INFERTILIDADE MASCULINA E FIBROSE CÍSTICA



Documentos relacionados
Dra Camila D B Piragine Pneumopediatria

Fibrose Cística. Triagem Neonatal

Prova do Suor no. Fibrose Quistica

Avaliacao do Homem com Azoospermia / Oligospermia severa

FARMACÊUTICOS DE FIBRA PRÊMIO PRIMEIROS PASSOS FARMACÊUTICOS - CRF-PR 2014 TEMA: DOENÇAS CRÔNICAS

ATIVIDADE DE RECUPERAÇÃO PARALELA PREVENTIVA 3º Trimestre/2014 GABARITO

PRINCÍPIOS DE GENÉTICA MÉDICA

ABORDAGEM DO CASAL INFÉRTIL

Genética Humana. Faculdade Anísio Teixeira. Prof João Ronaldo Neto

O albinismo é uma doença metabólica hereditária, resultado de disfunção gênica na produção de melanina. Para que a doença se manifeste é necessário

Unidade 1 - REPRODUÇÃO E MANIPULAÇÃO DA FERTILIDADE

Unidade 7. Reprodução e hereditariedade

Mecanismos de Herança

O valor de testes pré-natais não invasivos (TPNI). Um suplemente ao livreto do Conselheiro Genético

Centro Educacional Juscelino Kubitschek

OUTUBRO. um mes PARA RELEMBRAR A IMPORTANCIA DA. prevencao. COMPARTILHE ESSA IDEIA.

A presentamos, a seguir, a descrição dos

As Mutações. Aumento da biodiversidade

Avaliação molecular da macho-esterilidade citoplasmática em milho

Cadernos de. Informação. Científica. Ano 8 nº Síndrome do X Frágil

Mutações. Escola Secundária Quinta do Marquês. Disciplina: Biologia e Geologia Professor: António Gonçalves Ano letivo: 2013/2014

IMPLICAÇÕESCLÍNICAS DO DIAGNÓSTICOTARDIO DA FIBROSECÍSTICA NOADULTO. Dra. Mariane Canan Centro de Fibrose Cística em Adultos Complexo HC/UFPR

ESPERMOGRAMA e BANCO DE SÊMEN BS-HIAE

Médico, este é um canal de comunicação dedicado exclusivamente a você!

CANCER DE MAMA FERNANDO CAMILO MAGIONI ENFERMEIRO DO TRABALHO

PERFIL PANCREÁTICO. Prof. Dr. Fernando Ananias. MONOSSACARÍDEOS Séries das aldoses

Unidade IV Ser Humano e Saúde. Aula 15.1 Conteúdo: Mutações gênicas e cromossômicas.

BIOLOGIA - 2 o ANO MÓDULO 55 HERANÇA LIGADA AO SEXO

Hereditariedade recessiva

O que é câncer de mama?

FERTILIDADE DE CAPRINOS MOCHOS. Prof. Adelmo Ferreira de Santana Caprinocultura e Ovinocultura


Mostra de Projetos Projeto Gestar

PLANEJANDO A GRAVIDEZ

Entendendo a herança genética (capítulo 5) Ana Paula Souto 2012

Imagem da Semana: Radiografia e Fotografia

Azul. Novembro. cosbem. Mergulhe nessa onda! A cor da coragem é azul. Mês de Conscientização, Preveção e Combate ao Câncer De Próstata.

Subfertilidade Resumo de diretriz NHG M25 (segunda revisão, abril 2010)

HERANÇA E SEXO. Professora Msc Flávia Martins Agosto 2011

Câncer de Próstata. Fernando Magioni Enfermeiro do Trabalho

MATRIZ DA PROVA DE EXAME A NÍVEL DE ESCOLA AO ABRIGO DO DECRETO-LEI Nº 357/2007 DE 29 DE OUTUBRO BIOLOGIA 12º ANO

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA

Diagnóstico da Fibrose Quística em Idade Pediátrica e no Adulto. Departamento da Qualidade na Saúde (dqs@dgs.pt)

O que é Hemofilia? O que são os fatores de coagulação? A hemofilia tem cura?

CAMPANHA PELA INCLUSÃO DA ANÁLISE MOLECULAR DO GENE RET EM PACIENTES COM CARCINOMA MEDULAR E SEUS FAMILIARES PELO SUS.

Mutações e Aberrações Cromossômicas

Hereditariedade ligado ao X

TOMOSSÍNTESE MAMÁRIA CASOS CLÍNICOS

Lista de Exercícios Herança Sexual

Diagnóstico de endometriose

O alelo para a hemoglobina S (cadeia β ) é recessivo. Os indivíduos heterozigóticos (Hb A Hb S ), portadores, são resistentes à malária.

RESOLUÇÃO SS nº 73, 29 de julho de 2015

Doença de Alzheimer: uma visão epidemiológica quanto ao processo de saúde-doença.

O SISTEMA GENÉTICO E AS LEIS DE MENDEL

O DNA é formado por pedaços capazes de serem convertidos em algumas características. Esses pedaços são

TEMA ORGANIZADOR: Saúde individual e comunitária

Pesquisador em Saúde Pública Prova Discursiva INSTRUÇÕES

2. HIPERTENSÃO ARTERIAL

Lista de Genética 2º EM Colégio São José

ANOMALIAS DO TRATO URINÁRIO UNIDADE DE NEFROLOGIA PEDIÁTRICA HC - UFMG BELO HORIZONTE - BRASIL

PROVA TEÓRICO-PRÁTICA

Novidades e Perspectivas no Tratamento da Fibrose Cística

Acta Urológica. Urologia e Medicina Familiar. Infertilidade Conjugal. Avaliação do factor masculino. Luís Ferraz. Separata Volume 23 Número

CARTILHA BEM-ESTAR PATROCÍNIO EXECUÇÃO

SALSEP cloreto de sódio Solução nasal 9 mg/ml

Genética III: Genética Humana

FIBROSE CÍSTICA: TESTE DE TRIAGEM E CARACTERÍSTICAS DIAGNÓSTICAS ATUAIS

EXERCÍCIOS - BIOLOGIA - GENÉTICA

Organização do Material Genético nos Procariontes e Eucariontes

A Função da proteína CFTR e as alterações produzidas pelas diferentes classes de mutações do gene CFTR

Entendendo a herança genética (capítulo 5) Ana Paula Souto 2012

Rede Nacional de Câncer Familial: Sub-rede de Epidemiologia

O que é O que é. colesterol?

CONSELHO REGIONAL DE ENFERMAGEM DE SÃO PAULO

CRITÉRIOS E PROPOSTA DE CORRECÇÃO DE PROVA ESCRITA DE AVALIAÇÃO SUMATIVA DE BIOLOGIA

UNILAB no Outubro Rosa Essa luta também é nossa. CUIDAR DA SAÚDE É UM GESTO DE AMOR À VIDA. cosbem COORDENAÇÃO DE SAÚDE E BEM-ESTAR

V Congresso de Iniciação Científica do IAMSPE

DIAGNÓSTICO MÉDICO DADOS EPIDEMIOLÓGICOS FATORES DE RISCO FATORES DE RISCO 01/05/2015

Radiology: Volume 274: Number 2 February Amélia Estevão

Sobre a alteração cromossômica referida no texto, afirma-se que:

Hereditariedade e cancer de mama Mutacoes e Polimorfismos

Técnicas Moleculares

CAPÍTULO 14. InFERTILIDADE MASCULInA. 1. INTRODUçãO

Como tratar o câncer de mama na paciente com mutação genética? Prof. Dr. Giuliano Duarte

Unidade IV Ser Humano e Saúde Aula 13 Conteúdo: Grupos Sanguíneos. Aplicando o sistema ABO.

Transcrição:

INFERTILIDADE MASCULINA E FIBROSE CÍSTICA A infertilidade pode ser definida como a inabilidade de um casal sexualmente ativo, sem a utilização de métodos contraceptivos, de estabelecer gravidez dentro de um ano. Este fenômeno universal atinge aproximadamente 8 a 15% doas casais. O fator masculino representa 50% dessas causas de infertilidade. São várias as causas de infertilidade masculina e atualmente houve um aumento no diagnóstico de anormalidades genéticas neste contexto. Os três fatores genéticos mais freqüentes são: aberrações cromossômicas, mutações gênicas e microdeleções do cromossomo Y. N a população de homens inférteis, a incidência de alterações cromossômicas varia de 6 a 7%. A fibrose cística (FC) é uma doença autossômica recessiva, causada por mutações do gene CFTR (Cystic Fibrosis Transmbane Condutance Regulator), localizado no braço longo do cromossomo 7 que codifica a proteína transmembrana reguladora do canal de cloro, conhecida como CFTR. A CFTR está envolvida na regulação do fluxo de íons, reduzindo a excreção de cloro, aumentando o fluxo intracelular de sódio para manter o equilíbrio eletroquímico e também de água por ação osmótica. Ocorre assim desidratação das secreções mucosas, aumento da viscosidade, obstrução dos ductos com reação inflamatória e, posteriormente, fibrose no pulmão, pâncreas, intestinos, fígado e ductos deferentes. Há uma forte associação entre agenesia bilateral congênita dos ductos deferentes (ABCDD) e as mutações do gene da CFTR, por isso todos os casos de infertilidade masculina causados por ABCDD deve ter o diagnóstico de FC investigado antes de ser realizada fertilização in vitro. Abaixo propomos um fluxograma de investigação.

HOMEM INFERTIL ESPERMOGRAMA AZOOSPERMIA SECRETORA OBSTRUTIVA SEM INVESTIGAÇÃO AGENESIA BILATERAL TRAS PARA FC DE DUCTOS DEFERENTES CAUSAS INVESTIGAR FC MULHER HOMEM TESTE DO SUOR OBS1 TESTE DO SUOR OBS1 NEGATIVO DUVIDOSO POSITIVO POSITIVO DUVIDOSO NEGATIVO SEQUENCIAMENTO 100% DE CHANCE DE SEQUENCIAMENTO GENÉTICO TER FILHO COM FC GENÉTICO ACONSELHAMENTO GENÉTICO CONTINUA CONTINUA

APÓS REALIZAÇÃO DO SEQUENCIAMENTO GENÉTICO 1) AUSÊNCIA DE MUTAÇÃO PARA FC NA MULHER: CHANCE MUITO PEQUENA DE TER FILHO COM FC APÓS FERTILIZAÇÃO IN VITRO OBS2 2) UMA MUTAÇÃO PARA FC NA MULHER (PORTADORA DO GENE, SEM FC): AVALIAR SEQUENCIAMENTO GENÉTICO DO HOMEM AUSÊNCIA DE MUTAÇÃO 01 MUTAÇÃO 02 MUTAÇÕES PARA FC PARA FC PARA FC HOMEM SEM FC HOMEM PORTADOR HOMEM COM FC DO GENE, SEM FC CHANCE MUITO 25% DE CHANCE 50% DE CHANCE PEQUENA DE TER DE TER FILHO DE TER FILHO COM FC APÓS COM FC APÓS COM FC APÓS FERTILIZAÇÃO FERTILIZAÇÃO FERTILIZAÇÃO IN VITRO OBS2 IN VITRO IN VITRO ACONSELHAMENTO GENÉTICO 3) DUAS MUTAÇÕES PARA FC NA MULHER (MULHER COM FC): AVALIAR SEQUENCIAMENTO GENÉTICO DO HOMEM AUSÊNCIA DE MUTAÇÃO 01 MUTAÇÃO 02 MUTAÇÕES PARA FC PARA FC PARA FC HOMEM SEM FC HOMEM PORTADOR HOMEM COM FC DO GENE, SEM FC CHANCE MUITO 50% DE CHANCE 100% DE CHANCE PEQUENA DE TER DE TER FILHO DE TER FILHO COM FC APÓS COM FC APÓS COM FC APÓS FERTILIZAÇÃO FERTILIZAÇÃO FERTILIZAÇÃO IN VITRO OBS2 IN VITRO IN VITRO ACONSELHAMENTO GENÉTICO

OBS1: Teste do suor e Critérios diagnósticos de Fibrose Cística Características Fenotípicas (1 ou mais) A Doença sinusal ou pulmonar crônica, polipose nasal Alterações gastrintestinais e nutricionais Síndrome de perda salina, Alterações urogenitais com azoospermia obstrutiva História de irmão com fibrose cística Teste de triagem neonatal (TIR) positiva B Evidência laboratorial de disfunção da CFTR Teste do suor Cloro no suor > 60mEq/L em 2 dosagens em 2 ou mais ocasiões Identificação de 2 mutações (DNA) para fibrose cística Alteração no exame de Diferença Potencial Nasal Biópsia retal Fonte: Modificado: Rosenstein BJ & Cutting GR, 1998 - Para o diagnóstico é necessário no mínimo um dos itens da coluna A e um da coluna B - Teste do suor ainda é o padrão ouro para a confirmação diagnóstica, apesar de existirem falso positivo e falso negativo em raras situações. É importante lembrar teste de suor normal não exclui o diagnóstico de formas atípicas de FC. Interpretação -Teste normal ( 39mEq/L); -Teste duvidoso (30 ou 40-59mEq/L); -Teste anormal ( 60mEq/L) OBS2: O sequenciamento genético pode não afastar completamente o diagnóstico de FC. Atualmente, a literatura científica nos mostra que mais de 1600 mutações são conhecidas como causadoras da FC, mas pode ser que ainda existam mutações que não foram identificadas até os dias de hoje.

REFERÊNCIAS 1) Brompton, Clinical Guidelines: Care of Children with Cystic Fibrosis, 5º edition, 2011. 2) Maria Luiza Saraiva Pereira, Mariana Fitarelli-Kiehl, Maria Teresa Vieira Sandseverino. A Genética na Fibrose Cística. Rev HCPA 2011; 31(2):160-167 3) Paschoal Ilma et al, Fibrose Cística, 1º edição, 2010. 4) Ludwig Neto et al, Fibrose Cística Enfoque Multidisciplinar, 2º edição revisada e ampliada, Santa Catarina, 2009. 5) Guimarães Elizabeth et al, Protocolo Clínico dos Centros de Referência do Estado de MG, 2008. 6) Renato Fraietta, Agnaldo P. Cedenho. Quando está indicada a avaliação genética do homem infértil?. Sinopse de Urologia, 2005, ano 9 nº3 7) Fábio Firmbach Pasqualotto. Investigação e reprodução assistida no tratamento da infertilidade masculina. Rev Bras Ginecol Obstet, 2002:103-112 8) Francisco J. C. Reis, Neiva Damaceno. Fibrose Cística. Jormal de Pediatria 1998, supl. 1/S76

AUTORES 1) Dra. Edna Cellis Vaccari Baltar Coordenadora de Saude da Criança SESA/ES Referencia Técnica em Fibrose Cística da SESA/ES 2) Dr. José Augusto Ribeiro de Almeida Urologista da Sociedade Brasileira de Urologia/ES 3) Dra. Daniele Menezes Torres Ferrão Pneumologista do Centro de Referência do Adulto portador de FC do ES 4) Dra. Roberta de Cássia Nunes Cruz Melotti Pneumopediatra do Centro de Referência Infantil do portador de FC do ES 5) Rosa Maria Natalli Montenegro Enfermeira do Programa da Saúde do Homem da SESA/ES 6) Edilene Ferreira Vargas Enfermeira do Programa da Saúde do Homem da SESA/ES Vitória, ES 18 de abril de 2013