Catarina, onde nos anos 90 havia 36 fábricas que trabalhavam com plantas medicinais e hoje há apenas seis. Medicamento não é mercadoria Sobre a Farmácia Popular, José Miguel informou que os dados disponíveis mostram que mais de 2 milhões de pessoas estão adquirindo medicamentos através da Farmácia Popular por mês. Ele observa que alguns medicamentos apresentam um consumo em alguns casos superior em relação aos medicamentos da mesma classe terapêutica que não estão na farmácia popular. Como exemplo, citou o enalapril (4 vezes mais), atenolol (3 vezes mais). Isso sugere, numa análise que precisa ser mais cuidadosa, que a ampliação de mercado para estes medicamentos mostra que podemos ter ampliado o acesso aos medicamentos através da farmácia popular para a população brasileira, analisa. Novos horizontes Norberto Rech, da ANVISA, focou sua apresentação na necessidade de se trilhar no sentido de conquistar novos horizontes para a aplicação da Assistência Farmacêutica. Os avanços que conquistamos até o momento não bastam, o que foi conseguido já se transformou em realidade e agora nós temos outros desafios. Porque esses avanços não podem ser tidos como suficientes. Norberto parte das profundas carências que marcam o Brasil, o número de pessoas em situação de exclusão e que ainda não têm acesso ao sistema de saúde e às políticas de Assistência Farmacêutica. Ele fez considerações sobre a necessidade de haver uma maior capacitação profissional dos farmacêuticos para atuarem em todas as etapas da saúde, e no desenvolvimento de ações de saúde não para o uso do medicamento, mas para o não uso, numa visão de prevenção que deve prevalecer num sistema melhor estruturado. Situar no contexto político e econômico do Brasil a questão da Assistência Farmacêutico, a partir de um olhar mais estruturante foi à principal contribuição da representante da Sesab, Gisélia Santana Souza. Ela resgata o conceito de mercadoria no capitalismo para mostrar que o medicamento não tem um valor de uso a priori, mas que sua utilidade só existe se houver a mediação entre o medicamento e o usuário. O medicamento, essa tecnologia, para ser utilizada precisa de uma mediação, ou seja, quem define seu valor de uso, quem orienta a forma de consumo, a quantidade, o momento, é o profissional prescritor o médico ou o farmacêutico. 3

4 Essa característica confere ao medicamento uma característica de bem público e, na avaliação de Gisélia, no sistema capitalista isso gera uma profunda contradição, qual seja: a necessidade do lucro da empresa e a necessidade de acesso da população. A indústria farmacêutica cresce e se desenvolve a partir da mediação dos profissionais de saúde e isso nos leva a refletir porque o mercado farmacêutico tem os contornos que tem hoje a questão das patentes, da inovação tecnológica o que é inovação na área de medicamentos a incorporação dessas inovações não deveria ocorrer apenas por critérios técnicos e científicos. Daí a importância em tentar construir essa ponte entre a necessidade de discutir o medicamento e como a Assistência Farmacêutica incorpora e assimila essas questões na hora de definição dessas políticas. Não existe assistência farmacêutica isolada dos outros serviços de saúde, portanto sua institucionalização passa por ela estar organizada no serviço de forma condizente e para isso é preciso conscientizar os gestores de que a assistência é uma política estruturante. A presidente da Fenafar, Célia Chaves, recuperou o histórico da Fenafar, desde sua fundação fazendo referência à exposição montada em comemoração aos 35 anos da entidade e focou em sua exposição à luta pela transformação da farmácia num estabelecimento de saúde, ressaltando que as ações de Assistência Farmacêutica devem ser observadas não somente no setor público e principalmente no setor privado. Célia registrou, também, a questão da necessidade de o Brasil avançar como produtor de insumos e medicamentos para garantir a soberania nacional e o acesso da população aos medicamentos. Nesse sentido, lembrou a lei das patentes, aprovada em 1996, que colocou a produção nacional em condição de subalternidade perante as indústrias multinacionais de fármacos. Um episódio recente que contou com a participação da Federação nesse campo foi a apresentação da representação junto a Advocacia Geral da União pedindo a inconstitucionalidade dos artigos 230 e 231 da Lei de Propriedade Intelectual que instituiu as patentes pipeline. 2ª Mesa Mundo do Trabalho Farmacêutico Dr. Elias Dourado farmacêutico - Chefe de gabinete e representante do Dr. Nilton Vasconcelos Secretario de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte do Estado da Bahia. Nilce Barbosa Presidente do Grupo Racine Maria Helena Braga Presidente da Abenfar Associação Brasileira de Ensino Farmacêutico Marco Aurélio Pereira Diretor da Escola Nacional dos Farmacêuticos Eliane Simões Presidente do Sindicato dos Farmacêuticos do Estado da Bahia (Mediadora) O Dr. Elias Dourado Iniciou sua apresentação descrevendo a estrutura do sistema público de trabalho e emprego no Brasil como sendo um sistema estratificado e tem na sua centralidade o Ministério do Trabalho, ficando para as secretarias estaduais o papel de discutir e pouco a fazer. A inexistência de uma estrutura do Trabalho no Brasil integrada e de articulação dos estados a exemplo do SUS deixa muito a desejar neste campo. O que nos desafiou aqui no Estado da Bahia a ações inovadoras. 4

5 A problemática do mundo do trabalhado tem sido extremamente desafiadora para as entidades sindicais, as organizações de categoria, de ramos de atividade, conselhos e, sobretudo para os governos. Em curso atualmente existe o debate da desregulamentação das profissões, da desregulamentação das relações do trabalho. Amparado aos pilares da luta sindical, da luta por uma estrutura mais humana e das relações do capital trabalho, é necessário enfrentar com patamares aceitáveis de diálogo, de convivência e dignidade, as contradições, características do sistema em que vivemos que é o capitalismo, completa Elias. Também chamou atenção para a grande complexidade do mercado de trabalho agonizado pela crise econômica em curso e de duas importantes vertentes que vem se enfrentando desde a década de 80, e com mais força na década de 90, a primeira é da desregulamentação das profissões e as relações de trabalho e a segunda que são as alternativas que vão ao sentido contrário. Segundo Elias, é necessário os farmacêuticos tratar a questão da valorização e da precarização do trabalho. Agenda do Trabalho Descente Tendo como modelo, o atual governo da Bahia, implantou agenda do Trabalho Descende que faz parte dos nove objetivos do Milênio definidos pela ONU e seu 9º objetivo trata do trabalho descente, uma concepção levantada pela OIT- Organização Internacional do Trabalho. Porém é necessário observar que em vários lugares esse objetivo vem sendo aplicado no sentido de flexibilizar e desregulamentar as relações do trabalho, apresentando um viés liberal. Mas, é fundamental destacar que muitas entidades sindicais e alguns outros lugares esse trabalho vem sendo desenvolvido no sentido da valorização do trabalho. No caso da Bahia esse tem sido o carro chefe da Secretaria do Trabalho Emprego, Renda e Esporte, através do combate ao trabalho infantil, ao trabalho escravo, desigualdades do mercado de trabalho sejam elas de gênero, regional, ou racial e as mais diversas desigualdades que o mercado possa expressar. Em linhas gerais a idéia de que o trabalho seja um elemento de valorização emancipação das pessoas e geração de saúde. Essa agenda vem sendo abraçada na Bahia pelas centrais sindicais e diversas secretarias do governo da Bahia. Atualmente avançou o processo de dialogo social que conta com a participação dos empresários. A Professora Maria Helena Braga Presidente da ABENFAR deu inicio a sua fala contextualizando: Qual sociedade que queremos? E dentro das dificuldades, do complexo industrial da Saúde, da interferência internacional no sistema de saúde, da indústria farmacêutica. Qual papel do farmacêutico? Segundo a professora, hoje nos encontramos em um ponto entre uma sociedade do consumismo, do capitalismo e do neoliberalismo da qual queremos fugir e transformá-la em uma sociedade de coesão e solidariedade social, assim como foi dito por Leonardo Boff no Fórum Social de 2009 em Belém. E entre estes dois pontos temos coisas que se aproximam, e é essa a construção que queremos fazer, e no ensino propriamente dito. Durante o inicio de sua fala citou Paulo Freire a possibilidade de ir além do amanhã, sem ser ingenuamente idealista numa relação dialética entre denunciar o presente e anunciar o futuro.assim a Dra. Maria Helena decorreu a sua intervenção na perspectiva de entendermos como está o ensino farmacêutico para onde queremos caminhar. 5

6 Tese da Abenfar A tese aborda a luta dos estudantes e professores de farmácia, a partir do aprofundamento dos planos de mudança passando pela inovação no processo de transformação, e que dependendo da ordem que são colocados cada um desses conceitos, pode-se avançar mais ou menos. É neste cenário que a ABENFAR tem essa responsabilidade e ousadia. O processo dos três níveis de mudança que tem na formação, podemos partir da concepção de inovação por ser uma concepção tradicional da educação e da saúde, é claro que vendo uma série de inovações sabemos da importância delas, mas temos clareza de que não é essa a construção que pretendemos. Neste sentido, algumas reformas transcendem esse processo de inovação, apesar da lógica da reforma sanitária onde temos a reforma e a inovação como uma seqüência. Em nosso conceito a reforma tem muito mais segurança, muito mais profundidade do que o processo de inovação, porque a partir dai teremos uma concepção humanística de educação, e uma concepção ampliada de saúde, e isso já vem sendo vivenciado em algumas áreas principalmente na saúde, um processo de reforma ainda no lastro da reforma sanitária da saúde. Cenário No cenário atual da educação que vem sendo acompanhada, considerando o papel estratégico da formação de recursos humanos para dar conta de transcender o mundo do trabalho, em todas as áreas de atuação do trabalho farmacêutico, e nas quais é necessária a formação do farmacêutico, em que cada profissional vai completando e se encaixando em cada área, e como é necessário o processo de formação para chegar à proposta de cada área. Podemos perceber portando que a estratégia e a complexidade da formação são muito grandes. Outro ponto do cenário que precisamos considerar são as diretrizes curriculares nacionais. Ainda que tragam em si uma série de áreas de atuação do profissional por sua diversidade (deixando claro que esta diversidade de atuação do farmacêutico enquanto profissional do medicamento), essa relação direta nas várias possibilidades que existem, em um cenário amplo de atuação que é complexo de se estar trabalhando. E outra grande dificuldade é exatamente uma série de área de atuação para o farmacêutico, da necessidade de estar presente quando na realidade ele está ausente.todas as áreas importantes para a saúde da população brasileira hoje estão articuladas com o processo do capital, da saúde neste sentido, e do papel simbólico do medicamento, e da importância terapêutica para este processo. Mas é preciso ter clareza que nestes dois extremos do mundo, muitas das atividades são valorizadas com uma serie de processos de especialização, de educação continuada, mas quando ao falarmos da função primaria da saúde, da mudança da transformação social da saúde, do atendimento da população brasileira o farmacêutico não está presente. Ao citarmos o exemplo dos pequenos municípios onde o farmacêutico esta sendo inserido, relacionado a uma serie de atividades, e ao relacionar estas atividades nota-se a inviabilidade das condições de trabalho. Na verdade constatamos que o cenário de prática de trabalho está ocupado por todos, não há prerrogativa do profissional. 6

7 A assistência farmacêutica hoje não é do farmacêutico, mas de todos. Estudos já publicados na saúde coletiva com diversos artigos, e recentemente ao realizarmos o levantamento das dissertações de mestrado e doutorado, sobre a produção, foi verificado que a mais baixa densidade é na área da formação do farmacêutico e na atividade deste profissional diretamente ligado a transformação do paradigma da saúde do povo brasileiro através do desenvolvimento da atenção primária com promoção de saúde. Estes são, portanto, os grandes desafios que teremos de enfrentar na estratégia da formação dos recursos humanos, no processo de transformação real da sociedade e como podemos inserir este profissional, completa Maria Helena. Âmbito profissional Trata-se, portanto de um processo continuado com alterações de cenário do profissional dentro de uma sociedade em transformação. A agenda discutida hoje deve ser ampliada acompanhada de um amplo debate sobre os rumos a serem tomados enquanto prioridades para o conhecimento do profissional. Diretrizes curriculares Dentro do processo de mudança proposta pela Abenfar, o que temos hoje são as mudanças do ensino superior depois da homologação das diretrizes curriculares. A implementação das diretrizes é um ponto importante de debate nas pautas da entidade, pois elas já estão formalmente sistematizadas, não há clareza sobre sua implementação, apesar de, basicamente, todas as escolas oficialmente já estejam com o currículo definido por estas diretrizes. Porém, ainda não temos como aferir o grau de profundidade de sua implementação. Primeiro pela ausência de uma discussão de natureza metodológica, onde são levantados os conceitos de inovação de competência, etc.. Segundo, de natureza política, onde existe resistência de adesão as inovações, associadas ao afastamento entre a acadêmica e a comunidade. Terceiro, a natureza histórica social e científica que lida com a tradição do ensino tecnicista no qual está consolida e reconhecida à dicotomia teoria e prática. O que se percebe é a inércia institucional, o individualismo, o corporativismo, o processo de formação docente com diferentes regiões, diferentes escolas públicas e privadas não voltadas para a transformação da grande maioria. Apesar de avançarmos em alguns pontos da formação docente, esta formação não é para discutir esse modelo do profissional farmacêutico que almejamos nos debates aqui hoje. Ainda temos uma série de mazelas incorporadas a este processo. A falta do clima de confiança e de consenso na realidade é uma revisão, uma avaliação profunda com critérios, com indicadores das diretrizes e da forma de aplicação para que se exista um ciclo avaliativo real, do que está sendo proposto, para um processo de revisão continuada. O que temos hoje é um controle burocrático e a falta de apoio da administração educativa, apesar das diretrizes trazerem em si uma série de orientações, as escolas hoje não disponibilizam em sua maioria dos instrumentos e ferramentas necessários para que estes processos previstos nas diretrizes sejam de fato incorporados. Qual o caminho? A Abenfar traz como proposta uma mudança de paradigmas nas escolas, como já foi citado, tendo claro que esta mudança está baseada numa ampla proposta de transformação da sociedade. 7

8 Proposta da Abenfar para o ensino: 1. Um profundo processo de avaliação pelas entidades, pelas associações acompanhadas pelo processo de avaliação da institucional ou não; 2. Sair do estado liberal, para um estado regulatório mínimo, ou seja, o processo educacional não pode continuar solto da maneira que está. Deve ser acoplado o processo avaliativo com o processo de comprometimento, de responsabilização da sociedade com vistas ao processo formativo. 3. Discussão e incorporação dos professores ao processo. Buscar este professor para além do seu conhecimento técnico, para a construção de um conhecimento em conjunto com a sociedade. As iniciativas para estas ações que já existem hoje, a exemplo do processo de ativadores, onde são notórias uma pequena participação dos professores da farmácia. É preciso buscar alternativas de como incentivar os professores para este processo. 4. Durante o I Fórum de Educação Farmacêutica realizado pela Abenfar em dezembro de 2007, foram colocadas como propostas para o debate Qual o farmacêutico que o Brasil necessita : Farmacêutico como profissional de saúde, preparado para o Sistema Único de Saúde, capaz de intervir científica e criticamente sobre os problemas de saúde e sobre o sistema de saúde; Profissional farmacêutico com competência para promover a integralidade da atenção à saúde, de forma ética e interdisciplinar; Farmacêutico com domínio técnico e político-humanista; com competência para o gerenciamento e o cuidado de saúde; Profissional farmacêutico necessário para sistema de saúde e valorizado pela sociedade; Educação capaz de formar cidadãos; Modelo de educação farmacêutica baseado na integralidade e complexidade social; Doutora Nilce Barbosa iniciou sua intervenção apresentando a contribuição que o Instituto Racine possa trazer pela sua experiência de 20 anos de atuação na formação dos profissionais farmacêuticos após a graduação, o fato de estarmos inseridos em vários estados do país, atuando em acordo de cooperação com diversas universidades e com as forças armadas brasileiras: marinha e aeronáutica, o que nos permite uma visão do quadro profissional do Brasil, e nos últimos 8 anos com acordos de cooperação internacional permitindo uma grande visão de como as coisas são complicadas em todos os países, não apenas no Brasil. A implementação das novas diretrizes curriculares, a mudança de paradigmas na profissão tendo que incorporar novas atividades e rever o que já se fazia, nos leva a crer que a profissão farmacêutica foi uma das mais impactadas no nosso fazer. A visão do instituto hoje é muito próxima do profissional. A defasagem curricular foi à maior alavanca do inicio dos trabalhos do Instituto Racine, com um estrangulamento do mercado de trabalho na área industrial e das análises clínicas que sempre foram espaços de predominância da atividade farmacêutica e do qual o desenho curricular contemplava, obrigando o profissional a migrar para a área de serviços. Uma área da qual ele não gostava, ele não estava preparado, embora profissional o saiba da importância do medicamento, do seu ciclo de vida, desde o seu desenvolvimento, elaboração da formulação, estudos clínicos, pré-clinicos, registro, distribuição alguém que prescreve alguém que usa e os efeitos desde uso, mas passamos quase um século sem nos preocuparmos com isso, avaliando todo o processo dentro do contexto histórico. 8

9 Diagnósticos: 1 - visão das intuições formadoras, do ponto de vista da sua formação profissional e inclusive pessoal, o avanço das diretrizes com os profissionais já formados na nova proposta, a qualidade do ensino, a qualidade do egresso, as crenças e valores da instituição que refletem neste individuo, a visão de mercado da instituição, que impulsiona o profissional para mercados que não existem desmerecendo grandes mercados de trabalho para profissionais farmacêuticos; 2- visão das empresas e instituições geradoras do trabalho: espaços de desenvolvimento e crescimento profissional ou de regressão e estacionamento; qualidade do vinculo do profissional com as instituições e vice-versa, e grau de importância do profissional para a instituição 3- visão dos profissionais: identificação com a profissão, conhecimento da sua história, se entende o papel social e política e da importância do seu trabalho com o medicamento, se reconhece a sua responsabilidade e se deseja de fato assumi-las, se tem reconhecimento do mercado de trabalho. Ao relacionarmos os ciclos de vidas dos medicamentos podemos expressar uma série de competências do profissional farmacêutico em cada uma dessas fases, com as quais podemos relacionar as suas qualidades. Questionamentos e reflexões: Da definição das Diretrizes Curriculares: traçado o perfil profissional: generalista, humanista, com capacidade de avaliar crítica e reflexiva a sociedade em seus aspectos bio-psico-sociais, trabalhar com a comunidade a sua função social, para atuar em todos os níveis de atenção à saúde, com rigor científico e intelectual, participar e lutar por uma Política Nacional de Assistência Farmacêutica. Ao examinarmos a implementação das novas diretrizes, podemos perceber que muitas das disciplinas ligadas às ciências sociais foram colocadas de forma isolada. Isso não deve ocorrer apenas pela ampliação do número de disciplinas obrigatórias ou optativas, mas pela maneira de como se dá o ensino e o aprendizado na graduação, a forma como todas essas disciplinas estão integradas e trabalham para a formação de um profissional. Até hoje o que podemos observar é uma supervalorização dos alunos e algumas instituições pelas disciplinas centradas em habilidades tecnológicas. Quando os cursos de Farmácia deverão estar preparados para oferecer aos estudantes uma gama de conhecimentos que contemplem a interdisciplinaridade da profissão, o enfoque de problemas regionais, bem como a possibilidade de reciclagem desses conhecimentos. Dos estágios: como espaço de prática profissional, quais os critérios para um espaço de prática profissional? Como definir um bom tutor? Da educação permanente e como ela deve ser vista pelo profissional: hoje a educação permanente é vista da necessidade de sanar deficiências da graduação, o que é um grande erro. Dados coletados Ao balizarmos os dados dos alunos pós-graduação oferecidos pelo Instituto Racine dos últimos 7 anos pode observar que na área industrial o profissional encontra-se mais preparado para suas habilidades, porém a predominância é na área de serviços que compreende as farmácias, distribuidoras, assistência farmacêutica de municípios, entre outros. Já nos cursos intensivos esses dados são equivalentes. 9

10 A fonte pagadora ainda é de predominância do profissional. Podemos observar que os setores em que a formação na graduação tem deficiência, exemplo: os cursos de produtos domissanitários, são os de maior investimento pelos profissionais. Gênero Predominância de mulheres nos cursos e faixa etária de 28 a 38 anos, Considerações finais O papel dos sindicatos e das entidades é de extrema importância para a formação permanente deste profissional, entendo que este papel não pode estar desvinculado do panorama real que o profissional vivencia, e assim conhecer ainda mais os profissionais. Sempre que discutimos a formação continuada do profissional, uma grande colocação é o ponto de vista da remuneração. As pessoas agem pelas circunstâncias ou as pessoas agem pelos seus valores e crenças. Marco Aurélio deu inicio agradecendo a hospitalidade do Sindicato dos Farmacêuticos da Bahia e do CRF-BA que receberam o 6º Congresso da Fenafar, o 2º Simpósio Nacional de Assistência Farmacêutica e o 2º Encontro de Farmacêuticos Conselheiros de Saúde, apresentando seu debate a partir de sua experiência como dirigente sindical e sua vivência com os sindicatos filiados à Federação. Aprendendo com os erros e acertos da vida sindical. E dentro deste contexto é preciso levar-se em conta que vivemos num país capitalista, que passou por um recrudescimento do neoliberalismo e que ainda existe apesar do governo hoje em exercício, e que muitos chamam de herança maldita. Em um mundo globalizado onde hoje vivenciamos uma crise econômica mundial. Partindo deste principio o mercado de trabalho é completamente desigual, fazendo com que o sistema seja de extrema competitividade, num processo de que é preciso vencer sempre, onde todos são inimigos, e esta competitividade dar-se inclusive gerando baixa remuneração em detrimento de um profissional que ganhava um pouco mais. Um sistema completamente desumano e não comum e, portanto trata-se de um problema do sistema e não do indivíduo. A exploração do trabalhador. As relações de trabalho empregado-empregador, ao exemplificarmos o estado de São Paulo, em sua primeira rodada de negociação para farmácia e drogaria, em uma primeira análise o sindicato patronal está numa oferta entre zero de aumento ou metade do INPC, que para o período seriam de 2% de aumento e dentro deste contexto o trabalhador tenta encontrar formas de manter-se empregado, de manter-se neste setor. Outro problema é a ausência do Estado em momentos determinantes, e que num passado recente houveram ações que foram balizadas, regulamentadas pelo mercado com omissão do Estado. Uma conseqüência clara do sistema é o aumento do número de cursos de farmácia, e acho injusto tentarmos colocar um exame de proficiência para a nossa profissão. E não seria correto colocar um filtro pós graduação. Do ponto de vista do profissional farmacêutico existem aspectos históricos para que o piso do profissional, que atua em farmácia e drogaria, seja um dos menores. 10

11 O longo período de afastamento dos profissionais das farmácias e do entendimento que havia sobre a real necessidade da prestação da assistência farmacêutica nas farmácias, trás neste processo um impacto salarial e seria culpa do profissional esta realidade, o que não é verdade, segundo Marco Aurélio. A conceituação do profissional como trabalhador liberal, com a análise de que o profissional não precisa se organizar, mas que precisa apenas de si mesmo. O que entendemos como uma distorção do conceito liberal e que tentamos combater. O aluno ao forma-se e questiona: Somos de fato reconhecidos pela sociedade? Qual seria o valor de salário digno?nossa formação condiz com o mercado? Ao contextualizarmos a proposta do consenso brasileiro de atenção farmacêutica, e ao consideramos o período recente é possível realizarmos alguns diagnósticos: 1. Crise de identidade profissional do farmacêutico e, em conseqüência, falta de reconhecimento social e sua pouca inserção na equipe multiprofissional de saúde, não representando um referencial como profissional de saúde na farmácia. Porém, existe uma busca de conhecimento como ferramenta para interferir no processo de melhoria da qualidade de vida da população e para que haja valorização do profissional farmacêutico no país. 2. Deficiências na formação, excessivamente tecnicista, com incipiente formação na área clínica. Descompasso entre a formação dos farmacêuticos e as demandas dos serviços de atenção à saúde, tanto públicos como privados e nos diferentes níveis, bem como daquelas referentes ao setor produtivo de medicamentos e insumos necessários ao âmbito da saúde. Falta de diretrizes e escassez de oportunidades de educação continuada; 3. Dissociação entre os interesses econômicos e os interesses da saúde coletiva, com predomínio dos primeiros, resultando na caracterização da farmácia como estabelecimento comercial e do medicamento como um bem de consumo, desvinculados do processo de atenção à saúde; 4. Prática profissional desconectada das políticas de saúde e de medicamentos, com priorização das atividades administrativas em detrimento da educação em saúde e da orientação sobre o uso de medicamentos; 5. Falta de integração e unidade entre as entidades representativas da categoria farmacêutica e outros segmentos da sociedade em torno das políticas de saúde. Mercado de Trabalho Farmacêutico Farmácias e Drogarias: Alto percentual de trabalhadores, Situação complexa: Empregados e empregadores na mesma base; Visão comercial sobre o estabelecimento. Indústrias Farmacêuticas: Fusão de grandes empresas; migração de empresas por motivos de incentivos financeiros por parte dos estados, a disputa com outras profissões. Análises clínicas: Impacto do avanço tecnológico, diferença de valor salarial entre os farmacêuticos e categorias não organizadas. Serviço Público: Diferenças regionais são discrepantes nos concursos públicos nas regiões do país do ponto de vista do valor pago e da empregabilidade. Hospitais: Diferenças regionais; Liminares para a não obrigatoriedade do farmacêutico; Complexidade dos serviços Remuneração baixa. 11

12 Novas áreas: Transportadoras / Indústria e distribuidora de correlatos / Entrepostos aduaneiros, entre outros. Pisos Salariais Hoje estamos num debate sobre um piso salarial único, que tem uma tramitação ordinária nas duas casa legislativas, do qual apoiamos e queremos discutir e aprofundar com os parlamentares. SP R$ 1590,00 a R$ 2509,62. Sem jornada especificada. MG R$ 2350,00 para 40 horas. GO R$ 2632,00 para 40 horas. MS R$ 860,00 + R$ 3,00 por hora trabalhada. PE R$ 888,10 (30 horas) a R$ 2438,80(40 horas). PB R$ 1241,27 para 40 horas. SC R$ 1593,75 para 40 horas. AM R$ 900,00 a R$ 1400,00 para 44 horas. Situações gerais: Profissionais recebem abaixo do piso; Comissão individual; Pagamentos por fora.; Desconhecimento dos seus direitos e deveres Responsabilidades. Qual o papel das entidades sindicais Qual o valor agregado ao trabalho? A quem cabe promover benefícios para os farmacêuticos? A quem cabe discutir o piso profissional? Quem tem a responsabilidade de promover a capacitação profissional? Qual deve ser a interface entre: associações, sindicatos, conselhos, Confederação, Centrais sindicais, etc.? 3ª Mesa: Saúde: quem paga a conta? O papel do controle social e da gestão participativa Francisco Batista Junior Presidente do Conselho Nacional de Saúde Jussara Cony Diretora Superintende do Grupo Hospitalar Conceição Porto Alegre Rio Grande do Sul Gonzalo Vecina Neto Superintende Corporativo do Hospital Sírio Libanês e Ex- presidente da Anvisa Maria Eugênia Cury Diretora do Nuvig Núcleo de Gestão do Sistema Nacional de Notificação e Investigação em Vigilância Sanitária da ANVISA 12

13 Ronald dos Santos Diretor de Comunicação da Fenafar e Diretor Técnico da Escola Nacional dos Farmacêuticos (Mediador) O presidente do Conselho Nacional de Saúde, Francisco Batista Junior, participou do 2º Simpósio Nacional de Assistência Farmacêutica no debate onde fez um breve resgate da aprovação do SUS, em 1988 e fez um alerta: é preciso resgatar os princípios do SUS, que está passando pelo seu pior momento. É preciso resgatar os princípios do SUS Na avaliação de Batista Júnior, nós conseguimos aprovar o SUS na Constituição de 88 pela conjunção política que vivíamos naquele momento, senão o Brasil não teria o SUS. O SUS é uma política atrevida, porque num país patrimonialista como o nosso é uma política que aponta para a universalidade e integralidade. Outros aspectos que revelam o atrevimento que representa o SUS é o modelo que aponta para uma democracia participativa, com controle social, conselhos de saúde, também; porque aponta para a prevenção e não para o cuidado de doenças já instaladas e porque trata a saúde como um direito do cidadão, segundo Batista Júnior. Apesar dos enormes avanços que o SUS conseguiu nestes 20 anos, não dá para comparar o que era o Brasil em termos de sistema de saúde hoje e o que era depois do SUS. Mas o SUS está passando pelo seu mais grave momento. Vem resistindo bravamente, vem sobrevivendo, mas ou repensamos muita coisa e tentamos resgatar muita coisa que ficou pelo meio do caminho ou o SUS pode se inviabilizar, alertou o presidente do CNS. Ele avalia que estamos enfrentando um desmonte do espaço público, no aspecto do financiamento, sucateamento, terceirização completa, a partir do decreto de Fernando Henrique Cardoso que previu a terceirização do trabalhador da saúde, de forma totalmente inconstitucional. Não contentes com isso, privatizaram a gestão a partir das organizações sociais, sob o discurso de que é preciso entregar para o privado porque o Estado é incompetente. Um discurso reacionário que a administração passou a ser ditada pelo interesse privado. E, agora, vem o projeto da fundação estatal de direito privado, um equivoco que não representa nada de inovador, pelo contrário, é o abandono do projeto do SUS. Para Francisco Batista Júnior é urgente recuperar, até o final do governo Lula, os princípios do SUS, senão vamos inviabilizar o mesmo. Jussara Cony, superintendente do Grupo Hospitalar Conceição de Porto Alegre, trouxe informações sobre a estruturação do Grupo e o desafio de transformar o complexo em um serviço 100% público. São 7500 trabalhadores dos quais 70% são mulheres que estão nos ajudando a fazer a gestão. Desde 2003, o Conceição é 100% SUS. E essa opção é política e de gestão. Com atendimento em média e alta complexidade e temos a porta aberta 24 horas nas emergências, relatou. 13

14 Os desafios de transformar o Grupo Conceição em um serviço 100% público A diretora do Grupo Hospitalar Conceição, Jussara Cony, introduziu o debate contextualizando o momento político internacional, de crise do capitalismo e de transformações profundas em curso, com o embate entre mudança e continuidade. Essa crise coloca em xeque o que sempre ouvimos, que o Estado seria um entrave para o desenvolvimento. Mas, o que vemos hoje é exatamente o inverso, é que o Estado tem um papel indutor para o desenvolvimento, destaca. O Grupo Conceição é composto por quatro hospitais - Conceição, Criança Conceição, Cristo Redentor, Fêmina com mais de mil leitos. Temos uma agenda estratégica de gestão em consonância com os pilares básicos do PAC da saúde voltado para a integralidade. Para nós é isso, a pessoa é o centro. A superintendente destacou que é importante a adesão ao SUS de camadas médias, inclusive de trabalhadores do setor público, para garantir mais força política para avançar no SUS, referindo-se a necessidade de ampliação do público. Saúde e Educação Jussara informou que o Grupo está se capacitando para se transformar num pólo de informação e pesquisa. A educação é ferramenta estratégica para implantação do SUS e já estamos nos certificando como instituição de pesquisa, para participarmos da Unasus - Universidade aberta do SUS. Vamos nos voltar para termos conteúdos, práticas e pesquisas em função das necessidades da população. Também pretendemos redirecionar a residência médica, para que ela esteja integrada a equipes multidisciplinares de saúde. Isso é a valorização do trabalhador. Gonçalo Vecina fez um resgate histórico da estruturação do sistema de saúde no Brasil, ressaltando que o subssistema privado sempre teve um peso importante, com cerca de 70% da oferta de atendimento, da qual 30% com finalidade lucrativa. Essa predominância avaliou, diz respeito ao próprio modelo de construção do sistema, que remonta a década de 40. A partir dos anos 60, começou a se estruturar um novo sistema de atenção à saúde, com a criação da medicina de grupo. Na década de 70 nascem as cooperativas médicas e o modelo da autogestão que hoje é importantemente representado por instituições com relações com o Estado bancos estatais entre outros. Em seguida, no final da década de 70 nasce o seguro saúde, que aqui difere de outros países, aqui não é exatamente seguro, tem mais a ver com medicina de grupo do que com seguro, pontuou. Falta dinheiro para a Saúde Do ponto de vista do usuário, Vecina afirmou que, cerca de 23% são cobertos por planos de saúde aproximadamente de 45 milhões de pessoas. Os outros 145 milhões têm os SUS. Mas, de acordo com o que está na Constituição, 190 milhões têm o SUS e 45 milhões tem o SUS e também a medicina privada, porque de acordo com a Constituição o sistema privado é suplementar. Dos 45 milhões de brasileiros que têm acesso aos planos privados, 85% estão em planos coletivos alguém está pagando por eles é um benefício trabalhista. Os outros 15% são compradores individuais do plano de saúde, que são objeto de controle e regulação da Agência Nacional de Saúde Suplementar criada em 2000 e que obriga que os planos tenham homogeinidade em termos de oferta de cobertura. Contudo, aponta Vecina, essa homogeneidade ainda está distante do que deveria ser para prestar saúde para a população. Os planos privados não prestam assistência farmacêutica, não fazem transplantes e estes procedimentos continuam recaindo para o SUS. 14

15 Gonçalo Vecina trouxe ainda dados sobre recursos para a Saúde, mostrando que metade do dinheiro que se coloca na saúde hoje vem do bolso privado e a outra metade vem do modelo de assistência médica suplementar e do gasto estatal direto 45 bilhões do Ministério da Saúde, 25 bilhões de municípios e 25 bilhões dos estados, cumprindo a Emenda Constitucional 29. Esses valores somam em aproximadamente 500 reais per capita ano. Enquanto isso, na iniciativa privada, foi investido aproximadamente 50 bilhões para atender 40 milhões de pessoas o que resulta em R$ 1000,00 per capita. Vira e mexe, quando discutimos saúde, dizem que não falta dinheiro, mas sim qualidade de gestão. Mas olhando esses números vemos que falta dinheiro sim nessa equação. E o que se faz na iniciativa privada também é insuficiente e não oferece a qualidade que a assistência deveria ter, avalia. Com relação à rede hospitalar brasileira, são cerca de 7200 hospitais, com 440 mil leitos para 190 milhões de brasileiros. Está sobrando leito no Brasil, nós temos 2,2 mil leitos por habitante. Mas temos leitos de má qualidade. Apenas 3% são de UTI, quando um bom processo de atenção exige 10% de leitos de UTI. Temos muitos hospitais de pequeno porte com menos de 50 leitos, observa Vecina. Os dados de internação dizem que o SUS interna 8% da população, a medicina privada interna 15%. O SUS entrega 3% de consulta ano, a medicina privada está entregando 6%. Isso pode estar demonstrando que, do lado da iniciativa privada está se demonstrando a coisificação da medicina enquanto do lado do setor privado há baixo atendimento. Esses dados, para Vecina, apontam que a sociedade, através do estado, preciso olhar para isso. Temos que pensar assistência médica de forma integrada. Para Maria Eugênia Cury Se fizermos uma relação da Política de Farmacovigilância com o uso racional de medicamentos e a proposta do debate, saúde, quem paga a conta, veremos que ações adequadas poderiam evitar que os transtornos causados pelo uso indevido de medicamentos levassem a utilização de leitos hospitalares e a atendimentos, que têm um custo para o sistema. Ou seja, se eu der o medicamento certo, na hora certa, na dose certa, eu promovo o uso racional do medicamento e reduzo substancialmente os gastos com atendimentos e internações, afirma Maria Eugênia. O desafio, segundo a diretoria do Nuvig é como construir uma política de vigilância sanitária que possa contribuir para isso, como desenvolver políticas estruturantes que diminuam os gasto com aquilo que não precisaria ser gasto. O caminho delineado por Maria Eugênia é o de termos medicamentos eficazes, seguros e de qualidade, o que depende do processo de avaliação da pós-comercialização que aparece dentro de uma lógica de mudança do foco da vigilância sanitária, que antes estava apenas centrada no produto de forma ainda cartorial, porque se baseava em fatores desenvolvidos a partir de documentos apresentados para o registro do produto. Temos que passar a fazer uma vigilância sanitária e usar recursos públicos para monitorar e relacionar as conseqüências do uso dos produtos pela população, defende. Ela argumenta que é necessário desenvolver uma política de estudo de pós- comercialização, porque as informações contidas no processo de registro não são insuficientes para saber quais as reações adversas dos medicamentos. 15

16 A partir desse novo foco, a farmacovigilância passa a ter um caráter que não é só científico, para ser encarada num contexto de estratégia para desenvolver produtos com maior segurança. É a interface entre a prática clínica e a regulação de medicamentos. É ter uma política de farmacovigilância preventiva, porque isso é pensar no dinheiro da saúde. 4ª Mesa Os impactos das inovações tecnológicas nas Políticas de Saúde e Assistência Farmacêutica Gabriela Chaves Farmacêutica da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais dos Médicos Sem Fronteiras Douglas Dantas Diretor técnico da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais Norberto Rech Diretor adjunto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária Mediador José Liporage Presidente da Associação Brasileira dos Farmacêuticos A Doutora Gabriela Chaves, iniciou sua apresentação fazendo uma saudação à diretoria da Fenafar e da Escola Nacional dos Farmacêuticos pelo seu convite para falar neste Simpósio e especialmente pela acolhida da Fenafar ao GTPI Rebrip e sentir que a trajetória da fenafar apesar de ser anterior a Rebrip soube abraçar e fazer parte dos novos movimentos. Seguindo o título da mesa, que trata da inovação, Gabriela Chaves dirigiu sua intervenção no sentido de tratar como a política de propriedade intelectual afeta a inovação e o acesso aos medicamentos. Resgatando a Mesa da manhã que debateu Saúde quem paga a conta? Principalmente onde foram citadas novas formas de lutas, de continuação de uma resistência, entendendo como os efeitos da política de propriedade intelectual e os acordos de livre comércio foram impostos aos países em desenvolvimento. Gabriela ressalta que atividades iguais ao simpósio é uma forma de resistência ao colonialismo, como foi muito bem exemplificado no debate realizado pela Fenafar no Fórum Social Mundial de 2009 pelo palestrante Amit Sengupta. Médicos Sem Fronteiras Apresentação do MSF - Médicos Sem Fronteiras criado em 1971 é uma organização humanitária internacional que leva cuidados de saúde a vítimas de catástrofes, conflitos, epidemias e exclusão social, independentemente de raça, política ou crenças. 22 mil profissionais trabalham na organização em mais de 70 países. Em 1999 O MSF foi contemplado com o Prêmio Nobel da Paz, o prêmio permitiu a entidade criar a Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais que tinha como objetivo enfrentar as dificuldades encontradas no campo de trabalho cotidiano nos países no que se refere ao tratamento de pacientes com tecnologias de alto custo, e ineficiência de produtos disponíveis no mercado ou pela absoluta falta de produtos adequados para determinadas doenças. Problemas relacionados ao ACESSO: aos medicamentos já existentes - altos preços. 16

17 Problemas relacionados à INOVAÇÃO: a falta de medicamentos/inovações para doenças que afetam os países em desenvolvimentos (malária, doença de Chagas, leishamiose etc), comumente conhecidas por doenças negligenciadas. No Brasil a atuação atinge um largo espectro na atuação em conjuntos com a Fenafar e outras entidades no Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (GTPI/Rebrip). Globalização das regras de patentes Em 1995 com a criação da Organização Mundial do Comércio, os países em desenvolvimento, tinham que aderir ao Acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio (Acordo TRIPS), para ingressar na Organização. O processo de transição e adequação dos países seria até Muito embora o Brasil tivesse a possibilidade de aprovar a sua lei até 2005 como fez a Índia aprovou ainda em 1996 a lei de propriedade industrial. Garantindo Padrões mínimos de proteção da propriedade intelectual, que seguiu um modelo único no mundo inteiro - 20 anos de proteção para produtos e processos farmacêuticos, entre outros. Não havendo nenhuma diferença entre medicamentos que salvam vidas e quaisquer outras mercadorias (Ex. carros, brinquedos, etc). A Justificativa dos defensores deste sistema seria de que a patente é uma mola propulsora para a inovação. O sistema funciona como uma troca entre o público e o privado, por um lado o Estado concede um monopólio temporário para a exploração e em contrapartida o inventor disponibiliza informação sobre a invenção, além de ter este esforço recompensado para que se possa reinvestir em novas inovações para a sociedade como um todo. Implicações e questionamentos do modelo de TRIPS Na questão do acesso, o que vem sendo observado desde 2000, é que a concorrência é a melhor forma de reduzir o preço dos medicamentos e assim promover o acesso. Do ponto de vista da Saúde não é somente o fator concorrência, mas as possibilidades de haver alternativa de mais fornecedores. Podemos ver que alguns medicamentos já sofreram reduções de custos de 90% ou mais, um exemplo seriam os medicamentos para tratamento de HIV-AIDS, que reduziram em 97% dos custos o tratamento por paciente/ano. Ao serem revistos os protocolos de tratamento e uma vez podendo haver a migração de tratamentos de segunda linha para tratamentos de primeira linha com produtos patenteados, o que isso irá representar para o sistema? E a pergunta quem paga a conta? Ou melhor, para além qual seria o custo da Inovação no setor farmacêutico? Dentro deste sistema em curso em que a Lei está em vigor, vem sendo feito um esforço de identificar as flexibilizações do Acordo TRIPS para a saúde publica, uma ferramenta que vem sendo utilizada é a Licença Compulsória ou quebra de patente. Os países em desenvolvimento iniciaram esse processo a partir de 2007, tendo inicio pela Tailândia. Esta decisão tem gerado retaliações das indústrias farmacêuticas para estes países. O mesmo ocorreu no Brasil com o caso do medicamento Efavirez. Por outro lado, essa ação também levou as indústrias farmacêuticas a reduzirem preços para não perder ainda mais mercados. 17

18 Um detalhe importante é que com o correr dos anos a fatia do bolo que corresponde à compra de medicamentos importados e sujeitos a proteção patentária só tende a aumentar para estes países em desenvolvimentos como é o caso do Brasil. É importante deixar claro a relevância da Índia neste processo, que com a sua indústria permitiu a produção de genéricos como o programas de HIV-AIDS e anti-retrovirais, apesar de não ter ainda um sistema de saúde, mas o esforço da sociedade civil vem conquistando ações positivas no sentido do cuidar de seus pacientes. Ao contrário do Brasil que já tem uma política de saúde e ainda é dependente na produção de fármacos. A partir deste novo marco em que a Índia passa a reconhecer patentes, Gabriela questiona: e agora como faremos? Como pensar nos produtos sem a Índia como alternativa? Mas não estamos sozinhos em buscar outras alternativas de acesso no mercado internacional, o próprio governo dos EUA, e a fundação Clinton fizeram aquisição de medicamentos genéricos com intuito de reduzir custos em seus programas na África e Ásia. H1N1 Ao debruçar o olhar sobre a pandemia e quanto a país em desenvolvimento que somos e especificamente na questão da vacina uma inovação que a médio prazo tratará da prevenção da Gripe H1N1 e sabendo que hoje 90% da produção já estão nas mãos de países ricos na América do Norte e Europa (pré-compra), com a capacidade máxima de produção das empresas que desenvolvem; a OMS só conseguiu negociar com as empresas (GSK e Sanofi-Aventis) uma doação de 10% da produção para países em desenvolvimento (pouco clara sobre distribuição e preço). É claro o exemplo de que mais uma vez o poder de compra, e não a necessidade médica está orientando os países ricos a monopolizar o acesso à vacina antes mesmo de sua produção. Este mês em reunião da UNASUR em Quito-Equador, os chefes de governo da America do Sul assinaram uma declaração que será enviada a OMS, solicitando que os países desenvolvidos cumpram o Protocolo Comum de Priorização de Grupos de Riscos, recomendado por este organismo. O aumento da proteção patentária significa mais inovação? Após treze anos de TRIPS podemos considerar que de fato obtivemos inovações? Já sabemos dos problemas relacionados ao Acesso, e que nem todos eles estão relacionados as patentes, mas elas são um exemplo de como práticas monopolistas podem inviabilizar o acesso. Apenas 68 (5.9%) de novos medicamentos patenteados analisados pelo Órgão Canadense de Revisão dos Preços dos Medicamentos Patenteados entre 1990 e 2003, foram classificados como reais inovações (breakthrough) ou seja, primeiro fármaco a tratar de forma efetiva uma determinada doença ou que promove ganho terapêutico considerável quando comparado com os fármacos já existentes. (Morgan et al, BMJ 2005). Apenas 153 (15%) dos novos medicamentos aprovados pelo FDA durante o período de foram classificados como altamente inovadores medicamentos que possuíam novos princípios ativos e que também apresentavam uma melhora clínica significativa. (NIHCM Foundation, 2002) (68%) de novos produtos aprovados na França entre 1981 e 2004 não trouxeram nada de novo em relação aos produtos já disponíveis anteriormente. (Prescrire International, 2005) 18

19 Crise do setor farmacêutico Muito embora os chamados gastos em pesquisas e desenvolvimentos tenham aumentado, eles não foram acompanhados por novas inovações. Além disso, ainda há o mau uso do sistema de patentes (prática de evergreening), onde são operadas pequenas mudanças (Ex. Obtenção de um sal ou xarope a partir de um fármaco já existente) este sistema permite a manutenção do estado de monopólio e perpetuação da patente ao inventor. Uma das práticas que vem sendo abordada pela sociedade civil é o de contestar previamente junto ao órgão responsáveis através do argumento de que o medicamento é uma substância já conhecida e, portanto não é passível de ser patenteado segundo as leis do país e assim tentar barrar essas más práticas. No caso do Brasil citamos o caso do Tenofovir, onde em dezembro de 2008 o Mistério da Saúde, declarou de interesse público, no mesmo dia o INPI contestou o pedido de patentes, e ao final não foi concedida. Do ponto de vista prático, no curto prazo significa a possibilidade de tentar importar uma versão genérica mais barata da Índia (a Cipla não fez o acordo com a Gilead). No médio prazo, significa a possibilidade de produzir a versão genérica localmente (laboratórios públicos e privados nacionais). Do ponto de vista político, é um excelente precedente para que as patentes na Índia não sejam concedidas também. Se elas forem negadas lá, certamente ficará mais complicado para a Gilead manter esses acordos de restrição para exportação. Patentes Pipeline no Brasil Patentes depositadas em outros países e não comercializadas antes de 1995 foram automaticamente concedidas no Brasil sem análise dos requisitos de patenteabilidade e sem garantir a inovação. Totalizaram 1182 patentes registradas como Pipeline. Hoje no Brasil 18 medicamentos dos tidos como excepcionais e de alto custo são depositados como pipeline. O que onera absurdamente os cofres públicos compromete os recursos do Ministério da Saúde, e nos impede de buscar alternativas em outros países. Em 2007 a Fenafar, em nome da Rebrip, entrou com representação na Procuradoria Geral da Republica questionando a constitucionalidade das patentes tidas como pipeline a e em 2009 o Procurador Geral da República entrou com ação de inconstitucionalidade contra as estas patentes. Pesquisa, Desenvolvimento e Inovações em Doenças Negligenciadas O Relatório da Commission on Intellectual Property, Innovation and Public Health, April 2006, declara que para as doenças que afetam milhões de pessoas nos países em desenvolvimento, as patentes não são fator relevante ou efetivo para estimular a P&D e trazer novos produtos para o mercado. E que Não há evidência de que a implementação do Acordo TRIPS nos países em desenvolvimento vai estimular de maneira significativa a P&D para medicamentos de doenças do tipo II e particularmente do Tipo III. Incentivos insuficientes de mercado são um fator decisivo. No âmbito da OMS em 2006 foi criado o Grupo Intergovernamental de Trabalho sobre saúde pública, inovação e propriedade intelectual (conhecido como IGWG). Para tentar reconciliar Acesso e Inovação em uma equação única e sem aumentar patentes, e desde 2007 temos comprometimento da Diretora da OMS nas missões do IGWG. 19

20 No âmbito internacional tem se buscado algumas propostas de modelos alternativos Parcerias para Desenvolvimento de Produtos (PDP): IAVI, Malaria Venture, DNDi; Modelo de prêmios; Pool de Patentes; Compromisso antecipado de mercado (AMC); Tratado de P&D; Alguns resultados 61a AMS (Maio/2008) ; Aprovação da Estratégia Global e Plano de Ação; Comprometimento da OMS em apoiar os países a utilizarem as flexibilidades do TRIPS (licença compulsória); Criação de um grupo de especialistas para avaliar os mecanismos alternativos propostos; Unitaid: anunciou esta semana a aplicação do mecanismo conhecido como pool de patentes. Ao encerrar Gabriela deixou uma reflexão, Porque o estado deve através de suas universidades patentearem inovações para doenças negligenciadas? Qual seria a melhor forma de proteger a inovação garantindo o acesso? Qual o custo para o estado de patentear uma inovação que não tem mercado? É preciso pensar em cláusulas de acesso para países em desenvolvimento. As patentes não são um fim em si mesmo, as pesquisas e desenvolvimento devem ser orientadas pelas necessidades em saúde. O representante da Alanac apresentou dados da participação dos produtos nacionais no mercado farmacêutico, mas chamou a atenção para o fato de que a indústria nacional é recente e há 20 anos não estava preparada para atuar no campo da inovação. Mas com a criação da Anvisa, em 99, avançamos muito, foi impactante para a indústria.houve um aumento de 114% da participação no mercado da indústria nacional, desde 2003, a indústria está buscando inovação, avalia. Uma das políticas que contribui para isso foi a dos medicamentos genéricos, que é um mercado em expansão. Os genéricos diminuem o preço do produto e aumenta a acessibilidade. Douglas mostrou que o Brasil está em 9º lugar no ranking de produção e consumo de produtos farmacêuticos. Os investimentos em 2005 para novos produtos foram de 51,4 milhões de reais. Em 2008, esse montante saltou para 225, 4 milhões de reais, um aumento de 560% no investimento. Um saldo considerável de 2003 para cá, que foi possível a partir de um pacote de resoluções da Anvisa para aumentar o nível técnico dos produtos, informou. A Alanac sempre lutou e continua lutando pelo desenvolvimento da indústria nacional e soberania nacional face à indústria farmacêutica internacional, ressaltou o representante dos laboratórios nacionais, apontando que esta é uma luta permanente e estratégica para o Brasil. Contudo, alerta, a política de inovação ainda não está fundamentada na inovação radical tanto para as doenças negligenciadas como para outros produtos patenteados para aumentar a competitividade 20

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