A DROGA ILÍCITA COMO OBJETO DOS CRIMES DE FURTO E DE ROUBO

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1 1 A DROGA ILÍCITA COMO OBJETO DOS CRIMES DE FURTO E DE ROUBO SANTOS, T. M. Resumo: No decorrer deste trabalho, buscou-se trazer ao leitor a problemática envolvendo os crimes praticados tendo como objeto droga ilícita, mais especificamente no que se refere aos crimes de furto e de roubo. Através dos princípios reguladores do direito, existentes na legislação, além de doutrinas e jurisprudência, tentou-se esclarecer e definir qual a punição a ser aplicada ao agente que pratica as condutas descritas no Código Penal como crimes de furto e roubo quando o objeto destes é a droga. Palavras-chave: droga ilícita, furto, roubo. Abstract: In this work we sought to bring to the reader the problematic involving crimes having the illicit drugs as an object, specifically regarding crimes of theft and robbery. Through principles of regulatory law, in legislation, as well as doctrines and jurisprudence, was attempted to clarify, define, which punishment should be applied to the agent who practices the conduct described in the Criminal Code as crimes of theft and robbery when the object of this are the drug. Keywords: illicit drug, theft, robbery. INTRODUÇÃO O presente resumo expandido abordará um tema de suma importância no que diz respeito a aplicação de penas ao indivíduo que pratica as condutas descritas como furto e roubo no Código Penal quando estes tem por objeto a subtração de droga ilícita. O objetivo principal é determinar qual seria a correta aplicação da legislação nacional frente a crimes desta natureza, levando em consideração, principalmente, os princípios basilares do Direito.

2 2 O trabalho será desenvolvido utilizando os métodos de procedimento casuístico, aplicando-se teorias gerais, ao caso específico. A investigação se dará pelo método bibliográfico, utilizando-se de doutrina e jurisprudência, além de revistas conceituadas. O método de abordagem será dedutivo, aplicando os princípios de Direito ao tema em tela. Por fim, tem-se como desafio ao operador do Direito aplicar corretamente as sanções aos indivíduos que venham a praticar as condutas tipificadas como furto e roubo, quando tem por objeto droga ilícita, tendo em vista os princípios basilares do Direito. REFERENCIAIS TEÓRICO-METODOLÓGICOS O Direito deve oferecer respostas a todos os casos postos a ele, e não poderia ser diferente quanto aos casos em que haja a prática das condutas descritas no Código Penal como crimes de furto e de roubo, tendo por objeto a subtração de droga ilícita. Porém, o que se vê é a existência de uma série de conflitos, haja vista não haver uma legislação mais específica para tais casos. Imagine-se a seguinte situação: A, com o intuito de subtrair droga ilícita, vai até a casa de B e, arrombando a porta da frente da casa deste, a invade e, vasculhando totalmente os cômodos, encontra e leva consigo o entorpecente de propriedade de B. Imagine-se, ainda, o caso em que B encontrava-se em sua casa quando A, munido de arma de fogo, adentra a residência e subtrai, mediante grave ameaça por emprego de arma de fogo, droga ilícita da residência de B. Veja-se que o objeto de ambos os crimes é a coisa alheia móvel que, nas palavras de Capez, coisa alheia é toda substância material, corpórea, passível de subtração e que tenha valor econômico 1 e móvel é tudo aquilo que pode ser transportado de um local para outro, sem separação destrutiva do solo 2 1 CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal, volume 2, parte especial : dos crimes contra a pessoa, a dos crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos mortos (arts. 121 a 212) 10. ed. São Paulo : Saraiva, 2010; p Ibid. p. 425

3 3 Em primeira análise, a droga poderia facilmente se encaixar nesta descrição, pois sem dúvida há, para os usuários e traficantes, valor econômico agregado a tal substância. Assim sendo, o agente que praticasse esses delitos com o fim de obter substância entorpecente estaria sujeito as penas de tais artigos. Porém, ao estabelecer tais penas, estaria o Estado protegendo a propriedade da droga ilícita, tornando um bem jurídico esse patrimônio, o que está em desacordo com o princípio da exclusiva proteção a bens jurídicos, segundo o qual, o Estado somente poderá aplicar sanções para proteger bens jurídicos de elevada relevância individual ou social 3, o que não é o caso da droga, tendo em vista que ela faz apenas causar danos individuais e sociais, sendo que o próprio Estado busca expurgá-la da sociedade. Tem-se, também, o Princípio da Especialidade, que dita que, no caso concreto, será sempre aplicada, caso haja conflito na legislação, a lei especial, ou seja, aquela que trate especificamente daquela determinada conduta. 4 Não há dúvidas que o texto legal da Lei de Drogas, ou seja, a lei especial trata mais especificamente as condutas envolvendo substâncias entorpecentes do que o Código Penal, que é a lei geral. Porém, no que se refere ao furto e roubo, não há na legislação especial qualquer tipificação a estas condutas, caso em que não se caracteriza o conflito de normas. Quanto ao Princípio da Legalidade, que preceitua que não haverá crime sem que aquela conduta esteja descrita no texto legal 5, deve-se atentar ao texto dos artigos aqui tratados, ou seja, os arts. 155 e 157 do Código Penal. Como já dito, em primeira análise, a droga poderia facilmente se encaixar nestes artigos, pois sem dúvidas há, para os usuários e traficantes, valor econômico agregado a tal substância. Porém, o direito deve sempre proteger, em caso de conflito de direitos, os coletivos em detrimento dos direitos individuais. Ao atribuir valor econômico a substância entorpecente, protegendo o direito individual de propriedade, estaria o Estado ferindo um direto fundamental, a saber, a saúde. 3 DOTTI, René Ariel; Curso de direito penal : parte geral Rio de Janeiro : Forense, 2004; 4 CAPEZ, Fernando; Curso de direito penal, volume 1, parte geral : (arts. 1º a 120) 14. ed. São Paulo : Saraiva, 2010; 5 BITENCOURT, Cézar Roberto; Tratado de Direito Penal : parte geral, ed. São Paulo : Saraiva, 2011;

4 4 Estaria, então, protegendo um direito individual em detrimento ao direito difuso a saúde, inerente a toda a sociedade. Assim sendo, por não poder o Estado atribuir valor econômico a tal substância, pois agindo assim estaria ferindo o direito fundamental à saúde, devese afastar a aplicação de sanções as condutas descritas nos crimes de furto e de roubo, por não haver coisa alheia móvel a ser subtraída, sendo caracterizada tal conduta como atípica, ou seja, não prevista no texto legal. Por último, tem-se o Princípio da Consunção, segundo o qual a conduta mais grave absorve as condutas mais brandas. Seria, nos delitos tratados neste trabalho, a absorção dos crimes de violação de domicílio e dano, no caso do furto, e, além das anteriores, o de grave ameaça, pelo crime de roubo. No que se refere aos crimes de furto e roubo envolvendo droga ilícita, conforme apresentado nos Princípios da Legalidade, exclusiva proteção de bens jurídicos e da especialidade, não há como se falar na aplicação do Princípio da Consunção no que se refere aos crimes de furto e de roubo, tendo em vista não haver a possibilidade de aplicar as sanções previstas nestes tipos penais aos casos envolvendo a substância entorpecente. Assim sendo, deve-se aplicar a Lei de Drogas, e aí surge a discussão. Ao aplicar as sanções previstas nos arts. 28 e 33 da Lei de Drogas, deveria haver a aplicação do princípio em discussão para que não fossem também aplicadas as sanções previstas nos delitos tipificados no Código Penal, pois estes seriam meros meios, meros elementos do delito previsto na Lei de Drogas? Veja-se que, para que haja possiblidade de aplicação do Princípio da Consunção deve haver relação entre as condutas praticadas e o fim alcançado, devendo constituir elementos indispensáveis à consecução do fim almejado. Nos casos em tela não há esta dependência entre os delitos, pois para que se pratique os delitos da Lei de Drogas basta ter consigo, não importando a procedência, independendo, inclusive, se foi ou não obtida por consequência de outro delito. Desta forma, caso o indivíduo cometa um delito com o fim de obter droga ilícita, como é o caso da invasão de domicílio, este deverá responder, além do porte, pela invasão e demais condutas que tenha praticado para obtenção daquela droga.

5 5 CONCLUSÃO Tendo em vista os princípios apresentados, deverá o julgador, ao deparar-se com tais condutas, aplicar, no caso do furto de droga ilícita, as sanções previstas no Código Penal para todas as condutas praticadas, sendo, no caso em que o indivíduo adentra uma residência, arrombando porta ou janela, as de dano, de violação de domicílio, além da sanção prevista na Lei de Drogas, referente ao porte da substância. No caso em que haja grave ameaça, deverá receber também, além das sanções descritas anteriormente, pela grave ameaça. Quanto ao lesionado, ou seja, o indivíduo que mantinha a substância em sua residência, deverá ele responder também pelo delito descrito na Lei de Drogas, tendo em vista não ser permitido por lei o depósito de tal substância. REFERÊNCIAS BITENCOURT, Cézar Roberto; Tratado de Direito Penal : parte geral, ed. São Paulo : Saraiva, 2011; CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal, volume 2, parte especial : dos crimes contra a pessoa, a dos crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos mortos (arts. 121 a 212) 10. ed. São Paulo : Saraiva, 2010;, Curso de direito penal, volume 1, parte geral : (arts. 1º a 120) 14. ed. São Paulo : Saraiva, 2010; DOTTI, René Ariel; Curso de direito penal : parte geral Rio de Janeiro : Forense, 2004; Vade Mecum especialmente preparado para a OAB e Concursos / organização Darlan Barroso e Marco Antonio Araujo Junior. 2. ed. São Paulo : Editora Revista dos Tribunais, 2012.

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