ATUALIZANDO O LEVANTAMENTO DE INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS SIMPLES EM OBRA



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I CONFERÊNCIA LATINO-AMERICANA DE CONSTRUÇÃO SUSTENTÁVEL X ENCONTRO NACIONAL DE TECNOLOGIA DO AMBIENTE CONSTRUÍDO 18-21 julho 2004, São Paulo. ISBN 85-89478-08-4. ATUALIZANDO O LEVANTAMENTO DE INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS SIMPLES EM OBRA Cristina Eliza Pozzobon (1); Luiz Fernando Mählmann Heineck (2); Maria do Carmo Duarte Freitas (3) (1) Professora Assistente da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUÍ, M. Eng., pozzobon@unijui.tche.br (2) Professor Titular da Universidade Federal de Santa Catarina, Ph. D., heineck@eps.ufsc.br (3) Professora Adjunta da Universidade do Extremo Sul Catarinense, Dra. Eng., mcf@unesc.rct-sc.br RESUMO A partir do princípio do processo de racionalização da construção, inicialmente detectado em 1984 pela iniciativa conjunta da COPPE/UFRJ, FINEP e Construtora Wrobel do Rio de Janeiro, tendo prosseguimento nas atividades da Construtora Método em São Paulo e sua consultora NEOLABOR, assim como pelo impulso advindo do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade de 1991, pode-se assistir a proliferação de iniciativas de melhoria na movimentação de materiais, condições de trabalho e segurança em canteiros de obra; pela adoção de máquinas e ferramentas simples, moldes e gabaritos, procedimentos para disseminação de informações, entre outros. Estas iniciativas foram, inicialmente, reunidas em um manual elaborado, em 1994, pelo SEBRAE/SINDUSCON-RS, tendo o NORIE/UFRGS como agente pesquisador. Repetidas vezes os autores deste trabalho realizaram levantamentos complementares a nível nacional, avaliando a evolução da adoção destas iniciativas de melhoria em várias cidades brasileiras. A última destas publicações data de 1999. Este trabalho revisa e atualiza estas inovações tecnológicas simples, realizando levantamentos tanto na realidade dos canteiros nacionais como através de publicações especializadas. Em particular, apresenta os princípios da construção enxuta e enfatiza seus desdobramentos em melhorias, modificações e inovações tecnológicas simples. O trabalho está fartamente ilustrado, sendo um conjunto de inovações apresentado ao longo do texto. Palavras-chave: racionalização; melhorias; inovações tecnológicas; gestão da construção civil; construção enxuta 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS A dinâmica contemporânea tem imprimido constantes e rápidas transformações no processo produtivo dos diversos setores econômicos. Não obstante, desde o início da década de 1990, os esforços da construção civil brasileira objetivando melhores desempenhos têm sido notórios. A busca por qualidade, e/ou certificação e/ou incrementos na produtividade, bem como as alterações ocorridas na legislação trabalhista e previdenciária, além do aumento na competitividade têm contribuído para o avanço do setor da construção civil. Sobre o assunto, Scardoelli et al. (1994a) comprovaram que todos os problemas relativos à falta de qualidade dos serviços, historicamente atribuídos à mão-de-obra, só se verificam em empresas construtoras que não oferecem condições de trabalho, instruções e equipamentos necessários à execução. Segundo estes autores, os procedimentos e equipamentos implantados, após um momento inicial de familiarização, melhoram a qualidade do produto e a produtividade dos trabalhadores. Neste sentido, implantar deve significar, para cada empresa, consolidar a nova tecnologia no seu sistema produtivo e no processo de produção de edifícios através de princípios que permitam a sua constante evolução (Barros, 1998).

Além disso, a utilização de equipamentos adequados melhora as condições ergonômicas e contribui para a ruptura da idéia de improviso e desperdício. Sobre o primeiro aspecto, Avellán Paniagua (1995) apud Krüger (1997) aponta que, na construção civil, a aplicação da ergonomia assume grande importância devido à forte demanda de atividades manuais que submetem os operários a trabalhos com alto grau de penosidade e fadiga. Sobre o segundo aspecto, Freitas at al. (1999) observam que o cuidado com os detalhes na fabricação dos equipamentos favorece o zelo dos operários pela sua conservação. Neste contexto, este trabalho revisa, atualiza e apresenta informações sobre as inovações tecnológicas simples passíveis de visualização em canteiros de obras convencionais e de alvenaria estrutural de empresas construtoras do país. O termo inovação tecnológica é entendido dentro do contexto apresentado por Barros (1996): um aperfeiçoamento tecnológico, resultado de atividades de pesquisa e desenvolvimento internas ou externas à empresa, aplicado ao processo de produção do edifício objetivando a melhoria de desempenho, qualidade ou custo do edifício ou de uma parte do mesmo. Para tanto, os autores realizaram buscas e levantamentos na realidade dos canteiros de obra nacionais. Na expectativa de descrever as boas práticas encontradas, o trabalho é fartamente ilustrado, sendo um conjunto de inovações apresentado ao longo do texto. Esse tipo de documentação tem a função de apresentar e disseminar as informações de maneira rápida e clara. Pela ilustração, permite a adaptação da idéia a outras realidades nacionais. Além disso, foram pesquisadas e citadas as principais publicações especializadas. Isso contribuiu para a apresentação dos resultados e possibilitou aos autores, uma análise crítica das mesmas, bem como o estabelecimento de um referencial teórico atualizado. Com esta sistematização busca-se renovar e disseminar informações e, ainda, reavaliar a evolução da adoção destas iniciativas de melhoria simples, além de apresentar os princípios da construção enxuta e enfatizar seus desdobramentos em melhorias, modificações e inovações tecnológicas simples. 2. INICIATIVAS DE MELHORIA E IMPLANTAÇÃO DE INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS SIMPLES 2.1 As iniciativas de melhoria O processo de racionalização da construção foi detectado, inicialmente em 1984, pela iniciativa conjunta da COPPE/UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e Construtora Wrobel do Rio de Janeiro. Teve prosseguimento nas atividades da Construtora Método, em São Paulo, e sua empresa consultora, a NEOLABOR. A seguir, esse processo foi fortemente impulsionado pelo Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP), datado de 1991. Ainda em 1991, Silva (1991) apresentou, de forma sistematizada, a evolução da racionalização do processo de construção, especificamente do subsetor edificações. Concluiu que, naqueles últimos vinte anos, apesar da defasagem tecnológica e organizacional acentuada, quando comparado com outros setores industriais e com seus congêneres em outros países, era possível identificar no subsetor edificações uma série de ações no âmbito do desenvolvimento de produtos e serviços e do aperfeiçoamento do processo, as quais se constituíam em mudanças nas formas de produção ocorridas. A partir de então, proliferaram iniciativas de melhoria em canteiros de obra de todo o país. Estas iniciativas foram, inicialmente, reunidas em um manual elaborado, em 1994, pela ação conjunta do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e do Sindicato da Indústria da Construção (SINDUSCON) do Rio Grande do Sul, tendo como agente de pesquisa o NORIE (Núcleo Orientado para Inovação da Construção) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Este manual, denominado melhorias de qualidade e produtividade: iniciativas das empresas de construção civil (SCARDOELLI et al., 1994a), se constitui, ainda hoje, em uma referência sobre o assunto que merece ser consultada.

Ainda em 1994, no 5th International Seminar on Structural Masonry for Developing Countries, foram apresentadas pesquisas sobre iniciativas de melhoria em canteiros de obra, quais sejam: - Inventário de iniciativas de melhorias voltadas à produtividade e qualidade desenvolvidas por empresas de construção de edificações (SCARDOELLI et al., 1994b), - Plataforma móvel regulável para movimentação de materiais e suporte para serviços de alvenaria (MAIA e SANTANA, 1994). - Racionalização da execução de alvenaria do tipo convencional e estrutural através de inovações tecnológicas simples (HEINECK e ANDRADE, 1994). Naquele ano, Scardoelli et al. (1994c) também relataram o inventário de iniciativas de melhorias voltadas à produtividade e qualidade desenvolvidas por empresas de construção civil no Encontro Nacional de Engenharia de Produção. Além disso, aquela pesquisa gerou a dissertação de mestrado de Scardoelli (1995) na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 1995, no Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído, Araújo e Mutti (1995) expuseram as seguintes inovações tecnológicas em equipamentos e ferramentas para execução de alvenarias estruturais com blocos de concreto: carrinho para transporte de blocos, escantilhão, régua com bolha, forma para rejunte horizontal (argamassadeira), forma para rejunte vertical (cangalha), bisnaga, esticador de linha, cavalete e plataforma para andaime, masseira metálica e suporte para masseira. No mesmo ano, Heineck e Tristão (1995) apresentam uma série de modificações focadas basicamente à execução de revestimentos em argamassa e preenchimento de juntas, no Simpósio Brasileiro de Tecnologia das Argamassas. Os autores até aqui comentados, a exceção de Scardoelli (et al., 1994a; et al., 1994b; et al., 1994c; 1995), focaram seus trabalhos sobre iniciativas de melhoria, essencialmente, às alvenarias. Apesar deste foco ser restrito, estes trabalhos foram de grande importância porque, juntamente com outros trabalhos (HEINECK, 1990; SCARDOELLI, 1994a; SAURIN, 1997), subsidiaram a elaboração de listagens mais amplas no contexto do canteiro de obra, as quais passaram a nortear as pesquisas realizadas a partir de 1997. 2.2 As inovações tecnológicas simples em canteiros de obra Partindo de determinada listagem, em 1998, no Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído, Cruz et al. (1998) registraram o diagnóstico de dez canteiros de obra de dez diferentes empresas construtoras sediadas na cidade de Belém do Pará. A pesquisa considerou os aspectos logísticos relacionados a organização dos canteiros, detendo-se basicamente a área de suprimentos e constatou que, na maioria dos canteiros visitados, não foram observados princípios logísticos considerados básicos em outros setores industriais. Ainda em 1998, no Encontro Nacional de Engenharia de Produção, e também a partir de uma listagem, Meira et al. (1998) e Librelotto et al. (1998) descreveram a racionalização de sete canteiros de obra da cidade de Florianópolis através da implantação de inovações tecnológicas simples. Os autores concluíram que era possível encontrar modificações, embora insipientes, no processo produtivo e na organização dos canteiros pesquisados naquela cidade. Entre 1997 e 1999, repetidas vezes, os autores deste trabalho (POZZOBON, HEINECK e FREITAS) realizaram levantamentos complementares a nível nacional, procurando formatar uma listagem de iniciativas de melhorias simples e, ainda, avaliar a evolução da adoção destas iniciativas em várias cidades do Brasil. As últimas publicações aconteceram em 1999, no Simpósio Brasileiro de Gestão da Qualidade e Organização do Trabalho. Naquela oportunidade, Pozzobon et al. (1999) apresentaram uma listagem com duzentos e quarenta modificações, melhorias e inovações tecnológicas simples encontradas em canteiros de obra convencionais e de alvenaria estrutural do país. Para facilitar a pesquisa, os itens listados estavam agrupados em seis assuntos relacionados ao gerenciamento dos canteiros de obra, a saber: [i] apoio e dignificação da mão-de-obra (43 itens); [ii] organização do canteiro (73 itens); [iii] movimentação de materiais e deslocamentos internos (15 itens); [iv] utilização de ferramentas, máquinas e técnicas especiais (51 itens); [v] segurança do trabalho (30 itens)e; [vi] comunicações internas (28 itens).

A aplicação da referida listagem e sua posterior análise proporciona, ainda hoje, o desenvolvimento de intervenções e de novas estratégias. A listagem serve, também, como sugestão para a implementação de inovações tecnológicas que trazem a melhoria de desempenho, qualidade ou custo do edifício ou de uma parte do mesmo. Freitas et al. (1999) diagnosticaram mudanças voltadas à qualidade e produtividade através de visita em cinqüenta e oito canteiros de obras convencionais e de alvenaria estrutural de quinze cidades brasileiras (quatorze canteiros visitados no Rio Grande do Sul, dez em Santa Catarina, quinze no Paraná, quatro em São Paulo, quatro na Bahia, três em Maceió e oito no Ceará). Para a realização do diagnóstico aplicaram a listagem apresentada por Pozzobon et al. (1999), identificaram o perfil das construtoras e registraram as boas práticas encontradas. Naquele período, o trabalho de Freitas et al. (1999) concluiu que, em âmbito geral, o estado do Paraná apresentou o maior percentual de mudanças, melhorias e inovações tecnológicas simples implantadas. Um somatório indicou que aproximadamente metade das mudanças listadas foi encontrada nos canteiros de obra pesquisados naquele estado do Brasil. Embora a grande extensão continental brasileira e suas diferenças regionais, que dificultam uma caracterização única dos canteiros de obra do país, a pesquisa de Freitas et al. (1999) tem subsidiado avaliações sobre a evolução da adoção destas iniciativas de melhorias simples. Tanto assim que os trabalhos de Oliveira et al.(2000) e Santos et al. (2000), apresentados no Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído, aplicaram a listagem sugerida por Pozzobon et al. (1999) em quinze canteiros de obra (três em São Paulo, dois em Santa Catarina, quatro no Maranhão e seis em Sergipe) e desenvolveram a mesma metodologia utilizada por Freitas et al. (1999). Este procedimento possibilitou a Oliveira et al. (2000) concluírem que houve um aumento no percentual de mudanças, melhorias e inovações tecnológicas simples implantadas, quando calculado sobre o total de possibilidades listadas, para todos os grupos de assuntos da listagem, conforme se pode observar na Tabela 1. Tabela 1 Percentual total de ocorrência para cada assunto que agrupa itens da listagem Assunto / Autor Apoio e dignificação da mão-deobra Organização do canteiro Movimentação de materiais e deslocamentos internos Ferramentas, máquinas e técnicas especiais Segurança do trabalho Comunicações internas Freitas et al. (1999) Oliveira et.al (2000) 52% 49% 43% 37% 58% 32% 63% 53% 46% 45% 65% 42% Fonte: Adaptada de Oliveira et al. (2000) Vale salientar que somente os estados de Santa Catarina e São Paulo estiveram presentes nas duas pesquisas. Sobre o fato, Oliveira et al. (2000) comentam que, em ambos os estados foi verificado um acréscimo nos índices percentuais de implantação, mas que este acréscimo foi bastante reduzido no estado de Santa Catarina. Mendes Jr. et al. (2002) também adotaram a listagem sugerida por Pozzobon et al. (1999) para analisar as maiores preocupações e traçar o perfil das empresas construtoras de Curitiba. Para tanto, pesquisaram trinta canteiros de obra daquela cidade. Os resultados destacam positivamente os itens de segurança do trabalho, onde as campanhas de conscientização têm surtido com os resultados esperados. Os itens de apoio e dignificação da mão-de-obra, apesar de apresentarem um bom índice de implantação, se comparados com outros, ainda são carentes. Os autores concluíram que, pela sua importância, nos assuntos organização do canteiro, movimentação dos materiais e ferramentas, máquinas e técnicas especiais, ainda há necessidade de se implantar muitos itens. Já a comunicação, dentro do canteiro de obras, apresentou-se com a

devida importância em canteiros de grande porte. Uma continuidade na avaliação da implantação de inovações tecnológicas simples em canteiros de obra deve acontecer pela aplicação de listagens em outros momentos e locais. Nesse sentido, um fato interessante à registrar é que, em 2003, no Simpósio Brasileiro de Gestão e Economia da Construção (anteriormente denominado Simpósio Brasileiro de Gestão da Qualidade e Organização do Trabalho), embora estivesse presente a temática inovação e avaliação de sistemas construtivos, não houve publicações referindo-se ao assunto em estudo. Também no intuito de disseminar iniciativas de melhorias e, ainda, expor preocupação ergonômica, outros autores (OLIVEIRA et al., 1999; POZZOBON e TEIXEIRA, 1999) pesquisaram e sugeriram inovações tecnológicas simples para melhoria das condições de trabalho do pedreiro de assentamento de alvenaria. 3. CONSTRUÇÃO ENXUTA (LEAN CONSTRUCTION) A indústria manufatureira ganhou impulso com o aparecimento da energia atômica e a revolução tecnológica, logo após a II Guerra Mundial. As sofisticações das máquinas e equipamentos obrigaram as empresas a investirem, cada vez mais, em treinamento. Desde então, tem sido constante a necessidade de melhoria nos processos de formação nas empresas. A economia vigente entre as décadas de cinqüenta e setenta exigiu, das organizações, iniciativas dinâmicas para que continuassem competitivas. A busca por melhorias de qualidade, desempenho, velocidade, produtividade, redução de custos e reestruturação dos processos empresariais passou, ainda, por movimentos como reengenharia, 5S, Círculo de Controle de Qualidade (CCQ), Just in time (JIT), Total Quality Control (TQC), Total Productivity Maintenance (TQM), Controle Estatístico do Processo (CEP), KAISEN e KANBAN. A técnica de benchmarking, como aprendizagem baseado na melhoria do processo, começou a ser difundida no final dos anos oitenta. A reboque nessa história, o setor da construção civil, na década de setenta, começou a refletir sobre a possibilidade de implantar ferramentas como kanban e círculos de controle da qualidade. Métodos como o JIT e outras filosofias de administração também começaram a ser implantados neste setor. Intitulada construção enxuta uma adaptação da produção enxuta ao contexto específico do setor da construção civil - esta nova filosofia de produção, embora ainda pouco utilizada, apresenta-se como uma solução adequada para os problemas do setor (HEINECK e MACHADO, 2002). Heineck e Machado (2002) explicam que isso se deve à sua característica de baixa utilização de tecnologias de hardware e software em termos de máquinas, robôs, sistemas computacionais de gestão ou de automação, que são substituídas por soluções tecnológicas mais simples baseadas no envolvimento da mãode-obra. 3.1 Os princípios da construção enxuta Koskela (1992 apud BERNARDES, 1993) enfatiza que a lean construction traz como mudança conceitual mais importante, para a construção civil, a introdução de uma nova forma de se entender os processos produtivos. Afirma, ainda, que esses conceitos se referem, essencialmente, à maneira pela qual processo e operações são definidos. Bernardes (2003) comenta que a lean construction apresenta uma base conceitual que tem o potencial de trazer benefícios, em termos de melhoria de eficiência e eficácia dos sistemas de produção pela aplicação dos seus princípios básicos, propostos por Koskela (1992 apud BERNARDES, 1993), quais sejam: 1. Redução da parcela de atividades que não agregam valor; 2. Aumento do valor do produto através de uma consideração sistemática dos requisitos do cliente; 3. Redução da variabilidade; 4. Redução do tempo de ciclo; 5. Simplificação pela minimização do número de passos e partes; 6. Aumento da flexibilidade na execução do produto;

7. Aumento de transparência; 8. Foco no controle de todo o processo; 9. Estabelecimento de melhoria contínua ao processo; 10. Balanceamento da melhoria dos fluxos com a melhoria das conversões; 11. Benchmarking. 3.2 Os desdobramentos da construção enxuta No que tange o desenvolvimento deste trabalho, apresenta-se os princípios da lean construction enfatizando seus desdobramentos em melhorias, modificações e inovações tecnológicas simples. Para ilustrar, utiliza-se um banco de imagens recolhidas em todo o país. 3.2.1 Redução da parcela de atividades que não agregam valor A utilização do processo de planejamento e controle da produção facilita a implementação desse princípio da lean construction, a medida que busca reduzir as atividades de movimentação, inspeção e espera, bem como aquelas que consomem tempo mas não agregam valor ao cliente final (BERNARDES, 2003). O estudo e a elaboração de um arranjo físico para o canteiro, minimizando distâncias entre os locais de descarga de materiais e seus respectivos locais de aplicação podem reduzir a parcela das atividades de movimentação (SANTOS, 1999 apud BERNARDES, 2003). Estas ações já se fazem presentes nos canteiros de obra pesquisados, como itens relacionados aos assuntos listados por Pozzobon et al. (1999): organização do canteiro; movimentação de materiais e deslocamentos internos; ferramentas, máquinas e técnicas especiais. Além disso, em termos de inovações tecnológicas simples, investigações mostram evoluções na movimentação de material e mão-de-obra, caracterizando a redução das atividades que não agregam valor. A Figura 1 e a Figura 2 evidenciam a evolução na movimentação de materiais que, em muitos casos, passou de manual para mecanizada. Figura 1 - Evolução na movimentação de materiais operação manual

Figura 2 - Evolução na movimentação de materiais operação mecanizada 3.2.2 Aumento do valor do produto através de uma consideração sistemática dos requisitos do cliente Segundo Koskela (1992 apud BERNARDES, 2003), agrega-se valor ao produto quando os requisitos de seus clientes internos e externos são atendidos. Sendo assim, melhorias utilizadas na organização do canteiro; na movimentação de materiais e deslocamentos internos e; no uso de ferramentas, máquinas e técnicas especiais, auxiliam sobremaneira a atender os requisitos, especialmente, dos clientes externos. A seqüência de imagens da Figura 3 mostra um processo de aferição de prumo utilizando novos equipamentos e rotinas construtivas. Para os clientes internos, além das melhorias utilizadas na organização do canteiro; na movimentação de materiais e deslocamentos internos e; no uso de ferramentas, máquinas e técnicas especiais, é fundamental a presença dos itens relacionados a segurança no trabalho e as comunicações internas. Figura 3 - Processo de aferição utilizando novos equipamentos e rotinas 3.2.3 Redução de variabilidade Bernardes (2003) menciona exemplos típicos de variabilidade: variação dimensional nos materiais entregues; variabilidade existente na própria execução de um determinado processo e; variabilidade na demanda, relacionada aos desejos e às necessidades dos clientes de um processo. Iniciativas de melhoria que reduzem a variabilidade, passíveis de visualização, dizem respeito ao uso de esquadros grandes, gabaritos para banheiros, cones removíveis para passagem da tubulação, nível

laser, contrapiso zero e emboço de teto zero. O processo de aferição, apresentado na Figura 3, também reduz a variabilidade na execução daquele processo. 3.2.4 Redução do tempo de ciclo Bernardes (2003) afirma que a redução do tempo de ciclo pode ser alcançada através da redução da parcela de atividades que não agregam valor, quais sejam: movimentação, inspeção e espera. Comenta, ainda, que sob o ponto de vista da melhoria do processo, verifica-se que tempos de ciclo menores facilitam a implementação mais rápida de inovações. Santos (1999 apud BERNARDES, 2003) conclui que uma das formas de minorar as atividades que não agregam valor é através da sincronização do fluxo de materiais e mão-de-obra, bem como do desenvolvimento de programações mais repetitivas e padronizadas. Nesse sentido, alguns trabalhos sugerem vantagens no uso da linha de balanço, em relação às demais técnicas, em decorrência de sua eficiência em responder às perguntas básicas do planejamento referentes a quando fazer, o que fazer, quanto fazer, onde fazer e com que recursos fazer (HEINECK e MACHADO, 2002). A Figura 4 apresenta um exemplo da linha de balanço comparando-a com um diagrama de Gantt para algumas atividades existentes em um projeto da construção: Figura 4 - Linha de balanço Fonte: Heineck e Machado (2002) A implantação, tanto na concepção como na aquisição e utilização, de máquinas e ferramentas que proporcionem aos operários melhores condições de trabalho, segurança e,consequentemente, qualidade de vida gera, para a empresa, maior produtividade e qualidade nos serviços e, conseqüentemente, redução do tempo ciclo. 3.2.5 Minimização do número de passos e partes A utilização de elementos pré-fabricados e de kits, o uso de equipes polivalentes, entre outros, são exemplos de alternativas que minimizam o número de passos e partes. A Figura 5 apresenta dois exemplos visualizados nos canteiros de obra do país, durante realização de pesquisas sobre inovações tecnológicas.

Figura 5 - Utilização de kits prontos e/ou pré-fabricados 3.2.6 Aumento da flexibilidade na execução do produto Koskela (2002 apud BERNARDES, 2003) sugere, para este princípio básico da lean construction, a minimização no tamanho dos lotes, a redução no tempo de preparação e troca de ferramentas e equipamentos e a utilização de equipes polivalentes. Sob este ponto de vista, a Figura 6 mostra uma inovação tecnológica simples usada para transporte de vários tipos de material. Figura 6 - Carrinho de mão para transporte de blocos e bambonas 3.2.7 Aumento de transparência Sob a égide deste princípio, que busca diminuir a possibilidade de ocorrência de erros na construção, as comunicações internas têm evoluído ao longo do tempo, como mostra a pesquisa realizada por Mendes Jr. et al. (2002). Utilizam-se cores, cartazes educativos, reuniões semanais, jornais, murais, vídeos e mapas astrais dos trabalhadores. A Figura 7 mostra alguns recursos de comunicação encontrados nos canteiros de obra brasileiros.

Figura 7 - Comunicação no canteiro de obra 3.2.8 Foco no controle de todo o processo O controle de todo o processo possibilita a identificação e a correção de possíveis desvios que venham a interferir sobremaneira no prazo de entrega da obra (BERNARDES, 2003). Nesse sentido, além dos prazos, índices, traços e outros itens usados na comunicação interna, um bom exemplo de melhoria é a preocupação com a organização do canteiro como um todo, ilustrada na Figura 8. Figura 8 - Vista de um canteiro de obra 3.2.9 Estabelecimento de melhoria contínua ao processo Segundo Koskela (2002 apud BERNARDES, 2003), os esforços em prol da redução do desperdício e do aumento do valor do produto devem ocorrer de maneira contínua na empresa. Segundo estes autores, o princípio de melhoria contínua pode ser alcançado a medida que os demais vão sendo cumpridos. Nesse contexto, iniciativas de apoio e dignificação da mão-de-obra são importantes. Pode-se destacar a utilização da caixa de sugestões, a premiação pelo cumprimento de tarefas e metas, o estabelecimento dos planos de carreira, a adoção das medalhas por distinção, entre outros. 3.2.10 Balanceamento da melhoria dos fluxos com a melhoria das conversões Este princípio, segundo Bernardes (2003), deve ser observado durante a etapa de projeto do empreendimento, bem como ao longo da formulação da estratégia de ataque à obra, como forma de facilitar sua organização. A Figura 9, a seguir, mostra a organização do canteiro de obra e a organização de um estoque. São iniciativas que conduzem ao balanceamento da melhoria dos fluxos pela melhoria das conversões.

Figura 9 - Organização do canteiro de obra e do estoque 3.2.11 Benchmarking O benchmarking está relacionado diretamente à inserção de inovações tecnológicas. Neste contexto, os equipamentos que mais sofreram modificações, ao longo do tempo, foram os carrinhos de mão, os quais passaram de uma para duas e depois para três rodas. Além disso, ampliou-se o seu uso (para transporte de tijolos e para transporte de masseiras) e os seus tipos (com motor, com fundo desmontável e reto, estreito, com polainas em couro ou madeira). As masseiras figuram com novas dimensões e estão de acordo com a utilização. Ganharam cores e passaram por adaptações para o transporte dos materiais (Figura 10). Surgiram equipamentos simples como as empunhadeiras, para latas de tinta, e as bisnagas, para colocação de argamassa, e outros mais sofisticados como o serrote portátil e elétrico, e o nível a laser. Figura 10 - Masseiras 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Pela realização deste trabalho pode-se tecer algumas considerações finais. Sobre a evolução da adoção de iniciativas de melhorias, modificações e inovações tecnológicas simples, as pesquisas consultadas têm demonstrado um crescimento nos índices de implantação, ao longo dos anos. Contudo, estes índices continuam baixos, quando se compara o total de itens que podem ser implantados e o total de itens encontrados nos canteiros de obra do país. Apesar disso, afirma-se, de maneira contundente, que a introdução destas inovações tecnológicas simples na produção de edificações permite a melhoria do local, do processo e da organização do trabalho, através de ações relativamente simples e de baixo custo. Através da bibliografia pesquisada e, ainda, de acordo com a realidade dos canteiros de obra nacionais, neste período de acompanhamento, nota-se que o setor tem muito a melhorar, tanto pelo conhecimento dos problemas a enfrentar quanto pela implantação de melhorias e realização de intervenções ergonômicas. Nesse sentido, um grande desafio a ser vencido está no estabelecimento dos conceitos ergonômicos que são adaptáveis ao setor da construção civil. A melhoria da qualidade dos produtos e processos

passa obrigatoriamente pela transformação e pela adequação das máquinas e dos dispositivos técnicos envolvidos. A análise e avaliação dos postos de trabalho e o desenvolvimento de novos equipamentos devem, sempre, buscar o aumento da produtividade e do lucro da empresa, sem esquecer da segurança e do bem estar de quem vai executar esta operação. Sob a ótica da construção enxuta, verifica-se que suas características e seus princípios apresentam bastante coerência com as peculiaridades do setor da construção civil, visto que levam em consideração a dificuldade de implementação e a rigidez gerada por uma nova tecnologia de processamento. Tanto assim que foi possível apresentar, para cada princípio da construção enxuta, desdobramentos em melhorias, modificações e inovações tecnológicas simples. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, H. N.; MUTTI, C. N. Equipamentos e ferramentas para execução de alvenarias estruturais com blocos de concreto (apresentação e uso). Rio de Janeiro, RJ. 1995. In: Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído, VI, Rio de Janeiro, 1995. Anais. BARROS, M. M. B. Implantação de novas tecnologias em canteiros de obra: um desafio a ser vencido. São Paulo, SP. 1998. In: Congresso Latino-americano de Tecnologia e Gestão na Produção de Edifícios, I, São Paulo, 1998. Anais. BARROS, M. M. B. Metodologia para implementação de tecnologias construtivas racionalizadas na produção de edifícios. São Paulo, 1996. 422p. Tese (Doutorado) Escola Politécnica, Universidade de São Paulo. BERNARDES, M. M. S. Planejamento e controle da produção para empresas de construção civil. Rio de Janeiro: LTC Editora, 2003. 190p. CRUZ, A. L.; TUJI JR, A.; RODRIGUES, C. T. Diagnóstico de canteiros de obras na cidade de Belém-PA. Florianópolis, SC. 1998. In: Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído, VII, Florianópolis, 1998. Anais. p. 91-97. FREITAS, M. C. D.; POZZOBON, C. E.; HEINECK, L. F. M. Diagnóstico de mudanças voltadas à qualidade e produtividade dos canteiros de obra brasileiros. Recife, PE. 1999. In: Simpósio Brasileiro de Gestão da Qualidade e Organização do Trabalho, I, Recife, 1999. Anais. p. 205-212. HEINECK, L. F. M.; MACHADO, R. L. A geração de cartões de produção na programação enxuta de curto prazo em obra. Fortaleza, CE. 2001. Simpósio Brasileiro de Gestão da Qualidade e Organização do Trabalho no Ambiente Construído, II, Fortaleza, 2001. Anais. p. 770-779. HEINECK, L. F. M. Modificações nas instalações de canteiros de obras e o aumento de produtividade na indústria da construção civil. UFSC, Publicação interna, 1990. HEINECK, L. F. M.; ANDRADE, V. A. A racionalização da execução de alvenarias do tipo convencional e estrutural através de inovações tecnológicas simples. Florianópolis, SC. 1994. In: International Seminar on Structural Masonry for Developing Countries, 5 TH, Florianópolis, 1994. Proceedings. p. 584-593. HEINECK, L. F. M.; TRISTÃO, A. M. D. A racionalização na produção de argamassas através de inovações tecnológicas simples. Goiânia, GO. 1995. In: Simpósio Brasileiro de Tecnologia das Argamassas, I, Goiânia, 1995. Anais. p. 357-363. KRÜGER, J. A. Elaboração de procedimentos padronizados de execução de serviços de assentamento de azulejos e pisos cerâmicos Estudo de caso. Florianópolis, 1997. Dissertação (Pós-Graduação em Engenharia de Produção), Universidade Federal de Santa Catarina. LIBRELOTTO, L. I.; MEIRA, A. R.; HEINECK, L. F. M. et al. Inovações tecnológicas em canteiros de obras: Caso de Florianópolis. Niterói, RJ. 1998. In: Encontro Nacional de Engenharia de Produção, XVIII, Niterói, 1998. Anais. 8p. MENDES JR., R.; FREITAS, M. C. D.; VARGAS, C. L. S. et al. Melhorias voltadas à qualidade e produtividade dos canteiros de obra de Curitiba. Foz do Iguaçu, PR. 2002. In: Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído, IX, Foz do Iguaçu, 2002. Anais. p.1729-1740. MAIA, M. A. M.; SANTANA, A. M. de S. Plataforma móvel regulável para movimentação de

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