NÚCLEO DE ORIENTAÇÃO PARA A SUSTENTABILIDADE: o direito à moradia acessível Ana Cecília Estevão Felipe Sérgio Bastos Jorge Matheus Henrique Araújo Silva CEFET-MG Campus Curvelo Eixo Temático: Desenho universal e acessibilidade Palavras Chave: Acessibilidade; Desenho Universal; Educação Inclusiva, Moradia Acessível. 1. Introdução No Brasil um número significativo de moradias é construído de forma autogerida, sem o acompanhamento de um responsável técnico, seja um engenheiro ou arquiteto. Ao empreender a construção de sua própria moradia, as famílias geram edificações que, em sua maioria, apresentam condições inadequadas de habitabilidade tais como a ausência de conforto térmico, da disposição adequada dos cômodos, da segurança estrutural e da acessibilidade (GRASSIOTO, 2003 apud ESTEVÃO, 2010). Acessibilidade é a condição para utilização segura e autônoma dos espaços, mobiliários e equipamentos urbanos, por pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida. Um dos instrumentos para promoção da acessibilidade em projetos de engenharia é o Desenho Universal, que é uma ferramenta para concepção de produtos, ambientes, programas e serviços capazes de serem usados por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico, incluindo os recursos de tecnologia assistiva (BRASIL, 2016). Através do Desenho Universal, engenheiros e arquitetos planejam espaços acessíveis, sejam estes espaços de uso público ou privado. De forma a buscar cidades ambientalmente corretas e socialmente justas torna-se necessário que o conhecimento adquirido ao longo da formação destes profissionais seja amplamente utilizado na produção de edificações, destinadas à moradia, principalmente, da população de baixa renda.
Neste contexto cabe destacar que o governo promulgou, em 2008, a lei 11.888, conhecida como a Lei da Assistência Técnica, que assegura às famílias de baixa renda assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de Habitação de Interesse Social. Através da Lei, a parcela da população que empreende suas moradias de forma autogestionária, poderá ter a orientação de engenheiros e arquitetos para a produção de uma moradia digna. A lei 11.888/08 prevê que a assistência técnica pode ser realizada através do munícipio ou por extensão universitária (BRASIL, 2008). A Educação Inclusiva é o processo no qual se reestrutura a cultura, prática e política vivenciadas nos centros educacionais, de modo que estes respondam à diversidade de alunos (NORONHA & PINTO, 2011). Como parte da implantação de uma Educação Inclusiva a Lei Brasileira de Inclusão estabelece que, sejam incluídos conteúdos curriculares, em cursos de nível superior, de temas relacionados à pessoa com deficiência. Desta forma, este trabalho é o relato de uma experiência de pesquisa e extensão universitária que institui espaços de aprendizado inclusivo, promovendo o debate em torno de conteúdos relacionados à pessoa com deficiência na formação do Engenheiro civil. Como parte integrante do processo de Educação Inclusiva na formação de engenheiros no CEFET-MG, Campus Curvelo, foi criado o Núcleo de Orientação para a Sustentabilidade (NOS), um grupo de pesquisa e extensão que busca integrar a investigação sobre a engenharia sustentável no meio acadêmico e sociedade, estabelecendo um mecanismo de integralização que veicule para a comunidade tais estudos, buscando sua adaptação à realidade do município e da comunidade atendida. Através da implantação de um escritório publico de práticas de engenharia os alunos atendem a comunidade direcionando as soluções adotadas com vistas ao desenvolvimento sustentável, com especial atenção a adequação das moradias aos parâmetros de acessibilidade. 2. Metodologia A metodologia da experiência aqui relatada contempla revisão bibliográfica envolvendo temas tais como: acessibilidade e suas dimensões, desenho universal e formas de aplicação, habitações de interesse social (HIS), assistência técnica de acordo com a lei 11.888/08 e acessibilidade arquitetônica em HIS.
Buscando contextualizar e dinamizar os atendimentos é desenvolvido um diagnóstico urbano do município de atuação do projeto, a cidade de Curvelo em Minas Gerais, e um catálogo de técnicas construtivas sustentáveis. Assim, durante os atendimentos recorre-se a essas informações para definições de soluções sustentáveis a serem aplicadas e adequação das mesmas ao contexto local. Através da implantação de um escritório público, são atendidas famílias com renda entre 0 e 3 salários mínimos. O atendimento contempla a elaboração de projetos e acompanhamento da obra, com a premissa de adotar técnicas construtivas sustentáveis e os parâmetros da NBR9050/16 para garantia da moradia acessível. Há ainda parceria com equipes jurídicas em questões relacionadas à propriedade do imóvel e de assistência social para mediação do atendimento e ações de geração de trabalho e renda. Em relação ao projeto de moradia acessível, as etapas de identificação das necessidades e definição das soluções podem ser descritas através do fluxograma apresentado na FIG. 1. Figura 1 etapas projeto moradia acessível
Desta forma, as famílias atendidas participam efetivamente das escolhas, que observam as recomendações da NBR9050/16 com vistas à obtenção de um espaço de moradia que amplie as possibilidades de autonomia de seus moradores. 3. Resultados e discussões No primeiro atendimento do escritório, que se encontra em andamento no momento de elaboração deste artigo, a proposta é a construção de uma residência para uma família composta por um casal e uma filha, na qual a mãe, devido à obesidade, possui mobilidade reduzida. O terreno é acidentado e a residência será implantada em um platô há aproximadamente 2,5m acima do nível da rua. Dessa forma foi projetada uma rampa acessível, de inclinação de 8,33% conforme prevê a NBR9050/16. Em todo o trajeto da rampa serão instalados corrimãos a fim de maior estabilidade e auxílio no deslocamento. Na parte interna, serão instaladas barras fixas de apoio no quarto, na sala, no banheiro e nos corredores. Entre a sala e a cozinha foi projetada uma bancada, semelhante às cozinhas americanas, em altura máxima de 0,85m e largura do tampo de 0,90m para refeições, trabalho e estudo da família. Na parte externa foi projetado um banco próximo ao local no qual está prevista a horta, para que pessoas com mobilidade reduzida tenham maior autonomia durante as atividades de cultivo. A bancada e o banco serão executados através de tecnologia sustentável utilizando garrafas pet. O projeto prevê também a instalação de manta térmica com caixas Tetra Pak. Essas soluções estão em fase de viabilidade financeira e aprovação pela família. 4. Conclusão O Relatório Mundial sobre a Deficiência (2012) indica uma prevalência maior da deficiência em países de baixa renda do que em países de renda mais alta. De mesmo modo, pessoas do quintil mais pobre, mulheres e idosos também apresentam uma maior prevalência da deficiência. Pessoas com baixa renda, que estão desempregadas ou possuem baixa qualificação profissional, estão expostas a um risco mais alto de deficiência. Através do atendimento realizado pelo NOS famílias de baixa renda do município de Curvelo poderão ter suas casas adaptadas em relação aos seus desejos e necessidades pessoais
de utilização dos espaços possibilitando, especialmente às pessoas com deficiência, uma vida mais autônoma. Destaca-se a importância do projeto como ferramenta de educação inclusiva, ao passo que os alunos envolvidos estudam normas, leis e conceitos relacionados à pessoa com deficiência além de estabelecer contato direto com estas no exercício da futura atividade profissional, contribuindo com a formação de Engenheiros civis preocupados com as questões de inclusão social na construção de cidades sustentáveis. Referências BRASIL. Lei nº 13.146, de 06 de julho de 2015, dispõe sobre a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Disponível em: www.planalto.gov.br. Acesso em: 21 mar. 2016. BRASIL. Norma Brasileira NBR 9050, de 11 de setembro de 2016, dispõe sobre a Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Disponível em: www.pessoacomdeficiencia.gov.br. Acesso em: 21 mar. 2016. ESTEVÃO, A. C. ; CARVALHO, M. C. R.. Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social: O direito à Moradia Digna. In: 54th IFHP World Congress, 2010, Porto Alegre. Anais 54th IFHP World Congress 2010. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010. p. 28-28. NORONHA, E. G.; PINTO, C. L. Educação especial e educação inclusiva: aproximações e convergências. Semana da Pedagogia. Faculdade Católica de Uberlândia. Uberlândia, 2011. Disponível em: catolicaonline.com. br. Acesso em: 21 mar. 2016. RELATÓRIO MUNDIAL SOBRE A DEFICIÊNCIA. Secretaria do direito das pessoas com deficiência. São Paulo, 2012. Disponível em: http://www.pessoacomdeficiencia.sp.gov.br. Acesso em: 24 mar. 2016.