Tuberculose por M. bovis e

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Transcrição:

I COLÓQUIO INTERSECTORIAL DE SAÚDE PÚBLICA ANTROPOZOONOSES Coimbra, 28 de Novembro de 2006 Tuberculose por M. bovis e Saúde PúblicaP Administração Regional de Saúde do Centro Centro Regional de Saúde Pública lucioalmeida@arscentro.min-saude.pt

Tuberculose Doença a tão antiga como a Humanidade Causada por bacilos do complexo Mycobacterium tuberculosis M. tuberculosis (M. M. bovis M. africanum (África M. microti M. canettii (África (M. tuberculosis hominis) frica 2 variantes) microti (pouco virulento - rato toupeiro) frica casos muito raros) 2

A tuberculose ao longo dos tempos (I) 8 000 a.c. (Alemanha): primeiros vestígios em humanos (paleopatologia) M. bovis versus M. tuberculosis 2 700 a.c. (China) : primeira referência à tuberculose pulmonar ( tosse( pulmonar ) 1 000 a 500 a.c.: primeira descrição clínica (Mesopotâmia) Século V a.c.: nascimento da tisiologia (Grécia) Século XVI: transmissão inter-humana (Fracastoro,, 1546) Séculos XVIII-XIX: XIX: doença a endémica na Europa 3

A tuberculose ao longo dos tempos (II) Século XIX (1816): estetoscópio (diagnóstico clínico) 1834 (Schonlein( Schonlein): designação de tuberculose 1854: criação do primeiro sanatório 1882 (Koch( Koch): diagnóstico bacteriológico 1895 (Roentgen( Roentgen): nascimento da radiologia 1896 (Bouchard( Bouchard, Barthélémy & Oudin): radiodiagnóstico da tuberculose 1912: consagração da colapsoterapia 1921: vacinação com o BCG 1944 (Schatz( Schatz,, Bugie & Waksman): advento da quimioterapia anti- tuberculosa 1981 (CDC, Atlanta): identificação do SIDA como entidade nosológica 4

Epidemiologia da tuberculose: vias de transmissão Inalação de aerossóis infecciosos (+++) Directa Indirecta (suspensão) Cutânea Placentar 5

Epidemiologia da tuberculose: determinantes da transmissão Probabilidade de contacto com doente Proximidade e duração do contacto Grau de infecciosidade do caso Ambiente partilhado 6

Tuberculose activa: predisposição genética Antigénio nio HLA-Bw15 7

Epidemiologia da tuberculose 8,5 milhões de novos casos todos os anos (estimativa 2001, OMS) 95% em países em desenvolvimento 1,8 milhões de mortes relacionadas 98% em países em desenvolvimento Doença reemergente 8

Tuberculose no Mundo (OMS, 2001) 9

Tuberculose e infecção HIV Risco de infecção em indivíduos duos HIV positivos 50-200 x superior à da população em geral Risco de progressão para doença a activa directamente relacionado com grau de imunossupressão EUA, 1986-1991: 1991: 57% do excesso de casos de tuberculose devidos ao SIDA/HIV 10

Tuberculose: casos notificados em Portugal (2000-2004) 2004) 3500 3000 2500 2000 1500 1000 TB respiratória TB disseminada TB meníngea e SNC 500 0 2000 2001 2002 2003 2004 Fonte: Direcção-Geral da Saúde. Direcção de Serviços de Informação e Análise. Divisão de Epidemiologia 11

Tuberculose bovina 12

Tuberculose bovina Zoonose Mycobacterium bovis Padrão epidemiológico complexo 13

Mycobacterium bovis Pouca afinidade pelo meio de Lowestein-Jensen Resistência primária ria à pirazinamida Grande amplitude de hospedeiros 14

Mycobacterium bovis Animais selvagens como reservatórios rios Endemicidade Erradicação impraticável Homem como reservatório rio potencial 15

Tuberculose bovina Doença a crónica e frequentemente assintomática tica (diagnóstico post-mortem mortem) Praticamente eliminada nos países de maiores rendimentos EUA, início do século s XX: infecção animal mais prevalente no gado (APHIS, 2002) Enzoótica 16

Tuberculose bovina Transmissão animal-homem e vice-versa versa (APHIS, 2002) Aerossóis infecciosos (+++ espaços confinados) Ingestão de leite cru (animais jovens) Bebedouros ou camas contaminados com saliva e excreta de animais infectados (ex. urina) Soluções de continuidade 17

Infecção por M. bovis : vias de transmissão em humanos Consumo de leite contaminado (via alimentar milkborne infection) Contacto próximo de susceptíveis com gado infectado (via aerógena - exposição ocupacional) 18

Infecção por M. bovis em humanos: passado Doença a pediátrica Causa importante de mortalidade na infância (< 5 anos) Consumo de leite não-pasteurizado (infecção alimentar) Envolvimento extra-pulmonar Gânglios linfáticos cervicais ( escrófula ) Tubo digestivo Meninges 19

Infecção por M. bovis em humanos: passado Inglaterra (Francis, 1947) População em geral: 5% do total de óbitos por tuberculose 1 000-2 000 óbitos anuais Crianças as (< 5 anos): 30% do total de óbitos por tuberculose 20

Infecção por M. bovis em humanos: presente Transmissão por aerossóis infecciosos Animal-homem Homem-homem (?) Maior risco de exposição em espaços confinados (zoonose ocupacional) Veterinários rios Trabalhadores do sector agro-pecu pecuário Trabalhadores de matadouros Profissionais de laboratório rio 21

Infecção por M. bovis em humanos Prevalência na população em geral: desconhecida Ausência de testes de rastreio específicos Estimação (modelos matemáticos ticos de correlação) 22

Tuberculose humana : proporção de casos laboratoriais por M. bovis Condado de S. Diego (1980-1991) 1991) 3% Inglaterra e País s de Gales (1992) 1% Argentina (1982-1984) 1984) 0,6% Fonte: O Reilly LM, Daborn CJ. Tubercule amd Lung Disease (1995) 76 Supplement 1, 1-46 23

Doença a humana por M. bovis (Inglaterra e País s de Gales, 1986-1990) 1990) Doença a extra-pulmonar (54%) Infecções genito-urin urináriasrias (22%) Infecções ósseas ou articulares Linfadenite Doença a pulmonar (35%) Clínica igual à da tuberculose Localização desconhecida (11%) Fonte: O Reilly LM, Daborn CJ. Tubercule amd Lung Disease (1995) 76 Supplement 1, 1-46 24

Doença a humana por M. bovis (Inglaterra e País s de Gales, 1986-1990) 1990) 4% 30% < 30 anos 30-60 anos > 60 anos 66% Casos de tuberculose por M. bovis por grupo etário 1986-1990 (n=228) Fonte: O Reilly LM, Daborn CJ. Tubercule amd Lung Disease (1995) 76 Supplement 1, 1-46 25

Tuberculose bovina: prevenção e controlo Teste sistemático tico do gado e abate dos positivos ( test and slaughter - compensações financeiras) Pasteurização do leite Rastreio de grupos de risco 26

Tuberculose humana: prevenção e controlo Detecção e tratamento precoce de casos humanos Quimioprofilaxia dos conversores assintomáticos ticos (teste tuberculínico nico) Vacinação BCG 27

Tuberculose: rastreio ocupacional Prova tuberculínica Periodicidade bianual Profissionais de saúde de (contacto com doentes infectados ou suspeitos) Profissionais do sector veterinário rio (trabalhadores de matadouros, veterinários, rios, tratadores de animais, etc.) 28

Tuberculose: quimioprofilaxia Resultado positivo (> 10 mm de induração ão) Radiografia do tórax t prévia Recém-infectados (incluindo conversores < 2 anos) Rx anormal (doença a activa?) e profilaxia prévia ou terapêutica anti-tuberculosa tuberculosa inadequada Profissionais de sectores críticos Co-morbilidade Idade < 35 anos 29

Tuberculose bovis: estratégias de prevenção e controlo (I) Reduzir os riscos para a saúde pública p humana Vigilância e controlo animal Inspecções sanitárias (matadouros) Processamento do leite cru Vigilância ocupacional (grupos de risco) Vigilância e monitorização de casos humanos Abordagem regional Limitação da disseminação da btb Redução sustentada na incidência de btb 30

Tuberculose bovis: estratégias de prevenção e controlo (II) Vigilância e controlo Contenção de surtos Informação regular, actualizada e temporalmente oportuna Gestão integrada do risco Autoridades de saúde veterinária ria e autoridades de saúde humana 31

Conclusões Tuberculose como doença reemergente Associação tuberculose/sida Países em desenvolvimento: TB humana e bovina Dificuldade de erradicação da btb Animais selvagens como reservatórios rios Necessidade de cooperação intersectorial 32

Because of the animal and public health consequences of M. bovis, disease surveillance programs in humans should be considered a priority, especially in areas where risk factors are present. The increase of TB in such areas calls for stronger intersectoral collaboration between the medical and veterinary professions to assess and evaluate the scale of the problem, mostly when zoonotic TB could represent a significant risk,, for example, in rural communities and in the workplace Cosivi O et al., 1998 33

I COLÓQUIO INTERSECTORIAL DE SAÚDE PÚBLICA ANTROPOZOONOSES Coimbra, 28 de Novembro de 2006 Tuberculose por M. bovis e Saúde PúblicaP Administração Regional de Saúde do Centro Centro Regional de Saúde Pública lucioalmeida@arscentro.min-saude.pt