Conceito de desvio sexual



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Transcrição:

Conceito de desvio sexual Desvio é um comportamento que se contrapõe às normas atuais da sociedade (legais, morais, etc.) Às vezes definido em termos de normalidade estatística ou psicopatologia (ex: hetero/homossexualismo egodistônico) Termos alternativos p/ desvio sexual menos pejorativos: comportamento sexual das minorias, estigma sexual. Inclue: fetichismo, sadomasoquismo, transvestismo e transexualismo (vide adiante) Incidência impossível de ser determinada c/ exatidão (casos não são raros). Maioria não solicita ajuda para obter cura. Transexuais solicitam ajuda para normalizar o desvio, através da cirurgia para mudança de sexo. Outros desvios considerados como ofensas sexuais (encaminhados pela Justiça): estupro, incesto, pedofilia, exibicionismo, voyeurismo, etc. Definição de transexualismo (resol. CFM 1652/2002): 1. Desvio psicológico permanente de identidade sexual, c/ rejeição do fenótipo, tendência à auto-mutilação e/ou auto-extermínio; 2. Desconforto c/ sexo anatômico natural; 3. Desejo expresso de eliminar os genitais, perder as características primárias e secundárias do próprio sexo e ganhar as do sexo oposto; 4. Permanência desses distúrbios de forma contínua e persistente por, no mínimo, dois anos; 5. Ausência de outros transtornos mentais. Fetichismo Fetiche significa um artefato artisticamente confeccionado, também associado a um significado especial simbólico ou mágico, de caráter amoroso ou sexual. Torna-se problemático à medida em que ele se presta mais a enfraquecer do que a fortalecer o vínculo sexual com o outro parceiro, chegando ao ponto de torná-lo totalmente redundante ou dispensável, para efeito da obtenção do prazer sexual. Categorias principais de sinais ou estímulos: 1. uma parte do corpo (seios, nádegas, pernas, etc.) 2. uma extensão inanimada do corpo (peça de roupa) 3. uma fonte específica de estímulo táctil (textura de um tipo particular de material tecido emborrachado, couro, plástico negro brilhante, etc.) Raro em mulheres

Psicanalistas consideram-no invariavelmente associado ao complexo de castração (medo da perda do pênis) Transvestismo e transexualismo Vestir roupa do sexo oposto: hábito universal, forma de diversão Fatores determinantes: sabe-se muito pouco Diferentes tipos: 1. Transvestismo fetichista. Quase sempre é um homem que se veste c/ roupas femininas (fetiches), levando-o à excitação sexual e, a seguir, ao orgasmo através da masturbação. Constitue-se num ato sexual. 2. Transexualismo. Pode ser homem ou mulher que acredita pertencer ao sexo oposto, ou que possui um forte desejo de ser aceito como tal, apesar de sua anatomia diferente. No caso do transexual masculino, ele se veste como mulher, no intuito de expressar sua preferência em ser mulher, e não para obtenção do prazer sexual. Busca ajuda médica para alterar o seu corpo e adequá-lo ao gênero psicológico (oposto ao biológico). 3. Transvestismo de duplo papel. Geralmente é um homem que se comporta, na maior parte do tempo, como um heterossexual normal e, num dado momento, veste-se como mulher. Ao contrário do transexual, não deseja mudar de sexo permanentemente; quer manter ambas as opções. 4. Transvestismo associado ao homossexualismo. Pode ser homem ou mulher que se sente atraído sexualmente por pessoa do mesmo sexo e que se veste c/ roupa do sexo oposto, freqüentemente por objetivos cômicos ou teatrais. Incidência: impossível determiná-la c/ precisão (muitos indivíduos vestem roupa do sexo oposto, secretamente). Estimativas de pessoas desejando mudar de sexo (Pauly, 1974): 1 em 100 000 (homens); 1 em 400 000 (mulheres) Estudo retrospectivo (Prince & Bentler, 1972) sobre início do uso de roupa do sexo oposto: antes de 5 anos (14%); entre 5-10 anos (40%); dos 10-18 anos (37%); após 18 anos (8%) Características de personalidade. Em geral não diferem das pessoas "normais". Comportamento de transexuais masculinos mais exagerado do que o de transexuais femininos. Relacionamento sexual Alguns conseguem manter casamentos estáveis (possíveis razões: vestir roupa do sexo oposto limitado no tempo, realizado secretamente, não envolvendo tendências transexuais). Pesquisa de Prince & Bentler (1972): + de 3/4 dos travestis foram casados e tiveram filhos; 2/3 ainda estavam casados.

1. Transexual feminino: assumindo o papel ativo e evitando que a namorada toque diretamente nas mamas e genitália (feminina) para evitar a incongruência anatômica. Surpreendentemente, esses relacionamentos podem ser estáveis e satisfatórios. 2. Transexual masculino: tendem a ser menos estáveis, podendo tornar-se + satisfatórios após a cirurgia (possível experimentar orgasmo). Fatores determinantes possíveis 1. Biológicos Não há evidência de fator genético determinante. Maioria dos transexuais femininos não apresentam evidências de anormalidades físicas ou endócrinas determinantes. Em alguns, as irregularidades apresentadas (aumento do nível de testosterona - automedicação?, irregularidades menstruais, ovário policístico) não se constituem em fatores necessários e suficientes. Alterações no EEG + comuns em transexuais femininos. 2. Socioculturais Quanto mais rígidos os estereótipos ou expectativas quanto ao papel sexual, maior possibilidade de gerarem ansiedade e insegurança acerca da identidade de gênero (mudança de sexo, nesse caso, como meio eficaz de lidar c/ esse desconforto?) 3. Influências na 1 a. infância Meninos efeminados a) Indiferença dos pais b) Pais encorajando comportamento efeminado (mãe desejava muito ter uma filha) c) Hábito de vestir o menino de menina d) Superproteção materna e) Atenção e contato físico excessivos da mãe f) Rejeição ou ausência da figura paterna g) Beleza física, influenciando os adultos a tratá-lo como menina (1/3 dos casos) Meninas masculinizadas Ao contrário dos meninos efeminados, as meninas masculinizadas raramente têm dificuldade de se adaptarem ao papel feminino na vida adulta. A grande maioria dos transexuais femininos adultos relatam agir e vestir-se como meninos durante a infância.

4. Orientação sexual Questão intrigante: "Se um transexual masculino fizer sexo com um outro homem, trata-se de uma relação homossexual ou tal fato está revelando a orientação heterossexual do transexual em questão?" Em 42 transexuais, Bentler (1976) observou que: 1/3 se considerava homossexual antes da cirurgia, 1/3 hetero e 1/3 foram categorizados como assexuados. 5. Problemas de identidade de gênero Dificuldade em assumir o papel do gênero natural, eventualmente, poderá encorajar a adoção do gênero alternativo (alívio das pressões baseadas em estereótipos). 6. Mudança de travesti para transexual Com o passar do tempo, o transvestismo fetichista pode se converter em transexualismo 7. Transexualismo como um transtorno psicótico Na grande maioria dos casos, não há confirmação disso. 8. Efeito iatrogênico da cirurgia Expectativas irrealistas acerca de seus benefícios. Cirurgia como uma forma da pessoa escapar de uma vida cronicamente insatisfatória, antes da intervenção. Mudando-se de sexo, a vida irá melhorar (crença relativamente comum). 1. Publicações: Terapia familiar no atendimento psiquiátrico. Neurobiologia, 43(4):385-392, 1980. Terapia familiar no atendimento psiquiátrico: considerações iniciais sobre o tratamento de famílias pobres no Recife. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 30(3):283-288, 1981. Terapia familiar, duplo-vínculo e o contexto sociocultural do Recife. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 34(5):327-336, 1985.

Terapia familiar: integrando indivíduo, família e doença mental. In: R.P. Scott (org.), Sistemas de cura: as alternativas do povo, CNPq, PROPESQ e PROACIC, Universidade Federal de Pernambuco, p.217-223, 1986. Violência conjugal, neutralidade e poder na prática clínica: revendo a literatura. Nova Perspectiva Sistêmica, Instituto de Terapia Familiar do Rio de Janeiro, p.3-, 1993. Fatores predisponentes para a violência física contra esposas. Neurobiologia, 58(2):57-64, 1995. Fatores predisponentes para violência física contra esposas. Publicação na íntegra nos ANAIS do 1o Congresso Brasileiro de Terapia Familiar, vol. II. São Paulo, SP,Editora Rosa Maria Stefanini de Macedo, PUC-SP, NUFAC, 391-402. doc: Violência no cotidiano feminino na visão de um terapeuta masculino. Publicado nos anais do III Congresso Brasileiro de Terapia Familiar, 29/07 a 02/08/98, Rio de Janeiro, RJ. Transtornos da sexualidade: ampliando a conversação com os casais. Capítulo do livro Manual de ginecologia, J. Weydson de Barros Leal (ed.), Editora da Universidade Federal de Pernambuco, 1998. O resultado do envolvimento de crianças com distúrbio de conduta na violência entre os pais. Anais do seminário Escola, sim! Violência, não!, Governo do Estado de Pernambuco, Secretaria de Educação e Esportes, p.235-241, Recife, 1998. Visão clínica sobre gênero e violência conjugal. Anais do seminário Escola, sim! Violência, não!, Governo do Estado de Pernambuco, Secretaria de Educação e Esportes, Recife, p.242-250, 1998. A violência na família e na escola. Anais do seminário Escola, sim! Violência, não!, Governo do Estado de Pernambuco, Secretaria de Educação e Esportes, Recife, p.251-253, 1998.