CENTROGRÃOS: UMA ALTERNATIVA DE COMERCIALIZAÇÃO DE SOJA E FINANCIAMENTO AGRÍCOLA EM MATO GROSSO

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1 1 CENTROGRÃOS: UMA ALTERNATIVA DE COMERCIALIZAÇÃO DE SOJA E FINANCIAMENTO AGRÍCOLA EM MATO GROSSO Fabiana Batista Nídia Guerra Gomes Tatiana Eloá Pilger Adriano Marcos Rodrigues Figueiredo RESUMO O crédito agrícola no Brasil atende hoje apenas 20% da necessidade do setor produtivo nacional. Assim como no restante do País, em Mato Grosso a expansão da produção agrícola vem dependendo da busca de alternativas de financiamento. O problema, no caso da soja, é que a opção mais comum no Estado vem sendo a captação de recursos junto às tradings a juros de 18% ao ano, ou com o comprometimento de grande parte da produção. Nesse contexto, este trabalho analisou os efeitos da criação de um escritório central de comercialização de soja em Mato Grosso, visando assessorar o produtor em todas as etapas que envolvem o processo de financiamento e venda de sua produção. Analisaram-se comparativamente duas opções de obtenção de recursos, via tradings e via Adiantamento sobre Contrato de Câmbio. Essa última alternativa realizada via escritório de assessoramento apresentou custos financeiros menores do que via tradings, da ordem de 3% e, ainda, permite que o produtor tenha recursos para custear sua lavoura, de forma independente das tradings. Palavras-chave: comercialização, financiamento agrícola e rentabilidade do produtor. I. INTRODUÇÃO Os financiamentos concedidos à agricultura vêm sendo reduzidos a cada ano, o que pressionou para a busca de formas alternativas de obter recursos para o produtor. O financiamento desembolsado em 1999 representou um decréscimo de 20,18% em relação ao ano de Também, a média de aplicações nos últimos anos representa menos de 30% do que se aplicava no auge dos desembolsos do crédito rural no Brasil nos anos 70 (Gasques e Conceição, 2001). Nos últimos anos houve mudanças profundas na forma de atuação do governo no crédito rural. Isso por conta da necessidade de controle dos gastos públicos, em decorrência da política fiscal e do esforço de modernização do Estado. A principal alteração ocorreu nas fontes, antes apoiadas fortemente nos recursos do Tesouro Nacional, tendo estes sido reduzidos substancialmente nos últimos 25 anos. (Gasques e Conceição, 2001). Em 1985, essa fonte em conjunto com os Recursos Obrigatórios financiava 96% do crédito rural. Atualmente, a participação do Tesouro ficou reduzida a 0,02% do total de financiamentos concedidos. Em contrapartida, os recursos obrigatórios (Fundo de Amparo ao Trabalhador e Poupança Rural) passaram a representar em 2000, 79% dos recursos aplicados.

2 2 Em 1997, o Tesouro aplicava R$ 230,24 mil em Custeio Agropecuário, valor que caiu para R$ 158,48 mil em Um dos resultados mais visíveis da mudança no padrão de atuação do governo foi o aumento da importância relativa de fontes alternativas de financiamento. Em 1995, aproximadamente 50% dos recursos do Tesouro para custeio eram liberados na forma de concessão de empréstimos. Em 1999, esse percentual passou a ser nulo e, o restante passou a ser aplicado sob a forma de equalização de taxas. Percebe-se, portanto, uma dupla alteração na forma de conduzir a política de financiamento: diminuição deliberada dos recursos alocados em custeio agropecuário e alteração na forma de alocação, que se dá principalmente por meio das equalizações (...). As estimativas feitas pela Secretaria do Tesouro Nacional são de que, para cada real aplicado pelo governo em 1996, foram mobilizados cerca de nove reais de recursos privados aplicados no crédito rural (Gasques e Conceição, 2002 p.102). Nesse contexto, apareceram alternativas de financiamento como os Fundos Constitucionais e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), este último com atuação expressiva no crédito de investimento. Outro redirecionamento da ação do governo foi a redução também do financiamento da comercialização para estimular a participação da iniciativa privada na comercialização, principalmente, nas operações de carregamento de estoques. Apesar da redução da disponibilidade de recursos do crédito rural dos últimos anos, ainda existe tendência de redução ainda maior (Gasques e Conceição, 2001), por conta do esgotamento do Sistema Nacional de Crédito Rural que estaria apoiado em fontes que não têm conseguido suprir a necessidade de recursos como, por exemplo, compulsórios sobre os depósitos à vista. Assim, esse processo de retração da participação de recursos formais para financiamento rural, sobretudo da agricultura, vem fazendo com que os produtores busquem fontes alternativas de crédito. Certamente, a redução do crédito governamental em diversos países, incluindo o Brasil, tem impulsionado a expansão dos mercados informais de crédito, mas pouco se sabe ainda sobre as suas reais dimensões. Assim, o crédito informal é oriundo de diversos tipos de agentes privados, tais como traders, emprestadores não-tradicionais, familiares e conhecidos, dentre outros. Ele traz,

3 3 normalmente, uma série de imperfeições relacionadas principalmente a assimetria de informação entre o tomador e o emprestador. Desta forma, os mercados informais têm como características gerais taxas de juros (em alguns casos) mais altas, custos de transação pré-contratuais menores e custos de transação pós-contratuais maiores, devido à possibilidade de elevada má adaptação contratual (Lazzarini e Chaddad, 2000: 187). Estudos mostram, também, que na atualidade, o valor liberado para crédito agrícola na formação das principais culturas tem se situado abaixo de 20% do total de crédito necessário para custeio e comercialização da safra (Araújo, 1997). Diante das circunstâncias as quais o setor agrícola foi submetido, sem subsídios e com recursos formais insuficientes para financiamento de suas atividades, esse artigo parte do pressuposto de que é mais vantajoso ao produtor de soja em Mato Grosso comercializar sua produção de forma associativa, do que de maneira individual. A questão que se apresenta é: a Centrogrãos realmente se apresenta como alternativa vantajosa? A Centrogrãos é uma central de comercialização criada em meados de 2003 em Mato Grosso pela Federação da Agricultura de Mato Grosso (Famato) e uma empresa privada de consultoria. O objetivo geral deste trabalho é mostrar ao produtor as vantagens da comercialização em grupo, ao invés de fazê-lo de forma isolada, como vem sendo praticada pela maior parte dos produtores de Mato Grosso. Especificamente, pretende-se mostrar ao produtor as imperfeições de mercado geradas quando comercializa sua produção isoladamente e, assim, despertar a necessidade de alternativas mais rentáveis de comercialização, contribuindo para que ele se desvincule da prática de custeio via tradings, uma vez que o crédito formal não atende sua demanda. Pretende-se comparar o custo de transação dos sistemas tradicionais de custeio, via crédito informal e, ainda, avaliar o custo de obtenção de crédito via Adiantamento de Contrato de Câmbio, sugerido pela Centrogrãos, para soja de Mato Grosso na safra 2003/2004. II. EMBASAMENTO TEÓRICO II.I. CUSTOS DE TRANSAÇÃO A teoria de Custo de Transação (CT), está inclusa na relação entre o empregador e o tomador de crédito (Williamson, 1996, citado por Zylbersztajn, 2000) e, define os custos de

4 4 transação como os custos pré-contratuais de se elaborar, negociar, salvaguardar, chegar ao acordo, e os custos pós-contratuais de controle, monitoramento e má adaptação, como no caso de inadimplência. Tais custos podem ser entendidos como o custo contratual na sua totalidade. Os custos de transação são geralmente custos fixos - independem do volume de crédito de uma determinada transação. Com isso, penalizam-se as transações de menor volume e a formação de cooperativas ou associações de crédito surge como solução para o problema. Dessa maneira, as associações voluntárias emergem quando são capazes de prover incentivos para a contribuição espontânea de seus membros. A relação entre uma associação e seus membros é coordenada pelo equilíbrio entre incentivos e controles. Esses, por sua vez, são necessários para manter alinhados os interesses dos membros com os interesses privados dos gerentes. Nos grupos pequenos e homogêneos, em geral formados por grandes empresas, o alinhamento de interesses é grande. Isso faz com que a associação seja provedora de bens coletivos, apropriados por todos os associados. Nesses grupos, os bens coletivos são produzidos ou comercializados - porque há custos de transação altos para as empresas produzirem ou comercializarem - por conta própria. Nessa função, as associações demonstram eficiência no cumprimento de seus objetivos. No aspecto teórico, a Teoria da Ação Coletiva explica, para os grupos pequenos e homogêneos, que os custos de transação ganham poder explicativo na ação dessas associações. Pode-se considerar que, tanto os custos de informação, quanto os de transação, são levados em conta como fricções no fluxo de capitais, dadas a condição de simetria de informações entre as partes envolvidas na operação de crédito, somadas as dificuldades e imperfeição de se incorporarem mecanismos de incentivos, punição e controle. Para efeito de melhor visualização desse conceito, mostra-se a equação abaixo sobre a taxa de juros nominal para o tomador do crédito: Rt = Re + I + Ta + Tp em que: Rt = taxa de juros nominal cobrada ao tomador; Re = taxa de juros nominal recebida pelo emprestador; I = custo de aquisição de informações (screening); Ta = custos de transações pré-contratuais (ex ante); Tp = custo de transações pós contratuais (ex pont).

5 5 Conclui-se que, em um mundo sem fricções, a taxa de juros ofertada ao tomador (Rt) converge com a taxa de juros recebida pelo emprestador (Re). Em resumo, a redução das fricções ao fluxo de capitais tem um efeito de redução das taxas de juros do mercado. Outros conceitos ainda sobre CT estão em Coase (1937), no clássico artigo The Nature of the Firm, onde o autor argumenta que os custos das transações, da coordenação e da contratação deveriam ser considerados explicitamente para se entender a extensão da integração vertical. Desse ponto de vista, as firmas, na busca da maximização de lucros, passariam a realizar as atividades que envolvessem custos inferiores em relação à contratação no mercado. O que incluiria, então, a busca de outras alternativas. Os custos de transação foram definidos por Williamson (1996) citado por Zylbersztajn (2000), como os custos ex-ante de preparar, negociar e salvaguardar um acordo, bem como os custos ex-post dos ajustamentos e adaptações quando a execução de um contrato é afetada por falhas, erros, omissões e alterações inesperadas. Em suma, são os custos de conduzir o sistema econômico. Ainda segundo Zylbersztajn (op. cit.), o objetivo dessa teoria é estudar o custo das transações como o indutor dos modos alternativos de organização da produção dentro de um arcabouço analítico institucional. Assim a unidade de análise fundamental passa a ser a transação, onde são negociados direitos de propriedade. Esse autor relaciona os pressupostos da CT: Custos de Transação: aparecem tanto na utilização do sistema de preços como em transações regidas por contratos internos à firma, o que significa que todos os tipos de contratos (externos ou internos à firma) são importantes para o funcionamento da economia; Ambiente institucional: as transações ocorrem em ambientes institucionais estruturados (regulamentos formais ou informais nos diversos agrupamentos sociais) e as instituições interferem nos custos de transação, por afetarem o processo de transferência dos direitos de propriedade (uso, controle e apropriação de resultados dos ativos); Racionalidade limitada: considera-se que o agente econômico busca um comportamento otimizador e racional, mas que não conseque satisfazer esse desejo, dada sua limitação na capacidade cognitiva de receber, armazenar, recuperar e processar informações, o que faz com que não seja totalmente racional em suas decisões; e Oportunismo: conceito que resulta da ação dos indivíduos na busca de seu auto interesse, mas com uma conotação não cooperativa. Ele pode ocorrer, por exemplo, quando um agente tem

6 6 uma informação sobre a realidade não disponível a outro agente, e ela é utilizada de modo a permitir que o primeiro desfrute de algum benefício do tipo monopolístico. II.II. INEFICIÊNCIA DO MERCADO COMPETITIVO As imperfeições ou ineficiências de mercado não ocorrem apenas em mercados de oligopólios ou monopólios, mas também em mercados competitivos. Existem duas condições exigidas para que o mercado seja considerado eficiente. A primeira nos diz que deveríamos nos assegurar de que os requisitos de competição estejam vigorando de tal forma que os recursos possam ser eficientemente alocados em um dado mercado. A segunda atribui importância à afirmação de que os requisitos da competição provavelmente não conseguirão vigorar e que deveremos nos concentrar no tratamento dos desvios da eficiência, ou seja, nos fatores que causam a ineficiência do mercado (Pindyck e Rubinfeld, 1994). Dessa forma, mercados competitivos apresentam quatro desvios de eficiência tidos como básicos: 1 Poder de Mercado: neste caso a ineficiência surge quando um fabricante ou um fornecedor de algum fator de produção possui poder de mercado, com isso ele determinará a quantidade produzida para qual receita marginal seja igual ao custo marginal e venderá uma quantidade menor por um preço mais elevado do que em um mercado competitivo; 2 Informação incompleta: ocorre quando os consumidores não possuem informações exatas a respeito dos preços de mercado ou da qualidade do produto. A falta de informação estimulará os produtores a ofertarem quantidades excessivas de determinados produtos e quantidades ineficientes de outros, ou seja, determinados consumidores poderão não estar adquirindo um determinado produto que lhe cause benefícios, enquanto outros poderiam estar adquirindo produtos que lhe causem prejuízos causando com isso uma ineficiência do mercado; 3 Externalidades: acontece quando os preços de mercado não refletem as atividades dos produtores ou de consumidores, ou seja, uma externalidade ocorre quando alguma atividade da produção ou consumo possui um efeito indireto sobre outras atividades de consumo ou produção que não estejam diretamente refletidas nos preços de mercado. O termo externalidade é usado quando os efeitos sobre outros itens são externos ao mercado. Ex. poluição ambiental causada pela utilização de determinado tipo de insumo e a empresa não está pagando o verdadeiro custo causado por esta poluição, gerando uma ineficiência de insumo; e

7 7 4 Bens públicos: esta imperfeição surge quando o produtor não consegue ofertar mercadorias que sejam valorizadas por muitos consumidores. Um bem público é uma mercadoria que pode estar disponível a baixo custo para muitos consumidores, contudo, logo depois de ser ofertada a alguns consumidores, torna-se muito difícil evitar que outros também consumam. Conclui-se que os mercados ofertam quantidades insuficientes de bens públicos seja por meio do fornecimento de tal mercadoria seja por meio de estímulos para que as empresas privadas se disponham a produzí-la e, com isso, atender à demanda existente no mercado. III. Fontes dos dados e Método de Análise Os dados utilizados neste trabalho são secundários obtidos por meio de consulta a instituições de pesquisa e bibliografia existente. A abrangência deste trabalho limita-se ao estudo comparativo entre as vantagens obtidas pelos produtores que comercializam sua commodity (soja) individualmente e, os que atuam de forma conjunta por meio de uma associação, sendo estes, auxiliados e representados por uma central de comercialização de grãos que passou a atuar, desde meados de 2003, em forma de parceria entre a FAMATO e uma empresa privada de assessoria e consultoria. As variáveis utilizadas para que se possa avaliar em qual das duas situações o produtor obterá maiores vantagens serão: custos de transação e respectivos componentes de custo, os quais serão analisados nas duas situações - o produtor individual e os produtores associados na central de comercialização. IV. ANÁLISE DOS RESULTADOS IV. I Centrogrãos A escassez de crédito agrícola, principalmente para custeio, fez com que o produtor buscasse fontes alternativas de financiamento da lavoura. A mais comum em Mato Grosso é a troca de produção por insumos com as tradings o que resulta em grande comprometimento da safra 1. Outra alternativa ainda via tradings é o empréstimo de recursos para compra dos insumos, contudo, a taxas de juros de cerca de 18% ao ano, com perda de rentabilidade do produtor. 1 Informações do Imea mostram que, em dezembro de 2003, portanto, antes de ser colhida, a safra de Mato Grosso estava 50% comprometida com as tradings por toca de insumos ou empréstimos para custear a lavoura.

8 8 Observa-se, ainda, que existem outras alternativas de comercialização ao produtor. Entre elas, a Cédula de Produtor Rural, contudo, que somente pode ser utilizada individualmente, sem as vantagens da associação de produtores e com custo elevado face ao deságio entre os valores de face e o concedido aos produtores. Outra forma é a associação por meio de Condomínios. Por meio dela o produtor poderia se reunir sem precisar seguir as regras de uma cooperativa, por exemplo, e comercializar sua produção em bloco. Entretanto essa alternativa ainda não está bem difundida dentro de Mato Grosso. Atualmente, mais de 70% da soja colhida em Mato Grosso é exportada, segundo dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea) da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato). Desse total, apenas 1% é realizado diretamente pelos produtores e, o restante, por tradings. Ainda, segundo estudo realizado pelo Imea, a venda de soja no mercado interno em Mato Grosso gera perda ao produtor de R$ 1,28 por saca (60 kg) se comparada à exportação feita diretamente. Os dados são mostrados na Tabela 1. Tabela 1. Comparativo dos preços de soja no mercado interno e para exportação (Cotações do dia 10/12/2003). DESCRIÇÃO UNIDADE VALOR Cotação na CBOT (Fechamento em 05/02/04) (A) US$ / bushel 8,3100 Prêmio para exportação em Maio/2004 (B) US$ / bushel -0,6500 Cotação menos prêmio (C=A-B) US$ / bushel 7,6600 Conversão de unidades = 7,66 / 27,215 * 1000 (D) US$ / tonelada 281,45 Frete de Sorriso a Paranaguá (E) US$ / tonelada 70,00 Fobing em Paranaguá (F) US$ / tonelada 4,80 SUB-TOTAL (G=D-E-F) US$ / tonelada 206,65 Conversão de unidades = 206,65 / 1000x60 US$ / saca 12,40 VLR Final da Exportação: 12,40 * 2,93 (H) R$ / saca 36,45 Valor bruto no mercado interno (I) R$ / saca 36,00 Desconto do Funrural (J) R$ / saca 0,83 Valor líquido no Mercado Interno (K=I-J) R$ / saca 35,17 Diferença em Favor da Exportação (L=H-K) R$ / saca 1,28 Fonte: Imea/Famato, 2003 Comparando-se a comercialização da soja no mercado interno com o externo, constata-se que o valor líquido ao produtor quando vende no mercado interno é de R$ 35,17 por saca, considerando a cotação do dia 10 de dezembro de Já quando essa venda é feita ao exterior diretamente pelo produtor, com assessoramento da Centrogrãos, esse valor líquido é de R$ 36,45 por saca, sendo que, desconta-se mais R$ 0,18 por saca para o pagamento uso

9 9 dos serviços da central de comercialização. Ou seja, um valor líquido de R$36,27 por saca e uma diferença de R$1,10 por saca em prol da exportação. Além de alcançar preços com base na bolsa de Chicago (e não preços de balcão como ocorre na venda a tradings 2 ), vendendo diretamente ao exterior o produtor fica isento do pagamento de Funrural que incide em R$ 0,83 por saca, ou 2,3%. Assim, para a Centrogrãos a alternativa para o produtor se capitalizar e reduzir a dependência do crédito agrícola escasso do governo e dos altos custos do crédito informal das tradings estaria na exportação direta, com o financiamento pelo Adiantamento sobre Contratos de Câmbio (ACC). Esse instrumento formal é utilizado hoje por cerca de 95% dos produtos exportados pelo Brasil, segundo dados do Imea. Com juros de 8% ao ano, esse tipo de financiamento é colocado pela rede bancária à disposição das empresas exportadoras e permite ao exportador obter recursos financeiros antes do embarque da mercadoria. A taxa reduzida do ACC proporciona às empresas menores custos de produção e, conseqüentemente, maior competitividade. A Centrogrãos parte da premissa de que, para conseguir esse financiamento nos bancos a condições favoráveis, a negociação em escala e de forma organizada é fundamental para mostrar redução de risco e ganhar poder de barganha. Dessa forma, esse é um dos papéis a ser assumido pela Centrogrãos. Ao possibilitar o financiamento da lavoura a custos menores ao produtor, já que defende o uso do ACC, essa central tem a intenção de minimizar o impacto negativo da necessidade de comercialização de grande parte da produção de forma desvantajosa com tradings, já que os recursos do governo para custeio são insuficientes para atender a demanda. Assim, partindo do pressuposto de que a comercialização é um elo frágil da cadeia produtiva, na medida em que, como produtor de commodities, o produtor rural torna-se um tomador de preços no mercado. A Centrogrãos possibilitará, por meio da formação de um pool de produtores, a exportação direta da produção de soja pelo produtor 3, a redução do preço dos fretes, assim como dos insumos com a negociação em escala, e possibilidade de fixação de preços e do dólar no melhor momento. Com a proposta de assessorar o produtor, a Centrogrãos visa negociar com bancos acesso a linhas de crédito diferenciadas, a exemplo do ACC. 2 - De acordo com dados do Imea, na safra passada (2003/2004) 50% da produção de Mato Grosso foi vendida a tradings por US$ 8,5 a US$ 9/saca, sendo que a cotação hoje está em US$ Toda a documentação e procedimentos para exportar serão executados pela equipe do Centrogrãos, em nome dos próprios produtores rurais, mediante procuração repassada por estes.

10 10 Em 2002, dos US$ 1,7 bilhão exportados de soja e seus derivados de Mato Grosso, cerca de 83% foram efetuados por tradings. Essa relação assume duas formas principais. A primeira ocorreu quando o produtor trocou sua produção por insumos das tradings para financiar sua lavoura, resultando assim o comprometimento médio de 50% de sua produção. A segunda forma aconteceu quando o produtor captou recursos na trading a juros altos, de 18% ao ano, para ele mesmo comprar seus insumos. Essa relação gerou, portanto, imperfeições de mercado. A primeira delas surgiu do poder de mercado das tradings, que resultou em vantagem na negociação com o produtor. Elas detinham o insumo e, ao mesmo tempo, o papel de comprador da mercadoria. Assim se facilitou o custeio da lavoura, contudo, gerando redução de rentabilidade ao produtor, pois ao negociar o comprometimento de sua produção, o sojicultor, na maior parte das vezes, se submeteu ao preço de balcão, já que é desprovido de informações sobre preços reais de sua commodity. Assim, se comprova a teoria de Pindyck de que a falta de informações gera deficiência de mercado. Deve-se considerar também, que o produtor, ao se submeter a esse tipo de escambo com as tradings, o faz por falta de alternativas e/ou comodismo em buscar outras opções de custeio. Operando de forma conjunta, ou seja, se associando, o produtor reduz custos fixos de transação se comparado com a operação feita individualmente. Assim, ele consegue melhores preços de frete, de insumos e de taxas de juros quando o volume comercializado/financiado é maior. As vantagens de financiar a lavoura com o ACC, conforme proposta da Centrogrãos, também são maiores do que utilizar os recursos das tradings. Enquanto a taxa de juros do ACC fica em torno de 8% ao ano, o adiantamento junto às tradings é de 18%. Além disso, pelo ACC o produtor compromete 1 saca para financiar a mesma quantia que pela trading exige o comprometimento de 2,34 sacas (Tabela 2). Tabela. 2 Comparação entre adiantamento sobre contratos de câmbio (ACC) x adiantamento via tradings. ACC Tradings Valor por saca US$ 11,70 US$ 5,00 Valor por tonelada *US$ 195,00 US$ 83,33 Taxa de juros 8% a.a. s/r$ 18% a.a. s/us$ Fixação Base Chicago Base Balcão Comprometimento 1 saca 2,34 sacas

11 11 Fonte: Imea/Famato. Observações Importantes: A diferença do custo financeiro significa, em 5 meses, R$ 1,10 por saca. Pelo ACC, o preço é fixado pela cotação da Bolsa de Chicago e não do chamado preço de balcão, ou seja, do valor determinado pela trading. Segundo levantamento do Imea, em 2003 a diferença de fixação entre os preços da Bolsa de Chicago e de Balcão foi de R$ 3,00 por saca. V. CONCLUSÕES A análise de cenários comparativos para o financiamento do plantio e colheita de soja em Mato Grosso revelou vantagens para a comercialização conjunta da produção com o uso da central de comercialização (Centrogrãos) apoiada pela Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso. A central oferece assessoramento na exportação direta da produção, o que viabiliza a contratação de Adiantamento de Câmbio (ACC), retirando parte da dependência do produtor junto às tradings do setor, uma vez que os juros do financiamento informal via tradings ficam entre 18% e 30% ao ano, contra a taxa média de 8% ao ano do ACC. Enquanto o ACC exige o comprometimento de uma saca por cada unidade monetária utilizada para custear o plantio de uma determinada área, para o mesmo valor, o financiamento via tradings demandaria 2,3 sacas. A operação atrelada à exportação permite que o produtor fixe o preço com base na cotação da Bolsa de Chicago (CBOT), ao invés de se limitar ao valor imposto pela trading. Por outro lado, o uso da Centrogrãos também resulta em encargos e desvantagens, a saber: 1) Não haverá pagamento de taxa para cadastramento do produtor no Centrogrãos, contudo, depois de realizada a comercialização, o produtor pagará à central uma taxa fixa de 0,5% do valor da operação e mais de 0,3% das concessões de ACC; e 2) As operações de comercialização e também de aquisição de insumos serão intermediadas pela central de comercialização. Entretanto, essa dependência será vinculada ao acompanhamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola, cuja administração envolve diferentes segmentos do agrronegócio regional (universidades, representantes patronais, agências de financiamento entre outras).

12 12 Assim, constata-se que, mesmo com o custo de utilização da Centrogrãos (0,5% sobre o valor da operação), é mais rentável ao produtor realizar a comercialização e, outras operações como financiamento da lavoura, transporte e compra de insumos pela central. Dessa forma, o resultado é de que ao produtor, a utilização da Centrogrãos resulta na sua capitalização, já que, comercializando em conjunto é possível reduzir o custo de produção e obter médias de preços superiores aos praticados hoje no mercado. BIBLIOGRAFIA: ARAÚJO, C. Estrutura Agrária e Eficiência Econômica: Latifúndio x Minifúndio. In. Congresso Brasileiro de Economia e Sociologia Rural, 35, 1997, Natal. Natal: Sober, p COASE, R.H. The Nature of the Firm. Econômica, v.4, p , Reimpresso em WILLIAMSON, O.E.; WINTER, S.G. (Eds.) The nature of the firm: origins, evolution and development, Oxford: Oxford University Press, GASQUES, J.G.; CONCEIÇÃO, J.C. (organizadores). Transformação da agricultura e políticas públicas. Brasília: IPEA, LAZZARINI, S.G.; CHADDAD, F.B. Finanças no agribusiness. In: ZYLBERSZTAJN, D.; NEVES, M.F. (organizadores). Economia e Gestão dos Negócios Agroalimentares: indústria de alimentos, indústria de insumos, produção agropecuária. São Paulo: Pioneira, p PINDYCK, R.S.; RUBINFELD, D.L. Microeconomia. São Paulo: Makron Books, TALAMINI, E.; MONTOYA, M.A. O Crédito Agrícola na Região da Produção: Informalidade versus Formalidade. Universidade de Passo Fundo RS. Mimeo. ZYLBERSZTAJN, D.; NEVES, M.F. (organizadores). Economia e Gestão dos Negócios Agroalimentares: indústria de alimentos, indústria de insumos, produção agropecuária. São Paulo: Pioneira, 2000.

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