TUBERCULOSE CONGÉNITA
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- Madalena Carvalho Quintão
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1 51 TUBERCULOSE CONGÉNITA A Tuberculose (TB) continua a ser um grave problema de saúde pública a nível nacional e mundial. Em Portugal, a TB não recrudesceu mas a sua incidência mantém-se alta: 42 e 37 casos por habitantes em 2000 e 2001, respectivamente, taxa que é tripla da média dos quinze países da União Europeia. Estas taxas de incidência situam-se dentro do perfil de uma redução média de 3,3% nos últimos 5 anos, pelo que deve continuar a existir uma preocupação constante com o fenómeno da TB em Portugal, já que factores condicionantes como a infecção a VIH, a toxicodependência, os movimentos migratórios e o desenvolvimento de resistência do Mycobacterium tuberculosis aos antibacilares influenciam deveras a epidemiologia da doença. A incidência de TB nas mulheres em Portugal foi de 25,4 em 2001, algo inferior à taxa geral, 42; no entanto, ela resulta sobretudo do contributo, a níveis superiores, do grupo etário entre os 15 e os 45 anos, quer dizer no período fértil. A TB congénita deve merecer alto índice de suspeição, atenção diagnóstica e tratamento atempado. A TB congénita é muito rara se comparada com a incidência de TB infantil em geral, mas a sua gravidade é extrema, devido à disseminação generalizada e morte em cerca de 30% dos casos, alguns dos quais só foram diagnosticados na autópsia. A infecção do feto, no fundo a verdadeira TB congénita, pode resultar da disseminação hematogénea transplacentária directamente da circulação materna ou após lesão caseosa da placenta; da aspiração ou deglutição de líquido amniótico infectado; do contacto directo, durante o parto, com lesões genitais da mãe. Na via de infecção transplacentária, a infecção primária tem lugar no fígado do feto, mas também pode ocorrer no pulmão se houver desvio circulatório através do ductus venoso; se houve ingestão de líquido amniótico, o complexo primário tem sede no fígado e nos gânglios da zona da veia porta. Se houve aspiração, o complexo primário ocorre no pulmão. No momento do parto a criança pode ser contagiada por aspiração de material infectado a partir de uma endometrite materna, bem como por contacto com sangue da mãe numa fase de disseminação hematogénea. O conceito de TB congénita deve distinguir-se do de TB pós-natal que ocorre quando: o recém-nascido (RN) inala bacilos de um contacto próximo que pode ser a mãe, outro familiar ou pessoal de saúde; é contaminado por um instrumento cirúrgico ou de enfermagem; é infectado devido à ingestão de leite contaminado. TUBERCULOSE CONGÉNITA
2 Para distinguir a TB congénita de TB pós-natal, al, aceitam-se os critérios que Cantwell e outros, sob a égide do CDC de Atlanta, propuseram em 1994 e que resultaram ram de uma análise crítica actualizada dos originais inai que Beitzke já defendera em São eles: 1) demonstração bacteriológica ou anatomopatológica de lesões de natureza culosa no RN ou pequeno lactente de 4 a 12 tuber- semanas; e, pelo menos, mais um dos restantes critérios: 2) lesões na primeira semana de vida; 3) complexo primário hepático ou granulomas hepáticos caseificados; ados; 4) infecção tuberculosa documentada na placenta ou no tracto genital materno; 5) exclusão da possibilidade de transmissão pós-natal a partir da mãe ou de outras origens. Em termos clínicos e terapêuticos, as diferenças entre TB congénita e TB pós-natal podem ser pouco significativas.
3 53 PROTOCOLO A RASTREIO - Durante a gravidez deve ser avaliado o grau de risco para a TB da grávida. Alto risco: diagnóstico recente de TB doença ou infecção nos familiares ou conviventes; grávidas que viajaram por ou imigrantes de países de alta prevalência; doenças intercorrentes com efeito imunosupressor; infecção a VIH. - Conhecer as provas tuberculínicas e as terapêuticas específicas efectuadas anteriormente. - Se necessário, proceder à realização de prova tuberculínica = reacção de Mantoux. B GRÁVIDA COM TB INFECÇÃO 1) TB infecção recente = viragem tuberculínica - Tratar com a) Hidrazida(H) + RifampicinaHÁ 4 meses = 4HR ou só com H 6 meses = 6H b) Se HIV+ - tratar 12 meses c) sempre com piridoxina - 25 a 50mg/dia d) juntar Vit. K se o tratamento ocorrer no 1º trimestre - Todos os familiares e conviventes da grávida devem ser rastreados. - Exame morfológico e histológico da placenta. - O RN deve ser rastreado para o diagnóstico de TB congénita. 2) TB infecção antiga Sempre discutível o tratamento. Há quem o defenda se: - Grávida com <35 anos e: - R. Mantoux >15mm com ou sem BCG; - R. Mantoux >10mm sem BCG e migração recente de países de alta prevalência; - R. Mantoux >5mm sem BCG e com infecção a VIH. C GRÁVIDA COM TB PULMONAR diagnosticada durante a gravidez, em regime terapêutico e não contagiosa. TUBERCULOSE CONGÉNITA - PROTOCOLO
4 1) Consequências para o feto - Não existem provas seguras de que os antibacilares dos esquemas recomendados sejam teratogénicos. - Das drogas de primeira linha H, R, Z (pirazinamida), S (estreptomicina) e E (etambutol) só S está formalmente contra-indicada devido à sua ototoxicidade fetal. - Se a terapêutica se iniciar no primeiro trimestre, à piridoxina deve juntar-se a vitamina K. - Reforçar a vigilância clínica e ecográfica do feto e clínica e laboratorial da mãe. - Todos os familiares devem ser rastreados. 2) Consequências para o RN - Análise morfológica, bacteriológica e histológica da placenta. - O RN deve ser avaliado para a hipótese de TB congénita: radiografia do tórax, prova tuberculínica, pesquisa de BK no suco gástrico, urina e liquor. - A mãe pode amamentar porque as pequenas concentrações de antibacilares no leite materno não são perigosas para o lactente e também não servem de eventual efeito profiláctico. - Não fazer BCG, que poderá equacionar-se se a TB da mãe for multir-resistente. - Excluída a hipótese de TB congénita o RN deve iniciar quimioprofilaxia com H (5 a 10 mg/k/dia) e manter durante 3 meses. Juntar piridoxina. Então repete R. Mantoux e radiografia do tórax. - Tuberculínica (-) e radiografia do tórax normal pára H. Repetir R. Mantoux após 6 a 12meses. - Tuberculínica (+) e radiografia do tórax normal TB infecção, faz 4HR.( 3HR + 6H- total de 9 meses) - Tuberculínica (+) e radiografia do tórax com alterações TB doença pós-natal (equacionar diagnóstico diferencial com TB perinatal), 2HRZ + 2HR; juntar piridoxina. D GRÁVIDA COM TB PULMONAR diagnosticada antes do parto com ou sem terapêutica antibacilar mas com baciloscopia (+) na altura do mesmo - O RN deve ser separado da mãe até à negativação da expectoração e completa aderência da mãe à terapêutica. - O RN deve ser submetido às mesmas avaliações diagnosticas, terapêuticas e profi-
5 55 lácticas como em B) e C). - Exame completo e rigoroso da placenta. - Todos os familiares devem ser rastreados. - Se a grávida ou outros familiares têm tuberculose multirresistente ou má aderência à terapêutica, considerar a vacinação com BCG. E TB CONGÉNITA - Clínica: hepato-esplenomegália, dificuldade respiratória, dificuldade na alimentação, febre, linfoadenopatias, distensão abdominal, letargia ou irritabilidade, otorreia e lesões dérmicas papulares por ordem de frequência. - Diagnóstico: Critérios de Cantwell. - Terapêutica a) Início imediato em face da assunção criteriosa da suspeita e após as colheitas, sem esperar pelo resultado dos exames pedidos, incluindo a prova tuberculínica; esta é quase sempre negativa mas pode ser positiva mais tarde. b) Esquema terapêutico 2HRZS + 7 ou 10 HR H 5 a10 mg/k/dia, R 10 a 20 mg/k/dia Z 20 a 30 mg/k/dia S 30 mg/k/dia piridoxina 25 a 50 mg/k/dia. Reforço dos suplementos vitamínicos habituais. - Seguimento: Vigilância clínica quinzenal no 1º mês e depois mensal. TUBERCULOSE CONGÉNITA - PROTOCOLO
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