Teorias do Ciclo de Vida (TCV)

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Transcrição:

Psicologia do Adulto e do Idoso EDUCAÇÃO SOCIAL 1º Ano, 2º Semestre 2014/2015 SUMÁRIO: Aspectos teóricos de base Teorias do Ciclo de Vida (TCV) Objectivos e âmbito das TCV ; Teoria de Charlotte Bühler; O modelo de Erik Erikson; O Modelo de Paul Baltes. Copyright, 2015 José Farinha, ESEC Teorias do Ciclo de Vida (TCV) OBJECTIVOS DAS TCV: explicar a natureza do desenvolvimento e os padrões de mudança nos indivíduos, desde o nascimento até à morte; identificar áreas de desenvolvimento generalizáveis a toda a humanidade. 2 Psicologia do Adulto e do Idoso 1

ÂMBITO DAS TCV: Definem uma sequência de estádios / fases/ tarefas evolutivas seguindo uma ordenação sequencial; Estudam a interacção dos factores biológicos, psicológicos e sociais. 3 Psicologia do Adulto e do Idoso TEORIA DO CURSO DA VIDA HUMANA DE CHARLOTTE BÜHLER Base do estudo: Biografias e auto-biografias (nos 30 em Viena) analisadas segundo uma metodologia desenvolvida para revelar uma progressão ordenada de fases. Charlotte BÜHLER (1893-1974) 4 Psicologia do Adulto e do Idoso 2

ASPECTOS TEÓRICOS: Cada fase definida a partir de: Mudanças em termos de acontecimentos, atitudes e realizações durante o ciclo de vida; Forma como são geridos os objectivos pessoais de cada indivíduo. 5 Psicologia do Adulto e do Idoso Duas tendências básicas: Expansão e contracção: - é enfatizado o paralelismo entre: os processos biológicos de crescimento/estabilidade/declínio e os processos psicológicos de expansão/culminação/contracção nas actividades e realizações durante toda a vida do indivíduo. Mais recentemente: (Bühler, 1968, cit in Kimmel, 1980): Enfatizado o processo de definição de objectivos de vida. 6 Psicologia do Adulto e do Idoso 3

Definidos 5 estádios no ciclo de vida: Horner (1968, cit in Kimmel. 1980) IDADE FASE 0 15 Criança/jovem vivendo em casa dos pais; não existe auto-determinação dos objectivos pessoais. 15 25 Expansão preparatória e auto-determinação experimental dos objectivos pessoais. 25 45 Culminação: auto-determinação definida e específica dos objectivos pessoais. 45 65 Auto-avaliação dos resultados das tentativas e esforços para alcançar os objectivos pessoais. 65 e + Realização dos objectivos ou sensação de falhanço; pode verificar-se o reaparecimento de objectivos de curto prazo centrados na satisfação de necessidades imediatas. 7 Psicologia do Adulto e do Idoso O DESENVOLVIMENTO EM TODA A VIDA: O MODELO DE ERIK ERIKSON Aspectos históricos: Erikson nasceu em 1902 na Dinamarca, educado na Alemanha. Posteriormente emigrou para os EUA; Influenciado pela Psicanálise (estudou com Ana Freud). Erik ERIKSON (1902-1994) 8 Psicologia do Adulto e do Idoso 4

Aspectos teóricos básicos Aceita globalmente a teoria dos instintos de Freud, mas dá uma importância fundamental aos factos sócio-culturais; Aborda o desenvolvimento como um processo que abarca toda a vida; As crises de desenvolvimento têm uma natureza essencialmente psicossocial; A resolução com sucesso de uma etapa prepara a pessoa para resolver adequadamente os conflitos típicos da crise seguinte. 9 Psicologia do Adulto e do Idoso Estádios de desenvolvimento Cada estádio é representado por duas tendências opostas; O conflito dialético: é eventualmente resolvido por uma síntese que representa cada uma das motivações vitais: - Esperança, vontade, propósito, competência, fidelidade, amor, cuidado (care) e sabedoria. é actuado através de processos conscientes e inconscientes, pessoais e sociais. 10 Psicologia do Adulto e do Idoso 5

Nasci/ - 1 ano Confiança básica versus desconfiança Desenvolver um sentimento de confiança básica nos outros como sendo capazes de prover às nossas necessidades. Se as pessoas que providenciam esses cuidados são rejeitantes ou inconsistentes a criança pode adquirir uma visão do mundo social como fundamentalmente perigoso, cheio de pessoas instáveis, não dignas de confiança. 1-3 anos Autonomia versus vergonha e dúvida As crianças devem desenvolver formas de autonomia - alimentação e vestuário, higiene, etc.. O insucesso nesta tarefa pode levar as crianças a duvidar das suas capacidades e sentir-se diminuído - envergonhado. 11 Psicologia do Adulto e do Idoso 3-6 anos Iniciativa versus culpa 6-12 anos Produtividade versus inferioridade As crianças começam a tentar comportar-se como adultos e a tentar adquirir responsabilidades que estão para além das suas capacidades. Por vezes actuam papéis e funções que colidem com outros membros da família, e esses conflitos podem levar a sentimentos de culpa. (Complexo de Édipo) Absorver todas as capacidades culturais e normas básicas; inclusive as habilidades escolares e o uso de instrumentos. 12 Psicologia do Adulto e do Idoso 6

13-20 anos Identidade versus confusão de papeis 21-40 anos Intimidade versus isolamento Adaptar o sentido do eu às mudanças físicas da puberdade, fazer uma escolha ocupacional. Realizar uma identidade sexual madura. Construir um sistema de valores e atitudes razoavelmente consistente. Formar uma ou mais relações intimas que ultrapassam o amor adolescente. Casamento e formação de um grupo familiar, ou formação de fortes relações de amizade (partilha de identidade). 13 Psicologia do Adulto e do Idoso 41-65 anos Generatividad e versus estagnação > 65 anos Integridade do ego versus desespero Criar ou produzir algo que fique para além de nós: - filhos, realizações ocupacionais ou extra-ocupacionais. Educar da próxima geração. Os padrões de generatividade são definidos culturalmente. Desencadeado pela consciência da proximidade da morte. Integrar os estágios anteriores e confrontação com a própria identidade necessidade de ter uma perspectiva da sua vida como algo cheia de significado, produtiva e razoavelmente feliz sentido de integridade. 14 Psicologia do Adulto e do Idoso 7

EXPANSÃO E REFINAMENTO DA TEORIA DE ERIKSON: - ROBERT C. PECK (1955) Os dois últimos estádios de Erikson dão uma definição demasiado geral da idade adulta e velhice; Peck procurou uma definição mais pormenorizada para as questões relacionadas com a meia-idade e velhice. 15 Psicologia do Adulto e do Idoso Meia-idade Valorização da capacidade intelectual versus valorização da capacidade física Socialização versus Sexualização nas relações humanas Flexibilidade versus Empobrecimento catético Flexibilidade versus Rigidez mental Maior centração nas capacidades intelectuais como forma de ultrapassar a depressão resultante do acentuado declínio físico. Relações interpessoais mais baseadas em compreensão mútua e companheirismo e menos em contactos sexuais. Alteração nos objectos de investimento emocional resultante do desaparecimento dos objectos tradicionais. Abertura a novas experiências e novas aprendizagens. 16 Psicologia do Adulto e do Idoso 8

Velhice Diferenciação do Ego versus Preocupação c/ o papel ocupacional Transcendência do Corpo versus Preocupação com o corpo. Transcendência do Ego versus Preocupação com o Ego Estabelecer uma gama variada de actividades e valores de forma a que a perda da ocupação com a reforma não acarrete um sentido de inutilidade. Ultrapassar o desconforto e sofrimento resultantes de doenças de forma a poder gozar a vida de forma satisfatória. Desencadeado pela consciência da proximidade e inevitabilidade da morte. Expandir o significado das acções e criações do próprio para além do seu período vital através de descendentes, contribuições para a cultura, etc.. 17 Psicologia do Adulto e do Idoso O MODELO INTEGRATIVO E MULTICAUSAL DO DESENVOLVIMENTO HUMANO DE PAUL BALTES O desenvolvimento como processo: Assíncrono (começa em pontos diferentes); Multidi-mensional (acontece em várias dimensões e segue rumos diferentes); Pluralista (tem uma pluralidade de influências). 18 Psicologia do Adulto e do Idoso Paul Baltes (1939-2006) 9

Modelo SOC (Selecção, optimização e compensação) SOC envolve a orquestração de três processos: Selecção (contextos, objetivos) é electiva e baseada nas perdas - Refere-se à direccionalidade do desenvolvimento (objectivos), incluindo a selecção de contextos, estruturas de objectivos e resultados alternativos; Optimização (meios/recursos) Refere-se aos meios para atingir os resultados desejados e atingir níveis óptimos de funcionamento. 19 Psicologia do Adulto e do Idoso Compensação (substitutiva meios/recursos) Refere-se à activação ou aquisição de meios substitutivos para contrariar a perda ou declínio dos meios que ameaça a manutenção de um determinado nível de funcionamento. 20 Psicologia do Adulto e do Idoso 10