RECURSO ESPECIAL Nº 908.764 - MG (2006/0268169-1) RELATOR : MINISTRO HUMBERTO MARTINS RECORRENTE : MUNICÍPIO DE SANTA LUZIA ADVOGADO : JOSÉ RUBENS COSTA E OUTRO(S) RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS INTERES. : JOSÉ SUDÁRIO DE CASTRO EMENTA ADMINISTRATIVO - IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA - ART. 11 DA LEI N. 8.429/92 - VIOLAÇÃO DE PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA - CONTRATO DE COMODATO AUSÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO LEGISLATIVA - DOLO OU CULPA - ANÁLISE DO ELEMENTO SUBJETIVO - ARTS 458 E 535 DO CPC - VIOLAÇÃO - ALÍNEA "C" - NÃO-CONHECIMENTO EM RAZÃO DA FALTA DO DEVIDO COTEJO ANALÍTICO. 1. O que se extrai do acórdão recorrido, ou seja, a moldura fática ali assentada, é a seguinte: (I) O Prefeito do Município de Santa Luzia celebrou com José Sudário de Castro um contrato de comodato sem expressa autorização legislativa; (II) Tal fato não ensejou, como reconhecida em ambas as instância, dano ao erário. 2. O Tribunal a quo negou vigência ao art. 458 do CPC, incisos II e III por deixar de fundamentar sua decisão no sentido de haver dolo ou culpa na conduta do agente, ou mesmo má-fé, e muito menos prejuízo ao erário. No mesmo sentido, violou o art. 535, II do CPC. 3. A controvérsia instaura-se na necessidade de se analisar dolo ou culpa do agente, para a tipificação da conduta no art. 11 (violação dos princípios da administração), razão pela qual deve o Tribunal a quo adentrar nesta questão, restando prejudicada a análise do referido artigo da Lei de Improbidade, sob pena de supressão de instância. Recurso especial parcialmente conhecido e provido, determinando-se a devolução dos autos ao Tribunal de origem para a integração do julgado. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima Documento: 754562 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 03/03/2008 Página 1 de 8
indicadas, acordam os Ministros da Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça "A Turma, por unanimidade, conheceu parcialmente do recurso e, nessa parte, deu-lhe provimento, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)." Os Srs. Ministros Herman Benjamin, Carlos Fernando Mathias (Juiz convocado do TRF 1ª Região), Eliana Calmon e Castro Meira votaram com o Sr. Ministro Relator. Brasília (DF), 21 de fevereiro de 2008 (Data do Julgamento) MINISTRO HUMBERTO MARTINS Relator Documento: 754562 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 03/03/2008 Página 2 de 8
RECURSO ESPECIAL Nº 908.764 - MG (2006/0268169-1) RELATOR : MINISTRO HUMBERTO MARTINS RECORRENTE : MUNICÍPIO DE SANTA LUZIA ADVOGADO : JOSÉ RUBENS COSTA E OUTRO(S) RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS INTERES. : JOSÉ SUDÁRIO DE CASTRO RELATÓRIO O EXMO. SR. MINISTRO HUMBERTO MARTINS (Relator): Cuida-se de recurso especial interposto, com fundamento nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, abaixo ementado: "AÇÃO CIVIL PÚBLICA CONTRATO DE COMODATO AUSÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO LEGISLATIVA ATO NULO ATO DE IMPROBIDADE OFENSA AO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. Por considerações de direito e de moral, o ato administrativo não terá que obedecer somente à lei jurídica, mas também à lei ética da própria instituição, porque nem tudo que é legal é honesto, conforme já proclamavam os romanos: "- non omne quod licet honestum est" ( HELY LOPES MEIRELLES). "O art.21, inciso, I da Lei n. 8.429/92 estatui que a aplicação das sanções previstas independe da efetiva ocorrência de dano ao patrimônio público". "Os comportamentos que atentarem contra os princípios da administração pública merecem também ser punidos". "O objetivo do legislador foi permitir a punição dos agentes públicos que embora não tenham se enriquecidos ilicitamente e sem tenham causado prejuízo ao erário infrigiram os princípios constitucionais da moralidade, legalidade e honestidade". Irresignado, o recorrente opôs embargos de declaração que restaram improvidos, conforme ementa abaixo transcrita: "AÇÃO CIVIL PÚBLICA CONTRATO DE COMODATO ATO DE IMPROBIDADE AUSÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO ADMINISTRATIVA EMBARGOS DE DECLARAÇÃO IMPROVIDOS. Defeso ao embargante rediscutir em sede de embargos declaratórios, matéria já convenientemente apreciada e julgada, máxime quando inocorre no acórdão molestado qualquer omissão, Documento: 754562 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 03/03/2008 Página 3 de 8
contradição ou obscuridade, ou mesmo, agressão aos dispositivos legais; nesta situação, não há falar em prequestionamento por ausências dos requisitos legais". Em suas razões, alega a municipalidade, violação do art. 458, II e III, e do art. 535, II do CPC; art. 11 da Lei n. 8.492/92, por não ter sido apontada, no acórdão recorrido, a existência de dolo ou má-fé na conduta do agente político, ocasionando divergência de entendimento com outros tribunais. Contra-razões às fls.343/356. O parecer do Ministério Público Federal opinou pelo não-conhecimento, ou alternativamente, pelo não-provimento do recurso especial. (fls.375/376). É, no essencial, o relatório. Documento: 754562 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 03/03/2008 Página 4 de 8
RECURSO ESPECIAL Nº 908.764 - MG (2006/0268169-1) EMENTA ADMINISTRATIVO - IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA - ART. 11 DA LEI N. 8.429/92 - VIOLAÇÃO DE PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA - CONTRATO DE COMODATO AUSÊNCIA DE AUTORIZAÇÃO LEGISLATIVA - DOLO OU CULPA - ANÁLISE DO ELEMENTO SUBJETIVO - ARTS 458 E 535 DO CPC - VIOLAÇÃO - ALÍNEA "C" - NÃO-CONHECIMENTO EM RAZÃO DA FALTA DO DEVIDO COTEJO ANALÍTICO. 1. O que se extrai do acórdão recorrido, ou seja, a moldura fática ali assentada, é a seguinte: (I) O Prefeito do Município de Santa Luzia celebrou com José Sudário de Castro um contrato de comodato sem expressa autorização legislativa; (II) Tal fato não ensejou, como reconhecida em ambas as instância, dano ao erário. 2. O Tribunal a quo negou vigência ao art. 458 do CPC, incisos II e III por deixar de fundamentar sua decisão no sentido de haver dolo ou culpa na conduta do agente, ou mesmo má-fé, e muito menos prejuízo ao erário. No mesmo sentido, violou o art. 535, II do CPC. 3. A controvérsia instaura-se na necessidade de se analisar dolo ou culpa do agente, para a tipificação da conduta no art. 11 (violação dos princípios da administração), razão pela qual deve o Tribunal a quo adentrar nesta questão, restando prejudicada a análise do referido artigo da Lei de Improbidade, sob pena de supressão de instância. Recurso especial parcialmente conhecido e provido, determinando-se a devolução dos autos ao Tribunal de origem para a integração do julgado. VOTO O EXMO. SR. MINISTRO HUMBERTO MARTINS (Relator): Conheço do recurso especial apenas pena alínea "a", porquanto o recorrente deixou de realizar a contento o cotejo analítico de modo permitir a identidade do embasamento fático dos arestos comparados. Não se podendo identificar as circunstâncias nas quais a decisão do acórdão apontado como paradigma foi proferido, deixa-se de conhecer do dissídio jurisprudencial pelo não-preenchimento dos requisitos dispostos nos arts. 541 do CPC e 255 do RISTJ. Documento: 754562 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 03/03/2008 Página 5 de 8
Já no que diz respeito à matéria atinente aos arts. 535, II e 458, II e III do CPC, o prequestionamento existe. Conheço, pois, do recurso especial apenas pela alínea "a". O Tribunal a quo, entendeu que a questão cinge-se à conceituação jurídica do contrato em tela como sendo comodato ou permissão de uso.embasou-se em precedentes jurisprudenciais e na lição de Hely Lopes Meirelles para chegar à conclusão de que o ato se amoldaria ao art. 11 da Lei de Improbidade Administrativa. Eis o trecho do acórdão recorrido que importa: "Ora, o objetivo do legislador foi permitir a punição dos agentes públicos que, embora não tenham enriquecidos ilicitamente e nem tenham causado prejuízo ao erário, infringiram os princípios constitucionais da moralidade, legalidade e honestidade. Ademais, esse tipo de comportamento administrativo, envolve direta ofensa ao princípio da legalidade, um dos pilares em que assenta a ordem administrativa vigente." (fls.270/271) O que se extrai do acórdão recorrido, ou seja, a moldura fática ali assentada, é a seguinte: 1) Carlos Alberto Parrilo Calixto, Prefeito do Município de Santa Luzia, firmou contrato de comodato com José Sudário de Castro, sem expressa autorização Legislativa pelo prazo de dez anos; ao erário; 2) Tal fato não ensejou, como reconhecida em ambas as instâncias, dano 3) Defende o recorrente que o contrato em análise não se trata de comodato, mas de permissão de uso, e que o ato teve como motivação o interesse público, eis que, visava alojar os desabrigados pelas chuvas ocorridas. No meu entender, o Tribunal local negou vigência ao art. 458 do CPC, bem como violou o art. 535 do mesmo diploma processual, pois, realmente, é essencial verificar se a simples conduta que viole algum dos princípios norteadores da Administração Pública, como no caso a moralidade, a impessoalidade e a legalidade, enseja a capitulação no art. 11 da Lei de Improbidade Administrativa, mesmo que não exista má-fé do agente. Isso porque, o fato de que a configuração do ato de improbidade do art. 11 da Lei em comento prescinde de dano ao erário. A controvérsia instaura-se, entretanto, na necessidade de se analisar dolo ou culpa do agente para a tipificação da conduta no art. 11 (violação dos princípios da Documento: 754562 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 03/03/2008 Página 6 de 8
administração). No caso dos autos, o Tribunal a quo não enfrentou esta questão; também não pode o STJ enfrentá-la, sob pena de supressão de instância. Assim, entendo que os autos devem ser devolvidos ao Tribunal de origem para a integração do julgado, ou seja, para que seja analisado à luz da constatação do dolo ou culpa, com indagação da boa ou má-fé do agente, a conduta pela qual o recorrido fora condenado. provimento. Ante o exposto, conheço em parte do recurso especial e lhe dou É como penso. É como voto. MINISTRO HUMBERTO MARTINS Relator Documento: 754562 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 03/03/2008 Página 7 de 8
ERTIDÃO DE JULGAMENTO SEGUNDA TURMA Número Registro: 2006/0268169-1 REsp 908764 / MG Números Origem: 10000003046612004 200401833250 245000034224 PAUTA: 21/02/2008 JULGADO: 21/02/2008 Relator Exmo. Sr. Ministro HUMBERTO MARTINS Presidente da Sessão Exmo. Sr. Ministro CASTRO MEIRA Subprocuradora-Geral da República Exma. Sra. Dra. DULCINÉA MOREIRA DE BARROS Secretária Bela. VALÉRIA ALVIM DUSI AUTUAÇÃO RECORRENTE : MUNICÍPIO DE SANTA LUZIA ADVOGADO : JOSÉ RUBENS COSTA E OUTRO(S) RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS INTERES. : JOSÉ SUDÁRIO DE CASTRO ASSUNTO: Administrativo - Contrato - Concessão - Uso de Bem Público CERTIDÃO Certifico que a egrégia SEGUNDA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão: "A Turma, por unanimidade, conheceu parcialmente do recurso e, nessa parte, deu-lhe provimento, nos termos do voto do(a) Sr(a). Ministro(a)-Relator(a)." Os Srs. Ministros Herman Benjamin, Carlos Fernando Mathias (Juiz convocado do TRF 1ª Região), Eliana Calmon e Castro Meira votaram com o Sr. Ministro Relator. Brasília, 21 de fevereiro de 2008 VALÉRIA ALVIM DUSI Secretária Documento: 754562 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJ: 03/03/2008 Página 8 de 8