12 Teoria de Vigotsky - Conteúdo



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Transcrição:

Introdução Funções psicológicas superiores Pilares da teoria de Vigotsky Mediação Desenvolvimento e aprendizagem Processo de internalização Níveis de desenvolvimento Esquema da aprendizagem na teoria de Vigotsky Implicações pedagógicas Papel do professor 2

Introdução Lev Semenovich Vigotsky (1896-1934), foi um teórico soviético que v ma situação social, política e científica completamente diferente da nossa. Foi influenciado pelo marxismo, tendo incorporado a idéia de que o homem é um ser histórico, que se constrói através de suas relações com o mundo natural e social. Foi o primeiro a falar sobre a evolução cultural do homem e sobre o desenvolvimento cultural da criança. Seu trabalho, mesmo mais de 70 anos após sua morte, continua influenciando a prática e a pesquisa nas áreas da psicologia e da educação. Conforme Oliveira (1997), o momento histórico vivido por Vigotsky, na Rússia pós-revolução, contribuiu para definir a tarefa intelectual a que se dedicou: a tentativa de reunir, num mesmo modelo explicativo, tanto os mecanismos cerebrais subjacentes ao funcionamento psicológico, como o desenvolvimento do individuo e da espécie humana, ao longo de um processo sóciohistórico. Os aportes teóricos de Vigotsky começaram a chegar ao Brasil, de forma lenta, na segunda metade da década de 70. O contexto histórico e político da década de 80, oferecia condições favoráveis à retomada das discussões educacionais numa perspectiva crítica e contra o dogmatismo teórico que predominara na década anterior. 3

Funções psicológicas superiores Vigotsky dedicou-se, principalmente, ao estudo daquilo que chamamos de funções psicológicas superiores, isto é, os mecanismos psicológicos mais sofisticados e complexos, que são típicos do ser humano e envolvem o controle consciente do comportamento, a ação intencional e a liberdade do indivíduo em relação às características do momento e do espaço presentes. Esse tipo de atividade psicológica é considerada superior à medida que se diferencia de mecanismos mais elementares tais como ações reflexas, reações automatizadas ou processos de associação simples. Nesta perspectiva, o homem é visto enquanto corpo e mente, ser biológico e ser social, membro da espécie humana e participante de um processo histórico, de uma cultura. A cultura fornece ao indivíduo os sistemas simbólicos de representação da realidade, ou seja, o universo de significações que permite construir a interpretação do mundo real. Ela estabelece o local de negociações no qual seus membros estão em constante processo de recriação e reinterpretação de informações, conceitos e significações. A partir da inclusão do elemento cultural, a memória humana não pode mais ser vista como incidental, mas como simbólica e consciente sempre que o homem assim o desejar; o que já não ocorre com a memória de um cão ou gato. Por exemplo, é possível ensinar um animal a acender a luz num quarto escuro, mas ele não seria capaz de, voluntariamente, deixar de realizar o gesto aprendido porque vê uma pessoa dormindo. 4

Pilares da teoria de Vigotsky Vigotsky em sua teoria, também conhecida como socio-interacionismo, entendeu o homem como um ser biológico, histórico e cultural e estes três pilares acabam por construir o psiquismo humano. Destacaremos, a seguir, as três idéias centrais desta teoria: As funções psicológicas têm um suporte biológico, pois são produtos da atividade cerebral; O funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais entre o indivíduo e o mundo exterior, as quais desenvolvem-se num processo histórico; A relação homem/mundo é uma relação mediada por sistemas simbólicos. Para o autor, o cérebro humano é um sistema aberto, de grande plasticidade, cuja estrutura e modos de funcionamento são moldados ao longo da história da espécie e do desenvolvimento individual. Assim, o homem transforma-se de biológico em sócio-histórico, num processo em que a cultura é parte essencial da constituição da natureza humana. Em resumo, para Vigotsky, os mecanismos de desenvolvimento cognitivo têm origem e natureza sociais e não são frutos exclusivos do desenvolvimento mental. O desenvolvimento das funções mentais superiores somente ocorrem nas interações sociais, as quais são o produto das relações sociais, mediadas por instrumentos e signos, dos quais o mais importante é a linguagem. 5

Mediação Em termos genéricos, mediação é o processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação. Para Vigotsky o conhecimento é sempre mediado, pois a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas depende de mediadores, ferramentas auxiliares da atividade humana. Sendo assim, Vigotsky distinguiu dois tipos de elementos mediadores, historicamente e culturalmente construídos: os instrumentos e os signos. Instrumento é qualquer objeto ou elemento que tem alguma utilidade prática. Por exemplo, garfo, colher, enxada etc. A importância dos instrumentos na atividade humana, para o autor, tem clara ligação com sua filiação teórica aos postulados marxistas. O instrumento é algo interposto entre o trabalhador e o objeto de seu trabalho, ampliando as possibilidades de transformação da natureza, por exemplo, a enxada é o instrumento para o trabalhador rural. Signos são elementos que lembram ou simbolizam algo e, portanto, podem ser usados para significar alguma coisa que foi criada culturalmente, ou que a experiência lhe impõe, um uso. São também conhecidos como instrumentos simbólicos. Eles trazem algum significado implícito, por exemplo, fumaça indica fogo, é um dos tipos de signos, conhecido como indicador. Outro tipo de signo é o icônico; é a imagem ou desenho daquilo que significa. Por último, há os signos simbólicos, que são abstrações daquilo que significam; por exemplo, palavras, números, equações, gestos. 6

Desenvolvimento e aprendizagem O ser humano tem a possibilidade de pensar em objetos ausentes, imaginar eventos nunca vividos e planejar ações a serem realizadas em momentos posteriores. Porém, essas atividades psicológicas mais sofisticadas não estão presentes no indivíduo desde o seu nascimento. Elas são frutos de um processo de desenvolvimento que envolve a interação do organismo individual com o meio físico e social em que vive, ou seja a cultura em que está imerso. Para o autor, existe um percurso de desenvolvimento, em parte definido pelas maturações do organismo individual, mas que só ocorre pelo processo de aprendizagem através do contato do indivíduo com certo ambiente cultural. O teoria de Vigotsky considera que é pela aprendizagem através das relações com os outros que construímos os conhecimentos que permitem o nosso desenvolvimento. Segundo está teoria, a aprendizagem é o processo pelo qual o indivíduo adquire informações, habilidades, atitudes e valores, a partir de seu contato com a realidade, o meio ambiente e as outras pessoas. Para Vigotsky, a aprendizagem inclui a interdependência dos indivíduos envolvidos no processo. 7

Processo de internalização O processo de internalização é fundamental para o desenvolvimento. Segundo Vigotsky, a internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas é o salto qualitativo da psicologia animal para a psicologia humana. Para o autor, tudo que é interno às funções mentais superiores, foi uma vez social. Um exemplo disso, ocorre quando a criança pequena aprende a identificar a mão esquerda em função do uso do relógio e depois, internaliza esta função e deixa de necessitar dessa marca externa recorrendo a signos internos, isto é, representações mentais que substituem o objeto do mundo real. Vemos, então, que segundo Vigotsky toda função psicológica superior surge primeiro externamente, em um contexto social. Ou seja, ela é adquirida socialmente. A partir do momento que esta função passa a ter uma outra função além da social, passa a ter uma função intrapsicológica, ela não precisa mais ser externa e por isso internaliza-se, o que acarreta uma mudança estrutural também. Uma vez que o desenvolvimento das funções mentais exige a internalização de signos, a aprendizagem passa a ser a condição para que isso ocorra. O ensino, portanto, deve se caracterizar por uma interação social, na qual o professor é aquele que já internalizou significados socialmente aceitos e partilhados; o aluno, por sua vez, deve sempre verificar se os significados que internalizou são também compartilhados socialmente dentro da área do conhecimento. O ensino se consuma quando professor e aluno compartilham significados. 8

Níveis de desenvolvimento Existem pelo menos três níveis de desenvolvimento identificados por Vigotsky: Zona de Desenvolvimento Real: é determinada por aquilo que a criança ou adulto é capaz de fazer por si própria porque já tem um conhecimento consolidado. Se a pessoa sabe tocar clarinete, por exemplo, esse é um nível de desenvolvimento real. Zona de Desenvolvimento Potencial: se manifesta quando a criança ou adulto realiza tarefas mais complexas, orientada por instruções e com a ajuda de alguém mais experiente ou por resultado da interação entre iguais. Por exemplo, aprender a tocar violão. Zona de Desenvolvimento Proximal: é a distância entre o nível cognitivo real do indivíduo, medido por sua capacidade de resolver problemas independentemente, e o seu nível de desenvolvimento potencial, medido por meio da solução de problemas sob orientação ou em colaboração com companheiros capazes. Por exemplo, alguém que já toca clarinete e deseja aprender a tocar violão. Para este autor, a instrução somente é boa quando vai adiante do desenvolvimento, quando desperta e traz à vida aquelas funções que estão em processo de maturação, ou na Zona de Desenvolvimento Proximal. Assim, a aprendizagem possibilita o salto qualitativo de um conhecimento. A escola é, portanto, lugar de ensinar pessoas. Tudo aquilo que já se sabe, não é matéria escolar. Ao se propor algo novo para ser aprendido, o professor, favorece o desenvolvimento do aluno. Para Vigostky não se deve esperar pelo desenvolvimento para ensinar. 9

Esquema da aprendizagem na teoria de Vigotsky Interação social Orientação de um adulto ou de um semelhante Faixa de habilidades potenciais como resultado da interação social Zona de Desenvolvimento Proximal Faixa de habilidades pessoais Aprendizagem individual desenvolvimento cognitivo e habilidades básicas 10

Implicações pedagógicas Como já dissemos, na perspectiva de Vigotsky, a escola que se limita a ensinar o que os alunos já sabem é inútil. A escola deve perceber as etapas intelectuais já alcançadas e incentivar os alunos a buscarem novas conquistas. Para tanto, ela deveria partir do desenvolvimento real (valorizar o que o aluno sabe) para atingir o desenvolvimento potencial (objetivo da aula/conteúdo). Para Vigotsky o que tem que ser estabelecido é uma seqüência que permita o progresso de forma adequada, impulsionado por novas aquisições, sem esperar a maturação "mecânica". Nesta direção, destacamos a importância do planejamento. Planejar é muito mais do que elaborar um roteiro de aula ou elencar algumas atividades a serem desenvolvidas com a turma. Planejar é a atividade intencional pela qual se projetam fins e se estabelecem meios para atingi-los. Quem planeja tem idéia de onde quer chegar e traça o caminho, para atingir este objetivo, reflete, argumenta, discute e decide qual direção deve seguir. A Zona de Desenvolvimento Proximal é um diálogo entre a criança e seu futuro, não com seu passado. Não é também um transvasamento do conhecimento prévio do adulto à criança. O ensino e a aprendizagem somente se movem na Zona de Desenvolvimento Proximal quando tratam de desenvolver novas formas históricas de atividade e não simplesmente de facilitar aos aprendizes a aquisição das formas existentes. Isso implica desenvolvimento de ambos os interlocutores. Supõe, ao mesmo tempo, um bom projeto de transmissão cultural e a própria superação da educação como transmissão. Supõe ainda o abandono de reproduzir o passado no presente, nos processos de ensino-aprendizagem. 11

Papel do professor Para Vigotsky o papel do professor é interferir na Zona de Desenvolvimento Proximal das crianças e adultos, provocando avanços que não ocorreriam espontaneamente. O educador é visto como um agente mediador, que intervém e presta auxílio para a construção e reelaboração do conhecimento do aluno e, como conseqüência disso, promove seu desenvolvimento. É a partir do contato com uma pessoa mais experiente e com o quadro histórico-cultural, que as potencialidades do aluno são transformadas em situações que ativam nele esquemas processuais cognitivos ou comportamentais, que produzem no indivíduo novas potencialidades, num processo dialético contínuo. O que nos leva a seguinte pergunta pergunta: será que se houvesse a compreensão de que cabe ao professor, intermediar a aprendizagem do aluno naquilo que ele ainda não é capaz de resolver sozinho, a partir de estratégias que o levem a tornar-se independente, deixaríamos o discurso do fracasso escolar para trás? Será que se esse modo de entender o papel do educador fosse tomado mais a sério nós deixaríamos de ouvir a clássica argumentação: os alunos não aprendem, eu dou a matéria mas eles não aprendem! Você já ouviu esta frase, não é mesmo? Quando um educador pensa no ensino, o faz em termos de representação, porém quando uma criança realiza uma aprendizagem, esta se situa, para ela, no terreno das ações. Pôr de acordo as ações da criança que aprende e as representações do professor que ensina é o objetivo central da educação e este não será atingido senão construindo-se uma ponte de sentido entre ambos os níveis. 12