O IMPACTO DAS MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO E OS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM

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1 O IMPACTO DAS MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO E OS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM Salete Beatriz Scheid 1 Neide Tiemi Murofuse 2 INTRODUÇÃO: Vivemos atualmente numa sociedade marcada pelas intensas e rápidas mudanças que se processam, especialmente, no mundo do trabalho, com repercussões na vida humana. A introdução de inovações tecnológicas e organizacionais são algumas das marcas das mudanças processadas, a partir de 1970, no mundo do trabalho para reduzir custos e aumentar o lucro (ANTUNES, 2000). As mudanças repercutiram diminuindo os postos de trabalho, precarizando o trabalho e aumentando o desemprego(beynon, 1997). Houve drástica mudança nas relações contratuais de trabalho que favoreceram o surgimento de opções denominadas mais flexíveis, ou seja, a redução do custo com subtração de direitos do trabalhador. A idéia da carreira em instituições públicas, com direitos assegurados e estabilidade ainda estão presentes entre os futuros profissionais. Entretanto, a realização de concursos públicos vem diminuindo ano a ano e assim os recém formados tendem a surpreender-se no momento de se engajarem no mercado de trabalho. A enfermagem como prática social vivencia tanto as mudanças quanto suas conseqüências e assim as formas de contratação desses trabalhadores repercutem na qualidade de vida dos mesmos. A falta de valorização salarial leva muito desses profissionais a exercerem dupla jornada de trabalho, que sacia a demanda das empresas, mas retira deles as oportunidades de aprimoramento que pode refletir na diminuição da qualidade da assistência prestada e da qualidade desses trabalhadores. No presente estudo apresenta-se resultados parciais obtidos com o 1 Academica do 4 ano do curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Rua Ciencias Sociais 874 apto 02 cep: fone (45) Professor orientador do TCC.

2 desenvolvimento da pesquisa realizada com o intuito de compreender como essas mudanças estariam afetando a vida dos trabalhadores da enfermagem e os seus resultados serão apresentados como Trabalho de Conclusão de Curso da graduação em Enfermagem da Unioeste, campus de Cascavel, ano de OBJETIVOS: Compreender as transformações ocorridas no mundo do trabalho; identificar as principais formas de vínculo empregatício para os enfermeiros no atual mercado de trabalho e conhecer os direitos assegurados aos enfermeiros, nas diferentes formas de contratos, com ênfase na qualidade de vida desses trabalhadores. METODOLOGIA: Primeiramente realizou-se pesquisa bibliográfica para buscar subsídios sobre a área da saúde do trabalhador e as transformações ocorridas no mundo do trabalho. O levantamento bibliográfico caracterizada por Lakatos (1996) abrange toda a bibliografia já tornada pública em relação ao tema de estudo, com a finalidade de colocar o pesquisador em contato direto com o que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto. Num segundo momento realizou-se a pesquisa de campo envolvendo uma população de 47 enfermeiros matriculados em dois cursos de Especialização, gratuitos, oferecidos pelo colegiado do Curso de Enfermagem da Unioeste, sendo um em Saúde Pública com ênfase na saúde da criança e outro em Enfermagem com ênfase na Saúde do adulto. Os aspectos éticos recomendados para a realização de pesquisas com seres humanos constantes na Resolução 196/96 do Ministério da Saúde foram observados, tendo o projeto sido aprovado pelo Comitê de Ética da Unioeste. A amostra foi constituída por 20 trabalhadores, de ambos os sexos, dentre os alunos freqüentadores dos Cursos de Especialização, que consentiram em participar de forma voluntária e espontânea da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, garantido anonimato e sigilo das informações prestadas. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semi-estruturada que de acordo com Minayo (1993) combina perguntas fechadas (ou estruturadas) e abertas, onde o entrevistado tem a possibilidade de discorrer o tema proposto, sem respostas ou condições prefixadas pelo pesquisador. As entrevistas foram realizadas utilizando-se de

3 um roteiro previamente elaborado e testado. A coleta ocorreu no período de 01/04/2005 a 13/05/2005, no intervalo das aulas nas dependências da Unioeste. RESULTADOS: Os 20 enfermeiros entrevistados corresponderam a uma amostra de 42,5% do total de 47 matriculados. A maioria era composta por mulheres (80%), enquanto a minoria (20%) foi de indivíduos do sexo masculino o que confirma que a enfermagem ainda é uma profissão predominantemente feminina. Os entrevistados pertencem a uma faixa etária predominantemente jovem, o que se enquadra como em fase produtiva para as noções de mercado. A faixa etária com maior número de entrevistados foi entre 21 a 25 anos (45%) demonstrando que são profissionais em sua maioria recém-formados com pouco tempo de inclusão no mercado de trabalho. A grande maioria dos enfermeiros entrevistados (80%) recebia entre 3 a 6 salários mínimos correspondendo a R$ 900,00 e R$ 1.800,00, sendo que destes 60% possuíam vínculo com uma única instituição. A maior renda recebida pelos entrevistados era o equivalente ao valor de 10 salários mínimo sendo este percebido por 10% dos enfermeiros que trabalhavam em duas e três instituições. Ao indagar quanto à questão de optarem por trabalhar em mais de uma instituição obteve-se como consenso o baixo salário e a necessidade de complementação da renda familiar. Os entrevistados assumem que trabalhar em mais de uma instituição torna a responsabilidade muito grande e que muitos aspectos da vida precisam ser renunciados tais como a convivência familiar e participação social. Do total de enfermeiros entrevistados obteve-se que a maioria deles (65%) possuía um único vinculo empregatício, 20% deles possuíam dois vínculos de trabalho e 15% deles estavam vinculados a três instituições. Portanto, os 20 enfermeiros detinham 30 vínculos profissionais evidenciando que parcela significativa (35%) dos entrevistados dedicava a maior parte do tempo de suas vidas às atividades relacionadas ao emprego. Este resultado indica que o trabalho toma parte significativa do tempo da vida desses trabalhadores. Além disso, o restante do tempo que sobraria e que poderia ser dedicado a outras atividades como lazer ou descanso era ocupado com atividades de qualificação profissional como as aulas do curso de especialização que ocorriam às

4 sextas-feiras e sábado. Observou-se junto ao grupo a rotatividade de emprego desses profissionais, o que foi demonstrado pela comparação com o tempo de formação e o tempo serviço prestado nas atuais instituições de trabalho. Constatou-se que dos sete enfermeiros que possuíam vínculos empregatícios com duas ou três instituições, cinco deles havia concluído a graduação, recentemente, nos anos de 2002 e Este resultado pode estar relacionado com a atual precarização das condições de trabalho, em que há um contingente de trabalhadores suficiente para suprir a necessidade de demanda das empresas e assim eles podem conseguir trabalhadores pagando salários cada vez menores. Do total de 30 vínculos empregatícios obteve-se que a maior parte deles (53,3%) era regida pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), seguido por contratos de prestação de serviços como autônomos (30%) e uma minoria (16,7%) como servidores públicos municipais. Os empregadores eram hospitais e clínicas particulares, universidades, secretaria municipal, empresas terceirizadas de prestação de serviços ao município e estado (Centro Regional de Especialidades). A atividade como autônomo representa exercer uma atividade sem proteção e sem direitos trabalhistas, porém com ônus dos encargos implícitos nesse tipo de atividade. Vieira e Oliveira (2001) mostram no estudo realizado sobre a equipe de enfermagem no mercado de trabalho no Brasil que há indícios de flexibilização por meio das contratações intermediarias, da prestação de serviços e do trabalho autônomo nos estabelecimentos de saúde. De acordo com os dados apresentados no IBGE pelas autoras, essas formas de vinculo já representavam 11,3% das contratações dos enfermeiros no Brasil no ano de CONCLUSÃO: Os dados apresentados refletem a flexibilização do mercado de trabalho, fruto de um contexto onde emerge os interesses na acumulação do capital por meio da exploração excessiva dos trabalhadores. A flexibilização do mercado de trabalho vem intensificando-se rapidamente e manifestando-se nas mais diversas categorias de trabalho, retirando os direitos trabalhistas conquistados no decorrer de muitas lutas e trazendo consigo a instabilidade para os trabalhadores. Constatou-se que a precarização das relações trabalhistas já é uma realidade para os enfermeiros da região

5 oeste do Paraná. As mudanças processadas podem refletir na qualidade de vida desses trabalhadores pois a baixa remuneração os obriga ao aumento da jornada de trabalho asssumindo mais de um emprego. Assim, além do desgaste físico há maior exposição aos diversos riscos que existentes no trabalho da saúde. Isto se torna ainda mais preocupante uma vez que pode resultar em distúrbios orgânicos ou psíquicos, os quais nem sempre são reconhecidos como tendo sido originários do trabalho realizado, o que serve para acrescentar mais prejuízos para o trabalhador. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e negação do trabalho. 3 ed. São Paulo: Boitempo, BEYNON, H. As práticas do trabalho em mutação. In: ANTUNES, R. (org.). Neoliberalismo, trabalho e sindicatos: reestruturação produtiva na Inglaterra e no Brasil. São Paulo: Boitempo, MARCONI, M. A; LAKATOS, E. M. Técnicas de pesquisa. 3.ed. São Paulo: Atlas, MINAYO, M. C. S. O Desafio do Conhecimento: Pesquisa Qualitativa em Saúde. 2 ed. São Paulo: Hucirec-Abrasco, VIEIRA, A. L. S; OLIVEIRA, E. S. A equipe de enfermagem no mercado de trabalho em saúde no Brasil. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v.25, n.57; p.63-70, jan/abr.2001.

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