1 MUDANÇAS NO CONTEXTO FAMILIAR 1 SOUZA, M. A. 2 ZAMPAULO, J. 3 BARROS, D. R. B. Resumo: Com esse breve estudo buscou se refletir sobre as mudanças que a família tem vivenciado no contexto social. Procura se refletir sobre a incidência da violência e as mudanças políticas, econômicas, culturais e sociais que tem influenciado na educação das crianças. Compreender a violência como um fenômeno presente em todas as classes, particularizando sua evidência nas classes menos favorecidas, considerando a de forma estrutural na nossa sociedade em decorrência do aprofundamento da desigualdade social e econômica. Nosso objetivo é refletir sobre as transformações pela qual o grupo familiar tem passado e as exigências legais de proteção. É oportuno destacar que as estruturas familiares se reproduzem no contexto histórico social e cada geração se modifica recebendo as interferências culturais, vão assumindo novos valores de acordo com os padrões de convivência e formas de sociabilidade. Consideramos que os pais que não tiveram acesso a uma educação formal adequada, quando tem sob sua responsabilidade crianças pequenas, correm os riscos de reproduzem o padrão de educação que receberam na sua própria infância. A atitude de superioridade no relacionamento com seus filhos é bastante comum, pois muitos adultos entendem que a criança é sua propriedade, portanto, eles tem o direito de educá-los conforme seus padrões de conduta, 1 Marisa Antônia de Souza, Mestre em Educação Sócia Comunitária - UNISAL/AM, especialista em Direitos Sociais e Competências Profissionais - UNB/DF, Especialista em Administração de Recursos Humanos UNISANTANA/SP, Bacharel em Serviço Social - UNISAL/AM, Licenciatura Plena em Letras Português /Inglês - CEUNSP/Itu Docente e Coordenadora do Curso de Serviço Social do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio Itu/Salto. 2 Jamil Rodrigues Zampaulo, Mestre em Administração - Universidade Cidade de São Paulo; Especialização em Ciências Sociais PUC/SP; Graduado em Pedagogia (Administração) - UNINOV, Graduado em Ciências Sociais pela PUC-CAMPINAS, em 1972. Docente no CEUNSP desde 2005 na área de Administração e Serviço Social. 3 Denise Ribeiro Bueno de Barros, Mestre em Educação - UNICAMP, Graduada em Psicologia UNIP, Licenciatura em Pedagogia UNIP. Docente no Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio Itu/Salto desde 2009, integrante do colegiado curso de Serviço Social, a partir de 2011.
2 que na maioria das vezes são inadequados na nossa sociedade. Quando isso ocorre se evidencia a violação dos direitos das crianças. Segundo Freitas (2001) a violência doméstica está presente em todas sociedades, em nosso país registros históricos indicam que ela se inicia com a colonização Brasil, a partir de castigos físicos impostos pelos padres Jesuítas as crianças indígenas. Essa prática perpassa o período escravocrata, no qual atrocidades eram cometidas contra crianças e mulheres em sua maioria negras. O autor observa que apesar da legislação brasileira condenar os castigos físicos, a sociedade ainda não conseguiu superar essa prática do Brasil Colônia, pois na contemporaneidade esses métodos ainda são usados como uma maneira disciplinar de crianças e adolescentes. No Brasil a preocupação com os direitos das crianças só se efetivou a partir da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) 4 entretanto, o Estado ainda não fornece suporte às famílias, para a efetivação dos direitos das crianças. Nem todos os adultos que são responsáveis pela educação de crianças, conseguem desenvolver um relacionamento sincero e positivo. Muitos desconhecem a importância de seu papel no desenvolvimento infantil, enquanto outros simplesmente reproduzem sua história, na qual suas atitudes são consequências de maustratos sofridos na infância ou na adolescência. O ECA representa uma conquista na área de proteção das crianças e adolescente, o estatuto passou a atribuir responsabilidades para os adultos e para sociedade em geral. Enquanto que a criança passou a ser sujeito de proteção, quando foi reconhecida que ela necessita de cuidados e atenção especial da sociedade para ter a oportunidade de desenvolver se de forma satisfatória. As responsabilidades em primeira instancia foram atribuídas aos adultos membros das famílias na qual as crianças nasceram ou passaram a conviver. Vicente in (Kaloustian, 2005) contribui com nossa pesquisa ao defender que o vínculo familiar deve ser preservado nas dimensões biológicas que se trata da forma natural de pertencimento e nas dimensões afetivas e sociais, com isso ele amplia o conceito familiar de pertencimento estabelecido pelos seres humanos que conviver com a criança. A dimensão afetiva é analisada pelo autor como um fenômeno que precede o nascimento de uma criança propriamente dito, ele considera que a concepção ocorre em decorrência de um encontro entre um homem e uma mulher. Seria natural considerar que no ato do nascimento, a criança já deveria ter assegurado as sua condição de pertencimento, pois ele passa fazer parte de 4 Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990.
3 uma determinada família. Legalmente a criança mesmo antes de nascer já é considerada um sujeito de direitos, no entanto, para a efetivação destes é necessária sua compreensão por parte daqueles que foram responsáveis pela sua concepção. Com as mudanças políticas, econômicas, culturais e sociais ocorridas na sociedade brasileira principalmente no início do século XX, se torna mais visível a violência doméstica, principalmente nas classes menos favorecidas devido às condições de moradia que não asseguram a privacidade da família, tudo que acontece dentro do lar, facilmente se torna público. Neste aspecto a violência se configura de forma estrutural na nossa sociedade em decorrência do aprofundamento da desigualdade social e econômica. A expectativa do estado e da sociedade expressa no ECA é que os adultos ao receberem suas crianças estejam conscientes de suas responsabilidades, assumindo os cuidados necessários para o desenvolvimento saudável. Nesse aspecto é importante analisar a definição do Artigo 4º: É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Este artigo considera que as responsabilidades sobre as crianças não se limita apenas à sua família de origem, mas demonstra a necessidade da sociedade de assumir funções humano genérica, compreendendo que o homem na condição de ser socialmente determinado necessita ampliar sua visão e perceber que ele também deve estar integrado no sentido de proteção da espécie humana.. Quando as autoridades constituídas constatam uma situação de violência considerada grave contra criança frequentemente encaminham a vítima para entidades de acolhimento, atendendo as medida de proteção, conforme disposto no ECA no Artigo 7º A criança ou adolescente tem direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência. A convivência familiar nem sempre atende essa expectativa, pois crianças e adolescentes ainda são sujeitas a disciplina física ou moral, consideradas como método adequado ou disponível de educação. A fragilidade física e emocional característica da idade e pela dependência da criança, faz com que ela seja submetida às mais variadas manifestações de violência, tendo seus direitos básicos violados.
4 Compreendemos o artigo 19 do ECA quando afirmar que: Toda criança ou adolescente tem o direito de ser criado e educado no seio da sua família e excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária,... evidencia a preocupação da sociedade em reconhecer a importância das relações de pertencimento da espécie humana. Essa concepção só é validada quando existe a tomada de consciência de que a criança necessita de cuidados por parte da família e quando isso não ocorre resta a prerrogativa da sociedade de amparar a família, para que ela possa assumir seus deveres diante da criança. Cabe complementar que cada família é um grupo social distinto possuidor de características próprias, onde os relacionamentos se desenvolvem de acordo com os valores e padrões culturais que foram internalizados no decorrer da vida. É essencial entendermos a importância dos vínculos na vida da criança, partindo do pressuposto que desde a gestação, o feto estabelece um vínculo concreto com a mãe. Para Vicente (2008): o recém-chegado expressa um vínculo, sobrevive graça a uma vinculação orgânico-biológica, crescerá e se desenvolverá com a contribuição de uma vinculação simbólica, afetiva e social (p.47). Tais condições são fundamentais para que as famílias possam ser fortalecidas, e em consequência, poder oferecer aos seus filhos o mínimo de dignidade. A educação de uma criança exige condições materiais, afetivas, emocionais, essas responsabilidades são atribuídas em primeira instancia aos pais, como guardiões naturais de sua prole, partindo do princípio que o ser humano não tem condições de sobreviver sem os cuidados e apoio dos adultos. O ECA em seu Artigo 22 determina: Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes, a obrigação de cumprir as determinações judiciais. Ao refletir sobre este artigo observa-se que a legislação passou a legitimar uma prática natural da sociedade. Ao refletir sobre as responsabilidades familiares junto a criança, a sociedade tem se mobilizado na busca da proteção infantil, no entanto, a incidência de violência cometida pela família apresenta indícios que nem todos compreendem seu papel em relação a criança, esse aspecto evidencia que o tema ainda deve ser amplamente refletido. As relações sociais entre crianças e adultos se transformam ao longo da história, um aspecto relevante a ser considerado é que o desenvolvimento econômico social tem interferido
5 nos valores da família e o seu papel enquanto instituição social. Nos últimos 50 anos a família vem sofrendo profundas mudanças a industrialização, acirramento da exploração capitalista por meio do rebaixamento dos salários exigiu a inserção da mulher no mercado de trabalho. Apesar dessas mudanças de papéis o grupo familiar continua desenvolvendo seu papel como agente socializador e mantenedor da vida. A compreensão da família exige uma reflexão no plano sociológico de forma, universal independente do seu arranjo. Constata-se que a família exerce um papel fundamental na vida de seus membros, além de garantir a sobrevivência na infância ela é responsável pela transmissão da herança cultural é responsável pela transmissão de valores que vão determinar a qualidade deste relacionamento irá influenciar nas relações sociais do futuro. Seguindo esse raciocínio podemos afirmar que a família é responsável pela socialização primária nas quais seus membros aprendem a conviver em sociedade. Quando existe o respeito mutuo nas relações familiares seus membros tem a oportunidade de desfrutar de liberdade, garantindo segurança e dignidade individual. Kaloustian (2005) indica que grupo familiar está presente em toda sociedade o que muda é sua constituição e papéis que cada um ocupa dentro do grupo. A cultura onde ela está inserida reproduz valores transmitidos de geração em geração. Na sociedade brasileira a família é considerada a base da sociedade, conforme disposto no texto da atual Constituição Federal. A constituição familiar se forma por afetividade quando as pessoas se unem por meio do casamento, ou por relação estável na qual as pessoas tornam parentes e também naturalmente pelo nascimento. Independente da forma como a família é constituída sua função e responsabilidades são as mesmas. de agente socializadora. Apesar do desenvolvimento da sociedade ainda exista uma expectativa quanto a forma da estrutura familiar, na qual o nuclear burguês continua sendo idealizado, no qual o pai se coloca como provedor e gestor do grupo familiar, enquanto a mãe seria a responsável pela administração doméstica e pela educação dos filhos. Szymanski (apud Carvalho, 2000) observa que a família contemporânea continua tomando esse modelo de família como referência, apesar das mudanças presentes na sociedade essas idealizações continuam sendo presentes. Esta atitude conservadora e extemporânea acaba discriminando as famílias que se constituíram naturalmente alheias a algum tipo de modelo. Os profissionais que trabalham com família precisam respeitar as relações que nela se processam e
6 identificar sua condição no complexo histórico social. É necessário ainda identificar a expectativa constituída no imaginário coletivo, verificando se o que está sendo tomado como padrão de analise se reproduz livre de preconceitos. O fortalecimento dos vínculos familiares exige a aceitação do arranjo familiar em que ela se apresenta na sociedade, para tanto precisamos estar amadurecidos compreendendo e reconhecendo a importância do grupo. Observamos que os programa e esforços governamentais ainda são insuficientes para garantir os direitos das crianças que continuam vivendo de forma precária na periferia dos grandes centros urbanos. Diante do exposto reiteramos a necessidade da efetivação de programas sócio educativos com objetivo de fortalecer os vínculos familiares, fundamentados no respeito a dignidade humana. Nos quais as famílias possam construir novos padrões de sociabilidade fundamentados no respeito, oferecendo condições para que as famílias possam rever seus valores e assim construir uma nova cultura de proteção a criança, coerente com as exigências legais socialmente reconhecidas. Bibliografia FREITAS, Marcos Cezar (org.). História Social da Infância. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2001. KALOUSTIAN, S. M. (org.) Família Brasileira a base de tudo. 7ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 2005. CARVALHO, M.C.B. (org.) A família Contemporânea em Debate. 3ª ed. São Paulo: EDUC / Cortez, 2000. VICENTE, C. M. O direito à convivência familiar e comunitária: uma política de manutenção do vínculo. In : KALOUSTIAN S. M. (Org.). Família brasileira: a base de tudo. 8. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF : UNICEF, 2008. p. 47-59.